Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ---------------------------------------------------------------- Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (verg@esoterica.pt) ---------------------------------------------------------------- Do diário de Adama: A destruição das Doze Colónias originou não só a perda de grande parte da nossa cultura, como também a perda de muita da informação que tínhamos em relação aos Cylons. Antes da Guerra Milenar, os nosso sociólogos estavam imensamente interessados em conhecer esta raça de máquinas. Quando as nossas civilizações se encontraram pela primeira vez, os Cylons haviam já exterminado os seus criadores e adoptado o seu nome. O seu império - a Aliança Cylon - era já imenso e continuava a expandir-se cada vez mais. Embora não se quisesse admitir na altura, mais tarde ou mais cedo teria de surgir um confronto entre nós. A raça humana não se podia resignar a ver os Cylons a exterminar e a escravizar raças inteiras. Tal actuação ia contra todos os nosso princípios civilizacionais e foi por isso que nos pusemos do lado dos Hasaris, quando estes começaram a ser atacados pelos Cylons. Será que esta atitude foi a correcta? A verdade é que os nossos antepassados, sem o saberem, estavam a condenar a nossa civilização a uma morte quase certa. As Doze Colónias já não passam de meras recordações, tendo sido totalmente destruídas num traiçoeiro ataque dos Cylons. O que resta delas está aqui reunido, nesta frota que vagueia no espaço à mais de sete yahrens. Acho no entanto que, apesar de tudo o que nos aconteceu, a atitude dos nosso antepassados foi correcta e temos de nos orgulhar dela. Aparentemente há alguns que não pensam assim. De facto, nos últimos sectares têm surgido vozes que defendem que a culpa de todo este infortúnio é nossa. Dizem que os Humanos é que foram os agressores e que perdermos toda a nossa inocência quando lançamos a Estrela-de-Batalha Zeus contra as forças Cylons em órbita de Hasari. Defendem que as Doze Colónias nunca deviam ter interferido em assuntos de outras raças e que a convivência com a Aliança Cylon era possível. Tal como já disse, acho que tal coisa era impossível e mesmo impensável. Alguém tinha que tentar deter os Cylons e esse "alguém" só podia ser a raça humana. Perdemos tudo o que tinhamos por termos tomado essa atitude, mas acho que perdiríamos muito mais, especialmente no que diz respeito à nossa identidade como raça, se não o tivéssemos feito. Seríamos como muitas outras raças que se deixaram escravizar pelos Cylons, não querendo tomar nenhuma atitude, querendo apenas ser deixadas em paz. A nossa vida, desde que abandonamos as ruínas das Doze Colónias, tem sido tudo menos fácil e os Senhores de Kobol são testemunhas da quantidade de vezes em que estivemos à beira da destruição. A maior parte das pessoas da Frota vive em condições miseráveis, enfiadas em naves que não foram pensadas para transporte de passageiros e com poucos mantimentos, sem pisarem um planeta a vários yahrens. Logo após o início da viagem, houve aqueles que defenderam que nós nos devíamos estabelecer num planeta e a partir daí reconstruir a nossa civilização. Para todos esses, Carillon foi uma lição inesquecível, provando que, para já, a nossa única salvação está em mantermo-nos em movimento, através do espaço. Com esse tipo de descontentes eu posso, até certo ponto, simpatizar, mas com estes novos descontentes tal já não contece. O facto de dizerem que a culpa de tudo é nossa e não dos Cylons é algo que, aos meus olhos, se aproxima muito de traição. Infelizmente não posso fazer nada contra eles, pois a nossa civilização sempre se orgulhou de dar o direito da palavra a todos. Tenho, no entanto, o pressentimento de que os problemas por eles criados vão aumentar. Mais tarde ou mais cedo, cada vez mais pessoas vão começar a ouvir os seus discursos e a seguí-los e nessa altura será preciso tomar uma atitude. Só rezo para que os Senhores de Kobol me guiem se essa altura chegar. Capítulo 1 Os dois Vipers da Esquadrilha Azul avançavam rapidamente, lado a lado, pelo espaço. No caça da direita, o Tenente Starbuck foi subitamente acordado do seu sono pelo barulho insistente que lhe enchia o capacete. Sacudindo a cabeça, baixou o volume de som do seu aparelho de comunicação, falando de seguida para o seu companheiro de patrulha, através do microfone imbutido no seu capacete de vôo. - Podes parar com a estática, Apollo!! Já estou acordado! Ouvindo a voz roufenha do seu amigo, o Capitão Apollo sorriu para si mesmo. Desde da primeira patrulha de longa duração que ele e Starbuck haviam efectuado juntos que havia descoberto que o segundo tinha o hábito de dormitar durante grande parte do vôo , apenas acordando quando os seus sensores indicavam alguma coisa ou alguém tentava falar com ele. - Desculpa se te interrompi algum sonho, mas a verdade é que voar sem ninguém com quem falar, não tem piada nenhuma. - Para a próxima podes puxar das insígnias e pedir ao Núcleo de Comando que te dê um Viper equipado com a C.O.R.A.- retorquiu Starbuck, - Assim já podes conversar com alguém e deixar-me dormir. Esta resposta arrancou sonoras gargalhadas de Apollo. A C.O.R.A. era o pesadelo pessoal de qualquer piloto da Galactica. Esse computador, apesar de ter a voz de uma jovem mulher tinha, segundo Starbuck, a personalidade de uma "velha bruxa" e o ego do tamanho de uma Estrela-de-Batalha. Todos os pilotos que tinham voado em Vipers equipados com esse sistema se tinham queixado dele, nomeadamente por estar sempre a pedir para assumir o comando da nave pois "executava as manobras mais rápidas do que qualquer piloto humano". - Já estou a ver que o sonho era mesmo bom!! Estás cá com uma disposição....- retorquiu por sua vez Apollo. - Por acaso até era bastante estranho.... - Não me digas que era novamente aquele em que tu eras perseguido por todos aqueles que venceste a jogar Pirâmide. Esse é um dos preferidos no Clube de Oficiais da Galactica. - Não, não era nada disso.- resmungou Starbuck, mostrando estar profundamente arrependido por ter contado essa história aos outros pilotos. - Então?- insistiu Apollo, com um pressentimento de que sabia qual é que seria então o tema. - Eu sonhei que era abatido pelos Cylons..... - Oh, não....- interrompeu o companheiro de Starbuck,- Voltaste outra vez a essa manias... - Espera um bocado, não tires conclusões precipitadas!- disse Starbuck, percebendo perfeitamente a que "manias" é que Apollo se referia. Dois yahrens atrás, após a missão em que ambos se tinham infiltrado e destruído uma Nave-Base Cylon, ele havia começado a ter repetidos pesadelos onde via a sua própria morte às mãos de um estranho Raider de cor vermelha. Só com a ajuda da sua mulher, Cassiopeia, e dos seus outros amigos é que Starbuck havia ultrapassado essa situação e recuperado a sua auto-confiança.- Era uma coisa meio cómica... - Ai sim? Porquê?- inquiriu Apollo - Eu era abatido por um caça Cylon que acabava por cair comigo num planeta desabitado. Como estava totalmente sozinho, acabava por reconstruir um dos Centuriões Cylons para me fazer companhia.....Imagina lá que eu até lhe ensinava a jogar Pirâmide!! - Realmente esse sonho é mesmo estranho..... - Mas espera aí que ele não acaba assim.... A certa altura ele acaba por encontrar uma mulher...nada de piadas...que dá à luz uma criança e eu e o Cylon tentamos montar uma nave com peças das nossas duas naves, de modo a mandá-los embora do planeta. - Isso está a ficar cada vez mais esquisito..... - A certa altura aterra outro Raider e os seus 3 tripulantes atacam-nos. O meu Cylon ataca dois deles e é destruído e depois eu acabo com o terceiro, ficando outra vez sozinho.... - E depois?- perguntou Apollo, que tinha ficado interessado na história. - Sei lá....- respondeu, abruptamente, Starbuck. - No sonho, eu estava a pensar no que havia de fazer quando de repente se fez ouvir um som estridente e eu acordei.... - Estás a ver....eu acabei por te salvar!- disse Apollo, pontuando a sua frase com uma gargalhada. - Visto dessa maneira, tens razão....!- disse por sua vez Starbuck, rindo-se também com o comentário. Enquanto o fazia, não podia deixar de ficar admirado com a mudança que se tinha dado em Apollo. Eles conheciam-se à vários yahrens e o filho do Comandante Adama tinha sido sempre o exemplo de um perfeito oficial. O seu feitio era um bocado difícil, sendo quase o oposto de Starbuck que com a sua maneira expansiva e despreocupada era de um trato fácil. Apollo tinha um feitio demasiado fechado e as mortes do seu irmão Zac e da sua mãe Ila, aquando da destruição das Doze Colónias, tinham feito com que ele se fechasse cada vez mais. A sua união com Serina tinha-o modificado um pouco, mas a morte desta havia-o feito regredir para a sua velha maneira de ser. Sheba, a filha do lendário Comandante Cain, tinha trazido uma nova luz à vida de Apollo e, aos poucos, a sua maneira de ser estava a modificar-se. Starbuck sabia também que havia outro facto que animava o seu amigo. As transmissões de origem desconhecida que haviam captado na consola da cúpula celestial no topo da Galactica, tinham sido como um sinal para Apollo. A mítica Terra começava a tomar forma. Algures existia outra colónia humana que talvez fosse a salvação de todos eles.... As divagações de Starbuck foram subitamente interrompidas pelo sinal que surgiu num dos ecrãs do seu Viper. - Estás a detectar a mesma coisa que eu? - perguntou ele ao seu companheiro de võo. - Espera um momento..- respondeu Apollo enquanto tentava ajustar a definição dos sensores de longo alcance do seu Viper - Já está. Estou a detectar uma série de objectos à nossa frente, no quadrante Alfa. - Eu também, mas a esta distância os meus sensores não conseguem identificar o que são. Que fazemos? - Para já informamos a Galactica....e esperamos. - Serão Cylons?- perguntou Starbuck, dizendo exactamente aquilo que passava pela cabeça de Apollo. Ao fim de dois yahrens, teriam os Cylons voltado? A bordo da ponte da Estrela-de-Batalha Galactica, o ambiente tornou-se subitamente pesado quando a comunicação da patrulha de longo alcance foi conhecida. No cimo da plataforma que existia sobre a ponte de comando, o Coronel Tigh, Oficial Executivo da Galactica, relia novamente a dita mensagem. - Presumo que seja o Capitão Apollo a comandar a missão?- disse ele para Athena. - Sim, senhor.- respondeu a oficial da ponte, que era também filha do Comandante Adama.- Ele e o Tenente Starbuck. - Já seria de esperar.- disse Tigh, quase que para si mesmo, levantando-se de seguida.- Muito bem, eu vou avisar o Comandante Adama da situação. Entretanto, mande parar toda a frota e mande lançar o resto da Esquadrilha Azul. Mande lançar também a Esquadrilha Vermelha, que deverá assumir posições de patrulha à frente e atrás da Frota - Sim, senhor!- retorquiu Athena, regressando ao seu posto. Todos os membros da tripulação que estavam de serviço na ponte esperavam ansiosamente por mais notícias. À medida que a frota de 220 naves se ia imobilizando essa mesma ansiedade espalhava-se a todos os tripulantes e passageiros. Mal as ordens do Coronel Tigh foram transmitidas, uma intensa azáfama surgiu na sala dos pilotos. Como era costume, mesmo em situações em que não se estava em alerta, um grupo de pilotos encontrava-se sempre de prevenção numa sala relativamente perto da baías de lançamento dos Vipers. Visto que a patrulha de longo alcance era constituída por elementos da Esquadrilha Azul, os seus restantes membros encontravam-se de prevenção. - Qual das naves é que avariou desta vez?- perguntou em voz alta o Sargento Jolly, enquanto tentava enfiar o seu rotundo corpo no uniforme de vôo. - Foi outra vez uma das Naves-Agrárias? - Não, foi mesmo a Rising Star.- respondeu-lhe o Cabo Greenbean, enquanto também se equipava.- Ouvi dizer que ouve uma ruptura no casco, mesmo por cima de uma sala de jogos e estão a sair quantidades enormes de cúbitos de lá. - Finalmente, vamos enriquecer.- gritou um outro piloto ao ouvir a conversa. - É verdade!! E assim vamos deixar de estar dependentes dos esquemas do Starbuck.- acrescentou Jolly, acabando de apertar o seu fato e pegando no seu capacete. - Vamos lá!!! Deixem-se de brincadeiras e despachem-se!!- berrou de repente o Tenente Boomer que tinha sido o primeiro a equipar-se e dirigia-se já para a porta. De repente, Jolly cortou-lhe o caminho e, falando em voz baixa de modo a que os outros pilotos, que agora se afadigavam a equipar, não ouvissem, perguntou: - Que se passa? Estás bastante tenso.... - O Apollo e o Starbuck encontraram algo durante a patrulha.... Eu estava na ponte quando receberam a comunicação. Com esta notícia Jolly ficou nitidamente nervoso, perdendo todo o seu característico à-vontade. - São os Cylons de novo?- perguntou ele, de repente. - Ainda não sabem..... - Muito bem e....obrigado.- disse Jolly, dando uma pequena palmada no ombro no seu colega. Sem mais demoras ambos dirigiram-se para o pequeno carro que rapidamente se encheu com os restantes membros do Esquadrão Azul, arrancando depois a toda a velocidade na direcção das baías de lançamento. Enquanto isto se passava, o Coronel Tigh dirigia-se para os aposentos do Comandante Adama, o seu velho amigo de longa data. Ao contrário do que tinha acontecido durante os primeiros yahrens da viagem, o comandante Adama passava grande parte do seu tempo nos aposentos. As suas viagens até à ponte de comando eram quase que mínimas, sendo quase todos os assuntos de rotina tratados por Tigh. Este último sabia perfeitamente que o Comandante precisava de descansar bastante. Tinha sido a força de vontade de Adama que tinha conseguido manter toda aquela frota de maltrapilhos unida. Também fora a sua astúcia, bem como toda a dedicação dos guerreiros da Frota, que lhes permitira escapar a inúmeras armadilhas e ataques dos Cylons. Os 2 últimos yahrens, sem qualquer problema de maior, tinham sido um autêntico período de descanso para o velho guerreiro. Por todas estas razões, Tigh sentiu um enorme peso no seu coração ao postar-se em frente da porta dos aposentos do Comandante Adama. Ele sabia, no entanto, que o dever estava acima de qualquer amizade e não hesitou em bater. - Entre!- ouviu-se através do intercomunicador presente na parede, junto da porta. Enquanto a porta deslizava para o lado, o Coronel Tigh pensava na melhor maneira de dar a notícia. Ao ver o seu amigo, sentado à secretária e debruçado sobre um pequeno aparelho de gravação, Tigh decidiu que o melhor era ser o mais directo possível. - Desculpe incomodá-lo Comandante, mas surgiu uma situação que requer a sua atenção. - Tigh, sabes muito bem que comigo não são precisos esse formalismos.- disse Adama, enquanto retirava um cristal de gravação do aparelho imbutido na secretária, guardando-o numa gaveta. De seguida, levantou-se, alisando o seu uniforme azul escuro e dirigiu-se para uma pequena janela de observação, contemplando o espaço.- Se tiveste de vir até aqui, deve ser algo grave.... - Para ser honesto, ainda não sabemos se é ou não.- Tigh respondeu. - Como assim? - A patrulha de longo alcance detectou à nossa frente uma série de objectos não identificados. - Presumo que não tentaram ver o que eles eram. - Exactamente. O Capitão Apollo achou que era melhor esperar por reforços....- disse Tigh, hesitando em continuar a frase. - ..... pois esses objectos podiam ser caças Cylons. - acabou por dizer Adama, afastando-se da janela e dirigindo-se para o seu amigo. - Se tal se confirmar, não era nada de que eu não estivesse à espera. Mais tarde os mais cedo eles iriam acabar por encontrar-nos. - Ou irão acabar por encontrar-nos.....- disse Tigh. - Pode ser que os Senhores de Kobol ainda não se tenham esquecido de nós. - Sim , tens toda a razão.- respondeu o Comandante, sorrindo.- Já me tinha esquecido do teu sempre presente optimismo.... - Apesar desse meu optimismo, mandei parar a Frota e lançar as Esquadrilhas Azul e Vermelha. A primeira vai dar apoio a Apollo e Starbuck e a segunda vai manter a segurança da Frota. - Muito bem....- disse Adama.- Por acaso já avisaste o Conselhos dos Doze? - Ainda não. Há certos "privilégios" do Comandante que eu não gosto de usurpar. Falar com o Conselho dos Doze é um deles.- respondeu Tigh, sorrindo. Este seu comentário arrancou uma estrondosa gargalhada de Adama. Nenhum deles acalentava grandes simpatias em relação ao Conselho dos Doze. - Tens toda a razão! Há certos fardos que eu tenho de suportar e este é um deles. Ambos sabiam que aqueles dois últimos yahrens tinham servido para reforçar a convicção do Conselho dos Doze de que o pior já tinha passado. A maior parte dos seus membros achava que já era a altura daquele orgão de soberania recuperar todo o seu poder. Adama achava que os políticos eram como as flores. Estas murchavam rapidamente se não estivessem expostas à luz, tal como os políticos pareciam "murchar" se não tivessem protagonismo. As lutas que tinha que travar com o Conselho dos Doze eram mais um problema a acrescentar à lista de tantos outros que surgiam todos os dias. - Bem, vamos até à Ponte!- disse finalmente Adama.- Antes de informar o Conselho, acho que devo informar o resto da Frota do que se passa. - Realmente é melhor.- respondeu Tigh, consultando o pequeno computador pessoal que tinha nas mãos.- Segundo as últimas informações, as linhas de comunicação da Frota estão a ficar sobrecarregadas com pedidos de esclarecimento. - Ao trabalho então!! Com estas palavras, o Comandante Adama dirigiu-se para a porta e, seguido pelo Coronel Tigh, dirigiu-se para a Ponte de Comando. Durante o curto percurso Adama ponderava sobre o que iria dizer ao resto da Frota. Vários níveis abaixo, na baía de lançamento Alfa, o pessoal de terra preparava os Vipers da Esquadrilha Azul. Num alerta como este, utilizavam-se todos os tubos de lançamento. Desta maneira, podia-se lançar cinco Vipers ao mesmo tempo. Uma esquadrilha completa que, como no caso da Esquadrilha Azul , era constituída por vinte e cinco caças podia ser assim lançada em pouco menos de dez centons. Um dos primeiro Vipers que estava a ser preparado para partir era o de Boomer, que na ausência de Apollo e de Strabuck comandava a patrulha. Apesar de já ser um piloto veterano, ele continuava a sentir a mesma ansiedade que tinha sentido ao ser lançado pela primeira vez. Os seus olhos percorriam velozmente os instrumentos, procurando a mínima falha, ao mesmo tempo que o seu corpo parecia debater-se contra os cintos que o mantinham colado ao seu assento. "Boomer, meu velho, tens de ultrapassar isto!!!", dizia ele para si mesmo, enquanto verificava novamente os instrumentos. Isto era algo que lhe passava pela cabeça sempre que se lançava. Olhando rapidamente para o lado, viu que o técnico nomeado para o seu Viper estava a fazer as últimas verificações debaixo das asas. Passados alguns microns, Boomer sentiu o seu Viper mover-se, sinal de que estava tudo bem. O processo de transferência para os tubos de lançamento era feito por uma série de pequenas plataformas que primeiro levantavam e depois empurravam os caças do hangar para os ditos tubos. Logo de seguida os tubos eram hermeticamente fechados e as plataformas desciam, sendo ocupadas pelos cinco Vipers da segunda vaga. Logo após o estrondo feito pela comporta a selar o tubo de lançamento, Boomer ouviu a familiar voz de Rigel, a oficial de vôo na Ponte. - Núcleo de Comando a transferir comando para os Vipers. Lançem quando prontos! Com estas palavras, Rigel informava os pilotos de que o computador central da Galactica acabava de transferir toda a informação de vôo ao computador do caça. Boomer viu o seu ecrã central iluminar-se, surgindo aí um grelha com as coordenadas da patrulha de longo alcance e a posição da Frota. Logo a seguir, carregou no botão do turbo presente na sua alavanca de comando e sentiu-se pressionado contra o assento, ao mesmo tempo que os três motores do seu Viper o impulsionavam a toda a velocidade para fora da baía de lançamento Alfa. Todo o seu anterior nervosismo tinha agora desaparecido. Ao mesmo tempo que a primeira vaga de caças da Esquadrilha Azul saía da baía de lançamento Alfa, os pilotos da Esquadrilha Vermelha chegavam à baía de lançamento Beta. À frente dessa recém organizada Esquadrilha encontrava-se Sheba, a quem tinha sido dado o posto de Capitão, equiparando-se assim aos comandantes das outras três Esquadrilhas. O Comandante Adama tinha-lhe dado como principal missão tornar a segunda Esquadrilha da Galactica numa força de combate igual ou mesmo superior à Esquadrilha Azul. Sheba tinha aceite tal pedido e, em pouco menos de um yahren, a sua Esquadrilha tinha atingido o nível que tinha antes da destruição das Doze Colónias, altura em que tinha também sido quase destruída pela emboscada Cylon. Para ela, todo aquele trabalho era uma forma de se manter ocupada e evitar outros problemas. Pouco tempo depois de Apollo e Starbuck terem feito a missão suicida contra a Nave-Base Cylon, ela havia tido uma longa conversa com o primeiro. Ambos tinham finalmente aceite o que sentiam, embora nenhum deles tivesse querido avançar para o passo seguinte que era a união. Por alguma razão que nenhum deles sabia explicar, sentiam que aquela não era ainda a ocasião para tal. "Vamos lá rapariga, agora não é altura para estares a pensar nisso...", disse ela para si mesmo, ao mesmo tempo que subia para o "cockpit" do seu Viper. No entanto, durante toda a sequência de lançamento, os seus pensamento continuavam a dirigir-se para Apollo. Toda aquela situação estava a mexer-lhe com os nervos. Enervava-a o facto de Apollo estar tão longe e apenas a voar com um parceiro. E se os objectos detectados fossem caças Cylons? Pela sua cabeça passara-lhe imagens dos caças de Apollo e Starbuck a serem perseguidos por uma falange inteira de Cylons. Afastando essa imagem da cabeça, Sheba preparou-se para ser lançada. "Que os Senhores de Kobol te protejam, meu amor!", murmurou ela, no entanto, na altura em que o seu caça era impulsionado para fora do tubo de lançamento. Boomer descreveu um arco com o seu caça, de modo a ficar virado para as saídas da baía de lançamento Alfa. Quando viu os últimos cinco Vipers sob seu comando sair dos respectivos tubos, escolheu a frequência interna da Esquadrilha e disse: - Daqui Líder Azul, vamo-nos dividir em duas formações. Jolly, tu tomas o comando da segunda. Compreendido? - Sim, senhor!- respondeu Jolly, contactando de seguida os outros membros da sua formação. Esta era uma manobra estudada e repetida inúmeras vez. Os dez Vipers sob o comando do Tenente Jolly separaram-se do resto dos seus companheiros, tomando posições atrás e ligeiramente acima da formação comandada pelo Tenente Boomer. De seguida as duas formações espalharam-se até formarem dois "V" e accionaram os seus turbos. Rapidamente os vinte e três caças começaram a ganhar distância da Frota Colonial, dirigindo-se para as coordenadas que tinham sido transmitidas pelo Capitão Apollo. Na altura em que os Vipers da Esquadrilha Azul começavam a acelerar, os últimos caças da Esquadrilha Vermelha saiam da baía de lançamento Beta e rapidamente tomavam posições de forma a defender a Frota se tal fosse necessário. O Comandante Adama fechou os olhos e começou a respirar lentamente, enquanto se preparava para falar a toda a Frota. Quando chegara à ponte, na altura em que os últimos caças da Esquadrilha Azul eram lançados, informara de imediato o Conselho dos Doze. Tal como seria de esperar a reacção desses havia sido de medo e o Adama tinha que admitir para si mesmo que gostara de ver isso. Talvez toda esta situação mostrasse aos membros do Conselho que o perigo estava sempre presente. O facto de os Cylons não aparecerem não queria dizer que eles não andassem por aí. Eles não descansariam enquanto não exterminassem todos os sobreviventes humanos. Depois de acabar a sua comunicação com a promessa de que informaria de imediato o Conselho caso os objectos detectados fossem Cylons, Adama começou a pensar no que iria dizer ao resto da população. Sabia perfeitamente que por esta altura os rumores estariam a espalhar-se a grande velocidade. Com esses rumores espalhar-se-ia também o desespero e o medo. E era exactamente esses últimos sentimentos que o Comandante Adama queria evitar. Abrindo os olhos, ele fez sinal ao Coronel Tigh para que este ligasse o sistema de comunicação principal da Galactica, o que faria com que a sua mensagem fosse transmitida a todas as outras naves da Frota. - Saudações a todos!... - começou ele a dizer, parando um pouco para ordenar os seus pensamentos.- Como já devem saber, uma patrulha de longo alcance comandada pelo meu filho, o Capitão Apollo, fez contacto com uma série de objectos não-identificados, que se encontram no caminho directo da nossa Frota. Até agora não há nenhuma identificação positiva desses mesmos objectos. Não se pode dizer se eles são Cylons ou não. Na altura em que soubermos mais alguma coisa, a Frota será imediatamente informada.... Com estas palavras, Adama pousou o microfone e recostou-se na sua cadeira. Da sua posição na plataforma de comando podia ver toda a Ponte de Comando, que se encontrava um nível abaixo do seu. Podia também sentir todo o nervosismo dos tripulantes que aí estavam, à medida que o tempo ia passando. Os poderosos sensores da Galactica não captavam já nenhum sinal da Esquadrilha Azul. Subitamente, o Comandante Adama virou-se para Tigh e disse: - Manda lançar a Esquadrilha Lança Prateada. Informa o Capitão Bojay de que deverá tomar posições entre a Galactica e as coordenadas dadas por Apollo. - No limite dos nossos sensores dianteiros?- perguntou o coronel, percebendo imediatamente a ideia. - Exactamente! E põe também a Esquadrilha Verde em alerta. - Sim senhor!- disse Tigh, com um sorriso nos lábios. Desta maneira, o alcance dos sensores da Galactica duplicava sem ser necessário que a Frota se deslocasse. Os sensores dos Vipers da Esquadrilha Lança Prateada, usados no seu alcance máximo, eram capazes de atingir as coordenadas da patrulha de longo alcance. Depois, era só ligar os computadores da Galactica aos sensores dos caças criando-se uma "corrente" entre os dois locais. Além do mais, se surgisse algum problema, essa Esquadrilha, estando a meio caminho entre a Estrela-de-Batalha e a patrulha, poderia acudir muito mais rapidamente. Enquanto Tigh dava as instruções necessária para que as ordens do Comandante Adama fossem cumpridas, este último recostava-se novamente na sua cadeira, cruzando os braços sobre o peito. Os seus olhos fixaram-se no ecrã da sua consola de comando, para onde eram retransmitidos os dados dos sensores da Galactica. Agora era apenas uma questão de esperar..... Capítulo 2 Os Vipers de Apollo e de Starbuck encontravam-se imobilizados no espaço, lado a lado. Nos velhos tempos, Starbuck provavelmente teria carregado nos turbos e feito uma série de passagens de forma a identificar os objectos. No entanto, devido aos problemas por que tinha passado e também devido ao próprio casamento, ele havia mudado em muitos aspectos. A sua impetuosidade em combate havia desaparecido, sendo substituída por uma calma quase gélida. Apollo tinha agora a certeza de que o seu amigo era muito mais eficiente em combate. Os últimos testes feitos no simulador de voo tinham provado isso. Starbuck apenas fora derrotado numa simulação em que tinha como opositores cerca de quinze Raiders Cylons e, mesmo assim, conseguira destruir oito até que finalmente fora abatido pelo fogo cruzado dos outros. Apesar dessa mudança, e para espanto de Apollo, Starbuck foi o primeiro a quebrar o silêncio que se havia instalado desde que haviam enviado a mensagem para a Galactica. - E se fossemos dar uma vista de olhos? - Hei, pensei que já te tinha passado essa mania!- respondeu Apollo.- Já pareces o "antigo" Starbuck a falar. - Vamos ou não?- insistiu Starbuck. - Dá-me uma boa razão para não esperarmos pelo resto da Esquadrilha. - Muito bem...Se pedires ao teu computador para fazer uma estimativa de trajectória dos objectos nos últimos dez centons, vais ver que eles estão imobilizados. - Sabes bem que isso não quer dizer nada....- respondeu Apollo, sentindo um certo nervosismo. Pela sua cabeça passavam as imagens das naves-cisternas Cylon que ele e Zac haviam encontrado no dia em que as Doze Colónias haviam desaparecido. - Acho que não custa nada. Segundo os meus cálculos, a Esquadrilha está para aí a uns vinte centons. Se houver problemas é só darmos meia-volta. - Por acaso estás a ter um dos teus "pressentimentos"? Dando uma pequena risada, Starbuck respondeu: - Por acaso até estou. E é um dos bons....O que quer que aquilo seja, não são Cylons! Apollo ponderou sobre o assunto uns momentos e, tal como tinha feito inúmeras vezes, decidiu alinhar com o seu amigo. - Vamos lá!!! Os dois Vipers começaram rapidamente a ganhar velocidade, à medida que os seus turbos os impulsionavam. A distância em relação aos objectos ia diminuindo e as informações acerca destes começavam a chegar aos computadores de bordo. - Para já não há sinais de vida, quer orgânica quer inorgânica.- disse Apollo. - Também não detecto qualquer tipo de emissão de energia. - disse por sua vez Starbuck. Ambos os pilotos ajustaram os seus sensores, tentando obter mais informações. À medida que os centons iam passando a tensão ia aumentando. Os sensores indicavam que atrás daquela série de objectos detectava-se qualquer coisa. - Apollo, estás a detectar o mesmo que eu?- perguntou, repentinamente Starbuck. - Sim!!- respondeu o capitão, tentando esconder o seu espanto perante o que estava a ver no seu visor. No limite do alcance do sensores dos Vipers surgia a imagem de algo maciço. - Não pode ser....- começou Starbuck a dizer. - É como se fosse uma parede....- murmurou o seu amigo. De facto, os sensores dianteiros indicavam que os Vipers se estavam a dirigir para algo enorme. Algo que não podia existir em pleno espaço. - Não sei o que aquilo é, mas ocupa todo o espaço à nossa frente.- disse Apollo, tentando imaginar o que seria. - Espera aí, estou a obter uma identificação dos objectos de à bocado....- interrompeu Starbuck, que tinha tomado a dianteira.- São rochas..... - Todo este trabalho por causa de uns simples pedregulhos?- interrogou-se o capitão enquanto via surgir no seu computador de bordo a mesma informação. Os caças atingiram nesse momento o primeiro dos objectos e ambos os pilotos puderam confirmar visualmente aquilo que lhes tinha sido dito. - É um maldito campo de asteróides!!!- praguejou Starbuck enquanto desligava os turbos e manobrava o seu Viper pelo meio das rochas. A seu lado Apollo fazia a mesma coisa, continuando no entanto a verificar o visor que lhe transmitia as informações dos sensores. - Vamos continuar mais um bocado.- disse ele.- Quero ver o que é que está para além disto. Com estas palavras, arrancaram de novo. Logo após alguns centons, o computador começou a debitar informações. - É a mesma coisa que lá atrás...- disse finalmente Starbuck. - Pode ser, mas é o maior campo de asteróides que eu já vi!!! Estende-se à nossa frente em todas as direcções. - O que é que lhe terá dado origem? - Talvez um planeta gigante que tenha explodido? - Não consigo imaginar um planeta de tal tamanho..... Talvez se fossem vários.... - O melhor é deixarmos isso para os cientistas da Galactica.- disse finalmente Apollo.- Vamos mas é voltar para trás. Temos que informar a Frota. - Muito bem...- respondeu Starbuck, começando a virar o seu caça. Boomer, que se encontrava na dianteira da patrulha foi o primeiro a avistar os dois Vipers. A Esquadrilha Azul acabava de se aproximar do primeiro campo de asteróides quando nos seus sensores surgiram os ditos caças. Vendo que os seus amigos não se encontravam em dificuldades, Boomer soltou um suspiro de alívio. - Finalmente conseguiram juntar-se a nós.- ouviu-se, de repente, nos comunicadores dos elementos da Esquadrilha. Todos os pilotos reconheceram a voz de Starbuck e o tom de gozo deste. - As nossas humildes desculpas.- respondeu Jolly, num tom igualmente jocoso.- Estávamos todos a dormir em serviço. - Eu ouvi isso.- disse Apollo, entrando também na brincadeira.- Lembrem-se que eu sou o Comandante desta Esquadrilha e não posso aceitar desleixo em serviço!!! - Ups!! Posso retirar o que disse? Este último comentário de Jolly fez com que toda a gente se risse. A tensão havia practicamente desaparecido. Quando os caças de Apollo e Starbuck se juntaram ao resto da Esquadrilha, todos eles deram meia-volta, dirigindo-se para a Galactica. Todos esperaram até que o Capitão, agora que já podia estabelecer contacto, desse as novidades à Frota. Quando finalmente este o fez, Boomer foi o primeiro a quebrar o silêncio: - Ainda me custa a acreditar que toda esta excitação foi provocada por um monte de pedras!- disse Boomer. - Boomer, meu velho, tu nem imaginas o que está por trás daquele campo.- respondeu Starbuck, enquanto se afadigava a acender um dos seus famosos fumarillos. Apesar de ser contra todas as regras, este era um dos seus velhos hábitos. A situação melhorara muito a partir da altura em que Starbuck tinha conseguido que lhe instalassem um novo sistema de reciclagem de atmosfera, Com a "ajuda" de um técnico de vôo, ele tinha instalado, depois de fazer algumas modificações, o sistema de reciclagem de um vaivém fora de serviço. Como a capacidade deste era maior, não ficavam os menores vestígios de fumo dentro da cabine. Sabendo tal facto, Starbuk recostou-se no seu assento e lançou algumas baforadas de fumo, enquanto continuava a conversa com o seu amigo.- É outro campo, mas enorme. Nunca vi nada assim!! - Já estou a ver que a Galactica vai ter problemas.- afirmou Boomer. - Porquê?- perguntou Jolly. - Eu não tenho a certeza, mas parece-me que não há combustível suficiente na Frota para andarmos a fazer grandes desvios. - Tens razão.- disse então Apollo. - O meu pai e o Coronel Tigh estiveram a discutir isso à pouco tempo. Mesmo racionando o tyllium como temos vindo a fazer, só temos o suficiente para mais um sectar. A partir daí, temos de acabar com todos os vôos de Vipers e dos vaivéns interfrota e, mesmo assim, só podemos aguentar mais um secton. - Não sabia que a situação estava assim tão má. - desabafou Jolly. Muitos dos outros pilotos concordaram com ele. A verdade é que a maior parte deles não costumava ligar a pequenos pormenores como a logística necessária para manter toda aquela frota em movimento. Como Guerreiros que eram, queriam apenas que os seus Vipers estivessem em perfeita forma para que pudessem dar o seu melhor quando a situação o exigisse. Sem que ninguém o ordenasse, cortaram os turbos e continuaram a sua viagem a uma velocidade mais moderada. Na altura em que a mensagem de Apollo tinha chegado à Galactica, inúmeros gritos de alegria haviam ecoado na Ponte. Tanto o Coronel Tigh como o Comandante Adama sentiam que um enorme peso lhes tinha sido tirado de cima. - Ainda não foi desta....- murmurou Adama, após alguns momentos - Achas que os Cylons vão voltar?- inquiriu o seu amigo. Adama sentiu-se relutante em responder, algo que raramente lhe acontecia, especialmente com Tigh. Sentia que o perigo ainda não tinha passado, que havia algo que estava errado. Eram esses seus palpites que o tinham tornado no grande comandante que era. - Sim, acho que sim.- acabou finalmente por responder.- Mais tarde ou mais cedo, eles irão voltar..... O Coronel assentiu com a cabeça, não dizendo nada. Ele também pensava assim. Ambos combatiam à inúmeros yahrens contra os Cylons e sabiam que estes não desistiam com facilidade. Talvez toda esta situação fosse como que um aviso em relação aos perigos que se aproximavam. Com um abanar da mão, Adama disse: - Mas não vamos pensar mais nisso. O que há a fazer de imediato é informar a Frota de que não há perigo e que podemos prosseguir a viagem. - Muito bem, vou já tratar disso...- respondeu Tigh, começando a dar as ordens necessárias para tal. De repente, um pequeno sinal informou-o de que acabavam de chegar novas informações ao seu computador pessoal. Depois de ver o princípio da mensagem, virou-se para Adama dizendo:- Mas antes..... acho que há algo que deves ver.... Adama pegou no cristal que o Coronel estendia na sua direcção e inserindo-o de seguida no seu computador. Passados alguns momentos, começaram a surgir-lhe uma série de dados. A realidade que eles mostravam era bastante preocupante. Uma das naves cisternas que abastecia a frota havia descoberto uma falha nos seus computadores de bordo. Isso por si só não era nada de mal, só que neste caso a falha tinha-se dado exactamente no subsistema que controlava a saída do combustível. Aparentemente, a nave tinha perdido a maior parte da sua carga durante a última secton. Aproveitando o facto da Frota estar parada, a tripulação tinha feito uma vistoria aos tanques de combustível, vistoria essa que revelara que os valores mostrados pelos computadores da nave eram falsos. - Já calculaste os novos valores?- perguntou ele, após ler o relatório do que havia sido descoberto. - Sim.- respondeu Tigh, levantando o olhar do computador que tinha na mão.- Temos agora Tyllium para mais três sectons de viagem. - Tão pouco? - Sim.... Adama levantou-se da sua cadeira e dirigiu-se para a balaustrada existente sobre a Ponte de Comando. Tigh seguiu-o, postando-se ao seu lado. - Só há uma solução.- acabou por dizer o comandante, após alguns momentos de silêncio.- Temos de continuar em frente... A nossa única esperança está no campo de asteróides á nossa frente. Talvez lá haja Tyllium..... - Espero bem que sim. Odiava ter viajado todos estes yahrens para acabar aqui, parado no meio do espaço...- disse Tigh com toda a sinceridade. - Eu também, eu também.....- concordou Adama, acenando com a cabeça. Para eles os dois, a alegria trazida pelas notícias de Apollo havia desaparecido completamente. Assim que aterraram, Apollo e Starbuck dirigiram-se para a Ponte de forma a apresentarem pessoalmente os resultados da patrulha ao Comandante Adama. Apollo apercebeu-se logo que havia algum problema ao ver o semblante carregado do seu pai. - Que se passa?- perguntou. - Só temos Tyllium para mais três sectons.- respondeu Adama.- Aparentemente os valores nos quais nos baseávamos estavam errados, devido a um problema num computador. - E agora, o que fazemos?- interveio Starbuck. - Estou aberto a sugestões....- retorquiu o Comandante.- O máximo que podemos fazer por enquanto é ficar onde estamos. - Não acredito que isto acabe assim.....- começou Apollo a dizer.- .....Ou melhor, não admito que isto acabe assim....Tem de haver uma solução.... O Comandante Adama virou-se para o seu filho e, colocando -lhe uma mão no ombro, disse: - Compreendo que penses assim, mas a verdade é que nada podemos fazer.... As circunstâncias estão contra nós. - Não aceito essa afirmação, especialmente vinda de ti, pai.- disse subitamente Apollo.- Não podemos acabar assim. Será que lutamos e passamos por tudo aquilo que passamos para isto? Adama estava surpreendido com a súbita agressividade do seu filho, não conseguindo arranjar maneira de exprimir o que sentia. Sabia que Apollo estava certo pois ele próprio também pensava daquela maneira. - Apollo, o melhor é irmos embora.- interveio de repente Starbuck, tentando assim quebrar a tensão que se havia criado entre pai e filho.- Tenho a certeza que podemos fazer o relatório da patrulha noutra altura.... - Não, não vou deixar esta discussão assim a meio...- respondeu o capitão bruscamente.- Tem de haver uma solução...Não podemos ficar de braços cruzados.... O seu discurso foi subitamente interrompido pelo aparecimento do Coronel Tigh, que se havia deslocado até junto dos técnicos que estavam a tratar do processamento dos dados recolhidos pelos sensores dos Vipers de Apollo e Starbuck. - Tenho boas notícias...- começou ele a dizer, apercebendo-se nessa altura que tinha interrompido algo. - Podes continuar...- disse Adama, evitando assim discutir com o seu filho. - Muito bem. O que acontece é que uma primeira análise daquele campo de asteróides mostra vestígios de Tyllium. - Como é que isso é possível? Durante o vôo, os nossos sensores não acusaram nada.- disse Apollo. - E nós estávamos bem atentos a eles.- acrescentou Starbuck. - Acredito que sim, mas a verdade é que os sensores dos vossos Vipers não estavam calibrados para reconhecerem vestígios tão pequenos. Só quando os computadores da Galactica analisaram os vossos dados é que surgiu essa informação. - Mas, pelo que disse, presumo que não haja Tyllium em grande quantidade.- disse o Capitão. - Aí é que vocês se enganam.... - Como assim?- perguntou Adama. - Naquela passagem que fizeram pelo segundo campo de asteróides.... também detectaram vestígios de Tyllium, mas houve novamente problemas de calibração dos sensores. - Quantidades ínfimas outra vez?- sugeriu Starbuck. - Não....- disse Tigh, com um sorriso a formar-se.- Em quantidades tão grandes que os sensores dos vossos Vipers pensaram tratar-se de um erro e nem sequer acusaram nada. - Estamos salvos!!- exclamou Adama.- Os Senhores de Kobol não se esqueceram de nós..... Quando é que podemos começar as operações de extracção? - Dentro de dois centares. A Navegação já escolheu a melhor rota através do primeiro campo de asteróides. - Muito bem. Informa o resto da Frota se faz favor.- ordenou Adama, virando-se de seguida para Apollo e dizendo, num tom quase paternal.- Como podes ver, a solução surgiu por si mesma. Escusavas de estar tão preocupado.... - Desta vez......- retorquiu Apollo, despedindo-se de seguida e saindo da Ponte. - Eu peço imensas desculpas, mas também vou embora.- disse Starbuck, apanhado de surpresa pela súbita saída do seu amigo.- Não sei o que se passa com ele, mas vou ver se descubro... - Sim, obrigado....- respondeu Adama. - Já à alguns yahrens que não acontecia nada de tão preocupante. Todo isto deve tê-lo posto tenso..... - De certeza que foi isso....- murmurou Starbuck, dirigindo-se depois para a saída da Ponte de Comando. - Posso saber o que se passou?- perguntou o Coronel Tigh a Adama. - Com o passar dos yahrens, o Apollo está a ficar cada vez mais distante de mim. E para além disso, o seu feitio é igual ao meu.... - Vocês sempre tiveram os vossos desentendimentos.... - Mas agora estão a ficar cada vez mais frequentes..... Não sei bem porquê..... - Vais ver que isso passa...- afirmou Tigh. - Espero bem que sim....- murmurou Adama, antes de continuar.- Mas, mudando de assunto, quanto Tyllium é que podemos armazenar? Tigh respondeu embora soubesse perfeitamente que o seu amigo continuava a pensar no filho e que aquela pergunta era apenas uma forma de fugir ao problema. Quando pudesse, havia de arranjar tempo para falar com Apollo.... Após sair da Ponte, Starbuck deu uma pequena corrida pelo corredor até alcançar o seu amigo. Este, ao ouvi-lo aproximar-se, abrandou o passo, o que era um sinal claro de que queria falar. - O que é que se passou lá atrás?- perguntou o tenente, colocando-se ao lado de Apollo.- Até parece que foi o Comandante que teve culpa por termos perdido Tyllium... - Sabes muito bem que não foi isso.... - Então, teve que haver uma boa razão para te enervares tanto... - Eu enervei-me foi com a maneira como o meu pai encarou as coisas..... Acho que estava a ser demasiado complacente com a situação..... - As circunstâncias eram bastantes difíceis! Tens que admitir isso.- disse Starbuck. - Eu não digo que não.... - Então qual é o problema..., não percebo. Apollo parou de repente e, virando-se para o seu amigo, disse: - Sabes qual é o meu problema? O meu problema é que acho que o meu pai está a ficar velho. E ninguém se apercebe disso.... Se alguma vez nos depararmos com uma situação de perigo, não sei se ele terá capacidade para nos salvar como fez tantas outras vezes... Esta afirmação deixou Starbuck estupefacto. Ele nunca esperara ouvir alguma coisa deste género vinda da boca do seu amigo. Para ele e para quase todos os membros da Galactica e da Frota, Adama era uma verdadeira lenda viva, o salvador do que restava das Doze Colónias. - Não acredito no que acabaste de dizer!!!! Qual é o teu problema? Queres ser tu o Comandante? Apollo ficou furioso com tal pergunta e por momentos esteve a prestes a bater em Starbuck. Controlando-se perguntou: - Achas que sim? Achas que o meu problema é esse? Não vês que o verdadeiro problema é que as pessoas continuam a ter uma adoração quase cega por um homem que já tem quase oitenta yahrens? O meu pai é humano, não é um deus qualquer.... e aquela situação de a pouco provou-o. De repente, Starbuck percebeu o quanto estava enganado. Apollo não cobiçava o lugar do pai. Apollo estava era preocupado com Adam e com a posição que ele ocupava na Frota e no coração das pessoas. Ele próprio sabia que era Adama que mantinha todos unidos em busca da mítica Terra. Se começasse a denotar sinais de fraqueza de certeza que toda a Frota se começaria a desagregar... - Vejo nos teus olhos que já percebeste a minha preocupação...- afirmou o capitão. - Sim.....-murmurou Starbuck.- Peço imensas desculpas por ter dito o que disse..... - Não faz mal, Starbuck. A culpa disto é toda minha, eu não devia ter reagido como reagi lá na Ponte.... Anda lá, vamos até ao Clube dos Oficiais que eu ofereço-te um copo de ambrósia. - Está bem, mas eu depois ofereço-te outro...- retorquiu Starbuck com a sua habitual jovialidade. Após o seu turno de trabalho no Centro Médico ter acabado, Cassiopeia dirigiu-se para o Clube de Oficiais. Ela sabia que esse era o local onde encontraria Starbuck, especialmente após uma missão. Como de costume, a Clube estava cheio de Guerreiros e o barulho das conversas enchia o ar. Rapidamente descobriu a mesa onde o seu marido e Apollo se encontravam, encaminhado-se para lá. - Olá, amor.- disse Starbuck, levantando-se e beijando-a. - Tudo bem? - Sim...- respondeu ela, cumprimentando de seguida Apollo e sentando-se junto deles. - Muito trabalho?- perguntou Apollo. - Nem por isso....Houve alguns casos de pessoas de idade que se sentiram mal com toda esta excitação, mas não foi nada de grave... - Pensaram que eram os Cylons?- perguntou o seu marido. - Exactamente....Mas, tal como disse, não foi nada de grave. - E como é que se estão a portar os teus ajudantes? - interveio de novo Apollo. Cassiopeia começou a rir-se baixinho: - Ainda bem que eu não era como eles, senão o Dr. Salik tinha-me logo mandado embora. - Por falar nisso, como é que está ele?- disse Starbuck, bebericando um pouco da sua bebida. - Está a gozar a sua reforma sossegadamente. Ele sabe que o Centro Médico ficou em boas mãos. E eu estava a brincar à bocado, os meus ajudantes são bastante competentes, só precisam de ter mais calma. - Isso é como quando se pilota....- afirmou Apollo.- Com a experiência vem a calma. - Pois é....- disse Starbuck, antes de continuar, com um sorriso.- Nós somos o exemplo disso.... Este comentário arrancou gargalhadas dos outros dois ocupantes da mesa. - Mudando de assunto, como é está o Boxey, Apollo? - perguntou Cassiopeia. - Está óptimo. Ainda à pouco falei com ele e disse-me que estava a adorar a viagem. - Mas ele não devia voltar hoje? - Devia, mas devido ao facto da Frota estar em alerta, a professora achou melhor eles ficarem lá mais algum tempo. - Onde é que ele está?- perguntou então Starbuck. - Na Nave-Agrária Nove. É o único sítio onde as crianças podem ver plantas a sério.- respondeu Apollo, apontando depois para as imitações que adornavam aquela sala, antes de continuar. - A maior parte delas só conhece estas cópias sintéticas... - Ou então só têm uma vaga lembrança de como é que elas eram nos seus planetas de origem.