Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ------------------------------------------------------------ Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (possidonio24@hotmail.com) ------------------------------------------------------------ "O Principio do Fim" - Parte 2 - CAPÍTULO 9 - COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE QUARTEL CENTRAL DO EXÉRCITO TERRESTRE, CIDADE DE ASHER A explosão arrancou o Tenente Roger Veckin da cama e atirou-o para o chão. Antes que se pudesse recompor, a Camarata dos Oficiais foi novamente sacudido por outra explosão e um bocado do tecto do quarto caiu ruidosamente por cima da secretária de Roger, desfazendo-a. Apesar de estar ainda meio atordoado por ter sido acordado daquela maneira, ele levantou-se rapidamente e abriu o armário onde estava guardada a sua armadura, começando de imediato a envergá-la. Só enquanto fazia isso é que reparou que as sirenes de alarme do QG estavam a tocar a toda a força. Quando lhe faltava apenas colocar o capacete para fechar a armadura, dirigiu-se para a janela do seu apartamento, esmagando com as pesadas botas metálicas os vidros que a primeira explosão tinha partido. O seu quarto ficava ao nível do terceiro andar e era separado do edifício em frente por uma larga avenida. No momento em que espreitou pela janela, algo o fez olhar para a esquerda, na direcção da entrada principal. Como que se de um enorme pássaro metálico se tratasse, uma nave que ele rapidamente identificou como sendo um Raider voava ao longo da avenida, quase ao nível do primeiro andar dos prédios, com as suas armas a disparar, espalhando o caos e a morte. Roger seguiu-o com o olhar, vendo-o passar por baixo da sua janela e atingindo um grupo de soldados que emergia dos seus aquartelamentos, subindo depois para a esquerda, preparando-se para dar outra volta por cima do QG. - Não vou ficar aqui à espera... - afirmou o Tenente para si mesmo, colocando o capacete na cabeça e fechando-o, activando desta maneira a armadura. Abrindo os seus sistemas de comunicação, entrou na rede da Companhia A e tentou contactar o Capitão Thomas, o seu superior imediato. Tal como ele, também os comandantes dos outros três pelotões da Companhia A tentavam contactar o Capitão, mas a verdade é que este ainda não estava na rede. - Alguém sabe onde é que ele se meteu? - perguntava o Tenente Paulo, o responsável pelo 2º Pelotão, sendo nítido que estava a correr algures. - A camarata onde ele está alojado está em chamas! - respondeu o Tenente Chang, do 3º Pelotão.- Eu estou a sair das Oficinas e tenho o edifício à minha frente. - Eu vou ver onde é que está o Joe! – lembrou-se Roger, abrindo a porta do seu quarto e dirigindo-se para o corredor. O alojamentos do comandante do 4º Pelotão situavam-se no mesmo andar que o seu, num dos cantos do edifício. Ainda antes de chegar lá, viu que era escusado procurar o outro oficial. O tecto tinha abatido, cortando por completo o corredor e toda a área que ficava por trás dele. Um dos canos que serviam o sistema de combate a incêndios tinha rebentado e uma enorme bátega de água caía do tecto, alagando o chão. Passando pelo meio desse “chuveiro”, dirigiu-se para a porta que dava acesso às escadas e começou a descer. Ao chegar ao patamar do segundo andar, encontrou alguns oficiais da Companhia C que tentavam desobstruir a passagem para esse andar. A porta anti-fogo tinha sido arrancada por uma chuva de destroços. Por baixo do monte de entulho que enchia essa zona, podia ver-se a parte superior de um corpo ensanguentado. Sem dizer uma palavra, Roger ajudou os outros a retirar alguns dos pedaços das vigas que sepultavam o corpo. O único barulho que se ouvia no patamar era o dos servomotores das armaduras enquanto estas ampliavam a força dos seus utilizadores permitindo-lhes levantar com relativa facilidade grande pesos. Uma série de novas explosões abalou o edifício, lembrando aos presente que os ataques continuavam. Como que a pontuar isso, a voz do Major Yu fez-se ouvir, sobrepondo-se a todas as comunicações da Companhia. - Atenção! Todos os oficiais devem apresentar-se imediatamente no bunker de Comando! – A mensagem repetiu- se uma ou duas vezes, voltando depois a ouvir-se as comunicações entre os diversos membros da Companhia A. - Já não estamos a fazer nada aqui…- desabafou um dos homens, através dos altifalantes externos da armadura.