Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ------------------------------------------------------------ ---- Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (possidonio24@hotmail.com) ------------------------------------------------------------ ---- "O Principio do Fim" - Parte 2 - CAPÍTULO 4 - COLÓNIA DE LAVOS-306, ALIANÇA TERRESTRE - Anne, ainda demoras?- berrou impacientemente Kristiane Lockhart, olhando de novo para o relógio.- A cerimónia começa daqui a dez minutos...... Suspirando de resignação, a rapariga decidiu que não podia adiar mais a situação e acabou por sair do quarto. A sua mãe nem sequer lhe lançou um olhar, limitando-se a abrir a porta da pequena casa onde viviam e dirigindo-se para o velho veículo que estava parado no passeio em frente desta. Seguindo a mãe, Anne saiu de casa, tendo o cuidado de fechar a porta atrás de si pois embora aquela colónia fosse pacífica, a verdade é que os assaltos não eram raros. - Fechaste bem a porta?- perguntou-lhe Kristiane assim que ela entrou no hovercarro. - Acho que viste que sim....- respondeu Anne, não fazendo o mínimo esforço para se fazer ouvir por cima do barulho das turbinas do veículo. - Minha menina, estás a ficar muito respondona.....- disse a mãe, ouvindo o que a filha tinha dito.- Estou a pensar em mandar-te para uma escola a sério.....acabaram-se as I.A. e as aulas em casa... - Mãe....- disse a rapariga, num tom de súplica. Aquela ameaça era feita sempre que a jovem discutia com Kristiane, e ambas sentiam que mais tarde ou mais cedo isso ia acontecer. Depois daquela troca de palavras o resto da viagem foi feito em silêncio. O hovercarro seguiu rapidamente na direcção do principal estádio da cidade de Port Arthur. A pouco mais de dois quilómetros do local, o trânsito começou a parar e as pessoas começaram a parar os seus veículos ao longo da auto-estrada. Como a cerimónia estava quase a começar, Kristiane decidiu fazer o mesmo e rapidamente estacionou o seu hovercarro. As duas juntaram-se a uma pequena multidão que se deslocava pelo meio dos carros parados, na direcção do estádio. As pessoas conversavam espontaneamente entre si. Aquele tipo de cerimónias era um marco na história de qualquer colónia e toda a gente estava contente por poder assistir a tal acto. A Administração Colonial tinha pensado nisso e no exterior do recinto estavam instalados dois enormes projectores holográficos que mostravam tudo o que se passava. É claro que essa medida era destinada a todos aqueles que não tinham conseguido arranjar lugar no estádio propriamente dito. - O melhor é ficarmos já por aqui....- acabou Kristiane por dizer, vendo que a maior parte das pessoas à sua volta se estava a sentar, pois daquela colina onde estavam tinham uma boa vista para os projectores. - Bem podíamos ter ficado em casa......- murmurou Anne, enquanto se sentava.- Ao menos não sujávamos a roupa..... A mãe preferiu ignorar o comentário da filha, preferindo fitar as enormes imagens que enchiam o ar no exterior do estádio. As câmaras no interior deste estavam a fazer uma panorâmica das bancadas, onde uma enorme multidão se apinhava. Quando elas finalmente focaram o palco montado no meio do relvado, surgiram nas imagens uma série de altos dignatários da colónia. Os espectadores no estádio lançaram uma enorme ovação que rolou até ás pessoas que estavam nas colinas e que aumentou quando estas juntaram as suas vozes a ela. O visado pela ovação surgiu nos projectores holográficos e toda a gente pode ver que ele estava embaraçado com aquilo. O Governador Colonial Alberto Gomes era conhecido pela sua modéstia e também por ser um homem trabalhador. Em pouco mais de dez anos ele tinha desenvolvido aquela colónia da Aliança Terrestre. Era exactamente por causa desse esforço que aquela cerimónia estava a decorrer. - Caros cidadãos.....- começou ele a dizer, sendo interrompido por uma nova ovação e apenas retomando o discurso quando ela morreu.- ....Caros Cidadãos, este é um grande dia para todos nós. Como devem saber, atingimos a meta dos vinte e cinco mil colonos..... Na altura em que disse isso, a câmara focou a imagem de um casal que se encontrava no palco, sentados junto de todos os outros dignatários. A mulher, de aspecto jovem, exibia um enorme sorriso e tinha nos seus braços um bebé. Essa criança, chamada Eric Smith Estrada, era exactamente o habitante número vinte e cinco mil da Colónia de Lavos-306. Os seus pais eram dois colonos que tinham vindo do Sector Euro-Asiático da Terra e que iriam ficar para sempre nas páginas da história da colónia, recebendo um subsídio do Governo Colonial, que pagaria ainda a educação de Eric. - ....Este momento é muito marcante pois, a partir de agora, deixamos de ser uma colónia.......