- completou Cassiopeia - Por falar nisso.- disse Apollo.- Vocês já ouviram falar numa seita que se chama Filhos do Espaço? - Eu acho que sim, mas não me lembro bem.... foi uma daquelas conversas breves aqui no Clube... acho que alguém referiu esse nome...- respondeu Starbuck - Pessoalmente, nunca ouvi falar nela.- confessou a mulher do Tenente.- Mas porquê? - O Coronel Tigh é que me falou neles. Aparentemente é um movimento semi-religioso que defende que o destino da nossa civilização é vaguear para sempre no espaço. - Pois é!!!- murmurou Starbuck, batendo com a palma da mão na cabeça.- Agora me lembro. Eu estava a falar com um cadete da Esquadrilha Verde quando se falou disso. Aparentemente, ele veio de um dos cargueiros onde essa seita está muito implantada. - Como é que é possível haver pessoas que defendam isso? - perguntou Cassiopeia.- Eu acho horrível viver dentro de uma nave e acho que não sou a única a pensar assim.... - É claro que não...- respondeu Apollo.- Acho que toda a gente tem saudades de pisar terra firme, de um planeta. - Pelos vistos, o que acontece é que a seita se está a espalhar muito entre todos aqueles que eram crianças na altura da destruição das Colónias.- disse Starbuck. - Pessoas como aquele cadete, que só se lembram dos seus planetas através de gravações didácticas e recordações dos seus pais. - O Coronel Tigh tem medo dessa seita, por causa disso. - disse o Capitão aos seus dois companheiros de mesa. Se alguma vez dermos com a Terra, podemos ter problemas. Podemos ter nas mãos um grande grupo de pessoas que quer continuar a viajar no espaço. - Não acredito nisso.- disse Cassiopeia.- Quando a nossa viagem chegar ao fim, aposto como não vai haver descontentes..... Esta afirmação optimista arrancou sorriso dos dois Guerreiros Coloniais e serviu também para encerrar a conversa. Despedindo-se, Cassiopeia e Starbuck dirigiram-se para os seus aposentos. Apollo terminou rapidamente a sua bebida, fazendo depois o mesmo que os seus amigos. Ao chegar aos seus aposentos, reparou de imediato numa pequena luz que piscava no computar inserido na parede, assinalando que havia uma mensagem. Sheba tinha-a mandado, dizendo que só podia estar com ele no próximo senton, pois a sua Esquadrilha tinha sido posta de prevenção. Ele sabia que tal acontecia porque a Frota se estava a preparar para avançar em direcção ao campo de asteróides e todo o cuidado era pouco. Consultando as ordens de serviço no computador, viu que a sua Esquadrilha só entrava em prevenção após dois sentons, o que lhe dava tempo para estar com Sheba e também com Boxey. E também lhe dava tempo para falar com o seu pai, para lhe apresentar um pedido de desculpas pela maneira como tinha actuado na Ponte. Só ao conversar com Starbuck é que tinha reflectido na maneira como tratara Adama. Ele pensara em falar com ele logo após ter saído do Clube dos Oficiais, mas a verdade é que estava demasiado cansado e, para além disso, de certeza que o seu pai estava ocupado com a travessia do campo de asteróides. Sendo assim programou o computador para o acordar e, tirando o uniforme de vôo, dirigiu-se para o chuveiro, lavando-se rapidamente. Depois de se secar, enfiou-se na cama e rapidamente adormeceu, deixando para trás todo aquele dia e mergulhando num sono repousante e, felizmente, livre de pesadelos. Capítulo 3 Enquanto Apollo dormia, a Frota começava a sua movimentação em direcção aos campos de asteróides. Em pouco mais de um centar o primeiro campo foi alcançado e facilmente ultrapassado, especialmente pelo facto da Galactica utilizar os seus canhões lasers para destruir os asteróides de maior porte e por isso capazes de provocar mais perigo para as naves da Frota Colonial. Assim que o segundo campo foi alcançado, começou-se com a extracção do Tyllium. A Frota possuía duas naves capazes de minerar e tratar aquele combustível. Por um incrível acaso, logo após a destruição das Colónias, na altura em que a Frota estava a formar-se, uma das patrulhas de Vipers da Galactica tinha deparado com essas duas naves. Ambas estavam de serviço numa das refinarias automáticas espaciais que serviam as Doze Colónias e as suas tripulações haviam assistido ao Holocausto através das transmissões vindas de Caprica. Perante tal facto, e sabendo que de certeza que seriam um alvo de futuros ataques dos Cylons, decidiram abandonar a dita refinaria e fugir para o espaço profundo. Os Vipers , que se dirigiam para a refinaria em busca de Tyllium, haviam encontrado as duas naves no preciso momento em que estas iniciavam a sua viagem. Contentes por saberem que não eram os únicos sobreviventes do Holocausto, as tripulações haviam-se juntado aos outros Humanos. Visto que a Frota tinha agora uma certa capacidade para se reabastecer de Tyllium e também devido ao facto de os Cylons se estarem a aproximar cada vez mais do local onde as naves coloniais se estavam a reunir, o Comandante Adama decidira não procurar mais combustível e iniciar a viagem. As naves-mineiras eram um dos bens mais bem guardados da Frota, logo a seguir às naves agrícolas, pois sem elas não haveria Tyllium. A maneira como elas extraiam o dito mineral era bastante curiosa. Numa primeira fase, as naves aterravam, ou melhor agarravam-se a um asteróide, pois os seus trens de aterragem eram constituídos por uma série de "garras" de ferro que se cravavam no solo. Numa segunda fase, da parte dianteira da nave estendiam-se duas enormes pinças de metal que rapidamente começavam a escavar. Essa pinças ladeavam uma enorme abertura para onde projectavam o material que iam retirando do solo. Por todas estas razões, as naves-mineiras eram conhecidas como os "Insectos", pois era esse aspecto que davam quando estavam a funcionar. Após ter sido "engolido", o material recolhido era submetido a uma série de processos de filtragem e de purificação. Normalmente, uma nave-mineira demorava quatro centares a encher os seus depósitos, mas neste caso a situação era diferente. Devido à falta de matéria-prima que afectava a Frota Colonial, as naves tinham sido modificadas para separar não só o Tyllium mas também para separar todos os outros materiais que pudessem ser vitais, armazenando-os nos seus depósitos antes de os distribuir pelas naves-industriais. Ainda para mais no caso específico do Tyllium havia certos problemas pois um dos subprodutos que surgia da sua refinagem era a Solenite, um material altamente explosivo. Tal acontecia visto que o Tyllium só era encontrado juntamente com outro mineral, o Solium. Isto fazia com que todo o processo de purificação e posterior armazenamento tivesse de ser feito de maneira segura ou seja, lenta. Assim uma nave-mineira demorava cerca de sete centares para estar cheia. Enquanto tudo todo este processo decorria, a Frota tinha que aguardar pacientemente. Apollo levantou-se e vestiu-se rapidamente. O sinal sonoro do computador já o tinha apanhado acordado. O seu relógio interno não o deixava dormir mais de seis centares e isto era em alturas em que não havia alertas, pois nesse caso não conseguia dormir mais de três centares. Dirigindo-se para o computador, verificou que a Esquadrilha Vermelha iria chegar à baía Beta dentro de dez centons. Sem mais demoras, saiu dos seus aposentos e encaminhou-se para lá. Como era costume sempre que havia aterragens, a baía estava cheia de elementos dos serviços de emergência que estavam de prevenção caso houvesse algum acidente. Aos poucos, o Vipers da Esquadrilha Vermelha foram aterrando, não havendo qualquer tipo de problema. Apollo sabia que o último Viper seria o de Sheba, pois ela sentia a obrigação de se certificar de que todos os Guerreiros sobre o seu comando regressavam. Assim que o seu Viper aterrou, Apollo dirigiu-se para lá. Com um pequeno gesto, ele mandou afastar o técnico de voo que acabara de encostar uma escada à fuselagem do veículo. O técnico fez o que lhe era ordenado com um sorriso, pois já não era primeira vez que assistia a tal, e de certeza que não seria a última. O Viper estava quase que gelado ao toque, depois de ter passado vários centares no espaço e portanto Apollo subiu as escadas com cuidado, procurando não tocar em nenhuma parte metálica do caça. Na precisa altura em que chegava ao último degrau, a escotilha começou-se a levantar com um ligeiro silvo, acabando por se imobilizar quase que na vertical. Sheba, que estava ainda a certificar-se de que todos os instrumento estavam em ordem, não se tinha apercebido da presença de Apollo, pois era normal que os técnicos estivessem ali enquanto os Guerreiros Coloniais abandonavam os seus Vipers. Vendo isso, ele estendeu uma das suas mãos e disse, disfarçando a voz: - Capitão, se quiser pode dar-me o capacete! Sheba , ainda ocupada, retirou o pesado capacete de voo e, sem sequer olhar, deu-o à mão que lhe surgia à frente. Com um sorriso estampado no rosto, Apollo disse então: - Também me pode dar um beijo, que eu não me importo!! - Como?.......- começou ela a dizer, virando-se na sua direcção, surgindo-lhe depois um sorriso ao ver quem era.- Apollo!!! O Capitão baixou-se e beijou-a na boca. Ela abraçou-o, retribuindo o beijo e, no processo, quase que o fazendo cair para dentro do cockpit. - Cuidado!!- disse ele endireitando-se.- Não queres que eu faça um voo picado, pois não? - É claro que não!- respondeu Sheba, enquanto desapertava os cintos que a seguravam ao banco e se levantava, preparando-se para abandonar o cockpit. Apollo desceu rapidamente da escada onde estava, dando assim espaço para que a ela descesse. Mal tocou no chão, Sheba começou a espreguiçar-se. - Estes cockpits parecem estar cada vez mais pequenas e desconfortáveis....- disse ela apontando na direcção do seu Viper, que se encontrava agora rodeado pelo pessoal de terra. - Olha que isso não impede o Starbuck de dormir durante as patrulhas.... - Mas tu sabes perfeitamente que ele consegue dormir em qualquer ocasião. - Sim... e por vezes isso dá-lhe muito jeito, especialmente quando há alguma cerimónia oficial a que temos de assistir. - retorquiu Apollo sorrindo, enquanto se encaminhavam para a saída da baía de lançamento. - Mas, mudando de assunto, que tal é que correu a patrulha? - Não foi nada de especial.....- respondeu Sheba, encolhendo os ombros.- Aparentemente há uma passagem através do segundo campo de asteróides, mas só agora é que iam investigar. - Uma passagem? - Sim, aparentemente os sensores da Galactica detectaram uma zona em que o campo de asteróides não é tão denso como o resto e portanto a Frota não deve ter muito problemas em passar por lá. - Ainda bem, assim não nos desviamos muito da rota que estamos a seguir.... - Quadrante Alpha, dezanove milhões de sectars pelo vector Epsilon vinte e dois, num rumo calculado de 0000 ponto nove. - recitou de memória Sheba. Esta informação, desde que fora conhecida por ela, Apollo e Starbuck durante a estadia deles nas misteriosas Naves das Luzes, havia-se tornado numa espécie de oração para todos os tripulantes da Frota. No final dessa rota estaria a Terra, o local onde vivia a mítica Décima Terceira Tribo de Kobol. - É só uma pena não sabermos a quantos yahrens de viagem é que a Terra está...- disse Apollo. - Passaram-se 7 yahrens desde a destruição das Colónias e nós já viajamos muito para além das fronteiras conhecidas na altura... Tenho esperança que a Terra não esteja muito mais longe.... - Também eu...- respondeu Apollo. Nenhum deles tocou num assunto sobre o qual tinham chegado a um acordo. Só quando chegassem à Terra é que ambos se iriam unir. Até lá muita coisa poderia acontecer e ambos sabiam que não conseguiriam viver um sem o outro. Sendo ambos Guerreiros, as hipóteses de qualquer um deles morrer em combate eram grandes e, portanto, só quando chegassem a um local seguro é que se iriam unir. Já nas proximidades da Ponte de Comando, Apollo virou-se para Sheba e disse: - Se quiseres podes ir descansar, porque eu faço o relatório da tua patrulha. Não deve haver problema..... - Achas que não?- perguntou ela, hesitante. - Acho....e ainda para mais, eu tenho que falar com o meu pai e assim aproveito a ocasião. - Muito bem.... sendo assim acho que vou aceitar a proposta e vou dormir. - Não te esqueças de que hoje temos um jantar na Rising Star..... - Sempre conseguiste arranjar uma mesa?- perguntou Sheba. - Consegui, mas apenas porque houve uma desistência. Senão fosse por isso, só no próximo sectar é que tinha vaga. - A Rising Star é a única forma de distracção que as pessoas tem aqui na Frota, por isso não é de admirar que esteja sempre lotada..... - Se alguma vez lhe acontecer alguma coisa, nem quero ver a reacção das pessoas!!! Este comentário arrancou um sorriso de Sheba que, espreguiçando-se novamente, disse: - Bem vou dormir um bocado.... - Eu depois passo pela tua cabine para te ir buscar.- disse Apollo. - E o Boxey? - Vou ter com ele quando chegar.- respondeu Apollo, consultando de seguida o seu relógio.- E por falar nisso, ele deve chegar dentro de quinze centons, isto é se o voo não se atrasar. - Então, o melhor é despachares-te.- disse Sheba, despedindo-se com um beijo rápido e dirigindo-se depois para o seu quarto. Apollo acompanhou-a, por uns momentos, com o olhar e de seguida dirigiu-se para a Ponte de Comando que ficava perto. Como de costume havia uma grande azáfama dentro da Ponte. Aquele local era um dos pontos vitais de toda a Frota, coordenando a actividade de todas as naves. Apollo estava à espera de encontrar o seu pai no seu posto de comando, mas a verdade é que quem estava lá era o Coronel Tigh. Após o saudar e após fazer um resumo da patrulha de Sheba e explicar porque esta última não se tinha dirigido até ali, Apollo perguntou: - Onde está o meu pai, Coronel Tigh? - Tu sabes muito bem como ele é, Apollo.- começou Tigh a dizer, sem deixar de observar as diferentes estações que constituíam a Ponte de Comando e os respectivos técnicos que aí trabalhavam.- Insistiu em verificar pessoalmente como é que estava a decorrer a operação de mineração..... - Quem é que foi com ele? - A tua irmã Athena. Ela aproveita todas as oportunidades que tem para pilotar.... Este último comentário arrancou um sorriso de Apollo que sabia que essa afirmação era verdade. Por momentos ele deixou divagar a sua memória para o passado, para a altura em que Athena, Deitra, Brie e muitas outras, incluindo a sua mulher Serina haviam combatido e salvo a Frota na altura em que esta havia descoberto o lendário planeta de Kobol. É claro que as suas lembranças rapidamente se tornaram amargas ao recordar o que havia acontecido na superfície de Kobol, ao recordar a maneira brutal como tinha perdido Serina para sempre num ataque Cylon. Abanando a cabeça como se assim conseguisse afastar essa memórias, Apollo continuou a sua conversa: - Eu queria-lhe pedir desculpas pelo comportamento de ontem... e, já agora, aproveito para lhe pedir desculpas a si, Coronel. Tigh desviou o olhar da Ponte, virando-se para o filho do seu melhor amigo. Aquela parecia-lhe a altura ideal para ter uma conversa com Apollo. - Apollo, tu sabes bem que eu conheço a tua família à vários yahrens, desde do tempo em que o teu pai e eu andávamos na Academia Colonial..... Para te ser sincero, gostava de saber o que se passa contigo. Nós últimos tempos tens mudado bastante e isso nota-se..... - Nota-se assim tanto?- perguntou o Capitão, um pouco envergonhado. - Nota-se.- disse o Coronel Tigh - Aquela tua discussão ontem aqui na Ponte foi bastante elucidativa. O que é que se passa? Pela primeira vez em muitos yahrens, Apollo hesitou em falar. Embora tivesse uma enorme confiança com o Coronel Tigh, não sabia se lhe havia de contar o que o preocupava. Era algo que nem a Sheba havia contado. Mas ele sentiu que aquela era uma boa altura para desabafar. - Eu tenho tido.....como é que hei-de explicar.....certos sonhos..... - Como os do Starbuck?- perguntou Tigh. - Mais ao menos....o que eu vejo nunca é a minha morte especificamente, mas a sensação é sempre como se fosse. - Não estou a perceber......Afinal, com que é sonhas? - Eu não tenho bem a certeza, pois raramente me lembro de todos os pormenores, mas sei que há sempre uma série de explosões gigantescas......eu acho que ando a sonhar com a destruição da Frota e todos nós!! Por momentos, o silêncio instalou-se. Ambos sabiam que sonhos como aqueles eram normais entre todos os tripulantes, tendo quase todos assistido à destruição das Colónias. - Tem que haver outra razão para te sentires tão afectado por isso, Apollo.- disse o Coronel.- Estou certo? - Está.....- começou Apollo a dizer, hesitando novamente antes de continuar.- Acontece que eu não sou o único a ter esses sonhos.... - Como assim? - O Boxey também os anda a ter......Ele não me queria contar o que o andava a preocupar e eu até pensei que fosse algo na escola, mas certo dia voltei um pouco mais tarde e ele já se tinha deitado. Eu fui espreitá-lo e vi que ele estava a ter um pesadelo qualquer, pela maneira como se debatia na cama. Foi nessa altura que acordou a gritar e eu fui falar com ele.... - E o sonho era o mesmo? - Quase....a única diferença é que o Boxey "via-se" sempre a morrer.... - Ele sonhava com a sua própria morte?- perguntou Tigh, espantado. - Sim, ele dizia que sonhava sempre com uma nave a explodir e que tinha a certeza de que ia lá. - Tendo em conta o que ele passou em Caprica, penso que sonhos como esses não são assim tão esquisitos.... - Eu também achava isso, até ele me dizer que o estava a ter à bastante tempo e sempre igual...... - Tal como tu? - Exactamente.....- disse Apollo, abanando afirmativamente a cabeça.- Foi nessa altura que achei melhor autorizar aquela viagem dele até às Naves-Agrárias. Para descontrair... - E funcionou? - Na última vez que falei com ele, disse que já não havia sonhado com nada. Mas isso é que é estranho, porque eu ontem, após a patrulha e aquela discussão fui-me deitar e, pela primeira vez neste sectar, não tive nenhum pesadelo. - Toda esta situação é muito estranha....Tenho que confessar que estou intrigado! - É por isso que eu me tenho andado a comportar de de uma maneira esquisita e mesmo agressiva. Andar com sonhos destes e, para além disso, não ser o único a tê-los é bastante desgastante. - E nunca pensaste em discutir isso com o teu pai, ele podia....- começou Tigh a dizer, antes de um sinal o interromper. O Coronel dirigiu-se para a secretaria do Comandante e carregou no botão que accionava um dos comunicadores aí presentes. - Que se passa, Omega?- disse ele para o monitor, onde o oficial da Ponte se apresentava com um ar preocupado - Temos um problema bastante grave numa das Naves-Cisternas... - Eu vou já para aí!- disse o Coronel, desligando depois a comunicação e virando-se para Apollo.- A conversa vai ter de ficar para outra altura.....o melhor é vires comigo.... - Muito bem!!- assentiu o Capitão e assim ambos desceram do Posto de Comando para a Ponte, dirigindo-se para junto da consola de Omega. Abafando um grito, o Comandante Adama acordou. Por momentos ficou confuso, não sabendo onde se encontrava, até que lentamente se começou a lembrar que estava num vaivém. - Estás bem, pai?- perguntou Athena, virando-se na direcção do assento do Comandante Adama. - Estou, filha. Foi apenas um pesadelo....- disse o Comandante, tentando afastar da sua mente aquilo com que tinha sonhado.- Já passou...... - Tenho que confessar que me assustou.- disse Athena, virando novamente a sua atenção para os instrumentos do aparelho que pilotava. - Deve ter sido da comida da nave-mineira.- gracejou Adama, tentando aliviar um pouco a tensão.- A comida de Piscon faz-me sempre ficar mal....É muito pesada para uma pessoa da minha idade. - Para pessoas de qualquer idade....- acrescentou Athena, sorrindo. Ela própria havia-se sentido mal após a refeição que tinham partilhado com a tripulação de uma das naves-mineiras que estava a trabalhar nos asteróides. Os molhos usados eram extremamente picantes, numa tentativa de disfarçar o sabor normal dos vegetais criados em estufa e que eram o principal alimento da Frota, pois a carne era extremamente racionada e usada apenas em ocasiões especiais. O Comandante da nave-mineira ainda tentara fazer um jantar especial para comemorar a presença de Adama, mas este último recusara terminantemente tal coisa, dizendo que a carne era para consumo dos tripulantes da nave e que ele apenas aceitaria comer as rações normais que eles costumavam comer. Após terem abandonado a nave-mineira, o Comandante Adama havia aproveitado para repousar um pouco e assim fizera até ser arrancado do seu sono pelo horrível pesadelo que tivera. - Ainda falta muito tempo para a Galactica?- perguntou ele à sua filha. - Cerca de cinco centons.- respondeu esta, enquanto manobrava o vaivém pelo meio das naves da Frota que se estendiam à sua frente. Nessa altura, o circuito de comunicação interfrota activou-se e a face do Coronel Tigh apareceu num monitor junto de Athena. - Comandante Adama, acabou de surgir uma situação bastante preocupante. - O que se passa? - Uma das naves-cisterna está em dificuldades devido a um problema de computadores.- disse Tigh com um ar extremamente preocupado. Atrás dele podia-se ver Apollo que estava debruçado sobre uma consola da Ponte de Comando falando com um oficial. - Por acaso foi aquela que teve o vazamento de Tyllium? - perguntou Adama. - Foi exactamente essa!! O computador está completamente louco e a sua tripulação está a ver se descobre o problema. - Quais foram as medida que tomaste? - Para já, mandei todas as naves que estavam nas suas imediações afastarem-se pois o sistema de navegação está a falhar e pode haver perigo de colisão. Para além disso, mandei para lá uma equipe de técnicos sob o comando do Tenente Kommas para tentarem arranjar o computador central. Nessa altura, Athena fez um pequeno sinal para chamar a atenção do seu pai, dizendo depois. - Estamos quase a passar pela tal nave. Adama olhou pelo cockpit do vaivém, na direcção geral que o radar indicava e rapidamente encontrou a nave-cisterna. Esta última quase que nem podia ser chamada de nave, pois na realidade não passava de uma série de oito globos de metal ligados a uma estrutura central horizontal que tinha atrás uma série de motores e à frente um módulo de comando que albergava a tripulação que a comandava. - Algo ali está mal....- murmurou Adama, enquanto esforçava a sua vista. Só de repente é que se apercebeu que a nave estava a sofrer um ligeiro desvio para a esquerda. A nave não estava a conseguir manter o seu rumo, pois os seus motores de manobra do lado direito estavam a funcionar a toda a força, empurrando a nave no sentido contrário. Athena apercebeu-se também de tal situação e, antecipando-se ao seu pai, disse: - Coronel Tigh!!! Avise a nave-cisterna que o computador deles está a disparar os motores de manobra e que eles estão a desviar-se para o lado esquerdo!! Tanto Athena como o Comandante Adama viram, através do monitor, o Coronel Tigh a "disparar" uma série de rápidas ordens para o pessoal da Ponte de Comando, mandando que se entrasse em contacto com a dita nave-cisterna. No entanto, nem os dois passageiros do vaivém Alpha nem a Ponte de Comando se aperceberam de um pequeno ponto nos seus radares, ponto esse que se aproximava da nave em dificuldades. Amaldiçoando a sua sorte, Skint deu mais um soco no painel de instrumentos, numa tentativa vã de conseguir pôr o sistema de comunicações do seu vaivém a funcionar. Desde do Holocausto que o azar o perseguia e, pensando bem, já antes dessa data. Filho de um rico comerciante de Gemoni, tinha visto a sua entrada recusada na Academia por causa de um problema físico e desde dessa altura que investira parte da fortuna da sua família numa companhia de transportes de passageiros. Essa era a única maneira que tinha de pilotar e fora por causa disso que havia escapado ao ataque Cylon que destruíra as Colónias. Quando este se dera, ele encontrava-se a caminho da Galactica com alguns diplomatas que queriam aproveitar a ocasião para a visitar. Ele havia sido recolhido pela Estrela-de-Batalha e o seu vaivém, o único que restava dos 20 que outrora possuíra, havia sido posto ao serviço da Frota. O seu vaivém, que fazia sobretudo transportes interfrota, sofria, como quase todas as outras naves da Frota, de uma má manutenção, o que lhe provocava problemas regulares. A falha das comunicações era vulgar e era o que estava a acontecer naquela altura. Enquanto os seus passageiros entravam, ele ainda tinha tentado remediar o problema mas não conseguira fazer nada. Apesar disso, havia decido partir em direcção à Galáctica, pois sabia que se chegasse lá na altura prevista, receberia um bónus pelo seu bom trabalho e esse créditos serviriam para arranjar a sua nave. Numa tentativa de cortar ainda mais no tempo, Skint havia feito um pequeno desvio em relação à sua rota normal. O Controle de Tráfego da Galactica tinha atribuído uma série de corredores para os voos civis dentro da Frota, mas o que acontecia é que essas rotas demoravam mais tempo pois evitavam o centro da Frota, o local onde se concentravam as naves mais importantes, como era o caso das naves-mineiras, cisternas, agrícolas e de transporte de animais. Skint fazia algo que era normal entre os pilotos civis, metendo a sua nave pelo centro da Frota, quase que se colando aos cascos das naves aí presentes evitando assim a detecção pelos radares da Galactica e economizando cinco centons. Encolhendo os ombros num gesto de resignação, desistiu de mexer nos controles e ligou o sistema de comunicação interno que felizmente ainda funcionava. Quando viu aproximar-se a terceira e última das naves-cisternas, aquela que estava mais próxima da Galactica, comunicou para a cabine de passageiros. - Caros passageiros, chegaremos à Galactica dentro de aproximadamente 3 centons. Espero que tenham gostado do voo!! Desligando o aparelho, Skint deitou um último olhar ao seu radar, antes de fazer a aproximação à nave-cisterna e à Galactica. Detectou de imediato que havia dois outros vaivéns a aproximar-se dessa mesma nave, um vindo de fora da Frota e outro que vinha da Galactica, mas isso não o preocupou pois já havia cortado caminho e mesmo que o vissem o mal já tinha sido feito e ele pagaria a multa que certamente lhe seria aplicada de boa vontade. Skint nem reparou que todas as outras naves se estavam a afastar da nave que lhe surgia à frente e que isso podia ser um sinal de que algo corria mal. Com insulto murmurado contra o piloto da nave-cisterna que a estava deixar descair na sua direcção, Skint acelerou o seu vaivém e fê-lo subir, para passar por cima dos grande depósito de combustível. A bordo da ponte de comando da nave-cisterna Colossus o ambiente era de pânico. O aviso que tinha vindo da Galactica sobre o accionar dos motores de manobra tinha contribuído ainda mais para esse clima. - Imediato, o que é que podemos fazer para evitar isto? - perguntou o Capitão Pirrus, sentado no seu posto na Ponte. - De momento nada!!!- respondeu o Imediato Cyprus, com um ar de desespero.- O computador continua a recusar-se a responder aos nosso comandos!!! - Malditas máquinas!!!- berrou o Capitão.- Ainda falta muito para o vaivém com os técnicos da Galactica chegar? - Devem chegar dentro de dois centons.- disse outro oficial da ponte.- O pior vai ser para atracarem pois para além de nos estarmos a mexer, o computador não deixa abrir as portas do hangar. - Por Hades!!! O que é podemos fazer!- disse Pirrus, segurando a sua cabeça com as mãos. Nunca na sua longa carreira de Capitão algo assim havia acontecido. De repente, as luzes da ponte enfraqueceram assim como os monitores. As ventoinhas do sistema de suporte de vida começaram a desligar-se e os tripulantes começaram a sentir-se cada vez mais leves. - Os sistemas internos estão a falhar.- berrou Cyprus. - Dentro de aproximadamente 5 microns devemos perder a gravidade artificial!!!!! - Amarrem-se bem aos vossos lugares!!!!- ordenou o Capitão, enquanto fazia isso mesmo, pondo os cintos que o segurariam ao assento.- Comunique a situação à Galactica e dê-me uma previsão de quanto tempo é que nos resta de ar após a perda do suporte de vida!!!! Enquanto Pirrus comunicava com a Estrela-de-Batalha e com o vaivém do Tenente Kommas, outro oficial informava o Capitão que após a paragem total do sistema de suporte de via, teriam apenas mais 10 centons de ar. Foi nessa altura que um enorme barulho metálico se vez ouvir através de toda a nave, sendo acompanhado por um enorme tremor. Imediatamente ouviram-se inúmeras sirenes e uma voz mecânica surgiu nos altifalantes da ponte, começando a fazer uma contagem decrescente a partir do dez. - Pelos Senhores de Kobol!!!! - gritou o Capitão.- O computador vai ejectar os depósitos de combustível!!!!! Avisem todas as naves para se afastarem, depressa!!! - Atenção a todas as naves!!! Atenção a todas as naves!!! Daqui é a Colossus!!!! Perigo de colisão iminente!!! Perigo de colisão iminente!!!!- avisou Cyprus através do aparelho de comunicação. O vaivém Alpha ouviu esta mensagem exactamente na altura em que ultrapassava a cauda da Colossus voando por cima da sua superestrutura. - Tira-nos daqui!!- disse de imediato o Comandante Adama quando ouviu o aviso. Athena assim fez, acelerando e fazendo o aparelho desviar-se para a direita, afastando-se da nave. Os depósitos da Colossus estavam agora iluminados por uma série de luzes vermelhas que indicavam que a operação de separação estava a efectuar-se. Ambos estavam tão empenhados na manobra que não repararam de imediato no vaivém que surgia do lado esquerdo da nave-cisterna, vinda de baixo desta última. No dito vaivém, Skint só se tinha apercebido de que algo estava mal na altura em que viu as luzes de aviso nos depósitos. Também ele acelerou, tentando passar por cima da Colossus. "Tenho que avisar o piloto daquele vaivém"- pensou Athena ao aperceber-se dele. Infelizmente na altura em que pensou nisso, o computador da Colossus terminou a operação e ejectou todos os oito depósitos de combustível. Visto que eles continham um combustível altamente volátil, estavam equipados com pequenos motores próprios que lhe permitiam afastar-se rapidamente da nave-cisterna, minimizando assim os perigos de uma explosão que pudesse destruir essa mesma. O que os criadores desse mesmo sistema não previam é que durante essa operação houvesse outras naves no caminho dos depósitos, tal como os programadores do computador da Colossus não esperavam que este se avariasse. Mas, a verdade que isso tinha acontecido e assim, dois dos depósitos de combustível tinham apanhado os dois vaivéns na altura em que estes últimos se estavam a tentar afastar. A velocidade dos ditos depósitos tinha apanhado de surpresa tanto Athena como Skint que nada podiam fazer. A enorme explosão que se seguiu foi rapidamente detectada pelos sensores da Galactica. A Ponte de Comando foi quase de imediato inundada por relatórios de danos e por pedidos de informação de outras naves da Frota. Todos na Ponte haviam assistido espantados ao aparecimento de um terceiro vaivém junto da Colossus, mas não tinham podido fazer nada pois a explosão tinha-se dado logo a seguir. - Quais foram os danos?- berrou o Coronel Tigh, quebrando o ambiente que se tinha instalado. A seu lado Apollo olhava aterrado, pois tinha-se apercebido que o seu pai e a sua irmã estavam no local onde se dera a explosão. À medida que as informações iam chegado à Ponte, começou a estabelecer-se uma imagem mais clara de toda a situação. O vaivém comandado pelo Tenente Kommas havia escapado da explosão e estava a aproximar-se rapidamente da Colossus. - A nave encontra-se bastante danificada!!- ouviu-se a voz do piloto do dito vaivém a dizer. Estou a contar 6 depósitos a afastarem-se, podem confirmar isso, Galactica? - Sim, podemos! Seis estão a afastar-se rapidamente da Frota. - respondeu Rigel - Os outros dois parece que explodiram com o embate..... - ouviu-se novamente o piloto a dizer.- Os nosso sensores ainda não conseguem ter uma imagem definida da área....há muitos destroços...... - Há algum com o tamanho suficiente para ser um vaivém? - perguntou de repente Apollo. - Não conseguimos ver nada.... - Concentrem os vossos sensores nessa zona!!!- disse o Coronel Tigh para o oficial da Ponte da Galactica que estava de serviço nesse posto. Por momentos, instalou-se o silêncio enquanto tanto o oficial da Galactica como o piloto do vaivém tentavam descobrir algo no meio dos destroços. Foi nessa altura que Apollo se lembrou de algo que mais ninguém se tinha lembrado até então. - Já identificaram o segundo vaivém?- perguntou ele, alto para que todos na Ponte o ouvissem. - Ainda não, Capitão.- respondeu um oficial.- Estamos a verificar todos os horários de vaivéns civis. - Galactica, acho que descobrimos algo.... - disse de repente o piloto do vaivém.- Na zona dos motores da Colossus, parece-me que há uns destroços que podem ser de um vaivém..... - Estou a concentrar lá os nossos sensores......- disse quase de imediato o tripulante de serviço nessa consola. Rapidamente os sensores da Galactica conseguiram descobrir os destroços a que o piloto se referia.- O computador dá 90% de hipóteses de ser um vaivém. - Quais são os danos?- perguntou Apollo. - A superestrutura está praticamente intacta. Os danos concentram-se sobretudo na parte esquerda da nave e na parte dos motores!! - E a nível da cabine de pilotagem?- perguntou por sua vez Tigh. O oficial demorou um pouco a responder, verificando novamente os dados, até que respondeu: - A estrutura da cabine parece estar intacta. Virando-se para o monitor onde aparecia a imagem do piloto do vaivém com os técnicos, o Coronel Tigh disse então: - Se não houver perigo aproxime-se dos destroços e faça uma busca de sinais de vida!! - Muito bem, Coronel. Os centons foram passando lentamente enquanto o vaivém navegava entre os destroços em direcção aquilo que podia ser um outro vaivém. Enquanto isso, os sensores da Galactica haviam descoberto aquilo que certamente eram os restos de outro aparelho, mas estes eram um indício seguro de que ninguém podia ter sobrevivido ao acidente. Os maiores destroços eram incapazes de albergar mais do que uma pessoa. Este aparelho, fosse ele qual fosse, tinha apanhado com o depósito e com a subsequente explosão em cheio. - Já estou a detectar formas de vida nos destroços do vaivém.... - disse de repente o piloto.- Os sinais estão muito baixos, provavelmente as pessoas estão inconscientes..... - Já tem uma identificação positiva?- perguntou Apollo, impaciente.- É o vaivém Alpha? Nessa altura ouviu-se na Ponte de Comando um barulho. Todos se viraram nessa direcção e depararam com a Oficial de Voo Rigel que tinha deixado cair o computador pessoal que tinha nas mãos, tapando a cara com elas. - Não pode ser verdade!!! Não pode ser verdade!!!!- murmurava ela e toda a gente se apercebeu que chorava. - Que se passa?- interrogou o Coronel Tigh, aproximando-se dela e pondo-lhe uma mão no ombro, enquanto que outro oficial apanhava o computador. Ela pareceu recompor-se um pouco e, levantando a cabeça, disse: - Acabou de chegar a lista dos voos!!! O único voo que falta é aquele que vinha da nave-agrária!!! - O das crianças?- perguntou Tigh, incrédulo.- Não houve nenhum engano? - Não, não houve!!!- disse Rigel, lutando para conter as lágrimas. - Todos os outros aterraram antes da explosão....aquele era o único que estava a voar...... - Não pode ser.....- começou a murmurar Apollo que tinha assistido à troca de palavras.- Não pode ser, o Boxey vinha nesse voo!!! Foi nesse instante que o piloto do vaivém da Galactica disse: - O vaivém que está à nossa frente é o Alpha!!! É o vaivém do Comandante Adama........ e estamos a detectar dois sinais de vida!!!! Perante tal relatório, Tigh disse: - Então o outro é o das crianças!!!! O silêncio instalou-se na Ponte por momentos, até que foi quebrado por um grito lancinante. - NÃOOOOOO!!!!! BOXEY!!!!!!- berrou o Capitão Apollo enquanto caía de joelhos no chão e enterrava a sua cabeça no meio das mãos, chorando convulsivamente.- NÃOOOOO!!!!! Num local para além do espaço e o tempo, alguém assistia a toda a cena que se passava no Ponte da Galactica como se estivesse lá. - E assim tudo começa......- disse esse alguém, soltando uma sonora gargalhada. - E assim tudo começa!!!!! Capítulo 4 A primeira coisa que Athena viu quando recuperou a consciência foi a cara de Starbuck, que a fitava com um ar preocupado. Ela tentou falar, mas só o conseguiu fazer após várias tentativas, pois a sua garganta doía-lhe imenso. - Morri e fui parar ao Hades?- acabou por murmurar - Como?- perguntou Starbuck, debruçando-se sobre ela com um ar de espanto.- O que é que disseste? - Perguntei se morri e se fui parar ao Hades? Para tu estares aqui, devo estar no meu Hades pessoal......- disse Athena, lançando uma gargalhada fraca e fechando de novo os olhos. Aquela pequena troca de palavra tinha-lhe tirado quase todas as forças. Starbuck ouviu a piada, sorrindo também embora com pouca convicção. Pegando na mão de Athena e apertando-a suavemente, disse: - Já não sou a tua ideia de Olimpo? Sem abrir os olhos, Athena respondeu: - Já foste......... O guerreiro ainda esperou que ela continuasse a falar, mas a verdade é que Athena tinha voltado a perder a consciência. Soltando a sua mão da dela, Starbuck debruçou-se e deu-lhe um beijo de leve na testa, afastando-se de seguida da cama. Antes de sair do quarto, lançou ainda um último olhar sobre ela. Antes de se unir com Cassiopeia, Starbuck tinha tido uma relação tempestuosa com Athena, relação essa que nunca fora muito definida. Embora fosse feliz com Cassiopeia, não conseguia de deixar de sentir "algo" pela irmã do seu melhor amigo e ao vê-la ali, numa das divisões do Centro Médico, tão indefesa, tão diferente daquela Athena que ele conhecia e admirava, não conseguia deixar de sentir esse "algo". Afastando esses pensamentos da cabeça, Starbuck abriu a porta do quarto e dirigiu-se para o corredor do Centro Médico. A uma curta distância do quarto de Athena, encontrava-se o quarto do Comandante Adama. À porta do dito quarto estava o Coronel Tigh, com um ar extremamente preocupado, passeando de um lado para o outro. - Que se passa, Coronel?- perguntou Starbuck, depois de saudar o seu superior. - O Doutor Salik está lá dentro com a Cassiopeia.- respondeu Tigh, parando de andar.- Assim que soube de toda a situação, decidiu vir ver se podia ajudar. - E então? - Ele confirmou aquilo que os exames feitos após o acidente mostravam...... - Sempre é verdade?- inquiriu o guerreiro, sabendo antecipadamente a resposta. - É......- respondeu o Coronel.- O Comandante Adama dificilmente poderá recuperar a consciência. Ele tem um fragmento de metal inserido no crânio, provavelmente um pedaço do painel de controle que explodiu........ - E não se pode fazer nada....... - Não!- disse uma nova voz. Os dois homens viraram-se para a porta do quarto do Comandante, de onde saíam Cassiopeia e o Doutor Salik. Este último fechou a porta do aposento e continuou a falar. - Não podemos fazer nada pelo Comandante. - Porquê?- insistiu, de novo, Starbuck com ar que era uma mistura de desespero e de resignação. Cassiopeia, pondo uma das mãos no braço do seu marido, e interrompendo o que Salik ia começar a dizer, disse: - Starbuck, todos nós da Frota temos uma enorme dívida para com o Comandante Adama e sabemos o quanto lhe devemos. No entanto, neste caso nada podemos fazer.......Podes ter a certeza que se houvesse algo ao nosso alcance.......... - A verdade é que não temos o equipamento para o operar!- disse Salik, fitando Tigh e Starbuck.- Este Centro Médico, embora esteja maravilhosamente equipado, não passa de um simples Centro Médico de uma nave de guerra..... Não temos os meios que havia nas Colónias....... - Compreendo....- murmurou Tigh.- Nós sempre tememos que algo assim viesse a acontecer...... - Mas há mesmo a certeza de que não se pode operar o Comandante?- perguntou Starbuck. - Sim, há essa certeza!- afirmou Salik, peremptoriamente.- Uma pequena parte do fragmento está inserida no cérebro e nós não podemos retirá-la de lá com o equipamento que temos. - Que podemos então fazer?- perguntou o Coronel. - De momento, a melhor hipótese que temos é pôr o Comandante em animação suspensa.......- respondeu Cassiopeia. - Com os nossos meios actuais, podemos mantê-lo nesse estado durante 10 yahrens......Pode ser que até lá encontremos uma civilização que nos possa ajudar.- continuou Salik. - Ou mesmo a Terra.....- disse Starbuck. - Exactamente.- afirmou a sua mulher.- É a única solução...... - Muito bem!- disse Tigh, tomando uma decisão.- Preparem tudo.....Assim que eu falar com o Apollo ou com a Athena podem começar com o processo. - Esqueci-me de dizer que há bocado a Athena recuperou a consciência por momentos......- disse o Tenente. - Ela disse alguma coisa?- perguntou Cassiopeia. Starbuck hesitou por alguns momentos, acabando por responder: - Não, não disse nada. Abriu os olhos e balbuciou algumas coisas. - Mas reconheceu-o?- perguntou Salik. - Reconheceu........ - Isso é bom sinal. A memória não parece ter sido afectada.- disse o Doutor.- Já que estou aqui, acho que posso ir lá vê-la..... - Muito bem, eu acompanho-o.- afirmou Cassiopeia. - Eu vou ver se falo com Apollo.....- disse o Coronel Tigh.- Vou-lhe explicar a situação..... - Já agora, eu vou consigo, Coronel.- disse Starbuck.- Ainda tenho tempo antes da Esquadrilha sair em patrulha. Assim, após as despedidas, cada grupo se afastou para seu lado. Mal saíram do Centro Médico, na direcção dos aposentos de Apollo, Starbuck virou-se para o Coronel Tigh e, após alguns momento de hesitação, perguntou: - Desculpe se estou a ser intrometido, mas agora quem é que vai comandar a Frota? - Eu próprio tenho pensado nisso.....- respondeu o outro, abrandando o passo.- Como deves saber, na Frota Colonial nunca houve nenhum critério de sucessão rigoroso. Para já sou eu que estou à frente de tudo, mas assim que o Apollo recuperar vou-lhe passar o comando. Acho que isso é o mais correcto a fazer. - E o Conselho dos Doze não tem nada a dizer sobre o assunto? - Não sei dizer......- respondeu Tigh, não conseguindo esconder o desprezo que tinha em relação a todos os políticos.- O corpo político sempre quis dominar os militares e talvez agora seja a altura de o tentarem fazer. Por acaso vamos ter uma reunião em breve e estou à espera que a questão do comando venha a surgir. - Aconteça o que aconteça, o Coronel pode ter a certeza de que estamos do seu lado. Nós só queremos o que é melhor para a Frota. - Eu sei....- disse Tigh, com um sorriso.- Mas de certeza que não vai haver problemas...... - Esperemos que sim.............- disse Starbuck, encerrando desta maneira aquela breve conversa. Sheba estava ainda em estado de choque com o que tinha acontecido. Ela tinha sido acordada por Boomer e por Jolly. Assim que lhes abrira a porta, ainda meia ensonada, eles tinham-lhe explicado mais ou menos o que acontecera e tinham-na acompanhado até à Ponte de Comando. Quando lá chegara, Apollo estava a ser retirado de maca por dois ajudantes do Centro Médico. Cassiopeia, por ordem do Coronel Tigh, havia dado um calmante a Apollo. Só nessa altura é que Sheba soubera toda a história do acidente e compreendera a gravidade do mesmo para a Frota e para Apollo em particular. Vendo que não podia fazer nada para ajudar na operação de salvamento de Athena e do Comandante Adama, ela havia seguido para os aposentos de Apollo, local para onde os ajudantes médicos o tinham levado. Ele tinha estado sob efeito do sedativo, cerca de um senton. Quando finalmente acordara, parecia estar a reagir bem a toda a situação, não tendo o mínimo problema em recordar e enfrentar o que acontecera. Sheba tinha estado a falar com ele durante cerca de quatro centares e, satisfeita com o estado de espírito dele, havia decidido ir descansar para os seus aposentos. O descanso havia sido mínimo pois não conseguira dormir em paz, preocupada como estava. Assim, ao fim de pouco mais de dois centares de um sono mal dormido, havia-se levantado e dirigido de novo para os aposentos de Apollo. Ao chegar lá, tinha dado de caras com o Coronel Tigh e Starbuck que acabavam de bater à porta. - Como estão a Athena e o Comandante Adama?- perguntou ela, após cumprimentar os dois homens. Tigh fez-lhe rapidamente um resumo da situação, especialmente no que dizia respeito ao problema do Comandante. Tal como tinha acontecido com Starbuck, Sheba ficou consternada com aquilo que lhe tinha sido dito. Na altura em que ia começar a falar, a porta abriu-se e todos se viraram para lá. Apollo tinha tomado um banho e vestido o seu uniforme. Apesar daquele aspecto de normalidade, era notório que não havia descansado nada pois tinha umas grandes olheiras. Convidando-os para entrar com a mão, disse: - Estejam à vontade, eu estava a preparar-me para comer qualquer coisa. - Acho que não é necessário eu e o Starbuck entrarmos.- disse Tigh.- Só viemos aqui para te pedir autorização para uma coisa...... - É em relação ao meu pai?- perguntou o Capitão, interrompendo o Coronel. - Por acaso é, mas com é que sabes? - Estive a ver as transmissões da IFB. O facto de eles não dizerem nada sobre o meu pai, mostrou logo que algo estava mal...... O Coronel Tigh, tal como tinha feito com Sheba momentos antes, explicou-lhe o que se passava. Apollo ouviu tudo com atenção e, assim que o amigo do pai acabou, disse: - Se essa é a única maneira de salvar o meu pai, façam-no..... Tenho total confiança na Cassiopeia e no Doutor Salik..... - Muito bem....- respondeu Tigh, pegando de imediato no seu computador pessoal e dando instruções para que começassem o processo de suspensão no Centro Médico. Enquanto isso, Apollo virou-se para Starbuck e perguntou: - E a minha irmã, como é que está? - Já recuperou a consciência.....Quando viemos embora do Centro Médico, a Cassie e o Doutor iam até ao quarto dela. - Ainda bem...... - Bem, acho que me vou embora......- disse Tigh, após ter terminado a comunicação.- Vou para a Ponte de Comando......E, por falar nisso, depois preciso de falar contigo, Apollo..... O Capitão fez um sinal de assentimento com a cabeça, não dizendo mais nada. Ele sabia exactamente sobre o que é que Tigh queria falar com ele. Não esperava, no entanto, que a questão surgisse tão cedo. - Eu também vou embora, porque entro ao serviço daqui a alguns centons.- disse por sua vez Starbuck, antes de se despedir do seu amigo com um abraço.- Já sabes que se precisares de alguma coisa diz....... Apollo retribuiu o gesto do seu amigo e disse: - Dá os meus cumprimento ao resto da Esquadrilha, está bem? - É claro que sim.- respondeu o Tenente, sorrindo.- Já estamos todos cheios de saudades tuas!!! - Aposto.....- disse o outro, sorrindo também. Rapidamente, Tigh e Starbuck seguiram os seus caminhos, deixando Sheba e Apollo sozinhos. - O melhor é entrarmos.- disse ela, que até então se tinha limitado a observar o seu noivo. - Sim, é melhor.- assentiu ele, afastando-se da entrada para que ela entrasse e seguindo-a depois. A entrada de Sheba foi saudada com um ladrar electrónico. Do quarto adjacente, onde o recém-falecido Boxey tinha dormido, surgira Muffit, abanando a sua cauda, como era costume. Por momentos Sheba ficou com a impressão de que a réplica mecânica de um daggit sabia o que tinha acontecido ao seu dono e que estava triste com isso. Quase que adivinhando o que passava pela mente de Sheba, o Capitão disse: - Ele ontem passou a noite toda a ganir. Eu nem sequer sabia que ele tinha esse som programado...... Depois de dizer isso, Apollo baixou-se e acariciou o pêlo sintético do daggit, que o fitou com os seus grandes olhos. - Que vais fazer com ele?