Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ---------------------------------------------------------------- Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (verg@esoterica.pt) ---------------------------------------------------------------- Capítulo 10 O Primeiro-Centurião estava tão absorto a acompanhar o progresso dos Raiders que atacavam a Frota que só passado quase um centon é que se apercebeu da presença de um Centurião que esperava pacientemente junto do seu pedestal. - Que se passa?- perguntou ele fazendo girar o seu pedestal na direcção do seu subordinado. - Perdemos todas as comunicações com os Raiders que estavam a atacar as outras forças humanas.- respondeu o Centurião não mostrando nenhuma emoção ao anunciar a perda de trinta membros da sua espécie. Com um simples comando o Primeiro-Centurião consultou todas a telemetria enviada por essa pequena força de ataque e viu que todos os Raiders haviam sido destruídos por mísseis disparados pelas naves humanas. Esse último dado era extremamente interessante porque segundo os seus dados não havia nenhum caso de mísseis serem utilizados para abater naves de pequeno porte. Em toda a história da guerra entre os Cylons e os Coloniais os mísseis apenas tinham sido utilizados em combates entre Naves- Base e Estrelas-de-Batalha. Esta utilização era extremamente interessante e o Primeiro-Centurião arquivou a respectiva informação no computador central da Nave-Base para futuro uso dos estrategos do Império Cylon. Voltando de novo a sua atenção para os dados dos Raiders viu que eles antes de serem destruídos haviam ainda danificado gravemente pelo menos duas naves humanas. Os seus cérebros processaram rapidamente a informação e em meros microns surgiu a decisão correcta a tomar. - Desviem vinte Raiders da Segunda Vaga para atacar de novo os outros humanos.- ordenou ele ao Centurião que continuava postado junto do pedestal com uma calma mecânica. - Pelo seu Comando.- disse o ciborgue de armadura prateada voltando de imediato para o seu posto na Ponte, para executar a ordem que lhe tinha sido dada. Por seu lado, o Primeiro- Centurião voltou a sua atenção para os combates contra a Frota Colonial mas não sem antes programar, num dos seus cérebros, uma sub-rotina que o avisaria quando os vinte Raiders começassem a atacar as naves humanas. Tom nunca sentira medo na sua vida mas a verdade é que também nunca tinha estado sozinho em toda a sua existência. Desde que começara a "existir" sempre tivera à sua volta Humanos e outras criações artificias como ele, numa espécie de infantário electrónico. Agora estava completamente sozinho e essa experiência não era nada agradável. As várias antenas que permitiam que a T.D.F. Brighton comunicasse com outras naves e que ele comunicasse com as outras I.A. estavam totalmente destruídas e os pequenos dróides que faziam as reparações no exterior da nave estavam todos fora de serviço. Os seus sensores interiores mostravam uma situação que ainda o amedrontava mais. Parte da nave estava exposta ao vácuo, com diversos compartimentos completamente destruídos e abertos ao frio do espaço. Todos os tripulantes tinham um pequeno localizador, inserido cirurgicamente perto do coração, e isso permitiu a Tom fazer uma rápida contagem. Dos 130 tripulantes, 26 tinham sinais de vida, 32 estavam mortos e o resto nem sequer aparecia nos sensores, um claro sinal de que estariam em secções da nave que tinham sido atingidas directamente. Um dos sobreviventes era o Capitão Taylor, o que fez com que Tom recuperasse um pouco da sua confiança. Controlando uma das pequenas câmaras de segurança existentes na Ponte de Comando, ele procurou o oficial entre os restantes tripulantes e destroços que enchiam esse local. "Capitão Taylor....", perguntou suavemente, enquanto observava atentamente a figura para ver se esta tinha alguma reacção. Não vendo nenhuma, insistiu novamente, aumentando o volume de voz. Como esta segunda tentativa também não obteve nenhum sucesso, mudou para os altifalantes da Ponte, esperando com isso despertar algum dos tripulantes. Ao mesmo tempo aumentou o conteúdo de oxigénio da ponte, depois de se certificar que não havia nenhum fogo. Aos poucos Tom detectou pequenos movimentos nos Humanos, um claro sinal de que alguns já estavam a recuperar a consciência. O Capitão Taylor foi um dos últimos a manifestar sinais de vida, apoiando-se de encontro ao painel onde tinha batido ao ser projectado da sua cadeira de comando. "Q.....Qual é a situação da nave, Tom?.....", acabou ele por perguntar, enquanto se dirigia para o seu assento. Com um esforço visível sentou-se, enquanto que os restantes tripulantes da Ponte regressavam aos seus postos verificando os computadores com os quais trabalhavam.. " A Brighton perdeu a integridade do casco em 83.22% da sua superfície. De momento a integridade mantêm-se apenas nas zonas centrais ", disse Tom, ilustrando as suas palavras com uma série de esquemas da nave. As zonas centrais da Brighton, ou seja aquelas zonas que alojavam a Ponte, os vários paióis de munições e parte dos alojamentos dos tripulantes, eram duplamente blindadas e só por isso haviam sobrevivido ao ataque Cylon. "E em relação às baixas?", perguntou Taylor ansiando pela resposta mas temendo-a. Os estragos que a Brigthon tinha sofrido faziam com que temesse o pior. " De momento apenas posso confirmar que há vinte e seis tripulantes vivos. Oito na Ponte, dez no Paiol Um, seis no Paiol Dois e quatro outros no habitáculo central" - Meu Deus....- murmurou Taylor, enterrando a cabeça nas mãos. Só nessa altura é que se apercebeu que o sua face esquerda estava empapada em sangue. Pesquisando rapidamente com a mão, verificou que tinha um longo corte no couro cabeludo e que para além disso estava a formar-se aí um papo. Dizendo para si mesmo que aquilo não era nada, Taylor reviu as plantas que Tom lhe mostrava. Era claro que a nave estava perdida e aos poucos, à medida que iam verificando os danos nas respectivas secções, os outros oficiais da Ponte chegaram à mesma conclusão. Todos olhavam nervosamente para o Capitão. Este último reviu uma última vez as plantas da Brighton e depois chamou novamente Tom "Tom, estás em contacto com o resto da patrulha?" "Não. Todos os dispositivos de comunicação no exterior da nave foram destruídos e não tenho meios para os reparar." Perante a resposta, Taylor hesitou por momentos, mas acabou por se decidir. Nada lhe parecia pior do que ficarem ali, trancados no caixão de metal em que a Brighton se tinha tornado. " Muito bem, Tom. Emite o sinal de abandonar a nave e de seguida faz a descarga da tua memória." "Sim, senhor", respondeu simplesmente a I.A fazendo de imediato o que lhe era ordenado. As luzes de emergência da nave começaram a piscar, assim como as luzes que sinalizavam as várias cápsulas de salvação que ainda existiam na Brighton. Nas secções que ainda não estavam expostas ao vácuo, Tom fez soar também um aviso sonoro. Aos poucos, o Capitão Taylor viu os vários pontos que representavam os tripulantes nas outras partes da nave a dirigirem-se para as cápsulas de salvamento. Os tripulantes da Ponte seriam os últimos a abandonar a nave, como era costume. Assim que todos as outras secções ficaram vazia, Taylor deu autorização para que os tripulantes se deslocassem para a cápsula existente perto da Ponte. Levantando-se da sua cadeira, o Capitão deu em voz alta a sua última ordem: - Tom, arma as cargas de destruição. - Sim, senhor!