- continuou a dizer Alberto Gomes, preparando-se para receber a ovação que sabia que iria surgir com as suas próximas palavras.-..... a partir de hoje, passamos a ser o planeta New Hope!!! Anne, apesar de achar que toda aquela cerimónia era chata e desnecessária, não pôde deixar de gritar assim que ouviu as palavras do Governador. Ela tinha vindo para o planeta com dois anos de idade, estando a sua mãe na primeira leva de colonos que tinha sido enviada pela Aliança. As suas recordações da Terra eram vagas e por isso Anne sempre encarara Lavos-306 como a sua casa. Sendo assim, não era estranho que também ela estivesse orgulhosa por ver a colónia tornar-se num planeta, com direito a um assento no Parlamento da Aliança Terrestre. O Governador estava exactamente a dizer isso, o que provocou ainda mais aplausos por parte da multidão. A Aliança Terrestre, não querendo repetir os erros que tinham levado às Guerras Coloniais, tinha começado a escolher as pessoas que mandava para as suas colónias, tendo em conta o sentido de patriotismo de cada um dos candidatos e chegando ao ponto de investigar os antecedentes familiares de cada um. É claro que mesmo assim havia contestatários que conseguiam tornar-se colonos, mas a grande maioria das pessoas acreditava na Aliança e em tudo aquilo que ela representava. O Governador acabou o discurso, com os olhos marejados de lágrimas e acenando para a multidão. Assim que saiu do pódio um homem, com o uniforme de General da Aliança Terrestre, tomou o seu lugar. Também ele esperou que a multidão se acalmasse antes de começar o seu discurso: - Antes de mais, gostava de dar os meus parabéns a todos vocês....- muitas pessoas notaram o olhar duro do General Thomas Stiwell, um dos heróis da Aliança e um dos responsáveis pela defesa desta última. As palavras seguintes dele confirmaram essa ideia: - ....o facto de se terem tornado um planeta da Aliança é uma honra. Mas é claro que com a honra também vem a responsabilidade..... Nesta altura, as pessoas que estavam à volta de Anne e Kristiane começaram a falar entre si. A maior parte delas já tinham uma ideia do que lhes iria ser pedido. Como que a confirmar esse receio, o General Stiwell disse: -...A vossa responsabilidade vai ser a criação de um Regimento da Guarda Planetária. Todos os cidadãos entre os 18 e os 30 anos devem-se apresentar, a partir da próxima segunda-feira na sede da Administração Colonial. Fazendo uma pequena pausa, o General pareceu esperar por alguma reacção negativa por parte da multidão. Como essa não surgiu, ele continuou a falar: - Como devem saber, o perigo agora vem de fora. Uma raça extraterrestre, os Cylons, está a ameaçar toda a Humanidade. Este planeta, ao estar próximo da Cintura Exterior de Asteróides, vai ser um dos principais campos de batalha se a invasão Cylon se der.... Anne deixou de prestar atenção ao que o homem dizia e fitou a sua mãe. Kristiane continuava ouvir as palavras do General com um ar atento e só passados alguns segundos é que olhou para Anne. - Que foi?- perguntou ela, olhando para a rapariga. À volta delas, as pessoas começavam-se a levantar, visto que o discurso já estava a acabar e para todas aquelas que estavam entre os 18 e os 30 anos, a festa estava estragada. - Também vais para a Guarda Planetária? - É claro que sim....- disse a mulher, apercebendo-se de imediato do que estava a preocupar Anne.- Mas não te preocupes.... só aos fins-de-semana é que temos treinos e não somos enviados para outros sítios...Somos uma força de defesa.... A rapariga nada disse, limitando-se a acenar com a cabeça. A única coisa que ela se lembrava da Terra era o facto de que o seu pai, um Major do Exército Terrestre, tinha partido para a Lua durante a Primeira Guerra Colonial e não havia voltado. Apesar de passarem a maior parte do tempo a discutir, Anne não queria que a mãe seguisse o mesmo caminho. Kristiane pareceu adivinhar o que a filha estava a pensar e abraçou-a, tentando reconfortá-la. A discussão que as duas tinham tido ao princípio da tarde estava já esquecida. Levantando-se, mãe e filha dirigiram-se para o local onde tinham estacionado o veículo e foram para casa. ALGURES NO ESPAÇO, ENTRE AS COLÓNIAS DE LAVOS-306 E LAVOS-304 Com um ligeiro "toque" dos motores de manobra, o cruzador T.D.F. Berlin tomou posição no meio das fragatas que o iriam escoltar naquela patrulha. A Base Naval existente em órbita de Lavos-305 tinha ficado para trás há mais de 10 horas, assim como o Grupo de Resposta Rápida da Marinha. Aquela patrulha era apenas uma das muitas que vigiava o sector do anel de asteróides e a primeira vaga de defesa em caso de um ataque Cylon. "Eva, estamos preparados para o salto?", subvocalizou o Comandante Hans Zimmer assim que recebeu a informação de que o seu cruzador estava em posição. "Ainda não, Capitão....", respondeu a I.A, "Há uma nave civil que ainda está nesta zona e que pode ser afectada." - Já comunicaram com a nave?