Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ------------------------------------------------------------ Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (possidonio24@hotmail.com) ------------------------------------------------------------ "O Principio do Fim" - Parte 2 - CAPÍTULO 5 - ALGURES NA CINTURA DE ASTERÓIDES O som de música clássica enchia o compartimento do Comandante Hans Zimmer, que se encontrava sentado à sua secretária revendo uma série de relatórios. A secção de Engenharia tinha apresentado uma quebra de eficiência durante os últimos exercícios, o que não era nada bom. Se as pessoas falhavam durante os exercícios em tempo de paz, o que aconteceria numa situação de guerra? Após escrever uma pequena nota de reprimenda para o oficial que tinha a seu cargo essa secção, o Comandante virou a sua atenção para outros assuntos. A sua patrulha tinha chegado aquele sector há dois dias. Desde essa data já tinham investigado mais de cinco passagens para o outro lado da Cintura, não encontrando nenhum vestígio da presença Cylon. Estavam agora a tomar posições para investigar a sexta e última passagem. Depois disso, iriam fazer o caminho inverso para finalmente regressarem à Base Naval de Lavos- 305. "Eva, a sonda já está pronta?", perguntou ele, enquanto se ligava às câmaras exteriores do cruzador. "Segundo o Capitão O'Brien, será lançada dentro de um minuto, Capitão...", respondeu a voz dentro da sua cabeça. Movendo uma das câmaras, Zimmer centrou a imagem na T.D.F. Dublin, que se estava a alinhar com a passagem para o outro lado da Cintura. Aumentando o alcance da imagem e melhorando-a, o Comandante conseguiu distinguir a primeira fileira de minas nucleares inteligentes que tinham sido espalhadas ao longo da passagem. Esta tinha sido a maneira escolhida pela Marinha Terrestre para fecharem o acesso aos Cylons. Qualquer nave não identificada e que tivesse uma massa equivalente a uma Nave-Base seria imediatamente destruída. "Qual é o estado das minas?" "Os computadores delas indicam que todas estão a funcionar a 100%, Capitão." "Muito bem, Eva. Quero ser avisado assim que a sonda chegar ao outro lado. "Sim, Capitão." Depois de dar a ordem, o Comandante Zimmer voltou de novo a sua atenção para os relatórios que tinha no seu computador pessoal. PLUTÃO, ALIANÇA TERRESTRE BASE DE AMUDSEN - Que se passa, Doutor Wilker?- perguntou o Comandante Adama, na altura em que eles saíam de uma das salas de reunião da base subterrânea. Já há alguns dias que ele se tinha apercebido de que algo preocupava o cientista. - Estes hábitos Terrestres dão cabo de mim....- disse o homem, aproximando-se de Adama e falando baixo.- Estamos aqui há mais de uma semana e ainda não conseguimos ver a tal "Nave"..... - Mas em compensação já tivemos inúmeras conferências sobre como tudo isto foi construído.......- disse Adama, compreendendo exactamente o que o Doutor sentia. Ele próprio sentia uma certa impaciência com toda aquela espera. Antes que qualquer um dos dois conseguisse dizer mais alguma coisa, a Coronel Natasha Kramer saiu de uma das salas de reuniões existentes naquele corredor. Como de costume vinha vestida com a farda do Exército da União, tendo no entanto uma série de medalhas com as quais não costumava andar. - Boa tarde, meus senhores.- disse ela, não parecendo querer parar. - Boa tarde, Coronel Kramer.- responderam os dois homens. A Coronel notou o olhar do Comandante Adama e parou, dizendo: - Presumo que esteja intrigado com as condecorações.... - Sim...- assentiu ele.- Nunca tinha visto militares da União com medalhas..... Lançando uma risada fria, Natasha disse: - Ao contrário da Aliança, a União não tem o hábito de as distribuir por tudo e por nada.....Todas as que eu trago tem um significado profundo para mim e para todo o povo da União. Apontando para a primeira das três medalhas que tinha disse: - Esta representa a Ordem da Estrela Branca e foi-me atribuída durante a chamada Batalha do Monte Olimpo....A que está ao lado é a Águia de Ferro de Primeira Classe e a última é a Ordem da União, a mais importante de todas.... Por momentos a Coronel ficou embrenhada em recordações. Adama ainda pensou em perguntar como é que ela as havia obtido, mas a verdade é que conseguiu controlar a sua curiosidade. De certeza que uma pesquisa discreta podia encontrar facilmente a resposta para essa questão. O mais correcto seria desviar a conversa para outro assunto: - Agora lembrei-me de uma coisa....- começou ele a dizer, fazendo com que Natasha olhasse para si.- O que é aconteceu aquela jovem que me abordou durante a festa? - A Doutora Karen teve um pequeno esgotamento e está a recuperar nos seus aposentos.- respondeu de imediato a Coronel.- Ela tinha bebido muito naquele dia....e isso só serviu para agravar o seu estado.... - Já agora...- interveio o Doutor Wilker, que até então se tinha limitado a assistir à conversa.- Qual é a especialidade dela? - Ela é Historiadora, com uma especialização naquilo a que chamamos Civilizações Pré-Clássicas.... - Bem me parecia que tinha visto o nome dela num dos estudos que li...- disse Wilker.- Ela estabeleceu uma ligação entre os símbolos da "Nave" e a escrita primitiva de certas civilizações Terrestres..... - Sim, ela está convencida que os símbolos são uma forma avançada dos hieróglifos encontrados na antiga Civilização Egípcia......- respondeu Natasha.- E ainda para mais a vossa civilização parece ter muitos pontos de contacto com os antigos Egípcios.... - Os Terrestres e os Coloniais parecem ter raízes comuns, mas a verdade é que ainda não foram encontradas provas concretas dessa ligação.- comentou Adama.- Eu próprio já vi imagens de alguns desses hieróglifos Egípcios e eles não têm nada a haver com os existentes em Kobol.... - Mas os da "Nave" podem ser iguais...- disse Wilker, vendo uma oportunidade.- É por isso que é importante que nós a vejamos..... - Nisso têm razão....