- respondeu a I.A., começando de imediato a fazer uma contagem decrescente a partir de 100. Taylor dirigiu-se vagarosamente até ao centro da Ponte, baixando-se e abrindo uma pequena porta existente no chão. Por debaixo dessa havia outra porta blindada que tinha na sua superfície um pequeno teclado. Digitando o código que tivera que decorar ao assumir o comando da Brighton, o Capitão abriu a segunda porta. No pequeno compartimento que aí existia, uma série de luzes vermelhas começaram a piscar e um cilindro metálico surgiu, vindo do interior da nave. Com muito cuidado, Taylor pegou nele pelas pegas de metal colocadas no topo. O cilindro estava frio ao toque pois o seu interior estava a temperaturas negativas. Limpando o gelo com a mão direita, Taylor leu as palavras que aí estavam impressas: I.A. - MODELO 1000 ( TOM ) - STARK-KYMA CORPORATION (24/2/2276) No topo do cilindro um pequeno mostrador indicava que este estava cheio. Tom havia-se descarregado para ali, conservando assim todos os seus conhecimentos e experiências. A nave estava agora a ser controlada pelo simples computador central, que se encarregaria de levar a contagem até ao fim. Segurando o cilindro de encontro ao corpo, Taylor deitou um último olhar para o que restava da Ponte, dirigindo-se de seguida para a cápsula, à porta da qual os últimos tripulantes esperavam por ele. "Capitão, a cápsula de salvamento da Ponte acaba de ser lançada pela Brighton.", disse Erika, chamando a atenção de Trent para o mapa táctico. Esse lançamento era um sinal claro de que a nave estava livre de tripulantes e prestes a destruir-se. O que era mau é que as cápsulas fossem tão poucas.... "Qual é a estimativa de sobreviventes?" "Tendo em conta que as cápsulas levam no máximo dez indivíduos e que foram apenas ejectadas quatro, a minha estimativa é de quarenta sobreviventes no máximo. Mas como os danos sofridos pela Brighton foram bastante extensos acho que o melhor seria pensar em apenas 30 sobreviventes. William absorveu a informação sem pestanejar sequer. Ele tinha decidido que o tempo das recriminações só viria depois. Para já tinha que pensar no que restava da sua patrulha. " E qual é a situação da Dakar?", perguntou ele, enquanto consultava de novo o mapa táctico. " Já consegui estabelecer comunicações com a I.A. dela e foi informada que a tripulação sofreu baixas mínimas. Em relação à nave propriamente dita, está fora de combate pois as explosões secundária provocadas pela destruição do lançador de mísseis danificaram-na gravem......." " Que se passa?" , inquiriu o Comandante, espantado com o súbito silêncio de Erika. Em resposta à sua pergunta, a I.A. fez aumentar o mapa táctico daquela zona, de forma a abarcar toda a batalha que se desenrolava junto da cintura de asteróides. De seguida destacou a vermelho um grupo de vinte naves que aparentemente tinham abandonado essa batalha, tomando a direcção da patrulha terrestre. " Há 99% de possibilidades de estas naves serem uma nova força de ataque.", disse Erika, acompanhando a sua frase com uma série de esquemas que mostravam que o perfil de radar das naves inimigas era igual ao daquelas que os tinham atacado anteriormente. " Desta vez não me vão apanhar desprevenido..........", pensou Trent para si mesmo. A Marinha da Força de Defesa Terrestre ia proporcionar aos extraterrestres uma pequena surpresa. "Erika, avisa as restantes naves que vamos utilizar armas nucleares...."-ordenou ele, de seguida. Em toda a história da Humanidade, armas desse tipo só tinham sido utilizadas em 6 ocasiões. Duas vezes no século XX, durante o conflito denominado de 2ª Guerra Mundial, em 2050, durante as chamadas Guerras da União em que o Governo Mundial tinha submetido os outrora poderosos Estados Unidos e as três restantes durante a Expansão, como forma de acabar com as tendências autonomistas de algumas colónias terrestres. E agora iriam ser utilizadas contra uma força desconhecida que tinha provado a sua hostilidade contra os Terrestres. " Sim, senhor!", respondeu a I.A., transmitindo de imediato uma mensagem padrão criada de propósito para essa situação. Enquanto a dita mensagem era transmitida, Trent levantou os braços e puxou para baixo uma espécie de braço mecânico que estava suspenso sobre o seu assento. O mecanismo assemelhava-se a um periscópio como aqueles que eram utilizados nos submarinos terrestres do século XX e XXI. Apesar dessa semelhança o mecanismo não passava de um sistema de reconhecimento óptico. Assim que o Capitão encostou os seus olhos ao visor, uma série de sensores começaram uma análise detalhada, comparando os olhos com os dados que tinham armazenados sobre eles. Este sistema, juntamente com a identificação feita pela I.A., eram as formas que a Marinha tinha de se assegurar de que as suas armas nucleares não seriam utilizadas por pessoal não autorizado. Assim que surgiu a mensagem confirmando a identidade do Capitão, este acedeu ao inventário de armas nucleares, escolhendo os mísseis pretendidos que de imediato começaram a ser preparados. Enquanto isso, com a ajuda de Erika, William começou a traçar a estratégia para provocar o máximo possível de danos ao inimigo com aquele ataque. " Com este plano de ataque temos 100% de probabilidades de destruir a força inimiga.", acabou por dizer a I.A. , escolhendo um dos cenários propostos por Trent. " Qual é a margem de erro?" " É mínima. O ataque só falhará se acontecer algo de imprevisto." " Muito bem, então lança os mísseis assim que estiverem prontos." " Sim, senhor!", respondeu Erika e passados alguns segundos assim fez. Com um rugido ouvido e sentido por toda a nave, os três mísseis de cruzeiro saíram dos lançadores laterais da Washington e dirigiram-se a toda a velocidade ao encontro dos Raiders que encurtavam a distância em relação à patrulha terrestre. Os mísseis, comandados por computadores que eram tão poderosos como os computadores centrais de qualquer nave terrestre, seguiram o plano de voo em rigor até ao milímetro. Assim que os seus radares internos pressentiram que as vinte naves estavam a dois quilómetros de distância, manobraram até ficarem lado a lado, separados entre si por cerca de 500 metros. Alguns quilómetros atrás deles, as cargas de demolição a bordo da T.D.F. Brighton detonaram, fazendo com que a nave implodisse silenciosamente sobre si mesma. A bordo dos Raiders, os mísseis já haviam sido detectados mas os Cylons ainda não tinham feito nenhuma tentativa para se desviarem deles. As ordens que tinham eram para atacar as naves desconhecidas e era para isso que se estavam a preparar. Numa manobra programada, dividiram-se em duas formações de ataque de dez naves. Foi nessa altura que o computador central da Nave-Base, que tinha quase todos os seus recursos virados para o ataque à Frota, informou os comandantes dos Raiders do perigo que os mísseis constituíam e aconselhou uma série de manobras de forma a tentarem escapar-lhes. Na altura em que o Raiders iniciaram as ditas manobras, a distância entre eles e os mísseis já se tinha reduzido para um quilómetro. Ao atingir a marca de um quilómetro em relação aos seus alvos, os computadores dos mísseis ordenaram um aumento de velocidade e rapidamente encurtaram a distância para quinhentos metros. Com um último comando coordenaram entre si a sequência da detonação e executaram-na de imediato. Com uma diferença de nanosegundos, os três mísseis detonaram, formando uma enorme bola de fogo nuclear que por momentos iluminou toda aquela zona e quebrou o frio absoluto que existe no espaço. A explosão engolfou os Raiders todos, vaporizando-os de imediato. No interior da Nave-Base, o computador central desta recebeu os últimos microns dos dados transmitidos pelos Centuriões que tripulavam os caças, juntando-os a toda a outra informação recolhida e que era retransmitida em tempo real para o Primeiro-Centurião. - Que foi isto....?- murmurou Sheba para si mesmo, endireitando- se no assento. Ela havia caído de novo na inconsciência, apesar de todos os esforços para se manter acordada. Mas algo a havia despertado de novo e não era difícil ver o quê. O cockpit do Viper estava iluminado por uma luz intensa como se estivesse de novo dentro de um dos hangares da Galactica. A luz vinha do lado esquerdo do Viper e apesar das dores, Sheba atreveu-se a lançar um olhar nessa direcção. A primeira coisa que reparou era que os vidros do cockpit estavam totalmente escuros e que mesmo assim a luz era visível. Ela deu graças aos Senhores de Kobol por alguém ter inventado aquele sistema de polarização para os vidros dos Vipers. A ideia tinha surgido após a travessia do campo de minas em redor de Carillon e era uma maneira de poupar os Guerreiros a súbitas mudanças de luminosidade que os podiam deixar quase cegos e desorientados. - Parece um autêntico sol.....- disse ela, continuando a fitar a bola de fogo que iluminava o espaço à distância. Aos poucos a luminosidade foi-se desvanecendo e a bola de fogo diminuindo, até à altura em que desapareceu por completo. Também os vidros do cockpit retomaram a sua coloração normal o que permitiu a Sheba comunicar com Dietra. - Isto teve alguma coisa a haver com a Frota?- perguntou a Capitã através de gestos. - Não. O Comandante Apollo diz que foram as naves desconhecidas que destruíram um grande número de Raiders.