Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ---------------------------------------------------------------- Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (verg@esoterica.pt) ---------------------------------------------------------------- Capítulo 7 O sonho começava quase sempre com a nave a flutuar no espaço. Ele estava tão perto que podia tocar na superfície metálica dela, mas sempre que o tentava a distância aumentava. Era nessa altura que tudo começava a acabar. Aos poucos, a nave parecia começar a inchar em certos sítios e a ser sacudida. Ele tinha a certeza de que eram explosões internas que provocavam tal efeito. Quase que a confirmar a sua teoria, ela começava a desfazer-se aos bocados, perdendo lentamente a sua forma, enquanto girava sobre si mesma, afastando-se cada vez mais depressa, até se tornar apenas outro ponto brilhante no firmamento. A única coisa que escapava a toda aquela destruição era uma pequena placa dourada com o nome da nave: T.D.F.- Washington, que ficava a flutuar no espaço. Essa placa era também uma das primeiras coisas que o Comandante William Trent via sempre que acordava do pesadelo, debatendo-se futilmente contra os fechos que o mantinham seguro no seu saco-cama, impedindo-o de flutuar livremente pela sua cabine. A placa, que havia sido um presente dado pela sua mulher e pelo seu filho na altura em que tinha recebido o seu novo comando, estava segura magneticamente junto de uma série de fotografias de família na parede directamente em frente da cama de William. Este último, depois de se acalmar, consultou o seu computador interno e viu que eram 5 horas da manhã. Com um movimento rápido das mãos abriu os fechos que o mantinham seguro e dando um pequeno impulso, soltou-se do seu saco, flutuando em direcção ao tecto. Antes de aí chegar, tocando com ponta dos dedos num dos rebordos de metal existentes na parede, deu um outro pequeno impulso na direcção do chão. Tal como era costume, os seus pés rapidamente entraram em contacto com as suas botas magnéticas e assim terminou a falta de gravidade. Entrando novamente em contacto com o seu computador, William viu surgir na sua mente um esquema de toda a nave e o estado dos respectivos sistemas. Satisfeito por tudo estar bem passou para a fase seguinte, acedendo ao registo de bordo efectuado pela Inteligência Artificial da nave, verificando assim todas as coisas que se tinham passado enquanto estivera a dormir. Enquanto fazia isso, sentiu a presença da dita I.A. , que lhe apareceu na mente como uma estrela a piscar no canto superior do documento que estava a ler. "Bom dia, Erika!", pensou ele, enquanto continuava a ler. "Bom dia, Capitão Trent.", respondeu então uma voz feminina que apenas ele podia ouvir.- "Preparado para um novo dia?" "Só depois de um banho e do pequeno-almoço! Até lá não sou um ser humano normal." "Não se preocupe. Como de costume, terá o café à sua espera no Centro de Comando." "Obrigado."- respondeu William, terminando desta maneira o ritual matinal que se repetia à 2 anos, desde da altura em que a I. A. tinha sido instalada naquela nave. Espreguiçando-se, dirigiu-se então para aquilo que era chamado de chuveiro. Embora ele estivesse em serviço na Marinha à mais de 20 anos, ainda não se conseguira habituar a tomar banho em ambientes sem gravidade. Soltando um suspiro de resignação, tirou a roupa com que dormira e entrou para o pequeno armário onde estavam as instalações sanitárias, armário esse que era carinhosamente apelidado de "o Caixão" por todos os tripulantes de uma nave espacial. O chuveiros sónico era a resposta para as dificuldades de tomar banho com água num ambiente de gravidade zero. Carregando num botão, sentiu aquela sensação semelhante a ter inúmeras formigas a andar pela sua pele provocada pelos emissores sónicos que limpavam a sua pele. Depois daquela sessão de um minuto surgiu então uma esponja molhada com qual ele limpou toda a sujidade libertada pelo chuveiro sónico. William estava de tal maneira empenhado no que fazia, que a princípio nem reparou na pequena estrela que lhe surgia sempre que fechava os olhos. Só na altura em que esta se começou a tornar cada vez maior e a brilhar