- O que é preciso aqui é uma equipa de salvamento... - Vamos embora...- assentiu outro, virando as costas ao entulho e preparando-se para descer as escadas, sendo relutantemente seguido pelos outros. - Algum de vocês sabe como é que isto pôde acontecer? Como é que eles nos atacaram de surpresa? - perguntou Roger, enquanto desciam. - Pelo que ouvi, eles destruíram a Estação Orbital antes que esta pudesse dar o alarme e depois penetraram na atmosfera ocultados pelos destroços dela... - esclareceu um deles.- O Centro de Controlo AeroEspacial ainda captou o princípio de uma mensagem... O oficial não chegou a acabar a sua explicação pois uma nova explosão abanou o edifício, mergulhando-o na escuridão. Activando os sistemas de visão nocturna, dirigiram-se para o exterior pela porta de emergência que dava para as traseiras. Os edifícios que estavam para aí virados estavam a arder e do seu interior ouviam-se os gritos de pessoas presas nos destroços ardentes. As sirenes de alarme soavam por todos o quartel, mas o som que se sobrepunha a tudo isto era o grito dos motores dos Raiders que continuavam a sobrevoar o quartel, assemelhando-se a enormes aves de rapina em busca de nova presa. - Ainda estou para ver como é que vamos chegar ao bunker...- disse um dos oficiais que acompanhava Roger, mantendo-se encostado à parede.- Temos que atravessar a avenida principal toda... Enquanto os outros discutiam a situação, Veckin entrou em contacto com os Sargentos que comandavam as quatro secções do seu pelotão, mas apenas conseguiu falar com os responsáveis da 1ª e da 3ª. As notícias que eles lhe deram eram quase impossíveis de acreditar... A caserna onde estavam alojados tinha sido uma das primeiras a ser atingida pelos Cylons e a maior parte dos seus ocupantes tinha morrido debaixo dos escombros. A 1ª Secção tinha sido a menos afectada, tendo saído de lá com apenas dois feridos; a 3ª tinha sofrido quatro baixas. Da 2ª Secção não havia sobrevivente, pois as vigas centrais que suportavam o telhado haviam caído directamente sobre a zona onde os seus membros estavam a dormir. As mesmas vigas tinham ainda morto oito soldados da 4ª Secção. Os únicos sobreviventes eram um condutor e o soldado encarregue das comunicações. - Deixem-se ficar onde estão! - ordenou ele assim que acabou de ouvir os relatórios. Os sobreviventes das suas secções estavam abrigados numa das Oficinas subterrâneas, juntamente com os homens do 3º Pelotão. Os Cylons estavam a ignorar esse alvo, limitando-se a atacar os edifícios mais vulneráveis. - Fui chamado ao Comando...Assim que acabar vou ter convosco. Entendido? Perante as respostas afirmativas, Roger virou-se para os outros oficiais que estavam consigo. Eles tinham decidido que a única maneira que tinham para passar para o outro lado era atravessar a avenida principal a correr e abrigarem-se numa das ruas que corriam entre os edifícios em frente. Depois disso era só uma questão de se manterem encostados às paredes e nas sombras até chegarem ao bunker. As armaduras que usavam ampliavam também a velocidade a que corriam, o que lhes permitia atravessar a avenida em poucos segundos, mas mesmo assim esse foram os segundos mais longos da vida de Roger Veckin. O único som que este ouviu durante a curta travessia foi o do seu coração a bater fortemente. Da sua cabeça não saía a imagem dos Raiders a darem meia-volta e a dispararem sobre as figuras que corriam, mas a verdade é que isso não aconteceu. Os Cylons estavam a bombardear outra parte do quartel e nem sequer se tinham apercebido de nada. Depois daquela primeira experiência, a corrida para o bunker já foi muito menos penosa. A única coisa que assustou os oficiais foi o tempo que tiveram