- respondeu a Tenente, o mais rápido possível, tentando ao mesmo tempo prestar atenção às comunicações da Frota. - São nossos aliados?- Sheba sabia que a sua pergunta de certeza que estava a ser repetida por todos os outros Guerreiros envolvidos na batalha e pelos civis que ocupavam as naves da Frota. - Não sabem........- começou Dietra a responder, parando de repente e fazendo um sinal que indicava que em breve iriam ter companhia. Ignorando de novo as dores, Sheba voltou a cabeça na direcção que a Tenente indicava e rapidamente se apercebeu do objecto que se dirigia para os seus Vipers. A fraca luz das estrelas não lhe permitia vislumbrar grandes detalhes do dito objecto que, ainda para mais, estava pintado de negro. Passado um centon, o objecto passou directamente em frente dos Vipers, permitindo que ambas as Guerreiras tivessem uma boa visão dele. Era um cilindro metálico, um pouco menor que um vaivém da Galactica. Da sua traseira saía um rasto de plasma aquecido, o que parecia indicar que se propulsionava por meios próprios e que estava a ser controlado de momento. Mas o mais interessante não era isso. De facto o que tinha chamado a atenção a Dietra e Sheba eram uma série de sinais que apareciam pintados a branco na superfície do objecto, perto do seu nariz. Embora nenhuma dela conseguisse ler o que lá estava escrito, aqueles símbolos pareciam-lhes conhecidos. Era algo que elas já tinham visto, mas que não se conseguiam lembrar, como que uma recordação de infância que se lhes escapava. Assim que o objecto passou à frente do Viper de Dietra, o seu motor pareceu falhar e a chama acabou por se apagar por completo passados alguns microns. Sheba olhou para o Viper da sua colega de patrulha e viu que este se estava a posicionar directamente virado para o objecto que agora estava parado no espaço. Um centon depois Dietra manobrou o seu caça de volta à sua antiga posição e informou Sheba de que tinha feito uma sondagem com os seus sensores ao objecto. - E então?- inquiriu Sheba, impaciente por saber novidades. A Tenente respondeu-lhe simplesmente que os tripulantes eram Humanos, mais concretamente cinco do sexo masculino e três do sexo feminino. O objecto tinha atmosfera própria, assim como uma fonte de energia que de momento estava desligada e não apresentava qualquer indício de ter armamento. Sheba engoliu em seco, sem saber o que fazer. A alguns metrons de distância dos Vipers estavam outros Humanos. Seriam finalmente estes os descendentes da 13ª Tribo? Assim que as informações do computador central da nave tinham activado a sub-rotina do seu cérebro, o Primeiro-Centurião tinha virado a sua atenção para o ataque às naves desconhecidas. Os sensores da Nave-Base tinham-se virado para essa zona do espaço na altura em que a deflagração nuclear atingia o seu apogeu. O ecrã central da Ponte mostrava em todo o seu esplendor mortífero a bola de fogo que tinha destruído os vinte Raiders. - Centurião, o teu relatório.- ordenou o Primeiro Centurião, fazendo girar o seu pedestal na direcção do ciborgue prateado que estava de serviço na consola dos sensores. - Pelo seu Comando!- respondeu o Centurião antes de começar a recitar os dados recolhidos pelos sensores de longo alcance da Nave-Base. A explosão tinha sido quase o equivalente a um disparo dos Mega-Pulsares, mas tinha uma série de efeitos secundários, nomeadamente a nível da libertação de radiações e impulsos electromagnéticos, que estes não tinham. Os cérebros do Primeiro-Centurião juntaram essa informação à outra anteriormente recolhida e processaram-na. Aparentemente os outros Humanos pareciam possuir capacidades bastantes avançadas e até então desconhecidas. Primeiro, utilizavam mísseis para abater caças e segundo, eram capazes de armar esses mísseis com ogivas com potência equivalente a um Mega-Pulsar. Eles eram definitivamente um problema que tinha que ser tratado. Todos os programas tácticos do Primeiro-Centurião lhe diziam isso. Virando-se para o Centurião responsável pelas operações dos Raiders, o Primeiro-Centurião deu ordens para que todos os caças se afastassem da Nave-Base e que continuassem a seguir os seus planos de ataque. As naves que estivessem a ficar sem combustível deveriam recuar até junto da abertura na cintura de asteróides e aguardar até que a Nave-Base regressasse. Assim que as suas ordens foram cumpridas, o Primeiro-Centurião virou o seu pedestal para o responsável pela navegação, dizendo: - Marca um rumo para as naves inimigas e executa a aceleração para a velocidade luz. Ao dar esta ordem, teve uma sensação estranha, parecendo sentir como que um arrepio de frio, o que sabia ser impossível pois a sua armadura mantinha o que restava do seu corpo orgânico a uma temperatura constante. O que teria sido aquilo então? Nunca lhe passou pela cabeça que aquilo pudesse ser medo, outro vestígio do seu tempo como ser orgânico, uma emoção que mais se assemelhava a uma recordação, enterrada como estava debaixo de uma programação maciça. A bordo da Ponte da Washington, os gritos de alegria dos tripulantes fizeram-se ouvir assim que os mísseis nucleares detonaram. Trent deixou que um sorriso lhe surgisse nos lábios, enquanto fitava as imagens da explosão que lhe eram transmitidas pelas câmaras no exterior da nave. "Isto soube bem.........", pensou para si mesmo. Os extraterrestre tinham começado a pagar pelo que tinham feito. Por momentos passou-lhe pela cabeça que provavelmente tinha morto uma série de seres vivos, de forma a compensar a morte de outros seres vivos. Por mais avançados que fossem, os Homens não deixavam de ser movidos por paixões e emoções. A satisfação que sentia por ter destruído aqueles inimigos era igual aquela que os seus antepassados que viviam em cavernas tinham sentido ao matarem os animais ou os outros humanos que punham em perigo as suas tribos e famílias: " É esta a nova Natureza e não há nada a fazer........" Com esta conclusão, virou de novo a sua atenção para o mapa táctico que aparecia suspenso no ar, à frente dos seus olhos. De momento, a única coisa que era preocupante era o facto de que a cápsula da Ponte da Brighton estava a dirigir-se ao encontro das duas naves que a Dakar e a Lisbon tinham encontrado na primeira vez em que haviam saltado até aquela zona. " Erika, tenta contactar a cápsula B1........", começou ele a subvocalizar, antes de se aperceber que havia uma pequena janela aberta no canto inferior do mapa. Com uma ordem mandou abrir essa dita janela e ampliar o seu conteúdo. Ao ler a mensagem que lá aparecia e que estava a ser constantemente repetida, verificou em que canal rádio é que estava a ser recebida e abriu-o. O que ouviu estava a ser dito numa língua que ele não conseguia identificar e que nem sequer se parecia com algo que ele tivesse ouvido antes. " Erika, que raio é isto?", subvocalizou ele para a I.A., enquanto pedia ao computador central da nave para continuar a monitorizar e a gravar aquela mensagem. A I.A. pareceu hesitar um pouco antes de responder ao que lhe era perguntado. " É a transcrição de uma mensagem interceptada numa onda rádio extremamente baixa. A mensagem teve início às 22:34:62 do dia 25 de Março de 2281 e está a repetir-se a cada 30 segundos." " E qual é a sua origem?", inquiriu Trent, embora quase pudesse adivinhar a resposta. " É a nave que esta no centro da frota que está a ser atacada." " Que língua é que estão a falar, Erika?", perguntou, começando a sentir-se um pouco irritado com a situação. Para seu espanto, a I.A. não respondeu e ele insistiu novamente: " Erika, que língua é esta? É Humana?" Perante o silêncio dela, William decidiu que o melhor era tentar uma abordagem ainda mais directa. " Erika, ordeno-te que me dês uma resposta.........." Esta sua ameaça pareceu surtir efeito pois passados alguns segundos a voz da I.A. fez-se ouvir de novo. " Infelizmente não posso obedecer a essa ordem." Definitivamente essa não era a resposta que o Capitão estava à espera e de imediato fez saber isso a Erika. " Como assim? Porque que é que não podes?" " Eu nem sequer sei como é que estou a traduzir esta mensagem.........".