Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ------------------------------------------------------------ Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (possidonio24@hotmail.com) ------------------------------------------------------------ "O Principio do Fim" - Parte 2 - CAPÍTULO 7 - BASE NAVAL DE LAVOS-305, ALIANÇA TERRESTRE Consultando o relógio, o Comandante Hans Zimmer tentou calcular quanto tempo é que teria ainda que esperar antes de poder partir. O Comodoro Anton Vasquez, o principal responsável pela Base Naval insistia em manter ali as forças comandadas por Zimmer até receber reforços. Vasquez era também o principal responsável pelo facto do Grupo de Resposta Rápida ter demorado dois dias a alcançar a Cintura. O alerta lançado pela patrulha de Zimmer tinha sido recebido rapidamente, mas durante a preparação para a partida do Grupo, uma das naves de abastecimento tinha colidido contra a zona da Base que albergava as sondas de comunicação e o Comodoro tinha entrado em pânico, visto que não poderia comunicar com ninguém em caso de ataque. O medo de que a Base fosse atacada era tanto, que Vasquez havia adiado a partida do Grupo até que chegassem mais naves da Marinha ou então até que conseguisse recuperar as sondas de comunicação. Por coincidência, as duas coisas tinham acontecido na mesma altura. A Estrela-de-Batalha Colonial havia chegado e a Base tinha recomeçado a lançar as sondas de comunicação, contactando a patrulha de Zimmer e avisando as forças militares nos planetas vizinhos. Apesar de tudo isto, Vasquez tinha insistido para que a Galactica ficasse ali enquanto a patrulha de Zimmer não voltasse. E quando esta havia voltado, ele tinha insistido para que eles ficassem ali até chegar um Grupo de Batalha vindo de outra Base Naval. É claro que perante esta atitude do seu superior, Hans Zimmer não podia fazer nada. O Comandante da Galactica também tinha expressado o seu descontentamento com toda aquela situação, mas a verdade é que a operação estava sob o comando efectivo de Vasquez. “Capitão, uma sonda de emergência acaba de saltar para o sistema.”, informou-o a I.A., interrompendo os seus pensamentos. “Civil ou militar?” “Civil....”, respondeu ela, pausando por alguns momentos e anunciando de seguida: “A sonda está a começar a transmitir a mensagem.” O Comandante transferiu a transmissão para os altifalantes da Ponte, de modo a que todos os tripulantes desta ouvissem a mensagem, o que era o meio mais eficiente de os informar da situação. Na parte inicial da mensagem uma voz mecânica anunciava qual o nome da nave, o número de série do voo, o seu destino e as suas últimas coordenadas. A última parte da mensagem era do Comandante John Silver, o Capitão do Voo LL-24: “- A todas as pessoas que estiverem a ouvir esta mensagem...nós estamos a ser atacados por Cylons. Temos pela frente Naves-Base... Julgo que sejam oito...Que Deus nos proteja....” Após isto, a mensagem voltava ao princípio e começava a repetir-se. “Liga-me à Galactica, se faz favor.., ordenou Zimmer, não precisando, nem querendo, ouvir a mensagem novamente. Um dos seus maiores pesadelos tinha acontecido. O inimigo estava em espaço Terrestre e a ameaçar todos aqueles que ele tinha jurado proteger como oficial da Armada. Assim que a I.A. conseguiu comunicar com a Estrela-de-Batalha, Hans viu-se novamente frente a frente com o Comandante da Galactica. Pelo pouco que se via da Ponte da nave Colonial, eles também tinham ouvido a mensagem, pois era notório as luzes vermelhas de emergência que denotavam um grau de alerta elevado. - Saudações, Comandante Apollo.- disse ele na direcção do monitor onde aparecia a imagem deste. Felizmente alguém da Armada tinha tido a inteligência de equipar a Estrela-de- Batalha com equipamentos padrão de comunicação Terrestres, de modo a que estes e os Coloniais pudessem falar.- Ouviu a mensagem de socorro? - Sim, Comandante Zimmer. Acabamos de a traduzir...- respondeu o Colonial em Inglês Padrão, falando depois com alguém fora do alcance da câmara em Koboliano. Antes que o Terrestre pedisse à sua I.A. para traduzir o que ele estava a dizer, Apollo virou-se de novo para a câmara e disse: - O Comodoro acaba de nos ordenar para tomarmos, nas palavras dele, “posições defensivas em redor da Base Naval”. “Desculpe interromper, Comandante”, acrescentou Eva, “Acabamos de receber as mesmas ordens que a Galactica.” - Aquele homem é um cobarde!- desabafou Hans em voz baixa, nem sequer se apercebendo de que, pela primeira vez na sua carreira militar, estava a insultar um oficial superior. E isso não era a única coisa que tencionava fazer: “Eva, não confirmes a recepção dessas ordens!” “Sim, Capitão. Mas devo informa-lo de que isso vai contra os regulamentos militares.” “Eu sei disso e responsabilizo-me!” Depois desta conversa, voltou a atenção para o ecrã de comunicações, onde o Comandante da Galactica esperava pacientemente. Se este tinha ouvido o seu desabafo sobre Vasquez, não disse nada. Zimmer ponderou no que devia fazer. Era óbvio que o Comodoro Vasquez só estava interessado em proteger a sua pele, esquecendo-se obviamente de todos os civis que tinha sob a sua protecção. Os Cylons de certeza que iriam atacar outra vez e se as forças da Armada ficassem ali paradas, quem é que iria proteger as colónias da zona? - Segundo o que eu me lembro dos vossos relatórios, os Cylons já devem ter abandonado a zona do ataque...- começou Zimmer a dizer, enquanto começava a formular um plano na sua mente. - Exactamente.- confirmou Apollo.- Isso foi uma das lições que eles aprenderam durante a Guerra Milenar. Assim que atacavam uma nave no espaço, retiravam-se do local, de forma a não sofrerem um contra-ataque. - Sendo assim, é escusado ir até às coordenadas onde o voo foi atacado...- concluiu o Comandante Terrestre.