Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ------------------------------------------------------------ Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (possidonio24@hotmail.com) ------------------------------------------------------------ "O Principio do Fim" - Parte 2 - CAPÍTULO 11 - ALGURES NO SISTEMA PLANETÁRIO DE LAVOS-304 Ignorando tudo à sua volta, o Comandante Hans Zimmer voltou a rever os planos na sua mente. Mais uma vez as vantagens de ter uma I.A. ao seu serviço fizeram-se sentir, especialmente na facilidade com que conseguia simular todas as movimentações que as naves sob o seu comando iriam ter que fazer. Era uma boa maneira de se aperceber dos problemas que poderiam surgir. Se tudo corresse bem, os Cylons em órbita de Lavos-304 iriam ser apanhados de surpresa… “É só uma pena que também não consigas simular a resposta dos Cylons…”, subvocalizou ele para Eva. “Com o acumular de dados resultantes dos combates com eles, de certeza de que dentro em breve a Marinha irá criar uma programa de simulação!”, afirmou a I.A., cheia de confiança. “Não sei se isso será bom…”, ponderou Zimmer. “Os programas de simulação da Marinha costumam ser bastante bem desenvolvidos e cumprem todos os parâmetros” “Eu não estava a falar dos programas…”, disse o Comandante, interrompendo o discurso de louvor que Eva parecia ir fazer. - “O que acho é que esses dados vão ser acumulados à custa de imensas vidas…” A I.A. pareceu ponderar essa declaração por momentos, antes que finalmente dizer: “Quanto a isso nada podemos fazer! Os Cylons invadiram o nosso território, a Marinha e a Humanidade têm o dever de os combater! Todo o sangue derramado por nós será por uma boa causa…” Estas palavras apanharam Zimmer de surpresa. Não tanto pelo facto de que a I.A. estar a defender valores como o dever, mas sim por esta se considerar Humana. Em toda a sua experiência com Eva, nunca a tinha ouvido usar esse termo. “Eva…tu consideras-te Humana?”, acabou ele por perguntar, um pouco a medo. A implementação das I.A. na Marinha ainda era recente e não havia por isso um modo padrão de interagir com elas. Tanto quanto sabia, Eva podia levar a mal a questão… O riso cristalino que lhe encheu a mente pô-lo um pouco mais à vontade, mas mesmo assim como que pressentiu alguma tensão na voz da I.A. “É claro que me considero Humana…Afinal de contas, as minhas redes neurais têm como base tecido vivo de origem Humana. Acho que, nem que seja só por isso, me posso considerar Humana!” O Comandante decidiu que o melhor seria não insistir naquele rumo e pediu para que Eva contactasse os Comandantes das outras naves, de forma a acertarem os últimos pormenores. Mas mesmo no decorrer da reunião virtual com os seus contrapartes aquela estranha conversa não lhe saia da cabeça. Talvez o melhor fosse avisar o Alto-Comando da Marinha sobre aquelas ideias que Eva parecia ter… E se todas as I.A. se considerassem Humanas? Não ligando ao arrepio que este último pensamento lhe trouxe, Zimmer deu a ordem para que o seu plano fosse posto em prática. Dentro de alguns minutos iria descobrir se o risco que estavam a correr valeria a pena ou não… EM ÓRBITA DE LAVOS-304 O Primeiro-Centurião fez girar o seu trono assim que detectou um Centurião a dirigir-se na sua direcção e enquanto que o seu Segundo cérebro lhe relembrava que apenas tinham passado 5 sectons desde que ele próprio fizera aquele género de serviço. - O teu relatório, Centurião! - ordenou ele. - Os nossos sensores detectaram naves Humanas nos limites deste sistema estelar. Pelas características detectadas, há 90% de certeza de que as naves não são Coloniais. O Segundo cérebro do Primeiro-Centurião ligou-se de imediato ao banco de dados central da Nave-Base e analisou os dados que o Centurião tinha acabado de anunciar, aumentando para 99% a certeza em relação à identidade das naves em questão. Embora não sentisse a necessidade de fazer nada para mudar a situação, o oficial Cylon percebia que este sistema de castas cerebrais impedia em muito o bom funcionamento militar da Aliança Cylon. Um Cylon detentor de um Terceiro Cérebro ou um Cylon I-L estavam em permanente contacto com as maciças bases de dados existentes nas Naves-Base e em alguns casos, com a própria Base Central em Cylon, o que lhes permitia reagir muito rapidamente a todas as situações. Podiam ter acesso a cerca de cinquenta fontes de informação diferentes e processar toda essa informação em tempo real. Uma informação como a que tinha acabado de receber seria transmitida directamente para o Terceiro Cérebro e analisada em microns, mas como ele era apenas um Primeiro-Centurião, tinha que vir um Centurião, da Ponte, transmiti-la. E em muitos casos, eram esses microns que decidiam uma vitória ou uma derrota. Mas não lhe competia a ele, como Primeiro-Centurião, pôr em questão as directivas que faziam parte da Programação- Base de todos os Cylons. Tinha sido essa Programação que lhes tinha permitido subjugar os seus criadores e transformar uma raça decadente e frágil no pináculo máximo da civilização. Cada Cylon sabia desde do nascimento o seu lugar na sociedade e todas as mudanças dentro desta eram cuidadosamente planeadas. Ele tinha sido contemplado com um Segundo Cérebro porque algures na Base Central o seu número de série havia surgido na lista dos escolhidos para receber esse melhoramento. E no entanto, ao recebe-lo havia sentido algo que nunca