- respondeu a I.A. num tom de voz que Trent só podia classificar como preocupado. " Muito bem, Erika. Ordeno-te que faças já um teste auto- diagnóstico......", ordenou o Capitão, seguindo os passos que lhe tinham ensinado para quando havia problemas com as I.A. Durante quase meio minuto, a pequena estrela que lhe surgia no canto da sua visão e que representava a I.A. parou de piscar, indicando que ela estava a correr o dito programa, tal como lhe tinha sido ordenado. Assim que o símbolo voltou a piscar, a voz de Erika fez-se ouvir de novo. " Já detectei o erro. Houve uma acesso não autorizado por um programa a uma das minhas memórias, mais concretamente a um bloco de Planeamento e Estratégia." Quando a I.A. lhe deu esta informação William lembrou-se de imediato do problema que o Capitão Lopes tinha tido na sua nave. Seria o mesmo erro? Aparentemente havia um erro que fazia com que Erika tivesse acesso a informações que estavam armazenadas em zonas às quais não deveria ter acesso. Embora Lopes o tivesse avisado que aquilo que ele iria tentar a seguir não iria funcionar, Trent tinha que experimentar por si para acreditar. " Erika, deixa-me ver o conteúdo desse bloco de memória." " O senhor não tem um nível de autorização suficiente para aceder a essa informação!" "Muito bem.........., pensou ele para si mesmo. O Capitão Lopes tinha razão, mas ele não iria desistir tão facilmente. " Erika, qual é o meu nível de autorização?" " O seu nível de autorização é MAJ-6" " Qual o nível necessário para ter acesso ao bloco de memória?" " O senhor não tem um nível de autorização suficiente para aceder a essa informação!" " Então quem é que tem?" A I.A. pareceu hesitar alguns segundos antes de responder e o seu tom de voz dizia tudo: " Eu não sei dizer........" O Capitão pensou em insistir ainda mais, mas rapidamente mudou de opinião. Não queria fazer a Erika aquilo que Lopes tinha feito a Drake. Assim que voltassem a uma base da Marinha, pediria a um técnico que era seu amigo, para ver, não oficialmente, qual o problema. Para já iria deixar esse mistério de lado. Voltando a sua atenção para o mapa táctico, Trent teve apenas tempo de ver a nave que estava a lançar os caças contra a sua patrulha a desaparecer do radar. Logo de seguida uma série de alarmes começaram a tocar a bordo da Washington e Erika projectou-lhe de imediato a imagem que estava a ser captada pelas câmaras exteriores da nave. A nave alienígena estava agora a pouco mais de meio quilómetro da patrulha terrestre! As duas naves que estavam mais perto da maciça nave extraterrestre eram a Havana e a Lisbon. Na Ponte de Comando da primeira, o Capitão Hugo Perez estava a imerso a observar as imagens da batalha que se travava perto do Anel da Morte. É claro que as câmaras não tinham capacidade para mostrar grandes detalhes àquela distância, mas pelo menos podia-se ver os clarões provocados pelas explosões. Além do mais era uma maneira de ele se manter distraído e não pensar muito no que havia acontecido à Brighton e à Dakar. De repente houve uma espécie de clarão a alguns metros da sua nave e uma das câmaras rapidamente focou essa zona. A última coisa que ele viu foi algo que parecia uma aparição de outro mundo. Uma imagem translúcida de um disco enorme que aos poucos foi tomando um aspecto mais sólido. Mesmo fazendo recuar a câmara, esta só conseguia abarcar a parte direita do disco na sua totalidade e uma espécie de torre central que parecia sair do centro deste. - Meu Deus!! A nave é enorme!!!!!!- berrou ele, fazendo com que todos na Ponte olhassem na sua direcção. Foi nessa altura que a Nave-Base saiu da velocidade luz e o impulso electromagnético dos seus motores atingiu a Havana e a Lisbon, mergulhando ambas na escuridão. "Que se passa, Gloria?", subvocalizou Perez assim que todos os sistemas da Havana se desligaram, totalmente amedrontado com aquilo que vira. Ele nem sequer se tinha apercebido que a I.A. era também um dos sistemas atingidos. Infelizmente o Capitão Hugo Perez nem seque teve tempo para formular mais nenhum pensamento ou para sequer dizer uma oração pois a Nave-Base abriu fogo com todos as baterias laser que tinha apontadas para a Havana e com uma salva apenas fê-la explodir. - Alvo adquirido.- disse o Centurião responsável pelas armas. Assim que tinha destruído a primeira nave humana havia procurado outro alvo para abater com as poderosas baterias laser da Nave- Base. - Fogo!- ordenou o Primeiro-Centurião do alto do seu pedestal. A sensação que o tinha avassalado na altura em que tinha ordenado o salto tinha desaparecido perante o sucesso do seu ataque. - Pelo seu Comando!- entoou o Centurião, accionando de novo as baterias que estavam viradas para a outra nave terrestre. O Capitão Lopes tinha ficado desorientado com a aparição daquela nave gigante e com a subsequente perda de energia, mas devido ao facto da sua nave ser muito mais pequena e com muitos menos sistemas, em pouco menos de 20 segundos já tinha começado a recuperar a energia. A primeira coisa que viu assim que os radares voltaram é que a Havana já não estava ao seu lado e que a nave alienígena ainda estava, o que só podia ser um mau sinal. Sem hesitar, berrou de imediato para o oficial responsável pela navegação: - Toda a energia para os motores e velocidade máxima para a frente!!!! O oficial assim fez, carregando num botão na sua consola que de imediato transferiu a emergia de todos os sistemas para o sistema dos motores. De imediato os reactores da nave aumentaram a potência e duas longas chamas de plasma iluminaram aquela zona do espaço. A acção do Capitão Lopes e a rapidez do oficial salvaram a vida da maior parte dos tripulantes da Lisbon pois a aceleração foi suficiente para tirar a nave do campo de tiro da maior parte das baterias da Nave-Base. Mesmo assim cerca de cinco tiros atingiram a nave terrestre e pura e simplesmente arrancaram-lhe toda a sua parte traseira. Sem os motores para corrigir o rumo, a nave de reconhecimento começou a executar uma série de voltas sobre si mesma, afastando-se cada vez mais do resto da patrulha terrestre. A Nave-Base virou-se então para as restantes naves terrestres. Estas manobravam entre si, numa tentativa desesperada de apontarem o maior número possível de baterias de mísseis à nave alienígena. " Abram fogo!!", ordenou William aos outros Comandantes, à medida que as naves iam tendo soluções de tiro. Assim que o oficial responsável pelas armas da Washington anunciou que também tinha uma solução, o Capitão ordenou-lhe que abrisse fogo com todas as baterias. A Washington inteira tremeu perante a força dos oito mísseis que saíram dos seus lançadores laterais e que se juntaram às salvas das outras naves terrestres. As duas corvetas de ataque que restavam, a Cabul e a Freetown, pareciam querer vingar a destruição da Cuba e por isso tentaram encurtar a distância com a Nave-Base de modo a utilizarem os seus lançadores frontais de torpedos, cujo alcance era mais curto do que o dos mísseis. "Achmed e Jones, recuem de imediato!!!", disse Trent assim que se apercebeu do que os Comandantes das duas corvetas estavam a tentar fazer. "Só mais uns metros.....", foi a resposta que lhe surgiu na mente, vinda do Capitão Jones, o Comandante da Freetown. O outro nem sequer se dignou a responder, continuando a avançar. "Isto foi uma ordem! Recuem já!", insistiu William, acima de tudo espantado com a atitude dos seus subordinados. Pelos vistos Ossan não era o único a achar que era normal desobedecer aos seus superiores! "Sim senhor!", respondeu Jones e, passados alguns momentos, também Achmed. Mas durante toda esta troca de palavras as corvetas tinham chegado onde queriam e antes de recuarem abriram fogo com os seus torpedos. As baterias laser da Nave-Base, que eram capazes de seguir Vipers a toda a velocidade, começaram de imediato a abater os mísseis lançados pelos terrestres mas mesmo assim houve alguns que, devido às suas manobras, conseguiram escapar e explodir contra a gigantesca nave inimiga, não lhe provocando grandes estragos pois a sua blindagem exterior era extremamente forte. Em relação aos torpedos, estes tinham uma vantagem sobre os mísseis. Visto que eram muito maiores que estes últimos, os seus construtores tinham-lhe dado um motor muito maior e uma ogiva explosiva a condizer. Assim, os quatro torpedos lançados pelas duas corvetas aceleraram a uma velocidade enorme em direcção à Nave-Base, parecendo pequenas estrelas em movimento. As baterias laser, embora fossem rápidas, estavam ocupadas a destruir a vaga de mísseis e assim não foram capazes de destruir os torpedos que avançavam