- Agora que eles descobriram que há Humanos nas imediações eles irão atacar outro local, não é? - Sim....Os Cylons não acreditam em pausas no combate. As forças deles irão continuar com os seus ataques até serem destruídas... Estas palavras confirmaram os receios de Zimmer, mas serviram também para dar mais força à decisão que iria tomar. Para além daquela Base Naval, só havia outros dois alvos nas imediações: as colónias de Lavos-306 e Lavos-304. Foi exactamente isso o que ele disse a Apollo. Destes três alvos, um deles seria atacado pelas forças Cylons. Os Primeiros-Centuriões que normalmente comandavam as Nave-Base não se iriam desviar dos planos. Os Cylons atacariam com toda a força um dos alvos, de forma a destruí-lo de imediato. Mas qual deles é que seria escolhido? - Para ser sincero, não sei se podemos fazer uma escolha..- disse Apollo, optando por ser prudente.- Estão em perigo vidas.... - Mas preferem atacar alvos militares ou civis?- insistiu Hans. O Comandante da Galactica parou para pensar. Os Cylons não costumavam fazer nenhum tipo de distinção entre alvos civis e alvos militares. Tudo o que fosse Humanos deveria ser destruído. É claro que nesta situação, em que os Cylons estavam num território desconhecido e a enfrentar forças novas, talvez eles fossem mais cautelosos... - Eu acho que eles vão atacar um dos planetas...- acabou Apollo por dizer.- Eles estão a enfrentar um inimigo novo e o mais lógico é que eles tentem atacar um alvo civil e fácil, nem que seja para analisar a reacção das forças inimigas. “Que achas, Eva?”, perguntou Zimmer assim que o Colonial acabou de falar. Ele próprio também tinha esse pressentimento. “Eu concordo com a análise do Comandante Apollo. As informações que a Marinha Terrestre possui acerca dos Cylons apontam para essa conclusão.” - Então, agora só falta saber como é que vamos defender dois planetas com as forças que temos ao nosso dispor ...E sem o apoio do Comodoro Vasquez... - Eu tenho um plano, Comandante.- disse Apollo, aproximando-se mais do ecrã.- Os motores de salto que a vossa Marinha instalou na Galactica são bastante poderosos. Quase de certeza que podemos alcançar a cintura de asteróides em menos de seis horas. Depois é só questão de contactarmos o oficial responsável pelo Grupo de Resposta Rápida e rumarmos a um dos planetas...O outro tem que ser defendido pelas vossa patrulha.... “Eva, quem é que está a comandar o Grupo?”, inquiriu Hans, visto que não se conseguia lembrar da pessoa em questão. “O Grupo está sob o comando do Capitão Agasha Gennai.”, respondeu a I.A., acrescentando logo de seguida, “A Base Naval acaba de mandar novamente a ordem e pede confirmação da recepção” “Não respondas. Finge que estamos com problemas de comunicação...”, ordenou ele, virando a sua atenção de novo para Apollo: - Não conheço o oficial em questão, mas vou escrever uma mensagem a explicar a situação. Tenho a certeza de que ele irá compreender. - Muito bem, assim que a tiver pronta nós saltamos. Só lhe peço que fale também com as naves que nos estão a escoltar. Tenho a certeza de que elas não irão gostar de nos ver partir sem explicações.- disse o Colonial, acrescentando depois, em jeito de despedida: - E que os Senhores de Kobol nos protejam a todos. Depois de Apollo terminar a comunicação, Hans redigiu o texto no seu computador pessoal, encriptou-o com as últimas cifras da Marinha e enviou a mensagem para a Estrela-de- Batalha. De seguida, iniciou uma comunicação com as duas fragatas que acompanhavam constantemente a Galactica. Os Capitães destas duas não precisaram de ser muito convencidos por Hans, pois eles também discordavam da atitude cobarde de Vasquez.. A Marinha Terrestre tinha uma obrigação a cumprir para com todos os cidadãos da Aliança. Assim, quando a Estrela-de-Batalha se começou a afastar da Base Naval, preparando-se para saltar, nenhuma das naves de escolta a tentou impedir. O Comodoro Vasquez apareceu em todos os canais, ordenando às suas forças que impedissem a partida da nave, mas a verdade é que ninguém o fez. As naves em torno da Base Naval estavam em contacto entre si, usando as comunicações laser de curta distância, o que fazia com que as transmissões não fossem captadas por ninguém a não ser pelas naves directamente ligadas pelo laser. Em pouco menos de uma hora, e apesar das constantes ameaças de Vasquez, todas as naves da Marinha que estavam junto da Base Naval tinham sido contactadas por Hans e os seus Capitães apoiavam-no. Uma parte do regulamento militar podia ser aplicada naquela situação e era exactamente isso que Zimmer ia fazer. - Muito bem Eva, podes ligar-me à Base! – ordenou ele assim que terminou de explicar a situação à sua tripulação. Ele tinha tido o cuidado de fazer isso pois não queria que eles pensassem que ele se estava a amotinar. O que ele estava a fazer era perfeitamente legal. Assim que a comunicação foi estabelecida, surgiu no ecrã a face vermelha do Comodoro Vasquez. O homem estava a suar profusamente, tendo até desapertado o colarinho do seu uniforme azul escuro. Apesar de ver o tom duro do olhar de Hans, Vasquez não conseguiu deixar de protestar: - Que se passa?? Vocês estão todos malucos, Comandante? Os Cylons podem estar a aproximar-se e a Base Naval está totalmente desprotegida!!- berrou ele, o que fez com que alguns dos oficiais que estavam no Centro de Comando da Base olhassem na sua direcção. O Comandante da Berlin já estava à espera daquele tipo de reacção e assim esperou calmamente que o Comodoro se calasse. Assim que este o fez, ele começou a recitar o texto que tinha escrito juntamente com os outros Capitães: - Comodoro Vasquez, segundo a Alínea Um do Décimo Primeiro Artigo do Regulamento Militar da Armada da Aliança, o senhor está destituído de todos os seus poderes... - Você não tem o direito de fazer isto!!- berrou o visado, tendo consultado no seu nanocomputador o Regulamento Militar.- Isto não é nenhuma situação de combate!! -...e deverá ser detido até poder ser apresentado a um Tribunal Militar.