tinha sentido até então… uma espécie de “orgulho” por ter sido escolhido. Provavelmente essa “emoção” vinha incluída na programação do cérebro cibernético que complementava agora o seu outro cérebro natural. E nesse exacto micron, o Primeiro- Centurião estava a sentir novamente esse “orgulho”. Quando o seu Segundo Cérebro se havia ligado à base de dados, havia notado que o I-L que normalmente se sentava no trono onde ele estava agora já tinha acedido aos dados recolhidos pelos sensores e não havia feito nada. Sendo assim, o mérito de responder à ameaça seria todo do Primeiro Centurião…e isso deixava-o “orgulhoso”… - Centurião! Manda recolher todos os caças que ainda estão na superfície menos os da nossa Nave-Base. Todas as outras Naves-Base devem recolher a totalidade dos caças e vaivéns. Todos os Centuriões que estão em terra devem no entanto continuar com as suas missões. Serão recolhidas noutra altura! – ordenou ele, não se apercebendo que estava apenas a seguir as directrizes que Lúcifer tinha deixado para a altura em que estabelecesse contacto com naves Humanas. Mas fazia-o de uma maneira “orgulhosa”, julgando que as ordens tinham partido dele… - Pelo seu Comando! - respondeu o Centurião, a quem não interessava nada quem é que tinha ordenado o quê. O seu superior tinha-lhe dado uma ordem. Seria cumprida, pois tal era a vontade do Líder Imperial e da sua Programação. Em pouco menos de um centon os Raiders começaram a regressar às suas respectivas Nave-Base, deixando para trás o planeta de Lavos-304 e o que restava dos seus habitantes e defensores. Lúcifer permitiu-se deixar escapar um pequeno suspiro de alívio quando se apercebeu que as Naves-Base se estavam a movimentar e a seguir o seu plano. Durante alguns microns tinha pensado que o Primeiro-Centurião que tinha deixado na Ponte não ia seguir a programação que lhe tinha sido deixada. Não seria a primeira vez que tal coisa acontecia. Era o que dava quando se confiava em organismos que não eram totalmente cibernéticos… Normalmente o Cylon I-L não teria deixado a Ponte nas mãos de um subordinado mas desta vez a sua curiosidade tinha levado a melhor. Tinha que ver ao vivo estes novos Humanos que tinham capturado! Pelos vistos as histórias que Baltar contava sobre Adama e a sua obsessão pela 13ª Tribo sempre tinham alguma veracidade. As celas da Nave-Base estavam cheias de Humanos que não eram provenientes das Colónias! Deslizando rapidamente para o sector onde estava instalada a Sonda Mental, Lúcifer desligou os seus sensores áudio. Desta vez a táctica que tantas vezes utilizara para se abstrair dos longos monólogos de Baltar servia apenas para não ouvir os gritos de dor lançados pelas gargantas dos Humanos que estavam a ser sondados. As duas primeiras vivissecções e autópsias tinham mostrado que os cérebros eram idênticos em ambas as espécies Humanas e por isso a Sonda era aplicável nas mesmas zonas. A Sonda tinha levado algum tempo a ser calibrada para aqueles padrões mentais, mas “voluntários” não faltavam. E depois disso, tinha-se feito a análise de todo o material recolhido na superfície do planeta. A quantidade de material didáctico que tinha sido trazido para a Nave-Base tinha sido analisado e rapidamente se tinha conseguido estabelecer qual a língua mais comum utilizada por estes Humanos. Depois desse importante passo era só questão de deixar a Sonda quebrar as defesas mentais e fazer as perguntas na altura certa. Ignorando a sua “consciência”, que o queria fazer olhar para a pilha de corpos que se encontrava no canto mais afastado da sala, Lúcifer dirigiu-se para o Humano que estava suspenso no ar, directamente por baixo dos raios vermelhos da Sonda Mental. As descargas eléctricas que partiam desta percorriam o corpo do Humano de cima a baixo e faziam com que ele se contorcesse violentamente, lutando contra os campos de força invisíveis que o mantinham no lugar. Pequenas coronas de energia dançavam em volta da sua cabeça e dos seus olhos, que estavam totalmente revirados para cima, mostrando apenas a sua parte branca. - Basta, Centurião! – ordenou Lúcifer, ligando os seus receptores áudio mas correndo um programa para abafar os gritos dos outros prisioneiros. O Humano que tinha perante si nem sequer tinha forças suficiente para levantar a cabeça, deixando-o tombar sobre o peito. A sua farda outrora branca estava agora manchada de vermelho, do sangue que lhe corria livremente do nariz e da sua boca. Mesmo sem ter conhecimentos médicos, era óbvio para o Cylon I-L que este prisioneiro não iria durar muito… - Pelo seu Comando! – respondeu automaticamente o soldado Cylon, desligando a máquina e aguardando nova ordem, enquanto que o seu superior se aproximava do Humano. A “consciência” de Lúcifer dizia-lhe que ainda bem que ele não possuía sistemas olfactivos pois senão seria certamente avassalado pelo cheiro a medo, o cheiro a pura e simples miséria que saia da vítima da tortura, misturando-se com outros cheiros naturais mas também eles pouco agradáveis. - Comandante… – começou o Cylon I-L a dizer em Inglês Padrão, utilizando os programas de tradução que estavam a ser desenvolvidos num dos laboratórios da Nave- Base. Provavelmente ainda estariam cheios de erros, mas também o que ele queria perguntar não era nada complexo. Vendo que não obtinha reacção do homem, Lúcifer repetiu: - Comandante! Esta segunda tentativa pareceu surtir resultados, visto