Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ---------------------------------------------------------------- Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (verg@esoterica.pt) ---------------------------------------------------------------- Capítulo 6 O barulho da porta de segurança da Ponte de Comando a fechar-se foi ouvido por todo o corredor. Sire Trolius que seguia nessa direcção, escoltado por uma série de Seguranças, teve ainda tempo de a ver descer, selando a Ponte de Comando. - Como é que isto é possível????- berrou ele de imediato para o Capitão Griffin, que o acompanhava.- Pensei que tínhamos o elemento da surpresa???? - Aparentemente, já não o temos.....- respondeu simplesmente o oficial. - Alguém conseguiu avisar a Ponte. - Se não conseguirmos tomar a Ponte, estamos perdidos!!!- berrou novamente Trolius, gesticulando com os braços nervosamente. Ele havia apostado tudo naquele golpe, a sua fortuna, a sua carreira política e mesmo a sua vida.- O que vamos fazer??? Griffin nada disse, limitando-se a fitar Trolius. O Capitão tinha um enorme desprezo pelo Sire e estava a esforçar-se para não o demonstrar. Era óbvio que o político estava cheio de medo agora que via os seus planos cuidadosamente feitos a desfazerem-se em pó. Griffin sabia que devia estar grato a Trolius pois tinha sido este que o tinha ilibado aquando do inquérito sobre a sua actuação na Nave-Prisão. É claro que tal acto tinha segundas intenções, pois o que o membro do Conselho queria era ter alguém nos militares que o apoiasse no seu próprio motim. O chefe dos Seguranças do Conselho não passava de um simples "empregado" do Sire. A determinada altura, Griffin havia pensado em denunciar toda a conspiração e assim melhorar a sua imagem, mas rapidamente tinha mudado de ideias. Ele sabia que estava marcado para sempre e nada do que fizesse iria mudar a opinião que as pessoas tinham dele. Aos poucos começou a convencer-se de que talvez o plano resultasse e se assim fosse, os Guerreiros da Galactica seriam derrotados e humilhados. Ele, como quase todos os Seguranças nutria um ódio natural pelos Guerreiros e por tudo aquilo que eles representavam. No entanto o seu ódio era diferente. Ao contrário da maior parte dos outros Seguranças, Griffin não tinha sido rejeitado pela Academia de Caprica. Pelo contrário, ele até tinha sido um dos primeiros candidatos a ser aceites nessa grandiosa instituição que tinha sido o centro de instrução de todos os Guerreiros das Doze Colónias. No entanto, num gesto quase impulsivo, Griffin acabara por se alistar no Colégio Militar de Caprica, uma instituição que era repudiada por quase toda a gente. O Colégio representava uma vertente das Forças Militares Coloniais totalmente diferente da Academia. Enquanto nesta última se treinavam os futuros Guerreiros, os jovens pilotos e oficiais da Frota Colonial, o Colégio treinava os seus instruendos nas tácticas da guerra terrestre. É claro que numa civilização em que se dava ênfase aos voos espaciais e à guerra nos ares e no espaço, qualquer pessoa que se formasse no Colégio era mal vista. Griffin, ao inscrever-se lá, sabia perfeitamente o que as pessoas pensavam. Mas mesmo assim fê-lo, embora não sabendo bem porquê. Talvez fosse um último insulto à memória do seu pai, um antigo Comandante da Frota Colonial com quem ele nunca se dera. Durante os anos em que estudara lá, sofrera constantemente as provocações dos Cadetes da Academia que, nas suas folgas, iam para as imediações do Colégio para se meterem com os alunos de lá. As lutas entre esses dois grupos eram constantes e ele ainda se lembrava da quantidade de vezes em que utilizara os seus punhos na cara de futuros Guerreiros. Tinha que admitir que começara a orgulhar-se desses confrontos e da fama com que ficara no Colégio e na própria Academia. Aos poucos tinha associado a imagem de Guerreiros à imagem de fracos e de cobardes que apenas sabiam lutar com a blindagem das suas naves a protegê-los. Após terminar o seu curso no primeiro lugar da sua classe, havia prestado serviço no Centésimo-Terceiro Destacamento Militar de Caprica, uma unidade com uma distinta história que remontava à fundação dessa colónia. Lutara numa série de planetas, quase sempre por trás das linhas inimigas, destruindo bases, postos de comunicação e de vigilância e depósitos de combustível, entre outras coisas. Ele e todos os seus companheiros de armas sentiam uma certa superioridade em relação aos Guerreiros pois combatiam em locais onde estes últimos nunca se arriscariam a não ser que fossem obrigados. Para além do mais, a Frota Colonial parecia apenas acumular derrotas, recuando cada vez mais na direcção das Colónias, sinal evidente de que o espaço controlado pelas Tribos era cada vez menor em relação ao espaço controlado pela Aliança Cylon. Esse sentimento de incompetência tornara-se ainda mais forte após o Armistício e o subsequente Holocausto. A unidade de Griffin estava de serviço em Caprica na altura em que os Cylons tinham lançado o seu ataque sobre as Colónias. Tinham assistido, totalmente impotentes, à destruição da Cidade de Caprica e ao massacre da maior parte da sua população pelos ataques aéreos dos Cylons. Griffin e os seus companheiros tinham chegado a lutar contra os Cylons no próprio solo de Caprica, defendendo o porto espacial onde os sobreviventes se juntavam para embarcar em direcção a Galactica e aos sobreviventes das outras Colónias. Nesse senton ele perdera a conta de quantos Cylons matara, embora nunca pudesse esquecer o que vira. Passados sete yahrens os pesadelos continuavam a perseguí-lo, fazendo com que acordasse constantemente banhado em suores frios e a gritar. Os Cylons tinham aterrado nas imediações do porto, aumentando o pânico e o desespero das pessoas que tentavam entrar nas naves. Griffin e uma série de soldados tinham avançado pelo meio da turba que corria em sentido contrário, na direcção da pista. As pessoas corriam agarradas aos parcos haveres que tinham retirado dos seus lares destruídos, mães levavam ao colo os seus filhos pequenos, idosos tentavam aguentar o ritmo da debandada, muitas vezes não o conseguindo e sendo impiedosamente empurrados para o lado ou mesmo espezinhados se tivessem o azar de cair. Pelo meio dos berros dos adultos, do choro das crianças e do rugido dos motores dos transportes que partiam, Griffin tinha ouvido nitidamente o barulho de armas lasers a serem disparadas. Era o som profundo feito pelas armas pessoais dos Centuriões Cylon. Á medida que se aproximava do fim da coluna, ele começara a ver