- respondeu Kramer, pensando por momentos.- De facto é um bocado estúpido convidar-vos para virem até aqui e depois não vos mostrar o principal motivo de interesse....Vou falar com o Director Tayler e ver o que se pode fazer.... Com estas palavras, a Coronel cumprimentou mais uma vez os dois Coloniais e foi-se embora. Assim que ela dobrou a esquina ao fundo do corredor, Wilker dirigiu-se de novo a Adama: - Comandante, parece que finalmente vou deixar de ter motivos para me queixar... - Sim...também estou ansioso por ver o artefacto....- confessou Adama, antes de continuar com um sorriso: - Mas acho que agora o melhor que temos a fazer é comer qualquer coisa porque a seguir vamos ter mais uma série de reuniões.... Os dois Coloniais dirigiram-se para o refeitório existente no piso inferior onde comeram uma refeição leve. Por mais que tentassem. a conversa voltava sempre ao mesmo assunto. O que é que iriam encontrar na caverna que albergava a "Nave"? COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE ARREDORES DA CIDADE DE KARN Como era costume, o clube " A PIRÂMIDE" estava a abarrotar. Na sala de jantar, o único sítio onde ainda havia alguns lugares livre era no bar. Era exactamente aí onde Sheba estava sentada, esperando que Cassiopeia e Starbuck descessem dos seus aposentos. Embora a amizade com eles os dois fosse recente, a verdade é que assim que tomara a decisão de se afastar um pouco de Apollo e de todo o ambiente da Galactica, decidira ir ter com eles. Talvez tivesse tomado essa decisão porque sabia que tanto Cassiopeia como Starbuck também se tinham "desligado" dos círculos Coloniais, o que fazia com que ela pudesse estar em paz ali. Era exactamente de paz que ela necessitava, paz sobretudo para pensar. Ela ainda estava chocada pelo facto de Apollo não se conseguir afastar do passado, continuando agarrado ao fantasma de Serina. Sentia que estava na altura de lançar um ultimato a Apollo, exigindo-lhe que selassem a sua União. É claro que essa decisão era ditada pelo seu coração, pois o seu cérebro dizia-lhe que se fizesse isso, provavelmente iria perder de vez Apollo. O Comandante odiava ser pressionado e o que ela se propunha a fazer era exactamente isso.... "Quem é que imaginaria isto?", pensou ela, bebericando um pouco do seu copo de Ambrósa. " A filha do lendário Comandante Cain a ter medo de tomar uma simples decisão...." Pousando o copo, virou-se para a porta que dava acesso ao elevador de serviço. Cassiopeia tinha obrigado o marido a ajudá-la a dar banho a Palias e portanto os dois estavam atrasados para jantar. Na altura em que ela acabara de pensar isso, a porta do elevador abriu-se e Starbuck saiu de lá. O ex-Capitão estava com um ar abatido, apesar de tentar disfarçar o facto com o seu normal bom-humor. Cassiopeia tinha-lhe confidenciado que o marido tinha voltado a ter pesadelos e era por isso que estava com aquele ar. - Onde está a Cassiopeia?- perguntou ela a Starbuck, quando este se aproximou do balcão do bar. Pegando no copo que o empregado lhe tinha oferecido, ele esboçou um sorriso e disse: - Infelizmente a Palias decidiu que agora era altura de dormir.....A Cassiopeia está só à espera que a ama chegue......É só mais um centon e ela desce Depois de dizer isto, ele deu o braço a Sheba e os dois dirigiram-se para a mesa reservada para a Gerência, situada num dos cantos da sala. Mal se sentaram, e ainda antes de trocarem qualquer tipo de palavra, surgiu uma mulher junto da mesa. Sheba quase que saltou no seu lugar. Ela podia jurar que aquela visitante não estava ali momentos antes. Já Starbuck, apesar de estar casado e amar Cassiopeia, não conseguiu evitar portar-se como o velho Starbuck. Os seus olhos percorreram o vestido branco da mulher, tentando discernir as formas que este ocultava. Ela não pareceu importar-se com isso, lançando até um pequeno sorriso ao ex- Guerreiro. Afastando um pouco o cabelo louro da face, disse: - Capitão Starbuck e Capitã Sheba, presumo...... - Ex-capitão......- respondeu ele, antecipando-se a Sheba.- Em que podemos ajudá-la..... - Para começarem podem-me tratar por Lilith....- disse a mulher, puxando uma cadeira para se sentar à mesa.- Sempre tive curiosidade em vos conhecer..... - Mas o que a traz aqui.....- perguntou Sheba, sentindo uma súbita e inexplicável hostilidade para com Lilith.... - Curta e directa......- disse a mulher, antes de fitar directamente Sheba nos olhos e continuar:- Exactamente como o seu pai...... Sheba sentiu um calafrio a percorrer o seu corpo e a seu lado, Starbuck também ficou subitamente tenso. Foi exactamente ele que quebrou o silêncio que se tinha instalado: - Posso saber como é que conhece o Comandante Cain? Você é da Frota? - Não......- respondeu ela, mantendo um sorriso enigmático.- Temos alguns conhecidos comuns....E é exactamente por isso que vim aqui ter convosco...... - Iblis....- murmurou Sheba entredentes...- Foi ele que a mandou, não foi? Lilith ignorou a Capitã e começou a contar a sua história: - Até há pouco tempo, eu fui a amante de um pequeno chefe criminoso...O seu principal negócio era o contrabando, não só de bens mas também de pessoas....Num dos últimos voos, uma das suas naves embarcou dois passageiros muito especiais..... - Ainda não vi o que é que isso tem a haver connosco......- interrompeu Starbuck.- E para ser sincero, não estou muito interessado em saber..... - Quando lhes foi pedido um pagamento....- continuou Lilith, metendo a mão no interior do seu vestido e tirando algo que pôs em cima da mesa.-....foi com isto que pagaram.... Os olhos de Sheba e Starbuck arregalaram-se perante os objectos. Em cima da mesa estavam mais ou menos cinco mil Cúbitos Coloniais. Starbuck pegou de imediato num deles, pesando-o na sua mão e examinando-o com um olhar atento, relembrando os seus dias de jogador. Quantias daquelas não eram fáceis de encontrar.... - Isto não quer dizer nada....