- perguntou Zimmer em voz alta, na direcção do oficial que estava de serviço aos sensores. Ele era daquela "velha guarda" que gostava de manter os seus subalterno ocupados, apesar da I.A. ser capaz de fazer as mesmas coisas muito mais rapidamente e mais eficientemente. Ele não partilhava da ideia, que circulava em alguns sectores da Marinha, de que os tripulantes da Ponte apenas existiam para servirem de apoio em caso de problemas com as I.A. e com os computadores centrais. - Sim, Capitão!- respondeu o homem, fazendo surgir de imediato as informações no tanque holográfico existente no centro da Ponte, em frente da cadeira do Capitão.- Trata-se de um voo comercial entre as colónias de Lavos-304 e 306. Tomei a liberdade de contactar as Estações Orbitais dessas colónias e os dados estão correctos. - Muito bem.- respondeu Zimmer, não se dando ao trabalho de elogiar a iniciativa do seu subalterno. Todos os tripulantes do T.D.F. Berlin sabiam que tinham que se empenhar a 100% no que faziam. "Presumo que assim que a nave se afastar podemos saltar....", perguntou Eva. "Claro que sim....", disse ele, acedendo aos dados que tinha recebido na Base Naval. Segundo eles, aquelas naves comerciais demoravam cerca de um dia e meio a fazer as viagens entre as duas colónias. Ainda não havia população suficiente, nem comércio, para viabilizar uma careira regular com naves equipadas com motores de salto: " Quanto tempo falta para ela estar fora do alcance?" "Dez minutos" - Meu Deus, como eu odeio estas esperas...., murmurou o Comandante. Assim que a nave alcançou a distância mínima de segurança, a patrulha accionou os seus motores e saltou na direcção do Anel de Asteróides. COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE SEDE DO COMANDO PLANETÁRIO DE DEFESA Apollo consultou mais uma vez os dados que Boomer lhe tinha dado. Segundo as estimativas do Comandante da Defesa Planetária, faltavam dois sectares para a segunda Estrela-de-Batalha estar operacional. As quatro Esquadrilhas que iriam servir na Kobol estavam preparadas, só faltando mesmo escolher os tipos de Vipers que lhes seriam atribuídas. - Tiveste alguma notícia do Starbuck?- perguntou Apollo, ao ver este último ponto. A produção em série dos novos Vipers MK II só começaria quando os últimos testes de voo fossem feitos. Abanando negativamente a cabeça, Boomer disse: - Não, quando falei com ele fiquei com a impressão de que iria aceitar, mas ainda não disse nada... - Era óptimo se ele o testasse...- desabafou Apollo.- Se o Viper tiver algum problema, de certeza que ele o descobre.... - Não podemos estar eternamente à espera dele.....- disse o Comandante da Defesa, mostrando-se preocupado com a situação.- A Kobol precisa de estar na sua máxima capacidade quando for lançada.... Apollo levou as mãos à cabeça e apoiou-se na secretaria de Boomer, pensando. A sua amizade por Starbuck era enorme e ele tinha a certeza que o Capitão era ideal para testar as novas armas Coloniais, mas a verdade é que havia urgência naqueles testes e Boomer tinha razão. - Vamos fazer assim.....- começou Apollo a dizer, olhando para o seu amigo.- Esperamos mais um secton..... - E se ele não disser nada? - Nesse caso, arranjamos alguém que faça os testes de voo..... Fazendo uma pequena pausa, Apollo consultou o computador pessoal que trazia e mudou de assunto: - Segundo as novas estimativas da Corporação, a terceira Estrela-de-Batalha deverá estar pronta daqui a quatro sectares.... - Tendo em conta que ela deveria estar pronta na mesma altura que a Kobol.....- disse simplesmente Boomer, não mostrando qualquer irritação apesar de nunca ter concordado com a decisão do Concílio dos Doze.