cada vez mais é que ele se apercebeu. Praguejando para si mesmo por não ter reparado no sinal, pensou: "Sim. Erika?" "Peço desculpa por o estar a incomodar agora, Capitão Trent, mas recebemos uma mensagem estranha da Central Espacial de Lavos-329.", enquanto dizia isto, a I.A. fez aparecer na mente de William um mapa estelar com as coordenadas da colónia de Lavos-329 e a sua posição em relação à patrulha que ele comandava. "Qual é o teor da mensagem?" "Os sensores de espaço profundo da colónia captaram sinais de origem desconhecida e aparentemente codificados. A fonte é desconhecida mas está a mover-se" . "Poderão ser os piratas?" "Com os dados disponíveis não podemos chegar a nenhuma conclusão" Trent acedeu aos seus arquivos, consultando os dados aí arquivados sobre os piratas que a sua patrulha perseguia. Há mais de cinco anos que os primeiros atacavam e saqueavam colónias que estavam fora das rotas comerciais normais. Os relatórios vinham acompanhados com inúmeras imagens, imagens essas que faziam sempre com que o Comandante sentisse um aperto no fundo do seu estômago. Elas mostravam, invariavelmente, aldeias, vilas e cidades destruídas com corpos espalhados pelas ruas. E os que morria eram os mais afortunados pois os poucos sobreviventes diziam que os piratas tinham também o costume de raptar colonos, especialmente mulheres e crianças. A Marinha da Força de Defesa Terrestre tinha tentado travar, sem sucesso, esses ataques. A única vez que tinha havido um confronto entre as naves da Marinha e os piratas, estes últimos haviam ganho, destruindo as duas fragatas que tinham sido enviadas para os interceptar. A partir de então todas as patrulhas da Marinha eram constituídas por cinco fragatas, duas naves de reconhecimento e três corvetas de ataque, uma força que se esperava ser suficiente para derrotar os piratas. Era essa força que estava sob o comando de Trent e que ele tinha que começar a posicionar para interceptar a fonte daqueles sinais. Fechando os arquivos, acedeu aos mapas estelares da zona em questão, ligando-se ao computador central da nave e à secção de Navegação. Numa questão de nanosegundos analisou o mapa e tomou uma decisão. "Erika, liga-me se faz favor aos Capitães Lopes e Ossan!" "Com certeza", respondeu a I.A., utilizando os aparelhos de comunicação da Washington para contactar os computadores das duas naves comandadas por esses dois oficiais, computadores esses que por sua vez avisavam as I.A. que ambos possuíam e que faziam o interface entre Humanos e naves. Tudo isso foi feito novamente em nanosegundos e assim Trent não teve que esperar muito para ver surgir na sua mente as faces de Lopes e Ossan que o saudaram. "Presumo que já saibam do sinal captado por Lavos-329..." "Já", responderam os dois em uníssono. Assim que a nave de comando, a Washington, tinha recebido a mensagem Erika havia-a transmitida para o resto da patrulha. "Muito bem, sendo assim vou rapidamente ao assunto.", pensando isto Trent puxou da memória o mapa.- "Como podem ver os sinais estão a ter origem junto deste imenso anel de asteróides....." "O Anel da Morte...", disse Lopes "Exactamente....", respondeu William. Aquela zona do espaço era conhecida por esse nome devido ao facto de inúmeras sondas e naves de exploração terem desaparecido aí. A única coisa de fabrico humano que tinha conseguido passar esse anel, através de uma imensa passagem que o atravessava, tinha sido uma sonda de espaço profundo do tipo Magalhães que tinha transmitido ainda durante alguns anos antes de desaparecer. Até era apropriado que piratas se escondessem numa zona com um nome daqueles. -"Vamos tomar todas as precauções. Vocês vão saltar para este sector do mapa e fazer uma inspecção da zona. Quando o fizerem voltem para junto de colónia que nos estaremos lá. Mantenham silêncio rádio e electrónico total. Alguém tem questões? "Em caso de ataque podemos ripostar?", perguntou Ossan, o Capitão da Dakar que era conhecido pela sua impulsividade. "Façam mas é para não serem detectados, Ossan, que assim já não devem ser atacados", respondeu Trent. Lopes começou-se a rir, o que lhe teria valido um olhar de reprovação por parte de Ossan se por acaso