- disse Sheba, empurrando os Cúbitos na direcção de Lilith.- Há inúmeros Coloniais que preferiram sair deste planeta e além do mais....... - ....se Iblis estiver envolvido nisto, os Cúbitos até podem não passar de uma ilusão...- completou Lilith, mantendo o seu sorriso.- Era isto que ia dizer, não era? A Capitã ficou sem palavras pois a mulher tinha adivinhado exactamente o que ela iria dizer. Vendo a maneira como ela estava atrapalhada, Starbuck começou a levantar-se, dizendo: - Bem, acho que está na altura de se ir embora....... - Sente-se Capitão Starbuck...- ordenou a mulher, fitando-o com um olhar frio.- Se não o fizer, posso-lhe mostrar que a realidade pode ser bem mais cruel do que os seus habituais pesadelos........ Perante estas palavras, Starbuck fez o que lhe era ordenado, voltando a sentar-se na cadeira e agarrando no seu copo, engolindo a Ambrósa que restava num só trago. - Os Coloniais que a nave do meu amante transportou não eram da Frota....A sua origem era outra... - Como assim?- perguntou Sheba, conseguindo finalmente ultrapassar o medo que se tinha apoderado dela. - Não sei, é isso que gostava de descobrir....com a vossa ajuda, é claro.- respondeu Lilith, exibindo de novo o seu sorriso, embora sem nenhum vestígio de humor. - Sei que foi por causa deles que o meu amante foi morto.....Acho que tenho o dever de me vingar das pessoas que o mataram...... - Mas como é que nós podemos ajudar?- perguntou simplesmente Starbuck. - Acompanhando-me até ao sítio onde a nave os deixou. Eu sei onde eles estão.....- depois de dizer isto, Lilith levantou-se, arranjou o seu vestido e arrumou a cadeira debaixo da mesa. De seguida, exibindo o seu já característico sorriso ,disse: - Estou à vossa espera lá fora. Não me obriguem a vir-vos aqui buscar, está bem? Sem mais nenhuma palavra a mulher desapareceu, de uma forma tão abrupta que até parecia que nem sequer tinha estado ali. Só passados alguns momentos é que Sheba teve coragem para falar: - O que é que vamos fazer, Starbuck? - Temos que ir com ela...- respondeu ele, levantando- se.- Não temos outra escolha..... Cassiopeia estava a despedir-se da ama, quando o barulho das portas do elevador anunciaram a chegada de alguém. Saindo do quarto, dirigiu-se para o átrio do apartamento, onde viu o seu marido e Sheba saírem do elevador. Era visível nas suas caras que algo estava errado.... - Que se passa, Starbuck?- perguntou ela, aproximando-se do marido. - Surgiram uns problemas.....- disse ele, abraçando-a e olhando-a nos olhos.- Vou ter que me ausentar por uns sentons.... - Como??- Cassiopeia estava incrédula com o que tinha ouvido. Olhando para Sheba, viu que esta estava ainda mais assustada que Starbuck.- Que é que se passa Sheba? - Gostava de te saber dizer....- respondeu a Capitã, procurando com o olhar o apoio de Starbuck.- ..Só sei que é algo que vamos ter que fazer.... - Foram os Cylons que voltaram? Foi isso? - Antes fosse...- desabafou o seu marido, voltando a abraçá-la.- Mas não te preocupes, vai tudo correr bem.... Antes que Cassiopeia pudesse dizer mais alguma coisa, Starbuck dirigiu-se para o quarto deles, passando depois para um quarto que estava vazio. Sheba tentou reconfortar o melhor que podia Cassiopeia, mas a verdade é que estava aterrada de mais para o fazer convenientemente. Passados alguns centons, Starbuck regressou e ambas as mulheres ficaram a olhar para ele pois já não estavam habituadas a vê-lo com a farda de Guerreiro. - Achei que isto era mais apropriado...- murmurou ele ao ver os olhares das mulheres. Esboçando um tímido sorriso, acrescentou: - Embora pareça ter encolhido...... Pousando a saca que trazia na mão em cima do sofá da sala, abriu-a e vasculhou no seu interior até encontrar uma caixa metálica. Abrindo-a, tirou de lá a sua arma pessoal e as respectivas cargas. - Tu tinhas isso cá em casa?- perguntou Cassiopeia, preocupada com o facto da filha deles poder encontrar tal objecto. - Não te preocupes, Cassie.- disse o seu marido enquanto ajustava o seu coldre e guardava a arma.- Ela estava descarregada e as cargas estão sempre noutro sítio.... Voltando a fechar o saco, Starbuck virou-se para Sheba e perguntou-lhe: - Tens a tua arma? - Sim...- respondeu ela, dirigindo-se de imediato para os aposentos onde estava alojada, retirando a pistola da sua mala e aproveitando também a ocasião para vestir o seu uniforme de Guerreira Colonial. Assim que se juntou ao casal, viu que Cassiopeia estava com um ar mais recomposto e que Starbuck lhe devia ter dito mais qualquer coisa sobre a situação em que eles se encontravam. - Estou pronta!- anunciou Sheba, para chamar a atenção do ex-Capitão. Este assentiu positivamente com a cabeça e dirigiu-se para um pequeno armário existente na sala. Abrindo as portas dele, retirou algumas coisas das prateleiras e, sob o olhar espantado da mulher, puxou-as para fora do armário, revelando um espaço secreto embutido na própria parede. - Desculpa lá, Cassie....- disse ele, enquanto vasculhava o esconderijo.- Sei que provavelmente me vais odiar por causa disto mas nunca a consegui deitar fora.... Assim que tirou um enorme embrulho de dentro do esconderijo, ele voltou a guardar as coisas no sítio e fechou o armário. Endireitando-se, começou a desfazer o embrulho, revelando algo que deixou Sheba de boca aberta. - Uma espingarda laser Cylon?- balbuciou ela.- Como é que conseguiste arranjar isso? - Ganhei-a a jogar Pirâmide....antes do Holocausto...- enquanto dizia isto, Starbuck abriu o carregador da espingarda e inseriu duas cargas que entretanto tinha tirado de um dos bolsos do seu uniforme. Fechando o carregador, virou a arma de lado, verificando a luz que indicava que esta estava carregada e travando-a. - Só falta teres por aí um Viper...