Nota: Isto é uma obra de ficção, escrita puramente por divertimento. Não existe intenção alguma de violar qualquer direito de autor. Não recebi qualquer dinheiro por esta obra. ---------------------------------------------------------------- Baseado em: Battlestar Galactica Criado por: Glen A. Larson História por: R.V. (possidonio24@hotmail.com) ---------------------------------------------------------------- "O Principio do Fim" - Parte 2 - CAPÍTULO 1 - Do diário de Apollo: Passou-se exactamente um yahren desde que entramos em contacto com os nossos irmãos perdidos. Chamo-lhes "irmãos perdidos" pois já está provado que eles são os descendentes da 13ª Tribo, embora não tenham nenhuma memória racial disso. Uma das maiores provas dessa descendência encontra-se na própria Terra, no meio de um deserto, local onde podemos encontrar um conjunto arquitectónico que é uma cópia exacta da principal cidade de Kobol. Quem construiu essas pirâmides na Terra quis, de certeza, deixar uma mensagem nítida a outros descendentes de Kobol. Infelizmente não podemos fazer uma investigação completa a essas ruínas pois toda aquela zona ( que antigamente era um país chamado Egipto ) está contaminada por radiação resultante de uma guerra que devastou toda essa região. Este último ponto é algo que me perturba profundamente e que apenas me atrevo a partilhar com Sheba e com este diário. Os Terrestres parecem estar constantemente envolvidos em guerras fratricidas! Eu passei vários sectons a analisar a história da Terra e fiquei chocado. Isto pode parecer um pouco irónico, especialmente dito por mim que sempre fui um Guerreiro, descendente de uma família de Guerreiros, mas é a simples verdade. Nunca nas histórias das Colónias nos surgiram homens como Hitler ou Estaline, ditadores responsáveis por milhões de mortes, ou como William Gates ou Qeu Cha, homens que foram eleitos pelos seus concidadãos e que acabaram por levar os seus países para a guerra por motivos fúteis. É claro que também houve homens desse calibre nas Colónias ( o primeiro exemplo que me vem à cabeça é do traidor Baltar ) e rivalidades entre estas últimas, mas sempre tentamos resolver tudo pacificamente. A resposta dos Terrestres para qualquer problema é a guerra. Isso aconteceu quando as colónias no seu sistema natal exigiram a independência e em muitas outras ocasiões. A violência é algo comum entre eles, como se pode ver ao assistir aos seus serviços informativos: os motins, os assaltos, os ataques terroristas e coisas do género são normais. É claro que a maior parte das pessoas da Frota não se apercebe disso. Todas estão contentes porque os nossos irmãos Terrestres nos deram um planeta para nos estabelecermos e estão a ajudar-nos a preparar uma defesa para quando os Cylons regressarem. Tenho a certeza que os Cylons não vão deixar de nos perseguir. Estou sempre à espera de ser informado que eles ultrapassaram a cintura de asteróides e invadiram o espaço terrestre. A Marinha Terrestre está em alerta constante e parece até ansiar esse confronto. As reuniões são constantes e ainda hoje vou ter uma, visto que ainda sou o Comandante da Frota Colonial. Digo que "ainda sou" porque assim que o meu pai foi operado e começou a sua recuperação, eu tive uma conversa com ele sobre o Comando da Frota e, para meu espanto, ele pós de lado a ideia de regressar a essas funções. Segundo ele a Galactica estava bem entregue a mim e o Concílio dos Doze estava igualmente bem entregue a Athena. "Esta na altura deste velho Guerreiro descansar....."- disse-me ele, acrescentando que a Frota já não precisava do seu Comando pois já tinha feito aquilo que tinha prometido e havia-os guiado até à Terra. Além do mais, a Marinha Terrestre tinha-lhe pedido ajuda para investigar uma série de artefactos de origem desconhecida que talvez fossem vestígios dos nossos antepassados. Perante a sua determinação eu não insisti mais e nem sequer partilhei com ele a minha desconfiança em relação a estes "irmãos perdidos". Talvez lhe conte quando ele regressar de Plutão....... COLÓNIA DE STORM, UNIÃO DAS NAÇÕES MARCIANAS Se havia dias em que tudo corria mal, este era um deles. Primeiro, uma das turbinas do hovercarro tinha-se avariado, fazendo com que Richard chegasse atrasado ao local onde era suposto estar. Agora, era o seu contacto que demorava a comunicar. Todo o plano deles estava dependente de um simples aviso que, pelos vistos, estava a ser difícil. Na altura em que Richard ponderava se devia ou não suspender a operação, o vídeo-fone instalado no tablier da sua viatura começou a tocar. Rapidamente ele ligou-o, tendo primeiro o cuidado de verificar se o descodificador da linha estava em funcionamento. No pequeno ecrã do aparelho, apareceu a cara do seu contacto, um homem com o cabelo escuro comprido, amarrado para trás num rabo de cavalo e uma barba negra cerrada. Por trás dele, via-se a azáfama de um pequeno bar que este tinha utilizado como local de vigia, durante a maior parte da operação. - O que aconteceu, Mark?- perguntou de imediato Richard, não lhe dando tempo sequer de emitir uma palavra.- Devias ter-me contactado à 10 minutos atrás. - A culpa não foi minha! Ele hoje saiu mais tarde.- murmurou Mark. Felizmente para ele, o aparelho de comunicações que estava a usar filtrava todo o barulho de fundo e permitia ao seu utilizador falar de uma maneira discreta. - Saiu mais tarde como? Já o seguimos há mais de1 mês e não houve um único dia em que ele não saísse a horas. - Sei lá o que é que aconteceu. Só sei que ele acabou de sair do prédio à momentos.- disse o outro, pondo um ar enervado. A missão deles ali estava a dar cabo dos nervos a todos os membros da equipa. - Tudo bem!- disse Richard, suspirando de frustração com toda aquela situação.- Temos de avançar já. O esquema de segurança é o mesmo? - Sim. Dois seguranças atrás dele, mais um à frente.- respondeu Mark, espreitando, através da montra do estabelecimento, para a rua em frente, no momento em que o alvo se misturava com o resto da multidão que a enchia. Acenando com a cabeça, Richard disse para o seu subordinado: - Ok, vamos avançar! - Entendido. Com estas palavras, Mark desligou o seu vídeo-fone portátil e levantou-se da mesa onde estava, deixando algumas notas e moedas para pagar a despesa que tinha feito. Ao chegar ao passeio, levantou a gola do seu casaco, numa vã tentativa de se abrigar da chuva e do vento que fustigavam aquela massa humana que por ali circulava. Misturando-se no meio dela, seguiu sem dificuldade o vulto maciço dos três guarda-costas do alvo. O mau tempo, que tinha dado à colónia o nome de Storm, tinha acabado de se tornar um factor secundário. A alguns quarteirões dali, Richard tinha desligado o seu vídeo-fone após mandar um sinal às outras unidades para iniciarem a primeira fase do plano. Da rua lateral em que estava, tinha uma visão sem limitações para a avenida principal da cidade. O campo electromagnético dos vidros da viatura afastava todas as gotas da chuva que aí caíam, não obstruindo essa vista. Sem tirar os olhos dos transeuntes, procurou o pequeno emissor que tinha no bolso superior do seu sobretudo e activou-o por duas vezes. Passados alguns segundos, recebeu outros dois sinais, logo seguidos por outros dois. Acabava de ser informado que os outros dois membros da sua equipa estavam nas suas posições. Pelo menos essa parte do plano estava a dar certa, pensou ele para si mesmo. Ele sabia que todos os planos deviam abranger as várias contingências que podiam surgir no decorrer de uma missão."- Esperem o inesperado!", dizia um dos seus instrutores militares na extinta base de Marte. Como que a fazer jus a esse aviso, Richard retirou a sua pistola de flechettes do coldre e, destravando-a, pousou-a no assento ao seu lado. De seguida voltou a sua atenção para a avenida, acabando por avistar o alvo a virar para a rua onde os seus homens lhe tinham preparado uma armadilha. Hugo Martinez era um homem feliz. A sua vida estava totalmente encaminhada para o sucesso. Tinha uma bela mulher que o amava ( ou que pelo menos lhe dava o amor que a sua verdadeira mulher nunca lhe tinha dado ) e um negócio que estava a dar um lucro enorme. O facto desse negócio ser extremamente ilegal e envolver o tráfico de armas e de pessoas entre colónias não o afectava minimamente. "- O dinheiro compra tudo!"- esta verdade da vida tinha-lhe sido revelada pelo pai e ao longo dos anos tinha-se provado correcta. Aos 18 anos, Hugo tinha pegado em todas as economias que tinha poupado e contratado dois homens para assassinar os seus pais e assim assumir o controle da empresa da família. Com o dinheiro que passara a ser só seu, tinha, numa primeira fase, contratado outros dois homens para matar e incriminar os outros assassinos e assim afastar todas as suspeitas sobre si. Depois, ele próprio tinha morto esses dois e esse assunto ficara por aí. Com a sua fortuna havia comprado três naves de passageiros e equipado duas delas com uma série de compartimentos secretos onde levar contrabando de toda a espécie. Aos 25 anos tinha já dez naves e a sua companhia estava implantada em cinco colónias. Aos 35 anos as naves eram já vinte e cinco e agora, aos 45 anos tinha cerca de quarenta naves e era dono de uma pequena colónia em expansão. "- E se tudo correr bem, ainda posso enriquecer mais........."- pensou ele, consultando de novo a informação que tinha armazenado no seu nanocomputador e que lhe tinha sido transmitida por um dos passageiros clandestinos que uma das suas naves havia transportado até um local seguro. Era tudo uma questão de aplicar uma pequena chantagem aqui e ali e ver o que resultava disso......... Martinez ia tão absorto a pensar nos lucros que poderia obter com tudo aquilo que nem reparou que o seu segurança havia parado mesmo à sua frente e embateu nele. No momento em que ia perguntar o que se passava, a parede do prédio do seu lado direito pareceu ganhar vida. O segurança chamava-se Jarod Lehto e, até à pouco mais de três anos atrás, havia sido um Fuzileiro da Marinha Terrestre, pertencendo às Forças de Reconhecimento. Infelizmente o seu gosto pela bebida e pelo uso de implantes cibernéticos ilegais não era compatível com a carreira militar e assim ele acabou por voltar a ser um civil. É claro que com as modificações que havia sofrido era difícil arranjar um emprego normal. Quem é que queria um empregado com cerca de dois metros, que pesava cento e vinte quilos, e cuja especialidade era matar seres humanos de várias maneiras? É claro que Hugo Martinez o tinha acolhido de braços abertos e, aos poucos, Jarod tinha-se tornado no seu chefe de segurança. Ele nunca gostara daquelas pequenas "escapadelas" semanais que o seu patrão dava, pois estavam numa zona estranha de uma colónia que não controlavam. Seria extremamente fácil para um rival de negócios montar uma armadilha....... Era por causa disso que Jarod Letho estava com todos os seus sentidos em alerta. Ele só iria sentir-se menos nervoso na altura em que entrassem para o hovercarro que os levaria para o espaçoporto. Apesar de estar atento não conseguiu evitar dar um salto quando ouviu uma voz vinda da sua direita: - Ei tu!! Ao ouvir estas palavras começou a girar nessa direcção, activando os seus implantes cibernéticos de combate e levando a mão à espingarda de assalto que trazia escondida debaixo da gabardina. A última coisa que viu foi a parede à sua frente mexer-se, destacando-se dela uma mão que segurava uma pistola de flechettes. Com um ruído mínimo a arma disparou e a cabeça de Jarod Letho explodiu. Quando o seu segurança caiu, Hugo Martinez viu surgir da parede uma forma humana. Era extremamente difícil perceber-se mais pormenores porque o indivíduo estava a utilizar algo que reflectia perfeitamente tudo aquilo que o rodeava. "- É um Camaleão!!!!", pensou ele de imediato. Há muitos anos que circulavam rumores sobre a existência de uma série de armaduras de combate equipadas com um sistema de camuflagem activo, sistema esse que tornava o seu utilizador praticamente invisível. Essas armaduras de combate estariam apenas a ser atribuídas a certas unidades de elite das Forças de Defesa Terrestres e, apesar das recompensas oferecidas, ainda ninguém ligado ao mundo do crime tinha conseguido arranjar uma delas. - Eles estão camuflados!!- berrou ele, virando-se para trás, mas a única resposta que teve foi o corpo de um dos seguranças a cair no pavimento enquanto que um segundo Camaleão se destacava das sombras da parede esquerda onde tinha estado escondido. O último segurança ainda conseguiu sacar da sua metralhadora antes de um tiro disparado por Mark lhe arrancar a cabeça dos ombros. Mark também não conseguia ver os seus dois companheiros de missão, mas a verdade é que os corpos dos dois seguranças mortos provavam que eles estavam ali. Além do mais, quando ele tinha abatido o terceiro segurança Hugo Martinez tinha parecido fraquejar das pernas e começado a ajoelhar-se, mas os outros dois homens tinham-no segurado e endireitado. "- Estas armaduras são mesmo boas........"- pensou ele para si mesmo ao aproximar-se do contrabandista que continuava a debater-se futilmente contra os seus captores invisíveis. Estava a menos de um metro de distância e ainda não conseguia distinguir nada mais do que uma forma humana e mesmo assim só o fazia quando o homem se mexia. - Eu pago o que for preciso para me deixarem fugir!!!!- começou Hugo a balbuciar assim que Mark parou à sua frente. - Eu tenho uma fortuna imensa!!!!!! Eu posso tornar-vos ricos!!!! O assassino olhou-o nos olhos, não se dignando a responder. Já tinha ouvido uma série de propostas iguais e nunca se sentira minimamente tentado por elas e também não era agora que ia começar. Levantando a arma que tinha na mão esquerda, apontou-a ao peito de Hugo Martinez e premiu o gatilho. O corpo do contrabandista estremeceu todo e este arregalou imenso os olhos, parecendo estar estupefacto por Mark não ter aceite a sua oferta. Os dois homens que seguravam Hugo, inclinaram o corpo deste para a frente de forma a que Mark pudesse ter acesso ao implante que o contrabandista tinha na base do cráneo. Tirando a tampa plástica que protegia e disfarçava o dito implante, o assassino inseriu ai um pequeno aparelho que tinha tirado do bolso da sua gabardina. Enquanto esperava que este terminasse o seu trabalho, Mark fitou o que restava das costas de Hugo. Os dardo metálicos disparados pela sua arma eram do tipo que deixavam pouco sinais ao entrar, mas ao sair faziam exactamente o contrário, desfazendo tudo o que encontravam pela frente. O pequeno sinal emitido pelo aparelho fez com que Mark desviasse a atenção do corpo. O aparelho era conhecido como um "aspirador de dados" e tinha como principal função recolher toda a informação contida num nanocomputador pessoal. Verificando que estava cheio, Mark desligou-o e meteu-o de novo no bolso. Com um sinal de cabeça, ordenou aos seus companheiros invisíveis para que largassem o corpo, coisa que eles fizeram prontamente. Acedendo ao seu nanocomputador, mandou um sinal a dizer que a missão tinha sido um sucesso e, após receber a confirmação de que a sua mensagem tinha sido recebida, encaminhou-se na direcção da avenida, enquanto que os outros dois homens seguiram na direcção contrária, permanecendo nas sombras. Após receber a mensagem de Mark, Richard tinha accionado a segunda parte da missão. O alvo era a ocupante de um pequeno apartamento existente na avenida principal. A mulher não tinha feito nada de especial, excepto ser a amante de Hugo Martinez e eles não podiam correr o risco de o contrabandista lhe ter contado algo. Era por causa disso que a mulher tinha de morrer. Dois grupo de dois homens tinham sido destacados para a abater. Equipados com os fatos de combate Mark XXI "Intruder", eles eram totalmente invisíveis, mas mesmo assim tinham feito a infiltração no prédio com o máximo de cuidado. A primeira equipa tinha entrado pela porta principal do prédio, que estava sempre aberta, numa altura em que ninguém estava a passar na rua, enquanto que a segunda equipa tinha subido pela escada de emergência das traseiras do prédio, estando agora posicionada junto da janela da cozinha do apartamento. "Ok, vamos avançar.....", ordenou o comandante da primeira equipa assim que recebeu a mensagem de Richard. O comandante da segunda equipa estava a fazer a mesma coisa no outro lado do prédio e os ajudantes de ambos colocaram de imediato cargas explosivas nos pontos de entrada. "Odeio esta parte......", pensou o ex-oficial do Exército da Aliança, quando o seu companheiro lhe fez sinal de que a carga colocada na porta do apartamento estava pronta a explodir. Os dois homens afastaram-se rapidamente da dita porta e passados alguns segundos esta explodiu para dentro do apartamento, levando com ela um pequeno armário que estava colocado à entrada do apartamento. O barulho da explosão tinha sido mínimo, devido ao tipo e quantidade de explosivos utilizados, mas o barulho que o móvel tinha feito ao cair certamente que ia alertar alguém. "A Equipa Dois já entrou", ouviu ele na sua mente, enquanto que entrava no apartamento, saltando por cima do móvel caído e virando-se para a esquerda. "A Equipa Um também", subvocalizou ele, sentindo o seu companheiro a ultrapassá-lo e a colocar-se ao seu lado direito. Os seus sensores detectaram a segunda equipa a avançar vinda da direcção da cozinha e a colocar-se no lado direito da porta que dava acesso ao quarto principal. Tal como estava planeado, ele avançou na direcção da porta e abriu-a de rompante. A segunda equipa avançou pelo seu lado direito e abriu fogo com as espingardas de flechettes, percorrendo todo o quarto com as rajadas. O seu companheiro avançou pelo lado esquerdo e fez a mesma coisa. Os tiros dos homens concentraram-se momentaneamente na forma que se via na cama. Foi nessa altura que o homem se apercebeu de que algo estava errado. Não havia nenhuma fonte de calor na cama! "Ela não está aqui!!!", berrou ele para a mente dos outros soldados, "Cessar fogo!" Os outros obedeceram rapidamente e o comandante da segunda equipa murmurou mentalmente: "Nós estamos a vigiar o apartamento desde que o homem saiu......" "Vocês viram a casa-de-banho?" "Sim, estava vazia....." Foi nessa altura que o comandante da primeira equipa sentiu que estava a ser observado e olhou para o tecto do quarto. O que viu deixou-o de boca aberta. Havia uma fonte de calor no tecto. Com um comando mental, ordenou à sua armadura que mudasse para a visão de intensificação nocturna. O quarto ficou banhado numa claridade de cor verde, à medida que os seus sensores visuais começaram a aproveitar toda a luz que entrava por uma das janelas. Foi assim que viu claramente a mulher que estava no tecto, de braços abertos como que crucificada. Na altura em que ia dar o alarme, viu-a virar a cabeça na sua direcção e, logo de seguida, saltar. O comandante da segunda equipa de assalto ia começar a perguntar o que se passava, quando se apercebeu de uma forma humana a cair do tecto directamente em cima do outro comandante. Com um estrondo, os dois caíram para trás, para o meio do corredor. Girando nessa direcção viu nitidamente o contorno de uma mulher, embora não pudesse ver a forma do outro soldado porque a armadura deste bloqueava completamente qualquer emissão de calor Erguendo a sua espingarda, avançou na direcção da mulher com a intenção de lhe dar com a coronha e de a afastar do outro homem. Na altura em que começou a baixar a coronha na direcção da mulher, esta virou-se para trás e com um rápido movimento de mão afastou a espingarda com tal força que o fez desequilibrar e cair ao chão. Ao tocar no chão girou sobre o seu ombro direito e sobre si mesmo e com uma pequena cambalhota ficou de novo em pé e virado novamente na direcção da mulher. Esta última levantou os dois punhos sobre a cabeça e de seguida deixou-os cair na direcção do homem que devia estar por debaixo dela. Ouviu-se o barulho de carne a bater em metal e o homem atingido deixou escapar um grito de dor. A mulher voltou a levantar as mãos repetir a manobra, com os mesmos resultados. Nessa altura, um dos soldados que ainda estava no quarto pontapeou com toda a força as costas da mulher, desalojando-a de cima do homem e projectando-a de encontro a uma parede. - Vou ligar as luzes!!