Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ------------------------------------------------------------ ---- Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (possidonio24@hotmail.com) ------------------------------------------------------------ ---- "O Principio do Fim" - Parte 2 - CAPÍTULO 3 - COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE "- Mas que lugar é este?", pensou o Tenente Roger Veckin mal abandonou o vaivém que o tinha trazido da estação orbital. Descendo a rampa de desembarque, pousou a sua sacola no chão e olhou mais uma vez em volta, na vã esperança de que as primeiras impressões que tinha tido acerca daquele lugar fossem falsas, talvez provocadas pelo intenso sol que brilhava no céu. Tal como seria de esperar, tudo o que tinha visto era a mais pura realidade e um profundo desânimo encheu-o. - Isto não é o lugar para um aluno recém-formado da Academia do Exército Terrestre! Deve ter havido um engano qualquer na secretaria da Base Amstrong! - disse ele, enquanto avaliava o sítio onde estava. A plataforma onde o vaivém estava assente, erguia-se solitária no meio de uma clareira aberta no que parecia ser uma floresta tropical. É claro que essa parecença com as suas congéneres terrestres ( aquelas que ainda restavam ) era apenas superficial. Neste planeta a vegetação era predominantemente de cor vermelha e preta, misturando-se perfeitamente com o aspecto ferrugento da plataforma de aterragem. - O Tenente não se importa de se afastar, se faz favor!- berrou, de repente, alguém do interior do vaivém, ao mesmo tempo que se fazia ouvir o barulho de um motor. Voltando-se para trás, Roger viu que quem o interpelava era o sargento que servia como mestre-de-carga na nave. Pegando na sua saca, afastou-se do local onde estava. Com uma nuvem de fumo negro saindo do tubo de escape lateral, uma pequena empilhadora saiu do cavernoso porão de carga do transporte, trazendo uma série de caixas metálicas com o emblema do Exército. Veckin seguiu a máquina com o olhar, pensando onde é que ela iria descarregar a sua carga. A empilhadora, saindo do centro da plataforma de aterragem, dirigiu-se para uma rampa que dava para a floresta e, descendo-a, desapareceu de vista. Entretanto, o mestre-de-carga tinha-se aproximado do tenente, colocando-se a seu lado. Com um pequeno sorriso nos lábios disse: - O senhor não se preocupe. Mais tarde ou mais cedo vai-se acostumar a este sítio! - Tem a certeza?- resmungou Roger, olhando-o de alto a baixo.- Isto não era bem o que eu estava à espera.....especialmente depois de estar 4 anos a estudar na Academia..... O sargento já tinha visto inúmeros casos como aquele. Jovens oficiais, acabados de sair dos seus cursos e ainda cheios de energia, que ficavam com todos os seus sonhos despedaçados ao serem colocados em "buracos" como aqueles, longe das principais rotas comerciais e militares Terrestres. Numa tentativa de o animar, começou a inumerar as razões pelas quais aquele planeta não era tão mau como parecia, contando-as pelos dedos. - Em primeiro lugar, ele já foi terraformado e o senhor não precisa de andar de fato espacial só para sair à rua como acontece em outras colónias. Em segundo lugar, a gravidade é quase igual à da Terra. A diferença é mínima e não se nota. Isso sempre é uma vantagem, em relação a outros sítios. Em terceiro lug..... Roger já tinha deixado de prestar atenção ao homem, voltando a contemplar a rampa por onde a empilhadora tinha desaparecido. "De certeza que o resto da base fica naquela direcção...", pensou ele, decidindo investigar essa possibilidade. Na altura em que se voltava para o seu interlocutor, preparando-se para inventar uma desculpa para sair dali, algo que o outro estava a dizer chamou-lhe a atenção. - Desculpe lá Sargento, mas não se importa de repetir essa última parte? - É claro que não!- respondeu o outro, vendo que tinha despertado o interesse do oficial a seu lado.- O que eu estava a dizer é que neste planeta há o que se diz ser uma série de ruínas extraterrestres. - Como em Marte e na Lua?- inquiriu Veckin. - Não, nada que se pareça com essa trapalhada..... - Como assim? - Para começar, as ruínas estão situadas no meio de uma das piores selvas deste planeta.....