- disse Cassiopeia, sorrindo um pouco. Embora estivesse receosa pelos seu marido e por Sheba, tinha que ser forte. Sempre soubera que ao apaixonar-se por um Guerreiro, havia uma série de perigos. O facto de Starbuck se ter aposentado do serviço militar tinha feito com que ela se esquecesse disso, mas a verdade é que um Guerreiro nunca deixava de o ser..... Dando um beijo sentido à mulher, Starbuck afastou-se dela quase que à força, virando-se depois para Sheba e perguntando simplesmente: - Vamos? A Capitã assentiu com a cabeça e despediu-se de Cassiopeia, juntando-se a Starbuck que já a esperava no átrio do apartamento. Com um último aceno de despedida, os dois entraram para o elevador. Como não era muito conveniente andar a passear com uma espingarda em frente dos clientes, o ex-Guerreiro marcou o andar da garagem. Assim que chegaram aí, subiram um lanço de escadas e rapidamente foram ter a uma pequena porta que dava acesso à superfície, a uma das faces laterais do clube. - Que os Senhores de Kobol nos ajudem....- disse Starbuck, abrindo a porta para que os dois saíssem. O Detective Jeremy Clay foi subitamente acordado pelo barulho insistente feito pelo sensor que tinha preso na janela direita do seu hovercarro. - Já acordei...já acordei..- balbuciou ele, acabando por se endireitar no assento do veículo. Entre o seu assento e o do passageiro, encontrava-se um monitor que normalmente era utilizado para se aceder ao Comando-Central da Polícia Planetária. Para aquela missão, ele tinha ligado o monitor ao sensor que lhe tinha sido fornecido pelos seus superiores, estando-o a usar para seguir os dados que lhe eram transmitidos por este. O sensor tinha acabado de detectar a presença do alvo no exterior do clube. Utilizando o modo de intensificação nocturno, Clay focou a zona onde o sensor tinha detectado as pessoas e pôs a correr o sistema de identificação, que também lhe tinha sido entregue pelos seus superiores, reconfirmando a informação. A Capitã Sheba estava fora do clube "A Pirâmide" ! - Finalmente....- desabafou o polícia. Há mais de uma semana que a extraterrestre não saía do edifício e ele tinha passado a maior parte desses dias enfiado no hovercarro, só saindo da parte da manhã, quando um colega da Esquadra Central de Karn o vinha substituir. Ninguém do clube tinha reparado naquela vigilância, pois era normal estar ali um veículo da Polícia Planetária, em prontidão para o caso de haver algum tipo de problema com os clientes. É claro que ultimamente todos os polícias que tinham estado ali em serviço eram membros da mesma organização. Os Filhos da Terra estavam organizados em células de cinco membros, sendo um deles o líder. Naquele caso, Clay era o chefe da célula, constituída por membros da Polícia daquela cidade. Infelizmente as suas ordens iniciais tinham sido alteradas. A princípio, o seu contacto tinha-lhe dito que o objectivo da célula era abater a extraterrestre, simulando um assalto, mas a situação tinha mudado a partir da altura em que se tinham apercebido de que haviam outros interessados nas actividades do clube. Uma investigação rápida tinha mostrado que os outros vigilantes eram membros da Secção Regional do Comando Planetário e por isso era impossível seguir o plano original. Mesmo assim tinham recebido ordens para continuar a seguir o alvo. Sheba não estava sozinha naquela noite, estando acompanhada por outra pessoa cujo o perfil e dados também estavam inseridos no sistema de identificação. É claro que Clay nem sequer precisava do sistema para identificar o famoso dono do clube, o extraterrestre chamado Starbuck. - Que pena que não os posso matar....- murmurou ele, olhando momentaneamente para a espingarda de dardos que tinha na parte traseira do carro. Seria extremamente fácil abater os dois alvos mesmo aquela distância, pois ele fora atirador especial no Exército da Aliança. A única coisa que o impedia de fazer isso era a noção de que não iria viver muito tempo se desrespeitasse as ordens dos seus superiores. Soltando um suspiro de resignação, voltou a sua atenção para os dois extraterrestres. Na exacta altura em que o fez, o sensor indicou uma notória queda de temperatura junto deles e, num abrir e fechar de olhos, viu surgir aí uma forma feminina. - Donde é que ela veio?- perguntou Clay em voz alta. Dividindo o monitor em dois, fez surgir no lado direito a gravação dos segundos anteriores ao aparecimento da mulher. Mesmo assim não conseguiu vislumbrar nada. Ela parecia ter caído do céu.... Afastando o facto do seu pensamento, o polícia decidiu seguir rapidamente as suas ordens e tirou uma série de imagens dos alvos e da mulher desconhecida, enquanto estes se dirigiam para um veículo estacionado no parque do clube. Assim que entraram no hovercarro e tomaram a direcção da estrada que levava até ao espaçoporto, ele decidiu que o seu trabalho tinha terminado. Embora não tivesse sido informado, de certeza que a organização teria alguém a vigiar esse local e portanto estava na altura de se ir embora. Recolhendo o sensor da porta e guardando-o num dos bolsos do seu uniforme, Clay limpou todos os vestígios da sua programação no monitor e pôs o seu hovercarro em movimento. Ao dar meia-volta com o veículo, viu o hovercarro dos membros da Secção Regional a manobrar e a tomar também a direcção do espaçoporto. - Adeus...