estivessem frente a frente, mas como estavam apenas a comunicar electronicamente, numa espécie de telepatia artificial, tal não era possível. Apesar disso, Lopes conteve o seu riso e perguntou mais seriamente: "O Comandante acha que são os piratas?" "Para ser sincero acho que não, porque eles já não atacam este sector à mais de dois anos. Mas mesmo assim é preciso investigar todas as pistas e é isso que vocês vão fazer. Mais alguma pergunta?" "Não senhor!", responderam quase que em simultâneo. "Muito bem, então prossigam e boa sorte!" "Obrigado, senhor!" retorquiram os Capitães das naves de reconhecimento, quebrando depois a comunicação. "Erika, começa a preparar, com o Navegador, um salto para Lavos-329, se faz favor", disse ele depois de fechar a comunicação. "Sim, Capitão. Deseja mais alguma coisa?" "Não, não....! Eu vou já para a Ponte." "Sim, Capitão." Depois desta breve conversa, Trent acabou de tomar o seu "banho" rapidamente. Enquanto o fazia, acedeu novamente ao computador central da nave, acompanhado os preparativos para partirem daquele local. Na altura em que abandonou os seus aposentos, podia já sentir nos seus pés, mesmo através dos seus sapatos com solas magnéticas, o pulsar dos motores principais da nave. A Washington era igual a todas as outras naves da classe Monólito. Um enorme cilindro horizontal com cerca de 800 metros de comprimento, com uma superfície lisa, apenas quebrada pelas silhuetas redondas da sua Ponte de Comando num extremo e da redoma de radar no outro extremo e pelas formas quadradas dos seus vários lançadores de mísseis e torpedos. A classe Monólito traduzia a nova visão de guerra do Comando Espacial. As Guerras Coloniais haviam mostrado a necessidade de se produzirem pequenas naves, que fossem rápidas e com grande poder de fogo. O tempo das grandes naves de combate estava a chegar ao fim. A Washington havia saído dos estaleiros militares da Lua a apenas 2 anos e era a última de uma série de 10 naves encomendadas. Tal como todas as suas irmãs tinha sido utilizada apenas dentro do Sistema Solar durante o primeiro ano, sendo depois utilizada em várias missões de patrulha no espaço exterior, sendo aquela em que estavam a terceira delas. Seguindo as ordens de Trent, a I.A. e o Navegador, o único outro tripulante da nave que tinha direito a ter um implante electrónico, estavam a estabelecer a rota para um salto para Lavos-329. Os 3 motores convencionais da Washington, alimentados por reactores de fusão lançavam enormes chamas azuis que iluminavam toda a cauda da nave, enquanto que esta e o resto das naves da patrulha se afastavam umas das outras e se alinhavam com a estrela do tipo Sol que iluminava o planeta alvo e que já tinha sido identificada pelos sistemas de astronavegação. A Dakar e a Lisbon estavam alinhadas com o sector do anel de asteróides e saltaram assim que ficaram à distância de segurança. Assim que recebessem a ordem de Trent, o resto da patrulha partiria em direcção a Lavos-329. A Capitã Sheba verificou mais uma vez os sensores dos seus Vipers, lançando uma pequena prece para que a imagem aí presente tivesse mudado. - Frack!- murmurou ela ao ver que esse pequeno milagre não tinha acontecido. A Frota continuava a assumir as posições de combate muito lentamente. Mudando o seu comunicador para a frequência principal da Frota disse: - Daqui fala a Capitã Sheba. As manobras estão a demorar muito tempo!! Peço a todos os Comandantes das naves que se apressem!! De imediato se fizeram ouvir inúmeras vozes, algumas pedindo conselhos e calma mas a maior parte exigindo saber quando é que a Galactica chegaria aquele lado da cintura de asteróides. Era óbvio que se esqueciam que os Cylons estavam também do outro lado e que para chegarem ali teriam que passar pela Galactica. E, ainda para mais, as duas Esquadrilhas daquele lado já estavam preparadas para combater, se fosse preciso, embora houvesse certos problemas, nomeadamente o facto de ambas terem as suas reservas de combustível a meio e também o facto de que os Guerreiros da Esquadrilha Verde nunca tinham combatido fora de um simulador. Enquanto assegurava que tudo estava bem ao Comandantes da Frota, Sheba accionou os turbos, dando uma volta com o seu caça, fazendo um círculo em redor das naves que tinha que proteger. - Tenho que confessar que também estou preocupada pelo facto da Galactica não ter dito mais nada!!