- Os Terrestres nunca construíram uma Estrela-de-Batalha. - Não te preocupes... Os nosso técnicos dizem que eles estão a aprender depressa. Mais dois yahrens e de certeza que eles já as constróem sem a nossa ajuda... - E isso será bom? Apollo parou por momentos, encarando o seu amigo. Boomer partilhava com ele um certo mal-estar em relação aos Terrestre, especialmente os militares. -....Até agora, a Corporação tem sido totalmente correcta connosco e mesmo entre as diferentes facções Terrestre ela é bem vista.... Boomer assentiu com a cabeça e mudou ele de assunto: - E em relação à Nave-Base capturada? Eu sei que falaste disso na conferência, mas obtiveste algum tipo de resultados? - Os principais chefes da Marinha da Aliança asseguraram-me que ela será enviada para cá ainda este sectar. - Espero bem que sim, porque temos uma série de ideias para ela....- disse Boomer, exibindo um sorriso enigmático. - Posso saber quais?- perguntou Apollo, endireitando-se na cadeira e chegando-se um pouco para a frente, curioso com as palavras do amigo. Exibindo de novo o seu sorriso, Boomer limitou-se a dizer: - Infelizmente, prometi que guardava segredo....só posso dizer que vai ser algo.. ....diferente... - Sendo assim, não insisto.... Mantendo o sorriso, o Comandante da Defesa abriu uma das gavetas da sua secretária e retirou de lá uma folha, passando-a a Apollo. - Que é isto?- perguntou o último, pegando na folha. - Já que estamos a falar de surpresas, o melhor é leres isso.... Apollo passou rapidamente os olhos pela folha. Naqueles dias era raro verem-se documentos escritos à mão a não ser em ocasiões especiais. Esta era uma delas: o Capitão Griffin, um dos responsáveis pela revolta que tinha ocorrido na Galactica após o acidente de Adama, pedia que o deixassem prestar serviço comunitário e que lhe dessem uma oportunidade para poder aprender os costumes Terrestres. Devolvendo a folha a Boomer, Apollo perguntou-lhe: - Que achas? O Comandante da Defesa, antes de responder, chamou alguma informação para o ecrã do computador que tinha imbutido na secretária: - Pelas informações que tenho, Griffin, e os restantes Seguranças revoltosos, tem tido um comportamento excelente desde que os transferimos para uma prisão aqui no planeta....O Capitão parece continuar a manter a disciplina mesmo estando preso... - Não houve nenhuma tentativa de fuga ou coisa do género? - Não....Eles nem sequer se queixam de nada.... Apollo pensou por momentos no assunto. Aquela revolta tinha posto em perigo a Estrela-de-Batalha e toda a Frota, mas a verdade é que o próprio Capitão Griffin havia contribuído para que ela acabasse, matando Sire Trolius e ordenando a rendição dos seus homens. O homem era um dos veteranos da guerra contra os Cylons, tendo lutado em Caprica até ao fim, sendo evacuado numa das últimas naves que tinham abandonado o planeta em direcção à recém-formada Frota. Apesar de tudo isto, ele era também alguém totalmente impiedoso e Apollo não sabia até que ponto é que podia confiar nele. - Se aceitarmos o pedido dele, como é que o vigiamos?- acabou ele por perguntar a Boomer. - Em relação aos estudos, há vários professores terrestres que se mostram disponíveis para ensinar os seus costumes aos Coloniais. De certeza que se arranja alguém com experiência em ensinar presos....- disse o Major, parando por momentos.- Quanto ao outro aspecto....não sei bem o que é que eles poderão fazer..... - Talvez para já o melhor seja apenas aceitarmos o segundo pedido....- disse Apollo.- Depois pensamos no outro assunto.... - Concordo plenamente.- acrescentou Boomer, escrevendo uma nota no computador para que tratasse de responder ao pedido de Griffin. Voltando-se depois para Apollo, perguntou: - Há mais alguma coisa a tratar? - Não...- respondeu o Comandante da Galactica, consultando o seu próprio computador.- Se me lembrar de mais alguma coisa, eu mando-te uma mensagem da Galactica... - Está bem.- Com estas palavras, Boomer levantou-se para acompanhar o seu amigo à porta da sala. Ao despedirem-se, o Major disse: - Dá os meus cumprimentos à Sheba. O ar que Apollo pôs perante estas palavras, indicou-lhe de imediato que algo estava mal. - Aconteceu-lhe alguma coisa?- perguntou ele. - Não..- assegurou Apollo, hesitando momentaneamente, antes de continuar: - Ela ficou muito estranha após a viagem até Ceres... - Talvez seja do cansaço, sabes que aqueles saltos hiperespaciais são muito extenuantes para quem ainda não está habituado..... - O problema até pode ser esse, mas a verdade é que ela não fala comigo desde dessa ocasião.- disse Apollo, com um ar abatido.- E, ainda para mais, pediu uma licença e veio para o planeta...sem sequer me dizer nada. - Não sabes onde ela está?