- O sargento parou, parecendo hesitar sobre se deveria revelar o resto. Vendo que não perdia nada com isso, encolheu os ombros e prosseguiu num tom um pouco desgostoso: - É que, para além disso, elas já estão sob a alçada da Corporação dos Asteróides.. Esta novidade não espantou Roger. Ele percebia agora porque é que o seu interlocutor tinha hesitado em revelar essa informação. As relações entre as Forças Armadas Terrestres e a Corporação eram, no mínimo, péssimas e em várias ocasiões tinha-se chegado a vias de facto. Essas escaramuças acabavam, quase sempre, com maus resultados para ambas as partes. As chefias das Forças Armadas ainda estavam ressentidas com o facto do Governo Central Terrestre ter dado a independência às antigas Colónias da Cintura dos Asteróides. É claro que Marte, por exemplo, também tinha obtido a independência mas isso só tinha acontecido depois de uma guerra sangrenta que só tinha acabado devido a factores externos. No caso das Colónias não tinha havido guerra porque elas forneciam a maior parte das matérias-primas utilizadas pela Aliança Terrestre e pura e simplesmente tinham ameaçado destruir todas as suas indústrias se a Aliança não lhes concedesse a independência. O Governo Central tinha acedido a essa ameaça e assim tinha surgido a Corporação da Cintura, um organismo governativo que representava as principais famílias e companhias dessas antigas colónias. A recém-criada Corporação da Cintura tinha continuado a assegurar o abastecimento de matérias-primas à Terra, em troca de garantias sobre a sua independência, e, passados alguns anos, tinha assegurado o abastecimento da União das Nações Marcianas, em troca de equipamento militar. Aos poucos a Corporação tinha-se conseguido estabelecer como uma força de equilíbrio no Sistema Solar. Por ser uma força respeitada por ambas as potências do Sistema Solar, elas tinham concordado que todas os locais onde existissem artefactos extraterrestres seriam geridas pela Corporação. A única descoberta que tinha saído fora de âmbito tinha sido o contacto com os Coloniais, feito pela Marinha Terrestre, mas mesmo esse facto tinha acabado por ser revelado a toda a gente. Apesar de todas as explorações serem feitas com toda a clareza, havia muitas suspeitas por parte do Comando Militar da Aliança Terrestre de que a Corporação guardava descobertas para si. - Realmente, este planeta está-se a revelar uma verdadeira caixa de surpresas! - resmungou Veckin, arrancando uma sonora gargalhada do sargento. - Sabe, isso foi exactamente o que o seu antecessor disse quando eu lhe contei esta história há dois meses atrás. - Ai sim? Estou a ver que ele também tinha bom senso. Nenhuma pessoa normal pode gostar deste sítio.- disse ele, enquanto que com a mão descrevia um arco, abrangendo a selva que rodeava a plataforma de aterragem. - Isto deve ser o fim do Mundo..... Continuando a rir-se, o sargento abanou a sua cabeça e retorquiu: - Olhe que não! Os locais adoram este planeta. Dizem que é a mais pacífica de todas as Colónias da Aliança. - Eu acredito plenamente nisso! Aqui não se deve passar mesmo nada.... - Tal como já disse, o Tenente vai acabar por se acostumar a este lugar!- dizendo isto e vendo que a empilhadora voltava vazia pela rampa acima, o sargento fez continência ao oficial. Com um último desejo de boa sorte, à laia de despedida, deu meia volta e correu apressadamente para o vaivém. Roger viu-o afastar-se e depois encaminhou-se ele próprio na direcção do local por onde a empilhadora tinha vindo. Esta última tinha entrado para o transporte, que começava agora a recolher a sua rampa de desembarque, enquanto que a empilhadora era presa no seu respectivo local do porão. A I.A. do vaivém avisou a sua contraparte na plataforma de que a fase de descolagem estava prestes a começar. Embora a plataforma tivesse um aspecto totalmente desleixado, os computadores nela embutida eram novos e assim que receberam o sinal do vaivém, iniciaram a sequência que era normal nestes casos. O jovem tenente já tinha assistido àquilo inúmeras vezes e em inúmeros locais, mas mesmo assim não deixava de se maravilhar com o processo. Depois de se afastar alguns bons metros do local de onde tinha vindo, tirou a saca do ombro, apercebendo-se nessa altura, e para seu desgosto, que enormes manchas de suor marcavam já o seu uniforme verde, especialmente nas axilas. A sua atenção virou-se de novo para a plataforma, na altura em que uma série de sirenes começaram a fazer-se ouvir. Como se isso não fosse o suficiente para afastar algum curioso ou alguém mais distraído, uma série de luzes vermelhas começaram a piscar