- perguntou Sheba. - Em pensei em tirar-lhe as baterias e guardá-lo algures num armário, mas acho que já estou muito acostumado a ele. - Mudando de assunto, que tal é que estás? Apollo levantou-se e dirigiu-se para a pequena cozinha dos seus aposentos. Pegando numa caneca, encheu-a com a bebida que tinha estado a aquecer e disse: - Queres mesmo saber? - Ao fim de tanto tempo acho que já devias saber que sim!! - Não sei bem como descrever o que sinto.......- desabafou Apollo. - Como assim?- perguntou Sheba, aproximando-se do seu noivo e pegando-lhe nas mãos que estavam a começar a tremer. - A dor é de tal maneira profunda que eu acho que se lhe ligar enlouqueço....... Olhando-a nos olhos, ele continuou: - Espero que percebas o que eu estou a dizer......Eu não posso deixar que a dor venha à superfície. - Mas também não podes deixar que ela fique dentro de ti......Não sei o que será pior....... - Eu sei.......- disse ele com pouca convicção, afastando o olhar. - Não te esqueças que me tens sempre a mim para te ajudar......e que também tens todos os teus amigos do teu lado...... - Obrigado!!!- disse Apollo, simplesmente. De seguida, pousou a caneca no balcão e beijou-a. Era um beijo cheio de paixão a que ela respondeu plenamente. Os dois estavam tão embrenhados no que faziam que nem sequer se aperceberam da presença de alguém no quarto. Apollo foi o primeiro, quando viu que alguém estava junto da porta de entrada, iluminando o aposento com uma leve luz branca. - Sheba, acho que temos companhia.......- murmurou ele, afastando a sua cara da dela, tentando ver quem é que estava ali. Perante as palavras do seu noivo, Sheba começou a virar-se lentamente, levando a mão direita ao coldre onde tinha a sua pistola pessoal. Para espanto de Apollo, ela nunca chegou a terminar o seu movimento, parando a meio, totalmente paralisada. - Peço imensas desculpas por interromper este momento.... - disse o intruso. Este último era um homem de certa idade, com longas barbas e vestido com uma túnica branca. Apollo teve a impressão que já o tinha visto em qualquer lado, mas não sabia aonde. A única certeza que tinha é que ele era um dos Seres de Luzes que haviam ajudado os Coloniais noutras ocasiões.- A verdade é que temos que falar!!! - Que se passa?- perguntou o Capitão, afastando-se de Sheba. Este não era a primeira vez em que ele lidava com aqueles Seres, mas mesmo assim sentia-se pouco à vontade. - Vou directo ao assunto.- disse o indivíduo, olhando directamente para Apollo.- A vossa viagem chegou a um ponto de viragem. Todos estes acontecimentos dos último sentons são sinais. A altura está a chegar! - O que quer dizer com isso? - Considera o que te disse como um aviso. Algo está para acontecer em breve. - Vamos descobrir a Terra?- perguntou Apollo, dizendo a hipótese que primeiro lhe veio à cabeça.- É isso? - Não posso dizer....- respondeu o outro.- A única coisa que posso dizer é que o vosso destino está do outro lado daquela cintura de asteróides. - Isso não me ajuda em nada....... - Tenho pena que assim seja....- disse o seu interlocutor, com ar de quem estava a ser sincero, parecendo depois hesitar antes de continuar a falar. - Um último aviso.....cuidado com velhos inimigos! E com estas palavras, o misterioso ser desapareceu, antes que Apollo o conseguisse questionar. Sheba virou-se para trás nessa altura, sacando a sua pistola do coldre. - Onde é que está........- começou a dizer ela, antes de ver a cara de Apollo.- Que se passa? - Tenho de falar com o Coronel Tigh......- respondeu o seu noivo. - Porquê?- perguntou Sheba, guardando a pistola. - Um dos Seres de Luz esteve aqui....e disse-me algo que é importante - O quê? - Entre outras coisas, disse-me que o destino da Frota está do outro lado da cintura de asteróides....... - Será a Terra? - Não sei, ele não explicou as suas palavras.....mas eu tenho um pressentimento de que é isso de que se trata..... - Se achas isso, realmente o melhor é irmos falar com o Coronel Tigh.- disse Sheba, dirigindo-se para a porta. Apollo seguiu-a mas, antes de sair, foi falar com Muffit, dizendo-lhe que não demorava muito. O daggit pareceu perceber o que lhe era dito, ladrando duas vezes e deitando-se junto da porta por onde Apollo e Sheba saíram. Os dois Guerreiros chegaram à Ponte na altura em que a Esquadrilha Azul, liderada por Starbuck, era lançada no espaço em missão de patrulha. Ao dirigirem-se para o posto de comando, Apollo notou que o Coronel Tigh, embora tivesse o comando efectivo da Frota, não se sentava na cadeira de Adama, preferindo estar de pé junto da balaustrada, olhando para as várias secções da Ponte de Comando. - Apollo, não estava à espera de te ver aqui tão cedo......- disse Tigh ao ver o casal aproximar-se.- Está tudo bem? - Nem por isso...- respondeu o Capitão, contando de seguida o encontro no seu quarto e os misteriosos avisos que lhe haviam sido feitos. Após ouvir o relato de Apollo, o Coronel Tigh pareceu ponderar a situação. A verdade é que ele não era um homem muito religioso e custava-lhe aceitar a ideia de seres supostamente divinos que apareciam com aquele tipo de premonições. Se o fazia neste caso, era por ser Apollo a contar e também porque já tinha visto algumas daquelas Luzes, embora nunca tivesse encontrado pessoalmente nenhum dos Seres. - Tens algum plano em mente ?- acabou ele por dizer. - Eu queria começar a mover a Frota através da abertura que encontraram, assim que pudermos.- disse Apollo com toda a sinceridade. - Sabes bem que ainda há um assunto a tratar antes de tomares essa decisão.- disse o Coronel. - Peço desculpas se me excedi.....O que eu queria dizer é que o Coronel Tigh podia ordenar à Frota...... - Não percebeste bem o que eu quis dizer....- disse Tigh, dirigindo-se para o computador do posto de comando, computador esse que controlava todos os outros na Estrela-de-Batalha. Digitando uma senha que o identificava como o segundo-em-comando da nave, o Coronel acedeu ao diário de bordo e rapidamente digitou uma série de comandos. Depois de fazer isso, virou-se para Apollo e disse, com um sorriso estampado no rosto: - Pronto, Comandante. Agora a Frota é sua!!! Apollo ficou estupefacto. Ele sabia que mais tarde ou mais cedo seria o Comandante da Galactica, especialmente agora que o seu pai estava incapacitado, mas a verdade é que não estava à espera que a passagem de comando fosse feita desta maneira tão súbita. A sua estupefacção passou depois a embaraço na altura em que o resto da tripulação da Ponte de Comando foi informada da mudança, irrompendo numa série de saudações e de vivas. É claro que isso não queria dizer que os tripulantes não gostassem de Tigh ou que já se tivessem esquecido de Adama. O que mostrava é que Apollo era acarinhado e apreciado por todos, sendo já uma verdadeira lenda, tal como o seu pai era. - Parabéns!!!. - murmurou Sheba ao seu ouvido. Apollo fitou-a, sem nada dizer, pois estava ainda em choque. Toda a sua dor, provocada pela morte de Boxey estava momentaneamente esquecida. - Mas.....isto não pode ser assim.....- disse ele por fim.- O Conselho dos Doze de certeza que quer ter voto na matéria...... - A decisão foi tomada por mim e não há nada a fazer....- respondeu Tigh. - Isto foi sempre o que o teu pai desejou e ambos sabemos isso. - O Coronel tem mais yahrens de experiência....o lugar devia ser seu!! - Não, Apollo....- disse o outro, abanando a cabeça.- Eu já passei da fase em que quis ser Comandante de uma Estrela-de-Batalha. A verdade é que eu não sou um estratego como o teu pai, como Cain ou mesmo como tu próprio.....e agora mais do que nunca, a Frota precisa de alguém que tenha essas capacidades. - E esse alguém és tu.....- disse Sheba, completando o raciocínio de Tigh.- Acredita que sim...... - E agora isso já não se discute!!!- disse Tigh.- Proponho que comecemos a planear a manobra da Frota..... E assim, ainda com um Apollo muito relutante em relação ao seu novo posto, os três oficiais começaram a fazer os planos que levariam a Frota para além da cintura de asteróides. A notícia de que Apollo era o novo Comandante rapidamente correu a Frota. Passados alguns centares eram poucas as pessoas que não sabiam da novidade. É claro que, tal como Apollo tinha previsto, o Conselho dos Doze insurgiu-se contra esta nomeação e fez questão que todos soubessem disso. O Coronel Tigh, após ter estado a ajudar Apollo a preparar a manobra, tinha-se dirigido para a reunião que tinha marcada com o Conselho. - Como é isto é possível!!!!- berrou Sire Trolius, o representante de Virgon, assim que a dita reunião começou.- Essa nomeação é uma afronta a este Conselho e a tudo o que ele representa!!!! - Tenho de concordar com o meu exaltado colega.- disse a representante de Gemoni, Siress Chloe.- A sua atitude, Coronel Tigh, foi bastante apressada e irreflectida. - Nós devíamos ter sido ouvidos!!!!- voltou a berrar Sire Trolius. - Tinham algum candidato em mente?- perguntou simplesmente Tigh, não parecendo estar muito preocupado com todo o ambiente que o rodeava. - A questão que se põe não é essa.- disse o representante de Scorpio. - Mesmo que não tivéssemos, devíamos ter sido ouvidos. Esta Frota não é uma Frota de Guerra. Os civis são uma maioria e nós, o Conselho, somos os seus representantes. Temos de zela pelo que é melhor para eles. O Coronel Tigh fez uma tal cara de desprezo ao ouvir aquela última frase, tantas vezes repetida por tanto outros políticos, que a representante de Leonid, a sua Colónia natal, teve de intervir. - Coronel, nós já nos conhecemos à vários yahrens e todos aqui já sabemos qual a sua opinião sobre nós, a classe política, mas peço-lhe que ao menos nos respeite!! - Siress Diana, peço imensas desculpas se os ofendi.....- começou Tigh a dizer.- A verdade é que esta discussão não tem a mínima utilidade e razão de ser. A Frota precisava de um Comandante e eu tratei disso!! A Lei Marcial ainda continua em vigor!! - Apesar de já não vermos um Cylon à quase 7 yahrens!!!- disse Sire Trolius.- Essa Lei de Marcial já não tem a mínima razão de existir!!! O Conselho dos Doze não pode continuar a ser ignorado, está na altura de assumirmos de novo as nossas responsabilidades!! Está declaração arrancou dos restantes membros do Conselho uma grande ovação. Ao ver que tinha o apoio dos seus pares, Sire Trolius decidiu que podia continuar com o ataque a Tigh. Pegando numa folha de papel que tinha à sua frente, empurrou-a sobre a mesa na direcção do Coronel. - E, como se não bastasse essa nomeação, ainda nos apresenta este plano ridículo para atravessar a cintura!!! Depois do acidente que ocorreu, acha que é sensato fazer com que toda a Frota se arrisque desta maneira, atravessando uma abertura cheia de asteróides carregados de Tyllium. O que é que há do outro lado? - Para começar gostava de salientar que esse plano foi feito pelo Comandante Apollo, o Comandante da Frota....- começou Tigh a dizer, tentando fazer um esforço para se conter.- E gostava de salientar também que do outro lado pode estar a Terra, o objectivo da nossa viagem!!! Fazendo um gesto de desprezo com a mão, Sire Trolius disse: - A mítica Terra!!! Eu sempre achei que isso era uma daquelas loucuras religiosas de Adama...... Tigh ficou estupefacto com as palavras do político. Rapidamente essa estupefacção foi substituída por um enorme sentimento de raiva. Agora que Adama estava fora de cena, começavam-se a ver as verdadeiras faces das pessoas. Vários membros do Conselho acenavam as suas cabeças em concordância com as palavras de Trolius. - Se não fosse pelo Comandante Adama, a maior parte de vocês estariam agora mortos!!!- berrou Tigh, pondo-se de pé.- Isto é, claro, se não se tivessem aliado aos Cylons como fez Baltar!!! Esta última comparação levantou gritos de indignação por parte de quase todos os membros do Conselho. Baltar, que havia morrido numa revolta na Nave-Prisão, era considerado como o maior traidor da Humanidade, o homem que tinha orquestrado as falsas negociações de paz com os Cylons, as negociações que tinham dado origem ao Holocausto das Doze Colónias. - Como é que se atreve a dizer isso?- berrou, por sua vez Trolius.- Eu devia mandá-lo prender de imediato!!!!! - Tente fazer isso!!!- retorquiu Tigh.- Tente fazer isso...... Com estas palavras, o Coronel reuniu as suas coisas e preparou-se para sair da sala de reuniões. Antes de sair, teve ainda tempo de ouvir Trolius dizer: - Isto não acaba aqui!!!! Disso pode ter a certeza, Coronel Tigh!!!! Isto não acaba aqui!!! Tigh nem sequer se dignou a responder, saindo rapidamente. " Tenho de ter uma conversa muito séria com Apollo"- pensou ele para si mesmo, enquanto se dirigia para a Ponte de Comando. Algo lhe dizia que as últimas palavras do membro do Conselho eram um indício de que ia haver problemas. Capítulo 5 Apollo apercebeu-se de que, tal como acontecia com Tigh, não se conseguia sentar no Posto de Comando onde o seu pai costumava estar. A figura de Adama parecia "pairar" sobre aquele local e Apollo, agora mais do que nunca, sentia isso. " Não percebo como é que ele conseguia resolver tanto problemas sem enlouquecer!", pensou Apollo para si mesmo, consultando o seu computador pessoal enquanto se encostava a balaustrada sobre a Ponte. Embora houvesse uma série de assunto que nem sequer chegavam às suas mãos pois Tigh tratava deles, a verdade é que os que chegavam eram em número avassalador. Parecia que a maior parte das naves da Frota necessitavam da Galactica e, mais especificamente, do seu Comandante, para sobreviverem. Ele notara também outra coisa. Certos Capitães da Frota não escondiam o seu desprezo por ele. Aparentemente em certas naves havia uma enorme antipatia para com ele. Apollo tinha quase a certeza de que tal era resultado da manipulação feita por membros do Conselho dos Doze. Ao ouvir o relato do Coronel Tigh após a reunião com o dito Conselho, Apollo ficara com a impressão de que iriam surgir problemas em breve. " Quem me dera ter a capacidade do meu pai para controlar o Conselho....", pensou ele, pousando o computador na secretária que era do seu pai e, vendo primeiro se ninguém o observava, espreguiçando-se. O cansaço estava a apoderar-se dele. Após ter sido nomeado Comandante, ainda não tinha saído da Ponte, ao contrário de Sheba que tinha ido repousar. Com um suspiro de resignação, Apollo voltou a pegar no computador pessoal, continuando a ler todas as ordens de serviço, pedidos e outras coisas do género que tinha que autorizar. Ele começava-se a aperceber de como a vida de um Guerreiro era simples se comparada com aquela. As suas reflexões foram subitamente interrompidas pelo aparecimento de Starbuck e de Boomer, que tinham acabado de chegar de patrulha e não conseguiam esconder o cansaço. Apercebendo-se disso, Apollo disse: - Peço desculpas por vos ter pedido para virem apresentar já o vosso relatório, mas a verdade é que ele é essencial para começarmos a movimentar a Frota. - Não há problema, Apollo!- respondeu de imediato Starbuck, gaguejando logo de seguida.- ......quer dizer.....Comandante!!! Boomer escondeu com a mão o sorriso que tinha estampado na cara, perante o embaraço do seu amigo. Controlando o riso, disse para Apollo. - Parece que temos aqui um pequeno problema.... - Sim!!!- interrompeu de imediato Starbuck, gesticulando nervosamente.- Como é que nós te tratamos? Por Apollo ou por Comandante. O próprio Apollo tinha sido apanhado de surpresa por toda aquela situação. De facto, como é que os seus amigos o iriam tratar? Tigh costumava tratar o seu pai ou por Adama ou por Comandante, embora utilizasse mais a segunda forma quando estavam presentes outras pessoas. Talvez essa fosse a melhor solução. - Entre nós acho que nos podemos continuar a tratar pelos nossos nomes, mas à frente do resto da tripulação......- disse ele aos dois Guerreiros. - É a melhor solução!- afirmou Boomer, acenando com a cabeça. - Bem, agora que já resolvemos este pequeno.....problema, vamos tratar de outros assuntos!!- disse Starbuck com convicção.- Já viste os dados dos nossos sensores, Apollo? - Já.- afirmou o interpelado. Assim que assumira o dito Comando, havia mandado parte da Esquadrilha Azul investigar a passagem que existia no campo de asteróides. Com um pequeno toque no ecrã do seu computador pessoal, Apollo fez surgir de novo a informação recolhida pela patrulha. - Aparentemente não há grande obstáculos para a Frota. - Não há nada que os canhões da Galactica não possam destruir. - afirmou Boomer. - E em relação ao conteúdo mineral dos ditos obstáculos? - perguntou Apollo.- Seria muito grave se eles tivessem Tyllium pois, como devem saber, os tiros podiam provocar uma reacção em cadeia. - Seria um novo Carillon, mas connosco no meio.....- acrescentou Starbuck, suprimindo um arrepio ao lembrar-se desse planeta e do que tinha acontecido lá. - Exactamente!- disse Apollo - Quanto a isso, não há problemas.- afirmou Boomer.- Os níveis de Tyllium ao longo da abertura não são muito elevados. Não há nenhum perigo de explosão. Apollo só estava à espera daquela confirmação para agir. Chamou Omega até ao Posto de Comando e deu-lhe ordens para que Frota começasse a movimentar-se. - Muito bem, Comandante.- respondeu o oficial de voo, transmitindo de seguida aquilo que lhe tinha sido ordenado. Rapidamente os Capitães das outras naves foram informados e a Frota começou a tomar posições em frente da abertura. - O plano que eu, Sheba e o Coronel Tigh fizemos é bastante simples.- começou ele a dizer aos seus dois amigos.- A Esquadrilha Vermelha, que já está em patrulha, vai entrar primeiro, para fazer um reconhecimento da passagem.... - Vão até ao outro lado?- interrompeu Boomer, curioso. A Esquadrilha Azul apenas tinha investigado a passagem com os seus sensores, não tendo entrado. Os dados mostravam que do outro lado da barreira de asteróides o espaço estava aparentemente livre de objectos. - Sim. Assim que saírem da passagem, vão assumir posições de combate, porque a seguir vão passar as naves de abastecimentos, acompanhadas pela Esquadrilha Verde...... - Os cadetes??- perguntou Starbuck, perplexo.- Vais mandar aqueles tipos..... Levantando a sua mão direita, Apollo interrompeu o seu amigo, dizendo de seguida: - Eu sei que a maior parte dos Guerreiros acha que eles ainda não estão preparados, mas a verdade é que os simuladores dizem o contrário assim como o Capitão Det. - Mesmo assim, acho que não é seguro mandá-los a guardar as naves mais importantes.- insistiu Starbuck.- Eles deviam estar de reserva. - Desculpa, mas não concordo. Mais tarde ou mais cedo eles tinham que entrar em acção e acho que este é o momento certo..... - Tu é que sabes....- disse o outro, encolhendo os ombros em sinal de resignação. - Quem é que vai assegurar a protecção do resto da Frota?- perguntou Boomer. - A Esquadrilha Lança de Prata vai assegurar a protecção da nossa retaguarda e a Galactica vai assegurar a defesa das naves de passageiros. Tenho muita pena, mas vou ter de vos pedir para que fiquem de prevenção, no caso de acontecer qualquer coisa. Vocês vão ter de descansar na sala dos pilotos..... - Não é nada que já não tenhamos feito antes.- disse Starbuck, enquanto Boomer acenava a sua cabeça em concordância.- Embora eu preferisse a minha cama em vez daqueles beliches metálicos da sala... Este último comentário arrancou gargalhadas dos outros dois Guerreiros que já estavam habituados a eles. Starbuck era o eterno resmungão, mas o eterno resmungão simpático que costuma dizer aquilo que passava pela cabeça da maior parte dos seus companheiros. Acabando de rir, Apollo disse: - Há ainda outro assunto que eu gostava de discutir com vocês. Eu tão cedo não vou poder comandar a Esquadrilha, pois vou estar ocupado com o Comando da Frota. Isso faz com que haja um vazio no que diz respeito ao comando da Esquadrilha. Foi também por isso que eu quis falar convosco. - Nem penses!!!- disse logo Starbuck.- Já sei para onde te estás a encaminhar!! Apollo começou a rir-se de novo, pois já estava à espera daquela atitude. - Também pensas assim, Boomer?- perguntou ele. - Sim, Apollo.- respondeu o Tenente com convicção. - Então tenho muita pena, mas vou ter que utilizar os meus privilégios como Comandante. Já quando o meu pai promoveu a Sheba e lhe deu o comando da Esquadrilha Vermelha, vocês os dois recusaram a promoção a Capitão que eles vós queria dar..... Mas desta vez não vão escapar! Dizendo isto e perante os protestos dos seus dois amigos, Apollo dirigiu-se para o computador que estava presente na secretária do Posto do Comando. Digitando o código de Comandante, escreveu rapidamente o que queria, transmitindo de seguida essa informação para os restantes computadores da Galactica. - Pronto. Já está.- disse ele, virando-se para os dois Guerreiros.- Agora são ambos Capitães. Starbuck, tu vais assumir o comando da Esquadrilha Azul, enquanto que tu, Boomer, vais assumir um lugar aqui na Ponte. - Como????- disseram os dois quase em uníssono, recomeçando com os protestos. - O que está feito, está feito!!- disse Apollo, silenciando os seus protesto.- Eu hoje pensei bastante antes de tomar esta decisão. Para ser sincero, não sabia quem é que devia comandar a Esquadrilha... - Mas eu não quero deixar de voar!!!- disse subitamente Boomer. - Apollo, não me podes pôr na Ponte.... - Tu não vais deixar de voar. Isto é apenas temporário, Boomer. A verdade é que eu preciso da tua ajuda aqui. Sem a Athena, o Coronel Tigh está um bocado sobrecarregado e precisamos de alguém eficiente e de cabeça fria. Além do mais, preciso dos teus conhecimentos em electrónica. - Porquê? - Como sabes a Colossus ficou muito danificada no acidente... - disse Apollo, parando por alguns instantes, afastando a dor sentia ao falar daquele assunto.- .....no entanto, a Ponte de Comando não foi muito afectada e os seus computadores estão practicamente intactos. Desde do acidente que o Tenente Kommas e o Doutor Wilker estão a tentar perceber como é que foi possível o computador central falhar daquela maneira....Eu gostava que os ajudasses nesse trabalho. Saber como o acidente aconteceu é importante, não só para mim, como também para o moral da Frota. - Muito bem....podes contar comigo!- respondeu Boomer com convicção. - Mas quando ele voltar ao serviço activo, quem é que vai comandar a Esquadrilha? Ele ou eu?- perguntou Starbuck, que ainda se estava a refazer do choque da promoção. - És tu. O Boomer vai assumir o comando da Esquadrilha Verde. - Mas então, não achavas que o Capitão Det estava a fazer um bom trabalho?- disse novamente Starbuck. - E está, é por isso que o vou pôr à frente da Academia de Guerreiros. Os cadetes que de lá saírem terão de prestar pelo menos um yahren de serviço na Esquadrilha Verde antes de serem transferidos para as outros Esquadrilhas. - Parece-me um bom plano.- disse Boomer.- O que me vai custar, vai ser deixar de ouvir o Starbuck a ressonar nas patrulhas de longo alcance..... - Eu, ressonar????- exclamou Starbuck, fingindo indignação. - Eu não ressono!!! O meu aparelho de comunicação é que está sempre com problemas!! Os dois outros Guerreiros começaram a rir, tendo mesmo de tapar as bocas para suster as gargalhadas. - Essa foi boa!!- disse Apollo, controlando-se e dizendo, de seguida, num tom mais sério: - Boomer, se quiseres podes ir descansar um pouco para os teus aposentos, antes de te apresentares aqui na Ponte. Quanto a ti, Starbuck, vais ter que ir para a sala dos pilotos... - Está bem.- disse o recém-promovido Capitão, despedindo-se depois dos seus amigos e saindo da Ponte. Boomer aproveitou e fez o mesmo, prometendo que se apresentaria ao serviço dentro de um centar e meio. Depois de ver os dois Guerreiros sair, Apollo voltou ao trabalho no seu computador pessoal, acompanhando de vez em quando, no monitor central da Ponte, a movimentação da Frota. Athena estava sentada na sua cama no Centro Médico. Pela primeira vez desde do acidente conseguira-o fazer sem ajuda. Aos poucos começava a sentir-se melhor, embora todo o seu lado esquerdo estivesse ainda coberto de ligaduras e lhe doesse bastante. Já se tinham passado dois sentons desde do acidente, mas a verdade é que só agora é que se começava a lembrar do que acontecera. Ela lembrava-se da sua tentativa desesperada para afastar vaivém do depósito de combustível que avançava sobre eles. No entanto ela sabia que o que os tinha salvo, tinha sido o facto de que o depósito ter apenas uma quantidade mínima de Tyllium. Se ele estivesse cheio o destino do vaivém Alpha teria sido o mesmo do vaivém escolar. " Ainda não acredito que o Boxey morreu....."- pensou ela, sentindo uma imensa mágoa ao recordar-se da criança que tinham amado como se fosse da própria família, a criança que sempre tinha visto como sendo o seu sobrinho, " Imagino o que o Apollo está a sofrer..." Ela própria sofria com a situação, de uma maneira ainda mais profunda. Embora uma voz na sua cabeça lhe dissesse que estava a ser estúpida, ela sentia que tinha falhado em algum ponto. Se ela estivesse mais atenta ao radar, talvez tivesse reparado no outro vaivém. Talvez todas aquelas crianças não tivessem morrido e o seu pai não estivesse agora em animação suspensa. Talvez........ Não se conseguindo conter mais, começou a chorar. As lágrimas corriam livremente pelo seu rosto. Na sua vida adulta, ela só tinha chorado duas vezes: na altura em que Zac morrera e quando finalmente percebera que havia perdido definitivamente Starbuck para Cassiopeia. E chorava agora porque só conseguia fazer isso. Era a única maneira que tinha de expressar o seu desgosto, o seu sofrimento. Enterrando a sua face nas mãos, continuou a chorar enquanto o seu corpo era sacudido por convulsões. Subitamente, ouviu o barulho da porta do seu quarto a abrir-se. Levantando a cabeça e tentando parar de chorar, fitou quem acabara de entrar. Junto da porta encontrava-se um homem novo, alto e de cabelo louro comprido. Apresentava-se vestido com uma longa túnica azul clara e do seu pescoço pendia uma medalha que Athena identificou como sendo uma das medalhas dadas aos membros do Conselho dos Doze. No entanto, o que mais chamava a atenção nele eram os seus olhos verdes claros. Athena tinha quase a certeza de que o conhecia de algum lado, pois lembrava-se dos olhos. - Peço imensas desculpas se vim num mau momento, mas o assunto que me traz aqui é muito importante.- disse de repente o estranho, fitando Athena. Athena apercebeu-se então de que ainda tinha lágrimas a escorrer-lhe pela face e rapidamente limpou-as com as mãos. Tentando ganhar tempo para se recompor daquele seu ataque de fraqueza, disse: - Não há problema, mas gostava de saber quem é o senhor. - Claro.... que indelicadeza a minha não me ter apresentado.- disse o outro, fazendo uma ligeira vénia na sua direcção.- Sou Sire Digor! Esse nome despertou a lembrança em Athena. À cerca de dois sectares atrás ela tinha elaborado para o Coronel Tigh um dossier com informações sobre a seita dos Filhos do Espaço. Digor era um dos seus líderes e ela tinha feito uma breve biografia dele assim como uma análise do seu carácter. - Estou a ver que me conhece.....- disse ele, sorrindo e olhando para Athena. Esta última censurou-se a si mesma por ter deixado transparecer que o conhecia. Pelos vistos esse reconhecimento devia estar estampado na sua cara, para ele se aperceber tão facilmente. - Sim, tenho que admitir que sim....- disse Athena, chegando à conclusão que o melhor era ser honesta.- Só não sabia que era um Sire. - Ahhh!- respondeu o outro, levando uma das mãos à medalha.- Isto não é nada....Fui eleito o novo representante de Aquaria. - Como assim? - A Siress Tulia morreu no vaivém escolar. Ela estava na Nave-Agrária e aproveitou a boleia para a Galactica. - Mas você não pertencia ao corpo político, como é que conseguiu essa nomeação e ainda para mais tão novo? Suspirando, com ar de quem já tinha ouvido essa questão, Sire Digor disse simplesmente: -É tudo uma questão de ter os apoios certos..... Athena raciocinou rapidamente sobre esta nova informação. Isto queria dizer, quase de certeza, que a seita dos Filhos do Espaço tinha gente no Conselho dos Doze, pois só assim é que se compreendia esta nomeação. " Quem serão?", pensou ela, "Assim que sair daqui tenho que falar com o Coronel Tigh sobre isto. Uma investigação ao Conselho seria bastante interessante......" - Mas, o que é que o trouxe aqui, Sire Digor? O que tem de tão importante para me dizer? - Indo directamente ao assunto....- começou ele a dizer, consultando o seu cronómetro pessoal antes de continuar.-.......dentro de aproximadamente 10 centons, Sire Trolius vai tentar assumir o controle da Galactica e da Frota! Ela não sabia o que é que havia de dizer perante estas notícias. Perante isso, Digor continuou: - Trolius reuniu aqui na Galactica cerca de 50 membros da Segurança do Conselho. Todos eles lhe são leais e quem os comanda é o Capitão Griffin. Griffin era extremamente conhecido por toda a Frota. Tudo começara devido a uma revolta na Nave-Prisão. À cerca de cinco yahrens atrás Baltar , farto de esperar que a Frota encontrasse uma planeta habitável onde o deixar, convencera a maior parte dos outros prisioneiros a revoltarem-se e a tomarem o controle da nave. Eles tinham conseguido esse objectivo mas por pouco tempo pois uma equipa de Seguranças do Conselho, liderada pelo então Tenente Griffin, havia conseguido infiltrar-se na Nave-Prisão. Nos confrontos que se seguiram, tinham morrido cerca de vinte e cinco prisioneiros entre os quais Baltar. Após a revolta ter sido dominada, os sobreviventes do ataque tinham acusado Griffin de ter ordenado o massacre de uma série de revoltosos que se haviam rendido. Nunca se tinha conseguido provar nada mas havia um certo sentimento na Frota de que essas alegações eram verdade. - Porque que é que me está a dizer isto a mim e não ao meu irmão?- perguntou de repente Athena.- Ele é que devia ser informado!! - Eu sei, mas a verdade é que Trolius pôs todos os membros do Conselho sob vigilância. Eu consegui escapar ao meu seguidor, mas sei que todos os caminhos que vão dar à Ponte estão vigiados assim como os sistemas de comunicação. A única coisa que me ocorreu foi vir até aqui. - Em que é que posso ajudar? - Antes de mais, tem de compreender que nem todos os membros do Conselho estão de acordo com esta revolta. Infelizmente somos uma minoria e portanto não podemos fazer nada. No entanto, formulamos um plano que talvez possa resultar e onde a senhora entra. - Sou toda ouvidos...-disse Athena, intrigada. - Como deve saber, actualmente o Conselho está sem Presidente visto que o seu pai está na situação em que está. Com toda esta situação, ainda não houve tempo para eleger o novo representante de Caprica que é aquele que normalmente assume a Presidência..... - Se não há Presidente e se não há doze membros, o Conselho não pode funcionar.- concluiu Athena, endireitando-se na cama.- Tudo o que Trolius fizer será ilegal e sem nenhum valor. - Exactamente!- respondeu Digor, acenando com a cabeça.- É claro que isso não faz muita diferença porque Trolius tem as tropas do seu lado. No entanto se nós elegermos um novo Presidente, podemos pôr do nosso lado pelo menos alguns dos outros membros do Conselho e talvez instalar a dúvida em algumas das tropas. - E em quem é que pensaram para Presidente? Tem de ser uma pessoa que seja respeitada por todos..... Soltando uma pequena gargalhada, Digor disse: - Quem melhor para esse lugar do que a filha do Comandante Adama? - Eu? - Sim, achamos que é a melhor candidata ao lugar. Foi por isso que vim aqui falar consigo.....Com a sua ajuda podemos acabar com toda esta revolta! Athena pensou seriamente sobre a proposta que lhe era feita. O que Digor dizia era bastante lógico e tinha grandes probabilidades de ter sucesso. Ela sabia que a maior parte dos membros do Conselho dos Doze respeitava o seu pai, apesar de todas as discussões e desentendimentos que haviam surgido ao longo dos yahrens. Sabia também que era bem vista por esse membros, o próprio Adama já lhe havia dito isso, pois sempre demonstrara um certo respeito pelo Conselho dos Doze, ou melhor, não o desprezava abertamente como Tigh, Apollo e muitos outros. Mas, mesmo que eles seguissem para a frente com aquele plano, ainda havia outras dificuldades. Foi exactamente essa dúvida que ela pôs a Digor. - O vosso plano parece bom, mas como é que vamos impedir que Trolius se apodere da Galactica? É que se ele o fizer, ganha automaticamente o comando da Frota e depois disso as acções passam a ser fúteis. - Nós também pensamos nisso...- começou o representante de Aquaria a dizer.- Antes de vir até aqui ao quarto, informei a Médica-Chefe Cassiopeia da situação e pedi-lhe para que ela informasse o seu marido e o resto da Esquadrilha Azul. - Só estão cá eles? Onde estão as outras Esquadrilhas? - Estão a acompanhar a deslocação da Frota. Acho que foi exactamente pelo facto de estarem cá poucos Guerreiros que Trolius se decidiu a actuar. - Espero que eles sejam suficientes para aguentar os Seguranças.- disse ela, enquanto fazia uma prece silenciosa para que nada de grave acontecesse aos Guerreiros, especialmente a Starbuck. Ficou admirada consigo mesmo por causa desse últimos pensamento, pois pensava que já tinha ultrapassado essa fase. Afastando tudo isso da cabeça, levantou-se da cama e dirigiu-se para o pequeno armário existente no quarto. Tal como esperava alguém tinha ido aos seus aposentos buscar uma farda nova. Voltando-se para Digor disse: - Se não se importar de sair do quarto, eu mudo de roupa e podemos ir já tratar dos nossos assuntos. Sire Digor ficou extremamente vermelho, murmurando: - Claro, claro.....peço imensas desculpas.....- e com estas palavras saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Athena sorriu perante a situação, especialmente por causa do embaraço do político, que não passava ainda de um rapaz de 19 yahrens. O seu sorriso foi rapidamente substituído por um trejeito de dor no momento em que se começou a despir. O lado esquerdo do corpo doía-lhe terrivelmente e ela tinha a certeza que por debaixo das ligaduras estava cheia de nódoas negras. Vestiu a sua farda azul cuidadosamente mas mesmo assim ainda teve de parar uma ou duas vezes por causa das dores. "Vamos lá!", disse ela para si mesma, após estar pronta. Segurando-se por momentos à parede avançou até junto da porta, abrindo-a de seguida. Digor avançou rapidamente na sua direcção. - Está tudo bem??- perguntou ele ao ver a cara de Athena. Esta estava totalmente pálida e era nítido que ela estava com dores. Fitando-o nos olhos e fazendo de conta que nada se passava Athena respondeu: - Sim. Podemos ir ter com os seus colegas! Digor fingiu aceitar essa afirmação, não insistindo mais - Sendo assim, vamos andando. Eles estão aqui perto, numa sala de reunião. Athena acenou afirmativamente com a cabeça, não se sentindo com forças para falar. As dores estava a aumentar aos poucos, mas ela decidiu ignorá-las. Os dois puseram-se a caminho até que a certa altura ele disse: - Apoie-se a mim!! Sem dizer nada, Athena assim fez, grata pela ajuda. Digor adaptou-se rapidamente a suportar o peso dela e rapidamente puseram-se a caminho da reunião. O tempo estava a contar. Starbuck não sabia o que fazer. Cassiopeia tinha aparecido na sala dos pilotos, interrompendo um jogo de Pirâmide e acordando muito dos Guerreiros da Esquadrilha Azul. O aviso que ela trazia era no mínimo preocupante, para não dizer mesmo ameaçador. Assim que o tinha ouvido, o Capitão tinha mandado dois Guerreiros investigar se era possível chegar à Ponte. Passados alguns centons, eles tinham voltado com notícias. Os principais corredores que iam ter à ponte estavam já bloqueados por Seguranças, com equipamento completo de combate. Os Guerreiros tinham metido conversa com os ditos Seguranças, perguntando qual a razão para eles estarem ali e eles haviam respondido que estavam a participar num exercício, ordenado pelo Comandante Apollo. Não querendo insistir mais e levantar suspeita, os Guerreiros tinham-se despedido e regressado à sala dos pilotos. Antes de virar a esquina, um deles tinha olhado para trás, a tempo de ver um dos Seguranças a falar para um aparelho de comunicação. - Provavelmente já estão com suspeitas!!- disse Starbuck ao ouvir essa parte do relato dos seus "espiões". Os Guerreiros que estavam reunidos à sua volta, acenaram com a cabeça em concordância. - E agora, o que fazemos?- perguntou um deles. - Não faço a mínima ideia!- respondeu Starbuck com toda a sinceridade, enquanto acendia um dos seus habituais fumarellos, perante o olhar reprovador de Cassiopeia.- O mais lógico seria mandar uma mensagem para a Ponte, mas aparentemente as comunicações dentro da Galactica estão sob vigilância. - Exactamente.- interveio Cassiopeia.- Segundo o que me disse Sire Digor, os revoltosos tomaram têm-nas sob escuta. Qualquer aviso para a Ponte apenas iria desencadear o ataque mais cedo..... - Tem de haver maneira de os avisar!!!- disse o Sargento Greenbean.- Se não os avisarmos eles não têm a mínima hipótese de resistir a um ataque!! - E se os revoltosos tomam a Ponte, dominam a Galactica.- acrescentou outro Guerreiro. - Alguém tem uma ideia de como o fazer?- perguntou o Capitão, entre baforadas do seu fumarello. De imediato surgiram inúmeras vozes, propondo os mais variados planos, passando por aqueles que pretendiam que alguém se enfiasse nas condutas de ventilação e rastejasse até à Ponte ou por aqueles outros que apenas sugeriam um ataque frontal aos Seguranças. - Assim, não vamos lá!!- berrou de repente Cassiopeia, pondo alguma ordem na discussão que se estava a dar. Depois de consultar o seu cronómetro prosseguiu:- Dentro de aproximadamente doze centons o ataque vai começar, portanto o melhor é arranjarmos uma ideia depressa! "Quem me dera que o Boomer estivesse aqui", pensou Starbuck para si mesmo, enquanto ouvia a sua mulher," De certeza que ele já tinha pensado em algo!! - Se ao menos fossemos mais!!!!- disse o Sargento Jolly , desalentado. - Se houvesse outras Esquadrilhas em prevenção, de certeza que chegávamos à Ponte!! Ao ouvir isso, Starbuck teve uma ideia. A solução para os problemas deles era óbvia e no entanto nenhum dos Guerreiros tinha pensado nela. - Atenção, ouçam-me!!!!- disse ele, apagando o seu fumarello num cinzeiro pousado na mesa onde estava e batendo palmas para chamar a atenção. Aos poucos os Guerreiros foram-se calando e então ele prosseguiu: - Já que o sistema interno de comunicações da nave está sob escuta, fazemos o aviso de outra forma.... - Como?- perguntou de imediato alguém. - Através do comunicador de um dos Vipers.- disse Starbuck.- Só temos que ir até um dos Vipers que está na Baia de Lançamento Alpha e avisar o Núcleo de Comando! As comunicações dos Vipers não podem ser interceptadas. É simples! Os Guerreiros concordaram com a ideia e de imediato surgiram inúmeros voluntários para essa missão. Starbuck escolheu o Sargento Greenbean e outros três Guerreiros para irem até à Baía Alpha. Eles deviam tentar ser o mais discretos possíveis e não entrar em confronto com os Seguranças. Se tal acontecesse, deveriam tentar isolar a Baia Alpha do resto da Galactica e resistir o maior tempo possível, com a ajuda dos técnicos de voo. Depois dos quatro Guerreiros partirem, Starbuck consultou o seu cronómetro de pulso. - Daqui a cinco centons o ataque vai começar. Mesmo que o grupo do Greenbean consiga fazer passar o aviso a tempo, a Ponte vai precisar da nossa ajuda. Nós temos que ir para lá!! Todos os presentes na sala compreendiam o significado das palavras do Capitão. Aquela batalha era muito diferente daquelas a que eles se tinham habituado a travar, mas talvez fosse das mais importantes. As faces deles reflectiam a sua determinação. A Ponte da Galactica não podia cair nas mãos do inimigo. - Vamo-nos organizar em quatro grupos de cinco.- prosseguiu Starbuck, após ver a reacção dos pilotos.- Vejam todos se tem carga suficiente nas vossas pistolas antes de sairmos!! Após dizer isto o Capitão fez isso mesmo, enquanto recitava uma pequena prece que tinha aprendido em criança. "Só espero que isto corra bem........", pensou ele antes de se virar para a sua mulher. - Tu ficas aqui, está bem?- perguntou. - Está.....- murmurou Cassiopeia, tentando esconder as lágrimas que lhe surgiam nos seus olhos. Vendo isso, Starbuck beijou-a de leve nos lábio, dizendo depois: - Não te preocupes!! Lembra-te da minha sorte....vais ver que tudo vai correr bem!! A sua mulher esboçou um sorriso, enquanto limpava as lágrimas dos olhos, nada dizendo. Starbuck beijou-a mais uma vez e de seguida fez um sinal para o resto dos pilotos. - Muito bem, vamos embora!!! Com as armas nas mãos, os Guerreiros saíram da sala em grupos de cinco, tal como o Capitão tinha ordenado. Assim que a porta se fechou após a saída do último piloto, Cassiopeia deixou-se cair num dos beliches existentes na sala, preparando-se para esperar. - Só espero que tenhas razão, Starbuck.....- disse ela para a sala vazia.- Só espero que tenhas razão........ - Comandante, a última nave de abastecimento acaba de passar pela abertura. As Esquadrilhas Vermelha e Verde estão agora em posição.- disse o Oficial de Voo Omega. - Muito bem, mande avançar as naves de passageiros!!- disse Apollo, levantando os olhos do relatório que estava a ler e olhando para o seu interlocutor.- Assim que a última entrar, mande a Esquadrilha Lança de Prata fazer uma pesquisa ao espaço atrás de nós. - Sim, senhor!!- respondeu o oficial, fazendo continência e dirigindo-se para o seu posto. Apollo voltou de novo a sua atenção para o relatório. Este último era a compilação dos dados recolhidos pelos sensores da Esquadrilha Vermelha em relação aquilo que existia para além da cintura de asteróides. O único pormenor que parecia importante era a existência de alguns corpos celestes no limite dos sensores. Não havia ainda dados suficientes para os identificar, mas talvez algum deles fosse um planeta. - Assim que passarmos para o outro lado, vou lançar uma patrulha de longo alcance em direcção aqueles corpos!- disse Apollo para o Coronel Tigh, que tinha regressado dos seus aposentos à cerca de trinta centons e que se encontrava junto da balaustrada do Posto de Comando, olhando para a Ponte debaixo de si. Virando-se para trás, o Coronel disse: - Achas que a Terra é ali? - Não....Se o sistema da Terra fosse aquele, de certeza que já teríamos captado alguma coisa...... - A não ser que eles ainda estivessem numa fase muito primitiva.....- argumentou Tigh, reflectindo a opinião de uma pequena minoria de Coloniais. - Se for assim, temos de continuar a viagem.....- disse Apollo, enquanto rezava para que tal não acontecesse. O Coronel riu-se e disse: - Aposto que os Filhos das Estrelas iam gostar de ouvir isso, especialmente vindo da boca do Comandante. - É uma opção se o planeta Terra não for o que esperamos....... Apollo foi interrompido por um dos monitores da secretária que se ligou de repente. - Comandante, acho que é melhor o senhor ver isto!- disse a Oficial Rigel, - Estamos a receber esta mensagem do hangar existente na Baía Alpha!! - Muito bem, passe-a para aqui, por favor. - Sim, senhor!- respondeu Rigel, desligando de seguida. Apollo levantou-se, dirigindo-se para junto do Coronel Tigh. Passados alguns microns, o mapa táctico da movimentação da Frota foi substituído pela imagem do rosto do Sargento Greenbean. - Que se passa, Greenbean?- perguntou Apollo, na direcção do monitor. Era evidente que o Sargento estava na cabine de um Viper equipado com o novo sistema de comunicação visual e que algo o preocupava. - Comandante, não tenho muito tempo para explicar, mas isole a Ponte de imediato!!! Repito, isole a Ponte pois está prestes a ser atacado!!!!- disse Greenbean, num tom de voz nervoso. - Como??- disse Tigh, incrédulo.- Isto é alguma brincadeira? - Sim, que história é essa???- insistiu Apollo, não acreditando ainda no que tinha ouvido. - A Ponte deve estar prestes a ser atacada!!!- berrou o Sargento, perdendo toda a compostura.- Nós já fomos atacados a caminho daqui e agora estamos a barricar o hangar!! - Mas por quem??- perguntou o Comandante. - Por Seguranças do Conselho!!! Perante estas palavras e com um sentimento cada vez maior de receio, Apollo ordenou a Omega que projectasse noutro monitor as imagens das cámeras existentes ao longo do corredor de acesso à Ponte. A imagem do monitor dividiu-se quase de imediato em dois, aparecendo no lado direito um mosaico de imagens. Nesse mosaico via-se perfeitamente um grande grupo de soldados, vestidos de negro e com o equipamento completo de combate, a dirigirem-se para a Ponte. - Não acredito......- murmurou Tigh. Sem precisar de olhar outra vez para as imagens, o Comandante desceu do Posto de Comando e dirigiu-se para junto da porta de entrada que se encontrava fechada. Abrindo um painel na parede, Apollo baixou a alavanca ali existente e de imediato uma pesada porta começou a descer do tecto. Com um estrondoso ruído metálico, a Ponte ficou separada do corredor por duas portas, sendo a segunda feita da mesma blindagem que protegia o casco da Galactica. - Isto deve aguentá-los!!!- disse Apollo para o Coronel e para a espantada tripulação da Ponte.- Agora vamos mas é preparar a nossa defesa!! Subindo para o Posto de Comando, Apollo dirigiu-se de novo para Greenbean: - Vocês conseguem aguentar a Baia? - Para já acho que sim....- respondeu o Sargento.- Alguns dos técnicos tiveram umas boas ideias para nos defendermos.... - Muito bem.....façam por isso!! Nós precisamos dessa Baia para receber reforços!! - Sim, senhor!!! - E, Greenbean.......bom trabalho!!!- disse Apollo, antes de desligar a comunicação. - Quais reforços??- perguntou então Tigh.- As Esquadrilhas Verde e Vermelha estão do outro lado e a Lança está a vigiar a nossa retaguarda..... - A Nave da Academia ainda está connosco!!! Tigh percebeu de imediato em que é que Apollo estava a pensar. Na dita Academia encontravam-se cerca de 30 Cadetes e também uma grande quantidade de armas pessoais. E, para além disso, havia também os próprios instrutores entre os quais se encontrava o Coronel Croft, perito em missões de alto risco, como tinha demonstrado em Arcta. - Eles vão-se arrepender do que fizeram......- disse simplesmente Apollo, antes de dar ordens para que entrassem em contacto com a Academia.- Eles vão-se arrepender..... Capítulo 6 O barulho da porta de segurança da Ponte de Comando a fechar-se foi ouvido por todo o corredor. Sire Trolius que seguia nessa direcção, escoltado por uma série de Seguranças, teve ainda tempo de a ver descer, selando a Ponte de Comando. - Como é que isto é possível????- berrou ele de imediato para o Capitão Griffin, que o acompanhava.- Pensei que tínhamos o elemento da surpresa???? - Aparentemente, já não o temos.....- respondeu simplesmente o oficial. - Alguém conseguiu avisar a Ponte. - Se não conseguirmos tomar a Ponte, estamos perdidos!!!- berrou novamente Trolius, gesticulando com os braços nervosamente. Ele havia apostado tudo naquele golpe, a sua fortuna, a sua carreira política e mesmo a sua vida.