sobre a nave. Sem nada que os impedisse, os quatro torpedos embateram no rebordo do disco inferior da Nave-Base, separados entre si por meros centímetros, mergulhando toda essa zona numa explosão de luz. Quando esta se dissipou, ficou claro que os torpedos tinham feito estragos pois era visível que faltava um bocado a essa parte do disco. Um enorme buraco adornava essa zona e uma série de explosões internas deitavam chamas que rapidamente morriam no vácuo do espaço. " Peço permissão para continuar o ataque....", ouviu Trent na sua cabeça, surgindo-lhe a imagem do Capitão Jones: " Os nossos torpedos parecem surtir mais efeito que os mísseis..." " Negativo....", respondeu ele, levantando mentalmente a mão para interromper as objeções que o seu subordinado iria de certeza levantar: " Aquela vossa manobra foi muito arriscada e não nos podemos dar ao luxo de perder mais naves!" Enquanto dizia isto, Trent sentiu o convés metálico por baixo dos seus pés tremer, sinal de que a Washington estava a disparar de novo. Aumentando o mapa táctico apercebeu-se que o resto da patrulha também o estava a fazer e uma segunda vaga de mísseis encaminhava-se para a nave alienígena. " Os torpedos são a nossa única vantagem nesta luta e acho que a devíamos utilizar..........", insistiu Jones. William sabia que o outro Capitão tinha razão mas, por outro lado, via os possíveis resultados da tentativa de repetir a manobra. De certeza que os alienígenas iriam estar preparados desta vez. "Erika, há alguma manobra com a qual possamos utilizar as armas da Cab....", a sua pergunta ficou a meio pois, numa súbita aceleração, a nave alienígena encurtou a distância para com o grupo onde estava a Cabul e Freetown, abrindo fogo contra essas duas naves. - Os dois alvos foram destruídos.- Com esta simples frase, o responsável pelas baterias da Nave-Base assinalava a morte de 200 seres humanos. É claro que não sentiu nenhum tipo de remorsos pelo que tinha feito. O seu cérebro mecânico, implantado à nascença, não lhe permitia ter nenhum tipo de emoção, mesmo que ele soubesse o que isso era. Os sensores da Nave-Base mostravam-lhe uma terceira nave a acelerar e a afastar-se dos destroços das naves que tinha acabado de destruir. Seleccionando as baterias que tinham melhor campo de tiro e que não estavam a disparar contra a segunda vaga de mísseis inimigos, o Centurião fez pontaria ao motor da nave e pediu autorização ao Primeiro-Centurião para disparar. - Fogo!- respondeu, de imediato, este último. - Pelo seu Comando!- disse o Centurião, enquanto accionava as baterias. Os disparos de pelo menos quatro das seis baterias acertaram em cheio na zona escolhida, destruindo-a por completo, causando uma enorme explosão secundária e parando a nave no espaço. Antes que o Centurião pudesse disparar uma segunda vez, um dos mísseis disparados pelas naves terrestres, num incrível acaso, conseguiu escapar às baterias laser da Nave-Base e atingiu em cheio uma delas, provocando a destruição desta. O Primeiro-Centurião pediu de imediato um relatório dos danos na defesa da Nave-Base ao computador central e ordenou ao Centurião para que virasse todas as baterias contra os mísseis inimigos. Segundo o computador, a Nave-Base tinha perdido cerca de 5% da cobertura laser ao perder aquela bateria. Isso podia trazer alguns problemas se o inimigo concentrasse os seus disparos na zona que estava agora sem bateria. Aqueles humanos estavam a revelar-se extremamente persistentes, embora não chegassem ao nível dos Coloniais, especialmente no que dizia respeito às naves. Quando tinham conseguido atingir a sua nave pela primeira vez, tinha ficado preocupado, nem que fosse pelo facto de que a explosão quase que o tinha atirado do pedestal abaixo. Felizmente a zona atingida não possuía nenhum sistema vital para o funcionamento da Nave e as baixas haviam sido mínimas. O que o intrigava era o poder que os mísseis inimigos tinham, especialmente aqueles que tinham destruído a segunda vaga de Raiders. Os seus cérebros interrogavam-se porque é que os Humanos ainda não os haviam utilizado de novo, especialmente contra a Nave-Base. A única resposta possível era que eles não conseguiam controlar completamente a explosão e que por isso não os podiam utilizar perto das suas próprias naves. Isso era algo que ele podia explorar. Verificando novamente os dados dos sensores, o Primeiro- Centurião ordenou uma mudança de curso e rapidamente a Nave-Base tomou a direcção por ele escolhida. "Assim não a conseguimos vencer........", pensou Trent, não se apercebendo que estava a subvocalizar a ideia. "Os meus programas de estratégia apontam para uma probabilidade de 10% de vencermos esta batalha se continuarmos a actuar desta maneira.", disse Erika, aumentando a preocupação do Comandante. Voltando a sua atenção para o mapa táctico e para o número cada vez mais pequeno de naves sob o seu comando, Trent viu que a nave alienígena estava a aproximar-se da Oslo, que estava imobilizada e a lançar as cápsulas de salvamento à medida que a sua tripulação a abandonava. Mudando para as câmaras exteriores e focando a fragata, Trent ficou com a impressão momentânea de que o inimigo a iria abalroar, mas tal não aconteceu, acabando por se imobilizar a alguns metros da Oslo. Pelo menos duas das cápsulas de salvação chocaram com o casco da gigantesca nave e explodiram, não lhe provocando no entanto nenhum dano visível. "Cessar fogo!", ordenou o Comandante às outras naves. Não se podiam arriscar a continuar a disparar mísseis com a Oslo e as cápsulas de lançamento pelo meio e ele também não iria arriscar mais naves a tentar atacar a nave alienígena pelos flancos ou por trás. "Comandante, vou interromper a evacuação!!!", ouviu ele de repente, surgindo-lhe na mente a imagem do Capitão da Oslo: " A nave está muito perto de nós..." "Conseguem aguentar a situação?" A figura do seu interlocutor ficou estática, sinal de que estava a comunicar com alguém, provavelmente com a sua I.A. . Quando voltou a falar as notícias não eram boas: "A destruição dos motores provocou uma série de sobrecargas eléctricas pela fragata toda e por isso temos uma série de incêndios em vários compartimentos." Parando por momentos, o Capitão da Oslo partilhou com William um esquema da sua nave e destacando um compartimento em especial, antes de continuar: "Este incêndio é o mais problemático........" Trent percebeu de imediato a razão da preocupação do seu subordinado. A Oslo era uma das fragatas de modelo antigo e os seus paióis não eram tão bem protegidos como os das classes posteriores. O fogo grassava nos compartimentos pegados a um dos paióis e mais tarde ou mais cedo iria alastrar. "Há alguma maneira de abrirem o compartimento para o vácuo e apagarem o fogo?" A figura mental do Capitão abanou a cabeça em sinal de frustração: "A maior parte dos circuitos nessas áreas foram destruídos e por isso a I.A. não pode fazer isso. A única solução era mandar alguém para rebentar o casco por fora, mas acho que de momento não há voluntários........" "Mas vocês têm de deter o fogo de qualquer maneira.", disse William, apesar de saber que o que estava a dizer era algo que o Capitão da Oslo já sabia. A partir do momento em que a nave alienígena se tinha aproximado da fragata em perigo, todas as chances de evacuação desta tinham terminado. "Peço desculpas por me estar a meter na conversa, mas há ainda outro problema", interrompeu Erika, chamando a atenção para o mapa táctico e para a disposição das naves: "Segundo os meus cálculos as armas do inimigo tem capacidade para atingirem qualquer das nossas novas...... "Enquanto que nós estamos limitados por causa da minha nave..., certo?", perguntou o Capitão da fragata atingida, chegando rapidamente à mesma conclusão do que a I.A. da Washington. Antes que Erika pudesse responder à questão, e provando que estava certa, a nave alienígena abriu fogo com algumas das suas baterias, atingindo de leve uma das fragatas. "Não podemos ficar aqui, à espera que ela nos destrua a todos.........", pensou William, retorcendo-se na sua cadeira como que se essa conclusão a tornasse desconfortável. Mas foi exactamente ao pensar isso que lhe surgiu uma solução aparente para o problema. O cerne da questão estava no "aqui". Eles estavam numa posição de desvantagem mas havia maneira de mudar essa situação! Virando-se para o Capitão da Oslo, Trent começou a delinear o seu plano enquanto que convocava os Comandantes das outras naves. Assim que todos estavam presentes, incluindo as I.A., ele repetiu a sua ideia e, perante os acenos afirmativos dos outros, rapidamente começou a implementa-lo. - As naves humanas que ainda estavam activas desapareceram.