à volta de todo o complexo. De seguida, um ruído encheu o ar e, aos poucos, a base circular onde a nave estava assente começou a descer, até estar apenas visível a metade superior do corpo do vaivém. Um novo ruído fazia-se agora ouvir. Toneladas de água enchiam a cratera onde jazia o gigantesco transporte oval. Essa água entrou até ao momento em que os sensores instalados no interior da cratera viram que esta cobria as maciças pernas da nave e mandaram fechar as condutas por onde circulava, pois não interessava a ninguém que a água se infiltrasse nos motores do veículo espacial. Completada esta fase, a I.A. da plataforma deu sinal de que tudo estava pronto. Com um rugido verdadeiramente ensurdecedor, que fazia tremer a plataforma e tudo o que estava à volta, os seis reactores de hidrogénio ganharam vida. Nesses primeiros segundos a água da cratera começou a ferver, evaporando-se quase toda no momento em que as enormes chamas projectadas pela nave atingiram o seu máximo. A nave parecia estar assente sobre essas colunas de fogo, à medida que ia subindo nos céus e libertando-se da cratera. Roger afastou o olhar, virando-se para trás, e tapando os ouvidos com as mãos, na altura em que o transporte saiu totalmente do seu berço. Uma enorme onda de calor banhou toda aquela área ao mesmo tempo que o Tenente berrava a plenos pulmões, num esforço para que os seus tímpanos não rebentassem com a pressão. Tão abruptamente como tinham começado, o barulho, a pressão e o calor desapareceram, enquanto que a nave, empurrada pelos seus seis reactores, ganhava velocidade e desaparecia no céu, até se tornar apenas num pequeno ponto em movimento. "Lá se foi a minha única hipótese de sair daqui!", pensou ele, resignadamente,"- O melhor é pôr-me a caminho e ver se encontro alguém." Assim, Roger pegou na sua saca e começou a caminhar pelo trilho que se internava na floresta. As marcas de pneus no chão mostravam que era por ali que a empilhadora tinha seguido. De facto, após 10 minutos de caminhada, ele avistou um pequeno desvio no trilho e rapidamente avistou as caixas metálicas que a máquina trouxera. Elas estavam colocadas junto de um pequeno edifício achatado, de aspecto sólido, cuja cor cinzenta contrastava com tudo ao seu redor. Veckin identificou-o como sendo um bunker de armazenamento. Avançando mais um pouco por esse caminho, viu que por detrás desse primeiro edifício encontravam-se outros semelhantes. Num deles uma maciça porta de metal abriu-se, saindo de lá uma empilhadora em tudo semelhante à da nave que o trouxera até ali. Roger sabia que essas máquinas eram controladas pela I.A. da plataforma de aterragem. Veckin, limpando da testa o suor que a encharcava e lhe escorria pela cara, decidiu seguir a máquina. A sua caminhada foi curta. Assim que entrou na clareira que albergava os bunkers e onde a empilhadora trabalhava, uma série de ruídos metálicos fizeram-se ouvir. Alertado por tal facto, Roger parou exactamente onde estava. No momento em que fez isso, viu surgir dois pequenos pontos vermelhos na parte da frente do seu uniforme. Tentando não fazer movimentos bruscos, levantou a sua cabeça um pouco e olhou em frente. De um buraco do chão, tinha surgido um pequeno pedestal metálico que suportava uma arma e uma panóplia de sensores. De um deles, saía a mira laser que o marcava. Lentamente, ele virou a cabeça para os dois lados, tentando descortinar a origem da outra mira. Parcialmente escondida na vegetação ao seu lado esquerdo, surgia uma segunda arma. Olhando novamente em frente, Roger deu graças a si mesmo por ter reconhecido os ruídos e ter tido a presença de espírito para parar de imediato. Ele estava tão resolvido a seguir a máquina que até se esquecera que era o procedimento normal, instalar as chamada Armas Automáticas de Defesa de Perímetro. Qualquer instalação militar terrestre, por mais pequena que fosse, estava equipada com aparelhos desse género. - Se continuas a ser tão descuidado, ainda acabas por morrer aqui.