- disse a Tenente Deitra, num canal de comunicação privado, enquanto mantinha o seu Viper em formação com o de Sheba. - A quem o dizes.......- respondeu a Capitã.- Mas tenho a certeza que não deve haver problema! Sheba sabia perfeitamente que as suas palavras deviam soar a falso. Estava preocupada com toda a situação. Logo após terem ultrapassado a cintura sentira que algo estava mal pois as comunicações tinham estado interrompidas por momentos. Após terem sido restabelecidas, a Ponte da Galactica tinha respondido a todos os inquéritos feitos por ela dizendo que tudo estava bem, mas essa resposta parecia demasiado forçada, parecendo até que alguém tinha ordenado que fosse essa a resposta. Talvez Apollo tivesse feito isso pois sabia que ela iria ficar preocupada se algo estivesse a acontecer. E para aumentar mais as suas suspeitas, havia ainda o caso da nave da Academia que tinha ficado junto da Galactica por algum tempo antes de avançar a toda a velocidade através da passagem. É claro que para complicar toda esta situação tinha havido ainda o alerta lançado pela Galactica avisando a Frota de que uma Nave-Base Cylon tinha sido detectada nas proximidades. Ao fim de sete yahrens de paz os Cylons tinham voltado, como que para lembrar os Humanos de que ainda os perseguiam. - Viste aquilo??- berrou de repente a Tenente, quebrando a cadeia de pensamento de Sheba. - Aquilo o quê??- perguntou, lançando de imediato o seu olhar para os sensores do Viper que não indicavam nada de estranho. - Os meus sensores detectaram um pico de energia momentâneo à uns microns atrás....... - Vou verificar!- disse a Capitã, carregando numa série de botões que faziam com que o computador de bordo mostrasse de novo os dados registados pelos sensores. Olhando para o monitor secundário onde os dados estavam a surgir, Sheba viu que realmente tinha havido uma espécie de descarga de energia num sector por onde tinham estado a passar microns atrás. - Daqui fala a Capitã Sheba, alguma das naves do sector Delta F está a captar algo de estranho?- perguntou ela na frequência da Frota. A resposta da naves foi negativa excepto por uma nave de passageiros que também tinha detectado um estranho pico de energia. Definitivamente algo se tinha passado naquele sector. - Deitra, vamos fazer uma investigação!!- disse Sheba, depois de contactar o resto da Esquadrilha e ordenar-lhes para que continuassem as suas patrulhas. - Compreendido! Rapidamente os dois Vipers deram meia volta e dirigiram-se para o sector em questão. O ambiente à bordo da T.D.F. Lisbon estava tenso desde que tinham efectuado o salto até junto do anel de asteróides. Ninguém na Ponte acreditava ainda no que via. Espalhadas por uma enorme área do espaço encontravam-se centenas de naves de todo o tipo e forma, nenhuma delas de fabrico conhecido. "Já temos uma estimativa do inimigo?", interrogou o Capitão Lopes. " 195 naves de Classe A e cerca de 50 de Classe C", respondeu Drake, a I.A. da nave de reconhecimento. Estas últimas eram as que mais preocupavam Lopes. Para começar, eram mais rápidas do que qualquer nave de Classe C construída por Terrestres. Mesmo o mais avançado dos caças terrestres só podia alcançar perto de 75% da velocidade daquelas naves, segundo as estimativas da I.A. Ainda para mais a própria existência dos caças implicava a existência de uma nave-mãe de onde eram lançadas, nave-mãe essa que não parecia estar ali presente. - Dois dos alvos quebraram a formação e estão-se a dirigir nesta direcção!!- disse de repente o oficial encarregue do radar.