- disse em voz alta o soldado que ainda estava no quarto e assim fez, accionado o interruptor que existia na parede deste. O corredor ficou imediatamente mergulhado em luz e todos puderam ver a mulher com toda a nitidez. Ela era alta e utilizava seu longo cabelo louro amarrado num rabo de cavalo que lhe caia pelas costas abaixo. Estava vestida com uma espécie de toga branca que pouco conseguia esconder o belo corpo que existia por baixo. - Morre cabra!!!!- berrou o homem que ela tinha atacado, empunhado a sua espingarda com a mão direita e disparando. A rajada de flechettes apanhou a mulher em cheio à altura da cintura e praticamente cortou-a a meio. Sem uma palavra a mulher caiu ao chão, deixando um rasto de sangue na parede atrás de si. O comandante da segunda equipa encaminhou-se para a forma do outro comandante e, desligando o sistema de camuflagem, estendeu a mão ao outro homem para o ajudar a levantar. Este agarrou a mão que lhe era oferecida e levantou-se pesadamente. Por incrível que parecesse a mulher tinha causado estragos à sua armadura e esta estava sempre a variar entre o modo visível e o invisível. - Vamos embora daqui.......- arfejou ele assim que se levantou. Uma dor forte marcava os locais onde a mulher lhe tinha acertado. Levando as mãos à placa peitoral da armadura notou que esta estava amassada, o que era muito esquisito pois aquelas armaduras supostamente eram capazes de parar todo o tipo de projécteis, excepto os de armas pesadas. - A tua armadura devia estar defeituosa........- murmurou o comandante da segunda equipa, vendo as ditas amassadelas: - Ainda bem que descobriste isto agora e não numa missão a sério...... - Eu não sou uma missão a sério???- ouviram eles uma voz feminina a dizer. Estupefactos, os dois homens olharam na direcção do corpo da mulher. Esta estava a levantar-se, tapando com a mão a enorme ferida que adornava a sua barriga e que manchava a sua toga de vermelho. Se os dois homens estavam espantados demais para reagir, o soldado da segunda equipa não estava e soltou uma rajada da sua espingarda na direcção da cabeça da mulher. Os flechettes acertaram de raspão nela, arrancando-lhe a parte esquerda da testa e do cabelo e manchado novamente a parede de sangue. A mulher cambaleou para trás mas endireitou-se rapidamente e, numa assombrosa aceleração, aproximou-se do soldado que tinha disparado e, apesar deste estar invisível, arrancou-lhe a espingarda das mãos. O comandante da segunda equipe rodou sobre si mesmo para a esquerda e disparou uma rajada para a mulher que se encontrava a pouco menos de um metro de si. Os tiros praticamente desfizeram os braços da mulher e fizeram explodir a espingarda que ela tinha nas mãos. Apesar das horrendas feridas, a mulher esticou os braços e agarrou o soldado que agora estava desarmado e atirou-o na direcção do seu comandante, caindo os dois com o impacto. O comandante da primeira equipe levantou a sua arma para disparar mas antes que o pudesse fazer, a mulher atingiu-o em cheio com um soco na placa peitoral da armadura. O homem arfou de dor ao mesmo tempo que os sistemas da armadura o informavam de que esta tinha sofrido uma brecha. "Isto não pode ser verdade......nem que ela tenha implantes cibernéticos......."- pensou ele, levando a mão à zona atingida. A força necessária para fazer aquele tipo de estragos era sobre-humana...... Antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, sentiu a sua espingarda ser-lhe arrancada das mãos. Levantando a cabeça, viu a mulher a segurar nela, apontando-a directamente ao seu peito. - Com que então sou uma cabra.......- disse ela, esboçando um sorriso e espetando o cano da espingarda no buraco da armadura e continuando a fazer força até ao momento em que a espingarda saiu pelas costas do homem e espetou-se na parede. - Meu Deus!!!!- berrou o soldado da primeira equipa ao ver o seu comandante praticamente empalado na parede. Sem pensar duas vezes abriu fogo contra a mulher, que estava de costas para ele, e os seus tiros fizeram com que ela caísse para a frente. - Isto começa a tornar-se repetitivo......- berrou ela, com uma voz cheia de dor. O soldado estava paralisado de medo e continuou com o dedo no gatilho, acabando por disparar o carregador inteiro nas costas da mulher. O comandante da segunda equipa, que já se tinha levantado, juntou-se a ele e também descarregou o seu carregador contra a forma agora inerte da mulher. - Basta!!- acabou ele por berrar, na altura em a mulher já não parecia nada mais do que um pedaço de carne ensanguentado. A própria túnica já não passava de pequenos pedaços de pano que outrora já haviam sido brancos. - Temos que sair daqui.......- berrou o soldado da segunda equipa, passando por cima dos corpos na direcção da cozinha e da janela que dava para a escada da emergência. Na altura em que passava por cima do corpo da mulher esta virou-se de barriga para o ar e levantou-se, pegando no soldado, por debaixo dos braços, com a maior das facilidades. - Com que então queres sair........- Com estas palavras atirou-o pelo ar ao longo do corredor e ele foi a voar a toda a velocidade pela janela da cozinha fora. - Merda!!!- foi a única coisa que o comandante disse, enquanto inseria mais um carregador na sua espingarda e via a mulher a encaminhar-se na sua direcção. O soldado nem sequer tentou fazer isso e pura e simplesmente tomou impulso e atirou-se contra a janela do quarto, esperando que a sua armadura aguentasse uma queda de um quarto andar. - Pelos vistos somos só nós dois.........- disse a mulher, olhando para o comandante, que tinha acabado de carregar a arma. "Isto é um pesadelo........Tem de ser um pesadelo....."- pensou ele, levantando a espingarda na direcção dela, enquanto que a os servomotores da sua armadura tentavam compensar os tremores os percorriam e manter a mira em cheio na cara da mulher. - Não fazes a mínima ideia do que é um pesadelo......- disse ela, lendo os seus pensamentos e avançando para ele com uma rapidez extraordinária: - Deixa-me mostrar-te o que é um pesadelo....... Perante o ataque, o nanocomputador do comandante carregou uma série de programas de combate e acelerou os reflexos dele, enchendo-o com uma dose de adrenalina artificial e tomando conta dos seus centros motores. Empunhando a arma com as duas mãos, o comandante foi deflectindo os vários golpes que a mulher lançava na sua direcção. Os programas estavam a ter uma dificuldade imensa em acompanhar a velocidade da mulher e a força desta. Ao mesmo tempo, o homem estava a ficar cada vez mais cansado e, aos poucos, começou a recuar. Com um estrondo, a espingarda acabou por explodir nas suas mãos, sucumbindo aos sucessivos golpes. Apesar das luvas da armadura lhe terem dado alguma protecção, uma onda de dor atingiu-o, até à altura em que o nanocomputador obrigou o cérebro a "desligar" essa mesma dor. Apesar de todos os programas de defesa pessoal continuarem a funcionar e o comandante estar a deflectir a maior parte dos golpes com um série de contragolpes, a verdade é que a mulher começou a atingi-lo em cheio na armadura. Passados alguns segundos daquele "tratamento", os sistemas internos da armadura começaram a diagnosticar uma série de falhas e de perdas de integridade. À medida que isto ia acontecendo a mulher ia sorrindo cada vez mais, como que se soubesse que aquela batalha já estava ganha. Mergulhado em dor, o comandante apercebeu-se de que tudo estava perdido e, na altura em um dos socos da mulher praticamente lhe arrancou o capacete da cabeça, accionou a sua última arma....... Richard sabia que algo tinha corrido mal. As duas equipas já deviam ter comunicado, pois a missão de que estavam encarregues era simples. Baixando-se um pouco no seu assento, espreitou através do vidro do hovercarro na direcção do prédio onde vivia o alvo, tentando distinguir alguma coisa no meio da intensa chuva que tinha recomeçado a cair. Foi nessa altura que essa parte do prédio explodiu violentamente, numa explosão de luz que iluminou todas as redondezas. Na altura em que o som da explosão chegou até Richard, uma chuva de destroços começou a cair nas ruas enquanto que um violento incêndio deflagrou no que restava do último andar do prédio. O trânsito que passava na avenida em frente do prédio parou e uma série de transeuntes começou a apinhar-se junto da entrada do edifício, olhando para cima. "- Está na altura de me ir embora......"- pensou Richard de imediato. Um dos dois comandantes tinha utilizado o dispositivo de autodestruição da armadura. Isso era um sinal claro de que a missão tinha falhado e ele tinha de sair dali rapidamente antes que as autoridades da colónia chegassem e que aquela zona ficasse cheia de jornalistas. Passando o indicador direito sobre o sensor que existia ao lado do volante, ligou o hovercarro e meteu a marcha-atrás, para sair pelas traseiras do beco onde estava. Ao virar a cabeça para trás de forma a manobrar, pressentiu movimento à sua frente. Tirando os pés dos pedais, virou-se lentamente nessa direcção, tendo o cuidado de deixar as mãos no volante. A figura avançou, tendo no entanto o cuidado de se manter nas sombras do beco. Richard deu uma ordem mental ao seu nanocomputador e este entrou em contacto com o computador do veículo e os faróis deste último ligaram-se. A figura foi atingida em cheio pelos dos focos de luz e Richard, apesar de não se considerar alguém facilmente impressionável, engoliu em seco e sentiu um suor frio a invadir-lhe o corpo perante o que estava a ver. O que tinha pela frente era um autêntico monstro, um monte de pele queimada que cobria parcialmente um esqueleto, esqueleto esse que avançava com determinação na sua direcção. Sem hesitação, ele voltou a pressionar os pedais do hovercarro e este retomou a sua marcha. Perante isto, a criatura cadavérica começou a correr e, com um poderoso salto, encurtou a distância e caiu em cima do capot do veículo. Levantando uma das suas mãos, a criatura mandou um soco no pára-brisas e este estilhaçou-se, enchendo Richard com uma chuva de fragmentos de vidro. Agarrando uma das bordas da abertura no pára-brisas, a criatura começou a arrastar-se até estar com a cara mesmo junto dele. Um cheiro a carne queimada encheu o interior do hovercarro e Richard encolheu-se no banco. Pela primeira vez na sua vida estava cheio de medo, mas mesmo assim conseguiu arranjar coragem para olhar de frente a criatura. Foi nessa altura que ela falou: - Porque é que me mandaram matar?- perguntou ela, com uma voz que era perfeitamente nítida apesar de estar a sair de dois lábios que não eram mais do que pedaços de carne queimada e de uma garganta que não existia. Richard apercebeu-se de todos esses detalhes e até do facto de que, apesar daquela cabeça ser pouco mais do que uma caveira, a criatura tinha uns olhos azuis perfeitamente normais. Esse pormenor e a pergunta apontavam para que ele tivesse à sua frente Lilith, a amante de Hugo Martinez. - Foi apenas um trabalho.......não é nada de pessoal.- acabou por dizer numa voz hesitante, pondo de lado todas as questões de como é que ela podia estar ali, naquele estado, a falar com ele. Quase que automaticamente, a sua mão direita dirigiu-se para a pistola de flechettes que tinha no banco ao seu lado. Assim que os seus dedos encontraram a coronha da arma, ele accionou o seus sistemas de combate e, num movimento quase impossível de ser acompanhado pela vista humana normal, empunhou-a na direcção da face que espreitava pelo pára-brisas. Por momentos ele viu surgir um olhar de reconhecimento naqueles olhos azuis e a mão que agarrava o pára-brisas começou a movimentar-se para o interior do carro, mas antes que isso acontecesse, Richard abriu fogo, apontando em cheio para a cara. Uma névoa vermelha espalhou-se pelo pára-brisas quando os flechettes rebentaram o crânio de Lilith. Mesmo assim Richard manteve o dedo no gatilho, despejando todo o carregador na mulher, arrancando-lhe praticamente a cabeça dos ombros. Quando finalmente o corpo deslizou pelo capot, deixando um rasto de sangue atrás de si, ele acelerou ainda mais, tentando sair o mais depressa possível daquele beco. Ele tinha que arranjar outro hovercarro depressa, pois aquele estava comprometido e era um verdadeiro "isco" para a polícia. Assim que pusesse alguma distância entre ele e aquele beco, teria que roubar um veículo que o levasse até ao espaçoporto. Só na altura em que entrasse no vaivém que o levaria até casa é que se sentiria seguro. Seria também nessa altura em que começaria a pensar no que iria escrever no relatório de missão, pois os seus chefes de certeza que não iriam acreditar naquela história! Quando o hovercarro saia do beco, ele atreveu-se a lançar um último olhar na direcção do corpo. Aquela distância os faróis já não iluminavam grande coisa, mas por momentos ele teve a sensação de que o corpo se estava a tentar levantar. - Também não vou ficar à espera para ver.........- murmurou ele entredentes, engrenando o veículo em primeira e arrancando dali a grande velocidade, misturando-se com o resto do tráfego. EM ÓRBITA DA COLÓNIA DE EDEN Apollo lançou um último olhar ao planeta verde sobre o qual a Galactica orbitava e que era agora o local onde viviam os últimos sobreviventes das Doze Colónias. Com um suspiro de resignação, desligou o monitor onde surgia essa imagem e voltou a sua atenção para a actividade que se passava na Ponte de Comando. - Não estejas preocupado, Apollo.- disse o Coronel Tigh, aproximando-se dele. - Os Terrestres tomam conta do planeta até regressarmos..... - Mesmo assim.....não gosto de abandonar Eden desta maneira.- retorquiu o Comandante, virando-se para o amigo de longa data do seu pai. - Apollo, os Terrestres têm uma Frota a um salto de distância daqui.....- disse o outro, enquanto ligava um dos monitores e chamava um mapa táctico daquela região do espaço.- Só à volta de Eden, existem vinte e cinco plataformas de defesa orbital e em volta de Calisto outras tantas. Além do mais, todas as Esquadrilhas baseadas no planeta estão em alerta....... - Se os Cylons atacarem, será que isso é suficiente? Tigh decidiu não responder pois sabia que essa pergunta era uma armadilha. As Doze Colónias também se tinham gabado dos seus sistemas de defesa, mas a verdade é que estes de pouco lhes haviam valido aquando do ataque Cylon. - Tens razão, Apollo.....- acabou ele por assentir.- Mas também só iremos estar ausentes dois sentons... - E, ainda para mais, temos que abandonar Eden por causa de uma maldita reunião de trabalho.....- resmungou o Comandante, mostrando o que realmente o estava a perturbar. Esta última frase fez surgir um sorriso nos lábios do Coronel Tigh. Ele tinha convivido inúmeros yahrens com o Comandante Adama e sabia que este, tal como o seu filho, também odiava tudo aquilo que o afastava dos seus deveres de Guerreiro. - Comandante, o vaivém da Presidente Athena acaba de aterrar.- informou o Oficial de Voo Omega do seu posto. - Finalmente....- murmurou Apollo, tendo o cuidado de ver se Tigh não o ouvia. - Informem a escolta de que estamos prontos para partir..... - Sim, senhor.- retorquiu Omega, seleccionando a frequência da Marinha Terrestre e passando a informação às duas fragatas que os iriam acompanhar naquela viagem. Passados cerca de dois centons, a Estrela-de-Batalha começou a afastar-se do planeta e a dirigir-se para Calisto, a lua deste. Aos poucos começaram a surgir nas janelas da Ponte de Comando as luzes dos estaleiros construídos numa órbita geoestacionária em torno da lua. No centro do maior dos estaleiros estava o esqueleto daquela que seria uma das primeiras Estrelas-de-Batalha da nova Frota Colonial. À medida que a Galactica se foi aproximando dos estaleiros, um estranho silêncio foi-se apoderando da Ponte de Comando. Todos os olhares se viraram para a Estrela-de-Batalha que estava a ser construída. Ela estava rodeada por uma imensa multidão de pontos de luz, cada um deles representando um homem ou um robot de construção industrial que trabalhavam na nave. - Que nome é que lhe estão a pensar dar?