- disse o polícia num tom jocoso, despedindo- se tanto dos outros vigilantes como dos seus alvos. Tinha o pressentimento de que eles se iriam encontrar outra vez...e dessa próxima vez, talvez as circunstâncias fossem diferentes.... ALGURES NA CINTURA DE ASTERÓIDES Aumentando a velocidade, a sonda lançou um sinal para o último conjunto de minas que defendiam a saída daquela passagem pela Cintura da Morte. Perante o sinal de que tudo estava em ordem, a I.A. da sonda ultrapassou a barreira e entrou no espaço do outro lado dos asteróides. Reduzindo a velocidade, ela accionou os seus sensores, pesquisando toda aquela zona do espaço em busca de anomalias. Enquanto a sonda iniciava a sua pesquisa, a bordo da T.D.F. Berlin, o Comandante Hans Zimmer assistia a tudo pois Eva tinha-o ligado directamente à outra I.A. . Ele tinha a sensação de estar a flutuar no espaço, sensação essa provocada por estar a ver as imagens da câmara que a sonda possuía. No lado inferior esquerdo da imagem surgia uma espécie de mini-mapa que indicava os sectores que a sonda estava a pesquisar. "Quanto tempo é que falta?", perguntou ela à I.A. "Faltam cento e dois segundos para terminar a pesquisa do último sector", respondeu a "mente" da sonda num tom de voz que, ao contrário das I.A. normais, era artificial e mecânica. Perante a resposta, Zimmer desligou-se da sonda, voltando a sua atenção para a sua própria I.A. No exacto momento em que fez isso, Eva alertou-o: "A sonda acaba de detectar algo...." Zimmer voltou a ordenar mentalmente a ligação e, assim que o fez, começou a receber os dados que tinham despertado a atenção da sonda. Uma série de massas metálicas e emissões de energia tinham sido detectadas na última zona do sector. "Há 90% de hipóteses dos sinais detectados serem de origem hostil", informou-o a I.A. assim que o sentiu. "Quanto tempo para a intercepção?" "Se aumentar a velocidade, cerca de 5 minutos." "O aumento de velocidade está autorizado" Com estas palavras, o Comandante Hans Zimmer voltou a cortar a ligação à sonda. O ambiente na Ponte tinha ficado subitamente pesado, pois Eva tinha informado a tripulação aí presente da descoberta. Todos eles sabiam o que tinha acontecido durante o confronto entre as forças Terrestres e os Cylons e esperavam sinceramente que os contactos detectados pela sonda fossem apenas alguma anomalia espacial. O próprio Comandante também esperava isso, mas a verdade é que sabia que a Marinha lhe pagava não para evitar os confrontos, mas sim para os vencer. E para vencer era necessário estar preparado. Com este pensamento em mente, ordenou a toda a patrulha para entrar em estado de alerta, ligando-se depois à sua I.A. "Sim, Capitão?", perguntou esta assim que sentiu o contacto. "Prepara duas sondas de comunicação. Uma para a Base Naval de Lavos-305 e a outra para Gibraltar.." "Qual é a mensagem a enviar?" "Contactos desconhecidos do outro lado da cintura. Altas probabilidades de serem naves inimigas. Peço reforços imediatos e a implementação dos Protocolos de Emergência em todas as colónias desta região." "O lançamento das sondas será efectuado dentro de 1 minuto", declarou Eva, continuando após uma pequena pausa: "Ambas as sondas estão sinalizadas como contendo uma comunicação da máxima urgência." Assim que as sondas foram lançadas, Zimmer ligou-se à sonda de exploração. Esta estava quase a chegar à zona onde tinha detectado os contactos anómalos e à medida que se aproximava, os seus sensores iam captando mais informações. Ao todo as anomalias eram 13, estando 12 delas situadas em torno da restante. "Quais são agora as probabilidades dos contactos serem hostis?", perguntou ele, temendo, no seu íntimo, a resposta. "As probabilidades são agora de 98%", respondeu a sonda, "Os contactos correspondem ao perfil de Naves-Base Cylons. "Quanto tempo é que falta para uma confirmação visual?" "Um minuto" "Já foste detectada?" "Segundo os meus cálculos, entrei no perímetro dos seus sensores há 4 minutos", disse a I.A., não manifestando nenhum tipo de emoção pelo facto de estar em perigo. Aquele minuto foi um dos mais longos da vida do Comandante Hans Zimmer. Assim que a sonda atingiu o limite máximo da sua câmara, activou-a e rapidamente surgiu a imagem de uma série de imensas naves. O perfil era conhecido por todos os membros da Marinha da Aliança: dois pratos metálicos unidos por uma grossa coluna central. Tal como a sonda tinha ditos, as Naves-Base eram treze, estando doze delas a formar uma espécie de círculo em relação há décima- terceira. Zimmer teve a nítida sensação de que essa última era a mais importante.... "Estou a detectar a activação de sistemas de armas nas Naves-Base...", declarou subitamente a sonda. "Regressa imediatamente!", ordenou de imediato o Comandante, mas nos nanosegundos que a sua mensagem demorou a chegar ao destino, a sonda foi atingida por uma série de disparos simultâneos, explodindo de imediato. Zimmer sentiu uma intensa dor que durou alguns segundos, sinal de que a sua ligação com a sonda tinha sido abruptamente cortada, mas as salvaguardas do sistema protegeram-no de mais choques físicos. Mesmo assim, era como se uma parte dele tivesse sido cortada e ele tinha a certeza de que durante alguns dias iria andar com uma dor de cabeça de proporções monumentais. "A primeira linha de minas acaba de detectar os alvos!", anunciou Eva ainda antes dele se conseguir recompor, "Uma Nave-Base acaba de entrar na passagem...As minas estão a executar o seu plano de ataque! Assim que detectaram um alvo que correspondia aos parâmetros de ataque, as primeiras três minas avançaram na direcção dele. Elas eram feitas de um material invisível aos radar e não tinham nenhum modo de propulsão visível, contando apenas com projectores de campo magnético que as "puxava" na direcção do alvo. Assim que esse campo entrou em contacto com o exterior da Nave-Base, as minhas começaram a ser atraídas e iniciaram a sua viagem suicida. "Pelos vistos os técnicos tinham razão", comentou Eva para Zimmer, enquanto acompanhavam os acontecimentos na passagem através das câmaras da nave, "Os sensores deles são incapazes de detectar as minas e as ondas gravitacionais dos seus motores." "Vamos ver....." O nome das minas era um bocado enganador. Embora o seu principal explosivo fosse realmente de origem nuclear, a verdade é que elas não eram criadas para causar explosões maciças e descontroladas. De facto, as minas nucleares tinham sido criadas para serem utilizadas em situações em que teriam que ser dispersas numa zona reduzida, ou seja, os seus computadores sabiam que havia outras minas nas imediações e controlavam a potência das explosões nucleares de forma a que estas últimas não destruíssem o resto do campo de minas. Assim que os projectores gravitacionais das três minas as puxaram de encontro à superfície da Nave-Base, os seus computadores escolheram a potência de 1 megatonelada cada e rapidamente coordenaram uma contagem decrescente. Em pouco menos de 10 segundos, as três minas detonaram simultaneamente, criando um autêntico sol artificial dentro da passagem. - O alvo foi atingido com sucesso.