- Designação de Alfa 1 e Alfa 2. Vinte minutos para a intercepção! "Mapa táctico!", ordenou Lopes. A I.A. projectou-o de imediato na mente do Capitão, e este viu que sem sombra de dúvidas os dois objectos se encaminhavam para as naves de reconhecimento. Estas últimas eram construídas com uma série de materiais que lhes permitiam ser invisíveis ao radar, além de serem totalmente pintadas de negro, sem nenhuma das habituais luzes indicadoras de presença. Além do mais, os seus motores convencionais eram arrefecidos de uma maneira que não deixava vestígios de calor. A única maneira de serem detectadas era quando disparavam alguma das suas armas ou quando estavam a emitir sinais electrónicos, o que não era o caso pois agora estavam em modo passivo, limitando-se a receber os sinais emitidos pelo inimigo. "E mesmo assim aquelas duas naves estão a vir na nossa direcção! Como é que é possível??", perguntou Lopes a si mesmo. Drake entendeu aquilo como uma pergunta e respondeu: "Os sensores deles são mais avançados e são capazes de detectar a energia residual de um salto hiperespacial" "O quê??" A I.A. deu a mesma resposta, o que fez com que o Capitão parasse para pensar um pouco. As Inteligências Artificiais só deviam formular respostas baseadas em dados concretos o que não era o caso. Nada indicava que os alienígenas possuíssem um sistema capaz de detectar os saltos. Eles podiam estar a dirigir-se para aquela zona por mero acaso. "Como chegaste a esta conclusão, Drake?" O programa nada respondeu e o Capitão voltou a insistir. Era importante saber se havia algum problema com a I.A. pois era esta que vigiava a maior parte das operações e sistemas da nave. O facto dela aparentemente estar a tirar conclusões irracionais podia ser um indício de algum problema. Lopes voltou a repetir a pergunta, consciente que realmente devia haver algum problema. "Desculpe Capitão, mas os meus programas de auto-diagnóstico detectaram um erro numa das minhas memórias", respondeu por fim o computador, num de voz que parecia mostrar algum orgulho ferido. "Memórias, como assim??", perguntou Lopes que esperava alguma espécie de erro no sector das operações lógicas.- "Em que sector da memória?" "Num dos blocos de Planeamento e Estratégia." A resposta deixou o Capitão ainda mais intrigado pois Planeamento e Estratégia era a zona onde a I.A. tinha armazenada todo o tipo de informações que deviam ajudar o Capitão de uma nave a entrar em batalha. Essa memória não era utilizada para operações lógicas, como responder a uma pergunta, fora de situações de combate. "Qual a natureza do erro?" "Acesso não autorizado por outro programa a dados aí contidos." Ou seja, Drake tinha respondido à pergunta de Lopes utilizando informações de um bloco de memória de acesso restrito. Mas essa informação só podia estar ali guardada se a Aliança de Defesa Terrestre já conhecesse aqueles alienígenas! "Qual é o nome do bloco de memória?" "Não posso dizer!", respondeu a I.A. . "Como assim?", perguntou o Capitão, espantado. Desde que começara a trabalhar com as I.A. à três anos atrás, aquela era a primeira vez que ele ouvia uma resposta negativa a uma pergunta daquele tipo.- "Qual é o motivo da recusa?" "O senhor não tem um nível de autorização suficiente para ter essa informação!" Lopes calou-se, pensando furiosamente. O seu nível de autorização era de MAJ-5, o nível dado a todos os oficiais que tinham que lidar com armas nucleares e o mais alto da Marinha da Força de Defesa Terrestre. Mesmo assim, não podia ter acesso a uns simples blocos de memória. Havia qualquer coisa de errado ali. Talvez o problema da I.A. fosse mais grave do que ela própria pensava. "Que nível de acesso preciso para aceder a esse bloco de memória?" "O senhor não tem um nível de autorização suficiente para ter essa informação!" "Estás a gozar comigo???", berrou mentalmente o Capitão, agora convicto de que a I.A. estava totalmente avariada.- "Nem sequer tenho autorização para saber quem tem autorização??" "Exactamente. E devo também avisar que se continuar com perguntas em relação a este assunto serei obrigado a participar de si." A ameaça tinha sido feita com uma convicção que assustou Lopes. Um sentimento estranho invadiu-o. Seria medo por estar numa nave parcialmente controlada por uma inteligência nitidamente avariada? Fazendo um esforço para se acalmar, disse: "Muito bem. Como Capitão da T.D.F. Lisbon, acho que não estás em condições de continuar ligada. Percebes o que isto quer dizer?" "Sim!", respondeu a voz na sua cabeça num tom de voz neutro. Virando-se para um dos oficiais da Ponte, o Capitão repetiu em voz alta o que