- O que vamos fazer??? Griffin nada disse, limitando-se a fitar Trolius. O Capitão tinha um enorme desprezo pelo Sire e estava a esforçar-se para não o demonstrar. Era óbvio que o político estava cheio de medo agora que via os seus planos cuidadosamente feitos a desfazerem-se em pó. Griffin sabia que devia estar grato a Trolius pois tinha sido este que o tinha ilibado aquando do inquérito sobre a sua actuação na Nave-Prisão. É claro que tal acto tinha segundas intenções, pois o que o membro do Conselho queria era ter alguém nos militares que o apoiasse no seu próprio motim. O chefe dos Seguranças do Conselho não passava de um simples "empregado" do Sire. A determinada altura, Griffin havia pensado em denunciar toda a conspiração e assim melhorar a sua imagem, mas rapidamente tinha mudado de ideias. Ele sabia que estava marcado para sempre e nada do que fizesse iria mudar a opinião que as pessoas tinham dele. Aos poucos começou a convencer-se de que talvez o plano resultasse e se assim fosse, os Guerreiros da Galactica seriam derrotados e humilhados. Ele, como quase todos os Seguranças nutria um ódio natural pelos Guerreiros e por tudo aquilo que eles representavam. No entanto o seu ódio era diferente. Ao contrário da maior parte dos outros Seguranças, Griffin não tinha sido rejeitado pela Academia de Caprica. Pelo contrário, ele até tinha sido um dos primeiros candidatos a ser aceites nessa grandiosa instituição que tinha sido o centro de instrução de todos os Guerreiros das Doze Colónias. No entanto, num gesto quase impulsivo, Griffin acabara por se alistar no Colégio Militar de Caprica, uma instituição que era repudiada por quase toda a gente. O Colégio representava uma vertente das Forças Militares Coloniais totalmente diferente da Academia. Enquanto nesta última se treinavam os futuros Guerreiros, os jovens pilotos e oficiais da Frota Colonial, o Colégio treinava os seus instruendos nas tácticas da guerra terrestre. É claro que numa civilização em que se dava ênfase aos voos espaciais e à guerra nos ares e no espaço, qualquer pessoa que se formasse no Colégio era mal vista. Griffin, ao inscrever-se lá, sabia perfeitamente o que as pessoas pensavam. Mas mesmo assim fê-lo, embora não sabendo bem porquê. Talvez fosse um último insulto à memória do seu pai, um antigo Comandante da Frota Colonial com quem ele nunca se dera. Durante os anos em que estudara lá, sofrera constantemente as provocações dos Cadetes da Academia que, nas suas folgas, iam para as imediações do Colégio para se meterem com os alunos de lá. As lutas entre esses dois grupos eram constantes e ele ainda se lembrava da quantidade de vezes em que utilizara os seus punhos na cara de futuros Guerreiros. Tinha que admitir que começara a orgulhar-se desses confrontos e da fama com que ficara no Colégio e na própria Academia. Aos poucos tinha associado a imagem de Guerreiros à imagem de fracos e de cobardes que apenas sabiam lutar com a blindagem das suas naves a protegê-los. Após terminar o seu curso no primeiro lugar da sua classe, havia prestado serviço no Centésimo-Terceiro Destacamento Militar de Caprica, uma unidade com uma distinta história que remontava à fundação dessa colónia. Lutara numa série de planetas, quase sempre por trás das linhas inimigas, destruindo bases, postos de comunicação e de vigilância e depósitos de combustível, entre outras coisas. Ele e todos os seus companheiros de armas sentiam uma certa superioridade em relação aos Guerreiros pois combatiam em locais onde estes últimos nunca se arriscariam a não ser que fossem obrigados. Para além do mais, a Frota Colonial parecia apenas acumular derrotas, recuando cada vez mais na direcção das Colónias, sinal evidente de que o espaço controlado pelas Tribos era cada vez menor em relação ao espaço controlado pela Aliança Cylon. Esse sentimento de incompetência tornara-se ainda mais forte após o Armistício e o subsequente Holocausto. A unidade de Griffin estava de serviço em Caprica na altura em que os Cylons tinham lançado o seu ataque sobre as Colónias. Tinham assistido, totalmente impotentes, à destruição da Cidade de Caprica e ao massacre da maior parte da sua população pelos ataques aéreos dos Cylons. Griffin e os seus companheiros tinham chegado a lutar contra os Cylons no próprio solo de Caprica, defendendo o porto espacial onde os sobreviventes se juntavam para embarcar em direcção a Galactica e aos sobreviventes das outras Colónias. Nesse senton ele perdera a conta de quantos Cylons matara, embora nunca pudesse esquecer o que vira. Passados sete yahrens os pesadelos continuavam a perseguí-lo, fazendo com que acordasse constantemente banhado em suores frios e a gritar. Os Cylons tinham aterrado nas imediações do porto, aumentando o pânico e o desespero das pessoas que tentavam entrar nas naves. Griffin e uma série de soldados tinham avançado pelo meio da turba que corria em sentido contrário, na direcção da pista. As pessoas corriam agarradas aos parcos haveres que tinham retirado dos seus lares destruídos, mães levavam ao colo os seus filhos pequenos, idosos tentavam aguentar o ritmo da debandada, muitas vezes não o conseguindo e sendo impiedosamente empurrados para o lado ou mesmo espezinhados se tivessem o azar de cair. Pelo meio dos berros dos adultos, do choro das crianças e do rugido dos motores dos transportes que partiam, Griffin tinha ouvido nitidamente o barulho de armas lasers a serem disparadas. Era o som profundo feito pelas armas pessoais dos Centuriões Cylon. Á medida que se aproximava do fim da coluna, ele começara a ver as luzes vermelhas emitidas pelos capacetes dos Cylons e as explosões de luzes feitas pelas armas. O cenário era dantesco e ficaria para sempre marcado na sua memória. Cerca de cinquenta Centuriões ocupavam a estrada que conduzia ao porto em toda a sua largura, encostados ombro-a-ombro e avançando a passos largos. Com uma eficiência mecânica iam disparando, abatendo tudo à sua frente sem qualquer tipo de piedade. Griffin levara a sua arma ao ombro e começara a disparar sem hesitações, berrando de raiva perante a cena. Os soldados que o acompanhavam rapidamente tinham feito a mesma coisa, lançando uma barreira de fogo laser contra os Centuriões, enquanto que os últimos elementos da coluna de sobreviventes passavam pelo meio dos militares coloniais. No entanto nada parecia parar os Cylons. Sempre que um Centurião era abatido, eles limitavam-se a cerrar fileira e continuavam a avançar. Griffin vira os seus companheiros caírem um a um enquanto recuavam em direcção á pista, nunca deixando de fazer fogo sobre os invasores. No fundo da estrada, por trás da primeira linha de Cylons que avançava pelo meio dos humanos mortos, surgiu outra linha de Centuriões que rapidamente começou a avançar. Ele sabia que tudo estava perdido. Sem olhar para trás começou a correr na direcção da pista, onde cerca de uma centena de pessoas ainda se acotovelavam para entrarem no último transporte. Entre a pista e a estrada estavam agora montadas uma série de barricadas, improvisadas com peças de mobiliário dos edifícios administrativos do porto e com alguns veículos, atrás das quais se abrigava o que restava do Destacamento. Na altura em que se preparava para saltar para trás de uma das barricadas, Griffin sentiu uma espécie de empurrão nas costas que o projectou no ar. A sua armadura não tinha conseguido dissipar toda a força do disparo que o tinha atingido e ainda agora tinha a cicatriz que provava isso. Após ter sido atingido, ele apenas se lembrava claramente de ter caído no solo, já do outro lado da barricada e no meio dos outros soldados. O resto eram lembranças vagas e enevoadas pela dor: o som dos disparos das espingardas lasers e os gritos dos seus colegas; alguém a pegar nele pelos colarinhos da armadura e a arrastá-lo; a sua cara a bater no chão duro da pista; o rugir dos motores do transporte a ficar cada vez mais alto, uma série de mãos a levantá-lo e depois a puxarem-no para dentro da porta aberta do transporte; o choro de uma criança, o trepidar da nave á medida que começava a levantar voo na vertical e, finalmente, antes da escotilha se fechar, uma vaga de pontos prateados com luzes vermelhas a rodear e a ultrapassar as barricadas. O seu último pensamento, antes de cair na inconsciência total, foi de que aquilo tudo era culpa dos Guerreiros e da maldita Frota que tinham deixado indefesas as Colónias. Quando acordara, estava no Centro Médico da Galactica, deitado numa maca num corredor apinhado de gente que apresentava os mais diversos ferimentos. Alguém lhe tinha tirado a parte superior da armadura e do seu uniforme, pondo-as debaixo da sua cabeça, fazendo assim uma almofada. Levando uma das mãos ao sítio onde tinha sido atingido, sentiu uma ligadura que tapava o ferimento. Vendo que não tinha dores, levantou-se e começou a avançar pelo meio da multidão de feridos. O que mais o impressionou é que quase ninguém falava. A maior parte das pessoas limitava-se a olhar para o vazio, fitando as paredes azuis do Centro Médico sem estarem realmente a vê-las. Griffin não conseguira ir muito longe pois fora "interceptado" por um Ajudante Médico que, vendo que ele já conseguia andar, o tinha posto a ajudar os feridos em pior estado. Ao longo desse senton, falando com o pessoal do Centro, tinha descoberto que já tinha passado meio sectar desde do Holocausto. Ele tinha estado em animação suspensa durante alguns sentons enquanto as máquinas médicas tratavam dos seus ferimentos o melhor possível. Logo que não fora mais preciso, Griffin saíra do Centro e vagueara pela Galactica, evitando ser deslocado para qualquer uma das outras naves da Frota. A sua mente trabalhava furiosamente com planos de vingança contra os Guerreiros. É claro que aos poucos começou a sentir que não havia nada que pudesse fazer para os pôr em prática e assim foi abandonando-os. No entanto, na altura em que o Conselho dos Doze criara o seu corpo de Seguranças, ele sentira uma nova esperança. Era por isso que agora estava ali, a ter que ouvir os protestos patéticos de Sire Trolius. - Ouviu o que eu perguntei????- disse este último, espetando um dedo no uniforme do Capitão.- O que fazemos agora????? O chefe dos Seguranças teve que se conter para não partir o dedo ao político e de seguida enfiar-lhe um tiro na cabeça. Limitou-se a afastar o dedo acusador do seu peito e disse, num tom de voz calmo: - Agora, utilizamos o nosso trunfo secreto.....É a única maneira de termos acesso à Ponte! - E se não resultar??- perguntou Trolius, que parecia ter captado alguma da hostilidade do Capitão, começando a suar profusamente. - Se não resultar, arranjamos outro refém. E se for preciso vamos arranjando reféns até eles abrirem a porta da Ponte!!! Tirando um lenço de um dos bolsos da sua veste, o Sire limpou o suor da sua testa. - Espero que isso resulte......espero que isso resulte....- murmurou ele. Antes que Griffin pudesse esboçar uma resposta, o som de uma série de disparos fez-se ouvir, vindo de um dos corredores de acesso ao corredor principal onde eles se encontravam. "Só me faltava esta!!!", pensou o Capitão para si mesmo. Sacando da sua arma pessoal , virou-se para Trolius e disse: - Fique aqui!! Eu vou ver o que se passa. Sem esperar pela resposta, ordenou a três Seguranças que o acompanhassem e dirigiu-se com todo o cuidado para o local de onde vinha o som de disparos. Starbuck perguntou a si mesmo por onde andaria a sua sorte. Seguindo as suas ordens, os Guerreiros haviam-se separado em quatro grupos de cinco e dirigido-se para o corredor secundário que dava acesso ao corredor da Ponte. A princípio tudo parecia estar a correr bem pois, ao contrário do que tinha acontecido a alguns centons antes, não havia Seguranças aí presentes. Os quatro grupos tinham avançado lentamente, quase que colados às paredes metálicas. E de repente, sem nenhum aviso prévio, um grupo de cinco Seguranças tinha aparecido no extremo contrário do corredor. Todos tinham ficado espantados a olhar uns para os outros, até que o "feitiço" fora quebrado por um dos "Camisas Negras" que levantara a sua arma na direcção dos Guerreiros. O homem ao lado de Starbuck não havia hesitado, disparando quase que à queima-roupa contra o grupo de Seguranças. Um deles caiu de imediato, fuzilado pelos tiros certeiros do Guerreiro, mas os outros recuaram, disparando desordenadamente na direcção dos homens comandados por Starbuck, que tiveram que se baixar. O Capitão viu outro dos Seguranças cair, ainda antes de atingir a esquina, atingido em cheio nas costa por um disparo. E foi nessa altura que ele se apercebeu que tinha de tomar uma decisão. Com o corredor livre e com os Seguranças em fuga, a lógica ditava que ele mandasse os seus homens avançar. Mas e se ao virar da esquina estivessem mais "Camisas Negras"? Tudo estaria perdido e os revoltosos poderiam assaltar a Ponte sem nenhuma oposição. Para piorar tudo, o seu instinto dizia-lhe para não avançar. Aquela "sensação" que tantas vezes o havia salvo em combate, estava agora a dizer-lhe para não avançar. "Que raios, pelo menos uma vez na vida vou fazer o que a lógica diz!!!", pensou Starbuck para si mesmo, antes de se erguer e dizer para os restantes Guerreiros: - Muito bem, vamos avançar até ao corredor principal!! Estejam atentos!! Após dizer isto, avançou rapidamente à frente dos outros, de arma erguida, rezando uma pequena prece para que, naquele caso, os seus famosos palpites estivessem errados. O soldado Kort do Corpo de Segurança do Conselho, corria pelo corredor principal agarrando a sua espingarda laser com toda a força. Atrás de si ouvia os passos dos outros dois elemento da sua patrulha, ou melhor, do que restava da sua patrulha, pois eles haviam encontrado um grupo de Guerreiros no corredor lateral que deviam estar a patrulhar. - Eles vêem ai?- perguntou ele aos seus companheiros, sem se virar para trás nem abrandar o ritmo. - Acho que não......- começou a dizer o soldado Aria, lançando um rápido olhar na direcção da qual se afastavam. Mal acabou de dizer isso, um raio passou ao seu lado, embatendo numa parede. Lançando um novo olhar, viu um Guerreiro de cabelo louro no corredor atrás dele e de seguida viu surgir uma série de outros homens, vindo do corredor lateral. Virando-se para a frente, acelerou o passo, berrando: - Afinal, o melhor é corrermos!! Kort seguiu o conselho do colega, maldizendo o dia em que tinha aceite alinhar naquele golpe. Tinha-o feito por causa daquilo que os seus superiores tinham prometido a todos aqueles que participassem na revolta: licenças mensais vitalícias na Rising Star e também novos alojamentos, numa nave da Frota à escolha. Isto podia parecer pouco, mas para pessoas que, tal como ele, estavam à quase sete yahrens enfiados numa nave decrépita, essa oferta era mais que tentador, era uma verdadeira dádiva dos Senhores de Kobol. Ele estava tão imerso nos seus pensamento que nem se apercebeu do barulho dos passos que vinham na sua direcção, vindos da direcção da Ponte. Assim, foi apanhado totalmente de surpresa quando, ao virar uma esquina, embateu em cheio num grupo de Seguranças, comandado pelo Capitão Griffin. - Meu Capitão........- disse Kort, fazendo uma rápida saudação, esquecendo o desejo de fugir. A fama de Griffin era conhecida por todos os Seguranças e era mais temível do que aquela que os seus perseguidores tinham. - Vem aí uma série de Guerreiros, atrás de nós!! Endireitando a sua farda negra, Griffin olhou para os três Seguranças que lhe tinham surgido à frente. Via-se nitidamente que tinham estado a correr pois o suor escorria-lhes livremente pelas faces. Mas não era só isso que se via. Griffin sentia um "cheiro" que lhe era bastante familiar, o "cheiro" a medo. O medo, aquela força capaz de transformar mesmo o mais poderosos dos Homens numa criança amedrontada. Ele vira isso acontecer inúmeras vezes e nunca conseguira disfarçar o seu desprezo por quem tinha essas fraquezas. Perante a impassividade do Capitão, o soldado Aria insistiu: - O corredor atrás de nós está cheio de............- o Segurança não conseguiu acabar a sua frase pois o punho do Capitão acertou-lhe em cheio na cara, fazendo-o recuar vários passos e largar a arma. Todos os Seguranças ali presentes assistiram boquiabertos à cena. Aria, agarrado ao nariz que sangrava abundantemente, não sabia o que havia de dizer ou fazer. Os seus olhos arregalaram-se de medo ainda mais ao ver Griffin pegar na espingarda que ele havia deixado cair. Por momentos todos pensaram saber o que iria acontecer: o Capitão iria abater a sangue-frio o soldado. No entanto, Griffin limitou-se a pegar na arma e verificar o pequeno mostrador digital que indicava a carga energética. Vendo que a espingarda estava totalmente carregada, atirou-a com força contra Aria que atabalhoadamente a agarrou. De seguida, Griffin aproximou a sua face à do aterrorizado Soldado e disse simplesmente. - Tu e os teus dois amigos, vão dar meia-volta e vão combater. Quero lá saber que o corredor esteja cheio de Guerreiros ou de daggits. A mim tanto me faz...... - fazendo uma pausa e fitando ainda com mais ferocidade Aria, Griffin continuou. - Não aceito desculpas. A tua espingarda tem carga suficiente para 80 tiros e isso deve ser suficiente para matares mais do que um Guerreiro!! Virando-se depois para os outros dois membros da patrulha disse, no mesmo tom de voz: - Isto aplica-se a vocês os dois!! Só voltem quando não tiverem mais cargas para as armas. Entendido? - Sim, senhor!!- berraram de imediato os dois soldados. Aria rapidamente juntou a sua voz a dos seus colegas, agarrando com força a sua espingarda e ignorando o sangue que lhe escorria livremente pela face. Por iniciativa própria e sem mais palavras, os três dirigiram-se para o local onde tinham visto os Guerreiros pela última vez. Griffin viu-os afastarem-se até desaparecerem numa das inúmeras esquinas que haviam naquele corredor. Fitando o seu relógio, viu que tinha perdido cerca de dois centons com tudo aquilo. O facto dos Guerreiros entretanto não terem chegado ali, era um indício de que iriam avançar com cautela visto que não sabiam com que oposição podiam contar. Isso dava-lhe tempo para organizar uma defesa melhor e também capturar a Ponte. Tinha a certeza de que isso seria fácil a partir do momento em que Apollo visse quem ele tinha como refém. Com um sorriso nos lábios, virou-se para os três Seguranças que o tinham acompanhado desde das imediações da Ponte e ordenou-lhes que guardassem aquela parte do corredor. Qualquer pessoa que viesse da direcção contrária da Ponte deveria ser morta. As ordens eram para disparar primeiro e fazer perguntas depois - E se for algum daqueles três de a bocado?- perguntou um deles, um Sargento que conhecia Griffin desde que este tinha assumido o comando do Corpo de Seguranças. - Matem-no, é claro! O Corpo não precisa de cobardes!!- sem mais palavras Griffin afastou-se na direcção da Ponte. Apollo fez girar a cadeira onde estava sentado, fitando os três monitores existentes no Posto de Comando. Um mostrava um pequeno mapa com as posições estimadas das naves da Frota no outro lado do campo de asteróides. Os outros dois estavam inactivos e isso preocupava o Comandante, pois, após selar a Ponte, havia ordenado que um deles fosse sintonizado na frequência da IFB e outro na frequência interna da nave. Era nesse último monitor que ele esperava ver aparecer a cara dos revoltosos, provavelmente a exigirem-lhe que abrisse a porta da Ponte. - Apollo, o vaivém da Academia acaba de atracar na Baía Alpha.- disse de repente o Coronel Tigh, interrompendo os pensamento de Apollo. - Espero que Croft entre em contacto em breve......- acabou o Comandante por dizer, fazendo uma pausa antes de continuar: - ....Qual é a situação do resto da Frota? Tigh consultou os seus apontamento no computador portátil, que era constantemente actualizado com os dados recolhidos pelos sensores da Galactica, respondendo após alguns microns: - Só nós, a nave da Academia e as naves da Esquadrilha Lança de Prata, é que ainda estamos deste lado do campo. - As naves de passageiros? - A última entrou na passagem à cerca de quinze centons. Daqui a cerca de outros quinze sairá de lá. - Muito bem!- disse Apollo, fitando de novo os monitores ainda à espera que algum dos revoltosos o contactasse. - Como é que está a patrulha da Lança de Prata? - Segundo a última comunicação o sector atrás de nós está livre. O único problema é que o primeiro campo de asteróides está a afecta-lhes o alcance e definição dos sensores. - Mesmo assim, se algo passar por ali, seremos avisados..... - Exactamente!- retorquiu Tigh que hesitou um pouco antes de abordar o assunto seguinte: - Apollo, a Capitã Sheba, começou a perguntar à alguns centons atrás se há algum problema na Galactica..... - Continuem a dizer que não há problema nenhum. Só em último caso é que podemos pedir para que as Esquadrilhas voltem para nos ajudar. - E se ela pedir para falar contigo? - Digam que eu fui fazer uma inspecção à nave...... - Sim, senhor!- respondeu Tigh que fazia uma ideia do que Apollo devia estar a sofrer por estar a mentir daquela maneira à sua amada. A verdade é que não se podia fazer outra coisa. Se as Esquadrilhas soubessem que havia problemas na Galactica quase que de certeza que iriam tentar ajudar de alguma maneira. Ao fazer isso, iriam deixar o resto da Frota sem protecção e isso não podia acontecer. - Comandante! Temos problemas!- disse de repente o Oficial de Voo Omega, dirigindo-se para o Posto de Comando.- Acabamos de perder a Casa das Máquinas. - Frack....- murmurou Apollo. Logo após ter selado a porta da Ponte tinha sido emitido um aviso para a Casa das Máquinas, mas a verdade é que pouco havia a fazer pois ao contrário dos hangares que estavam constantemente cheios de técnicos de voo, mecânicos e outros tripulantes, a zona dos motores era apenas assistida por meia dúzia de técnicos. Perante o aviso da Ponte de Comando eles tinham-se fechado dentro da Casa das Máquinas, mas a verdade é que sem armas nada podiam fazer e a própria porta de acesso era de fácil abertura.- Os revoltosos agora podem parar a Galactica, se assim quiserem..... - Apollo, o Coronel Croft acaba de chegar ao hangar com os seus instruendos e quer falar contigo!- interveio Tigh, passando a comunicação para um dos monitores do Posto. Soltando um suspiro de resignação pelo que viria a seguir, Apollo fitou o monitor, esperando por Croft. As conversas entre os dois acabavam quase sempre em discussões, começadas pelo Coronel. Os feitios dos dois Guerreiros era totalmente diferente e isso só trazia problemas. - Então, ouvi dizer que precisa da minha ajuda, Capitão Apollo.- disse Croft, mal apareceu no monitor. Pela maneira como tinha começado a conversa era óbvio que aquela era uma daquelas ocasiões que iria acabar em discussão. - Coronel, quero lembrar-lhe que se está a dirigir ao Comandante da Galactica!- interveio Tigh, que também não suportava as maneira arrogantes de Croft.- Exijo que mostre o respeito devido...... Apollo interrompeu Tigh com um gesto da mão, dizendo de seguida para o monitor. - Coronel, eu sei que já tivemos as nossas diferenças no passado, mas a verdade é que agora a Galactica precisa da sua ajuda. - Se você e o seu pai tivessem ouvido os meus conselhos sobre a segurança na Galactica, em vez de me terem enfiado naquela lata voadora a que chamam Academia, talvez a situação agora fosse diferente....- disse Croft, lançando um sorriso que lhe realçava a fina cicatriz que tinha na face esquerda. - Eu admito que o devíamos ter ouvido!- respondeu Apollo.- Mas a verdade é que agora não temos tempo para recriminações pois os revoltosos acabam de conquistar a Sala das Máquinas. - Eles já tentaram negociar? - Ainda não.... - E estão a tentar abrir a Ponte de Comando? - Não, ainda não fizeram nada!- disse o Comandante, mudando um dos monitores para a frequência das câmaras de segurança que existiam do lado de fora da porta da Ponte.- Pelo que vejo, está um grupo deles parado mesmo no limite do alcance das câmaras. Croft pareceu estar a pensar por uns momentos, antes de continuar: - Isso parece-me indicar que estão mal organizados. Não deve ser difícil acabar com eles.....Bem, vou avançar.- dizendo isso, Croft preparou-se para sair da cabine do Viper de onde estava a falar mas, antes de o fazer, disse com um sorriso: - Até já, Capitão Apollo!! - Aquele homem consegue ser irritante até mais não!!- disse Tigh assim que Croft desligou. - Concordo consigo!! - respondeu Apollo, acenando com a cabeça. - Mas neste momento ele é a nossa única esperança!! No momento em que Apollo acabava de dizer isto, o monitor que estava sintonizado na frequência da IFB, que até aí se tinha limitado a emitir programas antigos, iluminou-se com o símbolo do Conselho dos Doze. - Donde é que está a vir esta emissão?- perguntou de imediato Tigh ao Oficial de Voo Omega. Era importante saber isso pois se a emissão viesse da nave que albergava a IFB, a Hermes, que já estava do outro lado do campo de asteróides, isso era sinal de que a revolta se tinha alastrado ao resto da Frota. Omega começou de imediato a fazer uma triangulação da origem da emissão com os sensores da Galactica e rapidamente chegou a uma conclusão que o deixou espantado: - Coronel, segundo os nosso sensores a emissão está a ter origem aqui mesmo na Galactica!! - Como?- perguntou Tigh, incrédulo. A IFB tinha um pequeno estúdio na Galactica que era sobretudo utilizado para seguir as reuniões do Conselho, mas todos o pessoal que aí trabalhava tinha sido transferido para a Hermes para a travessia da passagem. - Podem ser os revoltosos....- disse então Apollo.- Finalmente vão dar a cara! O Coronel Tigh aproximou-se de Apollo e os dois fitaram o monitor. Passados alguns microns o símbolo desapareceu e surgiu uma imagem da parede da sala de reuniões do Conselho. Era óbvio que quem manejava a câmara não era um profissional pois a imagem estava um pouco desfocada e tremia bastante. Lentamente a qualidade foi melhorando e então a câmara começou-se a deslocar na direcção da cabeceira da mesa do Conselho. Ainda antes de se ver alguém, ouviu-se uma voz feminina que perguntou: - Já estamos a transmitir? - Acho que sim.- respondeu outra voz, provavelmente a de quem estava a manejar a câmara. - Não, não pode ser!!!- disse Apollo, ao reconhecer a voz feminina, uma voz que ouvia desde da sua infância, a da sua irmã Athena.- Ela faz parte da revolta??? Tigh também tinha reconhecido a voz e fazia a mesma pergunta a si mesmo. A câmara acabou por parar e não havia dúvida de que a cara que enchia o monitor do Posto de Comando era a de Athena. Apollo ligou o controle de som da Ponte e assim todos os tripulantes aí presentes puderam ouvir a declaração que se seguiu. - O que vem a ser isto???- berrou, como de costume, Sire Trolius, apontando para um dos monitores de comunicações internas existente no corredor principal. Os Seguranças que o acompanhavam olharam na direcção que lhes era indicada e viram aparecer no monitor a face de Athena, a filha do Comandante Adama. O lado esquerdo da face dela estava totalmente coberto de gaze excepto a parte da vista. Os seus olhos verdes fitavam a câmara com uma determinação que era bem evidente para todos os que a estavam a ver. Havia ainda outro pormenor que apenas escapava a uns poucos. Ao pescoço, por cima do seu uniforme azul, trazia o símbolo da Presidência do Conselho dos Doze, o medalhão que Adama costumava utilizar. - Esta mensagem é para todos os tripulantes da Galactica!- começou Athena a dizer, fitando a câmara e fazendo um esforço visível para ignorar a dor que a atormentava. - Neste preciso momento em que vos estou a falar, algo de muito grave se está a passar no interior desta Estrela-de-Batalha.....Um grupo de revoltosos está a tentar derrubar o legítimo Comandante desta nave, o meu irmão, o Capitão Apollo. - Não...não...- começou Trolius a murmurar baixinho. Só lhe faltava mais aquilo! - Os revoltosos são membros do Corpo de Seguranças do Conselho, comandados pelo Capitão Griffin, que por sua vez está a agir segundo as ordens de Sire Trolius.- continuou Athena a dizer, parando depois para fitar a câmara, antes de continuar.- Este último é um traidor que está a agir sem o mínimo apoio do Conselho dos Doze. De facto Sire Trolius perdeu o direito a esse título a partir do momento em que se auto-elegeu Presidente do Conselho. Ainda para mais tal usurpação de poder foi feita numa altura em que o Conselho dos Doze não estava completo pois o meu pai, o representante de Caprica e também Presidente do Conselho, não está em condições de assumir o seu lugar..... Perante estas palavras, Sire Trolius lançou um pequeno berro de fúria. Ele já não precisava de ouvir mais nada para compreender o que se estava a passar. De certeza que alguns membros do Conselho, que diziam estar do seu lado, tinham avisado Athena, estando a apoiá-la neste preciso momento. De certeza que a tinham eleito como representante de Caprica e apoiado a sua candidatura à Presidência. Quando ele apanhasse esses traidores...... Trolius estava tão embrenhado nos seus planos de vingança que nem sequer reparou nos olhares de incerteza que surgiam nos rostos de alguns Seguranças. Muitos deles começavam a pensar se aquela revolta teria sido uma boa ideia. As dúvidas deles aumentaram ainda mais quando Athena começou a apresentar os membros do Conselho dos Doze que a tinham escolhido como representante de Caprica e Presidente do Conselho -....tenho que agradecer aos Conselheiros que se mantiveram fiéis aos seus princípios e aos princípios que nos foram deixados pelos nossos antepassados de Kobol.- começou Athena a dizer, fazendo depois um sinal para a câmara que rapidamente mudou de posição, mostrando agora oito pessoas, que até aí tinham estando nas sombras da sala.- Esses Conselheiros são: Sire Digor, o representante de Aquaria; Siress Saffron, a representante de Aeriana; Sire Anton, representante de Libra; Siress Diade, representante de Piscon; Siress Celeste, representante de Taura e, finalmente, Sire Lexx, representante de Canceria. Todos os outros membros não mencionados são considerados traidores e, assim que for possível, os seus substitutos serão escolhidos. Para acabar, quero dirigir uma palavra a todos os membros da Segurança do Conselho que neste momento estão a apoiar esta revolta. Esta última declaração fez com que muitos Seguranças se aproximassem ainda mais do ecrã, ouvindo atentamente aquilo que Athena iria dizer. Apenas um pequeno grupo não parecia interessado em ouvir nada, mantendo-se junto de Trolius. Aqueles oito eram aqueles que tinham concordado em entrar naquele golpe por lealdade a Griffin. - Desde que seja provado que não abriram fogo sobre ninguém, nem puseram em perigo a Galactica, o Conselho dos Doze está disposto a perdoar-lhes esta "aventura". Sabemos que muitos de vocês estão a participar neste golpe por causa de promessas que vos foram feitas, mas ao fazê-lo podem estar a pôr em perigo o que resta das Doze Colónias. Pensem nisso!! Com estas últimas palavras a transmissão acabou e no ecrã surgiu de novo o símbolo das Doze Colónias. Um enorme silêncio instalou-se no corredor , sendo apenas quebrado pelo ameaças feitas por Trolius aos traidores dos seus colegas. - Cala-te, ó daggit maluco!!!- berrou de repente um dos soldados que estava junto do ecrã para Trolius. - Como?- disse o Conselheiro atónito num tom de voz baixo mas que rapidamente se começou a elevar de novo.- Como se atreve..... - Não ouviu??- disse outro soldado, junto do primeiro.- Nós não estaríamos nesta situação se não fosse pelo senhor e pelo Capitão Griffin...... - Cuidado com o que dizes, soldado.- ameaçou um Cabo, levantando o cano da sua espingarda na direcção geral daqueles que tinham falado.- O nosso Capitão não merece ser tratado dessa maneira.... O gesto do Cabo foi seguido pelos outros sete Seguranças que estavam junto de Trolius. Os outros soldados, que eram apenas cinco, não lhes ficaram atrás e de imediato empunharam também as suas espingardas. Ao ver isso, Trolius tentou esconder-se, de uma forma que julgou discreta, atrás dos Seguranças que ainda pareciam estar do seu lado. - É por este homem que nós estamos a lutar??- perguntou um dos soldados ao Cabo, apontando a arma na direcção de Trolius.- Olhem para ele, não passa de um cobarde!!! - Eu limito-me a seguir ordens!!- retorquiu o Cabo.- É o que vocês também devem fazer..... - Eu não quero morrer aqui!!- disse outro Segurança. - Nenhum de nós quer!!- ouviu-se então. Todos os presente viraram-se na direcção da voz, voz essa que pertencia ao Capitão Griffin. Este tinha ouvido apenas a última parte da discussão entre o Cabo e os soldados, mas era evidente que havia um clima de tensão no corredor. Ele sabia que tudo estava perdido pois também vira a comunicação de Athena no seu comunicador pessoal. Ao fazer os planos tinha-se esquecido da existência daquele estúdio da IFB. - Griffin!!!- berrou Trolius, saindo de trás dos Seguranças e avançando a passos largos na direcção do recém-chegado. A sua arrogância natural tinha voltado agora que a tensão no corredor parecia ter abrandado.- Temos de utilizar o nosso refém para entrarmos na Ponte. Se conseguirmos nada está perdido!!! - Devíamos ter feito isso antes...- respondeu simplesmente Griffin, passando ao lado de Trolius. O Conselheiro agarrou-o pelo braço, obrigando o Capitão a voltar-se. - Como assim???- berrou Trolius. Griffin olhou para a mão que o agarrava e depois para a cara do Sire, que rapidamente percebeu a "mensagem", largando-lhe o braço. - Como assim?- perguntou de novo Trolius, num tom de voz mais comedido.- O que aconteceu ao Capitão Boomer? - Os soldados que o estavam a vigiar foram-se embora depois de verem o comunicado de Athena.- disse Griffin. A captura de um dos melhores amigos do Comandante Apollo tinha acontecido por mero acaso. Os revoltosos tinham-no capturado na altura em que se dirigiam para a Ponte, tal como ele. Trolius e Griffin tinham percebido que Boomer poderia dar muito jeito, especialmente para chantagear Apollo. Agora era tarde de mais.- Se o tivéssemos utilizado antes..... Trolius ficou sem palavras, começando a ficar branco. Só agora é que ele se estava a aperceber da gravidade da situação. - E a Casa das Máquinas??- balbuciou ele.- Ainda temos alguém lá? - Também não. Os Seguranças que estavam lá renderam-se à pouco tempo. Perante estas palavras um soldado avançou uns passos na direcção de Griffin e disse: - Capitão, nós temos de nos render. Não há outra solução!! Griffin olhou o soldado de frente e viu uma coisa que o fez perceber que tudo estava realmente perdido. Os olhos do rapaz à sua frente não mostravam qualquer sinal de medo, ao contrário daqueles três soldados que tinha encontrado antes. O soldado tinha feito essa declaração sem qualquer sinal de cobardia. O Capitão olhou para os outros soldados e viu a mesma coisa no olhar deles. Eles pura e simplesmente tinham deixado de acreditar na vitória e assim era impossível continuar. - Quem quiser ir embora pode ir!- acabou ele por dizer, com toda a sinceridade.- Mais à frente no corredor vão encontrar três outros soldados. Digam-lhes que eles também se podem render. - Obrigado, Capitão!!- disse um soldado, dando rapidamente meia-volta e avançando pelo corredor. Passados alguns microns outros sete soldados juntaram-se a ele, desaparecendo de vista após dobrarem uma esquina. No corredor ficavam apenas quatro soldados e o Cabo, mais Griffin e Trolius. - Senhor, eu fico aqui, se não se importar, é claro!- disse o Cabo para Griffin. Os outros quatro Seguranças também disseram a mesma coisa e o Capitão limitou-se a acenar afirmativamente. Foi também nessa altura que Trolius começou o último discurso da sua carreira de político. - Estou rodeado de incompetentes!!!- berrou ele para Griffin. - Todo este golpe foi mal planeado. Eu não lhe devia ter dado ouvidos, Capitão!! Devia ter visto que este seu golpe iria falhar!! Griffin não acreditava no que estava a ouvir. O Sire estava-se a preparar para atirar as culpas para cima dele. Voltando a sua atenção de novo para Trolius, ele ficou ainda mais furioso. -........eu tenho que contactar de imediato o Concílio dos Doze e explicar que fui forçado a participar neste golpe!!!- dizia o político, como se estivesse a falar consigo mesmo, apontando depois o dedo para Griffin.- O senhor vai ser responsabilizado por isto, pode ter a certeza!! O Capitão não hesitou mais. Num movimento rápido tirou a espingarda a um dos soldados, destravou-a e abriu fogo contra o peito do Conselheiro, fazendo-o voar para trás. Um intenso cheiro a carne queimada encheu o corredor, emanando da enorme ferida cauterizada que era agora o tronco de Trolius. Travando a arma de novo, Griffin atirou-a de volta para o dono. O soldado, assim como todos os outros, tinha um grande sorriso nos lábios. Se havia pessoa que merecia morrer daquela forma era Trolius. Toda a gente já estava farta dos seus "abusos" verbais e da sua maneira de ser. - E agora, o que fazemos?- perguntou o Cabo, passados alguns microns. - Agora esperamos.- respondeu Griffin, sentando-se de seguida no chão, encostando à parede. - Os reforços estão a chegar!!- esta mensagem foi passando de boca em boca até alcançar Starbuck. As sentinelas que ele tinha deixado para trás, ao longo do corredor, tinham acabado de avistar os Guerreiros comandados pelo Coronel Croft. Passados alguns centons estes chegaram até ao local onde o Capitão e uma série de outros Guerreiros da Esquadrilha Azul. Croft dirigiu-se de imediato para Starbuck que se encontrava encostado a uma parede enquanto que um outro Guerreiro lhe aplicava uma compressa no ombro. - Que foi isso?- perguntou Croft, apontando para o ombro. - Foi um pequeno tiro de raspão...- respondeu Starbuck, esboçando um dos seus famosos sorrisos que rapidamente se extinguiu, sendo substituído um esgar de dor: - Ei!! Não apertes tanto a compressa!!! - Desculpe, Capitão.....- balbuciou o Guerreiro, continuando com o tratamento. - Deixa lá...- resmungou o Capitão, virando-se de seguida para Croft.- Ainda bem que o Coronel chegou porque a situação ali à frente não está nada boa. Croft olhou na direcção para qual Starbuck apontava. O corredor virava para a direita e, na esquina, podia-se ver a parte inferior de um corpo. Pela cor das calças, percebia-se perfeitamente que era um Guerreiro que ali estava. - Eles apanharam-nos completamente de surpresa!!- disse Starbuck. - Ali atrás abatemos três deles..... O instrutor dos Guerreiros acenou afirmativamente com a cabeça. Ao vir da Baía Alpha para ali tinha passado, primeiro, por dois corpos de Seguranças no corredor lateral que dava acesso ao corredor principal e depois por outros três corpos, já perto da posição onde se encontrava o grosso das forças de Starbuck. -........mas ao virarmos esta esquina demos de caras com outros três Seguranças..- continuava o Capitão a dizer, parando depois como que para pensar.- Eles estavam abrigados atrás de uns painéis de manutenção e começaram de imediato a disparar. Não tivemos a mínima chance.... - Quanto homens é que perderam? - Dois....e ainda me acertaram....... - Porque é que ainda não avançaram?- perguntou Croft, olhando primeiro para o Capitão e depois para os outros Guerreiros que ali estavam.- Se eles são apenas três, não deve ser difícil..... - Estávamos a pensar nisso, mas eles receberam reforços à cerca de um centon atrás.- respondeu Jolly.- Eu estava a espreitar quando eles chegaram. - Quantos? - Oito. - Então temos que atacar de imediato, antes que eles se barriquem melhor.- disse Croft.- Temos que fazer um ataque frontal....... - Isso é uma loucura!!- disse de imediato Starbuck, afastando o Guerreio que o tratava e dirigindo-se para Croft.- As baixas que podemos ter........ - Eu sei!- respondeu o outro.- Mas a verdade é que não temos outra opção. Foi nessa altura que se fez ouvir uma voz, vinda da direcção da barricada dos Seguranças: - Estão a ouvir-nos, aí ao fundo?? - Estamos.- berrou de imediato Croft, assumindo o controle da situação.- O que querem? - Queremos render-nos!!! Um burburinho instalou-se de imediato entre os Guerreiros ao ouvirem estas palavras. Muitos diziam que aquilo só podia ser uma armadilha e ninguém sabia o que fazer. Lentamente, o Coronel avançou, tendo cuidado para não tropeçar nas pernas do Guerreiro morto, e espreitou para o corredor de onde tinha vindo a voz. A uma curta distância estava o corpo do outro Guerreiro que tinha sido atingido pelos Seguranças. A meio do corredor estava a tal barricada feita com os painéis de manutenção e, por detrás dela, em pé, estava um soldado desarmado e com as mãos no ar. Atrás dele podiam-se ver sete outros Seguranças, reunidos num grupo e com as armas apontadas a outros três. - Para se render têm de largar as armas!!- disse Croft para o soldado, expondo-se totalmente. - Eu até fazia isso...- respondeu o Segurança, apontando depois para os três que estavam a ser vigiados.-...mas estes três não se querem render. E além disso foram eles que dispararam contra os Guerreiros.... - Esperem um momento!- ordenou o Coronel, virando-se depois para trás:- Capitão, mande avançar os homens! Os Guerreiros da Esquadrilha Azul e da Academia começaram a entrar lentamente no corredor, com as armas prontas, seguindo de Croft que avançava na direcção da barricada sem nunca tirar os olhos dos Seguranças. Podia ver agora que os três homens que estavam presos, dois soldados e um Sargento, estavam bastante maltratados apresentando sinais evidentes de agressão. Com um pequeno salto ultrapassou os painéis enquanto o soldado que tinha falado com ele se afastava para o lado, encostando-se à parede, sempre com as mãos no ar. Pegando numa arma que estava no chão, virou-a na direcção geral dos outros Seguranças e disse: - Já podem largar as armas.... Os "Camisas Negras" assim fizeram, sem a mínima hesitação, largando as suas espingardas no chão e chutando-as na direcção do Coronel, para longe dos três prisioneiros. De seguida começaram a avançar em fila na direcção dos Guerreiros que ultrapassavam a barricada, pondo as mãos no ar. Starbuck e outros dois surgiram ao lado de Croft, apontando as armas aos prisioneiros. - Vai ser um prazer ver-vos ir para a Nave-Prisão!- disse o Capitão, com uma voz que denotava a sua raiva.- Vocês vão pagar pelo que fizeram..... Nenhum dos Seguranças disse nada, continuando os três a fitar o chão. - Onde estão Trolius e Griffin?- perguntou Croft ao soldado que tinha tratado da rendição e que ainda continuava no mesmo sítio. - Ao fundo do corredor, perto da Ponte.- disse o outro apontando. Croft agradeceu-lhe e ordenou a dez Guerreiros que o acompanhassem, pondo-se a caminho. Nas suas costas o soldado gritou-lhe, em jeito de despedida. - Olhe que foi o Capitão Griffin que nos disse para nos rendermos..... - Mas aposto que também foi ele que os mandou disparar.....- murmurou Croft, dirigindo-se ao encontro dos mentores daquele golpe Griffin e os três Seguranças que estavam com ele, ouviram, antes de ver, os Guerreiros que se aproximavam. Estes últimos avançavam pelo corredor a passo de corrida e o ecoar das suas botas ouvia-se perfeitamente. - Lembrem-se, nada de idiotices.- disse Griffin, acrescentado depois com pesar.- Perdemos, portanto nada de heroísmos baratos!! - Sim senhor!- responderam os Seguranças em uníssono. Quando os Guerreiros chegaram junto deles, o Capitão reconheceu de imediato quem os comandava, o Coronel Croft, um dos instrutores da Academia e um dos poucos Guerreiros que ele respeitava. - Coronel Croft.- disse ele simplesmente quando os Guerreiros chegaram, fazendo uma saudação. - Capitão Griffin.- respondeu o primeiro, retribuindo a saudação. De seguida o seu olhar dirigiu-se para o local onde Trolius estava caído, numa espécie de interrogação silenciosa a que o Capitão respondeu de imediato: - Ele estava a ver se passava as culpas todas para mim.... - Estou a ver....... Num esforço para conter um certo nervosismo, Griffin pigarreou antes de continuar: - Tenho apenas uma condição para me render...... - Não me parece que esteja em condições de impor condições..... - Eu sei disso, mas tenho que lhe pedir, de militar para militar, para que os meus homens e eu não sejamos enviados para a Nave-Prisão. - Está com medo de represálias, certo? - Exactamente.....- disse Griffin.- Apesar da gravidade do nosso acto, tenho a certeza que esse castigo seria desumano...... - Vou ver o que posso fazer em relação a isso.- prometeu Croft, com pouca convicção pois sabia perfeitamente que a Frota não tinha mais nenhum espaço onde pôr prisioneiros para além daquele. - Tenho a certeza de que a Presidente Athena irá concordar com esse pequeno pormenor......... - Presidente quem?- perguntou o Coronel ao ouvir as palavras de Griffin. Os Guerreiros não haviam visto a transmissão efectuada pelo novo Conselho dos Doze porque, por puro azar, o único monitor que existia na zona por onde tinham passado havia sido destruído por um tiro perdido. Griffin ia começar a relatar o conteúdo da transmissão de Athena quando as luzes do corredor principal se apagaram sendo substituídas pelas luzes vermelhas de emergência, ao mesmo tempo que uma voz se começou a fazer ouvir por toda a Galactica, vinda da Ponte - ALERTA VERMELHO! ALERTA VERMELHO! TODA A TRIPULAÇÃO AOS SEUS POSTOS DE COMBATE! TODA A TRIPUALÇÃO AOS SEUS POSTOS DE COMBATE! Apollo e o resto da tripulação da Ponte tinham assistido com um entusiasmo crescente à declaração de Athena, à morte de Trolius às mãos de Griffin e finalmente ao aparecimento do grupo de Guerreiros comandado por Croft. O Comandante ia ordenar que abrissem a porta da Ponte quando Omega berrou do seu posto: - Alerta vermelho!- Enquanto dizia isto tinha também accionado o sistema que transmitia o aviso para toda a nave e para o resto da Frota. De seguida ligou o seu terminal a um dos monitores do Posto de Comando, compartilhando assim os dados que obtinha. - Qual é a situação da Frota?- interrogou Apollo, fitando a imagem no monitor, imagem essa que parecia saída de um pesadelo. - Todas as naves estão do outro lado, menos nós e a Nave da Academia, que vai a meio da passagem, assim como a Esquadrilha Prateada que está junto da primeira cintura de asteróides.- respondeu Tigh, consultando o seu computador pessoal que tinha as informações de todos os terminais da Ponte. - Mande a Nave da Academia acelerar ao máximo e mande a Esquadrilha Prateada regressar de imediato.- ordenou Apollo, pensando furiosamente.- Entretanto prepare a Esquadrilha Azul e informe a Vermelha e a Verde de que temos intrusos. Eles que se preparem para combater. Tigh transmitiu aquilo que lhe tinha sido dito sem hesitar. - Avise também que assim que a Esquadrilha Prateada estiver a bordo, vamos atravessar a passagem à velocidade máxima! - À velocidade máxima?- perguntou Tigh, incrédulo pois em toda a sua carreira a bordo da Galactica só tinha ouvido essa ordem por duas vezes e só em emergências. Ao contrário dos Cylons os Coloniais pouco utilizavam a velocidade da luz pois fora ao usar esse tipo de propulsão que duas Estrelas-de-Batalha, a Argo e a Hermes, haviam desaparecido. - Exactamente!! Temos que chegar junto da Frota o mais rápido possível. É a única maneira de os proteger.....- disse Apollo, enquanto que sentia uma espécie de terror a invadi-lo. Lembrava-se agora das palavras que aquele estranho tinha dito, nos seus aposentos: "Um último aviso.....cuidado com velhos inimigos!". Recordando-se destas palavras os seus olhos voltaram-se novamente para o monitor onde apareciam os dados do terminal de Omega, terminal esse que por sua vez recebia os dados dos Vipers da Esquadrilha Prateada. E à medida que olhava, Apollo via que a Nave-Base Cylon que tinha sido detectada pelos Vipers estava a ganhar velocidade agora que tinha ultrapassado a primeira cintura de asteróides. - Que os Senhores de Kobol nos ajudem........ - murmurou ele. O Primeiro-Centurião que comandava a Nave-Base fez rodar pedestal onde estava sentado na direcção dos Centuriões que operavam os vários postos na Ponte. De imediato um deles levantou-se e, virando-se na direcção do pedestal, disse na sua voz de entoação metálica: - Pelo seu comando! - Qual é a situação dos Coloniais?