- concluiu Hans, ignorando a interrupção. Recostando-se no seu assento, fitou o ecrã de comunicação e a câmara deste, de forma a que Vasquez visse bem a sua face e ouvisse bem o que ele iria dizer a seguir: - Comodoro. Em toda a minha carreira militar sempre me regi pelo Regulamento Militar. Nunca me desviei dele em nenhuma ocasião. O que estou a fazer agora é um exemplo disso. As suas ordens são um claro exemplo de cobardia perante o inimigo e por isso, como membros da Marinha, não as podemos aceitar. - Mas eu nunca me recusei a combater!! Eu só estava a tomar posições defensivas...Nem sequer sabemos se os Cylons nos vão atacar!!- interrompeu-o novamente Vasquez. Atrás dele, na Ponte de Comando, era visível que toda esta discussão estava a ser seguida com atenção. - E se fosse pelo Comodoro, nós nem sequer iríamos combater.- acusou Hans, apontando um dedo para o ecrã.- Se fosse pelo senhor, ficaríamos todos aqui a defender a Base. Temos que ir atrás dos Cylons, temos que defender as nossas colónias! Não podemos ficar aqui parados!! Isso é cobardia! É abandonar os nossos cidadãos!! - Eu não sou um cobarde!! - Esta discussão só nos está a fazer perder tempo! – disse ele, fazendo sinal para que o seu oficial superior se calasse. – O senhor está sob prisão. - Não admito que um simples Comandante.......... Ignorando as ameaças de Vasquez, Hans continuou, dirigindo-se aos outros ocupantes do Posto de Comando: - Agradecia que um dos oficiais aí presentes prendesse o Comodoro. Se tal não for possível, aviso desde já que estamos dispostos a mandar alguns dos nossos Fuzileiros tomar conta da Ponte. Vasquez olhou para trás, nervosamente, vendo qual era a reacção dos seus subordinados. Um dos oficiais levantou-se do seu posto e começou a dirigir-se para junto dele, mas antes que chegasse lá, o Comodoro ordenou, apontando para a oficial em questão: - Guardas, prendam-na!! No ecrã, vindos da zona de acesso da Ponte, apareceram dois Fuzileiros com as armas prontas. Os dois soldados hesitaram olhando para Vasquez e para a oficial. - Eu dei-vos uma ordem!!- berrou o primeiro, mas mesmo assim os Fuzileiros não obedeceram. A mulher para a qual apontavam as armas, clareou a garganta e disse: - Guardas, prendam o Comodoro! - Como?- disse ele, incrédulo.- Você vai pagar por isso!! Com estas palavras, o homem virou-se completamente de costas para a câmara e levou a mão esquerda ao coldre que tinha à cinta. Assim que o abriu, um dos soldados avançou e virou a sua AR-34 na direcção do Comodoro, alertando: - Não o faça! Afaste a mão da arma! O outro Fuzileiro tomou a mesma decisão e também a sua espingarda automática a Vasquez. Só nessa altura é que esse último se pareceu aperceber de que tudo estava perdido. Lentamente afastou a mão do coldre e recostou-se na cadeira, deixando cair os ombros numa autêntica expressão de desalento. O primeiro Fuzileiro aproximou-se dele e retirou-lhe a pistola de dardos do coldre, enquanto que o outro soldado o cobria. - Venha comigo, senhor.- ordenou o Fuzileiro, guardando a arma no seu cinto. Sem sequer olhar para trás, o Comodoro levantou-se e acompanhou o soldado. Assim que a sua cadeira ficou livre, a oficial aproximou-se do ecrã e fez continência a Zimmer, dizendo depois: - Estamos do seu lado, Comandante. As acções do Comodoro não foram as indicadas. - Obrigado...- disse Hans, lendo o nome da placa.- .... Tenente-Comandante Reilly. Quem é o oficial mais graduado aí na Base? - É o Capitão Ed Dupre, Comandante.... Hans praguejou em voz baixa perante esta notícia. Ele não estava à espera que existisse alguém com uma patente maior que a sua na Base. É que assim o comando da Base passava para esse oficial e não para o oficial que tinha feito a destituição. Se o homem se revelasse tão cobarde como o Comodoro, teria que haver outra destituição...E enquanto isso, a ameaça dos Cylons mantinha-se. A Tenente-Comandante Reilly apercebeu-se do problema do Comandante e rapidamente acrescentou: - Mas ele actualmente pertence ao Comando de Defesa das Fronteiras. Isso simplificava a situação, pois os militares da Marinha que serviam nesta última organização, que era parte integrante das Forças de Defesa da Aliança, eram considerados como estando na Reserva. Normalmente os militares que eram destacados para esse Comando ou estavam perto da reforma ou então tinham feito algo de errado. - Então esse problema está resolvido. Eu assumo o Comando da Base a partir deste momento e até que surja um oficial de patente superior. Está claro? - Sim, senhor. – respondeu Nora Reilly, fazendo uma nova continência.- Quais são as suas ordens? - Daqui a alguns momentos nós vamos partir em direcção a Lavos-304. A Galactica foi ter com o Grupo de Resposta Rápida e depois vão seguir para Lavos-306. Segundo o que sei, daqui a duas horas devem chegar reforços, não é? - Exactamente.- confirmou a oficial, consultando o seu nanocomputador.- Segundo a última mensagem da Base Naval em K-9, a Sétima Frota vem a caminho. Assentindo com a cabeça, o Comandante da Berlin continuou: - Assim que ele chegar, quero que informem o oficial superior da Frota do que aconteceu aqui. Aliás, a minha I.A. acaba de transferir uma mensagem pessoal da minha parte para os computadores da Base. Essa mensagem esclarece toda esta situação... Mesmo assim, informe a Frota de que estamos a defender os planetas e que precisamos de ajuda. Tem alguma questão? - Sim, senhor. Gostava de saber se posso mandar o pessoal não essencial para a superfície de Lavos-305. Em caso de ataque eles estarão mais seguros lá. - Sim, faça isso, e não se esqueça de enviar também o Comodoro Vasquez, Tenente-Comandante. Não me lembrei desse pormenor. Mais alguma coisa? - Não, Comandante....- respondeu Nora, hesitando antes de acrescentar: - Boa sorte! - Obrigado.