as luzes vermelhas emitidas pelos capacetes dos Cylons e as explosões de luzes feitas pelas armas. O cenário era dantesco e ficaria para sempre marcado na sua memória. Cerca de cinquenta Centuriões ocupavam a estrada que conduzia ao porto em toda a sua largura, encostados ombro-a-ombro e avançando a passos largos. Com uma eficiência mecânica iam disparando, abatendo tudo à sua frente sem qualquer tipo de piedade. Griffin levara a sua arma ao ombro e começara a disparar sem hesitações, berrando de raiva perante a cena. Os soldados que o acompanhavam rapidamente tinham feito a mesma coisa, lançando uma barreira de fogo laser contra os Centuriões, enquanto que os últimos elementos da coluna de sobreviventes passavam pelo meio dos militares coloniais. No entanto nada parecia parar os Cylons. Sempre que um Centurião era abatido, eles limitavam-se a cerrar fileira e continuavam a avançar. Griffin vira os seus companheiros caírem um a um enquanto recuavam em direcção á pista, nunca deixando de fazer fogo sobre os invasores. No fundo da estrada, por trás da primeira linha de Cylons que avançava pelo meio dos humanos mortos, surgiu outra linha de Centuriões que rapidamente começou a avançar. Ele sabia que tudo estava perdido. Sem olhar para trás começou a correr na direcção da pista, onde cerca de uma centena de pessoas ainda se acotovelavam para entrarem no último transporte. Entre a pista e a estrada estavam agora montadas uma série de barricadas, improvisadas com peças de mobiliário dos edifícios administrativos do porto e com alguns veículos, atrás das quais se abrigava o que restava do Destacamento. Na altura em que se preparava para saltar para trás de uma das barricadas, Griffin sentiu uma espécie de empurrão nas costas que o projectou no ar. A sua armadura não tinha conseguido dissipar toda a força do disparo que o tinha atingido e ainda agora tinha a cicatriz que provava isso. Após ter sido atingido, ele apenas se lembrava claramente de ter caído no solo, já do outro lado da barricada e no meio dos outros soldados. O resto eram lembranças vagas e enevoadas pela dor: o som dos disparos das espingardas lasers e os gritos dos seus colegas; alguém a pegar nele pelos colarinhos da armadura e a arrastá-lo; a sua cara a bater no chão duro da pista; o rugir dos motores do transporte a ficar cada vez mais alto, uma série de mãos a levantá-lo e depois a puxarem-no para dentro da porta aberta do transporte; o choro de uma criança, o trepidar da nave á medida que começava a levantar voo na vertical e, finalmente, antes da escotilha se fechar, uma vaga de pontos prateados com luzes vermelhas a rodear e a ultrapassar as barricadas. O seu último pensamento, antes de cair na inconsciência total, foi de que aquilo tudo era culpa dos Guerreiros e da maldita Frota que tinham deixado indefesas as Colónias. Quando acordara, estava no Centro Médico da Galactica, deitado numa maca num corredor apinhado de gente que apresentava os mais diversos ferimentos. Alguém lhe tinha tirado a parte superior da armadura e do seu uniforme, pondo-as debaixo da sua cabeça, fazendo assim uma almofada. Levando uma das mãos ao sítio onde tinha sido atingido, sentiu uma ligadura que tapava o ferimento. Vendo que não tinha dores, levantou-se e começou a avançar pelo meio da multidão de feridos. O que mais o impressionou é que quase ninguém falava. A maior parte das pessoas limitava-se a olhar para o vazio, fitando as paredes azuis do Centro Médico sem estarem realmente a vê-las. Griffin não conseguira ir muito longe pois fora "interceptado" por um Ajudante Médico que, vendo que ele já conseguia andar, o tinha posto a ajudar os feridos em pior estado. Ao longo desse senton, falando com o pessoal do Centro, tinha descoberto que já tinha passado meio sectar desde do Holocausto. Ele tinha estado em animação suspensa durante alguns sentons enquanto as máquinas médicas tratavam dos seus ferimentos o melhor possível. Logo que não fora mais preciso, Griffin saíra do Centro e vagueara pela Galactica, evitando ser deslocado para qualquer uma das outras naves da Frota. A sua mente trabalhava furiosamente com planos de vingança contra os Guerreiros. É claro que aos poucos começou a sentir que não havia nada que pudesse fazer para os pôr em prática e assim foi abandonando-os. No entanto, na altura em que o Conselho dos Doze criara o seu corpo de Seguranças, ele sentira uma nova esperança. Era por isso que agora estava ali, a ter que ouvir os protestos patéticos de Sire Trolius. - Ouviu o que eu perguntei????- disse este último, espetando um dedo no uniforme do Capitão.- O que fazemos agora????? O chefe dos Seguranças teve que se conter para não partir o dedo ao político e de seguida enfiar-lhe um tiro na cabeça. Limitou-se a afastar o dedo acusador do seu peito e disse, num tom de voz calmo: - Agora, utilizamos o nosso trunfo secreto.....É a única maneira de termos acesso à Ponte! - E se não resultar??- perguntou Trolius, que parecia ter captado alguma da hostilidade do Capitão, começando a suar profusamente. - Se não resultar, arranjamos outro refém. E se for preciso vamos arranjando reféns até eles abrirem a porta da Ponte!!! Tirando um lenço de um dos bolsos da sua veste, o Sire limpou o suor da sua testa. - Espero que isso resulte......espero que isso resulte....- murmurou ele. Antes que Griffin pudesse esboçar uma resposta, o som de uma série de disparos fez-se ouvir, vindo de um dos corredores de acesso ao corredor principal onde eles se encontravam. "Só me faltava esta!!!", pensou o Capitão para si mesmo. Sacando da sua arma pessoal , virou-se para Trolius e disse: - Fique aqui!! Eu vou ver o que se passa. Sem esperar pela resposta, ordenou a três Seguranças que o acompanhassem e dirigiu-se com todo o cuidado para o local de onde vinha o som de disparos. Starbuck perguntou a si mesmo por onde andaria a sua sorte. Seguindo as suas ordens, os Guerreiros haviam-se separado em quatro grupos de cinco e dirigido-se para o corredor secundário que dava acesso ao corredor da Ponte. A princípio tudo parecia estar a correr bem pois, ao contrário do que tinha acontecido a alguns centons antes, não havia Seguranças aí presentes. Os quatro grupos tinham avançado lentamente, quase que colados às paredes metálicas. E de repente, sem nenhum aviso prévio, um grupo de cinco Seguranças tinha aparecido no extremo contrário do corredor. Todos tinham ficado espantados a olhar uns para os outros, até que o "feitiço" fora quebrado por um dos "Camisas Negras" que levantara a sua arma na direcção dos