- perguntou o ciborgue de armadura dourada, com um tom de voz ligeiramente menos mecânico do que o do seu subordinado. - Os coloniais já se aperceberam da nossa presença. Os Vipers estão a regressar à Estrela-de-Batalha. A Estrela de Batalha foi identificada como sendo a Galactica. - Há sinais da Frota? - Não há qualquer sinal da Frota.- respondeu o Centurião. - Quando podemos lançar os Raiders? - As reparações das portas do hangar estarão acabadas dentro de cento e oitenta microns. Daqui a cento e oitenta e um microns poderemos lançar os Raiders. - Muito bem, Centurião.- disse o Primeiro-Centurião, fazendo um gesto para que o outro regressasse ao seu posto. - Pelo seu comando! O Primeiro-Centurião apesar de ter dois cérebros electrónicos que suplantavam e dominavam o seu cérebro orgânico sentia "algo" que só podia vir da sua parte orgânica. Esse "algo" era o sentimento de sorte, algo que os seus dois cérebros principais diziam que não podia existir no mundo lógico em que os Cylons viviam. Mas mesmo assim, ele sentia que sim, que essa sorte existia. Ele era muito velho mesmo para os padrões da sua raça que vivia até aos mil yahrens, suportada pelas partes cibernéticas. Ao contrário dos novos Cylons que eram transformados logo em ciborgues à nascença, ele tinha sido transformado perto dos seiscentos yahrens, no auge da sua juventude, à trezentos yahrens atrás. Isso acontecera quando os novos Cylons tinham capturado a única colónia de Cylons orgânicos que ainda existia e à qual ele pertencia. Por causa desse facto ainda se lembrava de como era ser um simples ser orgânico, de como era ter sentimentos, sensações, expectativas. É claro que também era por isso que nunca passara de Primeiro-Centurião e que fora relegado para aquela fronteira esquecida do Império Cylon, comandando uma Nave-Base que devia ser mais velha do que ele e que estava cheia de problemas. Mas a sorte parecia estar com ele. Os aparelhos de comunicação hiperluz da Nave tinham acabado de ser reparados na altura certa para receber o Édito de Extermínio da Raça Humana, que ordenava a destruição dos sobreviventes da raça humana e as subsequentes mensagens sobre a perseguição efectuada pelo Império. A Frota Colonial vinha na sua direcção! Ao fim de sete yahrens, e no senton em que um dos sensores laterais da Nave-Base tinha decidido voltar a funcionar ao fim de três yahrens, tinha captado uma enorme explosão numa cintura de asteróides que conhecia perfeitamente pois não lhe faltara tempo para investigar toda aquela parte da fronteira. E agora encontrava-se ali, a aproximar-se cada vez mais da lendária Estrela-de-Batalha Galactica, sabendo que a glória da destruição desta seria toda sua pois as Naves-Base mais próximas estavam a três yahrens-luz, num posto avançado, a sofrer melhoramentos, e os aparelhos de comunicação hiperluz da sua Nave tinham deixado de funcionar, não podendo por isso pedir ajuda. Agora só lhe faltava conseguir lançar os Raiders, uma tarefa dificultada pelo facto das portas do hangar estarem encravadas por falta de uso. Mas isso não seria problema pois a sorte, aquele "algo" que não existia, estava do seu lado. Capítulo 7 O sonho começava quase sempre com a nave a flutuar no espaço. Ele estava tão perto que podia tocar na superfície metálica dela, mas sempre que o tentava a distância aumentava. Era nessa altura que tudo começava a acabar. Aos poucos, a nave parecia começar a inchar em certos sítios e a ser sacudida. Ele tinha a certeza de que eram explosões internas que provocavam tal efeito. Quase que a confirmar a sua teoria, ela começava a desfazer-se aos bocados, perdendo lentamente a sua forma, enquanto girava sobre si mesma, afastando-se cada vez mais depressa, até se tornar apenas outro ponto brilhante no firmamento. A única coisa que escapava a toda aquela destruição era uma pequena placa dourada com o nome da nave: T.D.F.- Washington, que ficava a flutuar no espaço. Essa placa era também uma das primeiras coisas que o Comandante William Trent via sempre que acordava do pesadelo, debatendo-se futilmente contra os fechos que o mantinham seguro no seu saco-cama, impedindo-o de flutuar livremente pela sua cabine. A placa, que havia sido um presente dado pela sua mulher e pelo seu filho na altura em que tinha recebido o seu novo comando, estava segura magneticamente junto de uma série de fotografias de família na parede directamente em frente da cama de William. Este último, depois de se acalmar, consultou o seu computador interno e viu que eram 5 horas da manhã. Com um movimento rápido das mãos abriu os fechos que o mantinham seguro e dando um pequeno impulso, soltou-se do seu saco, flutuando em direcção ao tecto. Antes de aí chegar, tocando com ponta dos dedos num dos rebordos de metal existentes na parede, deu um outro pequeno impulso na direcção do chão. Tal como era costume, os seus pés rapidamente entraram em contacto com as suas botas magnéticas e assim terminou a falta de gravidade. Entrando novamente em contacto com o seu computador, William viu surgir na sua mente um esquema de toda a nave e o estado dos respectivos sistemas. Satisfeito por tudo estar bem passou para a fase seguinte, acedendo ao registo de bordo efectuado pela Inteligência Artificial da nave, verificando assim todas as coisas que se tinham passado enquanto estivera a dormir. Enquanto fazia isso, sentiu a presença da dita I.A. , que lhe apareceu na mente como uma estrela a piscar no canto superior do documento que estava a ler. "Bom dia, Erika!", pensou ele, enquanto continuava a ler. "Bom dia, Capitão Trent.", respondeu então uma voz feminina que apenas ele podia ouvir.- "Preparado para um novo dia?" "Só depois de um banho e do pequeno-almoço! Até lá não sou um ser humano normal." "Não se preocupe. Como de costume, terá o café à sua espera no Centro de Comando." "Obrigado."- respondeu William, terminando desta maneira o ritual matinal que se repetia à 2 anos, desde da altura em que a I. A. tinha sido instalada naquela nave. Espreguiçando-se, dirigiu-se então para aquilo que era chamado de chuveiro. Embora ele estivesse em serviço na Marinha à mais de 20 anos, ainda não se conseguira habituar a tomar banho em ambientes sem gravidade. Soltando um suspiro de resignação, tirou a roupa com que dormira e entrou para o pequeno armário onde estavam as instalações sanitárias, armário esse que era carinhosamente apelidado de "o Caixão" por todos os tripulantes de uma nave espacial. O chuveiros sónico era a resposta para as dificuldades de tomar banho com água num ambiente de gravidade zero. Carregando num botão, sentiu aquela sensação semelhante a ter inúmeras formigas a andar pela sua pele provocada pelos emissores sónicos que limpavam a sua pele. Depois daquela sessão de um minuto surgiu então uma esponja molhada com qual ele limpou toda a sujidade libertada pelo chuveiro sónico. William estava de tal maneira empenhado no que fazia, que a princípio nem reparou na pequena estrela que lhe surgia sempre que fechava os olhos. Só na altura em que esta se começou a tornar cada vez maior e a brilhar cada vez mais é que ele se apercebeu. Praguejando para si mesmo por não ter reparado no sinal, pensou: "Sim. Erika?" "Peço desculpa por o estar a incomodar agora, Capitão Trent, mas recebemos uma mensagem estranha da Central Espacial de Lavos-329.", enquanto dizia isto, a I.A. fez aparecer na mente de William um mapa estelar com as coordenadas da colónia de Lavos-329 e a sua posição em relação à patrulha que ele comandava. "Qual é o teor da mensagem?" "Os sensores de espaço profundo da colónia captaram sinais de origem desconhecida e aparentemente codificados. A fonte é desconhecida mas está a mover-se" . "Poderão ser os piratas?" "Com os dados disponíveis não podemos chegar a nenhuma conclusão" Trent acedeu aos seus arquivos, consultando os dados aí arquivados sobre os piratas que a sua patrulha perseguia. Há mais de cinco anos que os primeiros atacavam e saqueavam colónias que estavam fora das rotas comerciais normais. Os relatórios vinham acompanhados com inúmeras imagens, imagens essas que faziam sempre com que o Comandante sentisse um aperto no fundo do seu estômago. Elas mostravam, invariavelmente, aldeias, vilas e cidades destruídas com corpos espalhados pelas ruas. E os que morria eram os mais afortunados pois os poucos sobreviventes diziam que os piratas tinham também o costume de raptar colonos, especialmente mulheres e crianças. A Marinha da Força de Defesa Terrestre tinha tentado travar, sem sucesso, esses ataques. A única vez que tinha havido um confronto entre as naves da Marinha e os piratas, estes últimos haviam ganho, destruindo as duas fragatas que tinham sido enviadas para os interceptar. A partir de então todas as patrulhas da Marinha eram constituídas por cinco fragatas, duas naves de reconhecimento e três corvetas de ataque, uma força que se esperava ser suficiente para derrotar os piratas. Era essa força que estava sob o comando de Trent e que ele tinha que começar a posicionar para interceptar a fonte daqueles sinais. Fechando os arquivos, acedeu aos mapas estelares da zona em questão, ligando-se ao computador central da nave e à secção de Navegação. Numa questão de nanosegundos analisou o mapa e tomou uma decisão. "Erika, liga-me se faz favor aos Capitães Lopes e Ossan!" "Com certeza", respondeu a I.A., utilizando os aparelhos de comunicação da Washington para contactar os computadores das duas naves comandadas por esses dois oficiais, computadores esses que por sua vez avisavam as I.A. que ambos possuíam e que faziam o interface entre Humanos e naves. Tudo isso foi feito novamente em nanosegundos e assim Trent não teve que esperar muito para ver surgir na sua mente as faces de Lopes e Ossan que o saudaram. "Presumo que já saibam do sinal captado por Lavos-329..." "Já", responderam os dois em uníssono. Assim que a nave de comando, a Washington, tinha recebido a mensagem Erika havia-a transmitida para o resto da patrulha. "Muito bem, sendo assim vou rapidamente ao assunto.", pensando isto Trent puxou da memória o mapa.- "Como podem ver os sinais estão a ter origem junto deste imenso anel de asteróides....." "O Anel da Morte...", disse Lopes "Exactamente....", respondeu William. Aquela zona do espaço era conhecida por esse nome devido ao facto de inúmeras sondas e naves de exploração terem desaparecido aí. A única coisa de fabrico humano que tinha conseguido passar esse anel, através de uma imensa passagem que o atravessava, tinha sido uma sonda de espaço profundo do tipo Magalhães que tinha transmitido ainda durante alguns anos antes de desaparecer. Até era apropriado que piratas se escondessem numa zona com um nome daqueles. -"Vamos tomar todas as precauções. Vocês vão saltar para este sector do mapa e fazer uma inspecção da zona. Quando o fizerem voltem para junto de colónia que nos estaremos lá. Mantenham silêncio rádio e electrónico total. Alguém tem questões? "Em caso de ataque podemos ripostar?", perguntou Ossan, o Capitão da Dakar que era conhecido pela sua impulsividade. "Façam mas é para não serem detectados, Ossan, que assim já não devem ser atacados", respondeu Trent. Lopes começou-se a rir, o que lhe teria valido um olhar de reprovação por parte de Ossan se por acaso estivessem frente a frente, mas como estavam apenas a comunicar electronicamente, numa espécie de telepatia artificial, tal não era possível. Apesar disso, Lopes conteve o seu riso e perguntou mais seriamente: "O Comandante acha que são os piratas?" "Para ser sincero acho que não, porque eles já não atacam este sector à mais de dois anos. Mas mesmo assim é preciso investigar todas as pistas e é isso que vocês vão fazer. Mais alguma pergunta?" "Não senhor!", responderam quase que em simultâneo. "Muito bem, então prossigam e boa sorte!" "Obrigado, senhor!" retorquiram os Capitães das naves de reconhecimento, quebrando depois a comunicação. "Erika, começa a preparar, com o Navegador, um salto para Lavos-329, se faz favor", disse ele depois de fechar a comunicação. "Sim, Capitão. Deseja mais alguma coisa?" "Não, não....! Eu vou já para a Ponte." "Sim, Capitão." Depois desta breve conversa, Trent acabou de tomar o seu "banho" rapidamente. Enquanto o fazia, acedeu novamente ao computador central da nave, acompanhado os preparativos para partirem daquele local. Na altura em que abandonou os seus aposentos, podia já sentir nos seus pés, mesmo através dos seus sapatos com solas magnéticas, o pulsar dos motores principais da nave. A Washington era igual a todas as outras naves da classe Monólito. Um enorme cilindro horizontal com cerca de 800 metros de comprimento, com uma superfície lisa, apenas quebrada pelas silhuetas redondas da sua Ponte de Comando num extremo e da redoma de radar no outro extremo e pelas formas quadradas dos seus vários lançadores de mísseis e torpedos. A classe Monólito traduzia a nova visão de guerra do Comando Espacial. As Guerras Coloniais haviam mostrado a necessidade de se produzirem pequenas naves, que fossem rápidas e com grande poder de fogo. O tempo das grandes naves de combate estava a chegar ao fim. A Washington havia saído dos estaleiros militares da Lua a apenas 2 anos e era a última de uma série de 10 naves encomendadas. Tal como todas as suas irmãs tinha sido utilizada apenas dentro do Sistema Solar durante o primeiro ano, sendo depois utilizada em várias missões de patrulha no espaço exterior, sendo aquela em que estavam a terceira delas. Seguindo as ordens de Trent, a I.A. e o Navegador, o único outro tripulante da nave que tinha direito a ter um implante electrónico, estavam a estabelecer a rota para um salto para Lavos-329. Os 3 motores convencionais da Washington, alimentados por reactores de fusão lançavam enormes chamas azuis que iluminavam toda a cauda da nave, enquanto que esta e o resto das naves da patrulha se afastavam umas das outras e se alinhavam com a estrela do tipo Sol que iluminava o planeta alvo e que já tinha sido identificada pelos sistemas de astronavegação. A Dakar e a Lisbon estavam alinhadas com o sector do anel de asteróides e saltaram assim que ficaram à distância de segurança. Assim que recebessem a ordem de Trent, o resto da patrulha partiria em direcção a Lavos-329. A Capitã Sheba verificou mais uma vez os sensores dos seus Vipers, lançando uma pequena prece para que a imagem aí presente tivesse mudado. - Frack!- murmurou ela ao ver que esse pequeno milagre não tinha acontecido. A Frota continuava a assumir as posições de combate muito lentamente. Mudando o seu comunicador para a frequência principal da Frota disse: - Daqui fala a Capitã Sheba. As manobras estão a demorar muito tempo!! Peço a todos os Comandantes das naves que se apressem!! De imediato se fizeram ouvir inúmeras vozes, algumas pedindo conselhos e calma mas a maior parte exigindo saber quando é que a Galactica chegaria aquele lado da cintura de asteróides. Era óbvio que se esqueciam que os Cylons estavam também do outro lado e que para chegarem ali teriam que passar pela Galactica. E, ainda para mais, as duas Esquadrilhas daquele lado já estavam preparadas para combater, se fosse preciso, embora houvesse certos problemas, nomeadamente o facto de ambas terem as suas reservas de combustível a meio e também o facto de que os Guerreiros da Esquadrilha Verde nunca tinham combatido fora de um simulador. Enquanto assegurava que tudo estava bem ao Comandantes da Frota, Sheba accionou os turbos, dando uma volta com o seu caça, fazendo um círculo em redor das naves que tinha que proteger. - Tenho que confessar que também estou preocupada pelo facto da Galactica não ter dito mais nada!!- disse a Tenente Deitra, num canal de comunicação privado, enquanto mantinha o seu Viper em formação com o de Sheba. - A quem o dizes.......- respondeu a Capitã.- Mas tenho a certeza que não deve haver problema! Sheba sabia perfeitamente que as suas palavras deviam soar a falso. Estava preocupada com toda a situação. Logo após terem ultrapassado a cintura sentira que algo estava mal pois as comunicações tinham estado interrompidas por momentos. Após terem sido restabelecidas, a Ponte da Galactica tinha respondido a todos os inquéritos feitos por ela dizendo que tudo estava bem, mas essa resposta parecia demasiado forçada, parecendo até que alguém tinha ordenado que fosse essa a resposta. Talvez Apollo tivesse feito isso pois sabia que ela iria ficar preocupada se algo estivesse a acontecer. E para aumentar mais as suas suspeitas, havia ainda o caso da nave da Academia que tinha ficado junto da Galactica por algum tempo antes de avançar a toda a velocidade através da passagem. É claro que para complicar toda esta situação tinha havido ainda o alerta lançado pela Galactica avisando a Frota de que uma Nave-Base Cylon tinha sido detectada nas proximidades. Ao fim de sete yahrens de paz os Cylons tinham voltado, como que para lembrar os Humanos de que ainda os perseguiam. - Viste aquilo??- berrou de repente a Tenente, quebrando a cadeia de pensamento de Sheba. - Aquilo o quê??- perguntou, lançando de imediato o seu olhar para os sensores do Viper que não indicavam nada de estranho. - Os meus sensores detectaram um pico de energia momentâneo à uns microns atrás....... - Vou verificar!- disse a Capitã, carregando numa série de botões que faziam com que o computador de bordo mostrasse de novo os dados registados pelos sensores. Olhando para o monitor secundário onde os dados estavam a surgir, Sheba viu que realmente tinha havido uma espécie de descarga de energia num sector por onde tinham estado a passar microns atrás. - Daqui fala a Capitã Sheba, alguma das naves do sector Delta F está a captar algo de estranho?- perguntou ela na frequência da Frota. A resposta da naves foi negativa excepto por uma nave de passageiros que também tinha detectado um estranho pico de energia. Definitivamente algo se tinha passado naquele sector. - Deitra, vamos fazer uma investigação!!- disse Sheba, depois de contactar o resto da Esquadrilha e ordenar-lhes para que continuassem as suas patrulhas. - Compreendido! Rapidamente os dois Vipers deram meia volta e dirigiram-se para o sector em questão. O ambiente à bordo da T.D.F. Lisbon estava tenso desde que tinham efectuado o salto até junto do anel de asteróides. Ninguém na Ponte acreditava ainda no que via. Espalhadas por uma enorme área do espaço encontravam-se centenas de naves de todo o tipo e forma, nenhuma delas de fabrico conhecido. "Já temos uma estimativa do inimigo?", interrogou o Capitão Lopes. " 195 naves de Classe A e cerca de 50 de Classe C", respondeu Drake, a I.A. da nave de reconhecimento. Estas últimas eram as que mais preocupavam Lopes. Para começar, eram mais rápidas do que qualquer nave de Classe C construída por Terrestres. Mesmo o mais avançado dos caças terrestres só podia alcançar perto de 75% da velocidade daquelas naves, segundo as estimativas da I.A. Ainda para mais a própria existência dos caças implicava a existência de uma nave-mãe de onde eram lançadas, nave-mãe essa que não parecia estar ali presente. - Dois dos alvos quebraram a formação e estão-se a dirigir nesta direcção!!- disse de repente o oficial encarregue do radar.- Designação de Alfa 1 e Alfa 2. Vinte minutos para a intercepção! "Mapa táctico!", ordenou Lopes. A I.A. projectou-o de imediato na mente do Capitão, e este viu que sem sombra de dúvidas os dois objectos se encaminhavam para as naves de reconhecimento. Estas últimas eram construídas com uma série de materiais que lhes permitiam ser invisíveis ao radar, além de serem totalmente pintadas de negro, sem nenhuma das habituais luzes indicadoras de presença. Além do mais, os seus motores convencionais eram arrefecidos de uma maneira que não deixava vestígios de calor. A única maneira de serem detectadas era quando disparavam alguma das suas armas ou quando estavam a emitir sinais electrónicos, o que não era o caso pois agora estavam em modo passivo, limitando-se a receber os sinais emitidos pelo inimigo. "E mesmo assim aquelas duas naves estão a vir na nossa direcção! Como é que é possível??", perguntou Lopes a si mesmo. Drake entendeu aquilo como uma pergunta e respondeu: "Os sensores deles são mais avançados e são capazes de detectar a energia residual de um salto hiperespacial" "O quê??" A I.A. deu a mesma resposta, o que fez com que o Capitão parasse para pensar um pouco. As Inteligências Artificiais só deviam formular respostas baseadas em dados concretos o que não era o caso. Nada indicava que os alienígenas possuíssem um sistema capaz de detectar os saltos. Eles podiam estar a dirigir-se para aquela zona por mero acaso. "Como chegaste a esta conclusão, Drake?" O programa nada respondeu e o Capitão voltou a insistir. Era importante saber se havia algum problema com a I.A. pois era esta que vigiava a maior parte das operações e sistemas da nave. O facto dela aparentemente estar a tirar conclusões irracionais podia ser um indício de algum problema. Lopes voltou a repetir a pergunta, consciente que realmente devia haver algum problema. "Desculpe Capitão, mas os meus programas de auto-diagnóstico detectaram um erro numa das minhas memórias", respondeu por fim o computador, num de voz que parecia mostrar algum orgulho ferido. "Memórias, como assim??", perguntou Lopes que esperava alguma espécie de erro no sector das operações lógicas.- "Em que sector da memória?" "Num dos blocos de Planeamento e Estratégia." A resposta deixou o Capitão ainda mais intrigado pois Planeamento e Estratégia era a zona onde a I.A. tinha armazenada todo o tipo de informações que deviam ajudar o Capitão de uma nave a entrar em batalha. Essa memória não era utilizada para operações lógicas, como responder a uma pergunta, fora de situações de combate. "Qual a natureza do erro?" "Acesso não autorizado por outro programa a dados aí contidos." Ou seja, Drake tinha respondido à pergunta de Lopes utilizando informações de um bloco de memória de acesso restrito. Mas essa informação só podia estar ali guardada se a Aliança de Defesa Terrestre já conhecesse aqueles alienígenas! "Qual é o nome do bloco de memória?" "Não posso dizer!", respondeu a I.A. . "Como assim?", perguntou o Capitão, espantado. Desde que começara a trabalhar com as I.A. à três anos atrás, aquela era a primeira vez que ele ouvia uma resposta negativa a uma pergunta daquele tipo.- "Qual é o motivo da recusa?" "O senhor não tem um nível de autorização suficiente para ter essa informação!" Lopes calou-se, pensando furiosamente. O seu nível de autorização era de MAJ-5, o nível dado a todos os oficiais que tinham que lidar com armas nucleares e o mais alto da Marinha da Força de Defesa Terrestre. Mesmo assim, não podia ter acesso a uns simples blocos de memória. Havia qualquer coisa de errado ali. Talvez o problema da I.A. fosse mais grave do que ela própria pensava. "Que nível de acesso preciso para aceder a esse bloco de memória?" "O senhor não tem um nível de autorização suficiente para ter essa informação!" "Estás a gozar comigo???", berrou mentalmente o Capitão, agora convicto de que a I.A. estava totalmente avariada.- "Nem sequer tenho autorização para saber quem tem autorização??" "Exactamente. E devo também avisar que se continuar com perguntas em relação a este assunto serei obrigado a participar de si." A ameaça tinha sido feita com uma convicção que assustou Lopes. Um sentimento estranho invadiu-o. Seria medo por estar numa nave parcialmente controlada por uma inteligência nitidamente avariada? Fazendo um esforço para se acalmar, disse: "Muito bem. Como Capitão da T.D.F. Lisbon, acho que não estás em condições de continuar ligada. Percebes o que isto quer dizer?" "Sim!", respondeu a voz na sua cabeça num tom de voz neutro. Virando-se para um dos oficiais da Ponte, o Capitão repetiu em voz alta o que tinha dito a Drake, pedindo depois para que esse mesmo oficial este gravasse a sua decisão no diário de bordo, o único computador da nave que não era acessível a I.A.. Isso feito, abriu um tampo metálico que tinha num dos braços da sua cadeira e carregou num botão aí existente, pondo a I.A. em modo de espera, ou seja, apenas monitorizando os sistemas da nave, não podendo intervir em nenhum deles. Assim que chegassem a um porto espacial com capacidade para tal, a I.A. seria retirada da nave e seria-lhe feita uma revisão por uma série de programadores da Marinha. Satisfeito por ter tratado do assunto de acordo com o regulamento, Lopes virou a sua atenção para o mapa táctico. Apesar de Drake estar desligado, o Capitão conseguia aceder à informação dos diversos sistemas da Ponte através da ligação directa que tinha ao computador principal da nave. Essa ligação era feita através de um cabo que saía da sua cadeira de comando e que estava inserido na entrada que lhe tinha sido implantada na parte traseira do crânio. O processador que tinha dentro do seu cérebro interpretava depois a informação que vinha dos diferentes terminais. Com um simples comando mental, sobrepôs aos símbolos em forma de diamante que representavam os alvos Alfa 1 e 2 as suas respectivas velocidades. E o que viu não lhe agradou nada. Os dois alvos estavam a aumentar a velocidade! - Tempo para a intercepção?- perguntou ele em voz alta. - 5 minutos.- respondeu um oficial. - Capitão, peço permissão para preparar uma solução de tiro.- disse o oficial encarregue da Secção de Armamentos. - Permissão recusada!- respondeu Lopes, lembrando-se das ordens de Trent.- Não quero nenhuma arma apontada aos alvos! - Sim, senhor.......- respondeu o outro com um tom que demonstrava que não concordava com a ordem que lhe tinha sido dada. - Preparem um salto para Lavos-329. Se os alvos se aproximarem a mais de um quilómetro saímos daqui.- ordenou o Comandante para a Navegação, voltando de seguida a sua atenção para o mapa táctico e vendo os dois alvos a aproximarem-se a uma velocidade cada vez maior.- Só espero que o Ossan não faça nada de estúpido!!- murmurou ele baixinho para si mesmo. Sheba não sabia bem explicar o seu pressentimento. Talvez fosse o resultado de uma série de yahrens a combater no espaço, primeiro a bordo da Estrela-de-Batalha comandada pelo seu pai, a Pegasus e depois a bordo da Galactica. Algo lhe dizia que havia perigoso naquela zona do espaço que se aproximava. - Estás a ver algo de esquisito, Dietra?- perguntou ela deixando de pressionar o botão dos turbos. - Negativo! Segundo os sensores não há nada ali em frente...- respondeu a sua parceira de voo, cortando também os turbos e alinhando-se junto ao Viper de Sheba.- Vou aumentar a potência..... A Capitã fez a mesma coisa, seleccionando a opção correcta para tal. De imediato o monitor que mostrava os dados colhidos pelos sensores mudou de aspecto, mostrando uma grelha de busca muito menor, centrada na dianteira do Viper. Aparentemente os sensores não estavam a captar nada de anormal, mas mesmo assim Sheba continuava com o seu pressentimento. - Acho que tenho aqui qualquer coisa......- disse de repente Dietra, virando o seu Viper para a direita e dando-lhe alguma aceleração. Sheba fez o mesmo e imediatamente viu aquilo a que a Tenente se referia. Ou melhor não viu, pois segundo os sensores havia ali dois objectos indefinidos que estavam a absorver as emissões dos aparelhos de detecção dos Vipers. - Os meus sensores não conseguem identificar o que está ali!- disse Sheba, contactando depois o resto da Frota e dizendo-lhes o que se estava a passar. Enquanto falava, Sheba fitava o sector do espaço onde estavam os tais objecto. Aos poucos começou a reparar em algo de estranho. No local onde os sensores diziam que havia algo não se viam estrelas. Realmente havia ali dois objectos maciços que estavam a tapar a luz das estrelas e que eram tão negros como o espaço. Mudando de frequência avisou Dietra da sua descoberta, perguntando depois: - Que fazemos?? - Não sei.- respondeu a Tenente com toda a sinceridade. - O que serão estas coisas? - Também não faço a mínima ideia, mas de certeza que não é nada dos Cylons porque senão já teríamos sido destruídas. - Nisso tens razão.... Sheba pensou no que devia fazer, pesando os prós e os contras. No fim a sua natureza impulsiva, um "presente" do seu pai, o lendário Comandante Cain, fez com que tomasse uma decisão. - Vamos avançar mais um pouco, Dietra. Pode ser que se estivermos mais perto os sensores consigam mais dados.... - Mais perto? - Vamos avançar até oito hectares de distância.. - Será seguro?? - Se não nos atacaram até agora, não penso que o venham a fazer.- disse Sheba, avisando depois a Frota do que ia fazer. Após terminar a comunicação, carregou no botão que accionava os turbos, encurtando a distância para os alvos. - Vamos só dar uma espreitadela....- disse ela, tentando parecer confiante.- É só chegar até ali e voltar para a Frota.... Dietra ia começar a dizer qualquer coisa mas foi interrompida pelos alarmes dos seus sensores. Também no Viper de Sheba se faziam ouvir os mesmos alarmes, mas esta parecia paralisada com o que tinha visto. Por breves momentos parecia que o espaço à sua frente se tinha iluminado com quatro sucessivas explosões de luz. Essas explosões tinham-lhe permitido vislumbrar uma nave negra em forma de estilete. Finalmente o inimigo tinha uma cara! O Capitão Lopes fitou o mapa táctico, incrédulo. Tinha estado a seguir com atenção a movimentação de Alfa 1 e 2. Os dois alvos depois daquela aceleração súbita tinham parado a cerca de um quilómetro das naves de reconhecimento. A pausa fora momentânea pois após cerca de um minuto tinham acelerado novamente, directamente na direcção da Dakar, que era a nave que estava à frente. E nesse momento a Dakar tinha disparado quatro mísseis na direcção de Alfa 1 e 2. - A Dakar disparou quatro mísseis!!- berrou o oficial encarregue da Secção de Armamento, esquecendo-se que o Capitão da nave tinha acesso aos mesmos dados que ele.- 1 minuto para o impacto. - Preparar para o salto!!- ordenou Lopes ao oficial da Navegação. Pela cabeça passou-lhe um pensamento que o deixou aterrado. Com aquele acto Ossan podia ter começado uma guerra interestelar! As luzes da Lisbon passaram para vermelho ao mesmo tempo que se fez ouvir uma voz metálica que fazia uma contagem decrescente. Assim que a voz atingiu o zero, o espaço à volta da nave pareceu iluminar-se por breves segundos e ela tornou-se como que transparente antes de desaparecer completamente. Os sensores ópticos no casco da Dakar detectaram esse fenómeno e, passados alguns segundos a mesma coisa aconteceu com ela, saltando na direcção de Lavos-329, deixando para trás o anel de asteróides. Sheba e Dietra não viram o espectáculo de luzes provocado pelas duas naves que partiam pois estavam muito ocupadas a tentarem manter-se vivas. Os dois Vipers faziam manobras desesperadas para se livrarem daqueles estranhos objectos que os perseguiam. - Frack!!- praguejou Sheba, fazendo o seu caça girar sobre a asa esquerda e activando os turbos no exacto momento em que um dos objectos passava pelo local onde o tinha estado à momentos.- O que são estas coisas? - Não sei, mas não me parece que sejam caças....- disse Dietra, acelerando e fazendo um loop com o Viper, endireitando-o logo de seguida e fazendo-o girar para a direita.- .......são pequenos demais para ter tripulantes. Nunca passou pela cabeça delas que aqueles objecto pudessem ser mísseis porque os mísseis que a conheciam eram enormes, sendo utilizados apenas por Estrelas-de-Batalha para atacar Naves-Base Cylons e vice-versa. As forças militares das Colónias nunca tinham pensado em utilizar mísseis de tamanho reduzido e de grande velocidade para combates entre naves, mas os seus irmãos terrestres já os utilizavam desde do século vinte, limitando-se a adaptá-los ao século vinte e três. Os mísseis disparados pela Dakar eram capazes de atingir velocidades muito superiores aquelas conseguidas por um caça de origem terrestre e por isso conseguiam acompanhar mais ou menos a velocidade de um Viper a utilizar os turbos. Mas a verdade é que tanto Dietra como Sheba não podiam estar sempre a utilizá-los pois antes daquele encontro já estavam com pouco combustível. - Isto está mau!!!- disse a Tenente, verificando os seus instrumentos e apercebendo-se disso.- Os meus tanques estão a 25%!! Sheba nada disse, lançando um olhar para o painel do seu Viper. A situação dela era pior pois as reservas estavam já perto dos 10%. Durante a travessia da passagem e na subsequente espera do outro lado do campo de asteróides ela tinha gasto imenso combustível pois tinha andando de uma lado para o outro, verificando a condição da Frota. Mais tarde ou mais cedo ela teria de deixar de utilizar os turbos. Os mísseis estavam a sofrer dessa mesma falta de combustível. De facto eles eram construídos para voarem apenas cerca de dois minutos pois esse era o tempo mínimo para atingirem um alvo. É claro que nunca ninguém havia pensado que eles teriam que perseguir um alvo que tinha a mesma velocidade deles. Os dois mísseis que perseguiam o Viper de Sheba tinham sido os primeiros a ser lançados e por isso estavam quase sem combustível. O computador que comandava um deles decidiu que a perseguição já não tinha sentido e fez detonar a sua ogiva, autodestruindo-se. O segundo míssil estava a tomar a mesma decisão no exacto momento em que Sheba cometeu um pequeno erro, não acelerando de imediato após sair de uma curva. Vendo essa oportunidade o computador do míssil aumentou a potência do seu motor, gastando as últimas gotas de combustível e aproximando-se da parte traseira do Viper, explodindo a cerca de um metro do caça. A explosão destroçou a asa esquerda do Viper, assim como o motor traseiro desse lado, enchendo a estrutura do caça com estilhaços. Sheba foi lançada para a frente com o impacto, forçando os cintos, e, apesar do capacete, desmaiou ao embater contra o painel de instrumento. A última coisa que sentiu foi o seu Viper entrar em espiral totalmente descontrolado. - Sheba!!- berrou Dietra enquanto manobrava o seu caça na direcção do Viper da sua comandante de Esquadrilha, sem nunca largar o botão do turbo. A alguns metros atrás de si, um dos mísseis que a perseguia autodestruiu-se e, passados alguns segundos, o outro fez a mesma coisa. Nenhum dos dois estava no entanto perto o suficiente para atingir Dietra. O Viper de Sheba acabou por estabilizar, parando por completo no espaço no momento em que os computadores de bordo desligaram o combustível aos motores. A Tenente aproximou-se lentamente do outro caça. O lado esquerdo do Viper estava totalmente desfeito e enegrecido, coberto de buracos de onde saíam pequenas faíscas, um sinal de que alguns circuitos internos tinham sido atingidos e estavam em curto-circuito. Felizmente a parte do cockpit parecia intacta, afinal de contas era a mais bem protegida de um Viper, e os sensores de Dietra captavam sinais de vida. Mas mesmo assim era preciso tirar Sheba dali rapidamente pois mais tarde ou mais cedo o suporte de vida acabaria por falhar. - Daqui fala a Tenente Dietra!!- disse a Guerreira, escolhendo a frequência da Frota.- A Capitã Sheba foi atingida e precisa de ajuda imediatamente!!! Ela repetiu a mensagem mais duas vezes até que ouviu a voz de um dos Guerreiros da sua Esquadrilha. - Sim, senhora!! Nós estamos a ver se mandamos para aí um dos vaivéns de salvamento mas ainda pode demorar .... - Como assim??- perguntou Dietra, incrédula com o que tinha ouvido. - A senhor ainda não sabe??? - Não sei o quê??- disse ela, pensando que toda a situação parecia irreal, pois havia uma vida em perigo e ela estava ali a conversar. - A Galactica está-se a preparar para atravessar a passagem à velocidade da luz e os Cylons estão mesmo atrás dela...... Com estas palavras Deitra percebeu as razões das dificuldades em arranjar ajuda. Se a Frota fosse atacada de certeza que os vaivéns de salvamento iriam ter muito que fazer..... - Compreendo. Mas assim que puderem mandem ajuda..... - acabou ela por dizer. - Com certeza Tenente. Nós nunca abandonamos um dos nossos!- respondeu o Guerreiro cuja voz ela ainda não tinha identificado. Mesmo assim, Dietra disse: - E boa sorte para vocês todos. Que os Senhores de Kobol vos acompanhem! - Obrigado, para vocês também!- respondeu o outro piloto, terminando aí a comunicação. Dietra desligou os motores e alinhou o seu Viper com o de Sheba. Agora só lhe restava esperar. Capítulo 8 "Você tem a mínima ideia do que fez, Comandante Ossan???", berrou mentalmente Trent para a imagem do Capitão da Dakar, " Para além de ter desobedecido a uma ordem directa minha, é claro!!" " Eu sei que desobedeci, mas a verdade é que achei que a minha nave estava em perigo.......", respondeu Ossan, não parecendo minimamente embaraçado ou preocupado com a situação. " Ao fim de trezentos anos de estudos sobre como efectuar um contacto com uma raça extraterrestre viva, o que é que você faz??? Desrespeita os Protocolos de Primeiro Contacto e dispara sobre os extraterrestres!!!!! "Eu fiz o que achei correcto......" "Ossan, eu só não mando prender porque neste momento preciso de todas as naves, mas fique a saber que assim que voltarmos a Gibraltar vou fazer com que você seja levado a um Tribunal Militar, entendido?" O Capitão da nave de reconhecimento limitou-se a abanar afirmativamente com a cabeça e Trent, apesar de saber que a imagem que tinha perante os seus olhos não passava de algo gerado pela I.A. da Dakar, podia jurar que o seu subordinado apresentava um pequeno sorriso de desprezo, como que a dizer que a ameaça de Trent não passava disso mesmo, de uma ameaça. "Dispensado!", disse ele, abafando um súbito acesso de raiva. Sem mais palavras, Ossan quebrou o contacto com o Capitão da Washington e este último viu-se finalmente a sós com o outro Comandante que, até então, se tinha limitado a ouvir a conversa. "Muito bem, Comandante Lopes.", começou William a dizer, enquanto que acedia aos dados que as naves de reconhecimento tinham recolhido, " Qual é a sua opinião em relação aquilo que viu?" Lopes hesitou um pouco antes de dizer algo e quando o fez foi com muita cautela. "Para começar, acho que se pode dizer com toda a certeza que aqueles não são os piratas que procuramos..." " A não ser que eles tenham acesso a naves de fabrico extraterrestre...", disse Trent, consultando os perfis e os desempenhos das naves que tinham sido observadas pela Dakar e Lisbon. " Isso não me parece possível....Mesmo que eles tivessem tido acesso a tecnologia extraterrestre o mais provável é que não a conseguissem utilizar." "Nisso tem razão....os nosso cientistas passaram quarenta anos a investigar a nave encontrada em Plutão e ainda não chegaram a lado nenhum........" "Mas ao menos já a conseguiram relacionar com os vestígios encontrados na Lua e em Marte...A origem parece ser a mesma........" Estas palavras fizeram com que Trent se lembrasse do seu último ano de curso, altura em que tinha estagiado 6 meses na Base de Marte e 6 meses em Gagarinegrado, na Lua. Como oficial da Marinha da Força de Defesa Terrestre tinha tido acesso às chamadas "Áreas Vermelhas" desses dois planetas, os locais onde existiam vestígios de uma civilização extraterrestre já desaparecida. Durante o século XX, inúmeras pessoas tinham afirmado que esses vestígios existiam, baseando-se em análises feitas a imagens da agora extinta NASA ou em convicções pessoais a roçar o fanatismo. Com a colonização desses dois planetas no século XXI, todas as dúvidas foram desfeitas, para gáudio dos que ainda acreditavam que ditos vestígios existiam. Os vestígios eram agora guardados de perto pelo Exército e pelo Governo Central Terrestres enquanto eram estudadas a fundo. Essas medidas tinham sido tomadas porque, numa altura em que a presença de forças de segurança de qualquer tipo era meramente simbólica, os primeiros colonos tinham começado a fazer autênticas peregrinações a esses locais e, com a chegada dos primeiro turistas, tinha surgido um verdadeiro mercado de recordações. Com medo que vestígios tão importantes fossem destruídos, tal como acontecera a vários locais históricos da Terra, pela ganância dos vendedores de recordações e visitantes incautos, o Governo Central Terrestre, numa medida muito contestada na altura, tinha proibido momentaneamente os voos turísticos para esses planetas, enquanto providenciava a deslocação apressada de forças do Exército e da Força Aérea para tais locais. Agora, as ruínas estavam rodeadas por zonas de minas, cercas laser, sensores térmicos, de movimento e de infravermelhos e patrulhadas por elementos do Exército com ordens para abater qualquer elemento estranho. Mesmo assim, quase todos os dias havia pessoas que, se tivessem sorte, eram apenas presas ou feridas ou, no caso de terem azar, morriam, numa tentativa fútil de ver mais de perto ou mesmo arranjar pequenos fragmentos das ruínas. "Poderá ser alguma espécie de frota invasora??", perguntou ele a Lopes depois da sua momentânea divagação. " Não temos elementos para tirar tal conclusão", respondeu prontamente o outro Comandante que, logo após o seu contacto com os extraterrestres tinha feito essa pergunta a si mesmo. " A presença de naves equivalentes aos nossos caças pode apontar nessa direcção, não acha?" " Não sei.......não sei bem explicar, mas a verdade é que não fiquei com a impressão de que fosse uma frota de invasão..." "De certeza que deve ter uma alguma razão para pensar assim, Comandante Lopes..." O Capitão da Lisbon hesitou novamente antes de prosseguir. Nunca gostara de se precipitar, especialmente numa situação delicada como aquela. "Bem.......para começar acho estranho o facto de não haver, para além dos caças é claro, nenhum tipo de nave igual. Aquela frota parece uma amontoado de naves e não uma formação militar....." Trent confirmou essa informação acedendo novamente aos dados das naves de reconhecimento e fazendo depois um gesto para que o seu subordinado continuasse. "Para além disso, tal como se pode ver nos nossos dados, os caças parecem estar a proteger as naves maiores, pouco se afastando delas. Se aquilo fosse uma frota invasora, o mais lógico é que parte dos caças estivesse a servir de guarda avançada enquanto que outra parte estaria de guarda. Mas neste caso, vemos todos os caças a guardar a frota. Apenas mandaram dois para nos investigar........" "Realmente, tenho que concordar com a sua análise, Comandante Lopes, e ela lança outras questões, nomeadamente onde está a nave-mãe desses caças? Pelo que eu vi dos vossos dados, nenhuma das naves da Classe A aparenta ter capacidade para lançar e recolher tantos caças.........." " A única maneira é dividindo os caças por várias naves, mas isso não me parece provável......." "Isso pode querer dizer que se calhar ainda não vimos toda a frota inimiga, certo?" "Sim, Comandante! O resto pode estar muito bem do outro lado do anel de asteróides....." "Muito bem, Comandante Lopes. Parabéns pela sua análise!", disse Trent, preparando-se para acabar com a conversa, "Esteja preparado para partir daqui a dez minutos. É só o tempo de avisar o Comando Central das nossas intenções e partimos." "Muito bem, Comandante!", respondeu Lopes, lembrando-se de seguida que ainda lhe faltava abordar um assunto: "Já me ia esquecendo, mas tenho um problema com a minha I.A........ "Como assim???"- perguntou William. O outro Comandante explicou-lhe tudo que se tinha passado, salientando o facto da própria I.A. dizer que tinha detectado um erro interno. Trent ouviu com atenção o que lhe era dito, pois sabia como aquele problema podia ser grave. As I.A. eram relativamente recentes e ainda um pouco desconhecidas, mas, mesmo assim, a maior parte dos sistemas das naves, quer comercias, quer militares, estavam já subordinados a elas. Numa nave militar uma I.A. defeituosa podia significar a morte em combate. "Acha que pode combater, se tal for necessário?", perguntou Trent, finalmente. "Tenho a certeza que sim.......Só que vou ter de lutar sem ela pois desliguei-a. O computador de bordo pode assegurar todas as funções...." "Muito bem!", disse o Comandante da Washington, "Ainda bem porque acho que vamos precisar de todas as naves....." Lopes assentiu com a cabeça, despedindo-se de seguida. Após estar sozinho, William abriu os olhos e virou-se na direcção do oficial encarregue das Comunicações, ditando-lhe a mensagem para o Comando Geral do Almirantado, situado no asteróide Gibraltar da Cintura de Asteróides do Sistema Solar. - Mande-a com o máximo de prioridade, Tenente!- ordenou ele. - Sim, Capitão!- respondeu o oficial das Comunicações, acabando depois de codificar a mensagem e enviando-a de imediato. Uma das sondas de comunicação da Washington soltou-se do casco e afastou-se rapidamente da nave. Após estar a uma distância segura e sem qualquer objecto por perto a sonda saltou na direcção de Gibraltar. Esta era a forma mais rápida que havia de comunicar entre diferentes pontos na imensidão do espaço. As sondas estavam equipadas com o mais pequeno motor de salto que havia e que também era o mais potente, permitindo-lhe chegar ao seu destino em pouco menos de um minuto. Em Gibraltar a sonda seria recolhida, a sua mensagem lida e de seguida, após as células energéticas do seu motor estarem carregadas, saltaria de novo para junto da sua nave de origem com uma resposta do Almirantado. Ao todo a operação deveria demorar uns sete minutos. Era esse o tempo que a patrulha comandada por Trent tinha que esperar antes de agir. A primeira coisa que Sheba pensou ao acordar foi que estava cega. A escuridão que a rodeava era total, parecendo querer abafá-la. "Acalma-te, mulher!!", disse ela para si mesmo, controlando-se e tentando-se endireitar no seu assento. O capacete parecia pesar toneladas mas a verdade é que provavelmente este tinha-a salvo de um traumatismo grave, pois ao estender a mão direita para a frente, para se apoiar, sentiu a mossa que tinha feito no painel de comandos do Viper. Quando finalmente levantou a cabeça do painel de comandos, espreitou pela carlinga do seu Viper e, aos poucos, começou a distinguir o brilho fraco e baço das estrelas que a rodeavam. Ao virar a cabeça para o lado esquerdo teve que abafar um grito de dor. Havia algo nela que estava mal. Provavelmente tinha deslocado o ombro e dado um jeito ao pescoço aquando da explosão. De certeza que tinha sido o cinto a fazer-lhe aquilo! "Não há problema.....trabalho apenas com o outro lado....", pensou ela, como que a reassegurar-se de que tudo iria correr bem. "A primeira coisa a fazer é restaurar a energia de novo...." Como o painel à sua frente estava destruído, procurou com a mão direita os comandos secundários da energia. Os botões aí presentes tinham três posições: LIGADO, EM ESPERA e DESLIGADO, estando de momento na posição do meio. Seguindo os procedimentos de emergência, que todos os Guerreiros sabiam de cor, levou-os por momentos à posição de LIGADO e de seguida para EM ESPERA. Logo a seguir repetiu a operação, deixando-os na primeira posição. Duas das três luzes indicadoras dos geradores, ligaram-se e permaneceram verdes, sinal de que estavam em funcionamento. A terceira luz nem sequer se ligou o que era mau. "Bem, dois geradores em três é melhor que nada......", pensou Sheba. Cruzando o seu braço direito, tacteou os painéis do lado esquerdo até descobrir o interruptor que ligava o monitor secundário desse lado. Depois de o ligar, virou lentamente a cabeça, mordendo o lábio para não berrar de dor. Ao ver o que o monitor mostrava pensou que o melhor era mesmo berrar pois o que enchia o monitor era uma lista dos sistemas danificados e esses últimos não eram poucos. O seu comunicador não funcionava assim como os sensores, uma série de sistemas secundários e, aparentemente, os turbolasers.