- Com estas palavras, Zimmer terminou a comunicação, enquanto que ordenava a Eva que informasse as outras naves de que iriam partir de imediato. Passados cerca de cinco minutos, a última nave da Marinha Terrestre saltou em direcção de Lavos-304. Agora era só uma questão de tempo. A Galactica deveria estabelecer contacto com o Grupo dentro de quatro horas e meia, demorando depois cerca de sete horas para chegar até Lavos-306. As naves sob o comando de Zimmer atingiriam Lavos-304 em cinco horas. ALGURES NO ESPAÇO, ENTRE AS COLÓNIAS DE LAVOS-304 E LAVOS-306 Lúcifer rodou sobre si, assim que ouviu a porta da Ponte de Comando a abrir-se. O Centurião que entrou era um daqueles que estava encarregado da análise da nave capturada. - O teu relatório, Centurião?- inquiriu o Cylon I.L., com um pouco de impaciência. - Os dados navigacionais do computador da nave já foram descodificados e integrados nos nossos mapas estelares. A linguagem do computador é equivalente a uma linguagem antiga do nosso Império....... - Eu posso ler esses dados técnicos depois.- disse Lúcifer, interrompendo o Centurião.- O que eu quero saber é o que descobriram em relação a estes Humanos. - Os Humanos têm três planetas habitados nesta zona. Um está assinalado nas bases de dados navigacionais como sendo militar. Os outros dois são civis. O Cylon I.L. analisou a situação. Estes “novos” Humanos nem sequer se tinham dado ao trabalho de apagar os dados dos seus computadores. Felizmente, a língua que eles falavam também era fácil de descodificar, tendo uma série de pontos de contacto com o Koboliano falado pelos Coloniais antes da Guerra Milenar, o que tinha feito com que eles pudessem descodificar as informações presentes nos computadores. - Podes continuar com a análise da nave.- ordenou ele ao Centurião. - Pelo seu comando! Acedendo ao computador central da Nave-Base, Lúcifer analisou os novos dados ao seu dispor. Havia três alvos à disposição e ele tinha que escolher. Era óbvio que a base militar não ser atacada, pois ele ainda não estava disposto a enfrentar as naves inimigas. Só quando tivesse mais informações é que poderia fazer isso. Sendo assim, a sua escolha estava agora reduzida a dois planetas. Qual deles é que seria atacado? Consultando as tácticas armazenadas no computador central, chegou rapidamente a uma conclusão. Sem mais demoras, deu as ordens necessárias para que os seus planos fossem executados e as Naves-Base puseram-se em movimento. PLANETA DE EVERGREEN, LIGA DAS NAÇÕES NÃO-ALINHADAS O nome do planeta não correspondia à sua actual situação. Nos seus primeiros tempos, na altura em que era ainda uma colónia da Aliança Terrestre, o planeta orgulhava-se de ser a mais arborizada de toda as possessões Terrestres. Esta distinção tinha-se desvanecido com o passar dos tempos e com a mudança de governo. A Liga, uma organização política que, após as Guerras Coloniais, chamava a si todas as colónias que não se queriam unir à recém-criada União das Nações Marcianas mas que também não queriam continuar a ser subjugadas pela Aliança, investia fortemente na industrialização de todos os seus membros, de forma a que se tornassem rapidamente numa potência económica, capaz de se igualar a qualquer uma das outras potências. Evergreen tinha sofrido com essa industrialização, sendo o seu imenso potencial florestal explorado sem limitações. Por incrível que parecesse, numa altura em que a maior parte dos móveis eram feitos em plastisteel, a madeira e todos os seus derivados continuavam a ter uma enorme procura. O abate de árvores dava-se a uma escala planetária, o que estava a provocar a desertificação de enormes áreas. As cidades que existiam pareciam ser copiadas umas das outras, tendo normalmente uma zona residencial central que vinha do primeiros tempo de colonização, rodeada por inúmeras zonas industriais, zonas residenciais para os operários e espaçoportos. Estes últimos funcionavam 24 horas por dia, sendo constantes os lançamentos e as aterragens de naves de transporte de mercadorias. Tinha sido exactamente por causa desse movimento constante de naves que o falecido Hugo Martinez tinha escolhido o planeta para centro de operações. A sua companhia, com a ajuda de alguns subornos, tinha ganho o concurso para ser o serviço de transporte de Evergreen, fazendo a ligação entre as estações orbitais e a superfície e com os planetas vizinhos. Martinez tinha visto a crescente população operária como um enorme mercado e isso revelara-se verdade. Num planeta em que as diversões eram poucas e o trabalho duro, as drogas de toda a espécie eram bem vindas e era exactamente isso que as suas naves traziam para o planeta, juntamente com os passageiros. Transportavam também muitas pessoas que tinham problemas com as autoridades e que precisavam de um local seguro para se esconderem. Era extremamente fácil para essas pessoas perderem-se no meio da vasta população do planeta. Agora, após uma viagem que tinha durado apenas dois dias, visto que tinham mudado de nave a meio do caminho em vez de esperarem que a nave original recarregasse os seus motores de salto, Starbuck e Sheba seguiam a misteriosa Lilith, pelas ruas do Sector Residencial 17 da capital do planeta. - Que sítio tão simpático...- murmurou sarcasticamente o ex-Guerreiro a Sheba.- Os locais parecem adorar visitas... As ruas eram estreitas e mal iluminadas, sendo ladeadas por prédios pré-fabricados de quatro andares, de cor cinzenta. Junto das portas desses prédios, sentados nas escadas, podiam-se ver pequenos grupos de homens e mulheres de aspecto pouco agradável, que conversavam entre si, enquanto fumavam ou bebiam. De algumas janelas abertas vinha o som de música, do choro de crianças e de outras actividades físicas. As pessoas limitavam-se a olhar para os três viajantes sem nada dizerem. Tinham havido algumas tentativas falhadas de se meterem com as duas mulheres do grupo, mas sem sucesso. Quando um grupo de quatro homens, visivelmente embriagados, tinha tentado aproximar-se da Capitã, ela havia virado a espingarda Cylon vagamente na direcção deles e eles haviam percebido rapidamente a mensagem. Já os que se tinham tentado meter com Lilith, tinham tido uma sorte diferente. Ela limitara-se a olhar para os dois homens por meros instantes e eles pura e simplesmente tinham caído para o lado, possivelmente mortos. A partir desse episódio, as tentativas de assédio tinham acabado e um silêncio instalava-se nas ruas onde eles entravam, à medida que se embrenhavam cada vez mais no labiríntico Sector Residencial. - Estamos quase a chegar lá.