- disse ele em voz baixa para si mesmo. Enquanto ele dizia isto, a I.A. que controlava as armas começou a recitar os seus avisos numa voz metálica: - ATENÇÃO INTRUSO! VOCÊ ACABA DE VIOLAR O PERÍMETRO DE SEGURANÇA DE UMA BASE DAS FORÇAS ARMADAS TERRESTRES. SE NÃO RECUAR DE IMEDIATO SEREI OBRIGADA A ABRIR FOGO. TENHA UM BOM DIA! Sabendo de antemão o que os tiros de uma daquelas armas fariam a um ser humano desprotegido, Roger apressou-se a recuar, pegando na sua saca e dando meia volta, tomando o caminho por onde tinha vindo. Quando decidiu que estava a uma distância segura, virou-se para trás. A arma que tinha estado directamente à sua frente, regressava ao seu esconderijo no solo e ele supôs que a outra estaria a fazer a mesma coisa. Entretanto, a empilhadora carregada já com as caixas metálicas, regressava ao bunker de onde tinha saído. A I.A. tinha-se limitado a afastar o intruso, sem se quer dar ao trabalho de o tentar identificar. Pelo vistos ninguém da guarnição do planeta se tinha lembrado de a avisar de que iria chegar alguém. E também não se tinham lembrado de o ir buscar à plataforma..... Sem mais nada para ver ali, Veckin continuou pelo trilho principal. Ao fim de cerca de 45 minutos de caminhada, ele deparou com uma estrada em perfeitas condições que se estendia quer para a sua esquerda quer para a sua direita. As suas dúvidas sobre qual seria a direcção a seguir dissiparam-se completamente, no momento em que avistou uma placa que, apontando para a sua direita, dizia que faltavam cinco quilómetros para a cidade de Asher. Visto que aquela era a única placa nas imediações, Roger decidiu seguir na direcção por ela indicada. Ele estava de tal maneira absorto a insultar mentalmente o planeta e a incompetência do Exército Terrestre que mal ouviu o barulho do veículo que se aproximava por detrás dele. Dando meia volta, ele começou a fazer sinais com os braços para que este parasse. Com uma nuvem de poeira provocada pelas suas enormes ventoinhas, o veículo parou alguns metros depois dele, assentando levemente a sua parte inferior almofadada no chão. Em passo de corrida, Roger foi na sua direcção e assim que abriu a porta do veículo perguntou ao condutor: - Vai para Asher? - Há mais alguma cidade no planeta?- respondeu o homem, fazendo-lhe de seguida sinal para entrar no veículo. Assim que o Tenente entrou, o hovercarro continuou a sua viagem. PLUTÃO, ALIANÇA TERRESTRE - Bem-vindo à Base de Amudsen, Comandante Adama!- Estas palavras, ditas em Koboliano, foram a primeira coisa que Adama ouviu assim que pôs os pés na plataforma de aterragem existente nas profundezas do último planeta do Sistema Solar. O seu interlocutor era um homem baixo, vestido com um uniforme da Aliança Terrestre e com todos os tiques de alguém que estava habituado a receber convidados importantes e que por isso se julgava superior a todos os outros. Atrás dele encontravam-se uma série de outras pessoas, vestidas com uniformes das diferentes potências terrestres e também outros indivíduos que estavam vestidos casualmente e com ar de quem preferiam estar noutro local que não naquela recepção, indícios certo de que eram os cientistas da base. "É exactamente com eles que eu quero falar....", pensou Adama para si mesmo, enquanto que trocava uma série de cortesias com o homem que o tinha recebido e que era o Comandante da Base. A seu lado, o Doutor Wilker também mexia nervosamente os pés, num sinal claro de que também queira começar a trabalhar. -......preparamos uma pequena festa para os nossos distintos convidados.- Assim que o Comandante da Base disse estas palavras, Adama virou-se para ele e disse: - Eu por acaso pensei que podíamos começar com uma reunião com os cientistas da Base..... - Ah sim..... É claro que sim...- respondeu de imediato o homem, exibindo um sorriso que tentava esconder o desagrado que sentia por lhe estarem a estragar os planos.- Mas primeiro temos que ir até à festa, porque os nosso cozinheiros passaram uma série de horas a preparar tudo.... Adama ainda pensou em argumentar mais uma vez, mas achou que o melhor era deixar cair o assunto. Afinal de contas ele era um convidado da Aliança Terrestre e não era correcto antagonizar os seus anfitriões logo no primeiro encontro. - Muito bem...- acabou ele por dizer, fazendo sinal para que o Comandante lhes indicasse o caminho. Este exibiu um pequeno sorriso de triunfo e dirigiu-se de imediato para um pequeno carro, não se dando sequer ao trabalho de apresentar as outras pessoas que estavam atrás dele. Apesar disso, Adama e Wilker fizeram questão de as cumprimentar, o que se fez com que fossem objecto de uma série de sorrisos de agradecimento e de uma série de olhares de desprezo por parte do Comandante. Quando entraram no carro, o representante da Aliança Terrestre começou a sua pequena vingança, enchendo os dois convidados com uma série de dados inúteis sobre a Base. Os dois Coloniais foram obrigados a ouvir aquele discurso monótono por mais de dez centons, enquanto que o carro onde iam liderava uma pequena caravana de outros veículos através do túnel que ligava os hangares ao sector principal da Base. - Ao menos ele fala bem Koboliano....