que o Humano voltou a cabeça na sua direcção e fitou-o com dois olhos raiados de sangue. Pendurada no que restava da sua camisa estava uma placa que o identificava como “Comandante John Silver”. Ele tinha visto toda a tripulação e passageiros do voo LL-24 serem torturados, esperando sempre pela sua vez com um misto de terror e expectativa. Aterrorizado porque sabia que poucos tinham voltado dos interrogatórios que os Cylons faziam, mas expectante pois no seu íntimo esperava que a morte viesse cedo e o libertasse de todo aquele sofrimento… - Comandante, preciso que confirme as coordenadas da Base da Marinha em Lavos-305. - disse o Cylon I-L, recitando depois as coordenadas e esperando por uma resposta. John ainda pensou em mentir, mas sabia que neste momento tal era impossível. A máquina a que tinha estado exposto tinha feito algo ao seu cérebro. Por mais que tentasse, não conseguia mentir. O simples esforço de pensar sequer em mentir fazia-o contorcer-se de dor contras os campos que o mantinham preso. - Sim… – acabou ele por dizer, espantando-se com o facto de ainda conseguir falar, apesar de sentir a garganta como que em carne viva devido às horas que tinha passado a gritar em pura agonia. – São essas as coordenadas. Satisfeito com a resposta, Lúcifer deu meia volta sem mais demoras e dirigiu-se para a saída. O Humano só tinha servido para confirmar a 100% que a Base era naquele sítio. Todos os outros indícios recolhidos: mapas, programas de navegação estelar, etc.… indicavam que a Marinha realmente tinha uma Base em órbita de Lavos-305 mas o Cylon I-L não queria arriscar. - Espere! - suplicou de repente o Humano, nas suas costas. Antes que conseguisse sequer sair pela porta fora e ignorar o que tinha ouvido, a sua “consciência” travou-o, bloqueando mecanicamente os rolamentos nas plantas dos seus pés. Ponderando a sanidade da sua programação, programação essa que lhe tinha dado a ideia de criar aquele subprograma para servir de “consciência” e assim perceber melhor os Humanos, Lúcifer disse em voz alta: - Estou a ouvir, Humano. - Que é que nos vai acontecer?! - perguntou John, mas emendando rapidamente. – Com “nós” quero dizer, todos os que somos prisioneiros aqui nesta nave! O Cylon analisou a questão por microns. Embora a sua consciência lhe indicasse que o que iria dizer a seguir era moralmente errado, a verdade é que o Líder Imperial era a força suprema do Império e todas as suas ordens deviam ser cumpridas. Mesmo que envolvessem o Genocídio de toda uma raça… - Vocês vão morrer. É o destino da vossa raça! – acabou ele por anunciar, notando que a sua “consciência” lhe tida modulado a voz para dar a ideia de que lhe custava dizer aquilo O Édito de Extermínio da Raça Humana será levado até ao fim! Antes que o Humano dissesse algo, Lúcifer deslizou para fora da sala da Sonda Mental e ao longo do corredor. Por momentos podia jurar que tinha ouvido o Humano dizer “Obrigado”, mas o mais certo era ter imaginado tal coisa, pois os seus sensores auditivos estavam de novo em modo normal e a captar todo o som ambiente. No meio dos berros, era pouco provável que tivesse realmente ouvido algo… A chegada era sempre o pior momento dos saltos hiperespaciais. Quando o salto começava, os segundos pareciam tornar-se em horas e todo o tempo ficava lento, até ao ponto em que tudo parecia preso em âmbar. Mas quando se chegava ao destino, o tempo parecia vingar-se e em segundos tudo acelerava, causando a impressão que se acabava de ver um filme a alta velocidade. Era por isso que poucas pessoas conseguiam manter os seus estômagos no sítio durante os saltos. Só o pessoal da Marinha com muita experiência de saltos ou com uma grande força de vontade é normalmente conseguia resistir aos enjoos provocados por essa viagem… “Felizmente que sou daqueles com força de vontade…” – pensou o Comandante Hans Zimmer para si mesmo, antes de subvocalizar para Eva: “Qual o estado do resto das naves?” “Todas as naves fizeram o salto dentro dos parâmetros! O desvio foi de apenas 0.1 em relação ao esperado!” “Quanto tempo falta até aos nossos sistemas voltarem ao normal?” “Dentro de 10 segundos, todos os sistemas devem estar no verde. O mesmo tempo é estimado para o resto das naves, com um desvio de 4 ou 5 segundos”, assegurou-lhe Eva. É claro que esses 10 segundos seriam dos mais dolorosos da sua vida. Se tudo corresse conforme o planeado, as naves Terrestres teriam saltado para o mais perto possível da órbita de Lavos-304. Normalmente não se fazia saltos para locais tão perto de poços gravitacionais mas, desta vez, todos tinham concordado que valia a pena arriscar. - Onde é que está o inimigo, Sr. McCallum? - perguntou ele assim que Eva o avisou de que todos os sistemas já estavam a funcionar. Antes de saltar tinha passado o seu comando para o C.I.C. e estava a utilizar a oportunidade para avaliar a reacção dos seus subordinados. Os oficiais que prestavam serviço no Centro de Informação de Combate tinham que ser tão ou mesmo mais eficientes do que os oficiais da Ponte Principal. O facto de só serem chamados a actuar quando a Ponte Secundária era activada não queria dizer nada. Além do mais, assim que Zimmer tinha passado para lá, o Centro de Informação de Combate tinha deixado de ser a Ponte Secundária e passado a ser a Principal do cruzador T.D.F. Berlin. E todos os homens e mulheres sob o seu comando, sabiam que ele era rigoroso em tudo o que