- perguntou Boomer um pouco incrédulo com a situação. Ele sempre tinha visto Apollo e Sheba como um casal perfeito, sempre prontos a apoiarem-se um ao outro. O amor de Sheba tinha sido uma das coisas que tinha ajudado Apollo a ultrapassar a dor sentida pela morte de Boxey. Aquela situação era muito estranha. O Comandante da Galactica acenou negativamente com a cabeça. Exibindo um sorriso um pouco forçado, acabou por dizer: - Deve ser como tu dizes...as viagens hiperespaciais são muito cansativas....De certeza que ela vai voltar mais bem-disposta ... - Se quiseres, eu posso fazer uns contactos discretos e ver se a encontro.... Apollo considerou a proposta do seu amigo, mas acabou por decidir que o melhor era deixar Sheba descansar. Quando a altura chegasse ela voltaria para a Galactica. Dizendo exactamente isso a Boomer, ele acabou de se despedir, encaminhado-se para o hovercarro que o levaria até ao espaçoporto. Assim que ele saiu do gabinete, Boomer dirigiu-se para April: - Sim....- disse ela, lançando um pequeno sorriso ao seu patrão. - Passa a palavra às nossas Secções Regionais para estarem atentas à Capitã Sheba. Se ela for avistada em alguma das cidades..... - ....que nos informem, certo?- terminou April.- Quer que alguém a siga? - Não, não é necessário. Só quero saber onde ela está e se está tudo bem.... - Eu trato disso..- disse a secretária, murmurando depois: - O nosso jantar de hoje ainda se mantêm? Sorrindo, Boomer acenou afirmativamente com a cabeça. April estava-se a revelar uma mulher extraordinária, para além de uma secretária mais que competente. O Major não sabia até que ponto é que seria correcto envolver-se com alguém com quem trabalhava, mas a verdade é que já tinha passado da fase em que se importava com isso. "Será que me estou a apaixonar?", pensou ele para si mesmo enquanto voltava para a sua sala, passando pelo dois soldados da Marinha Terrestre que estavam de guarda à porta desta. Sem que mais ninguém se apercebesse, um deles tinha estado a ouvir a conversa de Boomer e April, prestando atenção à referência a Sheba. Ele tinha a certeza de que o seu chefe iria gostar de saber que havia uma Colonial importante a passear sozinha pelo planeta. Talvez se pudesse organizar uma pequena surpresa... Mas Sheba também não era a única. April também merecia que algo lhe acontecesse. "Não há nada pior do que uma Humana a conspurcar a sua raça com um extraterrestre", pensou o soldado, esboçando um sorriso que a placa facial da sua armadura escondia. O resto do seu turno foi passado a imaginar o que fariam aos traidores da raça Humana.... COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE QUARTEL CENTRAL DO EXÉRCITO TERRESTRE, CIDADE DE ASHER Retirando a armadura de combate, o Tenente Roger Veckin espreguiçou-se, tentando desentorpecer os músculos do corpo. Ele tinha andado a maior parte do dia com aquele peso em cima, o que era um martírio, e ainda para mais, embora a armadura tivesse sistemas de refrigeração, a verdade é que ela era bastante quente, o que não ajudava nada em dias como aquele em que a temperatura tinha chegado aos 40 graus. Arrumando a armadura no seu compartimento próprio, dirigiu-se para o chuveiro existente na Camarata dos Oficiais e tomou um banho rápido. Depois de se vestir, dirigiu-se para o hovercarro que tinha alugado e saiu a toda a velocidade do quartel, lançando uma continência aos soldados que estavam de guarda ao portão principal e que já se tinham habituado às saídas constantes do Tenente. Dirigindo-se para a saída da cidade, tomou a estrada que levava na direcção do espaçoporto. Passados 30 minutos passou a estrada de terra batida que marcava o acesso a esse local e continuou a acelerar, acabando por chegar ao fim da principal via de comunicação do planeta. No meio da densa selva que surgia à sua frente, uma pequena estrada de terra batida anunciava o caminho que ele tinha que tomar. Acelerando com cuidado, começou a segui-la, indo na direcção do local onde o esperavam. "Já estou atrasado uma hora....", pensou ele, consultando o relógio de pulso e arrependo-se de imediato por ter tirado os olhos da estrada porque um estranho animal saltou-lhe à frente do veículo, obrigando-o a travar a fundo. Carregando com força na buzina, retomou o seu caminho, ganhando rapidamente velocidade. Ao fim de 20 minutos surgiu-lhe uma placa avisando-o de que estava a entrar numa área restrita e sob a protecção da Corporação da Cintura. Ignorando o aviso, acelerou ainda mais. O Professor Carlos Esnaider tinha-lhe assegurado que não haveria qualquer problema de acesso ao local e Roger tinha que acreditar nele. Numa incrível coincidência, o Professor Esnaider, que era o principal responsável pela exploração das ruínas