Guerreiros. O homem ao lado de Starbuck não havia hesitado, disparando quase que à queima-roupa contra o grupo de Seguranças. Um deles caiu de imediato, fuzilado pelos tiros certeiros do Guerreiro, mas os outros recuaram, disparando desordenadamente na direcção dos homens comandados por Starbuck, que tiveram que se baixar. O Capitão viu outro dos Seguranças cair, ainda antes de atingir a esquina, atingido em cheio nas costa por um disparo. E foi nessa altura que ele se apercebeu que tinha de tomar uma decisão. Com o corredor livre e com os Seguranças em fuga, a lógica ditava que ele mandasse os seus homens avançar. Mas e se ao virar da esquina estivessem mais "Camisas Negras"? Tudo estaria perdido e os revoltosos poderiam assaltar a Ponte sem nenhuma oposição. Para piorar tudo, o seu instinto dizia-lhe para não avançar. Aquela "sensação" que tantas vezes o havia salvo em combate, estava agora a dizer-lhe para não avançar. "Que raios, pelo menos uma vez na vida vou fazer o que a lógica diz!!!", pensou Starbuck para si mesmo, antes de se erguer e dizer para os restantes Guerreiros: - Muito bem, vamos avançar até ao corredor principal!! Estejam atentos!! Após dizer isto, avançou rapidamente à frente dos outros, de arma erguida, rezando uma pequena prece para que, naquele caso, os seus famosos palpites estivessem errados. O soldado Kort do Corpo de Segurança do Conselho, corria pelo corredor principal agarrando a sua espingarda laser com toda a força. Atrás de si ouvia os passos dos outros dois elemento da sua patrulha, ou melhor, do que restava da sua patrulha, pois eles haviam encontrado um grupo de Guerreiros no corredor lateral que deviam estar a patrulhar. - Eles vêem ai?- perguntou ele aos seus companheiros, sem se virar para trás nem abrandar o ritmo. - Acho que não......- começou a dizer o soldado Aria, lançando um rápido olhar na direcção da qual se afastavam. Mal acabou de dizer isso, um raio passou ao seu lado, embatendo numa parede. Lançando um novo olhar, viu um Guerreiro de cabelo louro no corredor atrás dele e de seguida viu surgir uma série de outros homens, vindo do corredor lateral. Virando-se para a frente, acelerou o passo, berrando: - Afinal, o melhor é corrermos!! Kort seguiu o conselho do colega, maldizendo o dia em que tinha aceite alinhar naquele golpe. Tinha-o feito por causa daquilo que os seus superiores tinham prometido a todos aqueles que participassem na revolta: licenças mensais vitalícias na Rising Star e também novos alojamentos, numa nave da Frota à escolha. Isto podia parecer pouco, mas para pessoas que, tal como ele, estavam à quase sete yahrens enfiados numa nave decrépita, essa oferta era mais que tentador, era uma verdadeira dádiva dos Senhores de Kobol. Ele estava tão imerso nos seus pensamento que nem se apercebeu do barulho dos passos que vinham na sua direcção, vindos da direcção da Ponte. Assim, foi apanhado totalmente de surpresa quando, ao virar uma esquina, embateu em cheio num grupo de Seguranças, comandado pelo Capitão Griffin. - Meu Capitão........- disse Kort, fazendo uma rápida saudação, esquecendo o desejo de fugir. A fama de Griffin era conhecida por todos os Seguranças e era mais temível do que aquela que os seus perseguidores tinham. - Vem aí uma série de Guerreiros, atrás de nós!! Endireitando a sua farda negra, Griffin olhou para os três Seguranças que lhe tinham surgido à frente. Via-se nitidamente que tinham estado a correr pois o suor escorria-lhes livremente pelas faces. Mas não era só isso que se via. Griffin sentia um "cheiro" que lhe era bastante familiar, o "cheiro" a medo. O medo, aquela força capaz de transformar mesmo o mais poderosos dos Homens numa criança amedrontada. Ele vira isso acontecer inúmeras vezes e nunca conseguira disfarçar o seu desprezo por quem tinha essas fraquezas. Perante a impassividade do Capitão, o soldado Aria insistiu: - O corredor atrás de nós está cheio de............- o Segurança não conseguiu acabar a sua frase pois o punho do Capitão acertou-lhe em cheio na cara, fazendo-o recuar vários passos e largar a arma. Todos os Seguranças ali presentes assistiram boquiabertos à cena. Aria, agarrado ao nariz que sangrava abundantemente, não sabia o que havia de dizer ou fazer. Os seus olhos arregalaram-se de medo ainda mais ao ver Griffin pegar na espingarda que ele havia deixado cair. Por momentos todos pensaram saber o que iria acontecer: o Capitão iria abater a sangue-frio o soldado. No entanto, Griffin limitou-se a pegar na arma e verificar o pequeno mostrador digital que indicava a carga energética. Vendo que a espingarda estava totalmente carregada, atirou-a com força contra Aria que atabalhoadamente a agarrou. De seguida, Griffin aproximou a sua face à do aterrorizado Soldado e disse simplesmente. - Tu e os teus dois amigos, vão dar meia-volta e vão combater. Quero lá saber que o corredor esteja cheio de Guerreiros ou de daggits. A mim tanto me faz...... - fazendo uma pausa e fitando ainda com mais ferocidade Aria, Griffin continuou. - Não aceito desculpas. A tua espingarda tem carga suficiente para 80 tiros e isso deve ser suficiente para matares mais do que um Guerreiro!! Virando-se depois para os outros dois membros da patrulha disse, no mesmo tom de voz: - Isto aplica-se a vocês os dois!! Só voltem quando não tiverem mais cargas para as armas. Entendido? - Sim, senhor!!- berraram de imediato os dois soldados. Aria rapidamente juntou a sua voz a dos seus colegas, agarrando com força a sua espingarda e ignorando o sangue que lhe escorria livremente pela face. Por iniciativa própria e sem mais palavras, os três dirigiram-se para o local onde tinham visto os Guerreiros pela última vez. Griffin viu-os afastarem-se até desaparecerem numa das inúmeras esquinas que haviam naquele corredor. Fitando o seu relógio, viu que tinha perdido cerca de dois centons com tudo aquilo. O facto dos Guerreiros entretanto não terem chegado ali, era um indício de que iriam avançar com cautela visto que não sabiam com que oposição podiam contar. Isso dava-lhe tempo para organizar uma defesa melhor e também capturar a Ponte. Tinha a certeza de que isso seria fácil a partir do momento em que Apollo visse quem ele tinha como refém. Com um sorriso nos lábios, virou-se para os três Seguranças que o tinham acompanhado desde das imediações da Ponte e ordenou-lhes que guardassem aquela parte do corredor. Qualquer pessoa que viesse da direcção contrária da Ponte deveria ser morta. As ordens eram para disparar primeiro e fazer perguntas depois - E se for algum daqueles três de a bocado?