tinha dito a Drake, pedindo depois para que esse mesmo oficial este gravasse a sua decisão no diário de bordo, o único computador da nave que não era acessível a I.A.. Isso feito, abriu um tampo metálico que tinha num dos braços da sua cadeira e carregou num botão aí existente, pondo a I.A. em modo de espera, ou seja, apenas monitorizando os sistemas da nave, não podendo intervir em nenhum deles. Assim que chegassem a um porto espacial com capacidade para tal, a I.A. seria retirada da nave e seria-lhe feita uma revisão por uma série de programadores da Marinha. Satisfeito por ter tratado do assunto de acordo com o regulamento, Lopes virou a sua atenção para o mapa táctico. Apesar de Drake estar desligado, o Capitão conseguia aceder à informação dos diversos sistemas da Ponte através da ligação directa que tinha ao computador principal da nave. Essa ligação era feita através de um cabo que saía da sua cadeira de comando e que estava inserido na entrada que lhe tinha sido implantada na parte traseira do crânio. O processador que tinha dentro do seu cérebro interpretava depois a informação que vinha dos diferentes terminais. Com um simples comando mental, sobrepôs aos símbolos em forma de diamante que representavam os alvos Alfa 1 e 2 as suas respectivas velocidades. E o que viu não lhe agradou nada. Os dois alvos estavam a aumentar a velocidade! - Tempo para a intercepção?- perguntou ele em voz alta. - 5 minutos.- respondeu um oficial. - Capitão, peço permissão para preparar uma solução de tiro.- disse o oficial encarregue da Secção de Armamentos. - Permissão recusada!- respondeu Lopes, lembrando-se das ordens de Trent.- Não quero nenhuma arma apontada aos alvos! - Sim, senhor.......- respondeu o outro com um tom que demonstrava que não concordava com a ordem que lhe tinha sido dada. - Preparem um salto para Lavos-329. Se os alvos se aproximarem a mais de um quilómetro saímos daqui.- ordenou o Comandante para a Navegação, voltando de seguida a sua atenção para o mapa táctico e vendo os dois alvos a aproximarem-se a uma velocidade cada vez maior.- Só espero que o Ossan não faça nada de estúpido!!- murmurou ele baixinho para si mesmo. Sheba não sabia bem explicar o seu pressentimento. Talvez fosse o resultado de uma série de yahrens a combater no espaço, primeiro a bordo da Estrela-de-Batalha comandada pelo seu pai, a Pegasus e depois a bordo da Galactica. Algo lhe dizia que havia perigoso naquela zona do espaço que se aproximava. - Estás a ver algo de esquisito, Dietra?- perguntou ela deixando de pressionar o botão dos turbos. - Negativo! Segundo os sensores não há nada ali em frente...- respondeu a sua parceira de voo, cortando também os turbos e alinhando-se junto ao Viper de Sheba.- Vou aumentar a potência..... A Capitã fez a mesma coisa, seleccionando a opção correcta para tal. De imediato o monitor que mostrava os dados colhidos pelos sensores mudou de aspecto, mostrando uma grelha de busca muito menor, centrada na dianteira do Viper. Aparentemente os sensores não estavam a captar nada de anormal, mas mesmo assim Sheba continuava com o seu pressentimento. - Acho que tenho aqui qualquer coisa......- disse de repente Dietra, virando o seu Viper para a direita e dando-lhe alguma aceleração. Sheba fez o mesmo e imediatamente viu aquilo a que a Tenente se referia. Ou melhor não viu, pois segundo os sensores havia ali dois objectos indefinidos que estavam a absorver as emissões dos aparelhos de detecção dos Vipers. - Os meus sensores não conseguem identificar o que está ali!- disse Sheba, contactando depois o resto da Frota e dizendo-lhes o que se estava a passar. Enquanto falava, Sheba fitava o sector do espaço onde estavam os tais objecto. Aos poucos começou a reparar em algo de estranho. No local onde os sensores diziam que havia algo não se viam estrelas. Realmente havia ali dois objectos maciços que estavam a tapar a luz das estrelas e que eram tão negros como o espaço. Mudando de frequência avisou Dietra da sua descoberta, perguntando depois: - Que fazemos?? - Não sei.