- perguntou Tigh, enquanto que a Galactica continuava a sua marcha, passando a alguns metrics do estaleiro. - Acho que se vai chamar Kobol.....- respondeu Apollo, continuando a olhar para a nova Estrela-de-Batalha, que ia ficando cada vez mais pequena à medida que a sua nave se afastava de Calisto. - É um bom nome.....- assentiu o Coronel, virando depois a atenção para a seu computador pessoal.- Segundo os meus cálculos, devemos estar a chegar à zona de salto..... Assim que ele acabou de pronunciar estas palavras, fez-se ouvir a voz de um dos Comandantes da Marinha Terrestre a anunciar exactamente esse facto. As três naves começaram a manobrar até atingirem a distância de segurança entre elas e de seguida saltaram, efectuando o primeiro dos três saltos que os levariam até ao Sistema Solar. De facto, tinha sido exactamente para efectuar esse tipo de longas viagens que a Marinha Terrestre tinha insistido em integrar um dos seus sistemas de propulsão na Galactica. Em compensação, os cientistas coloniais estavam a equipar as naves da Marinha com a propulsão hiper-luz. A reunião para qual Apollo e Athena se estavam a dirigir tinha como principal objectivo discutir uma maior troca de conhecimentos entre as Doze Colónias e a Terra, especialmente no que dizia respeito ao campo militar. O problema é que para além dos representantes da Terra iriam estar também presentes uma série de representantes das colónias que tinham abandonado a Aliança Terrestre e que também queriam o seu quinhão da tecnologia das Doze Colónias. Era por isso que a reunião se iria fazer em território neutro, de forma a que nenhuma das partes de sentisse em desvantagem. Para Apollo, todas estas invejas e separações entre os Terrestres eram mais um sinal do quanto eles se haviam afastado das raízes comuns que partilhavam com as Doze Colónias. Só esperava que a reunião não acabasse aos gritos, como tinha acontecido nas duas últimas.... - CAPÍTULO 2 - COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE SEDE DO COMANDO PLANETÁRIO DE DEFESA Ignorando os dois soldados que estavam de guarda à porta da sua sala, o Major Boomer dirigiu-se para April, a sua secretária. - April, eu vou estar fora por algumas horas. Se houver algum problema manda-me um sinal para o meu comunicador pessoal...- disse ele, falando numa voz baixa, de modo a que os soldados não o ouvissem. A mulher lançou-lhe um sorriso, apercebendo-se perfeitamente da ideia do seu patrão. - Presumo que não vai levar escolta....- murmurou ela no mesmo tom de voz de Boomer e passando-lhe discretamente uma chave para a mão. - Não, definitivamente não vou levar escolta.......- retorquiu o Major, sorrindo. Piscando o olho à mulher, dirigiu-se para a porta de saída do gabinete. Antes que conseguisse chegar lá, a voz de um dos soldados fez-se ouvir: - O Comandante precisa de escolta? - Não....- disse Boomer, não tirando a mão da maçaneta da porta e nem sequer se virando para trás.- Vou só dar uma volta até ao fundo do corredor..... Com estas palavras, e antes que o soldado tivesse oportunidade de dizer mais alguma coisa, o Major abriu a porta e saiu rapidamente. Num passo rápido dirigiu-se para o elevador do prédio e escolheu o piso da garagem. O elevador demorou apenas alguns microns a chegar ao piso desejado e ao sair nele, Boomer teve o cuidado de travar a porta do elevador, impedindo assim que alguém o chamasse. "- Isto deve atrasá-los um bocado...- pensou ele, com um sorriso nos lábios. Os soldados estavam a cumprir o seu dever, mas a verdade é que ele precisava de sair sozinho por uns momentos e descontrair. Avançando pelo meio dos diversos carros que ali estavam estacionados, encontrou rapidamente o carro de April. Com a chave que ela lhe tinha dado, abriu a porta e ligou o veículo. Com um som que lhe fazia lembrar sempre o barulho das turbinas de um Viper, as ventoinhas situadas por baixo do carro começaram a criar o colchão de ar que servia para manobrar o veículo. Assim que o surgiu o sinal de que o hovercarro estava a funcionar, Boomer manobrou-o para fora do seu local de estacionamento e dirigiu-se para a porta metálica que separava a garagem da rua. Os sensores instalados na porta detectaram a licença do veículo mas dispararam um alarme ao verem que o condutor do carro não correspondia ao perfil do dono que estava registado. Uma espécie de globo saiu de uma reentrância da parede e dirigiu-se para a porta do lado do condutor, mas antes que pudesse fazer os seus avisos, Boomer disse em voz alta na sua direcção: - Comando de emergência, código Boomer, Delta, Fox, seis, dois, um. Perante este comando, o globo recuou para o seu sítio de origem e a porta da garagem começou a abrir-se de imediato. Assim que viu o caminho livre, o Major acelerou a fundo e o hovercarro saiu da garagem a toda a velocidade, tomando a direcção do centro da cidade. Assim que chegou aí, Boomer ligou o computador de bordo do veículo e digitou o seu destino. O piloto automático tomou controle do veículo e rapidamente dirigiu-o para a auto-estrada que ligava a capital de Eden às outras cidades do planeta. Preparando-se para uma longa viagem, Boomer tirou do bolso do seu uniforme um computador pessoal e aproveitou para adiantar algum do seu trabalho. COLÓNIA DE STORM, UNIÃO DAS NAÇÕES MARCIANAS Havia passado um dia desde da série de acontecimentos que tinham abalado a vida da pacata cidade de Aurora. Toda a zona à volta do apartamento que tinha sido destruído havia sido isolada pela Polícia e pela Milícia Colonial. Os rumores voavam de um lado para o outro a uma velocidade alucinante. Em certos bares da cidade murmurava-se que a Milícia havia intervido porque tinham sido encontrados cinco ( ou quatro, dependendo da versão ) corpos com uniformes da Marinha Terrestre. Pelo menos duas pessoas juravam ter visto um aparelho voador a embater contra o último andar do prédio antes deste explodir. A própria Milícia ajudava a espalhar esses rumores, tentando assim esconder a descoberta que tinha sido feita. Assim que a Polícia tinha chegado ao local e começado a cercar o prédio, dois agentes tinham descoberto nas traseiras deste último os corpos de dois homens, estando ambos equipados com uma armadura pessoal desconhecida. Após esta descoberta, a Milícia tinha sido rapidamente chamada para recolher os corpos. A colónia tinha conseguido a sua independência à pouco menos de um ano e era do conhecimento geral que a Terra fazia de tudo para tornar a vida difícil às colónias que abandonavam a Aliança. Dentro desse "tudo" incluíam-se acções de sabotagem, assassinatos e coisas do género. Numa rua lateral, a alguns metros do local da explosão, tinham sido descobertos mais corpos. Segundo as informações que a Polícia tinha recolhido, os cadáveres pertenciam a um conhecido empresário, suspeito de uma série de crimes, e aos seus seguranças. A Polícia suspeitava de um ajuste de contas entre criminosos, não tendo ainda feito a ligação entre os dois casos, pois Hugo Martinez tinha o máximo cuidado em esconder a sua amante do resto do mundo. No beco onde Lilith tinha aparecido a Richard, os únicos vestígios desse encontro eram algumas manchas de sangue. A Polícia não tinha tido nenhum motivo para investigar essa zona e portanto as manchas passaram despercebidas, tendo sido rapidamente apagadas pelas constantes chuvadas que assolavam o planeta. As manchas partiam do sítio onde o corpo de Lilith tinha caído e iam até à entrada de um barracão que existia a meio do beco e que servia como depósito de lixo. Com um pequeno empurrão, Iblis abriu a porta do barracão, não se mostrando minimamente incomodado com o cheiro nauseabundo que emanava do interior. Fechando a porta atrás de si, parou por momentos, limitando-se a escutar. Aos poucos, por detrás do som da chuva e do som das viaturas que passavam pelas ruas, ele começou a ouvir o som de respiração. Abrindo a sua mão, com a palma para cima, concentrou-se durante alguns momentos, fazendo surgir uma pequena bola de luz que rapidamente foi aumentando de tamanho e subindo na direcção do tecto. Surpreendido pelo aparecimento da luz, algumas ratazanas fugiram na direcção da porta, passando pelo meio da pernas do Conde. Foi nessa altura que se ouviu uma voz de mulher, vinda de um monte de caixas de cartão que alguém tinha atirado contra o fundo do barracão: - Iblis, acabas de afugentar o meu jantar..... Com um rápido movimento das mãos, Iblis afastou os caixotes do seu local, deixando a mulher à vista. Esta encontrava-se encostada à parede, rodeada de uma série de restos de ratazanas e de outros pequenos animais. O seu corpo já estava parcialmente regenerado, embora o tronco e a cabeça ainda não estivessem coberto de pele. O Conde fitou-a por momentos, sem dizer nada. Ela tinha sido a terceira sobrevivente do "desastre" que os tinha trazido até aquela realidade e também tinha sido a única que se tinha recusado a seguir o caminho do Mal, tendo optado por seguir o seu caminho. Iblis e Satã sempre tinham sentido a sua presença ( um dos dons que tinham ), mas nunca se tinham dado ao trabalho de a procurar. É claro que agora a situação era diferente e eles precisavam da sua ajuda. - Como tens passado?- acabou Iblis por perguntar, sem sair do sítio. - Esplendidamente, como se pode ver...- respondeu ela, fazendo um gesto com a mão, abarcando o seu corpo e as imediações.- E agora, se não te importas, eu queria continuar com o meu sono de beleza..... - O teu sarcasmo continua na mesma.....- disse o Conde, olhando-a nos olhos e relembrando-se de outros tempos, em que ambos tinham partilhado algo que se poderia chamar de amor. - Que queres? Tenho a certeza que não vieste aqui para falar dos velhos tempos.- disse Lilith, lendo-lhe os pensamentos. - Precisamos da tua ajuda..... Ao dizer isto, Iblis abriu a sua mente a Lilith, revelando-lhe todos os pormenores do seu plano. A mulher ficou surpreendida, especialmente ao descobrir que já estava incluída em tudo, através do segredo que o seu amante humano lhe tinha revelado e pelo qual a haviam tentado matar. - Será que podemos conseguir?- acabou ela por dizer, recostando-se à parede. Com um sorriso nos lábios, o Conde retorquiu: - Estou a ver que estás disposta a ajudar-nos....... - É claro que sim! Se soubesse o quanto eu penso no que deixámos para trás...... - Muito bem....- disse Iblis sem partilhar que ele próprio também sentia essas saudades de casa.- Sendo assim, a primeira coisa que temos a fazer é sairmos daqui.. Com estas palavras, o Conde avançou e estendeu uma das suas mãos para Lilith. Sem qualquer hesitação a mulher, que durante milénios tinha evitado qualquer tipo de contacto com os seus companheiros de infortúnio, agarrou a mão que lhe era oferecida e os dois desaparecerem do barracão numa explosão de luz. COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE ARREDORES DA CIDADE DE KARN Assim que o computador do hovercarro assinalou que se estava a aproximar do destino, Boomer pôs de lado os documento que estava a estudar e focou a sua atenção na cidade da qual se aproximava. Karn era a segunda maior cidade do planeta Eden. Era também o sítio onde a maior parte dos Coloniais se havia estabelecido, pois para já era a única cidade que existia perto do oceano. Este último pormenor havia atraído imensa gente pois água era uma coisa que sempre tinha sido racionada na Frota e só a vista daquela imensidão azulada era o bastante para encher de alegria o coração de muita gente. Na auto-estrada surgiu o desvio para a parte da cidade para onde Boomer queria ir e o hovercarro seguiu-o. A estrada passava directamente ao lado das enormes plantas de desalinização que os Coloniais haviam ajudado a construir assim que se tinham estabelecido em Eden. Um pouco mais à frente surgiram os reservatórios onde se guardava a água potável que saía das plantas e logo de seguida começaram a surgir os primeiro edifícios da cidade. A maior parte deles eram pequenos prédio de dois andares, com largas varandas viradas para a praia. Aliás, o maior edifício da cidade tinha apenas quatro andares e era exactamente para aí para onde ele se dirigia. O dito edifício ficava situado perto do oceano, numa pequena baía e tinha uma estrada própria. O hovercarro de Boomer seguiu-a, acabado por chegar ao parque de estacionamento que existia em frente do edifício. O parque estava completamente apinhado de hovercarros de todos os modelos e só ao fim de alguns centons de intensa procura é que Boomer conseguiu arranjar um local para estacionar. Fechando o veículo, Boomer seguiu na direcção da entrada principal do edifício, à porta da qual se encontrava um pequena multidão. O Major parou por momentos para fitar o edifício. Este tinha a forma de uma pirâmide, tal como aquelas que eles tinham encontrado em Kobol, ou como aquelas que os Terrestres tinham no seu planeta natal. Estava pintada num tom azul claro, que contrastava abertamente com o anúncio luminoso vermelho que anunciava o nome do clube: " A PIRÂMIDE" - Típico....- pensou Boomer, conseguindo finalmente chegar à beira de um dos porteiros. - Boa-noite...- começou o homem a dizer, sem levantar a cara da lista de reservas que tinha à sua frente. Quando o fez e viu quem tinha à sua frente, empalideceu um pouco e apressadamente pôs-se em sentido e saudou Boomer. - Á vontade, Kyle....- disse o Major, reconhecendo o homem como um dos Guerreiros da Esquadrilha Verde que tinha sido gravemente ferido durante a última batalha contra Cylons.- Afinal de contas, agora és um civil..... O homem sorriu embaraçadamente e baixou o braço, não deixando no entanto de ficar em sentido. - O que o traz aqui, meu Major?- acabou ele por perguntar. - Vim fazer uma pequena visita social.....- respondeu Boomer simplesmente. - Presumo então que não tenha reservado mesa.... - Não, eu vinha fazer uma surpresa ao dono.... Com um olhar rápido para ver se nenhuma das outras pessoas que estava ali reparava, o porteiro abriu a porta de entrada e fez sinal para Boomer entrar, dizendo: - Por aqui, se faz favor. - Obrigado...- disse o Major, seguindo-o pelo "hall" de entrada. Uma pequena planta do edifício indicava como este estava dividido. No andar onde estavam ficava o restaurante, no segundo andar ficava o casino e os outros dois eram de serviço. Ao fundo do hall, que estava todo decorado com plantas que Boomer reconheceu como sendo originárias das Colónias, existia uma outra porta que dava acesso à sala de jantar propriamente dita. Kyle abriu a porta e indicou a Boomer onde este podia encontrar o dono do clube. Agradecendo-lhe mais uma vez, o Major avançou rapidamente pelo meio das mesas, evitando os criados que passavam com as travessas de comida. "Antigamente, nem num yahren víamos assim tanta comida...."- pensou ele, deitando o olhar para uma das mesas, onde um casal e duas crianças se deleitavam com um prato típico de Caprica. Continuando o seu caminho, Boomer acabou por chegar ao bar que existia ao fundo da sala de jantar. Antes que pudesse perguntar alguma coisas, os seus olhos detectaram a pessoa que procurava, que estava de costas para ele, falando com alguns clientes que tinham acabado de pagar a conta. Aproximando-se vagarosamente, até estar a alguns passos dele, disse em voz alta: - Ouvi dizer que o dono disto é um aldrabão..... - Que coincidência, eu também.....- respondeu Starbuck, virando-se com um grande sorriso estampado no rosto. Os dois antigos companheiros de esquadrilha abraçaram-se por momentos e a emoção apossou-se deles. - Há quanto tempo.....- acabou Starbuck por dizer, largando o Major.- Já se passou pelo menos um yahren desde da última vez que nos vimos.... - Exactamente....- retorquiu Boomer, com um sorriso.- Como está a Cassiopeia? - Vamos já vê-la....- disse Starbuck, retirando de um dos bolsos do seu casaco dois fumarellos, oferecendo um deles ao outro homem, que aceitou, e acendendo-os de imediato. - São feitos onde?- perguntou o Major, assim que começou a fumar.- Já não são daqueles da tua plantação secreta, pois não? - É claro que não.....- respondeu Starbuck, lembrando-se de como tinha convencido um dos tripulantes de uma das naves agrícolas da Frota a plantar e manter um pequeno jardim de onde ele tirava a "matéria-prima" para os seus fumarellos.- Isto agora é muito mais avançado. É uma mistura de tabaco terrestre e de Aquaria.... - E ainda não pensaste em comercializar isto? Com um sorriso, Starbuck retirou do bolso do casaco a embalagem de onde tinha tirado os fumarellos e mostrou-a a Boomer. A embalagem era completamente azul, excepto por um círculo branco onde se podia ler, em letras pretas garrafais, "COLONIAIS". - Quem é que inventou este nome?- perguntou Boomer, incrédulo. - Fui eu, é claro....- respondeu Starbuck, enquanto chegavam a um elevador de serviço que existia junto do bar.- Sabes perfeitamente como os Terrestres são malucos por coisas das Colónias..... Este último comentário arrancou uma gargalhada de Boomer. Como Comandante da Defesa Planetária ele tinha que enfrentar, quase todos os dias, uma série de pedidos das mais variadas colónias terrestres e respectivos Governos. É claro que a maior parte deles queria apenas tecnologia militar, especialmente Vipers mas não só. Como que a adivinhar o que o Major estava a pensar, Starbuck perguntou: - E o teu trabalho, como vai? - Nem queiras saber......- começou Boomer a dizer, acabando por fazer um resumo geral do seu dia a dia, salientando especialmente o facto de que o seu interlocutor humano, o Major Michael Resnick era profundamente xenófobo, sendo evidente o seu desprezo por "extraterrestres", especialmente aqueles que tinham pele escura. - Eu quando o vi disse logo que ele ia trazer sarilhos...