- perguntou um deles, um Sargento que conhecia Griffin desde que este tinha assumido o comando do Corpo de Seguranças. - Matem-no, é claro! O Corpo não precisa de cobardes!!- sem mais palavras Griffin afastou-se na direcção da Ponte. Apollo fez girar a cadeira onde estava sentado, fitando os três monitores existentes no Posto de Comando. Um mostrava um pequeno mapa com as posições estimadas das naves da Frota no outro lado do campo de asteróides. Os outros dois estavam inactivos e isso preocupava o Comandante, pois, após selar a Ponte, havia ordenado que um deles fosse sintonizado na frequência da IFB e outro na frequência interna da nave. Era nesse último monitor que ele esperava ver aparecer a cara dos revoltosos, provavelmente a exigirem-lhe que abrisse a porta da Ponte. - Apollo, o vaivém da Academia acaba de atracar na Baía Alpha.- disse de repente o Coronel Tigh, interrompendo os pensamento de Apollo. - Espero que Croft entre em contacto em breve......- acabou o Comandante por dizer, fazendo uma pausa antes de continuar: - ....Qual é a situação do resto da Frota? Tigh consultou os seus apontamento no computador portátil, que era constantemente actualizado com os dados recolhidos pelos sensores da Galactica, respondendo após alguns microns: - Só nós, a nave da Academia e as naves da Esquadrilha Lança de Prata, é que ainda estamos deste lado do campo. - As naves de passageiros? - A última entrou na passagem à cerca de quinze centons. Daqui a cerca de outros quinze sairá de lá. - Muito bem!- disse Apollo, fitando de novo os monitores ainda à espera que algum dos revoltosos o contactasse. - Como é que está a patrulha da Lança de Prata? - Segundo a última comunicação o sector atrás de nós está livre. O único problema é que o primeiro campo de asteróides está a afecta-lhes o alcance e definição dos sensores. - Mesmo assim, se algo passar por ali, seremos avisados..... - Exactamente!- retorquiu Tigh que hesitou um pouco antes de abordar o assunto seguinte: - Apollo, a Capitã Sheba, começou a perguntar à alguns centons atrás se há algum problema na Galactica..... - Continuem a dizer que não há problema nenhum. Só em último caso é que podemos pedir para que as Esquadrilhas voltem para nos ajudar. - E se ela pedir para falar contigo? - Digam que eu fui fazer uma inspecção à nave...... - Sim, senhor!- respondeu Tigh que fazia uma ideia do que Apollo devia estar a sofrer por estar a mentir daquela maneira à sua amada. A verdade é que não se podia fazer outra coisa. Se as Esquadrilhas soubessem que havia problemas na Galactica quase que de certeza que iriam tentar ajudar de alguma maneira. Ao fazer isso, iriam deixar o resto da Frota sem protecção e isso não podia acontecer. - Comandante! Temos problemas!- disse de repente o Oficial de Voo Omega, dirigindo-se para o Posto de Comando.- Acabamos de perder a Casa das Máquinas. - Frack....- murmurou Apollo. Logo após ter selado a porta da Ponte tinha sido emitido um aviso para a Casa das Máquinas, mas a verdade é que pouco havia a fazer pois ao contrário dos hangares que estavam constantemente cheios de técnicos de voo, mecânicos e outros tripulantes, a zona dos motores era apenas assistida por meia dúzia de técnicos. Perante o aviso da Ponte de Comando eles tinham-se fechado dentro da Casa das Máquinas, mas a verdade é que sem armas nada podiam fazer e a própria porta de acesso era de fácil abertura.- Os revoltosos agora podem parar a Galactica, se assim quiserem..... - Apollo, o Coronel Croft acaba de chegar ao hangar com os seus instruendos e quer falar contigo!- interveio Tigh, passando a comunicação para um dos monitores do Posto. Soltando um suspiro de resignação pelo que viria a seguir, Apollo fitou o monitor, esperando por Croft. As conversas entre os dois acabavam quase sempre em discussões, começadas pelo Coronel. Os feitios dos dois Guerreiros era totalmente diferente e isso só trazia problemas. - Então, ouvi dizer que precisa da minha ajuda, Capitão Apollo.- disse Croft, mal apareceu no monitor. Pela maneira como tinha começado a conversa era óbvio que aquela era uma daquelas ocasiões que iria acabar em discussão. - Coronel, quero lembrar-lhe que se está a dirigir ao Comandante da Galactica!- interveio Tigh, que também não suportava as maneira arrogantes de Croft.- Exijo que mostre o respeito devido...... Apollo interrompeu Tigh com um gesto da mão, dizendo de seguida para o monitor. - Coronel, eu sei que já tivemos as nossas diferenças no passado, mas a verdade é que agora a Galactica precisa da sua ajuda. - Se você e o seu pai tivessem ouvido os meus conselhos sobre a segurança na Galactica, em vez de me terem enfiado naquela lata voadora a que chamam Academia, talvez a situação agora fosse diferente....- disse Croft, lançando um sorriso que lhe realçava a fina cicatriz que tinha na face esquerda. - Eu admito que o devíamos ter ouvido!- respondeu Apollo.- Mas a verdade é que agora não temos tempo para recriminações pois os revoltosos acabam de conquistar a Sala das Máquinas. - Eles já tentaram negociar? - Ainda não.... - E estão a tentar abrir a Ponte de Comando? - Não, ainda não fizeram nada!- disse o Comandante, mudando um dos monitores para a frequência das câmaras de segurança que existiam do lado de fora da porta da Ponte.- Pelo que vejo, está um grupo deles parado mesmo no limite do alcance das câmaras. Croft pareceu estar a pensar por uns momentos, antes de continuar: - Isso parece-me indicar que estão mal organizados. Não deve ser difícil acabar com eles.....Bem, vou avançar.- dizendo isso, Croft preparou-se para sair da cabine do Viper de onde estava a falar mas, antes de o fazer, disse com um sorriso: - Até já, Capitão Apollo!! - Aquele homem consegue ser irritante até mais não!!- disse Tigh assim que Croft desligou. - Concordo consigo!! - respondeu Apollo, acenando com a cabeça. - Mas neste momento ele é a nossa única esperança!! No momento em que Apollo acabava de dizer isto, o monitor que estava sintonizado na frequência da IFB, que até aí se tinha limitado a emitir programas antigos, iluminou-se com o símbolo do Conselho dos Doze. - Donde é que está a vir esta emissão?- perguntou de imediato Tigh ao Oficial de Voo Omega. Era importante saber isso pois se a emissão viesse da nave que albergava a IFB, a Hermes, que já estava do outro lado do campo de asteróides, isso era sinal de que a revolta se tinha alastrado ao resto da Frota. Omega começou de imediato a fazer uma triangulação da origem da emissão com os sensores da Galactica e rapidamente chegou a uma conclusão que o deixou espantado: - Coronel, segundo os nosso sensores a emissão está a ter origem aqui mesmo na Galactica!! - Como?