- anunciou a misteriosa mulher assim que entraram noutra rua. - Alguma coisa não está bem...- disse Sheba para o outro Colonial, perscutando os prédios. Ao contrário das outras zonas, não havia ninguém na rua, embora ainda se continuasse a ouvir os vários sons vindos das janelas abertas. - Sim..- concordou Starbuck, apercebendo-se de um movimento no seu lado esquerdo e olhando a tempo de ver alguém a voltar a meter a cabeça dentro da janela, fechando-a de seguida. – Estão todos assustados.... Era notório que os habitantes estavam a seguir os três estranhos, por detrás dos cortinados e das janelas, com receio de algo. - Chegamos!- disse Lilith assim que pararam em frente de um dos prédio no centro da rua. Ao contrário dos outros, este encontrava-se completamente às escuras e silencioso. A porta de entrada parecia uma enorme caverna escura e não se podia ver quase nada para o corredor que surgia atrás dela. - Não está à espera que entremos primeiro, pois não?- perguntou Starbuck a Lilith, vendo que esta hesitava em entrar. - Como cavalheiro que sou, costumo deixar entrar as senhoras primeiro, mas neste ca... - Silêncio!!- ordenou a mulher, erguendo a mão na direcção do Colonial para o calar e olhando atentamente para o prédio.- Há aqui algo de errado! - Eu já disse isso quando entramos na rua.- disse Sheba, empunhando a espingarda e apontando-a para a porta de entrada. Lilith levantou a mão direita, com a palma para cima e, aos poucos, uma pequena esfera de luz começou a surgir, aumentando cada vez mais de tamanho e de intensidade. Murmurando algo, ela soprou para a esfera de luz e esta levantou voo da sua mão, entrando para o prédio. Os três espreitaram com curiosidade para o interior do hall de entrada, que estava agora completamente iluminado, e a primeira coisa que conseguiram vislumbrar foi um corpo caído no meio do corredor, mergulhado numa poça de sangue e ainda agarrando uma arma. As paredes à volta estavam cobertas com sangue e marcadas com projécteis. Ao fundo do corredor, junto de uma porta semiaberta, estava outro corpo que apresentava também claras marcas de violência. Starbuck desviou o olhar e fitou o prédio em si, suprimindo um arrepio. Um súbito pressentimento dizia-lhe que todos os habitantes do prédio estavam mortos. Era também por causa disso que ninguém naquela rua estava fora de casa. As pessoas que tinham cometido aquele massacre deviam ter amedrontado toda a gente e imposto aquele silêncio opressivo. Foi nessa altura que lhe surgiu outro pensamento. E se os assassinos ainda estivessem à espera deles? - Esperem! Isto pode ser uma armadilha!- alertou ele, vendo que Lilith e Sheba estavam já a subir as escadas de entrada. Sacando a sua pistola, avançou pelo meio das duas, entrando para o prédio. A luz que Lilith tinha criado continuava a flutuar no meio do corredor, iluminando os dois corpos. À direita do hall existiam umas escadas que davam acesso aos outros andares e no fundo delas viam-se as pernas de outro corpo. - É escusado estas precauções...- disse Lilith, concentrando-se por momentos e depois continuando: - Não está ninguém vivo. As pessoas que fizeram isto já se foram embora, mas deixaram o prédio armadilhado com explosivos. Essa notícia alarmou os dois Coloniais, que pareceram ficar à espera que a explosão se desse de imediato. Perante a expressão de espanto deles, a misteriosa mulher murmurou algo numa língua estranha e a esfera de luz subiu no ar e encostou- se a uma das lâmpadas do tecto. De imediato todo o prédio ficou iluminado com uma pálida luz azul e a esfera regressou à sua posição original, desvanecendo-se lentamente. - Vamos!- ordenou Lilith, passando novamente para a frente do grupo, dirigindo-se para as escadas e começando a subir, passando por cima do corpo que aí estava estendido. Starbuck seguiu-a, evitando a poça de sangue que rodeava o corpo. No patamar do segundo andar estava outro corpo, rodeado ainda por uma série de sacos com produtos alimentares. Os assassinos tinham apanhado a mulher a chegar das compras e tinham-na abatido sem hesitações. Uma das portas desse patamar estava aberta e a cena que aí se via era de tal maneira cruel que os dois Guerreiros, apesar de estarem habituados a verem mortos, não conseguiram deixar de afastar o olhar. O corpo de uma mulher encontrava-se caído por cima dos corpos de duas crianças e era visível que elas as duas também estavam mortas. Engolindo em seco, continuaram a subir, seguindo Lilith, que não tinha parado para ver a cena. Era óbvio que as pessoas que eles procuravam estavam no último andar do prédio. O patamar do quarto andar estava fechado com uma pesada porta de metal. Lilith não hesitou e empurrou-a para trás, fazendo sinal aos dois Coloniais para que a seguissem. Eles fizeram isso e a primeira coisa que repararam foi nos dois cilindros metálicos que tinham sido cuidadosamente colocados no meio do patamar, por entre os corpos de cerca de cinco indivíduos. O topo desses cilindros estava adornado por dois mostradores digitais que tinham deixado de funcionar. - Isto eram as bombas?- perguntou Sheba, pondo a mão num dos cilindros e retirando-a rapidamente pois este estava gelado. - Sim...- respondeu Lilith, enquanto olhava para os corpos que estavam espalhados pela zona.- Mas não se preocupem que eu fiz com que elas se desactivassem. - O que era isto? Para que é que servia este andar?- perguntou Starbuck, pois era óbvio que os seus habitantes não eram simples operários. O número e qualidade das armas que se podiam ver nas mãos dos cadáveres pareciam apontar para algum género de actividade criminosa. - Isto era um dos posto de...distribuição...do meu falecido amante.- esclareceu Lilith.