que esperar até que as pesadas portas principais do bunker se abrissem. Assim que estas se fecharam atrás de si, os quatro homens suspiraram de alívio e levantaram as viseiras das suas armaduras, desligando a maior parte dos sistemas destas. Descendo pelo corredor, que estava apenas iluminado com uma série de luzes vermelhas de emergência, aproximaram-se do par de soldados que guardava as portas que davam acesso ao Centro de Comando propriamente dito. Apesar das armaduras não deixarem ver as suas caras, era notório pela sua postura que estavam nervosos. Pelo meio da barricada, improvisada com uma série de secretárias e cadeiras, onde eles se abrigavam, espreitava o cano de uma A-4T Sturmgewehr, a primeira arma pesada de plasma feitas pela Jaschonek, uma das principais fornecedoras de equipamento militar da Aliança Terrestre. Todos os soldados dos vários ramos das Forças Armadas da Aliança Terrestre possuíam implantes subcutâneos que funcionavam como IFF, para além de possuírem uma ficha médica e pessoal do seu utilizador. Os sensores das armaduras dos soldados leram os IFF dos oficiais e identificaram-nos como aliados. Depois de transmitirem essa informação para o Centro de Comando, a segunda porta abriu-se e os oficiais entraram, passando por uma segunda barricada colocada no meio do corredor e ocupada por quatro soldados. - Será que vai haver uma invasão por terra? - murmurou um dos oficiais, ao passarem pelo segundo obstáculo.- Não estou a perceber o porquê de toda esta segurança.... Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa surgiu um Capitão que de imediato lhes ordenou que o seguissem até uma das salas de reunião do Centro. A maior parte dos postos pelos quais eles passaram estavam ocupadas por soldados que se mantinham em contacto constante com o resto do planeta. Pelas expressões deles e pelas comunicações que se ouviam nos altifalantes do Centro, a verdade é que a situação só podia ser má. Como que a provar isso, um soldado chegou junto do Capitão que os escoltava e fazendo continência, entregou-lhe uma folha de papel, voltando de seguida para o seu posto. O Capitão deu uma olhadela à folha e apressou o seu passo, entrando de rompante na sala de reuniões. O Major Yu estava sentado em cima de uma secretária, envergando apenas a parte inferior da sua armadura de combate. O lado esquerdo do seu tronco estava coberto de sangue assim como a ligadura que lhe ocultava a face direita. Um enfermeiro estava ocupado a suturar- lhe uma ferida no ombro esquerdo mas mesmo assim o Major Yu fez continência a Roger e aos outros sobreviventes e deu- lhes a indicação para que se sentassem. - Esteja quieto, Major...- advertiu o enfermeiro com um ar severo.- Assim nunca mais acabo isto... - Há assuntos mais importantes a tratar do que a minha saúde....- retorquiu o Comandante, fazendo depois um sinal para que o Capitão lhe entregasse o relatório. Enquanto Yu lia o relatório, Roger pensava para si mesmo que todas as histórias que se contavam sobre o Major eram realmente verdade. Ele pertencia a uma das poucas famílias Lealistas que tinham abandonado a Cintura na altura em que esta se tinha declarado independente da Aliança. Mal tinha chegado à Terra, havia-se alistado no Exército da Aliança e a partir daí tinha criado uma fama de alguém extremamente duro mas também muito meticuloso. Tinha sido exactamente essa sua característica que lhe tinha trazido problemas. Na última operação que tinha comandado, tinha-se recusado a ordenar um ataque a uma posição rebelde pois não havia informação suficiente sobre as forças inimigas. O General que comandava toda a operação tinha-o afastado de imediato, substituindo-o por um Major que acatou as ordens e que morreu com outros 400 soldados na altura em que os rebeldes utilizaram uma peça oculta de artilharia para dispararem um projéctil nuclear contra o ataque da Aliança. Apesar do Tribunal Militar ter dado razão ao Major Yu e questionado a validade da ordem do General, a verdade é a sua carreira ficou manchada para sempre e o General em