- informou o Centurião encarregue dos sensores da Nave-Base. - Desapareceram, como?- inquiriu o Primeiro-Centurião, girando o seu pedestal de forma a ver o seu subordinado. Como o seu plano de se esconder atrás de uma das naves inimigas tinha tido sucesso, ele havia desviado momentaneamente a sua atenção para os Raiders que atacavam a Frota. - Houve um aumento de energia nas naves e estas desapareceram dos nossos sensores. Não foi detectado o uso da velocidade luz. Este dado era mais um a acrescentar à lista, cada vez maior, de surpresas que estes Humanos possuíam. O seu nível tecnológico podia não ser tão elevado como o dos Coloniais, mas era bastante alto e capaz de trazer problemas aos Cylons. Era importante que todos os dados desta batalha fossem gravados para depois serem retransmitidos para o resto do Império Cylon. - Liguem os sensores de longo alcance e procurem essas naves.- ordenou o Primeiro-Centurião, num súbito palpite. Os seus cérebros indicavam que não era costume os Humanos abandonarem os seus, portanto aquelas naves não deveriam ter ido muito longe, visto que nas imediações da Nave-Base havia ainda 3 naves danificadas e uma série de pequenos objectos com humanos lá dentro. A confirmação que o seu palpite estava certo surgiu quase de imediato, quando o Centurião a quem ele tinha dado a ordem, respondeu: - As naves foram readquiridas. Estão a 100 metrons da nossa posição actual. - Tracem um novo rumo e acelerem para a velocidade luz. - Pelo seu Comando. Os saltos hiperespaciais podiam ser seguros, mas a verdade é que não eram nada agradáveis. No momento em que começavam, o tempo parecia parar e, por momentos, sentia-se uma paz absoluta pois dava-se aquilo a que os cientistas chamavam de "privação sensorial absoluta". Assim que o salto acabava, dava-se exactamente o contrário e os sentidos das pessoas pareciam ser "assaltados" todos ao mesmo tempo. Era por isso que era costume os saltos serem espaçados no tempo, de forma a dar tempo para as pessoas recuperarem daquela desorientação sensorial. "É uma pena que não vá ser assim.....", pensou Trent, enquanto começava a sentir a habitual dor de cabeça que acompanhava dois saltos hiperespaciais no mesmo dia. Chamando Erika, deu-lhe ordens para executar a segunda parte do seu plano e, passados alguns segundos, sentiu sob os seus pés o disparo de mais dois mísseis. Enquanto seguia a trajectória dos ditos mísseis a afastar-se da patrulha seguindo um rumo pré-programado, observava o rosto dos oficiais da Ponte e viu que todos estavam extremamente tensos. Gostava de poder dizer-lhes que tudo iria correr bem, mas a verdade é que ele próprio não tinha a certeza. Tudo dependia da reacção da nave alienígena. Passado cerca de um minuto de terem saltado para aquela zona, surgiu-lhe na mente a forma do Capitão da Oslo. "Comandante, estamos a detectar um aumento de energia na nave inimiga", informou este último: " A minha I.A. diz que não é semelhante aquele que surge quando a nave dispara os seus lasers......" "Obrigado, Capitão.", respondeu Trent, cortando a ligação com a fragata que tinham deixado para trás e ligando o sistema de som interno da Washington antes de continuar: - Atenção a todos os tripulantes, vamos efectuar um salto de emergência a qualquer momento. Estejam preparados! Este aviso estava a ser repetido nas outras naves da patrulha, ao mesmo tempo que Erika se ligava às outras I.A. de forma a fazerem um salto coordenado. "Odeio este tipo de espera........", disse ela a Trent, surpreendendo-o. Não era muito normal uma I.A. exprimir desta maneira o que pensava. Era mais uma prova de que elas eram quase humanas.... "Eu também não gosto nada, Erika...", acabou ele por dizer. Antes que pudesse acrescentar mais alguma coisa, as câmaras da Washington captaram o aparecimento da imagem fantasma que anunciava a chegada da nave alienígena. "Salto hiperespecial!", ordenou William no momento em que a dita nave se materializou por completo. Numa fracção de segundo a patrulha terrestre saltou de novo para junto das naves terrestres imobilizadas. Os computadores à bordo dos mísseis disparados pela Washington detectaram a chegada de uma nave que estava dentro dos seus parâmetros de ataque e rapidamente deixaram os seus modos de busca, marcando um novo rumo e acelerando na direcção do alvo. - As naves humanas voltaram a desaparecer. Esta foi a primeira frase que o Comandante da Nave-Base ouviu assim que saiu da velocidade luz e sinceramente não era aquilo que esperava. Mas o pior ainda estava para vir pois logo de seguida o mesmo Centurião voltou a trazer uma má notícia: - Estou a detectar dois mísseis a vir na nossa direcção. - Destruam-nos.- ordenou o Primeiro-Centurião, sem qualquer tipo de hesitação. Os seus dois cérebros tinham disparado uma série de alarmes, avisando-o de que havia grandes hipóteses de terem caído numa armadilha. - Pelo seu Comando!- disse o Centurião encarregue das baterias da Nave-Base. Com um comando rápido escolheu as baterias com uma solução de tiro e abriu fogo. Os mísseis estavam a um quilómetro do alvo e a accionar as suas ogivas nucleares de proximidade quando os tiros laser da Nave-Base os atingiram. No caso de um deles, os tiros foram limpos e acertaram-lhe em cheio, destruindo-o por completo. No outro, um dos tiros atravessou-o, cortando a ogiva do resto do corpo e destruindo este último. Nos nanosegundos que demorou até a ogiva se aperceber que já não tinha nada que a pudesse levar até ao alvo e por isso iniciar a sua detonação, uma série de outros disparos acertou-lhe, interrompendo o processo. Mesmo não tendo o máximo de potência , a explosão era de tamanho suficiente para atingir a Nave-Base. O Primeiro-Centurião sentiu todos os sistemas da sua nave a falharem, assim que o pulso electromagnético que precedia a explosão a atingiu, e de seguida sentiu tudo à sua volta a ficar de pernas para o ar enquanto que toda a Nave-Base era sacudida violentamente. Totalmente desamparado, foi projectado do seu pedestal para aquilo que até então era o tecto e logo de seguida caiu para o chão, quando os giroscópios internos dispararam os motores auxiliares de forma a parar a cambalhota que a gigantesca nave estava a fazer sobre si mesma. Uma das paredes internas da Ponte cedeu, caindo com um enorme estrondo em cheio num dos postos de comando e na figura inerte do Centurião que o ocupava. Por toda a Nave-Base ouvia-se o chiar do metal forçado à medida que ela se endireitava. Um cheiro a queimado encheu toda a Ponte à medida que uma série de incêndios deflagravam. Levantando-se do chão com um esforço, o Primeiro-Centurião viu que a maior parte dos seus sistemas cibernéticos estavam com problemas e estavam a reiniciar. Os seus dois cérebros diziam que os sistemas estavam apenas a funcionar a 52.34% das suas capacidades. Contactando o computador central , ele viu que a situação da Nave-Base também não era boa. Mais de metade dos sistemas tinha deixado de funcionar e não parecia haver maneira de os pôr a funcionar. Mas o pior eram os danos estruturais. A explosão tinha destruído parte dos dois discos, incluindo uma das entradas para o hangar inferior. Esse hangar estava em chamas e havia o perigo de atingir os depósitos de combustível para os Raiders. Havia secções inteiras da nave que estavam em chamas e destruídas. Por momentos uma imagem passou-lhe pela cabeça: um enorme monstro feito de chamas a dar uma dentada nos discos da Nave-Base e a soprar chamas lá para dentro através do buracos que tinha feito. Os seus cérebros suprimiram de imediato essa imagem, dando- lhe a explicação lógica de que tinha sido uma explosão a provocar esses estragos e redobrando os esforços para reactivar os seus sistemas cibernéticos, especialmente aqueles ligados às funções lógicas. Aos poucos os Centuriões foram-se levantando do chão e retomando os seus postos. Apenas dois deles não o fizeram, sendo um deles aquele que tinha sido atingido pelos destroços da parede e o outro um que tinha sofrido a perda total dos seus circuitos cibernéticos. Assim que os sistemas mínimos da