- perguntou Tigh, incrédulo. A IFB tinha um pequeno estúdio na Galactica que era sobretudo utilizado para seguir as reuniões do Conselho, mas todos o pessoal que aí trabalhava tinha sido transferido para a Hermes para a travessia da passagem. - Podem ser os revoltosos....- disse então Apollo.- Finalmente vão dar a cara! O Coronel Tigh aproximou-se de Apollo e os dois fitaram o monitor. Passados alguns microns o símbolo desapareceu e surgiu uma imagem da parede da sala de reuniões do Conselho. Era óbvio que quem manejava a câmara não era um profissional pois a imagem estava um pouco desfocada e tremia bastante. Lentamente a qualidade foi melhorando e então a câmara começou-se a deslocar na direcção da cabeceira da mesa do Conselho. Ainda antes de se ver alguém, ouviu-se uma voz feminina que perguntou: - Já estamos a transmitir? - Acho que sim.- respondeu outra voz, provavelmente a de quem estava a manejar a câmara. - Não, não pode ser!!!- disse Apollo, ao reconhecer a voz feminina, uma voz que ouvia desde da sua infância, a da sua irmã Athena.- Ela faz parte da revolta??? Tigh também tinha reconhecido a voz e fazia a mesma pergunta a si mesmo. A câmara acabou por parar e não havia dúvida de que a cara que enchia o monitor do Posto de Comando era a de Athena. Apollo ligou o controle de som da Ponte e assim todos os tripulantes aí presentes puderam ouvir a declaração que se seguiu. - O que vem a ser isto???- berrou, como de costume, Sire Trolius, apontando para um dos monitores de comunicações internas existente no corredor principal. Os Seguranças que o acompanhavam olharam na direcção que lhes era indicada e viram aparecer no monitor a face de Athena, a filha do Comandante Adama. O lado esquerdo da face dela estava totalmente coberto de gaze excepto a parte da vista. Os seus olhos verdes fitavam a câmara com uma determinação que era bem evidente para todos os que a estavam a ver. Havia ainda outro pormenor que apenas escapava a uns poucos. Ao pescoço, por cima do seu uniforme azul, trazia o símbolo da Presidência do Conselho dos Doze, o medalhão que Adama costumava utilizar. - Esta mensagem é para todos os tripulantes da Galactica!- começou Athena a dizer, fitando a câmara e fazendo um esforço visível para ignorar a dor que a atormentava. - Neste preciso momento em que vos estou a falar, algo de muito grave se está a passar no interior desta Estrela-de-Batalha.....Um grupo de revoltosos está a tentar derrubar o legítimo Comandante desta nave, o meu irmão, o Capitão Apollo. - Não...não...- começou Trolius a murmurar baixinho. Só lhe faltava mais aquilo! - Os revoltosos são membros do Corpo de Seguranças do Conselho, comandados pelo Capitão Griffin, que por sua vez está a agir segundo as ordens de Sire Trolius.- continuou Athena a dizer, parando depois para fitar a câmara, antes de continuar.- Este último é um traidor que está a agir sem o mínimo apoio do Conselho dos Doze. De facto Sire Trolius perdeu o direito a esse título a partir do momento em que se auto-elegeu Presidente do Conselho. Ainda para mais tal usurpação de poder foi feita numa altura em que o Conselho dos Doze não estava completo pois o meu pai, o representante de Caprica e também Presidente do Conselho, não está em condições de assumir o seu lugar..... Perante estas palavras, Sire Trolius lançou um pequeno berro de fúria. Ele já não precisava de ouvir mais nada para compreender o que se estava a passar. De certeza que alguns membros do Conselho, que diziam estar do seu lado, tinham avisado Athena, estando a apoiá-la neste preciso momento. De certeza que a tinham eleito como representante de Caprica e apoiado a sua candidatura à Presidência. Quando ele apanhasse esses traidores...... Trolius estava tão embrenhado nos seus planos de vingança que nem sequer reparou nos olhares de incerteza que surgiam nos rostos de alguns Seguranças. Muitos deles começavam a pensar se aquela revolta teria sido uma boa ideia. As dúvidas deles aumentaram ainda mais quando Athena começou a apresentar os membros do Conselho dos Doze que a tinham escolhido como representante de Caprica e Presidente do Conselho -....tenho que agradecer aos Conselheiros que se mantiveram fiéis aos seus princípios e aos princípios que nos foram deixados pelos nossos antepassados de Kobol.- começou Athena a dizer, fazendo depois um sinal para a câmara que rapidamente mudou de posição, mostrando agora oito pessoas, que até aí tinham estando nas sombras da sala.- Esses Conselheiros são: Sire Digor, o representante de Aquaria; Siress Saffron, a representante de Aeriana; Sire Anton, representante de Libra; Siress Diade, representante de Piscon; Siress Celeste, representante de Taura e, finalmente, Sire Lexx, representante de Canceria. Todos os outros membros não mencionados são considerados traidores e, assim que for possível, os seus substitutos serão escolhidos. Para acabar, quero dirigir uma palavra a todos os membros da Segurança do Conselho que neste momento estão a apoiar esta revolta. Esta última declaração fez com que muitos Seguranças se aproximassem ainda mais do ecrã, ouvindo atentamente aquilo que Athena iria dizer. Apenas um pequeno grupo não parecia interessado em ouvir nada, mantendo-se junto de Trolius. Aqueles oito eram aqueles que tinham concordado em entrar naquele golpe por lealdade a Griffin. - Desde que seja provado que não abriram fogo sobre ninguém, nem puseram em perigo a Galactica, o Conselho dos Doze está disposto a perdoar-lhes esta "aventura". Sabemos que muitos de vocês estão a participar neste golpe por causa de promessas que vos foram feitas, mas ao fazê-lo podem estar a pôr em perigo o que resta das Doze Colónias. Pensem nisso!! Com estas últimas palavras a transmissão acabou e no ecrã surgiu de novo o símbolo das Doze Colónias. Um enorme silêncio instalou-se no corredor , sendo apenas quebrado pelo ameaças feitas por Trolius aos traidores dos seus colegas. - Cala-te, ó daggit maluco!!!- berrou de repente um dos soldados que estava junto do ecrã para Trolius. - Como?- disse o Conselheiro atónito num tom de voz baixo mas que rapidamente se começou a elevar de novo.- Como se atreve..... - Não ouviu??- disse outro soldado, junto do primeiro.- Nós não estaríamos nesta situação se não fosse pelo senhor e pelo Capitão Griffin...... - Cuidado com o que dizes, soldado.- ameaçou um Cabo, levantando o cano da sua espingarda na direcção geral daqueles que tinham falado.