questão nunca se esqueceu do assunto, fazendo com que Yu fosse destacado para bem longe da Terra. Tinha sido por causa disso que o Major tinha acabado por se tornar o Segundo Comandante das forças da Aliança em Lavos-304, um planeta que estava no limite da zona de espaço abarcada pela exploração Humana. É claro que ele tinha tido uma sorte imensa porque o verdadeiro Comandante, um Coronel chamado Graham Davey, tinha adoecido subitamente e os médicos do planeta haviam aconselhado que o melhor que havia a fazer era enviá-lo de volta para a Terra. Por esta razão, o Major Yu tinha assumido o comando efectivo das forças militares aí presentes e tinha passado os últimos meses a prepara-las para a guerra que toda a gente pareceria aceitar que estava a aproximar-se. - Esta informação está confirmada? - perguntou o Major, entregando de volta o papel ao Capitão e interrompendo assim as divagações de Roger. - Está sim... Estivemos em contacto directo com as nossas forças na cidade de Asher.... Fazendo sinal para que o enfermeiro se afastasse, o Major pôs-se de pé e accionou o ecrã embutido na parede atrás de si. O mapa aí projectado era semelhante aquele que existia no Centro de Comando e apresentava toda a zona que ia desde da cidade de Asher até ao espaçoporto. Uma série de símbolos vermelhos representavam as forças inimigas e os símbolos azuis as forças Terrestres. Estas últimas apareciam na zona do Quartel e pouco mais. Fora dessa zona, a única concentração que aparecia era na zona da cidade. - Como podem ver, estamos em maus lençóis...- anunciou Yu sem mais nenhum preâmbulo.- Segundos as informações que acabei de receber, a Companhia B foi praticamente dizimada na cidade. Os elementos que restam estão a retirar em direcção à selva que rodeia a cidade. A acompanha-los estão alguns membros da Polícia Planetária... Parando alguns segundos, para que todos os oficiais se apercebessem da gravidade da situação, o Major continuou a falar: - Outra má notícia é que as nossas armas ligeiras são ineficazes contra os Cylons. As armaduras deles são capazes de aguentar um carregador inteiro da AR-34. Os únicos pontos fracos são a zona da cabeça e a parte central do torso... - E as armas de plasma? – interrompeu o Tenente Paulo, que tinha chegado pouco antes de Roger. - Eu ia mesmo agora falar nisso.- disse Yu, embora fosse nítido que não estava a repreender o seu subordinado pela interrupção.- As A-4 são as únicas que conseguem abater os Cylons, mas não as temos em número suficiente. Neste momento, apenas temos uma por pelotão. Antes que pudesse terminar a fase, o Capitão que tinha conduzido Roger e os outros oficiais, irrompeu pela porta, fazendo com que todos olhassem para ele. - Major! Tem que ver isto !! Sem dar tempo para que alguém dissesse algo, ele avançou e começou a manipular o computador da secretária do seu superior enquanto explicava o que tinha acontecido: - Um dos nossos técnicos lembrou-se do sistema de televigilância da Polícia Planetária e assumiu o comando das câmaras deles. Estamos a receber imagens directamente da cidade de Asher! O sistema de que o Capitão falava era uma espécie de equipamento padrão de todas as colónias da Aliança. As câmaras eram utilizadas para quase tudo, desde do controle do tráfego até à prevenção do crime. É claro que quase toda a gente suspeitava que esse sistema tinha também um fim sinistro, sendo utilizado pelo Serviço de Defesa do Estado na sua eterna busca de ameaças aos interesses da Aliança. Mas neste momento, a única coisa que interessava é que iam ter acesso a imagens em directo do que estava a acontecer. - Aqui está! - anunciou ele, acabando de programar o computador para aceitar comandos verbais.