Nave-Base voltaram a funcionar, o Primeiro-Centurião ordenou que se traçasse um rumo para as imediações da abertura na cintura de asteróides. Infelizmente um dos sistemas que não funcionava era aquele que fazia descer o seu pedestal de forma a ele poder sentar-se lá e portanto o Primeiro-Centurião teve de fazer aquela viagem em pé, algo a que já não estava acostumado. Uma série de gritos de alegria encheram a Ponte da Washington, à medida que os tripulantes viam a Nave-Base a afastar-se na direcção da cintura. Era uma pena que ela não tivesse sido destruída de imediato, mas aquele desfecho também era bastante bom. "Parabéns, Capitão.", disse Erika, juntando o seu cumprimento a todos aqueles que estavam a ser feitos pelos Capitães das outras naves da patrulha. Trent tinha apostado que a nave alienígena os iria seguir e tinha preparado a sua armadilha com base nisso. Felizmente que a sua aposta tinha saído certa, senão o mais certo seria ele não estar ali para comemorar. - Capitão, estou a detectar sinais hiperespaciais! - informou um dos oficiais que, apesar de estar a comemorar, não tinha afastado os olhos dos sensores de longo alcance da fragata. "Erika, mapa táctico!", ordenou de imediato Trent, enquanto que agradecia a informação ao seu subalterno. Assim que a imagem lhe surgiu, suspensa mentalmente no ar à sua frente, Erika destacou a área onde estavam a ser detectados os sinais. Era algures entre a sua patrulha e a cintura de asteróides e foi aí onde ele focou as câmaras de longo alcance da Washington. Sempre que uma nave se preparava para sair do hiperespaço, havia sinais visuais de que isso ia acontecer. De facto, o salto era sempre acompanhado por uma espécie de aura luminosa, que começava por ser branca e que depois passava por quase todas as cores do espectro. Essa aura tinha as mesmas características em todas as naves terrestres, sendo uma forma fácil de as identificar, distinguindo-se apenas num pormenor. Quanto maior fosse a nave, maior seria a aura e era por isso que Trent ficou espantado. Tinham surgido naquela área do espaço cerca de 25 auras e uma delas era imensa. "Qual é a nave que tem aquele tipo de assinatura hiperespacial?", perguntou ele a Erika, mas antes que esta pudesse responder, as naves materializaram-se no espaço normal e uma voz fez-se ouvir na frequência da patrulha: - Daqui fala o Almirante Kane Dawson, a bordo do cruzador T.D.F. Haematsu. Os reforços chegaram! Mais uma vez os gritos de alegria fizeram-se ouvir e, pela primeira vez, desde que aquilo tinha começado, o Capitão William Trent suspirou de alívio. O sentimento de alegria não era compartilhado pela tripulação à bordo da Ponte da Haematsu. A razão era simples: a maior parte não gostava do homem que estava a comandar aquele Grupo de Ataque. O Almirante Kane Dawnson era um desconhecido e tinha sido com incredulidade que a tripulação tinha recebido a notícia de que ele iria comandar o cruzador naquela missão, substituindo o Capitão Hiro. Para além disso, tinham sido mandados a toda a velocidade para aquela zona, o que equivalia a 5 saltos hiperespaciais em menos de 4 horas, o que era uma loucura. Pelo menos 28 tripulantes já tinham ido para o Posto Médico inconscientes e muitos mais tinham-se sentido mal, de tal maneira que ainda agora um cheiro pestilento a vómito enchia a Ponte, apesar de toda a ventilação e dos pequenos robots de limpeza. - Lancem os caças!- ordenou o Almirante assim que acabou de transmitir a mensagem para a patrulha e enquanto o resto das naves sob o seu comando tomavam posições de defesa em redor do cruzador. - Sim.....senhor....- respondeu, com má vontade, o Tenente Merril, o Comandante de Esquadrilha responsável pelo pequeno complemento de caças a bordo do Haematsu. O Almirante fingiu não reparar na insolência do seu subalterno e esforçou-se por estabelecer o contacto com o Capitão William Trent, o Comandante da patrulha naquela região. Ainda não se tinha habituado a falar através daqueles implantes cibernéticos. Tinham-lhe dito que a melhor maneira de dar ordens ao implante era falar-lhe numa língua diferente daquela com que pensava, pois assim não havia confusão de pensamentos. O método era bom, mas mesmo assim...... Quando finalmente o seu implante comunicou o seu pedido à I.A. do cruzador e esta comunicou com a sua semelhante da Washington, já os caças estavam a deixar as suas baías de lançamento laterais e a assumirem posições de defesa à volta do Grupo de Ataque. A figura mental do Capitão Trent surgiu-lhe à frente dos olhos, fazendo-lhe continência e ele automaticamente respondeu, mas no mundo real, o que lhe valeu alguns risos de escárnio por parte de alguns tripulantes. "À vontade, Capitão.", acabou ele por conseguir dizer, formando uma imagem virtual de forma a comunicar com o seu interlocutor: "Que me pode dizer sobre a situação?" O Comandante Trent começou a fazer um relatório sobre o que tinha acontecido, dando uma ênfase especial aos danos causados pela nave principal do inimigo. Assim que terminou a sua comunicação, o Almirante virou a atenção para a batalha que se dava perto da cintura de asteróides. Os sensores do cruzador rapidamente identificaram a forma maciça da nave descrita por Trent. - Preparar canhão principal! - ordenou Dawson, enquanto focava a sua atenção na dita nave. Os danos provocados pelos mísseis nucleares da Washington eram bem visíveis, mas mesmo assim a nave ainda continuava em funcionamento. De repente, surgiu-lhe na cabeça o nome "Nave-Base". Aquela nave era uma Nave-Base. Por momentos, Kane pensou de onde é que lhe teria vindo aquele nome, mas a verdade é que não fazia a mínima ideia. Mas ao voltar de novo a sua atenção para a imagem transmitida pela câmara, teve a noção de que aquele nome estava correcto. Enquanto isso, nas entranhas do cruzador, uma enorme quantidade de energia estava a ser desviada dos geradores dos motores para o arma principal da Haematsu. O termo "canhão" era o termo mais próximo que havia para a descrever. A arma era constituída por uma série de aceleradores magnéticos que disparavam uma "bala" de urânio empobrecido de várias toneladas a uma velocidade perto da luz. O canhão era tão maciço que na realidade o cruzador tinha de ser construído à sua volta e era por isso que até agora a Marinha Terrestre só tinha três naves deste tipo. Quando o canhão atingiu a sua carga máxima, as luzes em toda a nave fraquejaram. A I.A. começou de imediato a traçar uma solução de tiro, utilizando os motores secundários para apontar a Haematsu na direcção do alvo. Quando finalmente estava em posição, a I.A. pediu autorização a Dawson para disparar. "Não....", disse ele, não sabendo bem porque: "Dá-me uma mira manual...." "Essa opção não é a mais aconselhada.....", começou a I.A. a dizer, sendo interrompida pelo Almirante: "Isto é uma ordem directa. Dá-me uma mira manual." "Sim, senhor", respondeu a I.A. num tom de voz que imitava muito bem a resignação. Na mente do Almirante surgiu a imagem ampliada da Nave-Base e, passados alguns segundos, uma mira. Com uma série de pequenos comandos mentais, Dawson foi manobrando a mira até esta estar centrada na estrutura que fazia a ligação entre os dois discos. Inspirando e depois espirando lentamente, deu a ordem para disparar, a sua primeira ordem em situação de batalha. Com um silvo, mais sentido do que ouvido por toda a nave, o projéctil saiu do canhão e foi embater quase de imediato na Nave-Base que se encontrava a vários quilómetros de distância. O Primeiro-Centurião sentiu mais uma vez o chão debaixo dos seus pés a oscilar, antes de cair desamparado. Mas, desta vez, a oscilação continuou e tornou-se até mais violenta à medida que o tempo passava. O projéctil havia partido a meio a coluna que ligava a metade superior e inferior da Nave-Base e depois havia explodido contra a cintura de asteróides, provocando uma explosão de grande intensidade. Consultando o computador central, o Primeiro-Centurião viu que os sistemas da sua nave estavam a morrer e o esforço provocado no metal pelos disparos constantes dos motores de manobra, que tentavam desesperadamente travar as rotações dessincronizadas dos discos, estava a contribuir para o fim da Nave-Base. - Temos que mandar uma mensagem para a base mais próxima. O Império tem de ser avisada desta ameaça.