- anunciou o oficial encarregue dos sensores de longo alcance.- A Nave-Base está morta no espaço.... Eva focou de imediato a câmara na zona do espaço onde a detonação se tinha dado, mudando de modo de visão até encontrar um que conseguisse penetrar a nuvem de destroços que rodeava o alvo. A imagem que encheu a mente do Comandante, deixou-o um pouco apreensivo. Apesar da parte superior da nave Cylon ter desaparecido, a parte inferior tinha ficado mais ou menos intacta. "Mesmo com uma potência tão reduzida, a explosão devia ter sido capaz de destruir completamente a Nave-Base", subvocalizou ele, "Faz um apontamento disto no relatório da missão, Eva. Tenho a certeza que os técnicos em Gibraltar estarão interessados...." - Qual o estado do alvo? - perguntou ele em voz alta. Em resposta, um dos oficiais da Ponte fez surgir um esquema da Nave-Base no tanque holográfico e começou a enunciar os danos no que restava da nave Cylon: - A parte inferior está totalmente sem energia e conseguimos detectar uma série de fogos internos. Não há qualquer sinal electromagnético compatível com a actividade de Centuriões.... - Posso então presumir que os tripulantes morreram todos?- perguntou o Comandante. - Se não morreram estão desactivados.- afirmou com confiança o oficial. Hans pensou seriamente em repreender o subordinado pela sua arrogância. Numa guerra, numa batalha, a confiança tinha sempre que ser mínima. O vencido podia ter sempre um truque na manga, truque esse que podia acabar com a alegria do vencedor. O próprio Zimmer tinha visto isso acontecer várias vezes ao longo da sua carreira militar e tinha a certeza de que ainda iria ver muitas mais. A repreensão só não surgiu porque neste caso havia alguns pontos atenuantes. Os chamados Coloniais tinham partilhado tudo o que sabiam em relação aos Cylons e também alguma da sua experiência decorrente de mil anos a combatê-los. Uma das coisas que os Terrestres tinham aprendido com os Coloniais é que pulsos electromagnéticos conseguiam incapacitar os Cylons. Decidindo deixar passar aquela falha no oficial, mas fazendo uma referência mental para não se esquecer, ele voltou a sua atenção para a câmara que Eva continuava a apontar para a passagem. "Há sinal de mais Naves-Base?" "Acaba de aparecer uma na passagem", respondeu Eva passados alguns segundos, parando por momentos antes de avisar num tom urgente: "Comandante, estou a detectar um aumento de velocidade! A Nave-Base está a preparar-se para entrar em Velocidade-Luz!" A câmara no casco da Berlin focou a gigantesca nave a ultrapassar os destroços da primeira Nave-Base e, num momento de pseudo-movimento, começar a esticar-se até desaparecer, num sinal claro de que tinha atingido a velocidade-luz. A explosão tinha alertado a segunda Nave- Base para o facto de que a passagem estava armadilhada, provavelmente com minas. A táctica dos Cylons para ultrapassar os campos desse estilo era exactamente atingir a velocidade-luz, de modo a fazê-lo rebentar. Isto funcionava porque as minas que eles tinham enfrentado até aquela altura, nunca tinham sido capazes de danificar uma Nave- Base. É claro que eles nunca tinham enfrentado um campo de minas daquela magnitude. Numa explosão muito mais poderosa que a anterior, os vários quilómetros da passagem ficaram totalmente iluminados, mostrando o que é que acontecia quando um objecto a deslocar-se àquela velocidade embatia num objecto. "Qual a situação do campo de minas?", perguntou urgentemente Zimmer, pois sabia que aqueles objecto eram a única coisa que impedia que os Cylons passassem para aquele lado da cintura. "A explosão destruiu os grupos 2 e 3, Comandante. Os outros doze campos continuam activos, embora haja duas minas do grupo 4 que estão a comunicar problemas devido ao pulso electromagnético da explosão. "Qual a situação do alvo?" "O alvo deixou de existir, Comandante. A passagem está agora cheia de destroços..." Eva interrompeu subitamente a sua comunicação com Zimmer, dando um sinal de que estava a receber um sinal de emergência. Passados alguns segundos, o Comandante viu surgir na sua mente a figura do Capitão O'Brien. O Comandante da T.D.F. Dublin não tinha ordenado à sua I.A. que criasse nenhum tipo de imagem artificial, tendo apenas usado a imagem transmitida por uma das câmaras internas da nave. Era fácil ver qual tinha sido o objectivo dessa sua ordem, pois pelo que dava para ver da sua Ponte, esta apresentava danos graves. Por detrás do posto de comando do Capitão O'Brien via-se uma série de técnicos da Secção de Controlo de Danos a tentar apagar um incêndio que lavrava numa série de painéis e instrumentos. "Comandante Zimmer, a minha nave sofreu danos graves!", anunciou de imediato O'Brien, vendo-se na imagem que ele estava constantemente a olhar para trás. "O que é que aconteceu?" "O pulso electromagnético fez rebentar a maior parte dos nossos instrumentos! A blindagem não foi suficiente..." "Tiveram baixas?", interrompeu-o Hans. "Temos dois mortos e três feridos graves...Foram todos atingidos pelas explosões dos instrumentos.", respondeu O'Brien, levando as mãos à cabeça. "Nunca pensei que a blindagem não conseguisse aguentar o pulso......" Zimmer ponderou a situação por alguns segundos, mas a verdade é que só havia uma posição a tomar. "Comandante, passe o seu comando para o Centro de Informação de Combate e tome posições no fundo da patrulha. Se a condição dos feridos se agravar, transfira-os imediatamente para aqui. Entendido?" "Sim, senhor! T.D.F. Dublin