- Sector Um! A imagem que surgiu no ecrã da parede não era muito nítida, pois algo estava a arder perto da câmara, lançando espessas cortinas de fumo negro. Só quando uma súbita rajada de vento afastou esse fumo é que os espectadores se aperceberam que estavam a ver a principal avenida da cidade. O Capitão ordenou que a câmara começasse a girar de modo a que pudessem ter um panorama geral da zona e foi nessa altura que a verdadeira extensão dos estragos se tornou nítida. Todos os edifícios que apareciam nas imagens estavam danificados e havia mesmo alguns que estavam completamente destruídos e que se tinham desmoronado sobre os passeios. Espalhados um pouco por toda a parte, viam-se corpos e veículos a arder, incluindo um carro da Polícia Planetária. - Pára! - ordenou o Capitão, na altura em que a câmara passava pela entrada da Biblioteca de Asher, o maior edifício que existia na avenida.- Amplia 100%! A imagem desfocou-se um pouco enquanto que o computador transmitia os comandos e a câmara os acatava, acabando por transmitir uma imagem da entrada e da escadaria da Biblioteca. Uma fila de Cylons estendia-se desde da entrada da mesma até ao meio da rua, passando algo entre eles. - Projecta uma grelha!- disse o oficial, esperando que o computador dividisse a imagem numa série de pequenos quadrados numerados.- Amplia a zona 20! - Estão a tirar livros? - perguntou Yu em voz alta ao ver a imagem ampliada das mãos de alguns Centuriões.- Muda para as outras câmaras, Jack. Quero ver o que eles estão a fazer no resto da cidade... Todas outras câmaras mostravam as mesmas imagens de destruição e de pilhagem. Em quase todos os sectores onde estavam, os Cylons mostravam-se empenhados em recolher os mais variados objectos. - Acho que eles estão a recolher informação sobre nós...- disse Roger em voz alta, chamando a atenção de toda a gente na sala.- Eles andam atrás de livros, computadores...até já vimos alguns a retirar as placas identificativas das ruas... - Eu acho a análise do Tenente correcta! - concordou o Capitão, enquanto manobrava as câmaras para uma nova zona.- O que estamos a ver não passa de um ataque exploratório. Os Cylons podem conhecer os Coloniais, mas a nossa civilização é-lhes desconhecida. - Tenho que concordar com ambos...- admitiu Yu, apontando para o ecrã.- Só assim é que posso explicar o que estamos a ver neste momento. Todos os olhos se fixaram nas imagens de um grupo de cerca de quarenta pessoas que estavam a ser encaminhadas para o porão de um vaivém Cylon. O veículo tinha aterrado no meio de um parque de estacionamento, esmagando uma série de hovercarros e agora esperava pacientemente pela sua carga. Apesar de não haver som, era notório que os Centuriões que acompanhavam os prisioneiros não estavam a dar ordens em Inglês-Padrão, limitando-se em vez disso a espetar as baionetas das suas armas nos Humanos recalcitrantes ou empurrando-os com as coronhas das mesmas na direcção da rampa de embarque. Muitas pessoas estavam nitidamente feridas, mas mesmo assim os Centuriões continuavam a forçá-las a andar. - Pobres diabos. - disse alguém em voz alta, do fundo da sala. - Temos que fazer algo! – acrescentou indignadamente outra voz mas antes que a discussão se pudesse instalar na sala, o Major Yu ordenou que se desligasse o ecrã e virou-se para todos os oficiais presente: - Não podemos fazer nada por eles, meus senhores. O inimigo é-nos claramente superior em combate terrestre e tem o domínio dos céus. Qualquer contra-ataque da nossa parte é inútil e transformar-se-ia rapidamente num banho de sangue... - Mas tem que haver algos que possamos fazer! - interrompeu o Tenente Paulo, pondo-se de pé.- Não podemos ficar aqui parados! Uma série de outras vozes levantaram-se para o apoiar, mas com um simples gesto de mão, Yu mandou-os calar a todos e assim que o silêncio se instalou, continuou a falar, deitando um olhar duro com os seus olhos azuis ao subordinado: - De facto, há algo que podemos fazer, Tenente Paulo...Podemos sobreviver e lutar noutro dia. Lançando o mesmo olhar para todos aqueles que estavam na sala, prosseguiu: - Meus senhores, podem ter a certeza de que este foi apenas o primeiro episódio de uma guerra que eu prevejo que seja longa e sangrenta. Os Coloniais lutaram durante um Milénio antes de serem derrotados. Agora é a nossa vez de lutar contra os Cylons... Vendo que todos estavam a prestar atenção ao que ele estava a dizer, o Major começou então a enunciar quais os passos que se iam tomar de seguida. COLÓNIA DE LAVOS-306, ALIANÇA TERRESTRE “- Líder Azul, daqui fala Vermelho Três. Está à escuta?” Kristiane Lockhart ouviu a voz repetir a mesma mensagens duas vezes, mas só acordou realmente quando o Vermelho Três lançou um assobio estridente. - Daqui Líder Azul, estou à escuta! Estou à escuta...já acordei...