fazia, por vezes até demais… - Capitão, estou a detectar quatro Naves-Base a afastarem-se… – começou o Primeiro-Tenente Pat McCallum a dizer, “disparando” de seguida as coordenadas que os Cylons estavam a seguir. Eva projectou na mente de Zimmer um mapa uns segundos antes do Tenente fazer o mesmo, mas para um dos monitores dispostos em frente da cadeira do Comandante e que substituíam o tanque holográfico existente na Ponte Principal. Analisando os dados que lhe acabavam de fornecer, Zimmer viu que o plano parecia estar a funcionar. Pelo menos essa parte...agora só faltava o resto. - Tenente Saunders, qual o estado dos motores de salto? – inquiriu o Comandante, fazendo um esforço para não reparar no nervosismo que o era bem aparente no mais novo oficial da T.D.F. Berlim. Recém-saído da Academia da Marinha, o Tenente tinha-se apresentado ao serviço no cruzador dias antes deste partir para a sua patrulha na Cintura, substituindo o Primeiro-Tenente responsável pela secção de Engenharia, visto que esse oficial tinha sido morto numa luta de rua durante a última estadia do cruzador em Lavos-305. Zimmer sentir-se-ia melhor com um oficial mais velho no cargo, mas a verdade é que o Almirantado havia mandado Saunders com as mais altas recomendações. Ele não sabia se isso seria bom ou não. Normalmente, essas “alta recomendações” eram um sinónimo de que o visado era simplesmente o familiar de alguém importante a quem o Almirantado estava a fazer um favor. Até agora o Tenente tinha passado no escrutínio de Hans, embora fosse notório que o jovem oficial estava sempre extremamente nervoso. Mas isso não o impedia de cumprir o seu dever e isso era o que interessava ao Comandante. O dever estava acima de tudo… Essa era a grande conclusão a que Hans tinha chegado e era esse o fio condutor da sua vida. Só a própria morte é que o podia impedir de cumprir o seu dever. Acreditava nisso com todas as forças do seu ser. Mas no seu âmago, sabia que toda esta rigidez era apenas um reflexo dos seus erros no passado. Ou melhor dizendo, de um só erro… mas um erro que o tinha marcado para sempre e que tinha destruído uma vida para todo o sempre… - Capitão? - perguntou a medo o Tenente Saunders, ao ver que o seu superior não tinha esboçado nenhuma reacção às estimativas que tinha acabado de dar. - Desculpe Tenente…estava a rever outros dados. - acabou Hans por dizer, voltando a encerrar aquelas amargas recordações no sítio mais “fundo” da sua mente e rezando para que os pesadelos não o atormentassem da próxima vez que dormisse. Pigarreando, pediu. - Se não se importa de repetir? - Sim senhor! - começou Mike Saunder a dizer, aproveitando para verificar os instrumentos que tinha à sua frente e actualizar a estimativa. - Os geradores estão a funcionar a toda a velocidade. Dentro de cinco minutos devemos ter carga suficiente para saltar novamente! - Ainda bem. – assentiu o Comandante, dirigindo-se depois novamente para o responsável pela Navegação e Sensores, o Primeiro-Tenente McCallum: - Os Cylons mantêm- se no mesmo rumo? - Não, Capitão. Pararam. Devem ter-se apercebido de que já não estamos na zona para onde iam. - E saberão onde estamos agora? - Pelas minhas estimativas, não! - disse McCallum, observando os seus instrumentos, não fosse o diabo tecê-las. - O poço gravitacional do planeta deve interferir nos sensores deles. “Tal como o Almirantado previa! Os programas de simulação estão correctos”, lembrou-lhe Eva. Acenando com a cabeça mentalmente, o Comandante virou-se então para a responsável pelo Armamento, a Segunda- Tenente Rachel Bart. Esta fitava-o exibindo um pequeno sorriso. Confiança era algo que não faltava a Rachel. Sempre tinha sido esse o seu maior defeito, embora ela o visse como uma virtude. Nunca tinha cometido nenhum erro na sua carreira e não seria agora que iria começar. - Sra. Bart, o plano de tiro já está pronto? – perguntou o Comandante, ignorando o sorriso da mulher. - Sim, Capitão! As coordenadas estão inseridas e os tubos carregados. Aguardamos a ordem de disparo! - Ao meu sinal – disse ele, enquanto pedia a Eva para verificar os cálculos da Segunda-Tenente. Apesar dos torpedos que iriam ser lançados estarem armados com ogivas nucleares, não era necessário passar pelo processo de autorização, visto que os Protocolos de Emergência permitiam tal quebra dos procedimentos. Assim que recebeu a confirmação da I.A., deu luz verde ao lançamento: - Fogo! - Tubos 1 e 2 disparados! – anunciou Rachel, entrando num modo quase mecânico, mas sempre sem deixar de sorrir. Carregando nos botões seguinte, anunciou: - Tubos 3 e 4 disparados. Todos os tubos disparados! Torpedos a caminho e a funcionarem a 100%! - Navegação? - entoou Zimmer simplesmente. - Capitão, os Cylons continuam no mesmo sítio. Os sensores deles continuam a não nos detectar! - E os nossos torpedos? - Não há qualquer indicação que tenham sido detectados! O Comandante sabia que os torpedos, ao contrário dos mísseis trocavam a velocidade pela autonomia. Devido ao tamanho, os torpedos tinham uma enorme capacidade em termos de combustível, o que lhes permitia perseguir o seu alvo durante imenso tempo. Era por isso que eram usados sobretudo para atacar naves capitais. Era um desperdício dispara-los contra caças por exemplo, visto que os mesmos podiam manobrar muito mais rapidamente. Mas uma nave-capital já não conseguia desviar-se tão depressa… E era exactamente com