- murmurou discretamente o Doutor Wilker a Adama. O comentário do Doutor fez com que o Comandante se lembrasse de algo que sempre quisera perguntar. Fazendo um pequeno gesto, interrompeu o Terrestre e disse: - Peço desculpas por estar a interromper, mas onde é que aprendeu a falar Koboliano? - Como?- respondeu o outro, parecendo não perceber a pergunta. - Onde é que aprendeu a nossa língua?- insistiu de novo Adama, fitando o seu interlocutor. - Ah...isso....- disse o homem. Levando a mão ao pescoço, mostrou o pequeno implante metálico que indicava que ele possuía um nanocomputador. Apontando para esse implante continuou: - Assim que soubemos que íamos ter visitas eu fiz uma descarga do programa linguístico da nossa I.A. . - Então é o seu computador que está a falar?- perguntou Wilker, mostrando-se totalmente interessado. - Não, nada disso....- disse ele abanando a cabeça num gesto negativo.- Isto funciona mais como um programa de aprendizagem. Assim que fiz a descarga foi como se sempre tivesse sabido falar a vossa língua. O programa linguístico ensinou-me tudo.... - Mas você fala com sotaque de Aquaria....- retorquiu Adama. - Aí sim?- disse o Terrestre, encolhendo os ombros.- Eu não noto a diferença..... - Mas quem é criou esse programa linguístico?- perguntou Wilker. - Não faço a mínima ideia. Sei que foi o Comando Militar da Aliança Terrestre que o mandou..... - Já agora, assim que recuperei, estive a ver as nossa gravações do primeiro contacto e o vosso representante.....como é ele se chamava....?- disse Adama, parando por momentos, procurando o nome na memória. - O Almirante Kane Dawnson....- completou o outro Colonial. - Exactamente! Obrigado, Doutor Wilker.- agradeceu Adama, continuando depois: - O Almirante Kane Dawnson falou connosco em Koboliano.....Como é que ele sabia a língua? - Novamente, não faço a mínima ideia....- murmurou o Comandante Terrestre, encolhendo os ombros.- Esse estilo de questão tem de ser feito à Marinha porque eles é que foram os responsáveis pelo contacto.... Com esta resposta, ele voltou de novo a contar a história da Base, só parando quando eles finalmente chegaram ao destino. A festa acabou por demorar um certo tempo, mas a verdade é que Adama até a começou a apreciar pois teve oportunidade de entrar em contacto com os cientistas que trabalhavam na Base. Os grupos misturavam-se espontaneamente e os dois Coloniais eram procurados por todo. A certa altura, o Comandante deixou o Doutor Wilker a conversar com dois biólogos, um da Aliança e outro da Corporação, e dirigiu-se para a mesa onde estavam as bebidas, procurando obter mais um copo da bebida a que os Terrestres chamavam "limonada". Assim que lhe serviram a bebida, tornou a dirigir-se para junto do grupo onde Wilker estava, mas antes que o pudesse fazer foi interceptado por uma jovem mulher. Pelo hálito dela era nítido que não havia estado a beber limonada, facto esse reforçado pela dificuldade que ela tinha em se expressar convenientemente: - Você é o Comandante Adama, certo....- acabou ela por perguntar num Koboliano hesitante. - Sou sim....- respondeu ele, pensando no que deveria fazer perante aquela situação. A jovem vestia uma simples calças pretas e um camisolão da mesma cor e a única identificação que trazia era um pequeno emblema na manga esquerda, emblema esse onde se podia ver uma ave, à qual os Terrestres chamavam águia, de asas aberta e agarrando uma estrela vermelha e azul. Adama sabia que esse era o símbolo da União das Nações Marcianas mas isso pouco o informava em relação à identidade da mulher. - O General Bradford esteve a fazer-lhes aquele discurso chato sobre esta Base, não esteve?- continuou ela a dizer, pondo-se directamente à frente dele. - Mas aposto que ele não vos contou os pormenores da construção, pois não??? À medida que ela ia falando, o seu tom de voz ia-se elevando, o que fez com que alguns dos presentes se virassem nessa direcção. Adama reparou pelo canto do olho que o Comandante da Base, o General Bradford, se estava a dirigir para eles. - Aposto que ele não teve os tomates para vos contar como esta Base foi construída com trabalho escravo!!!