- "Ao menos o gerador de campo funciona, senão andava por aqui a flutuar..." Esse sistema era um dos pontos fulcrais de todos os Vipers e de todas as naves coloniais, pois projectava um campo gravitacional à volta da nave onde estava instalado permitindo que as pessoas se deslocassem normalmente dentro destas e permitindo também que as ditas naves fizessem uma série de manobras que seriam impossíveis apenas com propulsores normais. Por causa da sua importância esse gerador, para além de ser totalmente blindado tinha a sua própria fonte de alimentação o que lhe permitia funcionar apesar dos danos. "Agora vamos lá ver se os motores funcionam..........", começou Sheba a pensar quando algo no seu campo de visão a fez parar. Por momentos algo iluminou o seu cockpit com uma luz vermelha. Ela olhou em frente e o fenómeno repetiu-se. Rapidamente identificou aquela luz como disparos de turbolasers. - "É claro, a Dietra ainda deve andar por aí!!!" Como que a confirmar a sua ideia o Viper da Tenente passou lentamente à sua frente, abanando as asas numa tentativa de comunicação, antes de parar ao seu lado direito. Sheba olhou e viu a figura da outra Guerreira no seu cockpit a levar uma das mãos à zona dos ouvidos sobre o capacete. A Capitã deduziu que Dietra lhe estava a perguntar se ela tinha as comunicações em funcionamento e portanto fez um sinal negativo com a mão direita. Dietra abanou a cabeça, confirmando que havia percebido e de seguida fez uma série de sinais gestuais indicando a Sheba quais os principais danos externos no seu Viper. A Capitã deu graças aos Senhores de Kobol por nunca ter adormecido nas aulas de linguagem gestual da Academia, como acontecia com grande parte dos Guerreiros que achavam que aquela método arcaico não interessava. Fazendo sinal que tinha percebido tudo, Sheba voltou a dedicar-se ao problema que tinha em mãos. Dietra tinha-lhe dito que o lado esquerdo do Viper estava muito danificado o que explicava porque que é que o terceiro gerador, que era o que estava precisamente desse lado, não funcionava. E como os geradores estavam incorporados nos motores, isso queria dizer que esse também não devia funcionar. Levando novamente a mão direita aos comandos do lado esquerdo, bombeou todo o combustível do depósito esquerdo para os outros dois depósitos e de seguida ligou a alimentação de combustível para o motor central e da direita. Tal como os botões dos geradores também os botões que controlavam os motores tinham três posições. Sheba repetiu o processo anterior, levando os dois botões momentaneamente até à posição de LIGADO, o que fazia começar o processo de ignição dos motores. Quando o fez pela segunda vez, deixando-os na posição de LIGADO, sentiu o Viper começar a tremer, um sinal seguro que tinha propulsão. Olhando para o lado viu que Dietra tinha avançando um pouco, de forma a ver os motores do seu Viper e que lhe estava a fazer um sinal que tudo estava bem. Sheba fez-lhe o sinal para que ela avançasse pois não tinha sensores e Dietra assim fez, dirigindo-se na direcção da Frota, com a Capitã atrás dela. Procurando uma posição confortável, Sheba concentrou-se em pilotar o Viper que respondia lentamente aos seus comandos. Embora nenhuma das duas Guerreiras soubesse, toda aquela zona estava prestes a tornar-se num campo de batalha.... - Quanto tempo falta para que a Esquadrilha Lança de Prata esteja recolhida?- perguntou Apollo a Tigh. Este último fez uma consulta breve ao seu computador portátil antes de responder: - Cerca de um centon e meio. Um dos Vipers está a ter problemas........ - Não é nada de grave, espero......- disse o Comandante que sabia que na batalha que estava prestes a começar todas as naves contavam. - É um problemas nos turbos...o Viper não consegue acompanhar os outros à mesma velocidade por isso eles abrandaram..... Por momentos, Apollo pensou em ordenar à Esquadrilha que abandonasse o Viper avariado, mas a verdade é que ele não tinha coragem para tal, pois ainda era atormentado pelo facto de ter abandonado o seu irmão, Zac, durante a emboscada Cylon em Cimtar. Ele pura e simplesmente não podia pedir aos Guerreiros sob o seu comando que fizessem algo do género. - Quanto tempo demora a Nave-Base Cylon a chegar? - perguntou então Apollo, desviando a conversa e também os seus pensamentos daquele assunto. - À presente velocidade, chegará daqui a dois centons.......- respondeu Tigh.- Mas não percebo porque é que ainda não lançou os seus Raiders..... - Talvez estejam com algum problema?- retorquiu o Comandante com pouca convicção pois em toda a sua carreira de Guerreiro raras tinham sido as vezes em que tinha visto os Cylons a sofrerem de problemas. Eles eram extremamente metódicos em tudo que faziam. - Ainda bem que assim é, pois não temos tempo para nos envolvermos numa luta....O importante é irmos ter com o resto da Frota. Todos juntos temos mais hipóteses de sobreviver..... - Assim que os Vipers da Lança de Prata estiverem todos recolhidos, devem ser reabastecidos de imediato e preparados para lançamento. Quando chegarmos junto da Frota quero lança-los de imediato, assim como a Esquadrilha Azul. Há um espaço de meio centon que temos que aproveitar. É aí que vamos acelerar até à velocidade luz..... - Também temos que reabastecer as outras duas Esquadrilhas que estão do lado de lá.... - Claro, assim que lançarmos as outras, recolhemos a Esquadrilha Vermelha e a Verde. - Muito bem, não estou a ver nenhuma falha nesse plano....... - Infelizmente Coronel Tigh, a grande verdade é que a maior parte dos planos falham assim que entram em contacto com o inimigo.....- disse Apollo, não podendo confessar o que sentia, nem mesmo a Tigh. A sombra do seu pai pairava sobre ele e por isso interrogava-se constantemente sobre o que faria Adama naquela situação. Os anos de experiência que Adama tinha eram indispensáveis em batalha e o seu filho tinha noção disso.... Enquanto Apollo estava imerso nos seus pensamentos, Tigh consultou o seu computador pessoal, acedendo à mensagem que tinha acabado de receber. Ao lê-la, um sorriso espelhou-se no seu rosto. - Boas notícias, Apollo! Os prisioneiros já estão no Centro de Detenção. - O Coronel Croft não teve problemas a escoltá-los até lá? - Nenhum! Os prisioneiros portaram-se perfeitamente. - respondeu Tigh, consultando de novo o seu computador, antes de continuar.- Aliás, o Capitão Griffin até enviou uma mensagem agradecendo o facto de o Comandante ter mantido a sua palavra e não os ter enviado para a Nave-Prisão. - Eu sou um homem de palavra, mesmo quando se trata de traidores à Humanidade.- respondeu Apollo, afastando o olhar do ecrã onde estava o tempo estimado de chegada da Esquadrilha Lança de Prata e fitando Tigh.- Assim que sairmos desta situação, espero que eles sejam julgados pelo Conselho dos Doze e condenados ao desterro. Não podemos tolerar Humanos que põe em perigo outros Humanos!! Como se já não bastassem os Cylons.... - Já que tocou no assunto, à bocado falei com o Capitão Boomer e ele foi visitar a Athena........ - Como é que ela está?- inquiriu o Comandante que durante a emissão feita pela irmã se tinha apercebido de que ela ainda estava a sofrer os efeitos do acidente. - Após a transmissão, os guardas pessoais de Sire Digor levaram-na de volta para o Centro Médico e ela está agora de novo sob observação médica. - A Cassie está com ela? - Sim.....- disse Tigh, sendo interrompido pelo grito do Oficial de Voo Omega: - A Nave-Base acaba de lançar Raiders. Tempo estimado de chegada meio centon!!! - Frack!!- murmurou Apollo, dizendo depois para o Coronel:- Lá se foi o nosso avanço......Quanto tempo falta para os Vipers chegarem? - Meio centon também.....- respondeu Tigh com o mesmo tom de voz preocupado. - Assim que entrarem no hangar temos de arrancar para a velocidade da luz!!! Avise os pilotos dos Vipers disso, se faz favor! - Claro, Comandante! - Se ao menos tivéssemos tido aquele meio centon de avanço....... Na Ponte da Nave-Base, não se notava nenhum actividade fora do normal nem nenhuma excitação especial por se estar quase a entrar em combate. A maior parte dos Cylons não sabia o que eram emoções: medo, amor, coragem eram conceitos abstractos que os seus cérebros mecânicos atribuíam apenas aos Humanos e que tornavam estes últimos perigosos pois faziam com que fossem imprevisíveis. É claro que o Primeiro-Centurião era uma excepção à regra nos Cylons e naquele exacto momento, na altura em que a primeira vaga de 100 Raiders saía dos hangares da sua nave, sentia algo parecido com orgulho. A Galactica tinha sido apanhada desprevenida e longe da Frota, sendo um alvo fácil para os seus Raiders. O facto de que em outras ocasiões, muitos outros ataques como aquele terem corrido mal para os Cylons não o preocupava pois para começar tinha aquele "algo" não existente, aquela "sorte" do seu lado e depois os seus pilotos eram todos veteranos da Guerra, tendo sido remetidos para aquela fronteira esquecida exactamente por já serem velhos. Aquele ataque podia ser a sua porta de saída dali. Se conseguisse destruir a Galactica de certeza que receberia um terceiro cérebro e seria transferido para outro local do Império. Se a "sorte" o continuasse a acompanhar, talvez conseguisse atingir até o lugar de Líder Imperial. Afastando esses pensamentos dos seus centros de processamento, fez girar o seu pedestal na direcção do Centuriões que ocupavam os diferentes postos da Ponte. De imediato um deles levantou-se e disse: - Pelo seu comando! - Qual é a situação dos Raiders? - Daqui a dez microns alcançam a Galactica. - E qual é a situação da Galactica? - A Galactica está a recolher os seus Vipers. O último deve aterrar daqui a cinco microns. - As baterias laser da Galactica já abriram fogo? - Não. Ao ouvir esta informação o segundo cérebro do Primeiro-Centurião começou a processar dados furiosamente. Em todos os encontros anteriores entre Estrelas-de-Batalha e Raiders, as primeiras haviam aberto fogo com as suas baterias laser assim que os Raiders estivessem a quinze microns de a alcançar. Se não o faziam era porque ainda havia Vipers nas imediações, o que não era o caso, ou porque estavam a dirigir a energia para outros sistemas e o único sistema que gastava tanta energia a bordo de uma Estrela-de-Batalha só podia ser... - Todos os Raiders devem afastar-se de imediato da Galactica. Suspendam o lançamento da segunda vaga! - Pelo seu Comando!- respondeu o Centurião. No espaço de microns o comando foi transmitido para os Raiders que se preparavam para atacar a Galactica e eles começaram a afastar-se do seu alvo a toda a velocidade. No entanto, o tempo estava contra eles pois o Primeiro-Centurião tinha demorado dois microns a analisar a situação e depois tinham-se perdido outros três microns a transmitir a ordem aos Raiders. Na altura em que os Cylons quebravam o seu ataque, o último Viper da Esquadrilha Lança de Prata aterrava na Galactica e esta acelerava até à velocidade luz. A Galactica pareceu começar a esticar-se cada vez mais, na direcção da passagem, até que por fim desapareceu dos sensores da Nave-Base. No entanto este desaparecimento deixou marcas pois alguns Raiders não se tinham afastado a tempo, sendo afectados pela aceleração da Galactica. Tal como tinha acontecido com esta última, os caças pareceram esticar-se cada vez acabando por explodir pois não estavam preparados para viajar a tal velocidade. - Quantos Raiders da Primeira Vaga é que perdemos? - perguntou o Primeiro-Centurião assim que recebeu a imagem de alguns dos seus caças a explodir. - Perdemos 10 Raiders da Primeira Vaga. O Comandante da Nave-Base ponderou então no que devia fazer. Tinha agora à sua disposição apenas 290 Raiders, o que era algo que o preocupava pois não sabia o que iria encontrar do outro lado. O que sabia é que os Humanos iriam lutar desesperadamente, com todos os meios à sua disposição. Mas, por agora o que interessava era não perder a Estrela-de-Batalha. - Acelerem para a velocidade luz. A Galactica não pode escapar! Assim que a alcançarmos lancem a Segunda Vaga. A Primeira Vaga deve seguir-nos à sua velocidade máxima. - Pelo seu comando! Com uma simples ordem para o computador central, a Nave-Base começou a ganhar velocidade, até ser tornar apenas mais um ponto no firmamento, no encalço da Galactica. "Cavalheiros, como já devem saber, acabamos de receber as ordens do Comando Central...., disse o Comandante Trent para os Capitães das naves que constituíam a sua patrulha, "....e elas são bastante explícitas! Vamos investigar aquela frota detectada pela Dakar e pela Lisbon e, se possível descobrir quais as intenções dela. Entendido?" "Sim, senhor!", disseram os outros quase que ao mesmo tempo. " Há ainda outro ponto que é necessário focar. Seguindo as ordens do Comando Central, todos vocês têm autorização para armarem os vossos mísseis nucleares....mas estes só devem ser disparados em último caso. Aliás, vocês só devem disparar se dispararem contra vocês e devem tentar acertar apenas na nave que disparou contra vocês!", fazendo uma pequena pausa, Trent virou-se mentalmente para a imagem de Ossan, antes de continuar, "O Comando Central frisou bem que não quer que se repitam cenas como as de hoje de manhã. Nós vamos tentar estabelecer contacto com eles e não desatar aos tiros....." Ossan não pareceu minimamente incomodado com as palavras do Comandante Trent, limitando-se a sorrir ironicamente, o que enfureceu o seu superior. Por momentos Trent brincou com a ideia de mandar prender Ossan imediatamente e passar o comando da Dakar para outro oficial, mas a verdade é que isso não seria o mais correcto, pois para todos os efeitos, assim que regressassem ao Sistema Solar, o Comandante Ossan seria levado a Tribunal Militar. Quando mandara a mensagem para o Comando Central, Trent mandado também uma pequena adenda com as acusações ao seu subordinado. "Alguém tem alguma pergunta a fazer?", perguntou ele, optando por ignorar a provocação do Comandante Ossan. "Vamos receber reforços?", acabou por inquirir o Capitão da Oslo e reflectindo uma preocupação que não era só dele. Quando se ia ao encontro de algo que até podia ser hostil, era bom saber que se podia contar com reforços. "O Comando Central ainda não deu a certeza, mas é possível que nos mandem um Grupo de Combate. De qualquer maneira se chegarem, só o farão daqui a três horas e meia...até essa altura estamos sozinhos. Há mais alguma pergunta?" Perante as respostas negativas, Trent acabou ali com a reunião, dando tempo para que os outros Comandantes explicassem as ordens às suas respectivas tripulações. Ele próprio fez isso, informando a sua tripulação do que se iria passar nas próximas horas. Passado um quarto de hora, Trent deu a ordem para que a patrulha abandonasse a órbita de Lavos-329. De seguida as naves começaram a afastar-se umas das outras, formando uma espécie de triângulo, até estarem à distância de segurança regulamentar para saltarem. Com uma eficácia que só era possível devido à coordenação total entre as I.A. das diferentes naves, a patrulha efectuou o salto ao mesmo tempo, cobrindo num abrir e fechar de olhos a distância até ao anel de asteróides. Capítulo 9 Sheba acordou com um salto, totalmente desorientada e não sabendo onde estava. Abanando a cabeça de um lado para o outro tentou clarear os pensamentos. "Devo ter batido com a cabeça com mais força do que pensava!"- pensou ela. Por momentos pensou em levantar o capacete e ver se tinha algum hematoma na testa, mas a verdade é que não tinha a coragem para o fazer. Já lhe bastava a dor no ombro esquerdo, não precisava de arranjar outra coisa para a preocupar. A sua visão toldou-se momentaneamente e ela abanou de novo a cabeça o que pareceu piorar a situação pois começou a ver tudo a cinzento, acabando depois por deslizar de novo para o negro da inconsciência. O desmaio foi apenas momentâneo pois Sheba acordou ainda antes de bater no painel de controlo à sua frente. Olhando para o lado direito viu que Dietra lhe estava a fazer uma série de sinais, perguntando-lhe o que se estava a passar. A Capitã respondeu, dizendo que tudo estava bem para que a sua companheira de voo não ficasse preocupada. Apesar da distância que separava os dois Vipers, Sheba viu a preocupação que Dietra tinha estampada no rosto. Desviando o olhar, a Guerreira começou a recitar de novo os procedimentos de emergência, vendo se não lhe tinha escapado nada. Era também uma maneira de se manter ocupada e acordada. Ela estava tão embrenhada naquele procedimento que nem reparou nos disparos de turbolaser do outro Viper. Quando finalmente reparou neles, olhou na direcção de Dietra que lhe fez sinal para que ela olhasse para a frente. Sheba assim fez, esforçando-se para discernir alguma coisa. De certeza que estavam a ir na direcção da Frota, portanto deveriam-se ver as luzes de presença das diferentes naves, mas este não era o caso. Se isso acontecia só podia ser porque a Frota estava a ser atacada! Esforçando ainda mais a sua visão, Sheba começou-se a aperceber de pequenas luzes que apareciam e desapareciam rapidamente e que só podiam ser tiros e explosões. Virando-se rapidamente para Dietra, perguntou-lhe o que os sensores estavam a detectar. A Tenente consultou o seu monitor e rapidamente fez um sinal que deixou Sheba aterrada. Uma Nave-Base!!! A Frota estava a ser atacada por uma Nave-Base!! - E a Galactica?- perguntou ela gestualmente na direcção do outro Viper. Dietra respondeu-lhe que a Estrela-de-Batalha estava com a Frota e que já estavam duas Esquadrilhas a combater os Cylons. A Esquadrilha Vermelha estava a ser chamada para ser reabastecida. Sheba não acabou de ver a mensagem da outra Guerreira porque desmaiou novamente, batendo com o capacete contra o vidro, enquanto o seu Viper começava a descer e a afastar-se em relação ao de Dietra. - Coronel Tigh, qual é estado da Frota?- perguntou Apollo, desviando os olhos do monitor que mostrava as imagens das operações de reabastecimento dos Vipers das Esquadrilhas Verde e Vermelha. Assim que um Viper aterrava era puxado até junto dos tubos de lançamento e reabastecido. Os Guerreiros saiam por momentos, para utilizarem as instalações sanitárias e para comerem e beberem qualquer coisa à pressa, voltando logo de seguida para os seus caças. Toda esta operação demorava cerca de três centons. - Já perdemos duas naves, a Letos e a Caribe.....Há uma terceira que está bastante danificada, mas a Esquadrilha Azul está a fazer todos os esforços para a proteger..... Apollo fez as contas mentalmente, a Letos era uma nave de transporte de passageiros, levando cerca de duzentas pessoas. Por sua vez a Caribe era uma nave de apoio logístico, com uma série de pequenas fábricas que construíam aparelhos utilizados no dia-a-dia da Frota. Como era practicamente automatizada e com pouco espaço para passageiros, tinha apenas cerca de trinta tripulantes. Ao todo tinham morrido duzentas e trinta pessoas só naqueles primeiros ataques. "Isso já são baixas de mais....nós somos tão poucos...", pensou o Comandante, abanando a cabeça e dizendo depois em voz alta.- Há mais baixas? Tigh consultou novamente o seu computador pessoal, antes de responder: - A Esquadrilha Azul perdeu três Vipers e a Lança de Prata, dois. - E as outras? - A Esquadrilha Verde está a aterrar agora, mas um dos seus Vipers está com problemas de motor e não vai conseguir sair de novo. Em relação à Esquadrilha Vermelha....Sheba e Dietra ainda vêm a caminho..... - Já me tinha esquecido desse pormenor.- disse Apollo, relembrando-se do relatório que tinha recebido assim que a Galactica tinha atravessado a cintura de asteróides, com a Nave-Base no seu encalço. Os dois Vipers tinham sido atacados por naves desconhecidas enquanto em patrulha. E isso levantava outra questão: - Por falar nisso, há algum sinal dessas tais naves? - Não, mas nós estamos a prestar atenção a esse sector. - Muito bem..... - Atenção, a Nave-Base está a lançar mais uma vaga de Raiders!!- disse de repente um Oficial de Voo. - Para onde se dirigem?- inquiriu de imediato Apollo. - Para nós! A resposta fez com que o silêncio se instalasse por momentos na Ponte. O plano dos Cylons era óbvio: enquanto uma vaga mantinha as Esquadrilhas ocupadas, atacando as naves civis da Frota, uma segunda vaga atacava a Estrela-de-Batalha. E o pior é que a Nave-Base ainda tinha mais Raider à sua disposição. - E a Nave-Base está a aproximar-se lentamente, por detrás da protecção dos Raiders....- disse então Tigh. - Quanto tempo falta para ficarmos ao alcance dos Mega-Pulsares dela? - Cerca de dez centons, se ela continuar à velocidade actual..... - Pode ter a certeza de que vai continuar. Nenhum Comandante Cylon se iria aproximar de nós enquanto tivermos os nossos mísseis operacionais pois o alcance deles é maior do que o dos Mega-Pulsares deles. Para já o que temos a fazer é continuar a lançar os Vipers das Esquadrilhas Verdes e Vermelha. Eles têm que nos proteger, enquanto que a Esquadrilha Azul e a Lança de Prata defendem a Frota. - Mesmo assim, contando já com as baixas, temos apenas noventa e dois caças contra as duas vagas de Raiders, ou seja , cerca de duzentos caças inimigos. Se eles lançarem uma terceira vaga..... - Aí estamos em apuros...- disse Apollo, com franqueza.- O melhor é preparar a Esquadrilha Dourada. Sempre ficamos com mais vinte e cinco Vipers..... A Esquadrilha Dourada era uma invenção de Adama para combater a falta de pilotos e era constituída por Guerreiros que ou já tinham passado para a reforma ou estavam a prestar serviço na Ponte e noutros sectores da Galactica. A sua utilização era sinal de que a situação era bastante grave. - Quem é que vai comandar essa Esquadrilha?- questionou Tigh, consultando no seu computador a lista dos Guerreiros que a constituiam.- Não estou a ver aqui ninguém.... - Eu vou, Coronel!- respondeu o Comandante, levantando-se da sua cadeira.- A Frota precisa de todos os seus Guerreiros. - Apollo, essa tua decisão não está certa! Imagina que te acontece qualquer coisa..... - Se tal for o caso eu sei que a Frota fica em boas mãos...- disse simplesmente Apollo, apertando o ombro de Tigh e olhando-o nos olhos.- Por alguma razão o meu pai sempre confiou em si......... O Coronel fitou Apollo e acabou por acenar com a cabeça, dando-lhe razão em todos os aspectos. Sem mais palavras, o Comandante desceu do Posto de Comando e saiu da Ponte, dirigindo-se para hangar onde estavam a preparar os Vipers da Esquadrilha Dourada. Dietra aproximou o mais possível o seu Viper do da Capitã, o que não era simples porque o Viper de Sheba continuava a afastar-se cada vez mais, totalmente fora de controlo. Levando os olhos aos sensores a Tenente viu algo ainda mais preocupante. As naves da Frota pareciam mergulhadas num mar de Raiders e, para além disso, a Nave-Base estava a aproximar-se cada vez mais da Galactica. Num abrir e fechar de olhos Dietra viu dois dos pontos que representavam Vipers desaparecer dos seus sensores. Num instante e de uma maneira que parecia simples, duas vidas humanas tinham sido simplesmente "apagadas". A Tenente desviou o olhar dos sensores, afastando da sua mente a mágoa ou qualquer outro tipo de sentimento. Ela sabia que iria haver muito tempo para isso, depois de estarem em segurança na Galactica. Voltando a sua atenção de novo para o Viper de Sheba, Dietra viu que este parecia estar a estabilizar o voo e, como que a confirmar isso, a Capitã endireitou-se no seu assento e fez um sinal de que tudo estava bem. Dietra comunicou-lhe por sinais que ia pedir de novo ajuda à Frota e, perante o sinal afirmativo de Sheba, assim fez. Desta vez a voz que lhe respondeu foi a do Coronel Tigh, informando-a da situação e dizendo-lhe que o melhor que tinham a fazer era esperarem no sector onde estavam até a situação se resolver. A Tenente respondeu afirmativamente, acabando a transmissão e informando Sheba do conteúdo da conversa. Antes que a Capitã pudesse responder, algo de muito estranho aconteceu a ambas. Por meros microns o tempo pareceu parar e logo de seguida voltar ao normal. Os próprio sistemas dos Vipers pareceram fraquejar momentaneamente. Quase que por instinto Dietra levou os olhos aos sensores. No sector que tinham abandonado tinham surgido dez naves que o computador não conseguia identificar e que se estavam a deslocar na direcção da batalha. A Frota tinha que ser avisada de imediato! O aviso de Tigh apanhou Apollo exactamente no momento em que o Viper deste saía lançado do respectivo tubo de lançamento. - Não se importa de repetir, Coronel?- disse o Comandante enquanto fazia o seu caça descrever uma volta, esperando pelo resto da Esquadrilha Dourada. - A Tenente Dietra acaba de avisar que surgiram dez naves de origem desconhecida no sector Delta F...... Com uma das mãos, Apollo programou o computador de bordo para mostrar um mapa do dito sector, ligando-se também aos poderosos sensores da Ponte da Galactica. De imediato os dez alvos surgiram no seu ecrã e era óbvio que vinham em direcção da Frota. - Os computadores da Galactica conseguem identificá-las?- perguntou Apollo que sabia que a Estrela-de-Batalha possuía um catálogo de naves muito mais vasto do que aquele que existia no computador de um Viper. - Negativo.- respondeu Tigh.- As Colónias não possuem o registo de nenhuma nave assim. - E quanto aos seus ocupantes? - Segundo os nossos sensores.........- começou Tigh a dizer, parando de repente e murmurando de seguida.- ......Não pode ser! - Que se passa?- inquiriu Apollo, que não estava habituado a ver o Coronel tão espantado. - Os sensores indicam que os seus ocupantes são Humanos como nós.- disse o Coronel, confirmando novamente os dados. - Não podemos tirar nenhuma conclusão disso. Não é a primeira vez que encontramos raças irmãs no espaço.... - O nível de tecnologia deles é bastante elevado se comparado, por exemplo, com Terra. Aparentemente possuem capacidade de voo hiperespacial........... Apollo pensou rapidamente no que deveria fazer. Quase que sem querer começou a pensar no que faria o seu pai numa situação semelhante. Os seus pensamentos foram abruptamente interrompidos pela voz do Coronel Tigh: - Acaba de surgir da passagem uma vaga de Raiders...... A Nave-Base deve tê-los deixado para trás quando veio atrás de nós..... Um sentimento de frustração invadiu o Comandante. Seria aquela a última batalha da Humanidade? Durante a sua longa viagem, a Galactica e o resto da Frota já tinham passado por inúmeras situações de perigo, mas aquela parecia ser a pior de sempre. O Comandante da Nave-Base estava a mostrar-se extremamente competente, ao contrário do que costumava acontecer quando Baltar comandava as operações contra eles. A sua frustração foi sendo lentamente afastada por um outro sentimento. Um ódio intenso começou a invadi-lo. Pela sua mente passaram as faces de todos aqueles que havia perdido na guerra contra os Cylons. As imagens de Zac, Serina, Boxey misturavam-se com a de muitos outros que ele conhecera e que já haviam partido para junto dos Senhores de Kobol. - Esquadrilha Dourada!- disse ele no circuito inter-naves, após alguns microns.- Formem na minha asa!!! Temos que proteger a Galactica enquanto a Esquadrilha Verde e Vermelha não são lançadas na sua totalidade. A sua ordem foi recebida com uma série de respostas afirmativas e rapidamente os outros Vipers começaram-se a alinhar junto do seu, até formarem uma linha recta. Olhando rapidamente para ambos os lados através do cockpit, Apollo fitou os outros caças. Muitos deles apresentavam claros sinais de idade e de inúmeros reparos apressados. A Esquadrilha Dourada só deveria ser utilizada em último caso. Era uma espécie de último recurso da Frota e por isso nunca tinha sido equipada com Vipers novos. Apollo prometeu a sim mesmo que se sobrevivessem a este confronto faria com que a Esquadrilha recebesse os primeiros Vipers a sair da linha de montagem da Hephaestus. - Coronel Tigh, em relação às naves desconhecidas....- começou o Comandante a dizer, voltando ao assunto inicial. Ele iria fazer aquilo que o seu pai faria.- Enviem uma mensagem de boas-vindas e de aviso às naves desconhecidas. Utilizem todas as frequências, incluindo aquelas sub-luz. Avisem-nos para não se aproximarem por causa dos Cylons. - Sim, senhor!- respondeu Tigh, parando por momentos, antes de acrescentar.- Boa sorte! - Obrigado.- respondeu Apollo simplesmente, encaminhando depois o seu Viper na direcção dos primeiros Raiders que se aproximavam da Galactica. A chegada das dez naves também não tinha passado despercebida a bordo da Ponte da Nave-Base. Os sensores da nave Cylon, tal como os da Galactica assinalaram a presença das naves assim que estas surgiram. Essa informação foi transmitida de imediato ao Primeiro-Centurião, que rapidamente a processou. - Os seus tripulantes são orgânicos?- perguntou ele ao Centurião que era responsável pelos sensores de longo alance. - Sim, os seus tripulantes são orgânicos. Perante esta nova informação, o Primeiro-Centurião voltou a processar o problema. Segundo os computadores centrais, encerrados nas profundezas da Nave-Base, as dez naves que tinham surgido do nada eram de um modelo nunca encontrado pelos Cylons. Isso poderia ser um problema pois as suas capacidades não eram conhecidas, dizia um dos cérebros do Primeiro-Centurião, mas o outro contrapunha que se os ocupantes das naves eram orgânicos, estas deveriam ser destruídos de imediato, sem se olhar a consequências. O Primeiro-Centurião optou por uma solução de meio-termo, mandando que dez Raiders da Primeira Vaga, acabados de emergir da passagem atacassem as naves desconhecidas. Desta maneira, iria avaliar as capacidades do inimigo. Se este se mostrasse difícil de destruir, ele poderia sempre mandar mais caças atacar. Com o problema resolvido, voltou de novo toda a sua atenção para a destruição dos Coloniais. A Terceira Vaga de Raiders estava a fazer uma progressão lenta em direcção ao centro da Frota, local onde se encontrava a Galactica, que continuava a lançar os seus Vipers. Consultando os dados dos sensores, o Primeiro-Centurião fez uma rápida operação matemática. A Segunda Vaga tinha perdido quinze Raiders no ataque às naves da Frota. A Terceira Vaga tinha perdido vinte e três caças enquanto tentava chegar à Galactica e a Primeira Vaga tinha perdido dez Raiders quando a Galactica arrancara para a velocidade luz. O ataque mais importante era o da Terceira Vaga pois só quando esta destruísse, ou pelo menos inutilizasse, os lançadores de mísseis é que a Nave-Base poderia atacar a Galactica directamente. É claro que esse ataque era o que estava a deparar com mais resistência por parte dos Coloniais e os seus dois cérebros calculavam que as probabilidades da Terceira Vaga atingir a Galactica com mais de 50% das suas forças eram bem baixas. Só havia uma maneira de inverter essa tendência. - Reduzam a nossa velocidade em 25%.- ordenou ele aos Centuriões que dirigiam a Nave-Base. - Velocidade reduzida em 25%. - Quanto tempo falta agora para a Galactica estar ao alcance dos Mega-Pulsares. - Com a redução de velocidade, o tempo estimado para a Galactica estar ao alcance dos nossos Mega-Pulsares é novamente de dez centons. - Mandem os Raiders da Primeira Vaga juntarem-se aos da Terceira Vaga. Atinjam a Galactica, custe o que custar. - Pelo seu Comando!- respondeu o Centurião que estava a coordenar as operações dos Raiders. Depois de dadas as ordens, o Primeiro-Centurião recostou-se na sua cadeira colocada no pedestal de comando e esperou pelo desfecho do ataque. As probabilidades estavam agora, teoricamente, a favor deles. Os 157 Raiders das duas vagas deveriam ser suficientes visto que, para já, os Coloniais apenas tinham a defender a Galactica o equivalente a duas Esquadrilhas, ou seja 50 Vipers. Apesar disso, o Primeiro-Centurião ouvia repetidamente uma pequena voz, vinda do seu cérebro orgânico, que lhe dizia que os Coloniais já tinham escapado de situações muito piores do que aquela. Com um encolher mental de ombros, o Primeiro-Centurião afastou essa voz e concentrou os seus dois cérebros electrónicos na batalha. Combatendo a desorientação habitual decorrente do salto hiperespacial, o Capitão Trent, pediu uma estimativa da situação. " Todas as naves da patrulha efectuaram o salto com sucesso. O desvio do salto foi apenas de 1.2 metros em relação ao estimado.", respondeu a voz feminina de Erika. "Obrigado e parabéns pelo excelente trabalho.", pensou Trent, enquanto afrouxava os cintos que o prendiam à sua cadeira de comando. " É sempre um prazer servir a Marinha da Força de Defesa Terrestre.", disse a voz dentro da cabeça de Trent, acabando a frase com uma risada quase que de criança. De facto, a I.A. tinha apenas três anos de idade, pelo menos ao serviço da Marinha na Washington, tendo passado o princípio da sua "vida" ligado aos poderosos computadores da Stark-Kyama aprendendo tudo o que era necessário para interagir com os computadores das naves da Marinha e com os Humanos. Era também nesse período de tempo que a I.A. começava a criar e a desenvolver a sua personalidade e se a maior parte delas eram simpáticas, havia também, esporadicamente, casos de I.A. que desenvolviam personalidades irascíveis e pouco cooperativas, acabando mais tarde ou mais cedo por ser apagadas. " Ainda bem que não apanhei com uma dessas!!!"- pensou Trent para si mesmo." Já me basta pessoas como o Ossan, só me faltava ter uma I.A. assim!!!" Abafando uma risada, o Capitão virou a sua atenção para o resto da patrulha. Uma rápida conferência com os outros Comandantes informou-o de que todas as naves da patrulha estavam em condições. Consultando os dados recolhidos por todos os sensores da patrulha, Trent começou a fazer um apanhado da situação. " Como já se devem ter apercebido, estamos perante um cenário totalmente diferente daquele encontrado pela Lisbon e pela Dakar", começou ele a dizer, perante o aceno afirmativo dos outros Comandantes: " Para começar, parece que encontramos a tal nave-mãe que faltava....." " E não é nada pequena.....", acrescentou o Comandante da Havana, partilhado os dados com todos os outros colegas. " Tem quase o dobro dos nossos Cruzadores de Batalha....." Uma imagem surgiu na mente de todos, comparando os dois tipos de naves. Os novos Cruzadores de Batalha Terrestres eram enormes, funcionando como autênticas naves-mães, albergando dentro de si cerca de 75 caças dos mais variados tipos assim como duas companhias de Fuzileiros Coloniais. Mas o que se destacava nelas não era isto mas sim o canhão magnético que ela possuía. Essa arma era tão maciça que, na realidade, a nave era construída à volta dela pois não era possível fazer uma nave e depois adaptar-lhe o dito canhão. A construção dessas naves era muito demorada, sendo por isso que até à data só tinham sido construídas três. Apesar disso, a nave-mãe dos extraterrestres era maior do que ela! Mas as surpresas não acabavam aí e o Comandante Trent apontou esse facto aos outros: " Para além desta dita nave-mãe, há ainda outra nave que merece a nossa atenção", com um mero pensamento, ele partilhou a imagem de outra nave. A reconstituição tridimensional mostrava uma espécie de dois discos ligados por uma grossa coluna central. " Esta nave também é de um modelo totalmente desconhecido por nós". Tren parou por momentos, deixando que os Capitães das outras naves "digerissem" esta nova informação. Passados alguns segundos continuou: " Na primeira incursão, a Dakar e a Lisbon detectaram cerca de 50 naves da Classe C....mas agora a situação modificou-se e segundo as nossas estimativas estamos agora perante 90 naves dessa classe. Para além dessas, temos ainda que contar com 157 naves dessa mesma classe, mas de um tipo que ainda não tínhamos encontrado". " E todas essas naves estão em combate umas com as outras.....", interviu o Comandante Ossan. " Estamos envolvidos em algo que não nos diz respeito....." O Capitão da Washington tentou suprimir o seu crescente desagrado com o seu subordinado antes de continuar com a sua exposição, mas mesmo assim não conseguiu deixar passar a ocasião sem o censurar: " Isto passou a dizer-nos respeito a partir da altura em que eles entraram nas nossas fronteiras e a partir da altura em que você abriu fogo contra eles, desrespeitando as minhas ordens directas....." Ossan abanou a cabeça, fazendo um sorriso displicente, e começou a dizer algo, mas foi interrompido por um alerta dado pela I.A. de todos os Comandantes. Trent não perdeu tempo e, dando por terminada a reunião, interrogou de imediato Erika: " Que se passa?" " Temos dez naves a dirigirem-se na nossa direcção. O tempo estimado de intercepção é de 5 minutos". "Mapa táctico", ordenou ele e de imediato a I.A. projectou-lhe na mente o item pedido. No mapa via-se claramente que dez naves de Classe C se estavam a aproximar da patrulha, vindas do cinturão de asteróides. Em voz alta o Capitão dirigiu-se então para os restantes tripulantes presentes na Ponte. - Meus senhores, espero que todos mantenham a calma e que não se repitam os erros que aconteceram da primeira vez. Lembrem-se que só podemos disparar se formos atacados! Perante o assentimento dos tripulantes, Trent abriu de novo a comunicação com o resto das naves da patrulha transmitindo essa mesma mensagem. A sua atenção centrou-se na figura mental de Ossan, que apenas se limitou a acenar com a cabeça, desligando de seguida a sua ligação. Depois de se despedir dos restantes Comandantes com um desejo de boa sorte, o Capitão ordenou a Erika que começasse a transmitir, em todas as frequências conhecidas, a mensagem criada no âmbito dos Protocolos de Primeiro Contacto. "- Bem-vindos aos territórios da Terra e da suas Colónias. Não vós desejamos nenhum mal. Somos um povo pacífico." - a mensagem começou a repetir-se nos altifalantes da Ponte de Comando da Washington, sendo apenas interrompida pela voz do operador do radar que acompanhava a rápida progressão das dez naves em direcção à patrulha. " Estou com um mau pressentimento quanto a isto", pensou Trent para si mesmo, não se atrevendo sequer a partilhar o seu pessimismo com Erika. Procurando uma posição melhor no assento, tentou limpar a sua cabeça desses pensamento, limitando-se a esperar para ver o que acontecia. - Frack!- berrou Starbuck, enquanto que o seu Viper era sacudido por uma violenta explosão. Abrindo os olhos e levantando a cabeça, o Guerreiro viu uma crescente nuvem de destroços a avançar na sua direcção. Com um rápido movimento dos controlos fez o seu caça passar por cima dos destroço de maior dimensão. Ainda antes dos sensores o fazerem , os seus olhos detectaram cinco Raiders que surgiam directamente à sua frente. - Acabamos de perder a Carídis!- disse ele na frequência da Frota, enquanto que accionava os turbos do seu Viper.- Mas eu vou apanhar os cabeças-de-lata que a destruíram!!! - Não faças nada de estúpido, Starbuck!- disse Boomer na mesma frequência. Este último estava a sair do Centro Médico quando o ataque Cylon fora lançado e perante a gravidade desse mesmo tinha pedido autorização para se juntar aos seus colegas de Esquadrilha. - Exactamente!- acrescentou a voz do Coronel Tigh.- Não nos podemos dar ao luxo de perder mais ninguém!! - Alguma vez me viram fazer algo estúpido?- respondeu Starbuck, tentando esconder o nervosismo com o seu habitual humor. - Pensei que já me conheciam!! - Starbuck......- advertiu simplesmente Tigh. - Eu sei, eu sei!!!- disse o Capitão, desviando o seu Viper de um destroço maior. Os Raiders continuavam a avançar na sua direcção, pelo meio do que restava da Carídis. Concentrando a sua atenção seus sensores, viu que o primeiro caça Cylon se encontrava no limite mínimo das dos seus turbo-lasers e sem hesitar disparou. Tal como esperava o Raider desviou-se de imediato para cima e para a esquerda, embatendo contra um destroço de grandes proporções e explodindo. - Vocês são muito previsíveis! - murmurou ele para si mesmo, esboçando um sorriso. Embora a maior parte dos outros Guerreiros não soubesse, Starbuck costumava analisar cuidadosamente os registos de todos os combates entre os Coloniais e os Cylons. Ele tinha o cuidado de esconder esse seu pequeno hábito porque isso podia pôr em causa a sua fama de "despreocupado". Havia pequenas coisas que se podiam aprender com essa análise tal como se podiam aprender muitas coisas a observar as diferentes pessoas a jogar Pirâmide. Em mais de 95% dos encontros frente-a-frente entre Vipers e Raiders, os caças Cylon, perante o fogo inimigo, haviam efectuado a manobra de fuga para cima e para a esquerda. - Só se eu tivesse muito azar é que apanhava um daqueles 5% que não se desviava naquela direcção...... Os restantes Cylons tinham-se separado em duas formações de dois, numa tentativa de atacar o Viper de ambos os lados. Starbuck viu que podiam utilizar essa situação a seu favor e, aproveitando uma altura em que os sensores mostravam o caminho livre de destroços, accionou os turbos, ultrapassando os seus inimigos. Na altura em que viu que já tinha deixado os Raiders a uma certa distância, desligou os turbos e fez o Viper subir até estar novamente apontado para trás, mas de cabeça para baixo. Com um rápido movimento dos controlos endireitou o caça e, tal como esperava, viu à sua frente o brilho provocado por dois pares de motores de Raiders. Assim que o computador o avisou que o alvo estava fixo, Starbuck abriu fogo, destruindo de imediato um dos caças inimigos. O segundo começou a desviar-se para cima e para a esquerda numa tentativa desesperada de escapar ao Viper que o perseguia, mas o Guerreiro não lhe deu hipóteses, seguindo-o e destruindo-o com uma rajada certeira de turbo-laser. - Agora os outros dois..... - disse ele em voz alta enquanto manobrava o Viper para se afastar dos destroços do Raider que agora se misturavam com os da Carídis. Starbuck tinha acabado de dizer isso quando uma série de disparos iluminaram o espaço em ambos os lados do Viper. O sensor mostrava que os dois Raiders que restavam tinham-se colocado atrás dele. Um pequeno sorriso estampou-se de imediato no rosto de Starbuck. - Isto assim é fácil demais......- murmurou ele, pressionando o botão marcado como INVERSOR DE PROPULSÃO. Numa questão de microns o Viper parou completamente, recomeçando depois a voar para trás a toda a velocidade. Os Raiders ultrapassaram-no, afastando-se cada um para seu lado e evitando assim uma colisão. Starbuck estava agora atrás dos Cylons e rapidamente pôs o Viper a voar normalmente, perseguindo o Raider que se tinha afastado para a direita. Seguindo a sua programação normal, os pilotos do dito Raider começaram de imediato a fazer uma série de manobras de forma a escaparem à perseguição. Starbuck manteve-se colado ao outro caça, esperando a altura certa para atacar. Essa altura surgiu quando o Raider começou a fazer uma subida acelerada, tentando passar por cima do Viper. Mas os Cylons tinham-se esquecido que o caça Colonial era mais potente e que por isso podia acompanhar com facilidade a subida, começando até a aproximar-se. Starbuck nem esperou que o computador adquirisse o alvo, disparando assim que viu o Raider deslizar para o centro da sua mira. A rajada do turbo-laser esquerdo apanhou a asa do caça Cylon, cortando-a por completo e atingindo um dos depósitos de Tylium, o que fez com que o Raider explodisse de imediato. Starbuck olhou rapidamente para o ecrã que lhe apresentava os dados dos sensores e viu que o caça inimigo que sobrava estava a afastar-se, indo ao encontro de um grupo de Raiders que se reagrupava para atacar de novo a Frota. - Vamos ter mais companhia!!- disse o Guerreiro no circuito da sua Esquadrilha, perante o que o seus sensores lhe mostravam.- Quem é que me pode vir ajudar?? - Dá-me um centon que vou já ter contigo....- respondeu Boomer. Logo de seguida outros dois Guerreiros responderam ao apelo do Capitão, juntando-se a ele . - Bem....já somos quatro.....contra...- murmurou Starbuck, começando depois a contar em voz alta o número de Raiders que se aproximava: - ..treze...catorze...quinze. Apenas quinze Raiders......... - Capitão, se quiser pode juntar-se à Esquadrilha Dourada, à Esquadrilha Verde e à Vermelha que estão a enfrentar, neste momento, 150 Raiders....- interviu o Coronel Tigh que tinha estado a ouvir a conversa entre os quatro Vipers e que não tinha gostado da atitude de Starbuck. - ....Peço desculpas, Coronel!- respondeu o interpelado, dando a si mesmo um pontapé mental por causa da sua mania de falar de mais.- Eu não queria dizer aquilo daquela maneira..... Nós até já estivemos em situações piores...... No preciso momento em que Starbuck dizia aquilo, um enorme brilho, vindo do seu lado direito, inundou a cabina do seu Viper, cegando-o momentaneamente. As expressões ouvidas na frequência da Esquadrilha mostraram ao Capitão que os três Guerreiros que o acompanhavam também tinham sido cegados pela mesma explosão. - Alguém viu o que foi aquilo?- perguntou Boomer, no circuito da Frota. Fizeram-se ouvir uma série de respostas negativas até que, passados alguns microns, surgiu a voz de Tigh, quase que abafada pelo som das comunicações na Ponte de Comando da Galactica: - Atenção, a Nave-Base acaba de destruir a Hesíone com um tiro de Mega-Pulsar! As últimas naves da Frota já estão ao alcance dela........ A voz do Coronel desapareceu subitamente, afogada num mar de estática. Todos os Guerreiros começaram de imediato a mudar de frequência, tentando restabelecer o contacto com a Galactica. Só passado quase um centon é que uma voz se fez ouvir numa das frequências alternativas da Ponte. - Daqui fala o Comandante Apollo! Um Raider acaba de se despenhar contra os transmissores principais da Galactica. Ela só está a transmitir num curto raio de alcance por isso, a partir de agora e até serem efectuadas reparações, eu vou ter que retransmitir as informações dadas por ela.....entendido? - Sim senhor!- responderam quase de imediato os Guerreiros que estavam a comandar as diferentes Esquadrilhas. - Muito bem! - retorquiu Apollo, prestando depois atenção ao que o Coronel Tigh lhe dizia: - A situação é esta...aquele tiro da Nave-Base foi um tiro de sorte. A Hesíone estava com problemas de motor e por isso tinha perdido velocidade. Se todas as naves da Frota manterem a velocidade actual, assim como a Nave-Base, só daqui a sensivelmente um centon é que estaremos ao alcance dela.... - Isso é extremamente reconfortante....- murmurou Starbuck para si mesmo, verificando antes se tinha o seu comunicador desligado. Os seus sensores mostravam que os quinze Raiders se aproximavam rapidamente dele e dos outros três Guerreiros. - Aí vem eles....- disse Boomer na frequência da Esquadrilha, com uma voz calma. - E aí vamos nós!!