- respondeu Kristiane, pegando no rádio que estava no chão lamacento, ao seu lado e colocando na cabeça o capacete que lhe tinha servido de almofada enquanto descansava. “Desculpe lá por insistir, Líder Azul...- disse o se interlocutor, com um tom de voz sincero, o que provocou um sorriso em Kristiane. Se as circunstâncias fossem diferentes, ela gostaria de o conhecer pessoalmente, mas neste caso tinha apenas que se contentar com a voz dele. Sabia que ele era um piloto que tinha ficado sem o seu aparelho e que por isso se tinha oferecido para lutar com as forças terrestres. A Guarda Planetária tinha-lhe dado um rádio e uns binóculos, mandando-o depois para o topo de um edifício, com ordens para avisar sempre que os Cylons se aproximassem do último bastião de resistência em Port Arthur. - Presumo que não me tenha acordado só para me dar os bons dias, Vermelho Três. - gracejou ela, enquanto dava um pequeno pontapé no pé do soldado ao lado dela, acordando-o também e fazendo sinal para que este acordasse os outros ocupantes da trincheira.- Que se passa? “- Tenho movimento Cylon em todas as ruas à minha volta, Líder Azul.”- indicou o piloto, pausando por momentos. ”- Parece que é desta que eles vão fazer o grande ataque...” - Entendido, Vermelho Três...- Sem largar o rádio, ela ergueu-se até ao rebordo da trincheira e pegou nos binóculos que tinha ao pescoço com a mão direita, levando-os aos olhos. A trincheira onde o seu pelotão improvisado estava, tinha sido escavada no cimo de uma das colinas que dominava a estrada de acesso ao estádio de Port Arthur. A bióloga não tinha a certeza, mas podia jurar que tinha sido dali mesmo de onde tinha assistido com Anne ao discurso do Governador Planetário. E isso tinha acontecido apenas há três semanas atrás... “Tive duas semanas de treino militar, cinco horas de combate real e já posso ser considerada uma veterana! Se alguém me dissesse que isso era possível eu dizia-lhe que estava era maluco.”, pensou Kristiane, deixando a focagem automática dos binóculos funcionar. O único acesso que conduzia aquela estrada era um túnel que passava por debaixo de uma auto-estrada. Por sua vez, o acesso ao túnel fazia-se através de uma série de ruas que atravessavam zonas residenciais e de escritórios. O prédio onde o piloto estava era algures nessa última zona e os Cylons estavam a atravessá-la para chegarem ao túnel. - Vermelho Três, já conseguiu contactar mais alguém?- perguntou ela, fazendo um esforço para ignorar os hovercarros destruídos que adornavam a auto-estrada e os corpos carbonizados dos seus ocupantes. Muitas pessoas tinham sido apanhadas enquanto tentavam abandonar a cidade ou tentavam chegar ao abrigo que existia nos subterrâneos do estádio. Era nesse abrigo onde se encontravam cerca de seiscentas pessoas ( a maior parte delas ferida ou sem idade para combater, por serem muito novas ou muito velhas ), mais o que restava do Governo Planetário. Era aí também onde se encontrava Anne Lockhart, o que fazia com que a sua mãe tivesse um interesse pessoal em assegurar que nenhum Cylon passasse por aquela linha de defesa. “-Negativo, Líder Azul.”- respondeu o piloto.”- Para além de vocês, só tenho contacto com o Líder Verde e com o Vermelho Dois. De resto, mais ninguém está a utilizar a Rede de Defesa...” - Entendido.- disse simplesmente Kristiane. O Líder Verde era um Cabo que comandava o que restava de um outro pelotão da Guarda Planetária. As suas forças guarneciam uma outra trincheira, colocada de modo a proteger a entrada do estádio propriamente dita. Essa era também a posição para onde o pelotão dela devia recuar se os Cylons conseguissem atingir a trincheira onde estavam. “- Vou ver se consigo arranjar apoio aéreo, mas não prometo nada, ok?”, acrescentou o Vermelho Três: “- Gostava de vos ajudar mais, mas...” - Obrigado...