a desligar", respondeu o interpelado, escondendo o seu desagrado. O C.I.C. servia para a função que o seu nome indicava, mas não só, sendo também uma segunda Ponte de Comando e tendo por isso todos os instrumentos e sensores que existiam na Ponte original. Como era costume em situações de alerta e combate, o Centro estava totalmente tripulado e havia uma série de oficiais nos diferentes postos da Ponte de Comando Secundário. A partir do momento em que o Comandante se deslocasse para aí, ela tornar-se-ia a Ponte principal. É claro que nunca teria as mesmas condições da original, especialmente no que dizia respeito ao espaço. Só os cruzadores e as naves-capitais é que tinham um C.I.C. e a respectiva Ponte Secundária equivalentes à Ponte principal. Com este problema resolvido, o Comandante Hans Zimmer voltou a sua atenção para a passagem, esperando pela próxima jogada dos novos inimigos da Humanidade. Enquanto fazia isso, preparou uma nova mensagem para ser enviada para Gibraltar, com a informação de que os Cylons tinham tentado passar para o espaço Terrestre. ESTRELA-DE-BATALHA GALACTICA EM ÓRBITA DA COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE. - Comandante, o último vaivém de abastecimentos acaba de regressar à superfície.- anunciou a oficial da Ponte no pequeno ecrã na secretária de Apollo.- O Coronel Tigh informa que o aprovisionamento está completo. - Obrigado, Cadete Baras.- respondeu o Comandante, lembrando-se do nome da tripulante, o que trouxe um pequeno sorriso à cara da jovem, uma recém-chegada à Estrela- de-Batalha.- Diga, se faz favor, ao Coronel Tigh que daqui a dois centares voltarei para aí. - Com certeza, Comandante!- Com estas palavras, Baras terminou a ligação e Apollo voltou a sua atenção para os cubos de informação que tinha na secretária. Para além de estar totalmente reabastecida, a Galactica tinha também agora um complemento inteiro de tripulantes. Boomer tinha destacado para a Estrela-de-Batalha os melhores alunos da Academia. Todos eles vinham com a recomendação de Croft, o Director da Academia, e até agora Apollo não tinha a mínima razão de queixa de nenhum deles. O Coronel Tigh, num acto que não era muito usual, tinha até comentado o bom desempenho dos Cadetes. - Se eles conseguem impressionar o Coronel, devem ser mesmo competentes!- comentou ele para si mesmo, sorrindo. Voltando a atenção para os cubos, continuou a rever as fichas pessoais daqueles futuros Guerreiros, tentando decorar os nomes e associá-los a caras. A tarefa não era fácil, mas ele sentia a obrigação de a fazer, pois o seu pai sempre se orgulhara do facto de saber o nome da maior parte dos tripulantes da Galactica. Ele próprio admitia que isso era óptimo para a moral da tripulação. A sua leitura foi interrompida por uma série de suaves sons mecânicos vindos dos seus aposentos. Levantando os olhos dos cubos, olhou na direcção do som. Tal como esperava, Muffit, o daggit mecânico que tinha pertencido ao seu falecido filho, estava à porta do seu quarto, fitando-o com os seus olhos artificiais e abanando a cauda. Apollo não tinha tido coragem de se livrar do daggit após a morte do seu filho, pois ele era uma das coisas que lhe traziam lembranças de Boxey. Muitas vezes, quando Sheba não estava com ele nos aposentos, Apollo costumava abraçar-se simplesmente ao daggit, imitando inconscientemente aquilo que vira o seu filho fazer inúmeras vezes. - Que foi Muffit? Que se passa?- perguntou ele ao animal mecânico, vendo que este estava constantemente a voltar a sua cabeça para trás, na direcção do quarto.- Chega aqui. Ao contrário do que costumava acontecer, o daggit não obedeceu, voltando até para o sítio de onde tinha vindo. Assim que voltou para o quarto, Muffit começou a emitir a sua imitação de ladrar. Estranhando o comportamento do animal, Apollo levantou-se da sua secretária e dirigiu-se para o aposento onde o daggit continuava a ladrar. Ele começava a suspeitar que o animal tinha sofrido algum tipo de avaria. - Que se passa, Muf.....- começou o Comandante a perguntar, na altura em que passava para o outro aposento, parando porque algo de errado se estava a passar. A temperatura do quarto estava baixíssima, apesar dos indicadores na entrada indicarem que a temperatura seleccionada era a de Caprica. Ligando a luz, ele viu que o daggit estava parado no meio da sala, continuando a ladrar na direcção do canto mais afastado do quarto. Um arrepio, que não era só provocado pela baixa temperatura, atravessou Apollo. Muffit estava a ladrar exactamente para o local onde ele tinha guardado os pertences de Boxey. Dando mais alguns passos para o interior do quarto, Apollo viu que a sua respiração se notava perfeitamente no ar, um sinal claro de que a temperatura estava baixa. Ajoelhando-se cautelosamente, agarrou o pescoço do daggit mecânico e começou a tentar convencê-lo para se irem embora dali, estando mesmo disposto a desligá-lo. Tão subitamente como tinha começado, Muffit calou-se e agora o único barulho que se ouvia no quarto era o respirar de Apollo e os servomecanismos que mantinham o daggit mecânico em pé. - Vamos embora!- ordenou o Comandante, começando a puxar levemente o daggit pelo pescoço. Foi nessa altura que se começou a ouvir outro som no quarto. A princípio ele não conseguiu identificar o que era, mas ao fazê-lo sentiu novamente um enorme arrepio a percorrer-lhe o corpo. O que ele estava a ouvir era uma voz a choramingar...e a voz vinha exactamente da zona do quarto para onde Muffit estava a ladrar. Ganhando coragem, Apollo dirigiu-se para aí, procurando determinar a origem do som. Esticando-se ao máximo, conseguiu perceber que a voz parecia ter origem num ponto da parede, a cerca de dois metrons do solo, por cima de um conjunto de caixas vazias.. Este facto deixou-o ainda mais atónito, pois ele conhecia as plantas da Galactica como a sua própria mão e do outro lado daquela parede não havia nada a não ser o espaço, visto que era umas das paredes externas da Estrela-de-Batalha. Além do mais não havia nenhum equipamento nem nenhum espaço livre entre a parede que ele tinha à sua frente e a blindagem exterior. - Como é que isto é possível..