- murmurou novamente Starbuck antes de ligar de novo o seu comunicador e dizer em voz alta: Sigam-me, rapazes!! Com estas palavras o Capitão accionou os turbos do Viper, apontando directamente o seu caça para os inimigos que lhe surgiam pela frente. Passados alguns microns os três outros Guerreiros juntaram-se a ele e imediatamente as duas formações começaram a trocar disparos entre si. O panorama era o mesmo em todo aquele sector espacial. Vipers e Raiders degladiavam-se entre si num macabro bailado de morte, enquanto que nas decrépitas naves civis da Frota as pessoas se encolhiam de medo e rezavam para que os Senhores de Kobol as protegessem e protegessem os Guerreiros que por elas lutavam e morriam no vazio do espaço. Para o Comandante Trent, a batalha espacial que estava a presenciar não lhe dizia grande coisa. Imerso no seu próprio cérebro, via em tempo real tudo o que se passava. A sua I.A. reunia e condensava todos os dados recolhidos pelos sensores das naves da sua patrulha e apresentava-os a Trent sob a forma de simples pontos vermelhos e azuis com as respectivas designações de classe. Com um simples comando, passou para uma vista táctica de toda a zona. Em toda a extensão superior do mapa surgia o Anel da Morte e um pouco abaixo dele surgiam as duas forças que se degladiavam. A meio do mapa surgiam os pontos que representavam a patrulha e a aproximar-se dessa zona apareciam dez pontos vermelhos. Trent desviou a sua atenção para esses alvos. Eles aproximavam-se a grande velocidade em duas vagas de cinco naves cada. A Washington encontrava-se rodeada pelo resto das outras naves, numa espécie de círculo, e por isso só dificilmente é que estaria em perigo. "Mas mesmo assim mais vale jogar pelo seguro.....", pensou ele, mentalizando de seguida uma questão para Erika: " Estás seguir os alvos?" "Claro!", respondeu a I.A. com um ligeiro tom de reprovação na voz, como que dizendo que essa pergunta não era necessária. "Tenho várias soluções de tiro prontas." "Esperemos que não seja necessário chegar a esse ponto....", retorquiu Trent. Quase no exacto momento em que dizia isto, o Comandante sentiu que alguém o tentava contactar. Passados alguns segundos surgiu-lhe na mente a imagem mental do Capitão da Brighton, a nave que estava directamente na rota das naves desconhecidas. "Comandante, peço permissão para disparar alguns tiros de aviso....", disse o homem de imediato, não se dando sequer ao trabalho de esconder as suas emoções atrás do simulacro normalmente criado pela I.A. da sua nave. A imagem que Trent via era a de alguém completamente aterrorizado. "Permissão recusada, Capitão! Nós temos as nossas ordens....", respondeu ele simplesmente. "A minha I.A. diz que há 99,9% de hipóteses deles das naves serem hostis..." Com um gesto, mental, de mão Trent cortou a palavra ao seu subordinado. " Tal como disse, nós temos as nossas ordens.....Só se formos atacados é que podemos responder, entendido?" "Sim, senhor!", respondeu o outro oficial, sem esconder o seu desagrado. "E nada de erros de computador ou coisas do género....Só disparamos se dispararem sobre nós..." "Entendido....", disse o Capitão da Brighton desligando de seguida a comunicação. Trent recostou-se de novo no seu assento e por momentos pensou em contactar de novo a Brighton e autorizar os disparos. É claro que isso seria ir contra as ordens do Comando Geral do Almirantado e os Protocolos de Primeiro Contacto mas a verdade é que a sua desconfiança em relação àquelas naves aumentava cada vez mais. Quase que vindo do nada começou a surgir-lhe nos pensamentos a imagem que o tinha atormentado durante o seu sono. A imagem da Washington a explodir no espaço.... Imagens de destruição também passavam pela cabeça do Comandante Taylor, o Capitão da Brighton. Como se a sua imaginação não bastasse, sua I.A., de nome Tom, continuava a debitar avisos sobre o facto das naves poderem ser hostis. "Eu sei disso!!!", berrou ele mentalmente, numa tentativa de calar a máquina e arrependendo-se rapidamente pois ela não passava exactamente disso, de uma máquina. "Peço desculpas se estou a ser inconveniente.....", respondeu Tom, num tom de voz que imitava exactamente uma criança ainda jovem e que estava a ficar amuada. - Tempo para a intercepção- perguntou Taylor ao oficial responsável pelo radar. - Um minuto! Taylor mergulhou de novo no mapa táctico na sua mente, vendo ai os alvos aproximarem-se cada vez mais da sua nave. "Tom, dá-me uma contagem do tempo de intercepção", ordenou ele e de imediato surgiu uma contagem decrescente num dos cantos do mapa. O suor começava já a formar manchas escuras no uniforme azul do Comandante. Quase que sem se aperceber disso, agarrou-se com força ao braços do assento, aumentando a pressão à medida que a contagem terminava. Quando faltavam vinte segundos para intercepção as primeiras cinco naves aumentaram distância entre si e depois em relação às outras cinco que as seguiam. O Capitão Taylor nunca tinha sido piloto de caças mas tinha participado em manobras militares suficientes para saber que aquilo era uma formação de ataque. O inimigo estava a tentar abarcar a maior superfície possível da sua nave naquele ataque! - Preparar solução de tiro e disparar!!!- berrou ele para o oficial encarregue da Secção de Armamento, ao mesmo tempo que ordenava a Tom para avisar a Washington de que ia disparar. Infelizmente, antes de qualquer das suas ordens ser cumprida, as cinco primeiras naves abriram fogo com os seus lasers. Os disparos dos Raiders embateram com toda a força no lado esquerdo do casco da Brighton, mergulhando toda essa zona numa cortina de explosões. Na Ponte de Comando, o Capitão Taylor apenas teve tempo de ver uma rápida imagem dos seus atacantes, transmitida pelas câmeras exteriores, antes de ser projectado do seu assento, partindo todos os cintos que o seguravam aí, e mergulhar na escuridão da inconsciência ao bater em algo. "Alerta Vermelho! Alerta Vermelho!", berraram as I.A. por toda a patrulha assim que a Brighton foi atingida pela primeira onda de naves. De imediato as baterias de mísseis terrestres começaram a procurar alvos, enquanto que todas as Pontes de Comando accionavam as suas luzes interiores de emergência, tornando todo o ambiente das naves vermelho. Ao mesmo tempo pesadas portas começavam a fechar os diversos compartimentos, tornando-os estanques e independentes uns dos outros. Trent viu com horror as naves inimigas passarem por cima da Brighton, sendo logo seguidas por uma série de explosões provocadas pelo ataque da Segunda onda de cinco naves. A câmera que lhe permitira ver isto estava instalada no exterior da Dakar, a nave que estava a seguir à Brighton e da qual as naves inimigas se aproximavam a grande velocidade. "A Dakar está a disparar....", informou Erika e, logo de seguida, Trent viu a imagem dos lançadores de mísseis a surgirem das suas reentrâncias do casco da nave, mergulhando tudo numa intensa luz branca ao lançarem os seus projecteis . Quatro mísseis aceleraram rapidamente em direcção aos seus alvos mas, devido aos seus sistemas de segurança de proximidade, não tiveram tempo de armarem as suas ogivas explosivas limitando-se a embater nos Raiders. É claro que à velocidade a que o alvo e o míssil se deslocavam isso equivaleu a grande danos mas mesmo assim três das naves continuaram o seu ataque practicamente sem danos. "Quanto tempo é que as baterias levam a recarregar?", perguntou Trent enquanto seguia a aproximação dos três caças. Por baixo da forma inerte da Brighton surgiam já as restantes cinco naves inimigas. " Cada bateria demora cerca de trinta segundos a recarregar os seus mísseis." "Estão perdidos.....", pensou Trent simplesmente, esquecendo toda a sua inamizade para com o Comandante Ossan. Como que a confirmar as suas palavras, na altura em que as baterias de mísseis voltavam a emergir dos seus casulos protectores, a forma em V da Dakar foi percorrida de estibordo a bombordo por uma série de explosões provocadas pelos lasers dos Cylons. Um dos três Raider havia feito pontaria ao local de onde tinha surgido uma das baterias, apanhando a dita bateria no momento em que esta surgia e atingindo-a em cheio, fazendo explodir os mísseis no seu interior. A subsequente explosão destruiu toda aquela parte da superestrutura da nave, levando com ela a câmera com que Trent observava tudo. Com um rápido comando mental Trent mudou a sua vista para as câmeras exteriores da sua própria nave e procurou a Dakar. O que encontrou deixou-o estupefacto. A nave tinha perdido toda a sua metade esquerda e estava a girar sobre si mesma apesar dos disparos constantes dos seus motores de manobra que a tentavam endireitar. Os seus três atacantes tinham-na já deixado para trás, para a segunda onda, dirigindo-se agora para a Washingtom. - Temos solução de tiro?- perguntou ele ao oficial responsável por essa Secção. - Sim!- disse o jovem Sargento, tentando esconder o seu nervosismo. - A todas as baterias! Fogo!- ordenou então Trent, voltando depois a sua atenção para Erika: "Qual é a situação da Brighton e da Dakar?" "Não é possível estabelecer nenhum tipo de comunicação com nenhuma delas, mas o facto dos motores de manobra da Dakar estarem a ser accionados indicam que pelos menos aí há sobreviventes" "Ou então a I.A. deles ainda funciona...." "Sim." "Meu Deus, que fiz eu.........", murmurou Trent, que estava tão absorto nos seus pensamento que nem reparou no facto do mísseis da Washington terem conseguido destruir as três naves que se aproximavam, nem numa pequena janela áudio que tinha surgido num dos cantos das imagens exteriores da sua nave. Nessa pequena janela surgia uma voz que falava numa linguagem nunca ouvida pelos Terrestres e que transmitia uma mensagem que Erika diligentemente traduzia: "- Irmãos Humanos, as Doze Colónias saúdam-vos. Infelizmente os nosso ancestrais inimigos, os Cylons estão a atacar-nos e por isso não é aconselhável que vocês se aproximem de nós." Capítulo 10 O Primeiro-Centurião estava tão absorto a acompanhar o progresso dos Raiders que atacavam a Frota que só passado quase um centon é que se apercebeu da presença de um Centurião que esperava pacientemente junto do seu pedestal. - Que se passa?- perguntou ele fazendo girar o seu pedestal na direcção do seu subordinado. - Perdemos todas as comunicações com os Raiders que estavam a atacar as outras forças humanas.- respondeu o Centurião não mostrando nenhuma emoção ao anunciar a perda de trinta membros da sua espécie. Com um simples comando o Primeiro-Centurião consultou todas a telemetria enviada por essa pequena força de ataque e viu que todos os Raiders haviam sido destruídos por mísseis disparados pelas naves humanas. Esse último dado era extremamente interessante porque segundo os seus dados não havia nenhum caso de mísseis serem utilizados para abater naves de pequeno porte. Em toda a história da guerra entre os Cylons e os Coloniais os mísseis apenas tinham sido utilizados em combates entre Naves- Base e Estrelas-de-Batalha. Esta utilização era extremamente interessante e o Primeiro-Centurião arquivou a respectiva informação no computador central da Nave-Base para futuro uso dos estrategos do Império Cylon. Voltando de novo a sua atenção para os dados dos Raiders viu que eles antes de serem destruídos haviam ainda danificado gravemente pelo menos duas naves humanas. Os seus cérebros processaram rapidamente a informação e em meros microns surgiu a decisão correcta a tomar. - Desviem vinte Raiders da Segunda Vaga para atacar de novo os outros humanos.- ordenou ele ao Centurião que continuava postado junto do pedestal com uma calma mecânica. - Pelo seu Comando.- disse o ciborgue de armadura prateada voltando de imediato para o seu posto na Ponte, para executar a ordem que lhe tinha sido dada. Por seu lado, o Primeiro- Centurião voltou a sua atenção para os combates contra a Frota Colonial mas não sem antes programar, num dos seus cérebros, uma sub-rotina que o avisaria quando os vinte Raiders começassem a atacar as naves humanas. Tom nunca sentira medo na sua vida mas a verdade é que também nunca tinha estado sozinho em toda a sua existência. Desde que começara a "existir" sempre tivera à sua volta Humanos e outras criações artificias como ele, numa espécie de infantário electrónico. Agora estava completamente sozinho e essa experiência não era nada agradável. As várias antenas que permitiam que a T.D.F. Brighton comunicasse com outras naves e que ele comunicasse com as outras I.A. estavam totalmente destruídas e os pequenos dróides que faziam as reparações no exterior da nave estavam todos fora de serviço. Os seus sensores interiores mostravam uma situação que ainda o amedrontava mais. Parte da nave estava exposta ao vácuo, com diversos compartimentos completamente destruídos e abertos ao frio do espaço. Todos os tripulantes tinham um pequeno localizador, inserido cirurgicamente perto do coração, e isso permitiu a Tom fazer uma rápida contagem. Dos 130 tripulantes, 26 tinham sinais de vida, 32 estavam mortos e o resto nem sequer aparecia nos sensores, um claro sinal de que estariam em secções da nave que tinham sido atingidas directamente. Um dos sobreviventes era o Capitão Taylor, o que fez com que Tom recuperasse um pouco da sua confiança. Controlando uma das pequenas câmaras de segurança existentes na Ponte de Comando, ele procurou o oficial entre os restantes tripulantes e destroços que enchiam esse local. "Capitão Taylor....", perguntou suavemente, enquanto observava atentamente a figura para ver se esta tinha alguma reacção. Não vendo nenhuma, insistiu novamente, aumentando o volume de voz. Como esta segunda tentativa também não obteve nenhum sucesso, mudou para os altifalantes da Ponte, esperando com isso despertar algum dos tripulantes. Ao mesmo tempo aumentou o conteúdo de oxigénio da ponte, depois de se certificar que não havia nenhum fogo. Aos poucos Tom detectou pequenos movimentos nos Humanos, um claro sinal de que alguns já estavam a recuperar a consciência. O Capitão Taylor foi um dos últimos a manifestar sinais de vida, apoiando-se de encontro ao painel onde tinha batido ao ser projectado da sua cadeira de comando. "Q.....Qual é a situação da nave, Tom?.....", acabou ele por perguntar, enquanto se dirigia para o seu assento. Com um esforço visível sentou-se, enquanto que os restantes tripulantes da Ponte regressavam aos seus postos verificando os computadores com os quais trabalhavam.. " A Brighton perdeu a integridade do casco em 83.22% da sua superfície. De momento a integridade mantêm-se apenas nas zonas centrais ", disse Tom, ilustrando as suas palavras com uma série de esquemas da nave. As zonas centrais da Brighton, ou seja aquelas zonas que alojavam a Ponte, os vários paióis de munições e parte dos alojamentos dos tripulantes, eram duplamente blindadas e só por isso haviam sobrevivido ao ataque Cylon. "E em relação às baixas?", perguntou Taylor ansiando pela resposta mas temendo-a. Os estragos que a Brigthon tinha sofrido faziam com que temesse o pior. " De momento apenas posso confirmar que há vinte e seis tripulantes vivos. Oito na Ponte, dez no Paiol Um, seis no Paiol Dois e quatro outros no habitáculo central" - Meu Deus....- murmurou Taylor, enterrando a cabeça nas mãos. Só nessa altura é que se apercebeu que o sua face esquerda estava empapada em sangue. Pesquisando rapidamente com a mão, verificou que tinha um longo corte no couro cabeludo e que para além disso estava a formar-se aí um papo. Dizendo para si mesmo que aquilo não era nada, Taylor reviu as plantas que Tom lhe mostrava. Era claro que a nave estava perdida e aos poucos, à medida que iam verificando os danos nas respectivas secções, os outros oficiais da Ponte chegaram à mesma conclusão. Todos olhavam nervosamente para o Capitão. Este último reviu uma última vez as plantas da Brighton e depois chamou novamente Tom "Tom, estás em contacto com o resto da patrulha?" "Não. Todos os dispositivos de comunicação no exterior da nave foram destruídos e não tenho meios para os reparar." Perante a resposta, Taylor hesitou por momentos, mas acabou por se decidir. Nada lhe parecia pior do que ficarem ali, trancados no caixão de metal em que a Brighton se tinha tornado. " Muito bem, Tom. Emite o sinal de abandonar a nave e de seguida faz a descarga da tua memória." "Sim, senhor", respondeu simplesmente a I.A fazendo de imediato o que lhe era ordenado. As luzes de emergência da nave começaram a piscar, assim como as luzes que sinalizavam as várias cápsulas de salvação que ainda existiam na Brighton. Nas secções que ainda não estavam expostas ao vácuo, Tom fez soar também um aviso sonoro. Aos poucos, o Capitão Taylor viu os vários pontos que representavam os tripulantes nas outras partes da nave a dirigirem-se para as cápsulas de salvamento. Os tripulantes da Ponte seriam os últimos a abandonar a nave, como era costume. Assim que todos as outras secções ficaram vazia, Taylor deu autorização para que os tripulantes se deslocassem para a cápsula existente perto da Ponte. Levantando-se da sua cadeira, o Capitão deu em voz alta a sua última ordem: - Tom, arma as cargas de destruição. - Sim, senhor!- respondeu a I.A., começando de imediato a fazer uma contagem decrescente a partir de 100. Taylor dirigiu-se vagarosamente até ao centro da Ponte, baixando-se e abrindo uma pequena porta existente no chão. Por debaixo dessa havia outra porta blindada que tinha na sua superfície um pequeno teclado. Digitando o código que tivera que decorar ao assumir o comando da Brighton, o Capitão abriu a segunda porta. No pequeno compartimento que aí existia, uma série de luzes vermelhas começaram a piscar e um cilindro metálico surgiu, vindo do interior da nave. Com muito cuidado, Taylor pegou nele pelas pegas de metal colocadas no topo. O cilindro estava frio ao toque pois o seu interior estava a temperaturas negativas. Limpando o gelo com a mão direita, Taylor leu as palavras que aí estavam impressas: I.A. - MODELO 1000 ( TOM ) - STARK-KYMA CORPORATION (24/2/2276) No topo do cilindro um pequeno mostrador indicava que este estava cheio. Tom havia-se descarregado para ali, conservando assim todos os seus conhecimentos e experiências. A nave estava agora a ser controlada pelo simples computador central, que se encarregaria de levar a contagem até ao fim. Segurando o cilindro de encontro ao corpo, Taylor deitou um último olhar para o que restava da Ponte, dirigindo-se de seguida para a cápsula, à porta da qual os últimos tripulantes esperavam por ele. "Capitão, a cápsula de salvamento da Ponte acaba de ser lançada pela Brighton.", disse Erika, chamando a atenção de Trent para o mapa táctico. Esse lançamento era um sinal claro de que a nave estava livre de tripulantes e prestes a destruir-se. O que era mau é que as cápsulas fossem tão poucas.... "Qual é a estimativa de sobreviventes?" "Tendo em conta que as cápsulas levam no máximo dez indivíduos e que foram apenas ejectadas quatro, a minha estimativa é de quarenta sobreviventes no máximo. Mas como os danos sofridos pela Brighton foram bastante extensos acho que o melhor seria pensar em apenas 30 sobreviventes. William absorveu a informação sem pestanejar sequer. Ele tinha decidido que o tempo das recriminações só viria depois. Para já tinha que pensar no que restava da sua patrulha. " E qual é a situação da Dakar?", perguntou ele, enquanto consultava de novo o mapa táctico. " Já consegui estabelecer comunicações com a I.A. dela e foi informada que a tripulação sofreu baixas mínimas. Em relação à nave propriamente dita, está fora de combate pois as explosões secundária provocadas pela destruição do lançador de mísseis danificaram-na gravem......." " Que se passa?" , inquiriu o Comandante, espantado com o súbito silêncio de Erika. Em resposta à sua pergunta, a I.A. fez aumentar o mapa táctico daquela zona, de forma a abarcar toda a batalha que se desenrolava junto da cintura de asteróides. De seguida destacou a vermelho um grupo de vinte naves que aparentemente tinham abandonado essa batalha, tomando a direcção da patrulha terrestre. " Há 99% de possibilidades de estas naves serem uma nova força de ataque.", disse Erika, acompanhando a sua frase com uma série de esquemas que mostravam que o perfil de radar das naves inimigas era igual ao daquelas que os tinham atacado anteriormente. " Desta vez não me vão apanhar desprevenido..........", pensou Trent para si mesmo. A Marinha da Força de Defesa Terrestre ia proporcionar aos extraterrestres uma pequena surpresa. "Erika, avisa as restantes naves que vamos utilizar armas nucleares...."-ordenou ele, de seguida. Em toda a história da Humanidade, armas desse tipo só tinham sido utilizadas em 6 ocasiões. Duas vezes no século XX, durante o conflito denominado de 2ª Guerra Mundial, em 2050, durante as chamadas Guerras da União em que o Governo Mundial tinha submetido os outrora poderosos Estados Unidos e as três restantes durante a Expansão, como forma de acabar com as tendências autonomistas de algumas colónias terrestres. E agora iriam ser utilizadas contra uma força desconhecida que tinha provado a sua hostilidade contra os Terrestres. " Sim, senhor!", respondeu a I.A., transmitindo de imediato uma mensagem padrão criada de propósito para essa situação. Enquanto a dita mensagem era transmitida, Trent levantou os braços e puxou para baixo uma espécie de braço mecânico que estava suspenso sobre o seu assento. O mecanismo assemelhava-se a um periscópio como aqueles que eram utilizados nos submarinos terrestres do século XX e XXI. Apesar dessa semelhança o mecanismo não passava de um sistema de reconhecimento óptico. Assim que o Capitão encostou os seus olhos ao visor, uma série de sensores começaram uma análise detalhada, comparando os olhos com os dados que tinham armazenados sobre eles. Este sistema, juntamente com a identificação feita pela I.A., eram as formas que a Marinha tinha de se assegurar de que as suas armas nucleares não seriam utilizadas por pessoal não autorizado. Assim que surgiu a mensagem confirmando a identidade do Capitão, este acedeu ao inventário de armas nucleares, escolhendo os mísseis pretendidos que de imediato começaram a ser preparados. Enquanto isso, com a ajuda de Erika, William começou a traçar a estratégia para provocar o máximo possível de danos ao inimigo com aquele ataque. " Com este plano de ataque temos 100% de probabilidades de destruir a força inimiga.", acabou por dizer a I.A. , escolhendo um dos cenários propostos por Trent. " Qual é a margem de erro?" " É mínima. O ataque só falhará se acontecer algo de imprevisto." " Muito bem, então lança os mísseis assim que estiverem prontos." " Sim, senhor!", respondeu Erika e passados alguns segundos assim fez. Com um rugido ouvido e sentido por toda a nave, os três mísseis de cruzeiro saíram dos lançadores laterais da Washington e dirigiram-se a toda a velocidade ao encontro dos Raiders que encurtavam a distância em relação à patrulha terrestre. Os mísseis, comandados por computadores que eram tão poderosos como os computadores centrais de qualquer nave terrestre, seguiram o plano de voo em rigor até ao milímetro. Assim que os seus radares internos pressentiram que as vinte naves estavam a dois quilómetros de distância, manobraram até ficarem lado a lado, separados entre si por cerca de 500 metros. Alguns quilómetros atrás deles, as cargas de demolição a bordo da T.D.F. Brighton detonaram, fazendo com que a nave implodisse silenciosamente sobre si mesma. A bordo dos Raiders, os mísseis já haviam sido detectados mas os Cylons ainda não tinham feito nenhuma tentativa para se desviarem deles. As ordens que tinham eram para atacar as naves desconhecidas e era para isso que se estavam a preparar. Numa manobra programada, dividiram-se em duas formações de ataque de dez naves. Foi nessa altura que o computador central da Nave-Base, que tinha quase todos os seus recursos virados para o ataque à Frota, informou os comandantes dos Raiders do perigo que os mísseis constituíam e aconselhou uma série de manobras de forma a tentarem escapar-lhes. Na altura em que o Raiders iniciaram as ditas manobras, a distância entre eles e os mísseis já se tinha reduzido para um quilómetro. Ao atingir a marca de um quilómetro em relação aos seus alvos, os computadores dos mísseis ordenaram um aumento de velocidade e rapidamente encurtaram a distância para quinhentos metros. Com um último comando coordenaram entre si a sequência da detonação e executaram-na de imediato. Com uma diferença de nanosegundos, os três mísseis detonaram, formando uma enorme bola de fogo nuclear que por momentos iluminou toda aquela zona e quebrou o frio absoluto que existe no espaço. A explosão engolfou os Raiders todos, vaporizando-os de imediato. No interior da Nave-Base, o computador central desta recebeu os últimos microns dos dados transmitidos pelos Centuriões que tripulavam os caças, juntando-os a toda a outra informação recolhida e que era retransmitida em tempo real para o Primeiro-Centurião. - Que foi isto....?- murmurou Sheba para si mesmo, endireitando- se no assento. Ela havia caído de novo na inconsciência, apesar de todos os esforços para se manter acordada. Mas algo a havia despertado de novo e não era difícil ver o quê. O cockpit do Viper estava iluminado por uma luz intensa como se estivesse de novo dentro de um dos hangares da Galactica. A luz vinha do lado esquerdo do Viper e apesar das dores, Sheba atreveu-se a lançar um olhar nessa direcção. A primeira coisa que reparou era que os vidros do cockpit estavam totalmente escuros e que mesmo assim a luz era visível. Ela deu graças aos Senhores de Kobol por alguém ter inventado aquele sistema de polarização para os vidros dos Vipers. A ideia tinha surgido após a travessia do campo de minas em redor de Carillon e era uma maneira de poupar os Guerreiros a súbitas mudanças de luminosidade que os podiam deixar quase cegos e desorientados. - Parece um autêntico sol.....- disse ela, continuando a fitar a bola de fogo que iluminava o espaço à distância. Aos poucos a luminosidade foi-se desvanecendo e a bola de fogo diminuindo, até à altura em que desapareceu por completo. Também os vidros do cockpit retomaram a sua coloração normal o que permitiu a Sheba comunicar com Dietra. - Isto teve alguma coisa a haver com a Frota?- perguntou a Capitã através de gestos. - Não. O Comandante Apollo diz que foram as naves desconhecidas que destruíram um grande número de Raiders.- respondeu a Tenente, o mais rápido possível, tentando ao mesmo tempo prestar atenção às comunicações da Frota. - São nossos aliados?- Sheba sabia que a sua pergunta de certeza que estava a ser repetida por todos os outros Guerreiros envolvidos na batalha e pelos civis que ocupavam as naves da Frota. - Não sabem........- começou Dietra a responder, parando de repente e fazendo um sinal que indicava que em breve iriam ter companhia. Ignorando de novo as dores, Sheba voltou a cabeça na direcção que a Tenente indicava e rapidamente se apercebeu do objecto que se dirigia para os seus Vipers. A fraca luz das estrelas não lhe permitia vislumbrar grandes detalhes do dito objecto que, ainda para mais, estava pintado de negro. Passado um centon, o objecto passou directamente em frente dos Vipers, permitindo que ambas as Guerreiras tivessem uma boa visão dele. Era um cilindro metálico, um pouco menor que um vaivém da Galactica. Da sua traseira saía um rasto de plasma aquecido, o que parecia indicar que se propulsionava por meios próprios e que estava a ser controlado de momento. Mas o mais interessante não era isso. De facto o que tinha chamado a atenção a Dietra e Sheba eram uma série de sinais que apareciam pintados a branco na superfície do objecto, perto do seu nariz. Embora nenhuma dela conseguisse ler o que lá estava escrito, aqueles símbolos pareciam-lhes conhecidos. Era algo que elas já tinham visto, mas que não se conseguiam lembrar, como que uma recordação de infância que se lhes escapava. Assim que o objecto passou à frente do Viper de Dietra, o seu motor pareceu falhar e a chama acabou por se apagar por completo passados alguns microns. Sheba olhou para o Viper da sua colega de patrulha e viu que este se estava a posicionar directamente virado para o objecto que agora estava parado no espaço. Um centon depois Dietra manobrou o seu caça de volta à sua antiga posição e informou Sheba de que tinha feito uma sondagem com os seus sensores ao objecto. - E então?- inquiriu Sheba, impaciente por saber novidades. A Tenente respondeu-lhe simplesmente que os tripulantes eram Humanos, mais concretamente cinco do sexo masculino e três do sexo feminino. O objecto tinha atmosfera própria, assim como uma fonte de energia que de momento estava desligada e não apresentava qualquer indício de ter armamento. Sheba engoliu em seco, sem saber o que fazer. A alguns metrons de distância dos Vipers estavam outros Humanos. Seriam finalmente estes os descendentes da 13ª Tribo? Assim que as informações do computador central da nave tinham activado a sub-rotina do seu cérebro, o Primeiro-Centurião tinha virado a sua atenção para o ataque às naves desconhecidas. Os sensores da Nave-Base tinham-se virado para essa zona do espaço na altura em que a deflagração nuclear atingia o seu apogeu. O ecrã central da Ponte mostrava em todo o seu esplendor mortífero a bola de fogo que tinha destruído os vinte Raiders. - Centurião, o teu relatório.- ordenou o Primeiro Centurião, fazendo girar o seu pedestal na direcção do ciborgue prateado que estava de serviço na consola dos sensores. - Pelo seu Comando!- respondeu o Centurião antes de começar a recitar os dados recolhidos pelos sensores de longo alcance da Nave-Base. A explosão tinha sido quase o equivalente a um disparo dos Mega-Pulsares, mas tinha uma série de efeitos secundários, nomeadamente a nível da libertação de radiações e impulsos electromagnéticos, que estes não tinham. Os cérebros do Primeiro-Centurião juntaram essa informação à outra anteriormente recolhida e processaram-na. Aparentemente os outros Humanos pareciam possuir capacidades bastantes avançadas e até então desconhecidas. Primeiro, utilizavam mísseis para abater caças e segundo, eram capazes de armar esses mísseis com ogivas com potência equivalente a um Mega-Pulsar. Eles eram definitivamente um problema que tinha que ser tratado. Todos os programas tácticos do Primeiro-Centurião lhe diziam isso. Virando-se para o Centurião responsável pelas operações dos Raiders, o Primeiro-Centurião deu ordens para que todos os caças se afastassem da Nave-Base e que continuassem a seguir os seus planos de ataque. As naves que estivessem a ficar sem combustível deveriam recuar até junto da abertura na cintura de asteróides e aguardar até que a Nave-Base regressasse. Assim que as suas ordens foram cumpridas, o Primeiro-Centurião virou o seu pedestal para o responsável pela navegação, dizendo: - Marca um rumo para as naves inimigas e executa a aceleração para a velocidade luz. Ao dar esta ordem, teve uma sensação estranha, parecendo sentir como que um arrepio de frio, o que sabia ser impossível pois a sua armadura mantinha o que restava do seu corpo orgânico a uma temperatura constante. O que teria sido aquilo então? Nunca lhe passou pela cabeça que aquilo pudesse ser medo, outro vestígio do seu tempo como ser orgânico, uma emoção que mais se assemelhava a uma recordação, enterrada como estava debaixo de uma programação maciça. A bordo da Ponte da Washington, os gritos de alegria dos tripulantes fizeram-se ouvir assim que os mísseis nucleares detonaram. Trent deixou que um sorriso lhe surgisse nos lábios, enquanto fitava as imagens da explosão que lhe eram transmitidas pelas câmaras no exterior da nave. "Isto soube bem.........", pensou para si mesmo. Os extraterrestre tinham começado a pagar pelo que tinham feito. Por momentos passou-lhe pela cabeça que provavelmente tinha morto uma série de seres vivos, de forma a compensar a morte de outros seres vivos. Por mais avançados que fossem, os Homens não deixavam de ser movidos por paixões e emoções. A satisfação que sentia por ter destruído aqueles inimigos era igual aquela que os seus antepassados que viviam em cavernas tinham sentido ao matarem os animais ou os outros humanos que punham em perigo as suas tribos e famílias: " É esta a nova Natureza e não há nada a fazer........" Com esta conclusão, virou de novo a sua atenção para o mapa táctico que aparecia suspenso no ar, à frente dos seus olhos. De momento, a única coisa que era preocupante era o facto de que a cápsula da Ponte da Brighton estava a dirigir-se ao encontro das duas naves que a Dakar e a Lisbon tinham encontrado na primeira vez em que haviam saltado até aquela zona. " Erika, tenta contactar a cápsula B1........", começou ele a subvocalizar, antes de se aperceber que havia uma pequena janela aberta no canto inferior do mapa. Com uma ordem mandou abrir essa dita janela e ampliar o seu conteúdo. Ao ler a mensagem que lá aparecia e que estava a ser constantemente repetida, verificou em que canal rádio é que estava a ser recebida e abriu-o. O que ouviu estava a ser dito numa língua que ele não conseguia identificar e que nem sequer se parecia com algo que ele tivesse ouvido antes. " Erika, que raio é isto?", subvocalizou ele para a I.A., enquanto pedia ao computador central da nave para continuar a monitorizar e a gravar aquela mensagem. A I.A. pareceu hesitar um pouco antes de responder ao que lhe era perguntado. " É a transcrição de uma mensagem interceptada numa onda rádio extremamente baixa. A mensagem teve início às 22:34:62 do dia 25 de Março de 2281 e está a repetir-se a cada 30 segundos." " E qual é a sua origem?", inquiriu Trent, embora quase pudesse adivinhar a resposta. " É a nave que esta no centro da frota que está a ser atacada." " Que língua é que estão a falar, Erika?", perguntou, começando a sentir-se um pouco irritado com a situação. Para seu espanto, a I.A. não respondeu e ele insistiu novamente: " Erika, que língua é esta? É Humana?" Perante o silêncio dela, William decidiu que o melhor era tentar uma abordagem ainda mais directa. " Erika, ordeno-te que me dês uma resposta.........." Esta sua ameaça pareceu surtir efeito pois passados alguns segundos a voz da I.A. fez-se ouvir de novo. " Infelizmente não posso obedecer a essa ordem." Definitivamente essa não era a resposta que o Capitão estava à espera e de imediato fez saber isso a Erika. " Como assim? Porque que é que não podes?" " Eu nem sequer sei como é que estou a traduzir esta mensagem.........".- respondeu a I.A. num tom de voz que Trent só podia classificar como preocupado. " Muito bem, Erika. Ordeno-te que faças já um teste auto- diagnóstico......", ordenou o Capitão, seguindo os passos que lhe tinham ensinado para quando havia problemas com as I.A. Durante quase meio minuto, a pequena estrela que lhe surgia no canto da sua visão e que representava a I.A. parou de piscar, indicando que ela estava a correr o dito programa, tal como lhe tinha sido ordenado. Assim que o símbolo voltou a piscar, a voz de Erika fez-se ouvir de novo. " Já detectei o erro. Houve uma acesso não autorizado por um programa a uma das minhas memórias, mais concretamente a um bloco de Planeamento e Estratégia." Quando a I.A. lhe deu esta informação William lembrou-se de imediato do problema que o Capitão Lopes tinha tido na sua nave. Seria o mesmo erro? Aparentemente havia um erro que fazia com que Erika tivesse acesso a informações que estavam armazenadas em zonas às quais não deveria ter acesso. Embora Lopes o tivesse avisado que aquilo que ele iria tentar a seguir não iria funcionar, Trent tinha que experimentar por si para acreditar. " Erika, deixa-me ver o conteúdo desse bloco de memória." " O senhor não tem um nível de autorização suficiente para aceder a essa informação!" "Muito bem.........., pensou ele para si mesmo. O Capitão Lopes tinha razão, mas ele não iria desistir tão facilmente. " Erika, qual é o meu nível de autorização?" " O seu nível de autorização é MAJ-6" " Qual o nível necessário para ter acesso ao bloco de memória?" " O senhor não tem um nível de autorização suficiente para aceder a essa informação!" " Então quem é que tem?" A I.A. pareceu hesitar alguns segundos antes de responder e o seu tom de voz dizia tudo: " Eu não sei dizer........" O Capitão pensou em insistir ainda mais, mas rapidamente mudou de opinião. Não queria fazer a Erika aquilo que Lopes tinha feito a Drake. Assim que voltassem a uma base da Marinha, pediria a um técnico que era seu amigo, para ver, não oficialmente, qual o problema. Para já iria deixar esse mistério de lado. Voltando a sua atenção para o mapa táctico, Trent teve apenas tempo de ver a nave que estava a lançar os caças contra a sua patrulha a desaparecer do radar. Logo de seguida uma série de alarmes começaram a tocar a bordo da Washington e Erika projectou-lhe de imediato a imagem que estava a ser captada pelas câmaras exteriores da nave. A nave alienígena estava agora a pouco mais de meio quilómetro da patrulha terrestre! As duas naves que estavam mais perto da maciça nave extraterrestre eram a Havana e a Lisbon. Na Ponte de Comando da primeira, o Capitão Hugo Perez estava a imerso a observar as imagens da batalha que se travava perto do Anel da Morte. É claro que as câmaras não tinham capacidade para mostrar grandes detalhes àquela distância, mas pelo menos podia-se ver os clarões provocados pelas explosões. Além do mais era uma maneira de ele se manter distraído e não pensar muito no que havia acontecido à Brighton e à Dakar. De repente houve uma espécie de clarão a alguns metros da sua nave e uma das câmaras rapidamente focou essa zona. A última coisa que ele viu foi algo que parecia uma aparição de outro mundo. Uma imagem translúcida de um disco enorme que aos poucos foi tomando um aspecto mais sólido. Mesmo fazendo recuar a câmara, esta só conseguia abarcar a parte direita do disco na sua totalidade e uma espécie de torre central que parecia sair do centro deste. - Meu Deus!! A nave é enorme!!!!!!- berrou ele, fazendo com que todos na Ponte olhassem na sua direcção. Foi nessa altura que a Nave-Base saiu da velocidade luz e o impulso electromagnético dos seus motores atingiu a Havana e a Lisbon, mergulhando ambas na escuridão. "Que se passa, Gloria?", subvocalizou Perez assim que todos os sistemas da Havana se desligaram, totalmente amedrontado com aquilo que vira. Ele nem sequer se tinha apercebido que a I.A. era também um dos sistemas atingidos. Infelizmente o Capitão Hugo Perez nem seque teve tempo para formular mais nenhum pensamento ou para sequer dizer uma oração pois a Nave-Base abriu fogo com todos as baterias laser que tinha apontadas para a Havana e com uma salva apenas fê-la explodir. - Alvo adquirido.- disse o Centurião responsável pelas armas. Assim que tinha destruído a primeira nave humana havia procurado outro alvo para abater com as poderosas baterias laser da Nave- Base. - Fogo!- ordenou o Primeiro-Centurião do alto do seu pedestal. A sensação que o tinha avassalado na altura em que tinha ordenado o salto tinha desaparecido perante o sucesso do seu ataque. - Pelo seu Comando!- entoou o Centurião, accionando de novo as baterias que estavam viradas para a outra nave terrestre. O Capitão Lopes tinha ficado desorientado com a aparição daquela nave gigante e com a subsequente perda de energia, mas devido ao facto da sua nave ser muito mais pequena e com muitos menos sistemas, em pouco menos de 20 segundos já tinha começado a recuperar a energia. A primeira coisa que viu assim que os radares voltaram é que a Havana já não estava ao seu lado e que a nave alienígena ainda estava, o que só podia ser um mau sinal. Sem hesitar, berrou de imediato para o oficial responsável pela navegação: - Toda a energia para os motores e velocidade máxima para a frente!!!! O oficial assim fez, carregando num botão na sua consola que de imediato transferiu a emergia de todos os sistemas para o sistema dos motores. De imediato os reactores da nave aumentaram a potência e duas longas chamas de plasma iluminaram aquela zona do espaço. A acção do Capitão Lopes e a rapidez do oficial salvaram a vida da maior parte dos tripulantes da Lisbon pois a aceleração foi suficiente para tirar a nave do campo de tiro da maior parte das baterias da Nave-Base. Mesmo assim cerca de cinco tiros atingiram a nave terrestre e pura e simplesmente arrancaram-lhe toda a sua parte traseira. Sem os motores para corrigir o rumo, a nave de reconhecimento começou a executar uma série de voltas sobre si mesma, afastando-se cada vez mais do resto da patrulha terrestre. A Nave-Base virou-se então para as restantes naves terrestres. Estas manobravam entre si, numa tentativa desesperada de apontarem o maior número possível de baterias de mísseis à nave alienígena. " Abram fogo!!", ordenou William aos outros Comandantes, à medida que as naves iam tendo soluções de tiro. Assim que o oficial responsável pelas armas da Washington anunciou que também tinha uma solução, o Capitão ordenou-lhe que abrisse fogo com todas as baterias. A Washington inteira tremeu perante a força dos oito mísseis que saíram dos seus lançadores laterais e que se juntaram às salvas das outras naves terrestres. As duas corvetas de ataque que restavam, a Cabul e a Freetown, pareciam querer vingar a destruição da Cuba e por isso tentaram encurtar a distância com a Nave-Base de modo a utilizarem os seus lançadores frontais de torpedos, cujo alcance era mais curto do que o dos mísseis. "Achmed e Jones, recuem de imediato!!!", disse Trent assim que se apercebeu do que os Comandantes das duas corvetas estavam a tentar fazer. "Só mais uns metros.....", foi a resposta que lhe surgiu na mente, vinda do Capitão Jones, o Comandante da Freetown. O outro nem sequer se dignou a responder, continuando a avançar. "Isto foi uma ordem! Recuem já!", insistiu William, acima de tudo espantado com a atitude dos seus subordinados. Pelos vistos Ossan não era o único a achar que era normal desobedecer aos seus superiores! "Sim senhor!", respondeu Jones e, passados alguns momentos, também Achmed. Mas durante toda esta troca de palavras as corvetas tinham chegado onde queriam e antes de recuarem abriram fogo com os seus torpedos. As baterias laser da Nave-Base, que eram capazes de seguir Vipers a toda a velocidade, começaram de imediato a abater os mísseis lançados pelos terrestres mas mesmo assim houve alguns que, devido às suas manobras, conseguiram escapar e explodir contra a gigantesca nave inimiga, não lhe provocando grandes estragos pois a sua blindagem exterior era extremamente forte. Em relação aos torpedos, estes tinham uma vantagem sobre os mísseis. Visto que eram muito maiores que estes últimos, os seus construtores tinham-lhe dado um motor muito maior e uma ogiva explosiva a condizer. Assim, os quatro torpedos lançados pelas duas corvetas aceleraram a uma velocidade enorme em direcção à Nave-Base, parecendo pequenas estrelas em movimento. As baterias laser, embora fossem rápidas, estavam ocupadas a destruir a vaga de mísseis e assim não foram capazes de destruir os torpedos que avançavam sobre a nave. Sem nada que os impedisse, os quatro torpedos embateram no rebordo do disco inferior da Nave-Base, separados entre si por meros centímetros, mergulhando toda essa zona numa explosão de luz. Quando esta se dissipou, ficou claro que os torpedos tinham feito estragos pois era visível que faltava um bocado a essa parte do disco. Um enorme buraco adornava essa zona e uma série de explosões internas deitavam chamas que rapidamente morriam no vácuo do espaço. " Peço permissão para continuar o ataque....", ouviu Trent na sua cabeça, surgindo-lhe a imagem do Capitão Jones: " Os nossos torpedos parecem surtir mais efeito que os mísseis..." " Negativo....", respondeu ele, levantando mentalmente a mão para interromper as objeções que o seu subordinado iria de certeza levantar: " Aquela vossa manobra foi muito arriscada e não nos podemos dar ao luxo de perder mais naves!" Enquanto dizia isto, Trent sentiu o convés metálico por baixo dos seus pés tremer, sinal de que a Washington estava a disparar de novo. Aumentando o mapa táctico apercebeu-se que o resto da patrulha também o estava a fazer e uma segunda vaga de mísseis encaminhava-se para a nave alienígena. " Os torpedos são a nossa única vantagem nesta luta e acho que a devíamos utilizar..........", insistiu Jones. William sabia que o outro Capitão tinha razão mas, por outro lado, via os possíveis resultados da tentativa de repetir a manobra. De certeza que os alienígenas iriam estar preparados desta vez. "Erika, há alguma manobra com a qual possamos utilizar as armas da Cab....", a sua pergunta ficou a meio pois, numa súbita aceleração, a nave alienígena encurtou a distância para com o grupo onde estava a Cabul e Freetown, abrindo fogo contra essas duas naves. - Os dois alvos foram destruídos.- Com esta simples frase, o responsável pelas baterias da Nave-Base assinalava a morte de 200 seres humanos. É claro que não sentiu nenhum tipo de remorsos pelo que tinha feito. O seu cérebro mecânico, implantado à nascença, não lhe permitia ter nenhum tipo de emoção, mesmo que ele soubesse o que isso era. Os sensores da Nave-Base mostravam-lhe uma terceira nave a acelerar e a afastar-se dos destroços das naves que tinha acabado de destruir. Seleccionando as baterias que tinham melhor campo de tiro e que não estavam a disparar contra a segunda vaga de mísseis inimigos, o Centurião fez pontaria ao motor da nave e pediu autorização ao Primeiro-Centurião para disparar. - Fogo!- respondeu, de imediato, este último. - Pelo seu Comando!