extraterrestres daquela zona, tinha sido o homem que lhe tinha dado boleia para a cidade de Asher no dia em havia chegado. Durante essa viagem, os dois homens conversado e perante o interesse demonstrado por Veckin, o professor tinha-o acabado por convidar a visitar as ruínas. Segundo as palavras do Xenoarqueólogo, as estruturas encontradas eram totalmente diferentes de todas aquelas encontradas noutros locais, o que apontava para uma nova raça extraterrestre. Outra coisa que apontava para essa conclusão, era o facto de não estarem protegidas por nenhuma campo protector, ao contrário do que acontecia com as ruínas de Marte, da Lua e de Plutão. Roger estava tão absorto com esses pensamentos que só se apercebeu que a estrada havia acabado quando entrou no meio do acampamento arqueológico e lhe surgiram à frente uma série de soldados com o uniforme da Corporação, fazendo sinais para que ele parasse. Travando a fundo, o Tenente sentiu as turbinas mudarem de direcção e começarem a parar o veículo, acabando este por assentar no chão no meio de uma enorme nuvem de poeira. Desligando o motor, ele abriu a porta e saltou para o chão. Um dos soldados avançou para ele, com ar de poucos amigos e apontando-lhe uma arma. Atrás dele, os outros três soldados também apontaram as armas na sua direcção, num gesto claro de hostilidade. - Calma, eu vim em paz....- disse Roger, esboçando um sorriso que esperava que tivesse um efeito apaziguador. - Estou a ver que temos aqui um engraçadinho!- disse o soldado que avançava para ele, não deixando de lhe apontar a arma.- Espero que saiba que está numa área restrita.... Antes que a situação pudesse piorar, o Professor Esnaider apareceu, vindo de um dos numerosos habitáculos metálicos ali existentes. - Cabo Kuriama, esse homem é meu convidado!- berrou ele, acenando com um dos seus grandes braços.- Eu responsabilizo-me por ele! O cabo olhou para o xenoarqueólogo de longos cabelos brancos e pareceu hesitar. Nos seus olhos era mais que visível que ele gostaria de dar uma lição ao intruso. Infelizmente o Professor era um dos responsáveis por aquelas instalações e ele não lhe podia desobedecer. - Talvez noutra altura...- murmurou ele na direcção de Roger, de forma a que mais ninguém ouvisse. Baixando a arma, o Cabo da Corporação baixou a arma e dirigiu-se para junto do resto da patrulha que rapidamente se afastou do local. "Que simpático....", pensou Veckin, enquanto fechava o veículo. Feito isso, dirigiu-se para junto do Professor. Este último cumprimentou-o do alto dos seus 2 metros e meio e perante o pedido de desculpas de Roger disse simplesmente: - Não faz mal...Para ser sincero, eu estava tão entusiasmado com a nova descoberta que nem sequer me lembrei que tínhamos combinado esta visita.... - Nova descoberta?- perguntou de imediato Veckin, subitamente entusiasmado. - Sim...- disse o xenoarqueólogo, fazendo um sinal para que o outro homem o seguisse. Os dois entraram na primeira estrutura metálica ali existente e que albergava um pequeno laboratório. Uma série de pessoas trabalhavam em várias bancadas limpando uma série de objectos e nem sequer se aperceberam da passagem deles. Ao fundo do laboratório havia uma pequena porta blindada que o Professor abriu, passando a sua mão por cima de um sensor existente na parede ao lado. Assim que a porta se abriu, Roger viu um túnel que descia na direcção do subsolo, perdendo-se na escuridão. Uma série de pequenas lâmpadas, espalhadas pelas paredes quebravam fugazmente essa escuridão. Ao fundo do túnel via-se uma luz mais forte e o barulho de máquinas a funcionar fazia-se ouvir. - A maior parte das ruínas situa-se no subsolo....- começou o professor a dizer, descendo as escadas cravadas no túnel e agarrado a um corrimão existente na parede esquerda.- Tivemos que cavar uma série de túneis para chegar até elas. - Mas como é que as descobriram? Se elas estavam enterradas..... - Boa questão, Tenente.- disse o homem mais velho, acelerando um pouco o passo.- Estou a ver que é uma pessoa atenta ao que lhe dizem.....Na realidade, foram elas que se mostraram... - Como assim? - Na altura em que se estava a construir a estrada até Asher, fizeram-se uma série de voos de reconhecimento sobre a selva, em busca de mais locais para construção e um deles, ao passar por cima desta zona, foi atingido por uma descarga de energia desconhecida.... - A nave foi abatida?- perguntou Roger, espantado por nunca ter ouvido falar dessa história no quartel e na cidade. - Sim...o que restava dela só foi encontrado uma semana depois do acidente. O Exército da Aliança disse aos colonos que tinha havido um acidente e a curiosidade deles ficou por aí. - Presumo que o Exército tenha vindo investigado.....