- a jovem quase que berrou esta última frase, parecendo depois hesitar um pouco antes de continuar em inglês: - A "magnífica" Aliança Terrestre enviou para aqui todos os seus opositores políticos e obrigou-os a trabalhar até à morte!!!! - Minha senhora, o melhor é falar mais baixo...- disse Adama, agarrando-a gentilmente pelo braço.- Acho que ainda se vai meter em sarilhos..... A rapariga não o tentou afastar, mas também não deixou de falar em voz alta: - O meu pai morreu aqui.....Só porque teve a coragem de denunciar o que a Aliança andava a fazer à Colónia de Marte..... Com estas palavras, ela desatou a chorar convulsivamente, agarrando-se a Adama. O General Bradford, com a cara vermelha de raiva, aproximou-se deles e berrou na direcção da mulher: - Pode ter a certeza que o seu trabalho aqui acabou!!! Você vai-se embora no próximo vaivém que chegar!!! - E quem é que vai ordenar isso?- perguntou de repente um homem que envergava o uniforme da Corporação e que tinha sido apresentado a Adama como sendo o Director daquela Base. - Eu vou!!!- berrou Bradford.- Esta mulher desde que chegou aqui só tem destabilizado o trabalho. - O General está-se a esquecer de que este local, apesar de ser uma Base da Aliança Terrestre, está sob o controle da Corporação da Cintura.....- respondeu calmamente o homem, aproximando-se um pouco do seu opositor.- Eu é que decido sobre quem é que vai embora e quem é que fica! Antes que o General da Aliança pudesse dizer alguma coisa, aproximou-se daquele pequeno grupo uma mulher envergando o uniforme do Exército da União das Nações Marcianas. Sem dizer nada, ela tocou no ombro da jovem que continuava a chorar agarrada a Adama. Assim que esta se virou ela fez-lhe um pequeno sinal com a cabeça e a rapariga seguiu-a. Ao passar pelo General, a mulher mais velha disse, simplesmente: - Quantos de nós é que você enterrou aqui? Bradford ficou ainda mais vermelho, de tal maneira que Adama pensou que lhe iria acontecer alguma coisa. As duas mulheres dirigiram-se para a saída da sala, passando pelo meio da multidão, que tinha assistido silenciosamente a tudo. Uma série de homens e mulheres que envergavam as fardas da União das Nações Marcianas aproveitaram também a ocasião para abandonarem a festa, que estava definitivamente estragada. - A Coronel Natasha sabe mesmo fazer uma saída...- murmurou o Director da Base para si mesmo, mas de modo a que Bradford e Adama ouvissem. - Comandante Adama, peço imensas desculpas pelo que se passou...- disse o General, tentando recuperar o controle da situação e de si mesmo. - Não faz mal.- respondeu Adama, achando que aquele era o momento para fazer um pedido: - Mas agora agradecia que indicassem onde ficam os meus aposentos pois eu gostava de descansar um pouco antes de me reunir com as vossas equipas científicas.....E tenho a certeza de que o Doutor Wilker também gostava de descansar. - Sim, com certeza!- concordou o General, pondo um certo ar de alívio pois assim também tinha a oportunidade para acabar com a festa.- Eu indico-lhes o caminho..... Com estas palavras a festa acabou definitivamente e as pessoas foram saindo. O General acompanhou os dois visitantes Coloniais, continuando a pedir desculpas pela cena que a mulher havia feito. O Director também os acompanhou, exibindo um pequeno sorriso sarcástico. Assim que Adama e Wilker chegaram aos seus aposentos, o General deixou-os, mas o Director ficou ainda por alguns momentos. Adama não conseguiu resistir à tentação e teve que fazer a pergunta que o atormentava: - Aquilo que a rapariga disse é verdade? O Director, cuja placa no uniforme dizia que se chamava John Tyler, hesitou por momentos mas acabou por dizer, em Koboliano: - Se eu não vos disser, alguém o fará.....- parando por momentos, ele pareceu ganhar coragem e continuou:- Quando a Corporação passou a tomar conta de todas as ruínas extraterrestres, eu fui destacado para aqui. Isto era uma base totalmente controlada pela Marinha Terrestre..... Por momentos, o homem pareceu estar a fitar o vazio e os dois Coloniais tiveram a certeza de que ele se estava a relembrar do passado. E esse passado não devia ter sido nada bom. -....eu era Tenente do Exército da Corporação e uma das nossas missões era fazer o mapeamento da superfície de Plutão, pois havia a possibilidade de haver vestígios ai. Um das nossas equipas descobriu sinais de escavações recentes e de imediato pensamos que a Marinha Terrestre nos andava a esconder ruínas.....