- disse o Centurião, enquanto accionava as baterias. Os disparos de pelo menos quatro das seis baterias acertaram em cheio na zona escolhida, destruindo-a por completo, causando uma enorme explosão secundária e parando a nave no espaço. Antes que o Centurião pudesse disparar uma segunda vez, um dos mísseis disparados pelas naves terrestres, num incrível acaso, conseguiu escapar às baterias laser da Nave-Base e atingiu em cheio uma delas, provocando a destruição desta. O Primeiro-Centurião pediu de imediato um relatório dos danos na defesa da Nave-Base ao computador central e ordenou ao Centurião para que virasse todas as baterias contra os mísseis inimigos. Segundo o computador, a Nave-Base tinha perdido cerca de 5% da cobertura laser ao perder aquela bateria. Isso podia trazer alguns problemas se o inimigo concentrasse os seus disparos na zona que estava agora sem bateria. Aqueles humanos estavam a revelar-se extremamente persistentes, embora não chegassem ao nível dos Coloniais, especialmente no que dizia respeito às naves. Quando tinham conseguido atingir a sua nave pela primeira vez, tinha ficado preocupado, nem que fosse pelo facto de que a explosão quase que o tinha atirado do pedestal abaixo. Felizmente a zona atingida não possuía nenhum sistema vital para o funcionamento da Nave e as baixas haviam sido mínimas. O que o intrigava era o poder que os mísseis inimigos tinham, especialmente aqueles que tinham destruído a segunda vaga de Raiders. Os seus cérebros interrogavam-se porque é que os Humanos ainda não os haviam utilizado de novo, especialmente contra a Nave-Base. A única resposta possível era que eles não conseguiam controlar completamente a explosão e que por isso não os podiam utilizar perto das suas próprias naves. Isso era algo que ele podia explorar. Verificando novamente os dados dos sensores, o Primeiro- Centurião ordenou uma mudança de curso e rapidamente a Nave-Base tomou a direcção por ele escolhida. "Assim não a conseguimos vencer........", pensou Trent, não se apercebendo que estava a subvocalizar a ideia. "Os meus programas de estratégia apontam para uma probabilidade de 10% de vencermos esta batalha se continuarmos a actuar desta maneira.", disse Erika, aumentando a preocupação do Comandante. Voltando a sua atenção para o mapa táctico e para o número cada vez mais pequeno de naves sob o seu comando, Trent viu que a nave alienígena estava a aproximar-se da Oslo, que estava imobilizada e a lançar as cápsulas de salvamento à medida que a sua tripulação a abandonava. Mudando para as câmaras exteriores e focando a fragata, Trent ficou com a impressão momentânea de que o inimigo a iria abalroar, mas tal não aconteceu, acabando por se imobilizar a alguns metros da Oslo. Pelo menos duas das cápsulas de salvação chocaram com o casco da gigantesca nave e explodiram, não lhe provocando no entanto nenhum dano visível. "Cessar fogo!", ordenou o Comandante às outras naves. Não se podiam arriscar a continuar a disparar mísseis com a Oslo e as cápsulas de lançamento pelo meio e ele também não iria arriscar mais naves a tentar atacar a nave alienígena pelos flancos ou por trás. "Comandante, vou interromper a evacuação!!!", ouviu ele de repente, surgindo-lhe na mente a imagem do Capitão da Oslo: " A nave está muito perto de nós..." "Conseguem aguentar a situação?" A figura do seu interlocutor ficou estática, sinal de que estava a comunicar com alguém, provavelmente com a sua I.A. . Quando voltou a falar as notícias não eram boas: "A destruição dos motores provocou uma série de sobrecargas eléctricas pela fragata toda e por isso temos uma série de incêndios em vários compartimentos." Parando por momentos, o Capitão da Oslo partilhou com William um esquema da sua nave e destacando um compartimento em especial, antes de continuar: "Este incêndio é o mais problemático........" Trent percebeu de imediato a razão da preocupação do seu subordinado. A Oslo era uma das fragatas de modelo antigo e os seus paióis não eram tão bem protegidos como os das classes posteriores. O fogo grassava nos compartimentos pegados a um dos paióis e mais tarde ou mais cedo iria alastrar. "Há alguma maneira de abrirem o compartimento para o vácuo e apagarem o fogo?" A figura mental do Capitão abanou a cabeça em sinal de frustração: "A maior parte dos circuitos nessas áreas foram destruídos e por isso a I.A. não pode fazer isso. A única solução era mandar alguém para rebentar o casco por fora, mas acho que de momento não há voluntários........" "Mas vocês têm de deter o fogo de qualquer maneira.", disse William, apesar de saber que o que estava a dizer era algo que o Capitão da Oslo já sabia. A partir do momento em que a nave alienígena se tinha aproximado da fragata em perigo, todas as chances de evacuação desta tinham terminado. "Peço desculpas por me estar a meter na conversa, mas há ainda outro problema", interrompeu Erika, chamando a atenção para o mapa táctico e para a disposição das naves: "Segundo os meus cálculos as armas do inimigo tem capacidade para atingirem qualquer das nossas novas...... "Enquanto que nós estamos limitados por causa da minha nave..., certo?", perguntou o Capitão da fragata atingida, chegando rapidamente à mesma conclusão do que a I.A. da Washington. Antes que Erika pudesse responder à questão, e provando que estava certa, a nave alienígena abriu fogo com algumas das suas baterias, atingindo de leve uma das fragatas. "Não podemos ficar aqui, à espera que ela nos destrua a todos.........", pensou William, retorcendo-se na sua cadeira como que se essa conclusão a tornasse desconfortável. Mas foi exactamente ao pensar isso que lhe surgiu uma solução aparente para o problema. O cerne da questão estava no "aqui". Eles estavam numa posição de desvantagem mas havia maneira de mudar essa situação! Virando-se para o Capitão da Oslo, Trent começou a delinear o seu plano enquanto que convocava os Comandantes das outras naves. Assim que todos estavam presentes, incluindo as I.A., ele repetiu a sua ideia e, perante os acenos afirmativos dos outros, rapidamente começou a implementa-lo. - As naves humanas que ainda estavam activas desapareceram.- informou o Centurião encarregue dos sensores da Nave-Base. - Desapareceram, como?- inquiriu o Primeiro-Centurião, girando o seu pedestal de forma a ver o seu subordinado. Como o seu plano de se esconder atrás de uma das naves inimigas tinha tido sucesso, ele havia desviado momentaneamente a sua atenção para os Raiders que atacavam a Frota. - Houve um aumento de energia nas naves e estas desapareceram dos nossos sensores. Não foi detectado o uso da velocidade luz. Este dado era mais um a acrescentar à lista, cada vez maior, de surpresas que estes Humanos possuíam. O seu nível tecnológico podia não ser tão elevado como o dos Coloniais, mas era bastante alto e capaz de trazer problemas aos Cylons. Era importante que todos os dados desta batalha fossem gravados para depois serem retransmitidos para o resto do Império Cylon. - Liguem os sensores de longo alcance e procurem essas naves.- ordenou o Primeiro-Centurião, num súbito palpite. Os seus cérebros indicavam que não era costume os Humanos abandonarem os seus, portanto aquelas naves não deveriam ter ido muito longe, visto que nas imediações da Nave-Base havia ainda 3 naves danificadas e uma série de pequenos objectos com humanos lá dentro. A confirmação que o seu palpite estava certo surgiu quase de imediato, quando o Centurião a quem ele tinha dado a ordem, respondeu: - As naves foram readquiridas. Estão a 100 metrons da nossa posição actual. - Tracem um novo rumo e acelerem para a velocidade luz. - Pelo seu Comando. Os saltos hiperespaciais podiam ser seguros, mas a verdade é que não eram nada agradáveis. No momento em que começavam, o tempo parecia parar e, por momentos, sentia-se uma paz absoluta pois dava-se aquilo a que os cientistas chamavam de "privação sensorial absoluta". Assim que o salto acabava, dava-se exactamente o contrário e os sentidos das pessoas pareciam ser "assaltados" todos ao mesmo tempo. Era por isso que era costume os saltos serem espaçados no tempo, de forma a dar tempo para as pessoas recuperarem daquela desorientação sensorial. "É uma pena que não vá ser assim.....", pensou Trent, enquanto começava a sentir a habitual dor de cabeça que acompanhava dois saltos hiperespaciais no mesmo dia. Chamando Erika, deu-lhe ordens para executar a segunda parte do seu plano e, passados alguns segundos, sentiu sob os seus pés o disparo de mais dois mísseis. Enquanto seguia a trajectória dos ditos mísseis a afastar-se da patrulha seguindo um rumo pré-programado, observava o rosto dos oficiais da Ponte e viu que todos estavam extremamente tensos. Gostava de poder dizer-lhes que tudo iria correr bem, mas a verdade é que ele próprio não tinha a certeza. Tudo dependia da reacção da nave alienígena. Passado cerca de um minuto de terem saltado para aquela zona, surgiu-lhe na mente a forma do Capitão da Oslo. "Comandante, estamos a detectar um aumento de energia na nave inimiga", informou este último: " A minha I.A. diz que não é semelhante aquele que surge quando a nave dispara os seus lasers......" "Obrigado, Capitão.", respondeu Trent, cortando a ligação com a fragata que tinham deixado para trás e ligando o sistema de som interno da Washington antes de continuar: - Atenção a todos os tripulantes, vamos efectuar um salto de emergência a qualquer momento. Estejam preparados! Este aviso estava a ser repetido nas outras naves da patrulha, ao mesmo tempo que Erika se ligava às outras I.A. de forma a fazerem um salto coordenado. "Odeio este tipo de espera........", disse ela a Trent, surpreendendo-o. Não era muito normal uma I.A. exprimir desta maneira o que pensava. Era mais uma prova de que elas eram quase humanas.... "Eu também não gosto nada, Erika...", acabou ele por dizer. Antes que pudesse acrescentar mais alguma coisa, as câmaras da Washington captaram o aparecimento da imagem fantasma que anunciava a chegada da nave alienígena. "Salto hiperespecial!", ordenou William no momento em que a dita nave se materializou por completo. Numa fracção de segundo a patrulha terrestre saltou de novo para junto das naves terrestres imobilizadas. Os computadores à bordo dos mísseis disparados pela Washington detectaram a chegada de uma nave que estava dentro dos seus parâmetros de ataque e rapidamente deixaram os seus modos de busca, marcando um novo rumo e acelerando na direcção do alvo. - As naves humanas voltaram a desaparecer. Esta foi a primeira frase que o Comandante da Nave-Base ouviu assim que saiu da velocidade luz e sinceramente não era aquilo que esperava. Mas o pior ainda estava para vir pois logo de seguida o mesmo Centurião voltou a trazer uma má notícia: - Estou a detectar dois mísseis a vir na nossa direcção. - Destruam-nos.- ordenou o Primeiro-Centurião, sem qualquer tipo de hesitação. Os seus dois cérebros tinham disparado uma série de alarmes, avisando-o de que havia grandes hipóteses de terem caído numa armadilha. - Pelo seu Comando!- disse o Centurião encarregue das baterias da Nave-Base. Com um comando rápido escolheu as baterias com uma solução de tiro e abriu fogo. Os mísseis estavam a um quilómetro do alvo e a accionar as suas ogivas nucleares de proximidade quando os tiros laser da Nave-Base os atingiram. No caso de um deles, os tiros foram limpos e acertaram-lhe em cheio, destruindo-o por completo. No outro, um dos tiros atravessou-o, cortando a ogiva do resto do corpo e destruindo este último. Nos nanosegundos que demorou até a ogiva se aperceber que já não tinha nada que a pudesse levar até ao alvo e por isso iniciar a sua detonação, uma série de outros disparos acertou-lhe, interrompendo o processo. Mesmo não tendo o máximo de potência , a explosão era de tamanho suficiente para atingir a Nave-Base. O Primeiro-Centurião sentiu todos os sistemas da sua nave a falharem, assim que o pulso electromagnético que precedia a explosão a atingiu, e de seguida sentiu tudo à sua volta a ficar de pernas para o ar enquanto que toda a Nave-Base era sacudida violentamente. Totalmente desamparado, foi projectado do seu pedestal para aquilo que até então era o tecto e logo de seguida caiu para o chão, quando os giroscópios internos dispararam os motores auxiliares de forma a parar a cambalhota que a gigantesca nave estava a fazer sobre si mesma. Uma das paredes internas da Ponte cedeu, caindo com um enorme estrondo em cheio num dos postos de comando e na figura inerte do Centurião que o ocupava. Por toda a Nave-Base ouvia-se o chiar do metal forçado à medida que ela se endireitava. Um cheiro a queimado encheu toda a Ponte à medida que uma série de incêndios deflagravam. Levantando-se do chão com um esforço, o Primeiro-Centurião viu que a maior parte dos seus sistemas cibernéticos estavam com problemas e estavam a reiniciar. Os seus dois cérebros diziam que os sistemas estavam apenas a funcionar a 52.34% das suas capacidades. Contactando o computador central , ele viu que a situação da Nave-Base também não era boa. Mais de metade dos sistemas tinha deixado de funcionar e não parecia haver maneira de os pôr a funcionar. Mas o pior eram os danos estruturais. A explosão tinha destruído parte dos dois discos, incluindo uma das entradas para o hangar inferior. Esse hangar estava em chamas e havia o perigo de atingir os depósitos de combustível para os Raiders. Havia secções inteiras da nave que estavam em chamas e destruídas. Por momentos uma imagem passou-lhe pela cabeça: um enorme monstro feito de chamas a dar uma dentada nos discos da Nave-Base e a soprar chamas lá para dentro através do buracos que tinha feito. Os seus cérebros suprimiram de imediato essa imagem, dando- lhe a explicação lógica de que tinha sido uma explosão a provocar esses estragos e redobrando os esforços para reactivar os seus sistemas cibernéticos, especialmente aqueles ligados às funções lógicas. Aos poucos os Centuriões foram-se levantando do chão e retomando os seus postos. Apenas dois deles não o fizeram, sendo um deles aquele que tinha sido atingido pelos destroços da parede e o outro um que tinha sofrido a perda total dos seus circuitos cibernéticos. Assim que os sistemas mínimos da Nave-Base voltaram a funcionar, o Primeiro-Centurião ordenou que se traçasse um rumo para as imediações da abertura na cintura de asteróides. Infelizmente um dos sistemas que não funcionava era aquele que fazia descer o seu pedestal de forma a ele poder sentar-se lá e portanto o Primeiro-Centurião teve de fazer aquela viagem em pé, algo a que já não estava acostumado. Uma série de gritos de alegria encheram a Ponte da Washington, à medida que os tripulantes viam a Nave-Base a afastar-se na direcção da cintura. Era uma pena que ela não tivesse sido destruída de imediato, mas aquele desfecho também era bastante bom. "Parabéns, Capitão.", disse Erika, juntando o seu cumprimento a todos aqueles que estavam a ser feitos pelos Capitães das outras naves da patrulha. Trent tinha apostado que a nave alienígena os iria seguir e tinha preparado a sua armadilha com base nisso. Felizmente que a sua aposta tinha saído certa, senão o mais certo seria ele não estar ali para comemorar. - Capitão, estou a detectar sinais hiperespaciais! - informou um dos oficiais que, apesar de estar a comemorar, não tinha afastado os olhos dos sensores de longo alcance da fragata. "Erika, mapa táctico!", ordenou de imediato Trent, enquanto que agradecia a informação ao seu subalterno. Assim que a imagem lhe surgiu, suspensa mentalmente no ar à sua frente, Erika destacou a área onde estavam a ser detectados os sinais. Era algures entre a sua patrulha e a cintura de asteróides e foi aí onde ele focou as câmaras de longo alcance da Washington. Sempre que uma nave se preparava para sair do hiperespaço, havia sinais visuais de que isso ia acontecer. De facto, o salto era sempre acompanhado por uma espécie de aura luminosa, que começava por ser branca e que depois passava por quase todas as cores do espectro. Essa aura tinha as mesmas características em todas as naves terrestres, sendo uma forma fácil de as identificar, distinguindo-se apenas num pormenor. Quanto maior fosse a nave, maior seria a aura e era por isso que Trent ficou espantado. Tinham surgido naquela área do espaço cerca de 25 auras e uma delas era imensa. "Qual é a nave que tem aquele tipo de assinatura hiperespacial?", perguntou ele a Erika, mas antes que esta pudesse responder, as naves materializaram-se no espaço normal e uma voz fez-se ouvir na frequência da patrulha: - Daqui fala o Almirante Kane Dawson, a bordo do cruzador T.D.F. Haematsu. Os reforços chegaram! Mais uma vez os gritos de alegria fizeram-se ouvir e, pela primeira vez, desde que aquilo tinha começado, o Capitão William Trent suspirou de alívio. O sentimento de alegria não era compartilhado pela tripulação à bordo da Ponte da Haematsu. A razão era simples: a maior parte não gostava do homem que estava a comandar aquele Grupo de Ataque. O Almirante Kane Dawnson era um desconhecido e tinha sido com incredulidade que a tripulação tinha recebido a notícia de que ele iria comandar o cruzador naquela missão, substituindo o Capitão Hiro. Para além disso, tinham sido mandados a toda a velocidade para aquela zona, o que equivalia a 5 saltos hiperespaciais em menos de 4 horas, o que era uma loucura. Pelo menos 28 tripulantes já tinham ido para o Posto Médico inconscientes e muitos mais tinham-se sentido mal, de tal maneira que ainda agora um cheiro pestilento a vómito enchia a Ponte, apesar de toda a ventilação e dos pequenos robots de limpeza. - Lancem os caças!- ordenou o Almirante assim que acabou de transmitir a mensagem para a patrulha e enquanto o resto das naves sob o seu comando tomavam posições de defesa em redor do cruzador. - Sim.....senhor....- respondeu, com má vontade, o Tenente Merril, o Comandante de Esquadrilha responsável pelo pequeno complemento de caças a bordo do Haematsu. O Almirante fingiu não reparar na insolência do seu subalterno e esforçou-se por estabelecer o contacto com o Capitão William Trent, o Comandante da patrulha naquela região. Ainda não se tinha habituado a falar através daqueles implantes cibernéticos. Tinham-lhe dito que a melhor maneira de dar ordens ao implante era falar-lhe numa língua diferente daquela com que pensava, pois assim não havia confusão de pensamentos. O método era bom, mas mesmo assim...... Quando finalmente o seu implante comunicou o seu pedido à I.A. do cruzador e esta comunicou com a sua semelhante da Washington, já os caças estavam a deixar as suas baías de lançamento laterais e a assumirem posições de defesa à volta do Grupo de Ataque. A figura mental do Capitão Trent surgiu-lhe à frente dos olhos, fazendo-lhe continência e ele automaticamente respondeu, mas no mundo real, o que lhe valeu alguns risos de escárnio por parte de alguns tripulantes. "À vontade, Capitão.", acabou ele por conseguir dizer, formando uma imagem virtual de forma a comunicar com o seu interlocutor: "Que me pode dizer sobre a situação?" O Comandante Trent começou a fazer um relatório sobre o que tinha acontecido, dando uma ênfase especial aos danos causados pela nave principal do inimigo. Assim que terminou a sua comunicação, o Almirante virou a atenção para a batalha que se dava perto da cintura de asteróides. Os sensores do cruzador rapidamente identificaram a forma maciça da nave descrita por Trent. - Preparar canhão principal! - ordenou Dawson, enquanto focava a sua atenção na dita nave. Os danos provocados pelos mísseis nucleares da Washington eram bem visíveis, mas mesmo assim a nave ainda continuava em funcionamento. De repente, surgiu-lhe na cabeça o nome "Nave-Base". Aquela nave era uma Nave-Base. Por momentos, Kane pensou de onde é que lhe teria vindo aquele nome, mas a verdade é que não fazia a mínima ideia. Mas ao voltar de novo a sua atenção para a imagem transmitida pela câmara, teve a noção de que aquele nome estava correcto. Enquanto isso, nas entranhas do cruzador, uma enorme quantidade de energia estava a ser desviada dos geradores dos motores para o arma principal da Haematsu. O termo "canhão" era o termo mais próximo que havia para a descrever. A arma era constituída por uma série de aceleradores magnéticos que disparavam uma "bala" de urânio empobrecido de várias toneladas a uma velocidade perto da luz. O canhão era tão maciço que na realidade o cruzador tinha de ser construído à sua volta e era por isso que até agora a Marinha Terrestre só tinha três naves deste tipo. Quando o canhão atingiu a sua carga máxima, as luzes em toda a nave fraquejaram. A I.A. começou de imediato a traçar uma solução de tiro, utilizando os motores secundários para apontar a Haematsu na direcção do alvo. Quando finalmente estava em posição, a I.A. pediu autorização a Dawson para disparar. "Não....", disse ele, não sabendo bem porque: "Dá-me uma mira manual...." "Essa opção não é a mais aconselhada.....", começou a I.A. a dizer, sendo interrompida pelo Almirante: "Isto é uma ordem directa. Dá-me uma mira manual." "Sim, senhor", respondeu a I.A. num tom de voz que imitava muito bem a resignação. Na mente do Almirante surgiu a imagem ampliada da Nave-Base e, passados alguns segundos, uma mira. Com uma série de pequenos comandos mentais, Dawson foi manobrando a mira até esta estar centrada na estrutura que fazia a ligação entre os dois discos. Inspirando e depois espirando lentamente, deu a ordem para disparar, a sua primeira ordem em situação de batalha. Com um silvo, mais sentido do que ouvido por toda a nave, o projéctil saiu do canhão e foi embater quase de imediato na Nave-Base que se encontrava a vários quilómetros de distância. O Primeiro-Centurião sentiu mais uma vez o chão debaixo dos seus pés a oscilar, antes de cair desamparado. Mas, desta vez, a oscilação continuou e tornou-se até mais violenta à medida que o tempo passava. O projéctil havia partido a meio a coluna que ligava a metade superior e inferior da Nave-Base e depois havia explodido contra a cintura de asteróides, provocando uma explosão de grande intensidade. Consultando o computador central, o Primeiro-Centurião viu que os sistemas da sua nave estavam a morrer e o esforço provocado no metal pelos disparos constantes dos motores de manobra, que tentavam desesperadamente travar as rotações dessincronizadas dos discos, estava a contribuir para o fim da Nave-Base. - Temos que mandar uma mensagem para a base mais próxima. O Império tem de ser avisada desta ameaça.- disse ele para um dos Centuriões que ainda se mantinha agarrado à sua consola. - As comunicações hiperluz não estão a funcionar. - Mandem uma comunicação rádio. - Pelo seu Comando!- respondeu o Centurião, começando a enviar toda a informação recolhida pelo computador central da Nave-Base durante o encontro com a Frota Colonial e com os outros humanos. O seu cérebro não lhe permitia chegar à conclusão a que os dois cérebros do Primeiro-Centurião já tinham chegado. Daquele modo, a mensagem só chegaria a espaço dominado pelo Império Cylon dentro de três Yahrens. - Então é assim que isto acaba.......- disse o Primeiro- Centurião para si mesmo. O seu plano até tinha sido bom e tudo estava a correr bem até à altura em que tinham surgido aqueles outros Humanos. A partir daí a sua "sorte" parecia ter acabado. Talvez os seus cérebros tivessem razão e essa "sorte" não existisse. Ao menos tinha prestado um bom serviço ao Império.....mas ainda havia uma última ordem que ele podia dar..... - Atenção a todos os Guerreiros! - pela primeira vez em muitos centons, a voz do Coronel Tigh fez-se ouvir na frequência das Esquadrilhas.- As comunicações já estão reparadas e ainda para mais tenho uma boa notícia para vos dar....A Nave-Base foi destruída.... A maior parte dos Guerreiros nem sequer se tinha apercebido que isso tinha acontecido. Poucos eram aqueles que tinham os seus sensores calibrados para longo alcance, estando mais concentrados em abater os Raiders que atacavam a Frota. Assim que as palavras do Coronel foram "absorvidas", uma série de gritos de alegria fizeram-se ouvir. O próprio Apollo não conseguiu conter um, berrando a todos os pulmões. Na fracção de micron em que fez isso, um Raider aproximou-se pela sua esquerda, com as armas a disparar. Os tiros razaram o nariz do Viper e o caça Cylon continuou o seu trajecto, passando por baixo da nave de Apollo a uma distância de tal maneira curta que, mais tarde no Clube dos Oficiais, o Comandante juraria ter visto as luzes vermelhas dos seus três tripulantes. Fazendo o Viper executar uma apertada curva para a direita, Apollo colou-se à cauda do Raider que acelerava em direcção à Galactica. - Vamos lá....vamos lá....- murmurou ele, enquanto o computador tentava fixar o alvo. À frente de ambos, a Estrela- de-Batalha parecia aumentar de tamanho a uma velocidade vertiginosa, já se começando a ver os clarões provocados pelas baterias de defesa desta. - Os pilotos deste são óptimos....- disse Apollo, vendo o Raider desviar-se de uma série de tiros de uma bateria e continuar o seu percurso, fazendo uma série de manobras que também serviam para escapar ao Viper que os perseguia. Nessa altura, uma voz fez-se ouvir na frequência geral e Apollo identificou-a como a de um Guerreiro da Esquadrilha Vermelha. - Pelos Senhores de Kobol. Alguém viu aquilo? O Raider não se desviou.... - Daqui fala o Comandante Apollo. Que se passou? - O Raider chocou de frente com o Viper do Iur...... Nem sequer se tentou desviar....- balbuciou o Guerreiro, sendo subitamente interrompido por outra transmissão: - Daqui fala o Coronel Tigh. Acabamos de perder a Fenris....os Cylons estão a fazer ataques suicidas. As palavras de Tigh foram como um balde de água fria para Apollo. Primeiro, porque a Fenris era uma nave de passageiros e segundo porque agora tinha a certeza que sabia o que o Raider estava a tentar fazer. Sem pensar, mais disparou os seus turbolasers, tentando um tiro de sorte. Os pilotos Cylons aperceberam-se dos disparos e redobraram as suas manobras para escaparem. Apollo pressionou o ataque e, num mero acaso, um dos seus tiros acertou de leve na asa direita do Raider. A reacção dos Centuriões foi virar para a esquerda, directamente de encontro a uma rajada laser de uma das baterias da Galactica. O Viper de Apollo passou em cheio pelo meio da explosão do Raider e o Comandante sentiu uma série de pequenos impactos, à medida que o seu caça era atingido pelos destroços do inimigo. Assim que ultrapassou a nuvem de destroços, deu um pequeno toque nos Turbos e fez subir o nariz do Viper, afastando-se da superestrutura da Galactica que estava já perigosamente perto. Foi nessa altura que surgiu outro Raider, directamente à sua frente e ele só teve tempo de tornar a baixar o Viper e carregar nos Turbos. Mesmo assim sentiu uma tremenda sacudidela, que quase descontrolou o Viper, seguida por uma série de luzes de aviso que lhe aparecerem no seu painel de instrumentos. - Frack.............- disse ele para si mesmo, fazendo o seu caça executar um loop e vendo o que temia. O Raider que o tinha tentado atingir e falhado havia-se despenhado de encontro à Galactica, provocando uma série de rombos na blindagem desta. Desligando as luzes de aviso e verificando os seus sensores, ele procurou a frequência geral de todas as Esquadrilhas e disse: - Atenção, é vital que protejam as naves da Frota. Esqueçam os computadores e disparem assim que achem que tem chances de acertar..... A sua mensagem foi recebida com uma série de respostas afirmativas e, aos poucos, os Vipers foram destruindo os Cylons que, pura e simplesmente, estavam apenas à procura de alvos com os quais embater. A área à volta da Galactica foi a primeira a ficar livre, especialmente devido às baterias de defesa desta e ao trabalho da Esquadrilha Dourada, comandada por Apollo. Vendo uma aberta nos combates, o Coronel Tigh mandou sair dois vaivéns de salvamento para ir buscar Dietra e Sheba. Foi a tripulação do primeiro vaivém a sair da Baía de Lançamento Alfa que se apercebeu dos danos que o Viper de Apollo tinha sofrido. De facto, o seu caça tinha perdido a asa superior no embate com o Raider e o motor superior parecia danificado. Apesar das tentativas feitas por Tigh para que regressasse à Galactica, Apollo continuou a sua patrulha de defesa à Estrela-de-Batalha e este pequeno episódio ficou para sempre na memória de todos os Coloniais que assistiram a esta batalha. "Aquele tiro foi magistral.", disse Erika assim que as câmaras do Haematsu começaram a transmitir para todas as naves terrestres a imagem da nave alienígena partida ao meio: " Especialmente se tivermos em conta que foi dado por um humano." "Estou ansioso por conhecer pessoalmente este Almirante....", retorquiu Trent. Era espantoso como é que um homem tão novo tinha conseguido atingir aquele posto. É claro que essa juventude trazia problemas, pois era sempre difícil para os tripulantes obedecerem a alguém que era pouco mais velho que eles. Por outro lado, esta "injecção" de sangue novo era óptimo porque a maior parte dos Almirantes da Marinha eram veteranos da Segunda Guerra Colonial e ainda pensavam nesses termos. Fitando a imagem do mapa táctico, cheio de pontos representando naves extraterrestres, Trent murmurou: "Aposto que vamos precisar de muitos mais homens como este Almirante....." Se Erika tinha alguma opinião sobre este assunto não a expressou, limitando-se a apontar o facto de que o Haematsu estava a lançar vaivéns. Quatro deles dirigiram-se para a nave alienígena, transportando, segundo o procedimento padrão, dois pelotões de Fuzileiros. A Marinha não ia deixar escapar a oportunidade de capturar uma nave desconhecida. Os dois outros vaivéns eram de Recolha e Resgate e dirigiram-se ao encontro do maior grupo de cápsulas de salvamento, começando de imediato a resgatar os sobreviventes das naves terrestres. Eles pareciam evitar a zona onde estava a cápsula da Ponte da Brighton, pois a acompanhar essa última estavam os dois caças atacados pela Dakar e à volta destes encontravam-se duas naves que só podiam ser equivalentes aos vaivéns terrestres. Só quando estas últimas partiram, levando consigo os caças, é que um dos vaivéns foi resgatar essa cápsula. Na altura em que a última leva de sobreviventes era transportada para a Haematsu, uma mensagem do Almirante foi recebida por todas as outras naves: "Tenciono deslocar-me até à nave-mãe dos alienígenas. O Grupo de Ataque fica sob o comando do Coronel Thompson até ao meu regresso. Desejem-me sorte!" "Está provado.......", disse Trent ao ouvir estas palavras, ".....precisamos é de Almirantes como este......" A atenção das naves terrestres, e das suas tripulações, fixou-se na pequena escuna de comando que saiu do cruzador e se dirigiu para a gigantesca nave que dominava a frota alienígena. Pela primeira vez na história da Humanidade estava-se a assistir a um Primeiro Contacto com uma raça alienígena viva. Epílogo Primeiro Pela primeira vez desde que a viagem da Frota tinha começado, a IFB teve uma audiência totalmente absorta na sua emissão. Mesmo os feridos que estavam a chegar das outras naves tiveram direito à instalação de um ecrã na enfermaria do Centro Médico da Galactica de forma a seguirem os acontecimentos. Após o fim dos combates, e seguindo os dados transmitidos pela Ponte da Galactica, a IFB começou a transmitir continuamente uma lista com o nome das naves destruídas, das suas tripulações e passageiros, assim como o nome de todos os Guerreiros que tinham morrido em combate. Essa programação podia parecer um bocado mórbida mas, com o número de famílias que existiam espalhadas pelas diferentes naves da Frota, esta era a única forma de manter as pessoas informadas. Ao fim de quase dois centares essa emissão foi interrompida e passou-se para uma emissão em directo no hangar da Baía de Lançamento Alfa. As primeiras imagens mostravam equipas de pessoal de terra a afastar uma série de Vipers do local onde tinham aterrado. Misturados com eles viam-se os uniformes de vários Guerreiros. A câmara focou um deles e o Capitão Starbuck surgiu em todos os ecrãs da Frota a guiar um dos pequenos carros utilizado para rebocar os Vipers no hangar. Com um movimento rápido a câmara focou a entrada do Hangar, mostrando a imagem de dois vaivéns a aterrar lado a lado, trazendo agarrado por um campo de forças, no meio deles, um Viper que parecia estar bastante danificado. Atrás deles, ainda fora do campo de forças que protegia a atmosfera do hangar, via-se outro Viper, à espera de vez para aterrar. Assim que os vaivéns depositaram a sua carga, viu-se uma equipa médica e um Guerreiro a dirigirem-se para o Viper. Mais uma vez a câmara fez um "zoom" e as pessoas puderam acompanhar o Comandante Apollo enquanto este subia as escadas que tinham sido encostadas ao caça e abria a carlinga. No seu interior podia-se vislumbrar a imagem de alguém caído para a frente, de encontro aos painéis de instrumentos. A equipa média subiu para o lado do Comandante e rapidamente começaram a tirar o Guerreiro do seu lugar. A preocupação era evidente no rosto de Apollo e a maior parte das pessoas que assistiam à cena perceberam a razão disso quando os médicos tiraram cuidadosamente o capacete ao paciente, revelando a cara da Capitã Sheba. Assim que a puseram numa maca motorizada e a levaram dali, o Comandante fez um sinal e os dois vaivéns saíram de novo para o espaço. Logo de seguida o outro Viper, que esperava pacientemente a sua vez, aterrou e de imediato foi rebocado para uma posição longe da entrada do hangar. Aos poucos foi-se criando uma clareira em frente dessa dita entrada e passados alguns centons a câmara focou-se no espaço para além do campo de forças. Uma série de luzes surgiram nessa zona e começou a distinguir-se uma forma que avançava para o hangar. Uma pequena comitiva apareceu no canto inferior direito, mas a câmara nem sequer se dignou a foca-los, tão absorta que estava a filmar a nave que se aproximava. A nave era maior que um vaivém, tendo um nariz afilado que lhe dava um ar agressivo. As janelas do cockpit eram negras e portanto não deixavam vislumbrar a tripulação. A sua entrada foi um pouco rápida demais e a nave ainda deslizou um pouco antes de parar por completo. Foi nessa altura que a voz de um dos comentadores de serviço se fez ouvir pela primeira vez: - Aposto que o pessoal de terra não vai ficar contente com as arranhadelas no pavimento que eles acabam de fazer! - Zed, isto não é altura para brincadeiras!- disse a outra comentadores, Zara, com um tom de reprovação na voz. - Estes podem ser os descendentes da Décima Terceira Colónia. - Peço desculpas.- respondeu simplesmente o outro e o silêncio instalou-se de novo. A câmara focou aquilo que parecia ser uma escotilha na superfície da nave. Passados alguns microns essa escotilha começou a recolher para dentro da nave e uma pequena escada desceu. Toda as pessoas da Frota colaram os seus olhos às imagens da IFB naquele momento, à espera do primeiro vislumbre dos outros Humanos. Uma forma surgiu à escotilha, mas ainda no interior da nave. Uma pequena esfera prateada saiu de lá, pairando no ar durante alguns microns e rapidamente voltando a entrar pela escotilha. - Deve ser alguma espécie de sonda atmosférica.....- especulou Zara, calando-se de seguida. Aos poucos uma figura apareceu à escotilha, logo seguida por outra e depois por uma terceira, mas como o interior da nave estava às escuras, era difícil ver mais alguma coisa. Assim que a primeira figura desceu a escada e a câmara focou-a, a voz de Zed fez-se ouvir de novo - Fomos enganados, são Cylons!!!!- berrou ele, à medida que a câmara mostrava a imagem de uma armadura metálica negra, coroada por um capacete que parecia a cabeça de uma Oviana sem as antenas. Nas mãos trazia uma arma de aspecto agressivo, extremamente parecida com as espingardas laser dos Cylons. Girando para a direita, a câmara focou a comitiva sendo visível que também havia Guerreiros que pensavam que os visitantes eram Cylons, pois muitos haviam sacado das suas armas pessoais e apontavam-nas na direcção da figura. De repente, um membro da Esquadrilha Verde disparou, acertando o seu tiro em cheio no centro da armadura do estranho. Ao contrário do que seria de esperar este não caiu, limitando-se a cambalear para trás, continuando a agarrar a sua arma. Entretanto o Comandante Apollo tinha dado um encontrão ao Guerreiro que havia disparado, fazendo saltar das mãos deste a arma e parecendo berrar para que os outros Guerreiros baixassem as suas armas. À primeira figura, juntou-se outra vestida da mesma maneira que pareceu encostar o seu capacete ao da outra, talvez a comunicar. De seguida afastou-se e fez um pequeno sinal para dentro da nave e a terceira figura saiu. Ao contrário das outras, esta estava vestida com aquilo que parecia ser um fato de sobrevivência espacial, semelhante aos utilizados quando tinha que ser fazer reparos no casco exterior das naves da Frota. Passando pelo meio das outras figuras, ela chegou-se à frente e levantou os braços, num gesto claro de que estava desarmado. O que aconteceu a seguir ficou para sempre marcado na história das 12 Colónias. Uma voz amplificada, com um sotaque extremamente estranho, fez-se ouvir no hangar vinda da terceira figura, que continuava com as mãos no ar: "- Sejam bem-vindos aos domínios da Terra. Os vossos irmãos saúdam-vos!" - Pelos Senhores de Kobol, a nossa viagem terminou...........- foi com estas palavras que Zara terminou a emissão da IFB, numa altura em que o operador largou a câmara e se agarrou a ela, beijando-a num momento de pura emoção. Os festejos espalharam-se da Galactica para as outras naves da Frota e, por momentos, as pessoas esqueceram tudo o que haviam perdido e o quanto lhes havia custado chegarem até ali. Tal como Zara havia dito, a viagem havia terminado e isso era o que interessava. Epílogo Segundo ( Três dias após o Primeiro Contacto ) Ao contrário do que a Marinha Terrestre pensava, a cintura de asteróides era até certo ponto navegável. Havia zonas onde se podia entrar e percorrer uma certa distância até surgir algum obstáculo inultrapassável. Era exactamente numa dessas zonas relativamente limpa de asteróides, mas rodeada por uma série deles, que se encontrava uma pequena frota de 30 naves. A maior parte delas eram cargueiros que já tinham visto melhores dias, havendo também algumas pequenas corvetas de ataque e duas fragatas de um modelo antigo. Todas as naves partilhavam uma espécie de origem comum, tendo sido roubadas ou de outra maneira "perdidas" em várias colónias. A maior parte estava coberta de remendos grosseiros, um sinal de reparações feitas longe de qualquer estaleiro oficial. Além disso, muitas delas estavam cobertas de módulos de armamentos que não faziam parte dos seus esquemas originais e que quebravam uma série de leis sobre o armamento que naves civis podiam ter. Das duas fragatas, havia uma delas que se destacava pois estava toda pintada de vermelho escuro, podendo-se ver ainda no seu casco o que restava do emblema da República Livre de Marte, sobre o qual alguém tinha pintado à pressa uma caveira com dois ossos cruzados atrás de si, o velho emblema dos piratas que outrora tinham navegado nos mares da Terra. A fragata tinha sido abordada quando se dirigia para os estaleiros da Colónia de Nova Amesterdão para sofrer melhoramentos. A sua tripulação era sobretudo composta por cadetes para os quais aquela era a primeira viagem e portanto pouca resistência ofereceram. É claro que aquela viagem acabou por se revelar a última para todos eles, pois assim que os piratas dominaram a nave, mandaram todos os seus tripulantes para o espaço, sem os fatos espaciais. Era nessa fragata que o líder deste bando de piratas tinha as suas acomodações. A sala principal de convívio tinha sido transformada numa luxuosa cabina para seu uso. Os tripulantes não se queixavam por terem ficado sem esse local, pois por um lado sabiam que com aquele Comandante era escusado protestar e, por outro lado, sempre que quisessem divertimentos podiam ir até ao cargueiro Xangai, onde estava instalado uma espécie de casino e onde estavam detidas a maior parte das prisioneiras femininas. O Comandante era um homem alto, com cerca de 50 anos de idade, de cabelo acizentado que usava comprido e amarrado num rabo-de-cavalo. A sua cara era de linhas suaves, encimada por dois olhos de um negro profundo, e com uma pequena pêra no queixo. O seu aspecto era tudo menos ameaçador, parecendo mais um empresário do que outra coisa. Encontrava-se reclinado na sua cadeira, atrás da secretária de madeira maciça que havia pertencido ao falecido Governador de ER-304, uma pequena colónia que eles haviam atacado e saqueado. De olhos fechados, apreciava a música que saía das colunas espalhadas pela cabina. "- A música clássica é a única coisa de jeito que a Terra alguma vez produziu ...."- pensava ele, enquanto a sua atenção vagueava pelas suas vastas recordações. Havia conhecido alguns compositores famosos e até os tinha ajudado nas suas carreiras, cobrando-lhes sempre um preço, é claro. No meio destas recordações, sentiu que estava a ser observado, sentiu a presença de alguém na cabina. Antes de abrir sequer os olhos, procurou no braço da cadeira o botão de alarme e pressionou-o, alertando a tripulação para aquele problema. - Isso não era necessário, velho amigo........- ouviu ele assim que deu o alarme. Abrindo os olhos viu no meio da cabina um homem de aspecto nobre, de cabelo acinzentado puxado para trás a partir da testa. A sua altivez era acentuada pelo facto de estar vestido de branco com um traje que possuía uma gola, debruada a dourado, que se levantava quase acima da sua cabeça. Na altura em que o Comandante dos piratas o reconheceu e ia a dizer o seu nome, a porta da cabina foi aberta de rompante e dois tripulantes entraram. O primeiro, armado com uma espingarda de flechettes, não hesitou e apontou-a para as costas do intruso, mas antes que pudesse fazer alguma coisa este virou-se com uma rapidez sobre-humana e com um rápido movimento de mãos arrancou-lhe a arma das mãos, atirando-a para um canto da sala e de seguida fazendo-lhe a mesma coisa. O segundo tripulante, não parecendo minimamente impressionado por ver o seu colega ser arremessado pelo ar como se de um boneco se tratasse, avançou para o intruso, tentando acertar-lhe com a coronha da sua pistola de flechettes. Com a mão esquerda, o desconhecido afastou a pistola e, num movimento extremamente rápido, agarrou-lhe a garganta com a mão direita. Com um simples pensamento, os dois homens elevaram-se do chão e o desconhecido empurrou o seu atacante de encontro à parede, num impacto que tirou todo o ar dos pulmões deste último. - Mostra-me a tua verdadeira cara!- ordenou o estranho, aumentando a pressão na garganta do pirata. Este último abriu muito os olhos, espantado por aquela ordem e ainda pensou em desobedecer, mas um aumento da pressão fez com que obedecesse. A sua cara pareceu liquefazer-se, com a pele a escorrer como cera, formando uma nova face à medida que os seus ossos também se modificavam. Quando a transformação terminou, o estranho estava perante uma cara que apenas podia ser chamada humana por causa da existência dos olhos e do nariz e mesmo estes estavam diferentes. Os ossos tinham crescido e tomado uma configuração diferente, dando um aspecto brutal à face e parecendo querer rebentar a pele que agora tinha uma tonalidade parecida com a do sangue. Mas a transformação mais marcante era o aparecimento de chifres na testa, dando ao pirata a aparência de um autêntico demónio. - Deixa-o em paz, Iblis.- disse de repente o Comandante dos piratas, ao sentir que o outro ia obrigar o seu tripulante a transformar-se completamente. - Se é esse o teu desejo.....- respondeu Iblis, largando o homem para o chão e aterrando suavemente em frente da secretária. O pirata sacudiu rapidamente a cabeça e a sua face voltou ao normal. O seu Comandante fez um rápido sinal com a cabeça e ele levantou-se e foi pegar no outro pirata, que continuava inconsciente, arrastando-o para a porta da cabina. Assim que esta se fechou, o Comandante voltou a sua atenção para Iblis. - Que vieste aqui fazer? - Nem sequer me perguntas como tenho passado?- retorquiu Iblis com um sorriso trocista. - Afinal de contas, já não nos vemos à quase dois séculos........ - Vai directo ao assunto, Iblis.....- rosnou o outro, perdendo a paciência e debruçando-se para a frente na sua cadeira.- Não estou com paciência para os teus jogos......... - No entanto tens paciência para ficar aqui escondido, à espera que as coisas acalmem para continuares os teus ataques............- disse Iblis, começando a passear pela cabina e parando para apreciar alguns dos quadros que adornavam as paredes metálicas. Todos eles eram obras provenientes de colónias saqueadas: - Tu, o Príncipe dos Príncipes, o Comandante dos Exércitos, reduzido a isto.........- continuou ele a dizer, apontando para o que o rodeava.- Onde está a tua antiga glória? Será que ainda há alguém que se lembre do teu nome? Com um suspiro de resignação, o Comandante teve que admitir que Iblis tinha razão. Ele próprio pensava nisso muitas vezes. - Os tempos mudam e as pessoas também.......- acabou por dizer, numa tentativa de se justificar.- A Terra já não é o que era......... - Mas há sempre lugar para nós....... - Há, mas não como antigamente, naquela altura em que as pessoas se aterrorizavam só ao ouvirem o meu nome. - Não gostavas de voltar a essa altura?- perguntou Iblis, fitando o seu interlocutor nos olhos.- E além disso, não gostavas de voltar a casa? Esta última frase fez com que o Comandante se endireitasse na sua cadeira. Há vários séculos que ele ansiava voltar a casa e abandonar aquela dimensão para a qual tinham sido trazidos por um engano. Já tinham tentado regressar uma vez mas essa experiência acabara num desastre total. - Estou a ver que sim.- disse o Conde, lendo a resposta na mente do seu interlocutor. Sabia que o seu velho amigo iria reagir assim pois ele próprio sentia essas saudades de casa. - Como te propões a fazer isso?- perguntou o Comandante, sentindo dentro de si um entusiasmo que já não sentia desde da altura em que tinha assistido à crucificação de um certo empecilho ao seu trabalho na Terra. É claro que no final havia "perdido" a guerra pela Terra, mas ao menos tinha passado uns séculos no mínimo...... divertidos. Iblis fazia os seus jogos com os Cylons e os seus inimigos humanos, enquanto que ele se tinha dedicado a atormentar os Terrestres. - As primeiras jogadas já foram feitas.........- respondeu Iblis, continuando depois a explicar o resto do seu plano. À medida que o tempo foi passando e ambos foram compartilhando os seus pensamentos, o Comandante dos piratas viu crescer a certeza de que, dentro em breve, deixaria de precisar de se esconder atrás desse título humano e que se iria apresentar de novo aos seus servos com um dos seus nomes mais conhecidos: Satã, o Príncipe das Trevas. Epílogo Terceiro ( Mês e meio após o Primeiro Contacto ) Com um sorriso no rosto, o Capitão Alberto Lopes, o Comandante da T.D.F. Lisbon abandonou o vaivém militar que o tinha trazido de Gibraltar até à Terra. Ele tinha passado um mês a ser interrogado pela altas patentes da Marinha Terrestre em relação ao seu papel no Primeiro Contacto com os outros humanos, agora conhecidos como os Coloniais. O interrogatório tinha sido extenso e só não se tinha prolongado porque alguém do Governo da Aliança tinha decido vir com o assunto a público e espalhar por todas as redes de comunicação a notícia do Primeiro Contacto. A Marinha tinha acabado por confirmar a notícia e prometer que iria dar mais pormenores em breve. A Frota Colonial estava, entretanto, a ser conduzida para um destino seguro. Quando finalmente lhe tinham concedido a licença, Lopes tinha suspirado de alívio pois a certa altura tinha-lhe passado pela cabeça que nunca mais iria sair da Base de Gibraltar. De facto, o seu interrogatório até nem tinha sido muito mau, até ao momento em que havia referido a falha na sua I.A. . A partir dessa altura, as perguntas tinham sido um pouco mais hostis e até tinha surgido uma nova equipa de oficiais superiores para o interrogar sobre o assunto. Certo dia, sem mais nem menos, os interrogatórios haviam terminado e tinham-lhe comunicado que iria ter uma licença de duas semanas para visitar a sua família na Terra. Ele ia aproveitar esse tempo ao máximo e era essa a ideia que o animava ao desembarcar no espaçoporto de Londres que servia todo o Sector Europeu da Terra Unida. Com uma viagem de 20 minutos no comboio-magnético que partia do espaçoporto estaria em casa, junto da sua mulher e das suas duas pequenas filhas. Ao pensar nestas últimas, lembrou-se que seria conveniente levar-lhes um presente e por isso parou num dos inúmeros bazares existentes ali. Escolheu dois peluches enormes e mandou-os embrulhar, pegando com alguma dificuldade neles após pagar. Na porta de entrada cruzou-se com um homem envergando um uniforme de piloto comercial, mas nem sequer lhe prestou atenção pois estava a ver se equilibrava os dois peluches e a sua mala. A última coisa que sentiu foi um toque frio no fundo da sua nuca quando o outro homem se virou e lhe encostou uma pistola de flechettes â cabeça e disparou. Com um zumbido eléctrico, cerca de 50 dardos de urânio empobrecido penetraram-lhe pela parte de trás da cabeça, destruindo tudo à sua frente e acabando por desfazer um dos ursos que o Capitão Lopes trazia nas mãos ao saírem pelo buraco sangrento que segundos antes era uma cara . Quando o corpo começava a cair, o assassino virou-se rapidamente e disparou contra o empregado que estava atrás do balcão a assistir estupefacto a tudo. Os dardos rebentaram completamente a cabeça do indivíduo e a parede atrás deste ficou macabramente decorada com bocados de massa cerebral, osso e outras matérias orgânicas. Quando o corpo do Capitão Lopes finalmente atingiu o chão, batendo contra a porta, o assassino estava já em movimento, saltando para trás do balcão e abrindo a porta aí existente que dava acesso a toda uma série de túneis de serviço do espaçoporto. Na altura em que um turista descobriu os corpos na loja, o assassino estava já a sair de um túnel que dava para uma das pistas secundárias e a encaminhar-se para um vaivém da Marinha que o esperava. Assim que entrou nele, a nave levantou voo, dirigindo-se para uma das estações espaciais em órbita da Terra. - Fim da 1ª História -