- relembrou Starbuck. Ele tinha conhecido o dito Major na cerimónia em que a Aliança Terrestre tinha oferecido aquele planeta aos Coloniais para estes se estabelecerem. Essa também tinha sido a última cerimónia oficial em que Starbuck tinha comparecido como Guerreiro. Os dois homens continuaram a conversar, até à altura em o elevador parou no quarto andar, no topo da pirâmide. Assim que a porta se abriu, Boomer pensou que tinha sido transportado de novo para as Colónias, pois a decoração do apartamento tinha sido feita nesse estilo, tendo a influência de quase todas. De um pequeno quarto lateral ouvia-se o choro de uma criança e passados alguns microns, vinda de lá, surgiu Cassiopeia com um bebé ao colo. - Dá próxima vez vais ser tu a dar-lhe banho.....- disse ela para Starbuck, fingindo um ar reprovador. Virando-se de seguida para Boomer, esboçou um sorriso e disse: - Estava a ver que estavas chateado connosco..... - É claro que não, Cassiopeia....- respondeu ele, cumprimentando-a.- O meu problema é o trabalho.....não tenho tempo.... - Nem tu, nem o Apollo, nem o Jolly....- disse ela, retomando o seu ar reprovador.- Mas isso agora não interessa....o que interessa é que estás aqui.... - Olá.....- disse Starbuck, pegando na sua filha por debaixo dos braços e levantando-a no ar. A criança fitou com os seus olhos azuis e começou a sorrir, esticando os seus braçinhos para a cara do pai. - Ele tem jeito para aquilo.- disse Boomer para Cassiopeia, enquanto o antigo Guerreiro brincava com a filha. - Mas afinal, o que te traz aqui?- perguntou Starbuck, sem deixar de brincar com Palias.- Tenho a certeza que não foi só uma visita social..... O Major esboçou um sorriso triste e disse para os dois anfitriões: - Fui assim tão evidente? - A pasta que trazes na mão é um bom indício.....- respondeu Starbuck, enquanto se dirigia para a mesa que existia no centro da sala. Pousando Palias à sua frente, deu-lhe um boneco para as mãos e fez sinal a Boomer para este se sentar. O Major assim fez, enquanto Cassiopeia se dirigiu para a cozinha para ir buscar algo para beber. Boomer fitou o boneco com que Palias brincava e um ar de espanto ficou estampando na sua cara. - É mais um dos teus produtos??- acabou ele por perguntar, apontando para o daggit de plástico que a filha de Starbuck mordiscava. - Claro...- respondeu Starbuck com um sorriso.- E já tenho planos para começar a criação de daggits verdadeiros. A maior parte das famílias coloniais querem ter um.... - Eu pensei que eles tinham morrido todos......Que não havia nenhum vestígio deles.... - Vivo não, mas nos bancos criogénicos de uma das naves de ciência estavam os corpos de dois. Agora é só uma questão de clonar algumas células.... - Mas nós não temos esse tipo de tecnologia...- interrompeu-o Boomer. Durante a missão em Arcta, ainda tinha havido a esperança de que o Doutor Ravashol, o criador de uma comunidade de clones humanos, acompanhasse a Frota, mas a verdade é que ele tinha preferido ficar com as suas criações no planeta. - Nós não, mas os Terrestres sim....Foi só questão de arranjar um sócio, fazer um estudo de mercado..... - Pareces um verdadeiro comerciante a falar, Starbuck.... O antigo Guerreiro nada disse, limitando-se a sorrir. Boomer aproveitou essa pausa, apagou o que restava do seu fumarello, e abriu a pasta que trazia com ele. Tirando de lá um pequeno cristal de gravação, inseriu-o no seu computador pessoal e escolheu a opção que queria. De imediato uma imagem tridimensional surgiu no ar à frente dele. Starbuck lançou um pequeno assobio ao ver do que se tratava. Cassiopeia voltou à sala naquela altura, trazendo na mão uma bandeja com refrescos e também ela ficou a olhar para a imagem. Palia largou o daggit e estendeu uma das mãos para a imagem, mas ao ver que não a conseguia apanhar voltou a pegar no boneco, levando-o de novo à boca. - O Apollo sempre conseguiu concretizar o seu sonho......- acabou Starbuck por dizer. - Exactamente. Diante de vós está a imagem do Viper MK II, classe Scarlet.- disse o Major, fazendo a imagem girar.- Vai ser este o novo caça da Frota. - Muito bem.....- disse Starbuck, deitando um olhar de conhecedor ao novo Viper.- Estou a ver que lhe meteram mais turbolasers, quatro nas asas laterais e um outro na asa dorsal..... - As asas não estão ao contrário?- perguntou Cassiopeia, espreitando para a imagem. - Sim e também estão um pouco mais curtas....- respondeu Boomer, bebendo um pouco de refresco.- Isso e as novas saídas dos motores permitem que este Viper seja muito mais manobrável..... - E cabem nos tubos de lançamento?- perguntou Starbuck, pegando também num copo e estendendo a mão para amparar Palias que se estava a tentar pôr em pé. - Em relação aos da Galactica, só precisamos de fazer algumas modificações em relação à altura...- disse o Major, enquanto acompanhava os esforços da criança.- A nova Estrela-de-Batalha já vai ter os seus tubos de lançamento prontos para esta classe de Vipers. Starbuck segurou a filha que começou a cair e desviou o olhar do Viper. Ele sabia perfeitamente que por detrás daquela apresentação havia uma segunda intenção. - Vocês já têm tripulação para a outra Estrela?- perguntou ele, desviando a conversa para outro assunto. Boomer começou a rir-se e bebeu mais um bocado de refresco. - Neste momento o que temos mais são tripulantes....- acabou ele por responder. - A Academia está a abarrotar com futuros Guerreiros.....O Croft está a deliciar-se com o trabalho que está a ter. - De onde é que vieram todos esses voluntários?- perguntou Cassiopeia, bebendo também ela um refresco. - A maior parte deles são dos Filhos do Espaço.....- pelo tom de voz de Boomer, o casal percebeu que ele não tinha uma grande opinião sobre os membros dessa seita.- O Sire Digor deu ordens para que todos os Filhos do Espaço que estivessem na idade certa se apresentassem na Academia.... - Eles ainda estão com a aquela mania de continuar a viagem?- perguntou o marido de Cassiopeia, enquanto pegava em Palias ao colo. - Oficialmente não....- respondeu Boomer, não dizendo mais nada. - E não oficialmente?- insistiu Starbuck, vendo a hesitação do seu antigo companheiro de Esquadrilha. - Segundo Athena, Sire Digor já afastou todos aqueles que ainda continuavam com essa ideia. Starbuck ainda pensou em perguntar se eram verdadeiros aqueles rumores que diziam que Athena e Sire Digor tinham um caso. Não é que ele se importasse muito com isso, mas a verdade é que estava curioso. É claro que Cassiopeia não iria apreciar a pergunta e por isso ele optou por lançar outra pergunta: - E em relação aos Cylons? Sabe-se mais alguma coisa? - Não....- disse Boomer, encolhendo os ombros.- Os Terrestres minaram a passagem na cintura e estabeleceram uma série de linhas de defesa. - Mas a Nave-Base mandou ou não uma mensagem? - Nunca se conseguiu descobrir. Os Cylons destruíram a maior parte dos seus sistemas assim que os Fuzileiros Terrestres abordaram a Nave-Base. - E a Nave-Base propriamente dita?- perguntou Cassiopeia. - Os Terrestres estão a acabar de a estudar e reparar. Eles ficaram extremamente espantados com o poder dos Mega-Pulsares e estão a tentar adaptá-los às suas naves.... Cassiopeia levantou-se nessa altura e silenciosamente aproximou-se do seu marido pois Palias tinha acabado por adormecer encostada ao ombro do pai, continuando agarrada ao seu daggit. Com cuidado pegou na criança e murmurou aos dois homens que ia pôr a criança a dormir. Boomer aproveitou a ocasião para se despedir dela e anunciar que se ia embora, pois ainda precisava de fazer a viagem de volta. - Eu acompanho-te até lá baixo....- disse Starbuck, conduzindo o seu amigo para o elevador. Assim que as portas deste se fecharam, o antigo Capitão virou-se para o Major e perguntou: - Porque é que trouxeste as imagens do Viper? - Porque precisamos de um piloto que seja capaz de o testar a fundo. Ele já passou todos testes, mas mesmo assim precisamos de mais provas.... - Foi o Apollo que teve a ideia? - Sim.... Starbuck começou a rir-se, pois já tinha adivinhado a resposta. - Mas olha que da última vez que experimentei um Viper novo, quase que fiquei sem ele, além de ter ficado sem toda aquela Ambrosia que estava no cais de embarque da prisão..... Boomer teve soltar uma gargalhada ao lembrar-se da cara que Starbuck tinha feito, ao contar o que os prisioneiros do asteróide Proteus eram obrigados a fabricar: Ambrosia da melhor qualidade. - Aceitas ou não....- acabou o Major por perguntar quando finalmente chegaram ao andar do restaurante.- Fazias um grande favor à Frota..... Starbuck parou por momentos, fitando o seu amigo. O seu semblante ficou carregado por momentos até que ele fez um gesto com o braço, indicando toda a sala de jantar que estava a abarrotar de clientes. - Isto agora é a minha vida, Boomer....- disse ele.- Tenho mulher e uma filha e quero passar tempo com elas.... - Starbuck, a paz não vai durar para sempre....- retorquiu o outro.- Os Cylons não vão desistir de nos procurar..... - Eu sei disso.....- respondeu o antigo Capitão num tom desanimado.- ...mas para já quero viver sem preocupações.... - Muito bem, eu não vou discutir contigo por causa disto...- disse Boomer e os dois homens dirigiram-se para a saída. Na altura em que estavam junto da porta e a despedirem-se, o Major abriu a sua pasta e retirou de lá o cristal com os dados e imagens do novo Viper. Hesitando por momentos, acabou por o colocar na mão esquerda de Starbuck, dizendo: - Pensa no assunto, está bem? O outro acenou que sim com a cabeça e colocou o cristal num dos bolsos das suas calças. Assim que Boomer virou costas ao amigo, dirigindo-se para o carro, Starbuck pegou no cristal e ficou a admirá-lo por momentos. Apesar do seu discurso, a verdade é que um pequena voz dentro da sua mente dizia-lhe para aceder ao pedido de Boomer e ao menos pensar no assunto. Ele decidiu adiar a questão e voltou a guardar o cristal, embrenhando-se depois nos assuntos da gerência do mais famoso clube de Karn. É claro que a pequena voz não se calou, ganhando até cada vez mais força. CINTURA DE ASTEROÍDES ENTRE MARTE E JÚPITER Assim que o vaivém deixou a Baía de Lançamento, tomando a direcção do asteróide Janos, Apollo levantou-se e rumou até ao local onde a sua irmã estava. Athena estava debruçada sobre uma série de papeis e sobre o seu computador pessoal, consultando uma série de dados essenciais para a reunião com os Terrestres. Apollo ainda achava um pouco estranho ver a sua irmã vestida com as roupas de Presidente do Conselho dos Doze e não com o uniforme azul dos oficiais da Ponte. Apercebendo-se da presença do irmão, Athena levantou a cabeça e perguntou: - Há algum problema? - Não....- disse o Comandante, sentando-se junto dela antes de continuar.- Hoje não trouxeste companhia? - O Digor preferiu ficar na Galactica....- disse Athena, voltando de novo a sua atenção para os papéis. Perante o silêncio do irmão ela murmurou: - Espero que não comeces com um daqueles discursos do tipo "...ele é muito novo para ti..." ou então "estás a cometer um erro".... Apollo levantou os braços em sinal de resignação e disse: - Eu fazia esses discursos se soubesse que tu lhes prestavas atenção..... Athena pousou os papéis e virou-se de forma a encarar o irmão. Fazendo um esforço para se controlar, disse: - Começo a ficar farta dessa vossa atitude em relação ao Digor. Se não fosse por ele, a Frota estaria agora nas mãos do Sire Trolius... - Athena, sabes perfeitamente que eu nunca questionei esse facto.... - Já sei que o problema é a idade dele, mas para ser sincera nem tu nem o pai se preocuparam com isso quando eu namorei com o Starbuck! - Mas o Starbuck tem a minha idade.....- disse Apollo, não percebendo onde é que a irmã queria chegar. - Pois, mas em termos de mentalidade acho que até o Boxey era mais velho que ele....- Athena apercebeu-se da cara com que o irmão tinha ficado quando ela falara em Boxey e prontamente tentou corrigir o erro.- Desculpa Apollo, eu não te queria magoar.... - Deixa estar...- interrompeu Apollo, levantando-se.- Eu é que não te devia ter perguntado nada. Já tens idade para saber o que fazes.... Com estas palavras o Comandante dirigiu-se para a cabina de pilotagem. Athena ainda pensou em chamá-lo, mas a verdade é que decidiu não o fazer. As desculpas ficariam para mais tarde. Para já ela tinha que tratar de outros assuntos e, além do mais, já estava a ficar farta dos olhares e das "conversas" que as pessoas tinham sempre que o assunto da sua relação com Digor surgia. Pensando assim, voltou de novo a sua atenção para os dados que tinha à frente. ASTEROÍDE CERES, SEDE DA CORPORAÇÃO DA CINTURA - .....e afirmando novamente a nossa união convosco, passo a palavra ao meu irmão, o Comandante Apollo...- com estas palavras Athena terminou o seu discurso perante os delegados das diferentes potências terrestres e sentou-se. Apollo tomou o lugar dela no pódio e aproveitou o facto de alguns delegados ainda estarem a aplaudir para por em ordem os seus apontamentos. Ele tinha a certeza de que aquilo que tinha para dizer não seria bem aceite por todos e era por isso que tinha deixado a sua irmã "preparar" o terreno. Quando os aplausos acabaram, o Comandante fitou a assistência e começou a falar, escolhendo como língua o Inglês pois queria que todos compreendessem com clareza o que iria dizer. - Tal como a Presidente Athena disse, os nosso dois povos estão unidos e nós temos uma dívida de gratidão para convosco por nos terem acolhido tão abertamente.....- começou ele a dizer, parando por momentos antes de passar para a parte problemática da questão: - Pela nossa parte temos feito o possível para pagar tal dívida, nomeadamente através da partilha da nossa tecnologia. Essa partilha tem sido feita com igualdade, pois não queremos provocar nenhum desequilíbrio entre as diversas forças humanas..... Parando novamente o discurso, Apollo fitou abertamente os delegados da União das Nações Marcianas e da Aliança Terrestre, as duas forças que lutavam pela supremacia no Sistema Solar. Era por causa dessa rivalidade que as reuniões de trabalho tinham de ser feitas naquele local, na sede de única entidade a quem a Aliança Terrestre tinha concedido a independência de livre vontade. - ...Apesar desta nossa boa vontade, a verdade é que têm surgido problemas...- prosseguiu ele, consultando os seus apontamentos.-....a Nave-Base capturada pela Aliança ainda está a ser "estudada", apesar de nos ter sido prometida à mais de cinco dos vossos meses.... - Comandante Apollo!- interrompeu um dos delegados militares da Aliança.- Como já deve ter sido informado, os técnicos da Marinha ainda estão a tentar aceder a todas as informações do computador central da Nave-Base..... - Provavelmente para obterem informações sobre novas armas que possam aplicar contra o povo da União....- disse por sua vez um dos delegados da União, perante os gestos de assentimento dos seus companheiros. - Ainda bem que referiu esse factor das "novas armas"...- disse Apollo, retomando o controle da discussão.- Como todos devem saber, nos fornecemos a cada uma das potências terrestres um Viper, completamente equipado. Achamos que os nossos caças poderiam trazer algo de novo aos vossos estudos aeronáuticos e pelo vistos estávamos certos pois, há pouco tempo atrás, o Embaixador da União em Eden ofereceu uma soma enorme de dinheiro ao nosso Comandante Planetário de Defesa em troca de 100 Vipers.... Perante esta revelação uma série de protestos fizeram-se ouvir, tanto da parte dos delegados da União como dos da Aliança, virando-se estes últimos para os seus inimigos. Apollo aproveitou a pausa para descansar um pouco pois a pior parte ainda estava para vir. Assim que os ânimos se acalmaram ele continuou a falar: - Mas o facto mais grave que surgiu até agora foi a tentativa de sabotagem que ocorreu ontem no estaleiro espacial onde a Corporação está a construir a nossa terceira Estrela-de-Batalha...... Apollo parou e perscrutou as faces dos seus ouvintes, vendo sinais de consternação em algumas delas. Inserindo um cristal no aparelho embutido no pódio, Apollo fez surgir um holograma no centro da sala, à vista de todos os presentes. A imagem mostrava dois corpos completamente carbonizados e irreconhecíveis. - Estes dois indivíduos foram abatidos por elementos da Segurança da Corporação quando estavam a tentar colocar duas cargas nucleares no casco da Estrela-de-Batalha. Aparentemente estavam equipados com mecanismos de autodestruição pois assim que foram alvejados rebentaram em chamas...... Para tentar evitar mais acidentes deste tipo, enviei cinquenta Guerreiros para ajudar a manter a segurança nas instalações..... - E nós reforçamos o contigente de Seguranças no estaleiro......- disse o representante da Corporação, pedindo licença a Apollo para falar. - Se surgir mais algum incidente do género, teremos que fechar toda essa zona do espaço a qualquer tipo de tráfego, incluindo o da Marinha da Aliança e da União..... Esta última declaração levantou um novo coro de protestos, mas a verdade é que eles rapidamente esmoreceram e o Comandante aproveitou a ocasião para continuar: - Não sei se os factos estão relacionados, mas a verdade é que ultimamente tem surgido uma série de movimentos que defendem que nós devíamos continuar a nossa viagem e deixar a "Humanidade" em paz. Que a nossa presença aqui só serve para atrair os Cylons......As pessoas que fazem esse tipo de declarações esquecem-se de que mais tarde ou mais cedo os Cylons iriam chegar ao espaço Terrestre, pois são expansionistas e estão sempre à procura de raças para subjugar. - Mas sem vocês aqui talvez eles nos deixassem em paz....- disse um dos representantes da Liga das Nações Não-Alinhadas, a organização que agrupava uma série de ex-colónias Terrestres que tinham obtido a independência através da guerra mas que por serem pobres tinham continuado a manter laços económicos com o Sistema Solar. O delegado era um membro do Senado de Lacrima, sendo o principal porta-voz de todos aqueles que estavam contra a presença dos Coloniais.