- disse o Tenente, sabendo que esse era o procedimento normal da Aliança. A caminhada deles tinha acabado numa nova porta blindada, que era iluminada por uma luz fraca, com um tom já a puxar para o amarelado. - Exactamente.- enquanto dizia estas palavras, o professor abria a porta da mesma maneira que a anterior. Um novo túnel surgia à frente deles, terminando numa plataforma iluminada. O barulho de máquinas era cada vez maior e Esnaider teve que falar mais alto para se fazer ouvir: - O pelotão mandado pelo Exército demorou uma semana a chegar ao local, tendo que atravessar toda esta selva. Ao chegar aqui, deparou com os destroços e mais nada. Nem sequer havia corpos para recolher.... - Ficaram desfeitos? - Não, o cockpit estava quase intacto, eles pura e simplesmente tinham desaparecido.....- voltando-se para trás, Esnaider esboçou um sorriso, visível até naquela zona pouco iluminada.- Mas a história fica ainda mais esquisita. Passado algumas horas da patrulha ter chegado aqui, perdeu-se todo o contacto com eles..... A última comunicação deles falava de luzes estranhas na selva.... - E o que aconteceu a seguir? - O Exército decidiu jogar pelo seguro.....Assim que a patrulha mensal da Marinha entrou em órbita eles contactaram-na e pediram um reconhecimento orbital..... - E a nave da Marinha também foi abatida?- perguntou Roger, que estava cada vez mais intrigado com tudo aquilo. - Não, Tenente. Isso também era mau demais...- disse o professor, fazendo uma pausa.- A nave conseguiu fazer o reconhecimento, apesar de ter perdido a energia ao passar directamente sobre a zona. Como os sensores não detectaram nenhum sinal de vida humana, as chefias militares da colónia decidiram acabar com o problema.... - Deixe-me adivinhar, lançaram um ataque orbital..... - Exactamente. O cruzador da patrulha bombardeou a zona com o seu canhão de partículas. Os tiros destruíram toda esta zona da selva e provocaram um incêndio que demorou mais de um mês a extinguir-se. Nessa altura a patrulha fez mais um reconhecimento e desta vez não houve problemas. - E o Exército mandou mais alguém? - Sim, uma companhia inteira foi mandada para aqui.- disse o professor, parecendo relembrar velhos tempos antes de continuar.- Toda esta zona estava devastada e apesar do incêndio já estar extinto, o ar ainda cheirava a fumo.... Os tiros tinham feito uma série de enorme crateras...e no fundo de uma delas, surgia um bocado de uma construção subterrânea... - O Professor era um desses soldados, não era?- perguntou Roger, que se tinha apercebido da intensidade com que Esnaider contava aquela parte da história. - Sim....- disse o interpelado, abanando a cabeça. Os dois haviam chegado à plataforma que marcava o final do túnel.- Mas isso é outra história....Agora a minha vida é esta.... Com estas palavras, o xenoarqueólogo fez sinal para que Roger se aproximasse até à beira da balaustrada da plataforma. O Tenente assim fez e teve que reprimir um grito de surpresa perante a vista que tinha. Um enorme pavimento rectangular surgia do chão rochoso. Apesar de eles estarem ainda a algumas dezenas de metros do chão, Roger podia ver claramente inscrições nesse pavimento. - O pavimento, é de metal?- balbuciou ele, para Esnaider. - Pensamos que sim, embora seja de um tipo totalmente desconhecido para nós....- respondeu o homem, carregando num botão existente na parede atrás dele. Com um rangido metálico, a plataforma começou a descer na direcção do solo.- Até pode nem ser metal.... Os dois homens fizeram o resto da viagem em silêncio e Roger aproveitou para estudar melhor as imediações. Olhando para cima, viu que estava no fundo de uma enorme caverna, estando o tecto metálico desta coberto com uma enorme imensidão de holofotes. "De certeza que estavam dentro de uma das crateras provocadas pelo tiro do canhão de partículas", pensou ele para si mesmo. Uma rápida pergunta a Esnaider confirmou as suas suspeitas. Assim que a descoberta tinha sido feita, eles haviam tapado a cratera e feito uma série de túneis laterais para alcançar o seu fundo. - Com o tempo alargamos toda esta zona, até que conseguimos por à mostra toda esta construção....Actualmente isto ocupa o equivalente a dois campo de futebol. - E isto que a cobre, é escrita?