- disse ele para um dos Centuriões que ainda se mantinha agarrado à sua consola. - As comunicações hiperluz não estão a funcionar. - Mandem uma comunicação rádio. - Pelo seu Comando!- respondeu o Centurião, começando a enviar toda a informação recolhida pelo computador central da Nave-Base durante o encontro com a Frota Colonial e com os outros humanos. O seu cérebro não lhe permitia chegar à conclusão a que os dois cérebros do Primeiro-Centurião já tinham chegado. Daquele modo, a mensagem só chegaria a espaço dominado pelo Império Cylon dentro de três Yahrens. - Então é assim que isto acaba.......- disse o Primeiro- Centurião para si mesmo. O seu plano até tinha sido bom e tudo estava a correr bem até à altura em que tinham surgido aqueles outros Humanos. A partir daí a sua "sorte" parecia ter acabado. Talvez os seus cérebros tivessem razão e essa "sorte" não existisse. Ao menos tinha prestado um bom serviço ao Império.....mas ainda havia uma última ordem que ele podia dar..... - Atenção a todos os Guerreiros! - pela primeira vez em muitos centons, a voz do Coronel Tigh fez-se ouvir na frequência das Esquadrilhas.- As comunicações já estão reparadas e ainda para mais tenho uma boa notícia para vos dar....A Nave-Base foi destruída.... A maior parte dos Guerreiros nem sequer se tinha apercebido que isso tinha acontecido. Poucos eram aqueles que tinham os seus sensores calibrados para longo alcance, estando mais concentrados em abater os Raiders que atacavam a Frota. Assim que as palavras do Coronel foram "absorvidas", uma série de gritos de alegria fizeram-se ouvir. O próprio Apollo não conseguiu conter um, berrando a todos os pulmões. Na fracção de micron em que fez isso, um Raider aproximou-se pela sua esquerda, com as armas a disparar. Os tiros razaram o nariz do Viper e o caça Cylon continuou o seu trajecto, passando por baixo da nave de Apollo a uma distância de tal maneira curta que, mais tarde no Clube dos Oficiais, o Comandante juraria ter visto as luzes vermelhas dos seus três tripulantes. Fazendo o Viper executar uma apertada curva para a direita, Apollo colou-se à cauda do Raider que acelerava em direcção à Galactica. - Vamos lá....vamos lá....- murmurou ele, enquanto o computador tentava fixar o alvo. À frente de ambos, a Estrela- de-Batalha parecia aumentar de tamanho a uma velocidade vertiginosa, já se começando a ver os clarões provocados pelas baterias de defesa desta. - Os pilotos deste são óptimos....- disse Apollo, vendo o Raider desviar-se de uma série de tiros de uma bateria e continuar o seu percurso, fazendo uma série de manobras que também serviam para escapar ao Viper que os perseguia. Nessa altura, uma voz fez-se ouvir na frequência geral e Apollo identificou-a como a de um Guerreiro da Esquadrilha Vermelha. - Pelos Senhores de Kobol. Alguém viu aquilo? O Raider não se desviou.... - Daqui fala o Comandante Apollo. Que se passou? - O Raider chocou de frente com o Viper do Iur...... Nem sequer se tentou desviar....- balbuciou o Guerreiro, sendo subitamente interrompido por outra transmissão: - Daqui fala o Coronel Tigh. Acabamos de perder a Fenris....os Cylons estão a fazer ataques suicidas. As palavras de Tigh foram como um balde de água fria para Apollo. Primeiro, porque a Fenris era uma nave de passageiros e segundo porque agora tinha a certeza que sabia o que o Raider estava a tentar fazer. Sem pensar, mais disparou os seus turbolasers, tentando um tiro de sorte. Os pilotos Cylons aperceberam-se dos disparos e redobraram as suas manobras para escaparem. Apollo pressionou o ataque e, num mero acaso, um dos seus tiros acertou de leve na asa direita do Raider. A reacção dos Centuriões foi virar para a esquerda, directamente de encontro a uma rajada laser de uma das baterias da Galactica. O Viper de Apollo passou em cheio pelo meio da explosão do Raider e o Comandante sentiu uma série de pequenos impactos, à medida que o seu caça era atingido pelos destroços do inimigo. Assim que ultrapassou a nuvem de destroços, deu um pequeno toque nos Turbos e fez subir o nariz do Viper, afastando-se da superestrutura da Galactica que estava já perigosamente perto. Foi nessa altura que surgiu outro Raider, directamente à sua frente e ele só teve tempo de tornar a baixar o Viper e carregar nos Turbos. Mesmo assim sentiu uma tremenda sacudidela, que quase descontrolou o Viper, seguida por uma série de luzes de aviso que lhe aparecerem no seu painel de instrumentos. - Frack.............- disse ele para si mesmo, fazendo o seu caça executar um loop e vendo o que temia. O Raider que o tinha tentado atingir e falhado havia-se despenhado de encontro à Galactica, provocando uma série de rombos na blindagem desta. Desligando as luzes de aviso e verificando os seus sensores, ele procurou a frequência geral de todas as Esquadrilhas e disse: - Atenção, é vital que protejam as naves da Frota. Esqueçam os computadores e disparem assim que achem que tem chances de acertar..... A sua mensagem foi recebida com uma série de respostas afirmativas e, aos poucos, os Vipers foram destruindo os Cylons que, pura e simplesmente, estavam apenas à procura de alvos com os quais embater. A área à volta da Galactica foi a primeira a ficar livre, especialmente devido às baterias de defesa desta e ao trabalho da Esquadrilha Dourada, comandada por Apollo. Vendo uma aberta nos combates, o Coronel Tigh mandou sair dois vaivéns de salvamento para ir buscar Dietra e Sheba. Foi a tripulação do primeiro vaivém a sair da Baía de Lançamento Alfa que se apercebeu dos danos que o Viper de Apollo tinha sofrido. De facto, o seu caça tinha perdido a asa superior no embate com o Raider e o motor superior parecia danificado. Apesar das tentativas feitas por Tigh para que regressasse à Galactica, Apollo continuou a sua patrulha de defesa à Estrela-de-Batalha e este pequeno episódio ficou para sempre na memória de todos os Coloniais que assistiram a esta batalha. "Aquele tiro foi magistral.", disse Erika assim que as câmaras do Haematsu começaram a transmitir para todas as naves terrestres a imagem da nave alienígena partida ao meio: " Especialmente se tivermos em conta que foi dado por um humano." "Estou ansioso por conhecer pessoalmente este Almirante....", retorquiu Trent. Era espantoso como é que um homem tão novo tinha conseguido atingir aquele posto. É claro que essa juventude trazia problemas, pois era sempre difícil para os tripulantes obedecerem a alguém que era pouco mais velho que eles. Por outro lado, esta "injecção" de sangue novo era óptimo porque a maior parte dos Almirantes da Marinha eram veteranos da Segunda Guerra Colonial e ainda pensavam nesses termos. Fitando a imagem do mapa táctico, cheio de pontos representando naves extraterrestres, Trent murmurou: "Aposto que vamos precisar de muitos mais homens como este Almirante....." Se Erika tinha alguma opinião sobre este assunto não a expressou, limitando-se a apontar o facto de que o Haematsu estava a lançar vaivéns. Quatro deles dirigiram-se para a nave alienígena, transportando, segundo o procedimento padrão, dois pelotões de Fuzileiros. A Marinha não ia deixar escapar a oportunidade de capturar uma nave desconhecida. Os dois outros vaivéns eram de Recolha e Resgate e dirigiram-se ao encontro do maior grupo de cápsulas de salvamento, começando de imediato a resgatar os sobreviventes das naves terrestres. Eles pareciam evitar a zona onde estava a cápsula da Ponte da Brighton, pois a acompanhar essa última estavam os dois caças atacados pela Dakar e à volta destes encontravam-se duas naves que só podiam ser equivalentes aos vaivéns terrestres. Só quando estas últimas partiram, levando consigo os caças, é que um dos vaivéns foi resgatar essa cápsula. Na altura em que a última leva de sobreviventes era transportada para a Haematsu, uma mensagem do Almirante foi recebida por todas as outras naves: "Tenciono deslocar-me até à nave-mãe dos alienígenas. O Grupo de Ataque fica sob o comando do Coronel Thompson até ao meu regresso. Desejem-me sorte!" "Está provado.......", disse Trent ao ouvir estas palavras, ".....precisamos é de Almirantes como este......" A atenção das naves terrestres, e das suas tripulações, fixou-se na pequena escuna de comando que saiu do cruzador e se dirigiu para a gigantesca nave que dominava a frota alienígena. Pela primeira vez na história da Humanidade estava-se a assistir a um Primeiro Contacto com uma raça alienígena viva. - Continua -