- Para além de distribuir as drogas para todas as outras cidades, era também o principal centro de acolhimento para todos os passageiros dos voos dele. Eles ficavam aqui até arranjarem novos documentos. - Quantos homens é que defendiam este local?- inquiriu Sheba, vendo que numa das paredes estava um armário cheio das mais variadas armas automáticas. - Neste prédio havia cerca de 15 homens. Os três que vocês viram na entrada, estes cinco que estão aqui mortos e os outros sete que estão no apartamento para onde vamos. Além do mais, no prédio ao lado devia estar uma equipa de apoio de dez elementos, com armas pesadas, mas quem efectuou este ataque também os matou a todos.... - Bem, vamos lá ver o tal apartamento...- sugeriu Starbuck, disfarçando o seu nervosismo com uma graçola: - Não gosto de passar muito tempo com os mortos. Acho que isso prejudica a minha boa sorte. Perante este comentário, Lilith soltou uma risada que provocou arrepios ao ex-Capitão e fitou-o, dizendo: - Meu caro, se soubesse como está errado! Os mortos podem ensinar-lhe muitas coisas. E a Morte tem muitas faces... Por momentos, Starbuck podia jurar que a pele da face dela se estava a derreter e a transformar, deixando ver uma caveira que continuava a ostentar uns incongruente olhos azuis. O súbito suster de respiração de Sheba a seu lado, provou que aquela visão não era uma simples alucinação. Tão rapidamente como tinha surgido, essa face de Lilith desapareceu, voltando a aparecer o seu semblante normal. Lançando uma sonora gargalhada perante o olhar aterrorizado dos Coloniais, ela avançou na direcção da porta de um dos apartamentos. Sheba e Starbuck lançaram um olhar pleno de medo entre eles, mas acabaram por a seguir, entrando também no apartamento. Os ocupantes deste último tinham derrubado as paredes que o separavam do apartamento ao lado, alargando o espaço. Espalhados pelos sofás aí existentes estavam mais sete corpos, todos ainda agarrados às suas armas. Todas as paredes estavam marcadas por pequenos buracos, num sinal claro de que os atacantes tinham utilizado armas de flechettes. No canto mais afastado da sala, numa mesa, encontravam-se mais dois corpos, ambos caídos sobre os restos de uma refeição. Lilith pegou na cabeça de um deles pelos cabelos e levantou-a do prato onde tinha caído. O disparo que o tinha morto tinha-o atingido em cheio na cara, desfazendo todo o seu rosto e crânio. Com um encolher de ombros, ela deixou-o cair de novo sobre o prato e dirigiu-se para o outro corpo. - Eram esses os homens com que vínhamos falar?- perguntou Sheba, quebrando o silêncio que se tinha instalado desde que tinham tido a visão. - É com eles com quem vamos falar...- respondeu, em voz baixa, Lilith, enquanto endireitava o segundo corpo, que tinha caído para trás, de encontro à cadeira, atingido com um disparo no peito. Dizendo isto, ela começou a recitar algo na mesma língua desconhecida que já tinha utilizado antes. Ao colocar a sua mão esquerda sobre o rosto do morto, ela fez surgir uma pequena luz vermelha que cintilava fracamente e que parecia emanar dos olhos abertos do cadáver. - O Sopro da Vida já se extinguiu nele.- disse ela, a título de explicação.- Está morto à pelo menos um dia... Depois disto, substituiu a mão pela outra e retomou as recitações. Passados alguns instantes, a pequena esfera de luz azul que eles já tinham visto surgiu de novo, sobre a cabeça do morto. À medida que ela continuava as suas recitações, o tamanho da esfera foi aumentando, assim como a intensidade da luz azulada que dela emanava. Mas desta vez, havia algo diferente na qualidade da luz e à medida que esta se começou a aproximar dos Coloniais, eles começaram a notar uma diminuição da temperatura da sala. Mas isso não era a única coisa diferente. O centro da esfera parecia estar cheio de uma névoa brilhante e no meio desta pareciam surgir inúmeras caveiras que apareciam e desapareciam em rápida sucessão. Sheba e Starbuck não se atreveram a olhar muito mais para aquela cena, desviando os olhos para Lilith, que continuava a murmurar na língua desconhecida. - Quando a Vida falha, a Morte triunfa. Esta é a verdade do Beijo da Morte.- disse ela, de repente, mudando para Koboliano, enquanto retirava a mão da face do cadáver. No interior da esfera, um caveira destacou-se da névoa e começou a crescer. A esfera também se começou a expandir e a cobrir todo o corpo, até que pura e simplesmente se desvaneceu. Foi nessa altura que o cadáver começou a tremer todo e dos seus lábios se começou a escapar um grito. Ao longo de toda a sua vida, os dois Guerreiros já tinham ouvido inúmeros gritos, desde aqueles lançados pelos feridos em combate que estavam a sofrer até aqueles lançados por pessoas que tinham visto os seus entes queridos morrer e aqueles lançados por outros Guerreiros momentos antes de morrer, abatidos pelo fogo Cylon. Mas nenhum desses gritos se comparava com o que estavam a ouvir agora. Este grito era inumano, parecendo estar a ser emitido por um animal. Pior do que isso, só a voz que se começou a ouvir, vinda da boca do morto: - Eu já estava em paz! Eu já estava em paz!- berrava ela, em Koboliano, o que contribuiu para aterrorizar ainda mais os Coloniais. Estava visto que a voz pertencia ao homem que estava ali, em frente deles, com o peito completamente desfeito por vários disparos.- Porque é que não posso descansar em paz!!! - Assim que responderes as nossas perguntas podes voltar para a lá.- afirmou Lilith em Koboliano.- Só tens que responder e poderás voltar para o teu descanso eterno! O morto continuou a lamentar-se durante mais alguns momentos, até que finalmente se pareceu acalmar e disse: - Falem! Eu quero ir-me embora depressa! Lilith fez um sinal para que os Guerreiros fizessem as suas perguntas. Sheba clareou a garganta, tentando esconder o seu nervosismo, e finalmente lá acabou por avançar, aproximando-se um pouco da mesa. - Qual é....- começou ela, mudando rapidamente de ideias:- Qual era o teu nome? - Maraxus. - De que Colónia eras?