- perguntou Roger, apontando para os símbolos que surgiam na superfície. - Se é ainda não a conseguimos decifrar.... Assim que o elevador chegou ao fundo, os dois homens saíram e dirigiram-se para um pequeno grupo de pessoas que se encontrava na zona central do pavimento. Ao chegar aí, um dos homens, que envergava um uniforme da Corporação, olhou para o Professor e fez-lhe um pequeno sinal, indicando que queria falar com ele. - Eu volto já...- disse Esnaider a Roger, afastando-se depois um pouco para ir falar com o outro homem. O Tenente aproximou-se do grupo de pessoas e espreitou por cima do ombro delas. No meio delas, um homem estava agachado, pondo a sua mão numa espécie de reentrância que existia no meio do pavimento. - Reparem bem nestes símbolos!!!- dizia ele, apontando para uma série de sinais que existiam junto da reentrância.- Sempre que eu mexo a mão.... Ao dizer isto, os símbolos para os quais ele apontava iluminaram-se numa rápida sucessão, da direita para a esquerda. As pessoas começaram a falar animadamente, tendo cada uma a sua teoria. Roger queria saber o que pensava o Professor sobre o assunto e virou-se na direcção dele. O Professor e o homem da Corporação estavam a discutir furiosamente e algumas das palavras chegaram até ele: - ...espero que tenha consciência do que está a fazer, professor..... - Eu já disse que me responsabilizo por ele... - Acho muito estranho que ele tenha aparecido logo hoje.... - Esta visita já estava marcada há várias semanas.... Veckin sentiu-se um pouco incomodado com a situação e com o facto de estar a ouvir a conversa. Virando-se para a frente, continuou a ver o que as outras pessoas tinham descoberto. O mesmo homem continuava com a mão metida na reentrância, mostrando a maneira de fazer os símbolos iluminarem-se. Passado cerca de um minuto, o Professor Esnaider e o homem da Corporação juntaram-se ao grupo. O xenoarqueólogo colocou-se ao lado de Veckin, observando a actividade, enquanto que o outro homem se afastou um bocado, mantendo no entanto os dois sobre observação. - Espero que não esteja a causar nenhum problema, professor.- murmurou discretamente Roger. - Não, meu amigo....- disse o interpelado, encolhendo os ombros.- Confesso que às vezes não compreendo a Corporação.....Estão sempre cheios de medo que alguém roube alguma coisa das suas malditas escavações... - Eu prometo que não meto ao bolso nenhuma arma extraterrestre.....- disse Roger, arrancando uma sonora gargalhada do Professor. Sobressaltado com tal som, um dos homens que estava no grupo acabou por se desequilibrar. Antes que alguém o conseguisse agarrar, ele caiu para o chão, amparando a sua queda com as duas mãos. Na altura em que ele se apoiou, os símbolos do pavimento estavam iluminados e as suas mãos entraram em contacto com eles. Com um ruído metálico, os símbolos que estavam a ser pressionados afundaram-se no pavimento. Toda aquela zona começou a tremer e alguns metros mais à frente, uma secção do chão metálico começou a brilhar com uma luz dourada. Com um novo rugido metálico, essa zona do pavimento começou a afundar-se no solo, parando depois com um novo ruído metálico, passado menos de um minuto. Toda a gente recuou apressadamente. Apesar dos símbolos já não estarem a iluminados e pressionados, a verdade é que nada voltou ao normal. A primeira pessoa a avançar na direcção da abertura foi justamente o Professor Esnaider. Acotovelando algumas pessoas ele dirigiu-se para lá e cuidadosamente olhou para dentro da abertura. Retirando uma lanterna do cinto de instrumento que trazia à cinta, ele ligou-a e apontou-a para aquela zona do pavimento. - Parabéns, meus senhores. Acho que acabamos de encontrar uma entrada para o artefacto....- acabou ele por dizer, sorrindo na direcção do grupo de pessoas que assistia a tudo.- Ao fim de mais de dez anos, vamos finalmente descobrir o que está aqui.... Embora não soubesse bem explicar porquê, Roger sentiu um calafrio perante as palavras do Professor. A juntar a essa sensação, ele sentiu também uma pequena vibração no seu pulso. Lançando uma olhadela rápida nessa direcção, viu que o seu comunicador pessoal estava a receber uma mensagem, ordenando-lhe que voltasse imediatamente para o quartel. Aproximando-se do Professor, que continuava a espreitar para dentro da abertura, ele disse que tinha que se ir embora. O homem disse que compreendia perfeitamente a situação e desejou-lhe boa viagem, continuando depois a sua observação e berrando para que alguém arranjasse uma lanterna. Veckin começou a caminhada para a superfície, prometendo a si mesmo que contactaria o Professor assim que pudesse. Para já o que tinha a fazer era chegar o mais depressa possível ao quartel. - Continua -