- Tyler parou a sua história e cerrou os punhos, hesitando novamente antes de continuar.- Às vezes ainda penso se o melhor não teria sido se nós não tivesse-mos descoberto nada..... - Encontraram corpos, certo?- perguntou Adama, temendo a resposta. - Exactamente. Para ser mais exacto, descobrimos uma vala comum com mais de mil e cem corpos..... Adama e Wilker trocaram um olhar de espanto entre si e um enorme sentimento de repulsa invadiu-os. Nunca na história das Doze Colónias tinha havido algo parecido. Por mais duro que fosse o regime, a verdade é que havia sempre respeito pela vida Humana, pois um dos ensinamentos dos Senhores de Kobol era o de que esta era sagrada. - Devido às temperaturas negativas, os corpos estavam conservados e puderam ser autopsiados.- continuou o Director a contar. - A maior parte dos prisioneiros tinham morrido de fome e cansaço, mas havia 345 que tinham sido executados com tiros na nuca. Chegamos à conclusão de que esses tinham sido abatidos já depois da Colónia de Marte ter obtido a independência. - E ninguém foi responsabilizado por esse crime?- perguntou o Doutor Wilker. - Assim que as provas foram apresentadas, a Aliança criou um Tribunal Militar Especial para investigar o caso. Como não havia provas nem testemunhas contra ninguém, o Tribunal limitou-se a condenar à morte todos os oficiais superiores da Marinha que haviam prestado serviço aqui na Base. - Mas essa solução foi tão brutal como o crime!!- disse Adama, indignado com a falta de respeito que os Terrestres tinham pela vida. - Ninguém é perfeito, Comandante Adama....- respondeu simplesmente o Director.- Mas o pior é que no período entre o princípio das Guerras Coloniais e o seu fim, a Aliança prendeu mais de 1 milhão de pessoas por "crimes políticos contra o Estado" e quando abriram as suas prisões, já só restavam cem mil. Nunca se soube o que aconteceu às outras, mas a verdade é que ninguém pode forçar a Aliança a fazer essa revelação.... Depois de dizer estas palavras, o Director despediu-se dos seus dois convidados e foi-se embora. Adama e o Doutor Wilker trocaram algumas palavras de despedida e retiraram-se para os seus respectivos aposentos. Nenhum dos dois conseguiu verdadeiramente descansar, pois não lhes saia da cabeça a história daquela Base que parecia agora povoada de fantasmas e segredos obscuros. COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE ARREDORES DA CIDADE DE KARN - Starbuck?- murmurou Cassiopeia, ainda meio ensonada, ao sentir que o seu marido não se encontrava a seu lado na cama. Erguendo-se um pouco na cama, viu que a sala de jantar estava iluminada por uma pequena luz azulada. Levantando-se da cama, com cuidado para não acordar Palias que dormia num berço ao lado, Cassiopeia vestiu um roupão e dirigiu-se para a sala. Tal como esperava, a luz vinha do sistema holográfico principal da casa. A imagem do novo Viper enchia o ar sobre a mesa de jantar, girando sobre si mesma. Starbuck estava sentado num dos sofás da sala, a fitar a imagem, enquanto que fumava um dos seus fumarellos. - Não conseguias dormir?- perguntou-lhe Cassiopeia, sentando-se ao lado dele. - Não- respondeu simplesmente o antigo Capitão, levando mais uma vez o seu fumarello à boca. Apontando para a imagem holográfica disse: - O Viper não me sai da cabeça..... Com um suspiro, Cassiopeia abraçou-o e disse: - Eu notei isso assim que o Boomer nos visitou ontem... - Será que eles não compreendem que eu quero ficar em paz....- desabafou Starbuck, lançando uma baforado de fumo.- Que quero viver contigo e com a nossa filha.... - Ninguém te está a obrigar a voltar a ser um Guerreiro..... Starbuck não disse nada, voltando a fitar a imagem do Viper. Durante os yahrens em que eles tinham estado a fugir dos Cylons, Apollo tinha defendido a ideia de que era preciso um novo modelo de Viper. O novo caça deveria ter mais poder de fogo e uma maior manobrabilidade do que os Vipers normais e que os Raiders dos Cylons. O problema era encontrar matérias-primas em quantidade suficiente e reconfigurar as naves-fundição para a construção deste novo modelo. Numa altura em que a Frota estava em perigo constante, não era possível fazer nenhuma destas coisas e por isso tinha-se continuado a construir os Vipers de sempre. É claro que agora, numa altura em que a Frota tinha chegado ao seu destino, havia a possibilidade de construir os novos Vipers. - Mas, apesar de tudo, eu quero voar nele.....