- murmurou Kristiane, distraída pelo movimento que estava a ver nas ruas do outro lado da auto- estrada. O sol nascente reflectia-se cruelmente nas armaduras das dezenas de Centuriões que avançavam em fileiras cerradas na direcção da entrada do túnel. Baixando os binóculos, virou-se para os soldados que a acompanhavam perscrutando as suas caras. O medo era visível em todas elas, mas também era notório que nenhum deles iria fugir por causa disso. Já não havia nada a perder, pois os Cylons já tinham destruído tudo. - O ataque deve estar a começar...- disse ela, à laia de discurso. Sabia perfeitamente que não ia motivar ninguém com as suas palavras, mas achava que precisava de dizer algo.- Lembrem-se que nós somos a última linha de defesa daquela gente toda que está no Estádio. O outro pelotão está em pior estado que o nosso, por isso.... Não gastem munições, só rajadas curtas e no alvo, ok? Todos os soldados assentiram, retomando depois silenciosamente as suas posições no rebordo da trincheira. Os Cylons estavam a sair do túnel, espalhando-se numa linha de combate, tal como os exércitos da Antiguidade Terrestre faziam. Numa guerra moderna, tal manobra não tinha grande sentido, especialmente porque os tornava em alvos fáceis, mas a verdade é que o efeito era bastante intimidador. - Aquele aviso para gastarmos o mínimo de munições era especialmente para ti, Virgílio...- advertiu em voz baixa, Kristiane. O soldado ao lado dela lançou uma pequena gargalhada, não dizendo mais nada, pois ambos sabiam que só havia mais um carregador de plasma para a A-4T. A arma pesada ainda não tinha sido adoptada pela Guarda Planetária, mas Virgílio Ibanez, tinha retirado uma dos destroços de um transporte de tropas do Exército que tinha sido atingido por Raiders, andando com ela desde então, em vez da arma que lhe tinha sido atribuída pela Guarda, a H&K/Militech PF44, uma espingarda de assalto cujo design tinha quase 200 anos, mas que continuava a ser construída e distribuída a unidades de segunda linha. Quando Ibanez se havia apresentado no Estádio, com a massiva arma ao ombro, houvera algumas manifestações de inveja, entre os outros sobreviventes da Guarda, pois os flechettes da PF44 tinham-se revelado extremamente ineficazes contra os Cylons. A própria Kristiane tinha comprovado isso durante a emboscada que tinha morto a maior parte do seu pelotão. Apenas ela e dois outros soldados haviam escapado com vida do combate que durara cerca de 10 minutos. Sem nenhum tipo de armadura que parasse os tiros dos Cylons, os dez elementos da 2ª secção, 1º Pelotão do 1º Batalhão do Regimento de New Hope, tinham sido os primeiros a morrer, pois eram eles a vanguarda da coluna que se dirigia para apoiar o que restava do 4º Regimento, 36ª Divisão do Exército da Aliança. A estratégia dos Cylons tinha sido simples: depois de terem o controlo total dos céus da colónia, haviam bombardeado os principais centros habitacionais e as principais instalações militares, que no caso de New Hope eram os quartéis onde as tropas vindas da Terra se estavam a instalar e os arsenais onde a Guarda Planetária armazenava o seu equipamento. A seguir a isto, tinha-se dado um ataque terrestre. Os Cylons haviam aterrado e avançado na direcção das cidades, procurando os locais onde havia mais sobreviventes, capturando alguns e abatendo o outros. Quando o Exército contra-atacara, os Raiders haviam voltado, coordenando os seus bombardeamentos com os ataques por terra dos Centuriões, acabando por cercar os soldados Terrestres no que restava da zona industrial de Haven. Tudo isso tinha acontecido nas primeiras horas da invasão. Quando o Regimento de New Haven da Guarda Planetária se tinha finalmente organizado, tinha sido ordenado a todas as unidades que atacassem de imediato uma enorme formação de Centuriões que se estava a preparar para