- Talvez pudéssemos chegar a algum acordo com eles...... Apollo já estava à espera daquela declaração pois o Senador estava sempre a repeti-la. Pegando num novo cristal, inseriu-o no lugar do outro. Uma nova imagem encheu o ar no centro da sala. - Tal como já foi dito várias vezes, nós e vocês, Coloniais e Terrestres, temos antepassados comuns. Geneticamente somos iguais....somos tão Humanos como vocês.....- enquanto dizia isto, Apollo fez rodar o holograma, cuja a imagem mostrava as semelhanças e diferenças, quer internas quer externas, entre Terrestres e Coloniais. Assim que passou os dados, parou o holograma e retirou o cristal, colocando outro no aparelho.- Pode ter a certeza de que os Cylons irão aplicar o Édito de Extermínio deles sobre todos nós.... Com estas palavras, o Comandante accionou a nova série de hologramas e retomou o seu discurso: - Em relação a essa ideia de "chegar a algum acordo" com os Cylons, nós também pensamos nela e tenho a certeza de que todos vocês já conhecem os resultados.... Os hologramas tinham sido retirados das transmissões televisivas das Doze Colónias captadas pela Galactica durante a Conferência de Cimtar e mostravam o princípio do traiçoeiro ataque Cylons às Colónias. A seguir surgiram uma série de imagens captadas por Vipers e por civis depois do ataque, mostrando a devastação de várias Colónias. Aquelas imagens e outras tinham sido constantemente repetidas pelos meios de comunicação Terrestre como forma de sensibilizar a população em relação aos Coloniais. Apollo sentiu um aperto no coração ao rever todas aquelas imagens e teve de se controlar para terminar a sua intervenção: - Neste ataque eu perdi a minha mãe e o meu irmão mais novo..... Para além deles perdi uma série de amigos, a minha mulher e muitos outras pessoas que conhecia... Todas as pessoas que fizeram a viagem com a Frota choram por alguém que perderam. Se os Cylons chegaram aqui e a Humanidade não estiver preparada para os enfrentar podem ter a certeza de que não haverá ninguém para chorar os mortos pois os Cylons não descansarão até o último dos Humanos estar extinto. Temos que acabar com as divisões entre nós..... Não se dando ao trabalho de desligar as imagens da destruição das Doze Colónias, Apollo reuniu os seus apontamentos e dirigiu-se para o seu lugar. O representante da Corporação aproveitou a ocasião para sugerir uma pequena pausa nos trabalhos, o que foi rapidamente aceite por todos os participantes. Ao desligar o aparelho de projecção, a última imagem que ficou momentaneamente suspensa no ar, foi o rosto de Serina na altura em que o Cidade de Caprica começava a ser atacada pelos Cylons. O Comandante sentiu novamente o aperto no coração ao ver aquela imagem momentânea da sua falecida mulher. Ele nem sequer se lembrava de ter incluído aquela parte da transmissão televisiva no cristal. Apesar de já se terem passado alguns yahrens ele ainda sentia falta de Serina. É claro que o seu amor ia para Sheba, mas mesmo assim não ficou surpreso ao sentir o sabor salgado das lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Ao limpar discretamente o rosto com a mão, lembrou-se de que Sheba também estava na sala de conferências e procurou-a com o olhar, encontrando-a a fitá-lo com um ar amargurado. Na altura em que se ia a levantar para falar com ela, a Capitã levantou-se e saiu rapidamente da sala. Sheba tinha visto Apollo chorar e sabia perfeitamente a razão disso. A imagem tridimensional da ex-mulher do Comandante tinha ficado a pairar no ar, como se de um fantasma se tratasse, durante alguns microns. É claro que ele podia ter chorado ao lembrar-se de Zac ou da sua mãe, mas ela conhecia-o melhor que isso. Apollo ainda não tinha conseguido afastar a imagem de Serina da sua mente. Apesar de todas as provas de amor que Sheba já lhe tinha dado, a verdade é que ele ainda continuava agarrado ao passado. Ela tinha a impressão de que estava sempre a competir com o fantasma de Serina. Mesmo que se Unissem, ela não tinha a certeza de que Apollo o estaria a fazer com todo o coração. Cerrando os punhos, Sheba deixou um sentimento de raiva inundá-la. Apollo mostrava que a amava mas mesmo assim não conseguia esconder que ainda pensava na ex-mulher. Mais de que uma vez, Sheba tinha-o apanhado a ver cristais com imagens do seu tempo de casado, mas tinha sempre pensado que isso era uma fase que Apollo iria ultrapassar. Agora não tinha tanta certeza disso. "Maldita a altura em que me ofereci para pilotar o vaivém até aqui......", pensou ela para si mesma, continuando a caminhar por um dos corredores do asteróide, em direcção ao pequeno bar reservado ás delegações. As suas unhas começaram a romper a pele das mãos, tanta era a força que ela fazia, mas apesar da dor que isso provocava, ela não conseguiu conter as lágrimas que inundavam os seus olhos. Rapidamente o seu sentimento de raiva começou a ser suplantado pelo desespero. Desespero por um amor que ela duvidada que alguma vez fosse completamente correspondido........ - CAPÍTULO 3 - COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE "- Mas que lugar é este?", pensou o Tenente Roger Veckin mal abandonou o vaivém que o tinha trazido da estação orbital. Descendo a rampa de desembarque, pousou a sua sacola no chão e olhou mais uma vez em volta, na vã esperança de que as primeiras impressões que tinha tido acerca daquele lugar fossem falsas, talvez provocadas pelo intenso sol que brilhava no céu. Tal como seria de esperar, tudo o que tinha visto era a mais pura realidade e um profundo desânimo encheu-o. - Isto não é o lugar para um aluno recém-formado da Academia do Exército Terrestre! Deve ter havido um engano qualquer na secretaria da Base Amstrong! - disse ele, enquanto avaliava o sítio onde estava. A plataforma onde o vaivém estava assente, erguia-se solitária no meio de uma clareira aberta no que parecia ser uma floresta tropical. É claro que essa parecença com as suas congéneres terrestres ( aquelas que ainda restavam ) era apenas superficial. Neste planeta a vegetação era predominantemente de cor vermelha e preta, misturando-se perfeitamente com o aspecto ferrugento da plataforma de aterragem. - O Tenente não se importa de se afastar, se faz favor!- berrou, de repente, alguém do interior do vaivém, ao mesmo tempo que se fazia ouvir o barulho de um motor. Voltando-se para trás, Roger viu que quem o interpelava era o sargento que servia como mestre-de-carga na nave. Pegando na sua saca, afastou-se do local onde estava. Com uma nuvem de fumo negro saindo do tubo de escape lateral, uma pequena empilhadora saiu do cavernoso porão de carga do transporte, trazendo uma série de caixas metálicas com o emblema do Exército. Veckin seguiu a máquina com o olhar, pensando onde é que ela iria descarregar a sua carga. A empilhadora, saindo do centro da plataforma de aterragem, dirigiu-se para uma rampa que dava para a floresta e, descendo-a, desapareceu de vista. Entretanto, o mestre-de-carga tinha-se aproximado do tenente, colocando-se a seu lado. Com um pequeno sorriso nos lábios disse: - O senhor não se preocupe. Mais tarde ou mais cedo vai-se acostumar a este sítio! - Tem a certeza?- resmungou Roger, olhando-o de alto a baixo.- Isto não era bem o que eu estava à espera.....especialmente depois de estar 4 anos a estudar na Academia..... O sargento já tinha visto inúmeros casos como aquele. Jovens oficiais, acabados de sair dos seus cursos e ainda cheios de energia, que ficavam com todos os seus sonhos despedaçados ao serem colocados em "buracos" como aqueles, longe das principais rotas comerciais e militares Terrestres. Numa tentativa de o animar, começou a inumerar as razões pelas quais aquele planeta não era tão mau como parecia, contando-as pelos dedos. - Em primeiro lugar, ele já foi terraformado e o senhor não precisa de andar de fato espacial só para sair à rua como acontece em outras colónias. Em segundo lugar, a gravidade é quase igual à da Terra. A diferença é mínima e não se nota. Isso sempre é uma vantagem, em relação a outros sítios. Em terceiro lug..... Roger já tinha deixado de prestar atenção ao homem, voltando a contemplar a rampa por onde a empilhadora tinha desaparecido. "De certeza que o resto da base fica naquela direcção...", pensou ele, decidindo investigar essa possibilidade. Na altura em que se voltava para o seu interlocutor, preparando-se para inventar uma desculpa para sair dali, algo que o outro estava a dizer chamou-lhe a atenção. - Desculpe lá Sargento, mas não se importa de repetir essa última parte? - É claro que não!- respondeu o outro, vendo que tinha despertado o interesse do oficial a seu lado.- O que eu estava a dizer é que neste planeta há o que se diz ser uma série de ruínas extraterrestres. - Como em Marte e na Lua?- inquiriu Veckin. - Não, nada que se pareça com essa trapalhada..... - Como assim? - Para começar, as ruínas estão situadas no meio de uma das piores selvas deste planeta.....- O sargento parou, parecendo hesitar sobre se deveria revelar o resto. Vendo que não perdia nada com isso, encolheu os ombros e prosseguiu num tom um pouco desgostoso: - É que, para além disso, elas já estão sob a alçada da Corporação dos Asteróides.. Esta novidade não espantou Roger. Ele percebia agora porque é que o seu interlocutor tinha hesitado em revelar essa informação. As relações entre as Forças Armadas Terrestres e a Corporação eram, no mínimo, péssimas e em várias ocasiões tinha-se chegado a vias de facto. Essas escaramuças acabavam, quase sempre, com maus resultados para ambas as partes. As chefias das Forças Armadas ainda estavam ressentidas com o facto do Governo Central Terrestre ter dado a independência às antigas Colónias da Cintura dos Asteróides. É claro que Marte, por exemplo, também tinha obtido a independência mas isso só tinha acontecido depois de uma guerra sangrenta que só tinha acabado devido a factores externos. No caso das Colónias não tinha havido guerra porque elas forneciam a maior parte das matérias-primas utilizadas pela Aliança Terrestre e pura e simplesmente tinham ameaçado destruir todas as suas indústrias se a Aliança não lhes concedesse a independência. O Governo Central tinha acedido a essa ameaça e assim tinha surgido a Corporação da Cintura, um organismo governativo que representava as principais famílias e companhias dessas antigas colónias. A recém-criada Corporação da Cintura tinha continuado a assegurar o abastecimento de matérias-primas à Terra, em troca de garantias sobre a sua independência, e, passados alguns anos, tinha assegurado o abastecimento da União das Nações Marcianas, em troca de equipamento militar. Aos poucos a Corporação tinha-se conseguido estabelecer como uma força de equilíbrio no Sistema Solar. Por ser uma força respeitada por ambas as potências do Sistema Solar, elas tinham concordado que todas os locais onde existissem artefactos extraterrestres seriam geridas pela Corporação. A única descoberta que tinha saído fora de âmbito tinha sido o contacto com os Coloniais, feito pela Marinha Terrestre, mas mesmo esse facto tinha acabado por ser revelado a toda a gente. Apesar de todas as explorações serem feitas com toda a clareza, havia muitas suspeitas por parte do Comando Militar da Aliança Terrestre de que a Corporação guardava descobertas para si. - Realmente, este planeta está-se a revelar uma verdadeira caixa de surpresas! - resmungou Veckin, arrancando uma sonora gargalhada do sargento. - Sabe, isso foi exactamente o que o seu antecessor disse quando eu lhe contei esta história há dois meses atrás. - Ai sim? Estou a ver que ele também tinha bom senso. Nenhuma pessoa normal pode gostar deste sítio.- disse ele, enquanto que com a mão descrevia um arco, abrangendo a selva que rodeava a plataforma de aterragem. - Isto deve ser o fim do Mundo..... Continuando a rir-se, o sargento abanou a sua cabeça e retorquiu: - Olhe que não! Os locais adoram este planeta. Dizem que é a mais pacífica de todas as Colónias da Aliança. - Eu acredito plenamente nisso! Aqui não se deve passar mesmo nada.... - Tal como já disse, o Tenente vai acabar por se acostumar a este lugar!- dizendo isto e vendo que a empilhadora voltava vazia pela rampa acima, o sargento fez continência ao oficial. Com um último desejo de boa sorte, à laia de despedida, deu meia volta e correu apressadamente para o vaivém. Roger viu-o afastar-se e depois encaminhou-se ele próprio na direcção do local por onde a empilhadora tinha vindo. Esta última tinha entrado para o transporte, que começava agora a recolher a sua rampa de desembarque, enquanto que a empilhadora era presa no seu respectivo local do porão. A I.A. do vaivém avisou a sua contraparte na plataforma de que a fase de descolagem estava prestes a começar. Embora a plataforma tivesse um aspecto totalmente desleixado, os computadores nela embutida eram novos e assim que receberam o sinal do vaivém, iniciaram a sequência que era normal nestes casos. O jovem tenente já tinha assistido àquilo inúmeras vezes e em inúmeros locais, mas mesmo assim não deixava de se maravilhar com o processo. Depois de se afastar alguns bons metros do local de onde tinha vindo, tirou a saca do ombro, apercebendo-se nessa altura, e para seu desgosto, que enormes manchas de suor marcavam já o seu uniforme verde, especialmente nas axilas. A sua atenção virou-se de novo para a plataforma, na altura em que uma série de sirenes começaram a fazer-se ouvir. Como se isso não fosse o suficiente para afastar algum curioso ou alguém mais distraído, uma série de luzes vermelhas começaram a piscar à volta de todo o complexo. De seguida, um ruído encheu o ar e, aos poucos, a base circular onde a nave estava assente começou a descer, até estar apenas visível a metade superior do corpo do vaivém. Um novo ruído fazia-se agora ouvir. Toneladas de água enchiam a cratera onde jazia o gigantesco transporte oval. Essa água entrou até ao momento em que os sensores instalados no interior da cratera viram que esta cobria as maciças pernas da nave e mandaram fechar as condutas por onde circulava, pois não interessava a ninguém que a água se infiltrasse nos motores do veículo espacial. Completada esta fase, a I.A. da plataforma deu sinal de que tudo estava pronto. Com um rugido verdadeiramente ensurdecedor, que fazia tremer a plataforma e tudo o que estava à volta, os seis reactores de hidrogénio ganharam vida. Nesses primeiros segundos a água da cratera começou a ferver, evaporando-se quase toda no momento em que as enormes chamas projectadas pela nave atingiram o seu máximo. A nave parecia estar assente sobre essas colunas de fogo, à medida que ia subindo nos céus e libertando-se da cratera. Roger afastou o olhar, virando-se para trás, e tapando os ouvidos com as mãos, na altura em que o transporte saiu totalmente do seu berço. Uma enorme onda de calor banhou toda aquela área ao mesmo tempo que o Tenente berrava a plenos pulmões, num esforço para que os seus tímpanos não rebentassem com a pressão. Tão abruptamente como tinham começado, o barulho, a pressão e o calor desapareceram, enquanto que a nave, empurrada pelos seus seis reactores, ganhava velocidade e desaparecia no céu, até se tornar apenas num pequeno ponto em movimento. "Lá se foi a minha única hipótese de sair daqui!", pensou ele, resignadamente,"- O melhor é pôr-me a caminho e ver se encontro alguém." Assim, Roger pegou na sua saca e começou a caminhar pelo trilho que se internava na floresta. As marcas de pneus no chão mostravam que era por ali que a empilhadora tinha seguido. De facto, após 10 minutos de caminhada, ele avistou um pequeno desvio no trilho e rapidamente avistou as caixas metálicas que a máquina trouxera. Elas estavam colocadas junto de um pequeno edifício achatado, de aspecto sólido, cuja cor cinzenta contrastava com tudo ao seu redor. Veckin identificou-o como sendo um bunker de armazenamento. Avançando mais um pouco por esse caminho, viu que por detrás desse primeiro edifício encontravam-se outros semelhantes. Num deles uma maciça porta de metal abriu-se, saindo de lá uma empilhadora em tudo semelhante à da nave que o trouxera até ali. Roger sabia que essas máquinas eram controladas pela I.A. da plataforma de aterragem. Veckin, limpando da testa o suor que a encharcava e lhe escorria pela cara, decidiu seguir a máquina. A sua caminhada foi curta. Assim que entrou na clareira que albergava os bunkers e onde a empilhadora trabalhava, uma série de ruídos metálicos fizeram-se ouvir. Alertado por tal facto, Roger parou exactamente onde estava. No momento em que fez isso, viu surgir dois pequenos pontos vermelhos na parte da frente do seu uniforme. Tentando não fazer movimentos bruscos, levantou a sua cabeça um pouco e olhou em frente. De um buraco do chão, tinha surgido um pequeno pedestal metálico que suportava uma arma e uma panóplia de sensores. De um deles, saía a mira laser que o marcava. Lentamente, ele virou a cabeça para os dois lados, tentando descortinar a origem da outra mira. Parcialmente escondida na vegetação ao seu lado esquerdo, surgia uma segunda arma. Olhando novamente em frente, Roger deu graças a si mesmo por ter reconhecido os ruídos e ter tido a presença de espírito para parar de imediato. Ele estava tão resolvido a seguir a máquina que até se esquecera que era o procedimento normal, instalar as chamada Armas Automáticas de Defesa de Perímetro. Qualquer instalação militar terrestre, por mais pequena que fosse, estava equipada com aparelhos desse género. - Se continuas a ser tão descuidado, ainda acabas por morrer aqui.