- disse Starbuck, apontando de novo na direcção do Viper. - Sabes perfeitamente que eu não te vou dizer que não vás voar....- disse Cassiopeia, olhando-o nos olhos.- A decisão tem de ser tua, eu não te vou pressionar pois sei que tu és um cabeça dura e que não vale a pena.... Starbuck lançou uma sonora gargalhada perante este comentário da mulher e apagou o seu fumarello. Levantando-se, disse: - Decidi que só vou decidir amanhã....Para já, vamos ver se conseguimos dormir antes que a Palias acorde.... No momento em que ele acabava de dizer isso, o choro da criança chegou até à sala e os seus pais dirigiram-se para o quarto. Antes de sair, Starbuck desligou o sistema holográfico, não olhando sequer para a imagem que continuava suspensa no ar. Com um grito, Starbuck acordou na altura em que morria no seu sonho. A seu lado, Cassiopeia acordou de imediato. - Está tudo bem, Starbuck!!- disse ela, abraçando o seu marido. Ele estava totalmente encharcado de suor, embora a noite estivesse fria.- Está tudo bem!! Controlado a sua respiração, o antigo Guerreiro tentou acalmar-se. Fitando o berço, que estava ao lado direito da cama, viu que Palias felizmente não tinha acordado. Os primeiros sinais do amanhecer entravam pela persiana que cobria a janela panorâmica do quarto, iluminando levemente a criança que ainda dormia profundamente. - Que se passou?- perguntou Cassiopeia.- Tiveste algum pesadelo? - Sim....- murmurou Starbuck, não dizendo mais nada e sentando-se na cama. - Não me digas que foi aquele...... Na luz que invadia o quarto, ela viu o seu marido acenar afirmativamente com a cabeça. O sonho de que Cassiopeia falava era aquele que o tinha assombrado durante quase um yahren e no qual ele morria, abatido por um Raider de cor vermelha. Ela sabia que não podia fazer nada para parar esses sonhos e a única coisa que podia fazer era reconfortar o seu marido e, assim sendo, abraçou-o com força, sentindo o corpo deste tremer. Starbuck nem sequer se apercebeu do contacto da sua mulher, pois estava absorto em pensamentos. Pela primeira vez desde que tinha tido aquele sonho, conseguia-se lembrar de uma série de pormenores. O Raider que o abatia não era um Raider normal. Para além de ser de cor vermelha, parecia ser muito mais pequeno, com umas asas diferentes do habitual e com um cockpit mais estranho. Para além disso, o combate estava a ser travado no meio de uma batalha e Starbuck tinha a certeza que tinha visto uma série de naves de modelo desconhecido. Outro pormenor que agora era claro e do qual ele nunca se tinha apercebido até então é que o Viper que ele estava a pilotar no sonho era da classe Scarlet. Nas outras ocasiões em que tinha tido o sonho, apenas se tinha apercebido de que a disposição dos instrumentos era diferente do normal, mas sempre pensara que isso resultava do facto de estar a sonhar. Um enorme sentimento de medo invadiu-o, aparecendo do nada. Como que hipnotizado, ele afastou gentilmente Cassiopeia de si, levantou-se da cama e dirigiu-se para a sala de jantar. O cristal que Boomer lhe dera ainda estava inserido no sistema holográfico e ele só teve que o activar. Assim que a imagem encheu o ar à sua frente, uma série de tremores invadiram-no. O Viper que aparecia apresentava uma série de danos enormes, tendo até perdido o seu característico nariz e tendo a sua pintura vermelha manchada por enormes queimaduras negras de turbolasers. No interior do cockpit, podia-se ver uma pequena figura de um Guerreiro, com a cabeça caída contra o que restava da carlinga. Starbuck tinha a certeza que era ele que ali estava. Ele ia morrer naquele Viper!! Pela segunda vez em poucos centons ele gritou, enquanto deslizava para a inconsciência. Quando Cassiopeia saiu a correr do quarto, encontrou o seu marido inconsciente no chão. Enquanto se baixava para ver como é que ele estava, fitou a imagem projectada pelo sistema holográfico. O Scarlet Viper continuava a girar sobre si mesmo, pondo à mostra todas as alterações em relação aos antigos Vipers e não apresentando o mínimo dano. Voltando a sua atenção para Starbuck, Cassiopeia começou a ver se o conseguia por consciente. Por cima da mesa, a imagem holográfica continuou visível até ao momento em que Cassiopeia decidiu pedir ajuda aos aposentos dos empregados e desligou o sistema holográfico da sala de jantar. - Continua -