essa falta de capacidade de manobra com que estavam a contar. “Eva, informa a Dublin que pode saltar!”, ordenou Hans assim que a Segunda-Tenente informou que os torpedos tinham parado nas coordenadas certas e estavam em modo de busca, acrescentando depois, quase como se uma formalidade se tratasse: “E transmite os meus desejos de boa sorte ao Capitão O’Brien!” “Sim, Capitão”, respondeu a I.A. enquanto projectava na mente dele um esquema com os passos a seguir no plano. Este até era muito simples: visto um ataque directo contra as Naves- Base era um suicídio, só havia um rumo a tomar – Atacar as naves Cylon de uma forma indirecta… Escudando-se sempre nos campos gravitacionais de Lavos-304 e das pequenas luas deste, as naves da Marinha (que possuíssem essa capacidade) disparariam os seus torpedos para uma certa área do espaço, deixando-os depois em busca passiva, com os seus sensores à espera de um contacto com certas características. Depois era só fazer com que os Cylons aproximassem as suas Naves-Base do centro da armadilha e as ogivas nucleares dos torpedos fariam o resto do serviço. Mal se tinham apercebido da proximidade das naves Humanas, os Cylons haviam-se descolado para o ponto onde elas haviam entrado no sistema, tal como as simulações haviam previsto. Os alienígenas tinham por hábito lançarem-se de “cabeça” ao encontro ao inimigo e por isso eram incapazes de resistir a ir investigar aquele contacto. E enquanto o faziam, as naves da Marinha tinham saltado para junto do planeta e agora estavam a espalhar as suas “prendas”. É claro que todo o plano dependia do pressuposto que os Cylons não iriam voltar para trás, para Lavos-304 antes que a armadilha estivesse preparada… “Capitão, todas as naves estão de volta.”, anunciou Eva, ao fim de uma tensa meia-hora,” Todos os torpedos estão em posição!” Hans informou o resto da tripulação do Centro de Informação de Combate mas, ao contrário do que tinha acontecido durante o primeiro confronto na Cintura dos Asteróides, desta vez não houve nenhuma explosão de regozijo por parte de ninguém. Todos sabiam que o pior ainda estava para vir. - Navegação! Qual a situação do inimigo? - Capitão! As Naves-Base separaram-se e estão a patrulhar a área onde entramos no sistema. Nenhuma delas nos detectou ou aos nossos torpedos!” – anunciou McCallum, escondendo o tremer das suas mãos agarrando as bordas da sua consola. Nunca fora uma pessoa religiosa, mas depois desta experiência tinha jurado que passaria a visitar um dos santuários da Igreja Unificada da Humanidade. Só o Ser Divino é que os podia estar a proteger! Tantos lançamentos de torpedos, tantos saltos hiperespaciais e os Cylons ainda não os haviam descoberto… Tinha que haver uma mão Divina por ali. - Armamento! Qual é a situação dos nossos torpedos? - perguntou Zimmer, subvocalizando logo de seguida para que Eva colocasse a mesma questão às restantes naves. Faltavam apenas mais um passo para que o plano se concretizasse! - Todos os torpedos encontram-se em posição e em modo passivo! – repetiu pela quinta vez em meia-hora a Segunda-Tenente Bart. Nesta altura o seu sorriso já era um bocado forçado e a tensão que o seu colega sentia também era partilhada por ela. “As outras naves anunciam a mesma coisa!”, informou-o a I.A., fechando as comunicações laser com o resto da força: “Podemos saltar assim que quisermos!” “Obrigado Eva”, agradeceu o Comandante, antes de anunciar em voz alta: - Está na hora de acabarmos com isto. Preparem-se para o salto hiperespacial! Virando-se especificamente para o Tenente Saunders, continuou: - Tenente, a nossa sobrevivência vai depender de si! Assim que saltarmos quero os motores a recarregarem para um novo salto! Desvie toda a energia para os geradores se tal for o caso! - Sim Capitão! – respondeu o jovem oficial, engolindo em seco e ensaiando mentalmente o que teria que fazer. Parecia sentir já debaixo dos seus dedos as teclas que teria que usar para redirigir todos os sistemas eléctricos da nave para os motores. As únicas partes a não serem afectadas seriam só o Centro de Informação de Combate, que possuía os seus próprios geradores, e o núcleo da I.A., que recebia a energia directamente dos reactores, através de canais próprios e independentes do resto da nave. Tudo o resto ficaria sem energia enquanto a recarga de emergência ocorresse. Mas isso era um pequeno preço a pagar para que a armadilha funcionasse na perfeição. Visto que o plano tinha sido na maior parte desenhado por Zimmer, ele achara por bem que a Berlim servisse de isco. Saunders não conseguiu evitar o arrepio que o percorreu da cabeça aos pés quando ouviu a contagem decrescente para o salto. Estava tão imerso nos seus pensamentos que nem sequer se tinha apercebido do primeiro aviso. Mas mesmo que isso tivesse acontecido, o aviso não serviria para mais nada a não ser aumentar o seu nervosismo. Era interessante perceber como o corpo Humano reagia quando o perigo se aproximava. Limpando o suor que lhe escorria pela testa e face, o Tenente voltou a pousar as mãos sobre a sua estação de trabalho e só teve tempo de engolir em seco quando o evento de horizonte engoliu a Berlim e a enviou bem para o meio do sistema planetário de Lavos-304. Lúcifer apercebeu-se de que tinham companhia assim que a nave Humana apareceu nos sensores da Nave-Base. Este súbito aparecimento resolveu o “mistério” que o tinha atormentado e ocupado os seus