- disse ele em voz baixa para si mesmo. Enquanto ele dizia isto, a I.A. que controlava as armas começou a recitar os seus avisos numa voz metálica: - ATENÇÃO INTRUSO! VOCÊ ACABA DE VIOLAR O PERÍMETRO DE SEGURANÇA DE UMA BASE DAS FORÇAS ARMADAS TERRESTRES. SE NÃO RECUAR DE IMEDIATO SEREI OBRIGADA A ABRIR FOGO. TENHA UM BOM DIA! Sabendo de antemão o que os tiros de uma daquelas armas fariam a um ser humano desprotegido, Roger apressou-se a recuar, pegando na sua saca e dando meia volta, tomando o caminho por onde tinha vindo. Quando decidiu que estava a uma distância segura, virou-se para trás. A arma que tinha estado directamente à sua frente, regressava ao seu esconderijo no solo e ele supôs que a outra estaria a fazer a mesma coisa. Entretanto, a empilhadora carregada já com as caixas metálicas, regressava ao bunker de onde tinha saído. A I.A. tinha-se limitado a afastar o intruso, sem se quer dar ao trabalho de o tentar identificar. Pelo vistos ninguém da guarnição do planeta se tinha lembrado de a avisar de que iria chegar alguém. E também não se tinham lembrado de o ir buscar à plataforma..... Sem mais nada para ver ali, Veckin continuou pelo trilho principal. Ao fim de cerca de 45 minutos de caminhada, ele deparou com uma estrada em perfeitas condições que se estendia quer para a sua esquerda quer para a sua direita. As suas dúvidas sobre qual seria a direcção a seguir dissiparam-se completamente, no momento em que avistou uma placa que, apontando para a sua direita, dizia que faltavam cinco quilómetros para a cidade de Asher. Visto que aquela era a única placa nas imediações, Roger decidiu seguir na direcção por ela indicada. Ele estava de tal maneira absorto a insultar mentalmente o planeta e a incompetência do Exército Terrestre que mal ouviu o barulho do veículo que se aproximava por detrás dele. Dando meia volta, ele começou a fazer sinais com os braços para que este parasse. Com uma nuvem de poeira provocada pelas suas enormes ventoinhas, o veículo parou alguns metros depois dele, assentando levemente a sua parte inferior almofadada no chão. Em passo de corrida, Roger foi na sua direcção e assim que abriu a porta do veículo perguntou ao condutor: - Vai para Asher? - Há mais alguma cidade no planeta?- respondeu o homem, fazendo-lhe de seguida sinal para entrar no veículo. Assim que o Tenente entrou, o hovercarro continuou a sua viagem. PLUTÃO, ALIANÇA TERRESTRE - Bem-vindo à Base de Amudsen, Comandante Adama!- Estas palavras, ditas em Koboliano, foram a primeira coisa que Adama ouviu assim que pôs os pés na plataforma de aterragem existente nas profundezas do último planeta do Sistema Solar. O seu interlocutor era um homem baixo, vestido com um uniforme da Aliança Terrestre e com todos os tiques de alguém que estava habituado a receber convidados importantes e que por isso se julgava superior a todos os outros. Atrás dele encontravam-se uma série de outras pessoas, vestidas com uniformes das diferentes potências terrestres e também outros indivíduos que estavam vestidos casualmente e com ar de quem preferiam estar noutro local que não naquela recepção, indícios certo de que eram os cientistas da base. "É exactamente com eles que eu quero falar....", pensou Adama para si mesmo, enquanto que trocava uma série de cortesias com o homem que o tinha recebido e que era o Comandante da Base. A seu lado, o Doutor Wilker também mexia nervosamente os pés, num sinal claro de que também queira começar a trabalhar. -......preparamos uma pequena festa para os nossos distintos convidados.- Assim que o Comandante da Base disse estas palavras, Adama virou-se para ele e disse: - Eu por acaso pensei que podíamos começar com uma reunião com os cientistas da Base..... - Ah sim..... É claro que sim...- respondeu de imediato o homem, exibindo um sorriso que tentava esconder o desagrado que sentia por lhe estarem a estragar os planos.- Mas primeiro temos que ir até à festa, porque os nosso cozinheiros passaram uma série de horas a preparar tudo.... Adama ainda pensou em argumentar mais uma vez, mas achou que o melhor era deixar cair o assunto. Afinal de contas ele era um convidado da Aliança Terrestre e não era correcto antagonizar os seus anfitriões logo no primeiro encontro. - Muito bem...- acabou ele por dizer, fazendo sinal para que o Comandante lhes indicasse o caminho. Este exibiu um pequeno sorriso de triunfo e dirigiu-se de imediato para um pequeno carro, não se dando sequer ao trabalho de apresentar as outras pessoas que estavam atrás dele. Apesar disso, Adama e Wilker fizeram questão de as cumprimentar, o que se fez com que fossem objecto de uma série de sorrisos de agradecimento e de uma série de olhares de desprezo por parte do Comandante. Quando entraram no carro, o representante da Aliança Terrestre começou a sua pequena vingança, enchendo os dois convidados com uma série de dados inúteis sobre a Base. Os dois Coloniais foram obrigados a ouvir aquele discurso monótono por mais de dez centons, enquanto que o carro onde iam liderava uma pequena caravana de outros veículos através do túnel que ligava os hangares ao sector principal da Base. - Ao menos ele fala bem Koboliano....- murmurou discretamente o Doutor Wilker a Adama. O comentário do Doutor fez com que o Comandante se lembrasse de algo que sempre quisera perguntar. Fazendo um pequeno gesto, interrompeu o Terrestre e disse: - Peço desculpas por estar a interromper, mas onde é que aprendeu a falar Koboliano? - Como?- respondeu o outro, parecendo não perceber a pergunta. - Onde é que aprendeu a nossa língua?- insistiu de novo Adama, fitando o seu interlocutor. - Ah...isso....- disse o homem. Levando a mão ao pescoço, mostrou o pequeno implante metálico que indicava que ele possuía um nanocomputador. Apontando para esse implante continuou: - Assim que soubemos que íamos ter visitas eu fiz uma descarga do programa linguístico da nossa I.A. . - Então é o seu computador que está a falar?- perguntou Wilker, mostrando-se totalmente interessado. - Não, nada disso....- disse ele abanando a cabeça num gesto negativo.- Isto funciona mais como um programa de aprendizagem. Assim que fiz a descarga foi como se sempre tivesse sabido falar a vossa língua. O programa linguístico ensinou-me tudo.... - Mas você fala com sotaque de Aquaria....- retorquiu Adama. - Aí sim?- disse o Terrestre, encolhendo os ombros.- Eu não noto a diferença..... - Mas quem é criou esse programa linguístico?- perguntou Wilker. - Não faço a mínima ideia. Sei que foi o Comando Militar da Aliança Terrestre que o mandou..... - Já agora, assim que recuperei, estive a ver as nossa gravações do primeiro contacto e o vosso representante.....como é ele se chamava....?- disse Adama, parando por momentos, procurando o nome na memória. - O Almirante Kane Dawnson....- completou o outro Colonial. - Exactamente! Obrigado, Doutor Wilker.- agradeceu Adama, continuando depois: - O Almirante Kane Dawnson falou connosco em Koboliano.....Como é que ele sabia a língua? - Novamente, não faço a mínima ideia....- murmurou o Comandante Terrestre, encolhendo os ombros.- Esse estilo de questão tem de ser feito à Marinha porque eles é que foram os responsáveis pelo contacto.... Com esta resposta, ele voltou de novo a contar a história da Base, só parando quando eles finalmente chegaram ao destino. A festa acabou por demorar um certo tempo, mas a verdade é que Adama até a começou a apreciar pois teve oportunidade de entrar em contacto com os cientistas que trabalhavam na Base. Os grupos misturavam-se espontaneamente e os dois Coloniais eram procurados por todo. A certa altura, o Comandante deixou o Doutor Wilker a conversar com dois biólogos, um da Aliança e outro da Corporação, e dirigiu-se para a mesa onde estavam as bebidas, procurando obter mais um copo da bebida a que os Terrestres chamavam "limonada". Assim que lhe serviram a bebida, tornou a dirigir-se para junto do grupo onde Wilker estava, mas antes que o pudesse fazer foi interceptado por uma jovem mulher. Pelo hálito dela era nítido que não havia estado a beber limonada, facto esse reforçado pela dificuldade que ela tinha em se expressar convenientemente: - Você é o Comandante Adama, certo....- acabou ela por perguntar num Koboliano hesitante. - Sou sim....- respondeu ele, pensando no que deveria fazer perante aquela situação. A jovem vestia uma simples calças pretas e um camisolão da mesma cor e a única identificação que trazia era um pequeno emblema na manga esquerda, emblema esse onde se podia ver uma ave, à qual os Terrestres chamavam águia, de asas aberta e agarrando uma estrela vermelha e azul. Adama sabia que esse era o símbolo da União das Nações Marcianas mas isso pouco o informava em relação à identidade da mulher. - O General Bradford esteve a fazer-lhes aquele discurso chato sobre esta Base, não esteve?- continuou ela a dizer, pondo-se directamente à frente dele. - Mas aposto que ele não vos contou os pormenores da construção, pois não??? À medida que ela ia falando, o seu tom de voz ia-se elevando, o que fez com que alguns dos presentes se virassem nessa direcção. Adama reparou pelo canto do olho que o Comandante da Base, o General Bradford, se estava a dirigir para eles. - Aposto que ele não teve os tomates para vos contar como esta Base foi construída com trabalho escravo!!!- a jovem quase que berrou esta última frase, parecendo depois hesitar um pouco antes de continuar em inglês: - A "magnífica" Aliança Terrestre enviou para aqui todos os seus opositores políticos e obrigou-os a trabalhar até à morte!!!! - Minha senhora, o melhor é falar mais baixo...- disse Adama, agarrando-a gentilmente pelo braço.- Acho que ainda se vai meter em sarilhos..... A rapariga não o tentou afastar, mas também não deixou de falar em voz alta: - O meu pai morreu aqui.....Só porque teve a coragem de denunciar o que a Aliança andava a fazer à Colónia de Marte..... Com estas palavras, ela desatou a chorar convulsivamente, agarrando-se a Adama. O General Bradford, com a cara vermelha de raiva, aproximou-se deles e berrou na direcção da mulher: - Pode ter a certeza que o seu trabalho aqui acabou!!! Você vai-se embora no próximo vaivém que chegar!!! - E quem é que vai ordenar isso?- perguntou de repente um homem que envergava o uniforme da Corporação e que tinha sido apresentado a Adama como sendo o Director daquela Base. - Eu vou!!!- berrou Bradford.- Esta mulher desde que chegou aqui só tem destabilizado o trabalho. - O General está-se a esquecer de que este local, apesar de ser uma Base da Aliança Terrestre, está sob o controle da Corporação da Cintura.....- respondeu calmamente o homem, aproximando-se um pouco do seu opositor.- Eu é que decido sobre quem é que vai embora e quem é que fica! Antes que o General da Aliança pudesse dizer alguma coisa, aproximou-se daquele pequeno grupo uma mulher envergando o uniforme do Exército da União das Nações Marcianas. Sem dizer nada, ela tocou no ombro da jovem que continuava a chorar agarrada a Adama. Assim que esta se virou ela fez-lhe um pequeno sinal com a cabeça e a rapariga seguiu-a. Ao passar pelo General, a mulher mais velha disse, simplesmente: - Quantos de nós é que você enterrou aqui? Bradford ficou ainda mais vermelho, de tal maneira que Adama pensou que lhe iria acontecer alguma coisa. As duas mulheres dirigiram-se para a saída da sala, passando pelo meio da multidão, que tinha assistido silenciosamente a tudo. Uma série de homens e mulheres que envergavam as fardas da União das Nações Marcianas aproveitaram também a ocasião para abandonarem a festa, que estava definitivamente estragada. - A Coronel Natasha sabe mesmo fazer uma saída...- murmurou o Director da Base para si mesmo, mas de modo a que Bradford e Adama ouvissem. - Comandante Adama, peço imensas desculpas pelo que se passou...- disse o General, tentando recuperar o controle da situação e de si mesmo. - Não faz mal.- respondeu Adama, achando que aquele era o momento para fazer um pedido: - Mas agora agradecia que indicassem onde ficam os meus aposentos pois eu gostava de descansar um pouco antes de me reunir com as vossas equipas científicas.....E tenho a certeza de que o Doutor Wilker também gostava de descansar. - Sim, com certeza!- concordou o General, pondo um certo ar de alívio pois assim também tinha a oportunidade para acabar com a festa.- Eu indico-lhes o caminho..... Com estas palavras a festa acabou definitivamente e as pessoas foram saindo. O General acompanhou os dois visitantes Coloniais, continuando a pedir desculpas pela cena que a mulher havia feito. O Director também os acompanhou, exibindo um pequeno sorriso sarcástico. Assim que Adama e Wilker chegaram aos seus aposentos, o General deixou-os, mas o Director ficou ainda por alguns momentos. Adama não conseguiu resistir à tentação e teve que fazer a pergunta que o atormentava: - Aquilo que a rapariga disse é verdade? O Director, cuja placa no uniforme dizia que se chamava John Tyler, hesitou por momentos mas acabou por dizer, em Koboliano: - Se eu não vos disser, alguém o fará.....- parando por momentos, ele pareceu ganhar coragem e continuou:- Quando a Corporação passou a tomar conta de todas as ruínas extraterrestres, eu fui destacado para aqui. Isto era uma base totalmente controlada pela Marinha Terrestre..... Por momentos, o homem pareceu estar a fitar o vazio e os dois Coloniais tiveram a certeza de que ele se estava a relembrar do passado. E esse passado não devia ter sido nada bom. -....eu era Tenente do Exército da Corporação e uma das nossas missões era fazer o mapeamento da superfície de Plutão, pois havia a possibilidade de haver vestígios ai. Um das nossas equipas descobriu sinais de escavações recentes e de imediato pensamos que a Marinha Terrestre nos andava a esconder ruínas.....- Tyler parou a sua história e cerrou os punhos, hesitando novamente antes de continuar.- Às vezes ainda penso se o melhor não teria sido se nós não tivesse-mos descoberto nada..... - Encontraram corpos, certo?- perguntou Adama, temendo a resposta. - Exactamente. Para ser mais exacto, descobrimos uma vala comum com mais de mil e cem corpos..... Adama e Wilker trocaram um olhar de espanto entre si e um enorme sentimento de repulsa invadiu-os. Nunca na história das Doze Colónias tinha havido algo parecido. Por mais duro que fosse o regime, a verdade é que havia sempre respeito pela vida Humana, pois um dos ensinamentos dos Senhores de Kobol era o de que esta era sagrada. - Devido às temperaturas negativas, os corpos estavam conservados e puderam ser autopsiados.- continuou o Director a contar. - A maior parte dos prisioneiros tinham morrido de fome e cansaço, mas havia 345 que tinham sido executados com tiros na nuca. Chegamos à conclusão de que esses tinham sido abatidos já depois da Colónia de Marte ter obtido a independência. - E ninguém foi responsabilizado por esse crime?- perguntou o Doutor Wilker. - Assim que as provas foram apresentadas, a Aliança criou um Tribunal Militar Especial para investigar o caso. Como não havia provas nem testemunhas contra ninguém, o Tribunal limitou-se a condenar à morte todos os oficiais superiores da Marinha que haviam prestado serviço aqui na Base. - Mas essa solução foi tão brutal como o crime!!- disse Adama, indignado com a falta de respeito que os Terrestres tinham pela vida. - Ninguém é perfeito, Comandante Adama....- respondeu simplesmente o Director.- Mas o pior é que no período entre o princípio das Guerras Coloniais e o seu fim, a Aliança prendeu mais de 1 milhão de pessoas por "crimes políticos contra o Estado" e quando abriram as suas prisões, já só restavam cem mil. Nunca se soube o que aconteceu às outras, mas a verdade é que ninguém pode forçar a Aliança a fazer essa revelação.... Depois de dizer estas palavras, o Director despediu-se dos seus dois convidados e foi-se embora. Adama e o Doutor Wilker trocaram algumas palavras de despedida e retiraram-se para os seus respectivos aposentos. Nenhum dos dois conseguiu verdadeiramente descansar, pois não lhes saia da cabeça a história daquela Base que parecia agora povoada de fantasmas e segredos obscuros. COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE ARREDORES DA CIDADE DE KARN - Starbuck?- murmurou Cassiopeia, ainda meio ensonada, ao sentir que o seu marido não se encontrava a seu lado na cama. Erguendo-se um pouco na cama, viu que a sala de jantar estava iluminada por uma pequena luz azulada. Levantando-se da cama, com cuidado para não acordar Palias que dormia num berço ao lado, Cassiopeia vestiu um roupão e dirigiu-se para a sala. Tal como esperava, a luz vinha do sistema holográfico principal da casa. A imagem do novo Viper enchia o ar sobre a mesa de jantar, girando sobre si mesma. Starbuck estava sentado num dos sofás da sala, a fitar a imagem, enquanto que fumava um dos seus fumarellos. - Não conseguias dormir?- perguntou-lhe Cassiopeia, sentando-se ao lado dele. - Não- respondeu simplesmente o antigo Capitão, levando mais uma vez o seu fumarello à boca. Apontando para a imagem holográfica disse: - O Viper não me sai da cabeça..... Com um suspiro, Cassiopeia abraçou-o e disse: - Eu notei isso assim que o Boomer nos visitou ontem... - Será que eles não compreendem que eu quero ficar em paz....- desabafou Starbuck, lançando uma baforado de fumo.- Que quero viver contigo e com a nossa filha.... - Ninguém te está a obrigar a voltar a ser um Guerreiro..... Starbuck não disse nada, voltando a fitar a imagem do Viper. Durante os yahrens em que eles tinham estado a fugir dos Cylons, Apollo tinha defendido a ideia de que era preciso um novo modelo de Viper. O novo caça deveria ter mais poder de fogo e uma maior manobrabilidade do que os Vipers normais e que os Raiders dos Cylons. O problema era encontrar matérias-primas em quantidade suficiente e reconfigurar as naves-fundição para a construção deste novo modelo. Numa altura em que a Frota estava em perigo constante, não era possível fazer nenhuma destas coisas e por isso tinha-se continuado a construir os Vipers de sempre. É claro que agora, numa altura em que a Frota tinha chegado ao seu destino, havia a possibilidade de construir os novos Vipers. - Mas, apesar de tudo, eu quero voar nele.....- disse Starbuck, apontando de novo na direcção do Viper. - Sabes perfeitamente que eu não te vou dizer que não vás voar....- disse Cassiopeia, olhando-o nos olhos.