- perguntou Starbuck, pondo-se ao lado da Capitã. - Scorpia. - Como é que chegaste até aqui? - Na Pegasus. Perante esta revelação, Sheba não conseguiu conter um pequeno grito de surpresa. A Estrela-de-Batalha Pegasus, comandada pelo seu pai, Cain, tinha desaparecido na Batalha de Gamoray, enfrentando duas Naves-Base Cylon de forma a que a Frota escapasse. - A Pegasus não foi destruída em Gamoray?- disse Starbuck que, juntamente com Apollo, tinha atacado essas duas Naves-Base, numa tentativa de lhes destruir algumas das baterias de mísseis para que a outra Estrela-de-Batalha as pudesse atacar.- O que aconteceu? - O Comandante Cain ordenou a utilização da velocidade-luz. No momento em que as Naves-Base foram atingidas e destruídas pelos nossos mísseis nós aceleramos. O Comandante informou toda a tripulação de que nos iríamos reunir com a Frota, que ele sabia qual o rumo que ela iria tomar... Nesta altura o cadáver começou novamente a lamuriar-se sobre a sua sorte, mas Lilith sossegou-o novamente, frisando que quando ele acabasse de contar a sua história poderia voltar a descansar. Acalmando-se, Maraxus continuou o seu relato, na mesma voz cavernosa que saía algures da sua garganta. - Assim que começamos a acelerar tudo começou a correr mal. As Naves-Base ainda nos tinham conseguido atingir gravemente. Na minha secção, nos Motores, metade da tripulação estava morta e foi por causa disso que ninguém se apercebeu das flutuações nos motores. Nunca conseguimos perceber o que aconteceu. O espaço à nossa volta mudou completamente, as estrelas desapareceram e tudo ficou vermelho. Andamos perdidos durante mais de dois sectares, sem poder desligar os motores e sem nenhum tipo de navegação. Ninguém pode imaginar o que nós vimos! Passamos por inúmeros planetas mortos, naves imensas de origem desconhecida paradas no espaço e a certa altura chegamos mesmo a captar pedidos de socorro de duas Estrelas-de-Batalha... - De quais?- interrompeu Sheba, que estava totalmente absorta pelo relato. - Da Argo e da Hermes. Essas duas naves tinham sido das primeiras a ser equipadas com os motores hiper-luz e haviam desaparecido na altura em que os experimentavam pela primeira vez. Esse desaparecimento tinha dado origem a uma série de lendas e contos, e todos os Guerreiros conheciam pelo menos uma história em que se falava dessas Estrelas-de-Batalha fantasma. Eram inúmeros os casos de viajantes espaciais que as juravam ter visto aparecer e desaparecer misteriosamente. - Andamos a vaguear durante dois sectares...- continuou Maraxus a contar.- Até que de repente, sem mais nem menos, voltamos ao espaço normal. Mas a transição foi devastadora e a maior parte dos nossos sistemas deixaram pura e simplesmente de funcionar. A última coisa de que nos conseguimos aperceber, foi que estávamos numa região totalmente desconhecida. Nenhum dos nossos mapas estelares abarcava aquela área. Ainda nos estávamos a recompor disto tudo quando começamos a ser atacados. Como tínhamos evacuado todos os nossos Vipers para a Galactica e como estávamos sem defesas, os nossos atacantes rapidamente conseguiram abordar-nos. A maior parte dos tripulantes pegou em armas de modo a repelir os invasores, mas eles eram mais que nós. Eu e alguns colegas meus conseguimos escapar de um desses ataques à Secção dos Motores e alcançamos uma das antigas cápsulas de salvamento. Ainda discutimos se havíamos de ficar ali a combater ou não, mas a verdade é que preferimos fugir. A cápsula conseguiu passar despercebida pelo meio das naves inimigas e tomou o rumo do planeta habitável mais próximo. Demoramos cerca de um secton a alcança-lo e depois tivemos que viver lá durante cerca de um yahren, até que apareceu alguém que nos tirou de lá... Lilith murmurou algo e Maraxus calou-se, mas antes que ela pudesse acrescentar mais qualquer coisa, Sheba perguntou na direcção do ex-tripulante: - O que é que aconteceu ao Comandante Cain? - A última vez que ouvimos falar dele, estava a lutar na Ponte contra os invasores..... - Basta!- disse Lilith, fazendo um gesto com a mão direita. A esfera de luz azulada formou-se de novo sobre o cadáver, desaparecendo de seguida, enquanto que a temperatura da sala começava a voltar ao normal. - Porque é que não o deixou acabar a história?- disse Starbuck a Lilith.- Já que nos trouxe até aqui, o mínimo que podia fazer era deixá-lo ir até ao fim. A mulher ignorou-o, preferindo voltar a sua atenção para a Capitã. Com um sorriso gélido disse: - Minha cara, porquê esta insistência em saber o que aconteceu ao seu pai? Iblis já lhe disse que você o vai voltar a ver.... Sheba voltou-lhe a cara, contendo-se para não usar a espingarda que empunhava. Estava com um desejo louco de pegar na arma e disparar sobre Lilith, de a matar vezes sem conta. Durante toda a sua vida, orgulhara-se de nunca ter sido manipulada por ninguém, mas tudo isso mudara quando se tornara um joguete nas mãos do maléfico Conde Iblis. E agora ali estava ela, a ser novamente usada por forças desconhecidas. Starbuck apercebeu-se do ódio de Sheba e antes que ela pudesse fazer algo, começou a falar com a outra mulher, pois estava com medo que ela se apercebesse das intenções da Capitã. E não era nada inteligente hostilizar alguém com os poderes de Lilith: - Mas como é que ele chegou até aqui? - Essa é a parte que eu sei...- continuou a mulher, sem se mostrar minimamente preocupada com a fúria de Sheba e apontando para o cadáver.