- O nosso Capitão não merece ser tratado dessa maneira.... O gesto do Cabo foi seguido pelos outros sete Seguranças que estavam junto de Trolius. Os outros soldados, que eram apenas cinco, não lhes ficaram atrás e de imediato empunharam também as suas espingardas. Ao ver isso, Trolius tentou esconder-se, de uma forma que julgou discreta, atrás dos Seguranças que ainda pareciam estar do seu lado. - É por este homem que nós estamos a lutar??- perguntou um dos soldados ao Cabo, apontando a arma na direcção de Trolius.- Olhem para ele, não passa de um cobarde!!! - Eu limito-me a seguir ordens!!- retorquiu o Cabo.- É o que vocês também devem fazer..... - Eu não quero morrer aqui!!- disse outro Segurança. - Nenhum de nós quer!!- ouviu-se então. Todos os presente viraram-se na direcção da voz, voz essa que pertencia ao Capitão Griffin. Este tinha ouvido apenas a última parte da discussão entre o Cabo e os soldados, mas era evidente que havia um clima de tensão no corredor. Ele sabia que tudo estava perdido pois também vira a comunicação de Athena no seu comunicador pessoal. Ao fazer os planos tinha-se esquecido da existência daquele estúdio da IFB. - Griffin!!!- berrou Trolius, saindo de trás dos Seguranças e avançando a passos largos na direcção do recém-chegado. A sua arrogância natural tinha voltado agora que a tensão no corredor parecia ter abrandado.- Temos de utilizar o nosso refém para entrarmos na Ponte. Se conseguirmos nada está perdido!!! - Devíamos ter feito isso antes...- respondeu simplesmente Griffin, passando ao lado de Trolius. O Conselheiro agarrou-o pelo braço, obrigando o Capitão a voltar-se. - Como assim???- berrou Trolius. Griffin olhou para a mão que o agarrava e depois para a cara do Sire, que rapidamente percebeu a "mensagem", largando-lhe o braço. - Como assim?- perguntou de novo Trolius, num tom de voz mais comedido.- O que aconteceu ao Capitão Boomer? - Os soldados que o estavam a vigiar foram-se embora depois de verem o comunicado de Athena.- disse Griffin. A captura de um dos melhores amigos do Comandante Apollo tinha acontecido por mero acaso. Os revoltosos tinham-no capturado na altura em que se dirigiam para a Ponte, tal como ele. Trolius e Griffin tinham percebido que Boomer poderia dar muito jeito, especialmente para chantagear Apollo. Agora era tarde de mais.- Se o tivéssemos utilizado antes..... Trolius ficou sem palavras, começando a ficar branco. Só agora é que ele se estava a aperceber da gravidade da situação. - E a Casa das Máquinas??- balbuciou ele.- Ainda temos alguém lá? - Também não. Os Seguranças que estavam lá renderam-se à pouco tempo. Perante estas palavras um soldado avançou uns passos na direcção de Griffin e disse: - Capitão, nós temos de nos render. Não há outra solução!! Griffin olhou o soldado de frente e viu uma coisa que o fez perceber que tudo estava realmente perdido. Os olhos do rapaz à sua frente não mostravam qualquer sinal de medo, ao contrário daqueles três soldados que tinha encontrado antes. O soldado tinha feito essa declaração sem qualquer sinal de cobardia. O Capitão olhou para os outros soldados e viu a mesma coisa no olhar deles. Eles pura e simplesmente tinham deixado de acreditar na vitória e assim era impossível continuar. - Quem quiser ir embora pode ir!- acabou ele por dizer, com toda a sinceridade.- Mais à frente no corredor vão encontrar três outros soldados. Digam-lhes que eles também se podem render. - Obrigado, Capitão!!- disse um soldado, dando rapidamente meia-volta e avançando pelo corredor. Passados alguns microns outros sete soldados juntaram-se a ele, desaparecendo de vista após dobrarem uma esquina. No corredor ficavam apenas quatro soldados e o Cabo, mais Griffin e Trolius. - Senhor, eu fico aqui, se não se importar, é claro!- disse o Cabo para Griffin. Os outros quatro Seguranças também disseram a mesma coisa e o Capitão limitou-se a acenar afirmativamente. Foi também nessa altura que Trolius começou o último discurso da sua carreira de político. - Estou rodeado de incompetentes!!!- berrou ele para Griffin. - Todo este golpe foi mal planeado. Eu não lhe devia ter dado ouvidos, Capitão!! Devia ter visto que este seu golpe iria falhar!! Griffin não acreditava no que estava a ouvir. O Sire estava-se a preparar para atirar as culpas para cima dele. Voltando a sua atenção de novo para Trolius, ele ficou ainda mais furioso. -........eu tenho que contactar de imediato o Concílio dos Doze e explicar que fui forçado a participar neste golpe!!!- dizia o político, como se estivesse a falar consigo mesmo, apontando depois o dedo para Griffin.- O senhor vai ser responsabilizado por isto, pode ter a certeza!! O Capitão não hesitou mais. Num movimento rápido tirou a espingarda a um dos soldados, destravou-a e abriu fogo contra o peito do Conselheiro, fazendo-o voar para trás. Um intenso cheiro a carne queimada encheu o corredor, emanando da enorme ferida cauterizada que era agora o tronco de Trolius. Travando a arma de novo, Griffin atirou-a de volta para o dono. O soldado, assim como todos os outros, tinha um grande sorriso nos lábios. Se havia pessoa que merecia morrer daquela forma era Trolius. Toda a gente já estava farta dos seus "abusos" verbais e da sua maneira de ser. - E agora, o que fazemos?- perguntou o Cabo, passados alguns microns. - Agora esperamos.- respondeu Griffin, sentando-se de seguida no chão, encostando à parede. - Os reforços estão a chegar!!- esta mensagem foi passando de boca em boca até alcançar Starbuck. As sentinelas que ele tinha deixado para trás, ao longo do corredor, tinham acabado de avistar os Guerreiros comandados pelo Coronel Croft. Passados alguns centons estes chegaram até ao local onde o Capitão e uma série de outros Guerreiros da Esquadrilha Azul. Croft dirigiu-se de imediato para Starbuck que se encontrava encostado a uma parede enquanto que um outro Guerreiro lhe aplicava uma compressa no ombro. - Que foi isso?- perguntou Croft, apontando para o ombro. - Foi um pequeno tiro de raspão...- respondeu Starbuck, esboçando um dos seus famosos sorrisos que rapidamente se extinguiu, sendo substituído um esgar de dor: - Ei!! Não apertes tanto a compressa!!! - Desculpe, Capitão.....- balbuciou o Guerreiro, continuando com o tratamento. - Deixa lá...- resmungou o Capitão, virando-se de seguida para Croft.- Ainda bem que o Coronel chegou porque a situação ali à frente não está nada boa. Croft olhou na direcção para qual Starbuck apontava. O corredor virava para a direita e, na esquina, podia-se ver a parte inferior de um corpo. Pela cor das calças, percebia-se perfeitamente que era um Guerreiro que ali estava. - Eles apanharam-nos completamente de surpresa!!