- A decisão tem de ser tua, eu não te vou pressionar pois sei que tu és um cabeça dura e que não vale a pena.... Starbuck lançou uma sonora gargalhada perante este comentário da mulher e apagou o seu fumarello. Levantando-se, disse: - Decidi que só vou decidir amanhã....Para já, vamos ver se conseguimos dormir antes que a Palias acorde.... No momento em que ele acabava de dizer isso, o choro da criança chegou até à sala e os seus pais dirigiram-se para o quarto. Antes de sair, Starbuck desligou o sistema holográfico, não olhando sequer para a imagem que continuava suspensa no ar. Com um grito, Starbuck acordou na altura em que morria no seu sonho. A seu lado, Cassiopeia acordou de imediato. - Está tudo bem, Starbuck!!- disse ela, abraçando o seu marido. Ele estava totalmente encharcado de suor, embora a noite estivesse fria.- Está tudo bem!! Controlado a sua respiração, o antigo Guerreiro tentou acalmar-se. Fitando o berço, que estava ao lado direito da cama, viu que Palias felizmente não tinha acordado. Os primeiros sinais do amanhecer entravam pela persiana que cobria a janela panorâmica do quarto, iluminando levemente a criança que ainda dormia profundamente. - Que se passou?- perguntou Cassiopeia.- Tiveste algum pesadelo? - Sim....- murmurou Starbuck, não dizendo mais nada e sentando-se na cama. - Não me digas que foi aquele...... Na luz que invadia o quarto, ela viu o seu marido acenar afirmativamente com a cabeça. O sonho de que Cassiopeia falava era aquele que o tinha assombrado durante quase um yahren e no qual ele morria, abatido por um Raider de cor vermelha. Ela sabia que não podia fazer nada para parar esses sonhos e a única coisa que podia fazer era reconfortar o seu marido e, assim sendo, abraçou-o com força, sentindo o corpo deste tremer. Starbuck nem sequer se apercebeu do contacto da sua mulher, pois estava absorto em pensamentos. Pela primeira vez desde que tinha tido aquele sonho, conseguia-se lembrar de uma série de pormenores. O Raider que o abatia não era um Raider normal. Para além de ser de cor vermelha, parecia ser muito mais pequeno, com umas asas diferentes do habitual e com um cockpit mais estranho. Para além disso, o combate estava a ser travado no meio de uma batalha e Starbuck tinha a certeza que tinha visto uma série de naves de modelo desconhecido. Outro pormenor que agora era claro e do qual ele nunca se tinha apercebido até então é que o Viper que ele estava a pilotar no sonho era da classe Scarlet. Nas outras ocasiões em que tinha tido o sonho, apenas se tinha apercebido de que a disposição dos instrumentos era diferente do normal, mas sempre pensara que isso resultava do facto de estar a sonhar. Um enorme sentimento de medo invadiu-o, aparecendo do nada. Como que hipnotizado, ele afastou gentilmente Cassiopeia de si, levantou-se da cama e dirigiu-se para a sala de jantar. O cristal que Boomer lhe dera ainda estava inserido no sistema holográfico e ele só teve que o activar. Assim que a imagem encheu o ar à sua frente, uma série de tremores invadiram-no. O Viper que aparecia apresentava uma série de danos enormes, tendo até perdido o seu característico nariz e tendo a sua pintura vermelha manchada por enormes queimaduras negras de turbolasers. No interior do cockpit, podia-se ver uma pequena figura de um Guerreiro, com a cabeça caída contra o que restava da carlinga. Starbuck tinha a certeza que era ele que ali estava. Ele ia morrer naquele Viper!! Pela segunda vez em poucos centons ele gritou, enquanto deslizava para a inconsciência. Quando Cassiopeia saiu a correr do quarto, encontrou o seu marido inconsciente no chão. Enquanto se baixava para ver como é que ele estava, fitou a imagem projectada pelo sistema holográfico. O Scarlet Viper continuava a girar sobre si mesmo, pondo à mostra todas as alterações em relação aos antigos Vipers e não apresentando o mínimo dano. Voltando a sua atenção para Starbuck, Cassiopeia começou a ver se o conseguia por consciente. Por cima da mesa, a imagem holográfica continuou visível até ao momento em que Cassiopeia decidiu pedir ajuda aos aposentos dos empregados e desligou o sistema holográfico da sala de jantar. - CAPÍTULO 4 - COLÓNIA DE LAVOS-306, ALIANÇA TERRESTRE - Anne, ainda demoras?- berrou impacientemente Kristiane Lockhart, olhando de novo para o relógio.- A cerimónia começa daqui a dez minutos...... Suspirando de resignação, a rapariga decidiu que não podia adiar mais a situação e acabou por sair do quarto. A sua mãe nem sequer lhe lançou um olhar, limitando-se a abrir a porta da pequena casa onde viviam e dirigindo-se para o velho veículo que estava parado no passeio em frente desta. Seguindo a mãe, Anne saiu de casa, tendo o cuidado de fechar a porta atrás de si pois embora aquela colónia fosse pacífica, a verdade é que os assaltos não eram raros. - Fechaste bem a porta?- perguntou-lhe Kristiane assim que ela entrou no hovercarro. - Acho que viste que sim....- respondeu Anne, não fazendo o mínimo esforço para se fazer ouvir por cima do barulho das turbinas do veículo. - Minha menina, estás a ficar muito respondona.....- disse a mãe, ouvindo o que a filha tinha dito.- Estou a pensar em mandar-te para uma escola a sério.....acabaram-se as I.A. e as aulas em casa... - Mãe....- disse a rapariga, num tom de súplica. Aquela ameaça era feita sempre que a jovem discutia com Kristiane, e ambas sentiam que mais tarde ou mais cedo isso ia acontecer. Depois daquela troca de palavras o resto da viagem foi feito em silêncio. O hovercarro seguiu rapidamente na direcção do principal estádio da cidade de Port Arthur. A pouco mais de dois quilómetros do local, o trânsito começou a parar e as pessoas começaram a parar os seus veículos ao longo da auto-estrada. Como a cerimónia estava quase a começar, Kristiane decidiu fazer o mesmo e rapidamente estacionou o seu hovercarro. As duas juntaram-se a uma pequena multidão que se deslocava pelo meio dos carros parados, na direcção do estádio. As pessoas conversavam espontaneamente entre si. Aquele tipo de cerimónias era um marco na história de qualquer colónia e toda a gente estava contente por poder assistir a tal acto. A Administração Colonial tinha pensado nisso e no exterior do recinto estavam instalados dois enormes projectores holográficos que mostravam tudo o que se passava. É claro que essa medida era destinada a todos aqueles que não tinham conseguido arranjar lugar no estádio propriamente dito. - O melhor é ficarmos já por aqui....- acabou Kristiane por dizer, vendo que a maior parte das pessoas à sua volta se estava a sentar, pois daquela colina onde estavam tinham uma boa vista para os projectores. - Bem podíamos ter ficado em casa......- murmurou Anne, enquanto se sentava.- Ao menos não sujávamos a roupa..... A mãe preferiu ignorar o comentário da filha, preferindo fitar as enormes imagens que enchiam o ar no exterior do estádio. As câmaras no interior deste estavam a fazer uma panorâmica das bancadas, onde uma enorme multidão se apinhava. Quando elas finalmente focaram o palco montado no meio do relvado, surgiram nas imagens uma série de altos dignatários da colónia. Os espectadores no estádio lançaram uma enorme ovação que rolou até ás pessoas que estavam nas colinas e que aumentou quando estas juntaram as suas vozes a ela. O visado pela ovação surgiu nos projectores holográficos e toda a gente pode ver que ele estava embaraçado com aquilo. O Governador Colonial Alberto Gomes era conhecido pela sua modéstia e também por ser um homem trabalhador. Em pouco mais de dez anos ele tinha desenvolvido aquela colónia da Aliança Terrestre. Era exactamente por causa desse esforço que aquela cerimónia estava a decorrer. - Caros cidadãos.....- começou ele a dizer, sendo interrompido por uma nova ovação e apenas retomando o discurso quando ela morreu.- ....Caros Cidadãos, este é um grande dia para todos nós. Como devem saber, atingimos a meta dos vinte e cinco mil colonos..... Na altura em que disse isso, a câmara focou a imagem de um casal que se encontrava no palco, sentados junto de todos os outros dignatários. A mulher, de aspecto jovem, exibia um enorme sorriso e tinha nos seus braços um bebé. Essa criança, chamada Eric Smith Estrada, era exactamente o habitante número vinte e cinco mil da Colónia de Lavos-306. Os seus pais eram dois colonos que tinham vindo do Sector Euro-Asiático da Terra e que iriam ficar para sempre nas páginas da história da colónia, recebendo um subsídio do Governo Colonial, que pagaria ainda a educação de Eric. - ....Este momento é muito marcante pois, a partir de agora, deixamos de ser uma colónia.......- continuou a dizer Alberto Gomes, preparando-se para receber a ovação que sabia que iria surgir com as suas próximas palavras.-..... a partir de hoje, passamos a ser o planeta New Hope!!! Anne, apesar de achar que toda aquela cerimónia era chata e desnecessária, não pôde deixar de gritar assim que ouviu as palavras do Governador. Ela tinha vindo para o planeta com dois anos de idade, estando a sua mãe na primeira leva de colonos que tinha sido enviada pela Aliança. As suas recordações da Terra eram vagas e por isso Anne sempre encarara Lavos-306 como a sua casa. Sendo assim, não era estranho que também ela estivesse orgulhosa por ver a colónia tornar-se num planeta, com direito a um assento no Parlamento da Aliança Terrestre. O Governador estava exactamente a dizer isso, o que provocou ainda mais aplausos por parte da multidão. A Aliança Terrestre, não querendo repetir os erros que tinham levado às Guerras Coloniais, tinha começado a escolher as pessoas que mandava para as suas colónias, tendo em conta o sentido de patriotismo de cada um dos candidatos e chegando ao ponto de investigar os antecedentes familiares de cada um. É claro que mesmo assim havia contestatários que conseguiam tornar-se colonos, mas a grande maioria das pessoas acreditava na Aliança e em tudo aquilo que ela representava. O Governador acabou o discurso, com os olhos marejados de lágrimas e acenando para a multidão. Assim que saiu do pódio um homem, com o uniforme de General da Aliança Terrestre, tomou o seu lugar. Também ele esperou que a multidão se acalmasse antes de começar o seu discurso: - Antes de mais, gostava de dar os meus parabéns a todos vocês....- muitas pessoas notaram o olhar duro do General Thomas Stiwell, um dos heróis da Aliança e um dos responsáveis pela defesa desta última. As palavras seguintes dele confirmaram essa ideia: - ....o facto de se terem tornado um planeta da Aliança é uma honra. Mas é claro que com a honra também vem a responsabilidade..... Nesta altura, as pessoas que estavam à volta de Anne e Kristiane começaram a falar entre si. A maior parte delas já tinham uma ideia do que lhes iria ser pedido. Como que a confirmar esse receio, o General Stiwell disse: -...A vossa responsabilidade vai ser a criação de um Regimento da Guarda Planetária. Todos os cidadãos entre os 18 e os 30 anos devem-se apresentar, a partir da próxima segunda-feira na sede da Administração Colonial. Fazendo uma pequena pausa, o General pareceu esperar por alguma reacção negativa por parte da multidão. Como essa não surgiu, ele continuou a falar: - Como devem saber, o perigo agora vem de fora. Uma raça extraterrestre, os Cylons, está a ameaçar toda a Humanidade. Este planeta, ao estar próximo da Cintura Exterior de Asteróides, vai ser um dos principais campos de batalha se a invasão Cylon se der.... Anne deixou de prestar atenção ao que o homem dizia e fitou a sua mãe. Kristiane continuava ouvir as palavras do General com um ar atento e só passados alguns segundos é que olhou para Anne. - Que foi?- perguntou ela, olhando para a rapariga. À volta delas, as pessoas começavam-se a levantar, visto que o discurso já estava a acabar e para todas aquelas que estavam entre os 18 e os 30 anos, a festa estava estragada. - Também vais para a Guarda Planetária? - É claro que sim....- disse a mulher, apercebendo-se de imediato do que estava a preocupar Anne.- Mas não te preocupes.... só aos fins-de-semana é que temos treinos e não somos enviados para outros sítios...Somos uma força de defesa.... A rapariga nada disse, limitando-se a acenar com a cabeça. A única coisa que ela se lembrava da Terra era o facto de que o seu pai, um Major do Exército Terrestre, tinha partido para a Lua durante a Primeira Guerra Colonial e não havia voltado. Apesar de passarem a maior parte do tempo a discutir, Anne não queria que a mãe seguisse o mesmo caminho. Kristiane pareceu adivinhar o que a filha estava a pensar e abraçou-a, tentando reconfortá-la. A discussão que as duas tinham tido ao princípio da tarde estava já esquecida. Levantando-se, mãe e filha dirigiram-se para o local onde tinham estacionado o veículo e foram para casa. ALGURES NO ESPAÇO, ENTRE AS COLÓNIAS DE LAVOS-306 E LAVOS-304 Com um ligeiro "toque" dos motores de manobra, o cruzador T.D.F. Berlin tomou posição no meio das fragatas que o iriam escoltar naquela patrulha. A Base Naval existente em órbita de Lavos-305 tinha ficado para trás há mais de 10 horas, assim como o Grupo de Resposta Rápida da Marinha. Aquela patrulha era apenas uma das muitas que vigiava o sector do anel de asteróides e a primeira vaga de defesa em caso de um ataque Cylon. "Eva, estamos preparados para o salto?", subvocalizou o Comandante Hans Zimmer assim que recebeu a informação de que o seu cruzador estava em posição. "Ainda não, Capitão....", respondeu a I.A, "Há uma nave civil que ainda está nesta zona e que pode ser afectada." - Já comunicaram com a nave?- perguntou Zimmer em voz alta, na direcção do oficial que estava de serviço aos sensores. Ele era daquela "velha guarda" que gostava de manter os seus subalterno ocupados, apesar da I.A. ser capaz de fazer as mesmas coisas muito mais rapidamente e mais eficientemente. Ele não partilhava da ideia, que circulava em alguns sectores da Marinha, de que os tripulantes da Ponte apenas existiam para servirem de apoio em caso de problemas com as I.A. e com os computadores centrais. - Sim, Capitão!- respondeu o homem, fazendo surgir de imediato as informações no tanque holográfico existente no centro da Ponte, em frente da cadeira do Capitão.- Trata-se de um voo comercial entre as colónias de Lavos-304 e 306. Tomei a liberdade de contactar as Estações Orbitais dessas colónias e os dados estão correctos. - Muito bem.- respondeu Zimmer, não se dando ao trabalho de elogiar a iniciativa do seu subalterno. Todos os tripulantes do T.D.F. Berlin sabiam que tinham que se empenhar a 100% no que faziam. "Presumo que assim que a nave se afastar podemos saltar....", perguntou Eva. "Claro que sim....", disse ele, acedendo aos dados que tinha recebido na Base Naval. Segundo eles, aquelas naves comerciais demoravam cerca de um dia e meio a fazer as viagens entre as duas colónias. Ainda não havia população suficiente, nem comércio, para viabilizar uma careira regular com naves equipadas com motores de salto: " Quanto tempo falta para ela estar fora do alcance?" "Dez minutos" - Meu Deus, como eu odeio estas esperas...., murmurou o Comandante. Assim que a nave alcançou a distância mínima de segurança, a patrulha accionou os seus motores e saltou na direcção do Anel de Asteróides. COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE SEDE DO COMANDO PLANETÁRIO DE DEFESA Apollo consultou mais uma vez os dados que Boomer lhe tinha dado. Segundo as estimativas do Comandante da Defesa Planetária, faltavam dois sectares para a segunda Estrela-de-Batalha estar operacional. As quatro Esquadrilhas que iriam servir na Kobol estavam preparadas, só faltando mesmo escolher os tipos de Vipers que lhes seriam atribuídas. - Tiveste alguma notícia do Starbuck?- perguntou Apollo, ao ver este último ponto. A produção em série dos novos Vipers MK II só começaria quando os últimos testes de voo fossem feitos. Abanando negativamente a cabeça, Boomer disse: - Não, quando falei com ele fiquei com a impressão de que iria aceitar, mas ainda não disse nada... - Era óptimo se ele o testasse...- desabafou Apollo.- Se o Viper tiver algum problema, de certeza que ele o descobre.... - Não podemos estar eternamente à espera dele.....- disse o Comandante da Defesa, mostrando-se preocupado com a situação.- A Kobol precisa de estar na sua máxima capacidade quando for lançada.... Apollo levou as mãos à cabeça e apoiou-se na secretaria de Boomer, pensando. A sua amizade por Starbuck era enorme e ele tinha a certeza que o Capitão era ideal para testar as novas armas Coloniais, mas a verdade é que havia urgência naqueles testes e Boomer tinha razão. - Vamos fazer assim.....- começou Apollo a dizer, olhando para o seu amigo.- Esperamos mais um secton..... - E se ele não disser nada? - Nesse caso, arranjamos alguém que faça os testes de voo..... Fazendo uma pequena pausa, Apollo consultou o computador pessoal que trazia e mudou de assunto: - Segundo as novas estimativas da Corporação, a terceira Estrela-de-Batalha deverá estar pronta daqui a quatro sectares.... - Tendo em conta que ela deveria estar pronta na mesma altura que a Kobol.....- disse simplesmente Boomer, não mostrando qualquer irritação apesar de nunca ter concordado com a decisão do Concílio dos Doze.- Os Terrestres nunca construíram uma Estrela-de-Batalha. - Não te preocupes... Os nosso técnicos dizem que eles estão a aprender depressa. Mais dois yahrens e de certeza que eles já as constróem sem a nossa ajuda... - E isso será bom? Apollo parou por momentos, encarando o seu amigo. Boomer partilhava com ele um certo mal-estar em relação aos Terrestre, especialmente os militares. -....Até agora, a Corporação tem sido totalmente correcta connosco e mesmo entre as diferentes facções Terrestre ela é bem vista.... Boomer assentiu com a cabeça e mudou ele de assunto: - E em relação à Nave-Base capturada? Eu sei que falaste disso na conferência, mas obtiveste algum tipo de resultados? - Os principais chefes da Marinha da Aliança asseguraram-me que ela será enviada para cá ainda este sectar. - Espero bem que sim, porque temos uma série de ideias para ela....- disse Boomer, exibindo um sorriso enigmático. - Posso saber quais?