- murmurou ele, passando a mão pela parede, numa vã tentativa de encontrar alguma espécie de abertura onde alguém pudesse ter escondido um gravador ou algo do género. Na altura em que ia recomeçar a revistar as caixas que estavam junto do local, teve a estranha sensação de que estava a ser observado, quase que sentindo uns olhos fixos na parte de trás do seu pescoço. Tendo o máximo de cuidado, quase tanto como o que tinha quando estava a tentar escapar de um Raider, Apollo começou- se a virar. A primeira coisa que viu foi que o daggit se tinha deitado no chão, só tendo a sua cauda a abanar lentamente, e que estava a fitar algo atrás das suas costas. Quando finalmente se virou totalmente para trás, ficou totalmente paralisado de medo com a visão que tinha á sua frente. O barulho do seu coração a bater a toda a velocidade tornou-se no único som que conseguia ouvir, ao mesmo tempo que a uma espécie de formigueiro lhe paralisava os movimentos. No centro da sala, a alguns metrons de Muffit, encontrava-se uma aparição totalmente branca, parecendo uma nuvem que se estendia até ao chão. O vulto lentamente começou a tomar forma humana e quando finalmente o fez, Apollo teve que abafar um berro. À sua frente estava agora Boxey, envergando até as mesmas roupas que tinha vestido no dia do acidente onde morrera. A aparição estendeu os braços na direcção de Apollo e se não fosse pelo facto de ele estar completamente paralisado, o Comandante teria caído para trás. Por mais aterradora que a aquela visão fosse, a verdade é que ele não conseguia afastar os olhos dela. O Boxey fantasmagórico estava a falar, parecendo estar sempre a repetir a mesma frase, mas a verdade é que não se ouvia nenhuma voz. A parte lógica da mente de Apollo dizia-lhe que aquilo que estava a ver não passava de uma espécie de gravação, que alguém lhe estava a pregar uma partida de um enorme mau gosto. Mas havia algo dentro de si que dizia que o que estava ali perante de si era realmente a alma do seu falecido filho. Conseguindo controlar os seus nervos, Apollo tentou compreender o que é que ele lhe estava a dizer, tentando ler os lábios da aparição, mas a verdade é que quanto mais ele se concentrava, mais a imagem fantasmagórica parecia perder definição. Aos poucos conseguiu perceber que Boxey parecia estar a chamar por ele, mas o resto da mensagem era impossível de perceber. De repente, todo o compartimento ficou mergulhado numa luz vermelha, o sinal de que a Galactica estava em alerta. Passados alguns microns, a voz do Coronel Tigh fez-se ouvir por todos os altifalantes espalhados pela Estrela-de- Batalha, anunciando que estavam a entrar em Alerta Vermelho e que aquilo não se tratava de um exercício. A temperatura da sala voltou ao normal e a figura de Boxey desapareceu no ar, tão misteriosamente como tinha aparecido. No entanto, nesses últimos momentos, Apollo conseguiu perceber uma das palavras que ela dizia: -Iblis. Assim que recuperou as suas faculdade motoras, o Comandante cambaleou de volta para o seu escritório, estabelecendo uma ligação com a Ponte. A sua cara não devia ser nada boa, porque o Coronel Tigh assim que o viu, perguntou: - Que se passa, Apollo? - Nada...nada...- respondeu ele, sabendo que não estava a ser nada convincente e tentando disfarçar o seu nervosismo.- Que se passa? Porque é que estamos em Alerta Vermelho? A expressão de Tigh era bastante esclarecedora, sendo evidente que ele sabia que havia algo errado com Apollo. Mesmo assim, o seu sentido de dever manteve-se e ele pôs o Comandante de toda a situação: - Acabamos de receber uma mensagem da Marinha Terrestre a informar que há cerca de duas horas atrás, ou seja três dos nossos centares, uma das suas patrulhas detectou uma força Cylon a tentar atravessar a Cintura... - Não há mais informações? - Para já ainda não. - Muito bem..- disse Apollo, massajando a sua testa num tique nervoso.- Quando é que podemos partir? - Os Guerreiros que estavam de licença já foram chamados.- anunciou Tigh, consultando o seu computador pessoal.- Os vaivéns devem chegar todos daqui a vinte centons. Infelizmente há um Guerreiro em falta.... - Quem? - Sheba. Aparentemente ela partiu num vaivém para fora de Eden à cerca de quarenta centons... Apollo sabia que isso era uma grave quebra do Regulamento de Serviço dos Guerreiros, que, mesmo em licença, deviam estar sempre prontos a voltarem a respectiva Estrela-de-Batalha quando convocados. É claro que naquela altura ele não estava propriamente com a disposição nem com a vontade de se preocupar com esse facto e foi exactamente isso o que ele anunciou a Tigh: - Desta vez, vou deixar passar essa falta. A Tenente Deitra que assuma o comando da Esquadrilha Vermelha. Assim que voltarmos eu falo com Sheba. - Entendido, Comandante. - Eu vou já para a Ponte. Só demoro mais um centon. Assim que Tigh confirmou que tinha recebido a mensagem, Apollo desligou a ligação e sentou-se na sua cadeira. Ele precisava daquele centon para pôr os seus pensamentos em ordem, mas uma coisa era certa: Ele não podia contar a ninguém o que tinha visto. Se contasse, de certeza que seria encarado como um louco e retirar-lhe-iam o comando da Galactica e isso não era aconselhável, especialmente naquela altura, em que os Cylons tinham regressado. Para já, aquele seria um segredo só dele. Tomando esta decisão, Apollo levantou-se, endireitou o seu uniforme e dirigiu-se para a Ponte de Comando. Involuntariamente lançou um olhar na direcção da entrada do seu quarto, onde Muffit continuava deitado, e o seu corpo foi percorrido por um calafrio, que só terminou quando a porta se fechou por completo nas suas costas. - Continua - (apenas lixo abaixo)