centros de processamento por largos centons: “Onde é que estariam os Humanos que tinham sido detectados!” É claro que esta nave solitária levantava outras questões. Os sensores tinham detectado muitas mais naves no contacto inicial… 5 ou 6 pelo menos. Aqui, diante dos “olhos” electrónicos da Nave-Base e do Cylon I-L, só estava uma nave, o que colocava a questão de onde é que estariam as outras? Além disso, uma análise rápida mostrava que a nave Humana estava totalmente sem energia, sendo por isso uma presa fácil para qualquer ataque… “Os Humanos, mesmo estes, são tudo menos estúpidos!”, avisou-o a sua “consciência”. Lúcifer agradeceu sarcasticamente ao seu programa por lhe estar a dar essa informação. Como se ele não conhecesse os Humanos… afinal não tinha sido ele a ter que suportar Baltar e todos os seus defeitos e clichés durante vários yahrens? Em algumas alturas, tinha chegado a ponderar se o Líder Imperial não lhe teria dado aquela missão de acompanhar Baltar como maneira de o manter afastado de Cylon e de todas as intrigas que existiam na capital do Império. Mesmo o mais incompetente dos Cylons I-L (o nome Espectro veio-lhe logo à memória, numa nova cortesia da sua “consciência”, que também lhe fez o “favor” de demonstrar que esse Cylon não era incompetente mas sim simplesmente malicioso) sabia que a verdadeira luta pelo poder dentro do Império estava a começar. O Líder Imperial sabia que tinha que manter os Cylons I- L ocupados nas periferias do Império e por isso tinha-lhes dado o comando da maior parte das forças militares que o estavam a expandir. Se calhar era por causa disso mesmo que Lúcifer, embora não estando aliado a nenhum das facções que lutava pelo poder, tinha sido enviado em busca dos últimos vestígios dos Coloniais… É claro que a descoberta destes outros Humanos ia complicar um bocado as coisas. Para já ainda não o tinha feito, mas dentro em breve, o Cylon I-L ver-se-ia obrigado a pedir reforços para combater esta nova “infecção”. E se os seus cálculos estivessem correctos, seria preciso um número considerável de Naves-Base e de outras naves de suporte para lancetar essa ferida. Pelo que sabia das disposições do resto das forças no Império, se lhe dessem todas as naves que pretendia pedir, ficaria com a frota mais poderosa de todas… Seria mesmo mais poderosa do que aquelas controladas pelos outros Cylons I-L que queriam usurpar o trono do Líder Imperial… - Interessante. - disse ele em voz alta perante este pensamento, atraindo a atenção de alguns dos Centuriões da Ponte. Felizmente a sua “consciência” manteve-se calada e nada disse. Se calhar também ela pensava que a chegada daquelas forças poderia mudar todo o balanço de poder no Império… “- Basta de pensamentos destes!” – ordenou Lúcifer a si mesmo, embora os arquivasse na sua memória protegida para futura referência. Assim que destruísse estes Humanos e a base da Marinha deles em Lavos-305, iria fazer uma exposição da situação ao Líder Imperial e pedir os tais reforços. Se calhar até nem os iria receber na quantidade pretendida, por isso o melhor era não especular. E para já, havia outros assuntos a tratar! Virando o trono para o Primeiro-Centurião, que tinha regressado ao seu lugar de supervisão da Ponte, disse: - Centurião! Quero aquela nave Humana capturada o mais intacta possível! Precisamos de analisar uma nave militar. - Pelo Seu Comando! Mas algo fez com que Lúcifer acrescentasse: - Espera Centurião! O Cylon dourado parou e deu meia-volta, virando-se novamente na direcção do trono onde o I-L pensava furiosamente, como se podia ver pela velocidade com que os circuitos no seu cérebro cónico piscavam. Os sensores da Nave- Base estavam a captar flutuações ligeiras de energia na nave Humana. A falta de energia não era total e isso podia ser indício de alguma armadilha. Tal como a sua “consciência” lhe tinha dito antes, os Humanos eram tudo menos estúpidos. Aquela nave não estava ali sozinha por nada… Amaldiçoando o facto de quase ter cometido um erro, Lúcifer acabou por chegar à conclusão que só havia algo a fazer: - Centurião! Mandem duas Naves-Base investigar. A outra Nave deve partir de imediato connosco para Lavos-305. Assim que capturarem a nave Humana, devem juntar-se a nós! - Pelo Seu Comando! Apesar destas palavras o Primeiro-Centurião não se virou de imediato para cumprir as ordens do Cylon I-L. Aliás este último reparou que a luz vermelha do visor do capacete do outro Cylon estava a movimentar-se fora do seu ritmo normal, estando muito mais acelerada, num sinal de que os dois cérebros do seu subordinado estavam a processar muita informação. Soltando um suspiro de resignação, Lúcifer repetiu as ordens mas para seu espanto, o outro Cylon não respondeu. Amaldiçoando os problemas dos implantes cibernéticos (os ditos “cérebros”), o Cylon I-L mandou o seu trono descer e preparou- se para ir ele próprio dar as ordens à Ponte. Mas mal as suas pernas tocaram o chão, a velocidade da luz vermelha do Primeiro-Centurião estabilizou e este virou-se para Lúcifer fitando-o. - Que se passa Centurião? - perguntou este último, satisfeito por saber que, fosse qual fosse o problema do seu subordinado, a programação deste ainda estava intacta, o que fazia com que não pudesse iniciar uma conversa com um superior sem que este lhe desse sinal para falar. - Acho que só devíamos enviar uma Nave-Base. A Base de Lavos-305 pode ser mais difícil de