- Maraxus e o outro tripulante foram os únicos a sobreviver àquela estadia forçada. Na altura em que uma das naves do meu amante parou naquele planeta, por causa de uma avaria, e os descobriu, pouco faltava para eles morrerem de fome. Nenhum dos nossos tripulantes percebia a língua deles, mas ao verem a cápsula de salvamento, aperceberam-se de que estavam perante extraterrestres. Assim que a nave ficou reparada, abandonaram o planeta, levando esses dois novos passageiros num dos compartimentos secretos. - Quando você veio ter connosco ao meu clube, disse-nos que eles tinham pago com Cúbitos... - Sim...durante a viagem, o Capitão do voo tornou-se um pouco ganancioso e decidiu extorquir dinheiro a Maraxus e ao colega. Isso é normal nestes voos de contrabando...os passageiros normalmente não estão em condições de se queixar de que foram assaltados. Eles acabaram por lhe dar todos os Cúbitos que tinham.... Parando por momentos, como que intrigada por alguma coisa, Lilith prosseguiu a sua história. - É claro que quando o meu amante soube desta descoberta, pensou logo que iria lucrar algo com isso. Discretamente começou a contactar algumas organizações, na esperança de que alguma delas estivesse interessada em “comprar” aqueles extraterrestres, e organizou uma expedição para ir buscar a cápsula. É claro que a partir do momento em que a vossa Frota chegou, a procura deixou de existir. Actualmente se as pessoas querem ver extraterrestres, só precisam de ir até Eden... - E o que é que isto tem a haver com a morte do seu amante?- perguntou Sheba, agora que já se tinha conseguido acalmar. Fazendo um gesto para abarcar toda a sala continuou: - E quem é que matou toda esta gente. - No dia em que o mataram, ele tinha-me confessado que tinha arranjado um comprador. Tudo indicava também que esse comprador tinha sido o responsável pelo ataque à Pegasus.... - Presumo então que tenha sido esse tal “comprador” que matou o seu amante..- concluiu o ex-Capitão.- E que atacou este prédio...Estão a eliminar todas as pessoas envolvidas neste assunto.... - Exactamente. - Mas você tem alguma ideia de quem é que é esse tal comprador?- disse Sheba, que queria sair rapidamente daquele lugar.- Porque é que não utiliza os seus poderes e descobre? Lilith lançou-lhe novamente o seu olhar gelado, mas a Guerreira não esmoreceu, continuando a fitá-la. Sheba era uma mulher com um feitio forte, tal como o seu pai, que não desistia facilmente e era exactamente por causa disso que Iblis se sentia atraído por ela. Lilith sentiu um certo ciúme ao aperceber-se disso, pois durante muito tempo ela é que tinha sido a companheira de Iblis. “Mas isso agora não interessa...Para já, tenho que continuar com a charada..”, pensou ela para si mesmo, continuando depois em voz alta: - Ao contrário do que vocês mortais podem pensar, nós não somos omniscientes. Mas as palavras de Maraxus deram-me algumas pistas. O sector do espaço onde a Pegasus foi atacada é dentro do espaço Terrestre e é um lugar de muitos mistérios. Se querem mais respostas, perguntem aos Terrestre, o que é a Área 51...... Vendo que o nome não dizia nada aos dois Coloniais, Lilith sorriu e acrescentou: - Mas agora vamos embora daqui. Está na altura de vocês regressarem... Sem mais palavras, virou as costas e dirigiu-se para a porta de saída. Tudo tinha corrido segundo o plano de Iblis. Aos poucos as peças estavam a ficar no lugar e, dentro em breve, o jogo tornar-se-ia muito mais complexo. Starbuck e Sheba seguiram Lilith para a entrada do apartamento, sem trocarem mais do que um olhar entre eles. Ambos ponderavam ainda a pista que a mulher lhes tinha dado. Como é que iriam investigar aquilo? O Guerreiro, que ia em último, foi o primeiro a aperceber-se da mudança na sala. A temperatura havia voltado a baixar num espaço de microns e ele conseguia ver o bafo criado pela sua respiração. Lilith tinha parado junto da porta, ficando subitamente rígida e fazendo um esforço visível para se virar. Por sua vez, Sheba, que também se tinha apercebido da situação, estava a virar-se para Starbuck, para lhe perguntar algo quando uma voz se fez ouvir, vinda do cadáver de Maraxus: - Starbuck!- disse uma voz de criança.- Starbuck! Não tenhas medo dos sonhos. Segue o teu destino! Segue o teu destino! - Boxey?- perguntou Sheba, ultrapassando o Guerreiro, que estava completamente paralisado, reconhecendo a voz do falecido filho de Apollo.- Boxey, és tu? - Segue o teu destino, Starbuck!- insistiu novamente a voz de criança, não respondendo à Capitã. O interpelado abriu a boca para dizer algo, mas antes que o pudesse fazer, um luz azul encheu a sala e, num abrir e fechar de olhos, os três encontravam-se novamente na rua. Sheba caiu de joelhos no chão, afectada pela rápida transição, enquanto que Starbuck se procurou uma parede, tentando recuperar o equilíbrio. Assim que sentiu as costas encostadas a algo sólido, fitou Lilith e perguntou, subitamente furioso: - O que é aconteceu? Aquilo foi mais algum dos teus truques? - Asseguro-lhe que não, Capitão Starbuck....- disse a mulher, enquanto que pela sua cara passava uma expressão de medo ou espanto.- Eu só vos transportei de lá.... - Aquela era voz do Boxey!- disse Sheba, tentando levantar-se do chão e falhando.- Tenho a certeza que era voz dele...... Antes que algum deles pudesse dizer mais alguma coisa, Lilith pediu silêncio com um gesto da mão: - Eu tenho que partir. A minha missão aqui já acabou. Regressem ao espaçoporto e voltem a Eden. Voltaremo-nos a encontrar.- disse ela, sendo visível que algo a preocupava. A pós estas palavras, Lilith pura e simplesmente desapareceu, deixando os dois Coloniais sozinhos na rua. Starbuck cambaleou até junto da Capitã e, a custo, ajudou-a a levantar-se. - Era o Boxey, não era?- perguntou ela, assim que se apoiou ao ombro de Starbuck e os dois começaram a caminhar, afastando-se do prédio. - Sim...- murmurou o Guerreiro, não dizendo mais nada. As palavras que tinha ouvido no apartamento não lhe saíam da cabeça. Ao chegarem ao fundo da rua, os dois Coloniais foram atirados para o chão por uma violente explosão. Quando se puseram de pé e olharam para trás, viram que o prédio que tinham visitado e aqueles imediatamente a seguir eram agora pasto de chamas, estando parcialmente caídos na rua. Vendo que nada podiam fazer para ajudar, puseram-se novamente em movimento, em direcção ao espaçoporto. Antes de desaparecer, Lilith tinha accionado de novo a bomba, numa tentativa vã de destruir a entidade que tinha falado com a voz de criança. É que essa presença era um sinal de que o Inimigo já sabia o que Iblis andava a planear.... - Continua - (apenas lixo abaixo)