- disse Starbuck. - Ali atrás abatemos três deles..... O instrutor dos Guerreiros acenou afirmativamente com a cabeça. Ao vir da Baía Alpha para ali tinha passado, primeiro, por dois corpos de Seguranças no corredor lateral que dava acesso ao corredor principal e depois por outros três corpos, já perto da posição onde se encontrava o grosso das forças de Starbuck. -........mas ao virarmos esta esquina demos de caras com outros três Seguranças..- continuava o Capitão a dizer, parando depois como que para pensar.- Eles estavam abrigados atrás de uns painéis de manutenção e começaram de imediato a disparar. Não tivemos a mínima chance.... - Quanto homens é que perderam? - Dois....e ainda me acertaram....... - Porque é que ainda não avançaram?- perguntou Croft, olhando primeiro para o Capitão e depois para os outros Guerreiros que ali estavam.- Se eles são apenas três, não deve ser difícil..... - Estávamos a pensar nisso, mas eles receberam reforços à cerca de um centon atrás.- respondeu Jolly.- Eu estava a espreitar quando eles chegaram. - Quantos? - Oito. - Então temos que atacar de imediato, antes que eles se barriquem melhor.- disse Croft.- Temos que fazer um ataque frontal....... - Isso é uma loucura!!- disse de imediato Starbuck, afastando o Guerreio que o tratava e dirigindo-se para Croft.- As baixas que podemos ter........ - Eu sei!- respondeu o outro.- Mas a verdade é que não temos outra opção. Foi nessa altura que se fez ouvir uma voz, vinda da direcção da barricada dos Seguranças: - Estão a ouvir-nos, aí ao fundo?? - Estamos.- berrou de imediato Croft, assumindo o controle da situação.- O que querem? - Queremos render-nos!!! Um burburinho instalou-se de imediato entre os Guerreiros ao ouvirem estas palavras. Muitos diziam que aquilo só podia ser uma armadilha e ninguém sabia o que fazer. Lentamente, o Coronel avançou, tendo cuidado para não tropeçar nas pernas do Guerreiro morto, e espreitou para o corredor de onde tinha vindo a voz. A uma curta distância estava o corpo do outro Guerreiro que tinha sido atingido pelos Seguranças. A meio do corredor estava a tal barricada feita com os painéis de manutenção e, por detrás dela, em pé, estava um soldado desarmado e com as mãos no ar. Atrás dele podiam-se ver sete outros Seguranças, reunidos num grupo e com as armas apontadas a outros três. - Para se render têm de largar as armas!!- disse Croft para o soldado, expondo-se totalmente. - Eu até fazia isso...- respondeu o Segurança, apontando depois para os três que estavam a ser vigiados.-...mas estes três não se querem render. E além disso foram eles que dispararam contra os Guerreiros.... - Esperem um momento!- ordenou o Coronel, virando-se depois para trás:- Capitão, mande avançar os homens! Os Guerreiros da Esquadrilha Azul e da Academia começaram a entrar lentamente no corredor, com as armas prontas, seguindo de Croft que avançava na direcção da barricada sem nunca tirar os olhos dos Seguranças. Podia ver agora que os três homens que estavam presos, dois soldados e um Sargento, estavam bastante maltratados apresentando sinais evidentes de agressão. Com um pequeno salto ultrapassou os painéis enquanto o soldado que tinha falado com ele se afastava para o lado, encostando-se à parede, sempre com as mãos no ar. Pegando numa arma que estava no chão, virou-a na direcção geral dos outros Seguranças e disse: - Já podem largar as armas.... Os "Camisas Negras" assim fizeram, sem a mínima hesitação, largando as suas espingardas no chão e chutando-as na direcção do Coronel, para longe dos três prisioneiros. De seguida começaram a avançar em fila na direcção dos Guerreiros que ultrapassavam a barricada, pondo as mãos no ar. Starbuck e outros dois surgiram ao lado de Croft, apontando as armas aos prisioneiros. - Vai ser um prazer ver-vos ir para a Nave-Prisão!- disse o Capitão, com uma voz que denotava a sua raiva.- Vocês vão pagar pelo que fizeram..... Nenhum dos Seguranças disse nada, continuando os três a fitar o chão. - Onde estão Trolius e Griffin?- perguntou Croft ao soldado que tinha tratado da rendição e que ainda continuava no mesmo sítio. - Ao fundo do corredor, perto da Ponte.- disse o outro apontando. Croft agradeceu-lhe e ordenou a dez Guerreiros que o acompanhassem, pondo-se a caminho. Nas suas costas o soldado gritou-lhe, em jeito de despedida. - Olhe que foi o Capitão Griffin que nos disse para nos rendermos..... - Mas aposto que também foi ele que os mandou disparar.....- murmurou Croft, dirigindo-se ao encontro dos mentores daquele golpe Griffin e os três Seguranças que estavam com ele, ouviram, antes de ver, os Guerreiros que se aproximavam. Estes últimos avançavam pelo corredor a passo de corrida e o ecoar das suas botas ouvia-se perfeitamente. - Lembrem-se, nada de idiotices.- disse Griffin, acrescentado depois com pesar.- Perdemos, portanto nada de heroísmos baratos!! - Sim senhor!- responderam os Seguranças em uníssono. Quando os Guerreiros chegaram junto deles, o Capitão reconheceu de imediato quem os comandava, o Coronel Croft, um dos instrutores da Academia e um dos poucos Guerreiros que ele respeitava. - Coronel Croft.- disse ele simplesmente quando os Guerreiros chegaram, fazendo uma saudação. - Capitão Griffin.- respondeu o primeiro, retribuindo a saudação. De seguida o seu olhar dirigiu-se para o local onde Trolius estava caído, numa espécie de interrogação silenciosa a que o Capitão respondeu de imediato: - Ele estava a ver se passava as culpas todas para mim.... - Estou a ver....... Num esforço para conter um certo nervosismo, Griffin pigarreou antes de continuar: - Tenho apenas uma condição para me render...... - Não me parece que esteja em condições de impor condições..... - Eu sei disso, mas tenho que lhe pedir, de militar para militar, para que os meus homens e eu não sejamos enviados para a Nave-Prisão. - Está com medo de represálias, certo? - Exactamente.....- disse Griffin.- Apesar da gravidade do nosso acto, tenho a certeza que esse castigo seria desumano...... - Vou ver o que posso fazer em relação a isso.- prometeu Croft, com pouca convicção pois sabia perfeitamente que a Frota não tinha mais nenhum espaço onde pôr prisioneiros para além daquele. - Tenho a certeza de que a Presidente Athena irá concordar com esse pequeno pormenor......... - Presidente quem?