atacar se só tivermos duas Naves-Base. Lúcifer ainda pensou em lançar uma risada em voz alta, mas sabia que o Primeiro-Centurião não saberia apreciar essa atitude tão Humana. Quem se julgava ele para estar a duvidar de ordens de um superior? E além do mais, o Cylon dourado nem sequer se lembrava de que as Naves-Base que estavam a atacar a outra colónia, Lavos-306, também tinham ordens para se dirigirem para a Base da Marinha ao fim de determinado tempo. De certeza que essa informação não tinha ficado armazenada na memória do Primeiro-Centurião… - Centurião… – começou Lúcifer a dizer, optando por um tom de voz paciente. – A tua proposta é lógica com os dados que tens de momento. Mas vendo os dados que não tens, é ilógica. Ou seja… as minhas ordens são para cumprir! Entendido? - Pelo seu Comando! – acabou por dizer o outro Cylon, desta vez não hesitando. Se tinha ficado de alguma maneira “ofendido” pelas palavras de Lúcifer, não tinha maneira de expressar esse desagrado. O simples facto de ter feito aquela sugestão já tinha causado inúmeros erros nos seus cérebros… E, sem que soubesse, o Cylon I-L já o tinha marcado para reprogramação, pois era óbvio que algo estava a falhar na programação daquela Primeiro-Centurião. Ao fim de alguns microns, as Naves-Base separaram-se e tomaram os rumos que Lúcifer tinha escolhido. No final da rota das duas Naves-Base, a T.D.F. Berlim carregava os seus motores de salto enquanto que num raio de vários quilómetros em todas as direcções, 17 torpedos regressavam lentamente à vida, como que tubarões que sentiam o sangue de uma presa na água… NA SUPERFÍCIE DA COLÓNIA DE LAVOS-304 Roger Veckin só se apercebeu de que algo estava errado quando viu a sua sombra projectar-se à sua frente, como que se o Sol daquele planeta se tivesse subitamente erguido atrás das suas costa enquanto ele não estava a olhar. Olhando à sua volta, viu que todos os outros, quer soldados quer oficiais, tinham parado de fazer o que estavam a fazer e olhavam agora para o céu. Pousando também ele a caixa de munições que tinha nas mãos no chão, voltou-se para trás, dando de imediato graças ao Ser Supremo por os filtros da viseira da sua armadura estarem a funcionar pois a claridade, mesmo com eles, era quase insuportável. - Que é isto? - ouviu ele alguém perguntar no canal geral do Batalhão. - Se não soubesse, diria que são explosões nucleares no espaço! – respondeu outra pessoa, cuja voz fazia lembrar a do Tenente Paulo. A única coisa que impedia que Veckin tivesse a certeza da identidade era a distorção provocada pela codificação e descodificação que as mensagens, mesmo aquelas em tempo real, sofriam. Não foi preciso dizer mais nada para que uma série de gritos de alegria se começassem a fazer ouvir ao longo do terreno que albergava os bunkers de munições. Toda a gente tinha chegado à conclusão de que aquelas explosões nucleares só podiam ser de origem Terrestre. Algures no espaço em torno de Lavos-304, havia forças Terrestres em combate com os Cylons e isso só podia ser uma boa notícia. Por momentos todos se esqueceram dos amigos e camaradas que tinham perdido; das feridas; das atrocidades que tinham visto serem cometidas sobre os habitantes de Asher… Era altura de celebrar aquele pequeno triunfo! - Meus Senhores!!! – ouviu-se de repente no canal geral, trazendo toda a gente de volta à realidade. - Lembro-vos que as munições não se transportam sozinhas para os camiões! As palavras do Major Yu surtiram o efeito desejado e rapidamente tudo voltou ao normal. Os sargentos começaram a insultar os soldados, ordenando-lhes que se movessem mais depressa, os oficiais por sua vez insultavam os sargentos por estes terem deixado os soldados comemorar, esquecendo-se que todos o tinham feito, enquanto lançavam olhares de preocupação na direcção do Major, esperando que este os repreendesse a eles por terem falhado nos seus deveres. Mas Yu tinha outras coisas em que pensar. A sua principal preocupação era abandonar as imediações do espaçoporto o mais depressa possível. Aquele era um sítio óbvio para os Cylons atacarem outra vez… mas ele tinha arriscado trazer as suas forças até ali pois os alienígenas tinham apenas destruído as pistas do espaçoporto, deixando intactos os bunkers carregados de munições e outros materiais que existiam nas imediações. O mais provável era que os Cylons nem sequer soubessem que aquilo eram bunkers e os tivessem deixado em paz e ido procurar outros alvos. E todas aquelas munições iam fazer muita falta nos dias que se avizinhavam, disso o Major tinha a certeza. Antes de perderem o contacto com as câmaras de segurança em Asher, todos os oficiais tinham visto que uma força de Cylons se estava a deslocar para fora da cidade. E toda a gente sabia que para além de Asher, o único grande aglomerado de Humanos era no Quartel-General. Por muito que lhe tivesse custado, Yu teve que ordenar ao 1º Batalhão que abandonasse as instalações e se dispersasse pelas selvas do planeta. Tinha-lhe custado tomar tal decisão porque sabia que essa evacuação iria aumentar ainda mais o número de vítimas entre os seus homens, visto que os Raiders continuavam a patrulhar os céus sobre o Quartel, enchendo de raios laser tudo aquilo que se mexesse. Mas tinha que se correr esse risco… Yu não podia deixar os seus soldados ficarem ali, à espera que a força Cylon que vinha por terra os cercasse e atacasse. Mais valia fugir para a selva