dizimar os sobreviventes do 4º Regimento. Enquanto avançara pelas ruas de Haven, Krisitiane Lockart não se conseguira concentrar em nada. A convocatória do Comando Central da Guarda, transmitida em todos os canais, tinha feito com que a sempre vigilante I.A. da sua casa a acordasse de imediato. Ela só tivera tempo de pegar no seu equipamento, acordar Anne e mandá-la para a casa dos vizinhos antes de se apresentar no que restava do Arsenal da sua área. O subúrbio onde viviam ainda não tinha sido muito atingido e por isso todos os membros do pelotão ao qual pertencia tinham aparecido, começando de imediato a organizar-se por secções. Apesar do edifício em si estar destruído, os bunkers subterrâneos onde as munições e as armas pesadas estavam armazenadas não tinham sido atingidos, o que lhes tinha dado algum alento. “Como nós estávamos enganado...”, pensou ela, enquanto encostava ainda mais a arma ao ombro e se concentrava na mira, tentando afastar do pensamento o que se tinha passado durante aquele massacre, mas não conseguindo evitar um calafrio. Sem que esperasse, sentiu uma mão pesada apertar-lhe levemente o ombro esquerdo, como que a confortar. - Não penses nisso agora. Precisamos de ti! - murmurou Ibanez, sem virar sequer a cabeça , enquanto mantinha a sua arma apoiada no rebordo da trincheira. Antes que ela pudesse responder, ele retirou a mão e agarrou a A-4T e lançou uma longa rajada, enquanto berrava: - Abram fogo!! A ordem repetiu-se por toda a trincheira e rapidamente o ar ficou cheio com o zumbido das PF44, fazendo jús a sua alcunha de “Abelha”. Kristiane olhou pela mira e ficou espantada pois os Cylons estavam muito mais perto do que ela esperava. No meio da linha que avançava sobre a trincheira, podiam-se ver alguns Centuriões caídos cujas armaduras ainda fumegavam, vítimas dos disparos de Virgílio. Mas esses 4 Cylons eram as únicas baixas que eles haviam sofrido até aquele momento. Todos os outros Centuriões atingidos pelas armas de flechettes continuavam a avançar metodicamente, sem abrir fogo. Por experiência própria, ela sabia que essa situação não iria durar muito mais tempo. Os Cylons apenas disparavam quando tinham a certeza de que iam atingir os seus alvos. - Concentrem o vosso fogo!! Atinjam aqueles que já estão danificados! - ordenou ela por cima do barulho das armas.- Passem a palavra!! Para exemplificar o que pretendia, deu uma palmada no capacete do soldado que estava no seu lado direito para lhe chamar a atenção e de seguida apontou para um Cylon que estava directamente à frente da posição deles e que já apresentava uma série de amolgadelas na sua armadura peitoral. Com uma calma deliberada, fez pontaria a essa zona e disparou uma primeira rajada curta. Apesar de maior parte dos tiros não terem penetrado, a verdade é que o Centurião havia cambaleado. O soldado rapidamente percebeu o que lhe tinha sido indicado e juntou o seu fogo ao de Krisitiane. “Talvez ainda haja alguma esperança!”, pensou ela quando o Cylon finalmente caiu e não se levantou mais. Embora soubesse que se estava a tentar enganar a si mesma, não podia tomar outra atitude. Desistir agora, seria o fim de tudo e os seus pensamentos dirigiram-se momentaneamente para todos os civis que se abrigavam no bunker. Um pouco por toda a trincheira os soldados tinham seguido o seu exemplo e, aos pares, concentravam os seus tiros em partes específicas dos mesmos alvos. O único que não se dava a esse trabalho era Virgílio, cuja arma conseguia perfurar um Cylon de um lado ao outro. Pelo menos enquanto a sua A- 4T tivesse munições... Parecendo novamente adivinhar os seus pensamentos, ele virou-se para Krisitiane e anunciou: - Já só tenho carga para mais dez tiros... Antes que ela pudesse responder, os Cylons abriram fogo e os primeiros gritos de dor começaram a fazer-se ouvir. Nessa altura, Kristiane Lockhart, deixou de se tentar enganar a si própria e admitiu que tudo estava perdido. Os alienígenas iam ganhar aquela batalha e só um milagre é que os poderia salvar. - Continua - (apenas lixo abaixo)