- respondeu a Tenente com toda a sinceridade. - O que serão estas coisas? - Também não faço a mínima ideia, mas de certeza que não é nada dos Cylons porque senão já teríamos sido destruídas. - Nisso tens razão.... Sheba pensou no que devia fazer, pesando os prós e os contras. No fim a sua natureza impulsiva, um "presente" do seu pai, o lendário Comandante Cain, fez com que tomasse uma decisão. - Vamos avançar mais um pouco, Dietra. Pode ser que se estivermos mais perto os sensores consigam mais dados.... - Mais perto? - Vamos avançar até oito hectares de distância.. - Será seguro?? - Se não nos atacaram até agora, não penso que o venham a fazer.- disse Sheba, avisando depois a Frota do que ia fazer. Após terminar a comunicação, carregou no botão que accionava os turbos, encurtando a distância para os alvos. - Vamos só dar uma espreitadela....- disse ela, tentando parecer confiante.- É só chegar até ali e voltar para a Frota.... Dietra ia começar a dizer qualquer coisa mas foi interrompida pelos alarmes dos seus sensores. Também no Viper de Sheba se faziam ouvir os mesmos alarmes, mas esta parecia paralisada com o que tinha visto. Por breves momentos parecia que o espaço à sua frente se tinha iluminado com quatro sucessivas explosões de luz. Essas explosões tinham-lhe permitido vislumbrar uma nave negra em forma de estilete. Finalmente o inimigo tinha uma cara! O Capitão Lopes fitou o mapa táctico, incrédulo. Tinha estado a seguir com atenção a movimentação de Alfa 1 e 2. Os dois alvos depois daquela aceleração súbita tinham parado a cerca de um quilómetro das naves de reconhecimento. A pausa fora momentânea pois após cerca de um minuto tinham acelerado novamente, directamente na direcção da Dakar, que era a nave que estava à frente. E nesse momento a Dakar tinha disparado quatro mísseis na direcção de Alfa 1 e 2. - A Dakar disparou quatro mísseis!!- berrou o oficial encarregue da Secção de Armamento, esquecendo-se que o Capitão da nave tinha acesso aos mesmos dados que ele.- 1 minuto para o impacto. - Preparar para o salto!!- ordenou Lopes ao oficial da Navegação. Pela cabeça passou-lhe um pensamento que o deixou aterrado. Com aquele acto Ossan podia ter começado uma guerra interestelar! As luzes da Lisbon passaram para vermelho ao mesmo tempo que se fez ouvir uma voz metálica que fazia uma contagem decrescente. Assim que a voz atingiu o zero, o espaço à volta da nave pareceu iluminar-se por breves segundos e ela tornou-se como que transparente antes de desaparecer completamente. Os sensores ópticos no casco da Dakar detectaram esse fenómeno e, passados alguns segundos a mesma coisa aconteceu com ela, saltando na direcção de Lavos-329, deixando para trás o anel de asteróides. Sheba e Dietra não viram o espectáculo de luzes provocado pelas duas naves que partiam pois estavam muito ocupadas a tentarem manter-se vivas. Os dois Vipers faziam manobras desesperadas para se livrarem daqueles estranhos objectos que os perseguiam. - Frack!!- praguejou Sheba, fazendo o seu caça girar sobre a asa esquerda e activando os turbos no exacto momento em que um dos objectos passava pelo local onde o tinha estado à momentos.- O que são estas coisas? - Não sei, mas não me parece que sejam caças....- disse Dietra, acelerando e fazendo um loop com o Viper, endireitando-o logo de seguida e fazendo-o girar para a direita.- .......são pequenos demais para ter tripulantes. Nunca passou pela cabeça delas que aqueles objecto pudessem ser mísseis porque os mísseis que a conheciam eram enormes, sendo utilizados apenas por Estrelas-de-Batalha para atacar Naves-Base Cylons e vice-versa. As forças militares das Colónias nunca tinham pensado em utilizar mísseis de tamanho reduzido e de grande velocidade para combates entre naves, mas os seus irmãos terrestres já os utilizavam desde do século vinte, limitando-se a adaptá-los ao século vinte e três. Os mísseis disparados pela Dakar eram capazes de atingir velocidades muito superiores aquelas conseguidas por um caça de origem terrestre e por isso conseguiam acompanhar mais ou menos a velocidade de um Viper a utilizar os turbos. Mas a verdade é que tanto Dietra como Sheba não podiam estar sempre a utilizá-los pois antes daquele encontro já estavam com pouco combustível. - Isto está mau!!!- disse a Tenente, verificando os seus instrumentos e apercebendo-se disso.