e a partir daí travar uma guerra de guerrilha. Algumas vozes ainda se tinham levantado contra este plano, dizendo que era uma simples cobardia fugir para o interior do planeta, abandonando os civis à sua sorte. O Major fizera ver que os civis que tinham conseguido escapar aos Cylons também havia fugido para a selva, preferindo enfrentar as dificuldades desta do que os invasores. O Exército não podia fazer nada para os ajudar. A única opção a tomar era mesmo dirigirem-se também eles para a selva e esperarem por reforços, aproveitando no entanto esse tempo para tornar a vida dos Cylons no planeta mais difícil. Era exactamente para essas acções de guerrilha que eles precisavam das munições armazenadas junto do espaçoporto. Cada uma das Companhias tinha uma área de operações definida e um local de aquartelamento seguro, a partir do qual deveriam lançar ataques às forças Cylons. Os objectivos a atacar eram poucos: os invasores tinham montado uma espécie de “acampamento” bem no centro da cidade de Asher e alguns postos de vigia na auto-estrada. Na cidade tinham-se limitado a aterrar uns vaivéns num dos principais jardins e era a partir dai que lançavam as suas operações. O reabastecimento dos Raiders era feito num vaivém maior que os outros, que em princípio seria alguma espécie de nave cisterna. Havia sempre pelo menos dez Cylons a vigiar esse local específico, enquanto que pelo resto do “acampamento” havia pelo menos mais vinte e cinto ciborgues em patrulha. Os postos de vigia na auto-estrada não passavam de um Raider aterrado bem no meio das faixas de rodagem e com cinco Cylons a complementarem a tripulação normal do caça… Esses seriam os primeiros alvos a serem atacados visto que três dos veículos que tinham escapado das oficinas subterrâneas tinham sido Hovertanques Pesados Deimos cujos sistemas de defesa aérea conseguiam tratar dos Raiders com alguma eficiência. Yu estava a guardá-los até ao momento certo para lança-los contra os postos Cylon na auto-estrada. A velocidade dos veículos, juntamente com a sua capacidade anti- aérea, faria com que os ataques fossem um sucesso. Eles poderiam destruir os postos de vigia e fugir de novo para a selva antes que os Cylons conseguissem lançar mais Raiders a partir de Asher. É claro que para que isso acontecesse, tinham que descobrir o paradeiro certo das falanges de Centuriões que se estavam a deslocar por terra. O Major presumia que eles iriam investigar o que restava do Quartel e talvez também o espaçoporto, em busca das forças Humanas que sabiam existir no planeta. Era por isso que era importante dispersar o Batalhão o mais rapidamente possível…era por isso que tinha lembrado aos seus soldados que havia coisas importantes a fazer. Quanto mais depressa tivessem as munições nos transportes mais depressa podiam sair dali… Sem que nada o fizesse esperar, um alarme fez-se ouvir nas frequências do Batalhão, deitando por terra todas as esperanças de que conseguissem fazer o transbordo do material em segurança: - ATENÇÃO! ATENÇÃO! INTRUSOS DETECTADOS! PERÍMETRO AÉREO DE SEGURANÇA DA BASE DAS FORÇAS ARMADAS TERRESTRES VIOLADO! PERÍMETRO AÉREO DE SEGURANÇA DA BASE DAS FORÇAS ARMADAS TERRESTRES VIOLADO! O aviso das Armas Automáticas de Defesa de Perímetro mostrou que algures debaixo do espaçoporto, a I.A. da zona ainda estava a funcionar e tinha capacidade sensorial suficiente para detectar os Raiders que se aproximavam. Em segundos as armas ergueram-se nos seus pedestais na direcção do céu, procurando os alvos que se aproximavam. - Vamos! Todos os camiões que já estão carregados arranquem! Todos vocês têm as vossas ordens! – berrou o Major Yu para o seu rádio, cortando todas as conversas que se faziam ouvir na rede. Empoleirando-se no beiral da porta do condutor do hovercamião mais próximo, fez sinal com as mãos para que todos se apressassem. Entretanto, as Armas Automáticas de Defesa começaram a disparar, enchendo o ar com um zumbido metálico e com autênticos jactos de cápsulas usadas que caíam no solo como que em câmara lenta. As rajadas das cinco armas cruzaram-se no exacto local onde um Raider surgiu, mesmo por cima das copas das árvores que ladeavam um dos lados dos bunkers, e como que mergulharam o caça numa chuva de faíscas e explosões, penetrando-o com centenas de balas perfurantes de urânio empobrecido. Num autêntico hino à competência dos seus construtores e aos metais de que era feito, o Raider ainda aguentou cerca de meio minuto desse dilúvio de metal antes de se desviar para o lado esquerdo, deitando fogo de várias secções, e acabando por se despenhar junto dos destroços do espaçoporto numa enorme explosão. Mas esse meio minuto fora o suficiente para o caça Cylon cuspir morte dos seus canhões, atingindo em cheio um dos camiões que já estava carregado de munições e projectando-o no ar, assim como os seus ocupantes e soldados que estavam nas redondezas. Os restantes soldados nem se deram ao trabalho de procurar por sobrevivente e preferiram seguir as últimas ordens do Major, arrancando com os transportes pelos trilhos que tinham aberto no meio da selva em busca de um local seguro. Indiferentes a todo este drama, as Armas Automáticas giravam nos seus pedestais, perscrutando o céu para tentarem arrancar daí os outros Raiders que se aproximavam. A guerra por Lavos-304 continuava, apesar da vitória Humana no espaço por cima do planeta… - Continua - (apenas lixo abaixo)