- perguntou o Coronel ao ouvir as palavras de Griffin. Os Guerreiros não haviam visto a transmissão efectuada pelo novo Conselho dos Doze porque, por puro azar, o único monitor que existia na zona por onde tinham passado havia sido destruído por um tiro perdido. Griffin ia começar a relatar o conteúdo da transmissão de Athena quando as luzes do corredor principal se apagaram sendo substituídas pelas luzes vermelhas de emergência, ao mesmo tempo que uma voz se começou a fazer ouvir por toda a Galactica, vinda da Ponte - ALERTA VERMELHO! ALERTA VERMELHO! TODA A TRIPULAÇÃO AOS SEUS POSTOS DE COMBATE! TODA A TRIPUALÇÃO AOS SEUS POSTOS DE COMBATE! Apollo e o resto da tripulação da Ponte tinham assistido com um entusiasmo crescente à declaração de Athena, à morte de Trolius às mãos de Griffin e finalmente ao aparecimento do grupo de Guerreiros comandado por Croft. O Comandante ia ordenar que abrissem a porta da Ponte quando Omega berrou do seu posto: - Alerta vermelho!- Enquanto dizia isto tinha também accionado o sistema que transmitia o aviso para toda a nave e para o resto da Frota. De seguida ligou o seu terminal a um dos monitores do Posto de Comando, compartilhando assim os dados que obtinha. - Qual é a situação da Frota?- interrogou Apollo, fitando a imagem no monitor, imagem essa que parecia saída de um pesadelo. - Todas as naves estão do outro lado, menos nós e a Nave da Academia, que vai a meio da passagem, assim como a Esquadrilha Prateada que está junto da primeira cintura de asteróides.- respondeu Tigh, consultando o seu computador pessoal que tinha as informações de todos os terminais da Ponte. - Mande a Nave da Academia acelerar ao máximo e mande a Esquadrilha Prateada regressar de imediato.- ordenou Apollo, pensando furiosamente.- Entretanto prepare a Esquadrilha Azul e informe a Vermelha e a Verde de que temos intrusos. Eles que se preparem para combater. Tigh transmitiu aquilo que lhe tinha sido dito sem hesitar. - Avise também que assim que a Esquadrilha Prateada estiver a bordo, vamos atravessar a passagem à velocidade máxima! - À velocidade máxima?- perguntou Tigh, incrédulo pois em toda a sua carreira a bordo da Galactica só tinha ouvido essa ordem por duas vezes e só em emergências. Ao contrário dos Cylons os Coloniais pouco utilizavam a velocidade da luz pois fora ao usar esse tipo de propulsão que duas Estrelas-de-Batalha, a Argo e a Hermes, haviam desaparecido. - Exactamente!! Temos que chegar junto da Frota o mais rápido possível. É a única maneira de os proteger.....- disse Apollo, enquanto que sentia uma espécie de terror a invadi-lo. Lembrava-se agora das palavras que aquele estranho tinha dito, nos seus aposentos: "Um último aviso.....cuidado com velhos inimigos!". Recordando-se destas palavras os seus olhos voltaram-se novamente para o monitor onde apareciam os dados do terminal de Omega, terminal esse que por sua vez recebia os dados dos Vipers da Esquadrilha Prateada. E à medida que olhava, Apollo via que a Nave-Base Cylon que tinha sido detectada pelos Vipers estava a ganhar velocidade agora que tinha ultrapassado a primeira cintura de asteróides. - Que os Senhores de Kobol nos ajudem........ - murmurou ele. O Primeiro-Centurião que comandava a Nave-Base fez rodar pedestal onde estava sentado na direcção dos Centuriões que operavam os vários postos na Ponte. De imediato um deles levantou-se e, virando-se na direcção do pedestal, disse na sua voz de entoação metálica: - Pelo seu comando! - Qual é a situação dos Coloniais?- perguntou o ciborgue de armadura dourada, com um tom de voz ligeiramente menos mecânico do que o do seu subordinado. - Os coloniais já se aperceberam da nossa presença. Os Vipers estão a regressar à Estrela-de-Batalha. A Estrela de Batalha foi identificada como sendo a Galactica. - Há sinais da Frota? - Não há qualquer sinal da Frota.- respondeu o Centurião. - Quando podemos lançar os Raiders? - As reparações das portas do hangar estarão acabadas dentro de cento e oitenta microns. Daqui a cento e oitenta e um microns poderemos lançar os Raiders. - Muito bem, Centurião.- disse o Primeiro-Centurião, fazendo um gesto para que o outro regressasse ao seu posto. - Pelo seu comando! O Primeiro-Centurião apesar de ter dois cérebros electrónicos que suplantavam e dominavam o seu cérebro orgânico sentia "algo" que só podia vir da sua parte orgânica. Esse "algo" era o sentimento de sorte, algo que os seus dois cérebros principais diziam que não podia existir no mundo lógico em que os Cylons viviam. Mas mesmo assim, ele sentia que sim, que essa sorte existia. Ele era muito velho mesmo para os padrões da sua raça que vivia até aos mil yahrens, suportada pelas partes cibernéticas. Ao contrário dos novos Cylons que eram transformados logo em ciborgues à nascença, ele tinha sido transformado perto dos seiscentos yahrens, no auge da sua juventude, à trezentos yahrens atrás. Isso acontecera quando os novos Cylons tinham capturado a única colónia de Cylons orgânicos que ainda existia e à qual ele pertencia. Por causa desse facto ainda se lembrava de como era ser um simples ser orgânico, de como era ter sentimentos, sensações, expectativas. É claro que também era por isso que nunca passara de Primeiro-Centurião e que fora relegado para aquela fronteira esquecida do Império Cylon, comandando uma Nave-Base que devia ser mais velha do que ele e que estava cheia de problemas. Mas a sorte parecia estar com ele. Os aparelhos de comunicação hiperluz da Nave tinham acabado de ser reparados na altura certa para receber o Édito de Extermínio da Raça Humana, que ordenava a destruição dos sobreviventes da raça humana e as subsequentes mensagens sobre a perseguição efectuada pelo Império. A Frota Colonial vinha na sua direcção! Ao fim de sete yahrens, e no senton em que um dos sensores laterais da Nave-Base tinha decidido voltar a funcionar ao fim de três yahrens, tinha captado uma enorme explosão numa cintura de asteróides que conhecia perfeitamente pois não lhe faltara tempo para investigar toda aquela parte da fronteira. E agora encontrava-se ali, a aproximar-se cada vez mais da lendária Estrela-de-Batalha Galactica, sabendo que a glória da destruição desta seria toda sua pois as Naves-Base mais próximas estavam a três yahrens-luz, num posto avançado, a sofrer melhoramentos, e os aparelhos de comunicação hiperluz da sua Nave tinham deixado de funcionar, não podendo por isso pedir ajuda. Agora só lhe faltava conseguir lançar os Raiders, uma tarefa dificultada pelo facto das portas do hangar estarem encravadas por falta de uso. Mas isso não seria problema pois a sorte, aquele "algo" que não existia, estava do seu lado. - Continua -