- Os meus tanques estão a 25%!! Sheba nada disse, lançando um olhar para o painel do seu Viper. A situação dela era pior pois as reservas estavam já perto dos 10%. Durante a travessia da passagem e na subsequente espera do outro lado do campo de asteróides ela tinha gasto imenso combustível pois tinha andando de uma lado para o outro, verificando a condição da Frota. Mais tarde ou mais cedo ela teria de deixar de utilizar os turbos. Os mísseis estavam a sofrer dessa mesma falta de combustível. De facto eles eram construídos para voarem apenas cerca de dois minutos pois esse era o tempo mínimo para atingirem um alvo. É claro que nunca ninguém havia pensado que eles teriam que perseguir um alvo que tinha a mesma velocidade deles. Os dois mísseis que perseguiam o Viper de Sheba tinham sido os primeiros a ser lançados e por isso estavam quase sem combustível. O computador que comandava um deles decidiu que a perseguição já não tinha sentido e fez detonar a sua ogiva, autodestruindo-se. O segundo míssil estava a tomar a mesma decisão no exacto momento em que Sheba cometeu um pequeno erro, não acelerando de imediato após sair de uma curva. Vendo essa oportunidade o computador do míssil aumentou a potência do seu motor, gastando as últimas gotas de combustível e aproximando-se da parte traseira do Viper, explodindo a cerca de um metro do caça. A explosão destroçou a asa esquerda do Viper, assim como o motor traseiro desse lado, enchendo a estrutura do caça com estilhaços. Sheba foi lançada para a frente com o impacto, forçando os cintos, e, apesar do capacete, desmaiou ao embater contra o painel de instrumento. A última coisa que sentiu foi o seu Viper entrar em espiral totalmente descontrolado. - Sheba!!- berrou Dietra enquanto manobrava o seu caça na direcção do Viper da sua comandante de Esquadrilha, sem nunca largar o botão do turbo. A alguns metros atrás de si, um dos mísseis que a perseguia autodestruiu-se e, passados alguns segundos, o outro fez a mesma coisa. Nenhum dos dois estava no entanto perto o suficiente para atingir Dietra. O Viper de Sheba acabou por estabilizar, parando por completo no espaço no momento em que os computadores de bordo desligaram o combustível aos motores. A Tenente aproximou-se lentamente do outro caça. O lado esquerdo do Viper estava totalmente desfeito e enegrecido, coberto de buracos de onde saíam pequenas faíscas, um sinal de que alguns circuitos internos tinham sido atingidos e estavam em curto-circuito. Felizmente a parte do cockpit parecia intacta, afinal de contas era a mais bem protegida de um Viper, e os sensores de Dietra captavam sinais de vida. Mas mesmo assim era preciso tirar Sheba dali rapidamente pois mais tarde ou mais cedo o suporte de vida acabaria por falhar. - Daqui fala a Tenente Dietra!!- disse a Guerreira, escolhendo a frequência da Frota.- A Capitã Sheba foi atingida e precisa de ajuda imediatamente!!! Ela repetiu a mensagem mais duas vezes até que ouviu a voz de um dos Guerreiros da sua Esquadrilha. - Sim, senhora!! Nós estamos a ver se mandamos para aí um dos vaivéns de salvamento mas ainda pode demorar .... - Como assim??- perguntou Dietra, incrédula com o que tinha ouvido. - A senhor ainda não sabe??? - Não sei o quê??- disse ela, pensando que toda a situação parecia irreal, pois havia uma vida em perigo e ela estava ali a conversar. - A Galactica está-se a preparar para atravessar a passagem à velocidade da luz e os Cylons estão mesmo atrás dela...... Com estas palavras Deitra percebeu as razões das dificuldades em arranjar ajuda. Se a Frota fosse atacada de certeza que os vaivéns de salvamento iriam ter muito que fazer..... - Compreendo. Mas assim que puderem mandem ajuda..... - acabou ela por dizer. - Com certeza Tenente. Nós nunca abandonamos um dos nossos!- respondeu o Guerreiro cuja voz ela ainda não tinha identificado. Mesmo assim, Dietra disse: - E boa sorte para vocês todos. Que os Senhores de Kobol vos acompanhem! - Obrigado, para vocês também!- respondeu o outro piloto, terminando aí a comunicação. Dietra desligou os motores e alinhou o seu Viper com o de Sheba. Agora só lhe restava esperar. - Continua -