- perguntou Apollo, endireitando-se na cadeira e chegando-se um pouco para a frente, curioso com as palavras do amigo. Exibindo de novo o seu sorriso, Boomer limitou-se a dizer: - Infelizmente, prometi que guardava segredo....só posso dizer que vai ser algo.. ....diferente... - Sendo assim, não insisto.... Mantendo o sorriso, o Comandante da Defesa abriu uma das gavetas da sua secretária e retirou de lá uma folha, passando-a a Apollo. - Que é isto?- perguntou o último, pegando na folha. - Já que estamos a falar de surpresas, o melhor é leres isso.... Apollo passou rapidamente os olhos pela folha. Naqueles dias era raro verem-se documentos escritos à mão a não ser em ocasiões especiais. Esta era uma delas: o Capitão Griffin, um dos responsáveis pela revolta que tinha ocorrido na Galactica após o acidente de Adama, pedia que o deixassem prestar serviço comunitário e que lhe dessem uma oportunidade para poder aprender os costumes Terrestres. Devolvendo a folha a Boomer, Apollo perguntou-lhe: - Que achas? O Comandante da Defesa, antes de responder, chamou alguma informação para o ecrã do computador que tinha imbutido na secretária: - Pelas informações que tenho, Griffin, e os restantes Seguranças revoltosos, tem tido um comportamento excelente desde que os transferimos para uma prisão aqui no planeta....O Capitão parece continuar a manter a disciplina mesmo estando preso... - Não houve nenhuma tentativa de fuga ou coisa do género? - Não....Eles nem sequer se queixam de nada.... Apollo pensou por momentos no assunto. Aquela revolta tinha posto em perigo a Estrela-de-Batalha e toda a Frota, mas a verdade é que o próprio Capitão Griffin havia contribuído para que ela acabasse, matando Sire Trolius e ordenando a rendição dos seus homens. O homem era um dos veteranos da guerra contra os Cylons, tendo lutado em Caprica até ao fim, sendo evacuado numa das últimas naves que tinham abandonado o planeta em direcção à recém-formada Frota. Apesar de tudo isto, ele era também alguém totalmente impiedoso e Apollo não sabia até que ponto é que podia confiar nele. - Se aceitarmos o pedido dele, como é que o vigiamos?- acabou ele por perguntar a Boomer. - Em relação aos estudos, há vários professores terrestres que se mostram disponíveis para ensinar os seus costumes aos Coloniais. De certeza que se arranja alguém com experiência em ensinar presos....- disse o Major, parando por momentos.- Quanto ao outro aspecto....não sei bem o que é que eles poderão fazer..... - Talvez para já o melhor seja apenas aceitarmos o segundo pedido....- disse Apollo.- Depois pensamos no outro assunto.... - Concordo plenamente.- acrescentou Boomer, escrevendo uma nota no computador para que tratasse de responder ao pedido de Griffin. Voltando-se depois para Apollo, perguntou: - Há mais alguma coisa a tratar? - Não...- respondeu o Comandante da Galactica, consultando o seu próprio computador.- Se me lembrar de mais alguma coisa, eu mando-te uma mensagem da Galactica... - Está bem.- Com estas palavras, Boomer levantou-se para acompanhar o seu amigo à porta da sala. Ao despedirem-se, o Major disse: - Dá os meus cumprimentos à Sheba. O ar que Apollo pôs perante estas palavras, indicou-lhe de imediato que algo estava mal. - Aconteceu-lhe alguma coisa?- perguntou ele. - Não..- assegurou Apollo, hesitando momentaneamente, antes de continuar: - Ela ficou muito estranha após a viagem até Ceres... - Talvez seja do cansaço, sabes que aqueles saltos hiperespaciais são muito extenuantes para quem ainda não está habituado..... - O problema até pode ser esse, mas a verdade é que ela não fala comigo desde dessa ocasião.- disse Apollo, com um ar abatido.- E, ainda para mais, pediu uma licença e veio para o planeta...sem sequer me dizer nada. - Não sabes onde ela está?- perguntou Boomer um pouco incrédulo com a situação. Ele sempre tinha visto Apollo e Sheba como um casal perfeito, sempre prontos a apoiarem-se um ao outro. O amor de Sheba tinha sido uma das coisas que tinha ajudado Apollo a ultrapassar a dor sentida pela morte de Boxey. Aquela situação era muito estranha. O Comandante da Galactica acenou negativamente com a cabeça. Exibindo um sorriso um pouco forçado, acabou por dizer: - Deve ser como tu dizes...as viagens hiperespaciais são muito cansativas....De certeza que ela vai voltar mais bem-disposta ... - Se quiseres, eu posso fazer uns contactos discretos e ver se a encontro.... Apollo considerou a proposta do seu amigo, mas acabou por decidir que o melhor era deixar Sheba descansar. Quando a altura chegasse ela voltaria para a Galactica. Dizendo exactamente isso a Boomer, ele acabou de se despedir, encaminhado-se para o hovercarro que o levaria até ao espaçoporto. Assim que ele saiu do gabinete, Boomer dirigiu-se para April: - Sim....- disse ela, lançando um pequeno sorriso ao seu patrão. - Passa a palavra às nossas Secções Regionais para estarem atentas à Capitã Sheba. Se ela for avistada em alguma das cidades..... - ....que nos informem, certo?- terminou April.- Quer que alguém a siga? - Não, não é necessário. Só quero saber onde ela está e se está tudo bem.... - Eu trato disso..- disse a secretária, murmurando depois: - O nosso jantar de hoje ainda se mantêm? Sorrindo, Boomer acenou afirmativamente com a cabeça. April estava-se a revelar uma mulher extraordinária, para além de uma secretária mais que competente. O Major não sabia até que ponto é que seria correcto envolver-se com alguém com quem trabalhava, mas a verdade é que já tinha passado da fase em que se importava com isso. "Será que me estou a apaixonar?", pensou ele para si mesmo enquanto voltava para a sua sala, passando pelo dois soldados da Marinha Terrestre que estavam de guarda à porta desta. Sem que mais ninguém se apercebesse, um deles tinha estado a ouvir a conversa de Boomer e April, prestando atenção à referência a Sheba. Ele tinha a certeza de que o seu chefe iria gostar de saber que havia uma Colonial importante a passear sozinha pelo planeta. Talvez se pudesse organizar uma pequena surpresa... Mas Sheba também não era a única. April também merecia que algo lhe acontecesse. "Não há nada pior do que uma Humana a conspurcar a sua raça com um extraterrestre", pensou o soldado, esboçando um sorriso que a placa facial da sua armadura escondia. O resto do seu turno foi passado a imaginar o que fariam aos traidores da raça Humana.... COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE QUARTEL CENTRAL DO EXÉRCITO TERRESTRE, CIDADE DE ASHER Retirando a armadura de combate, o Tenente Roger Veckin espreguiçou-se, tentando desentorpecer os músculos do corpo. Ele tinha andado a maior parte do dia com aquele peso em cima, o que era um martírio, e ainda para mais, embora a armadura tivesse sistemas de refrigeração, a verdade é que ela era bastante quente, o que não ajudava nada em dias como aquele em que a temperatura tinha chegado aos 40 graus. Arrumando a armadura no seu compartimento próprio, dirigiu-se para o chuveiro existente na Camarata dos Oficiais e tomou um banho rápido. Depois de se vestir, dirigiu-se para o hovercarro que tinha alugado e saiu a toda a velocidade do quartel, lançando uma continência aos soldados que estavam de guarda ao portão principal e que já se tinham habituado às saídas constantes do Tenente. Dirigindo-se para a saída da cidade, tomou a estrada que levava na direcção do espaçoporto. Passados 30 minutos passou a estrada de terra batida que marcava o acesso a esse local e continuou a acelerar, acabando por chegar ao fim da principal via de comunicação do planeta. No meio da densa selva que surgia à sua frente, uma pequena estrada de terra batida anunciava o caminho que ele tinha que tomar. Acelerando com cuidado, começou a segui-la, indo na direcção do local onde o esperavam. "Já estou atrasado uma hora....", pensou ele, consultando o relógio de pulso e arrependo-se de imediato por ter tirado os olhos da estrada porque um estranho animal saltou-lhe à frente do veículo, obrigando-o a travar a fundo. Carregando com força na buzina, retomou o seu caminho, ganhando rapidamente velocidade. Ao fim de 20 minutos surgiu-lhe uma placa avisando-o de que estava a entrar numa área restrita e sob a protecção da Corporação da Cintura. Ignorando o aviso, acelerou ainda mais. O Professor Carlos Esnaider tinha-lhe assegurado que não haveria qualquer problema de acesso ao local e Roger tinha que acreditar nele. Numa incrível coincidência, o Professor Esnaider, que era o principal responsável pela exploração das ruínas extraterrestres daquela zona, tinha sido o homem que lhe tinha dado boleia para a cidade de Asher no dia em havia chegado. Durante essa viagem, os dois homens conversado e perante o interesse demonstrado por Veckin, o professor tinha-o acabado por convidar a visitar as ruínas. Segundo as palavras do Xenoarqueólogo, as estruturas encontradas eram totalmente diferentes de todas aquelas encontradas noutros locais, o que apontava para uma nova raça extraterrestre. Outra coisa que apontava para essa conclusão, era o facto de não estarem protegidas por nenhuma campo protector, ao contrário do que acontecia com as ruínas de Marte, da Lua e de Plutão. Roger estava tão absorto com esses pensamentos que só se apercebeu que a estrada havia acabado quando entrou no meio do acampamento arqueológico e lhe surgiram à frente uma série de soldados com o uniforme da Corporação, fazendo sinais para que ele parasse. Travando a fundo, o Tenente sentiu as turbinas mudarem de direcção e começarem a parar o veículo, acabando este por assentar no chão no meio de uma enorme nuvem de poeira. Desligando o motor, ele abriu a porta e saltou para o chão. Um dos soldados avançou para ele, com ar de poucos amigos e apontando-lhe uma arma. Atrás dele, os outros três soldados também apontaram as armas na sua direcção, num gesto claro de hostilidade. - Calma, eu vim em paz....- disse Roger, esboçando um sorriso que esperava que tivesse um efeito apaziguador. - Estou a ver que temos aqui um engraçadinho!- disse o soldado que avançava para ele, não deixando de lhe apontar a arma.- Espero que saiba que está numa área restrita.... Antes que a situação pudesse piorar, o Professor Esnaider apareceu, vindo de um dos numerosos habitáculos metálicos ali existentes. - Cabo Kuriama, esse homem é meu convidado!- berrou ele, acenando com um dos seus grandes braços.- Eu responsabilizo-me por ele! O cabo olhou para o xenoarqueólogo de longos cabelos brancos e pareceu hesitar. Nos seus olhos era mais que visível que ele gostaria de dar uma lição ao intruso. Infelizmente o Professor era um dos responsáveis por aquelas instalações e ele não lhe podia desobedecer. - Talvez noutra altura...- murmurou ele na direcção de Roger, de forma a que mais ninguém ouvisse. Baixando a arma, o Cabo da Corporação baixou a arma e dirigiu-se para junto do resto da patrulha que rapidamente se afastou do local. "Que simpático....", pensou Veckin, enquanto fechava o veículo. Feito isso, dirigiu-se para junto do Professor. Este último cumprimentou-o do alto dos seus 2 metros e meio e perante o pedido de desculpas de Roger disse simplesmente: - Não faz mal...Para ser sincero, eu estava tão entusiasmado com a nova descoberta que nem sequer me lembrei que tínhamos combinado esta visita.... - Nova descoberta?- perguntou de imediato Veckin, subitamente entusiasmado. - Sim...- disse o xenoarqueólogo, fazendo um sinal para que o outro homem o seguisse. Os dois entraram na primeira estrutura metálica ali existente e que albergava um pequeno laboratório. Uma série de pessoas trabalhavam em várias bancadas limpando uma série de objectos e nem sequer se aperceberam da passagem deles. Ao fundo do laboratório havia uma pequena porta blindada que o Professor abriu, passando a sua mão por cima de um sensor existente na parede ao lado. Assim que a porta se abriu, Roger viu um túnel que descia na direcção do subsolo, perdendo-se na escuridão. Uma série de pequenas lâmpadas, espalhadas pelas paredes quebravam fugazmente essa escuridão. Ao fundo do túnel via-se uma luz mais forte e o barulho de máquinas a funcionar fazia-se ouvir. - A maior parte das ruínas situa-se no subsolo....- começou o professor a dizer, descendo as escadas cravadas no túnel e agarrado a um corrimão existente na parede esquerda.- Tivemos que cavar uma série de túneis para chegar até elas. - Mas como é que as descobriram? Se elas estavam enterradas..... - Boa questão, Tenente.- disse o homem mais velho, acelerando um pouco o passo.- Estou a ver que é uma pessoa atenta ao que lhe dizem.....Na realidade, foram elas que se mostraram... - Como assim? - Na altura em que se estava a construir a estrada até Asher, fizeram-se uma série de voos de reconhecimento sobre a selva, em busca de mais locais para construção e um deles, ao passar por cima desta zona, foi atingido por uma descarga de energia desconhecida.... - A nave foi abatida?- perguntou Roger, espantado por nunca ter ouvido falar dessa história no quartel e na cidade. - Sim...o que restava dela só foi encontrado uma semana depois do acidente. O Exército da Aliança disse aos colonos que tinha havido um acidente e a curiosidade deles ficou por aí. - Presumo que o Exército tenha vindo investigado.....- disse o Tenente, sabendo que esse era o procedimento normal da Aliança. A caminhada deles tinha acabado numa nova porta blindada, que era iluminada por uma luz fraca, com um tom já a puxar para o amarelado. - Exactamente.- enquanto dizia estas palavras, o professor abria a porta da mesma maneira que a anterior. Um novo túnel surgia à frente deles, terminando numa plataforma iluminada. O barulho de máquinas era cada vez maior e Esnaider teve que falar mais alto para se fazer ouvir: - O pelotão mandado pelo Exército demorou uma semana a chegar ao local, tendo que atravessar toda esta selva. Ao chegar aqui, deparou com os destroços e mais nada. Nem sequer havia corpos para recolher.... - Ficaram desfeitos? - Não, o cockpit estava quase intacto, eles pura e simplesmente tinham desaparecido.....- voltando-se para trás, Esnaider esboçou um sorriso, visível até naquela zona pouco iluminada.- Mas a história fica ainda mais esquisita. Passado algumas horas da patrulha ter chegado aqui, perdeu-se todo o contacto com eles..... A última comunicação deles falava de luzes estranhas na selva.... - E o que aconteceu a seguir? - O Exército decidiu jogar pelo seguro.....Assim que a patrulha mensal da Marinha entrou em órbita eles contactaram-na e pediram um reconhecimento orbital..... - E a nave da Marinha também foi abatida?- perguntou Roger, que estava cada vez mais intrigado com tudo aquilo. - Não, Tenente. Isso também era mau demais...- disse o professor, fazendo uma pausa.- A nave conseguiu fazer o reconhecimento, apesar de ter perdido a energia ao passar directamente sobre a zona. Como os sensores não detectaram nenhum sinal de vida humana, as chefias militares da colónia decidiram acabar com o problema.... - Deixe-me adivinhar, lançaram um ataque orbital..... - Exactamente. O cruzador da patrulha bombardeou a zona com o seu canhão de partículas. Os tiros destruíram toda esta zona da selva e provocaram um incêndio que demorou mais de um mês a extinguir-se. Nessa altura a patrulha fez mais um reconhecimento e desta vez não houve problemas. - E o Exército mandou mais alguém? - Sim, uma companhia inteira foi mandada para aqui.- disse o professor, parecendo relembrar velhos tempos antes de continuar.- Toda esta zona estava devastada e apesar do incêndio já estar extinto, o ar ainda cheirava a fumo.... Os tiros tinham feito uma série de enorme crateras...e no fundo de uma delas, surgia um bocado de uma construção subterrânea... - O Professor era um desses soldados, não era?- perguntou Roger, que se tinha apercebido da intensidade com que Esnaider contava aquela parte da história. - Sim....- disse o interpelado, abanando a cabeça. Os dois haviam chegado à plataforma que marcava o final do túnel.- Mas isso é outra história....Agora a minha vida é esta.... Com estas palavras, o xenoarqueólogo fez sinal para que Roger se aproximasse até à beira da balaustrada da plataforma. O Tenente assim fez e teve que reprimir um grito de surpresa perante a vista que tinha. Um enorme pavimento rectangular surgia do chão rochoso. Apesar de eles estarem ainda a algumas dezenas de metros do chão, Roger podia ver claramente inscrições nesse pavimento. - O pavimento, é de metal?- balbuciou ele, para Esnaider. - Pensamos que sim, embora seja de um tipo totalmente desconhecido para nós....- respondeu o homem, carregando num botão existente na parede atrás dele. Com um rangido metálico, a plataforma começou a descer na direcção do solo.- Até pode nem ser metal.... Os dois homens fizeram o resto da viagem em silêncio e Roger aproveitou para estudar melhor as imediações. Olhando para cima, viu que estava no fundo de uma enorme caverna, estando o tecto metálico desta coberto com uma enorme imensidão de holofotes. "De certeza que estavam dentro de uma das crateras provocadas pelo tiro do canhão de partículas", pensou ele para si mesmo. Uma rápida pergunta a Esnaider confirmou as suas suspeitas. Assim que a descoberta tinha sido feita, eles haviam tapado a cratera e feito uma série de túneis laterais para alcançar o seu fundo. - Com o tempo alargamos toda esta zona, até que conseguimos por à mostra toda esta construção....Actualmente isto ocupa o equivalente a dois campo de futebol. - E isto que a cobre, é escrita?- perguntou Roger, apontando para os símbolos que surgiam na superfície. - Se é ainda não a conseguimos decifrar.... Assim que o elevador chegou ao fundo, os dois homens saíram e dirigiram-se para um pequeno grupo de pessoas que se encontrava na zona central do pavimento. Ao chegar aí, um dos homens, que envergava um uniforme da Corporação, olhou para o Professor e fez-lhe um pequeno sinal, indicando que queria falar com ele. - Eu volto já...- disse Esnaider a Roger, afastando-se depois um pouco para ir falar com o outro homem. O Tenente aproximou-se do grupo de pessoas e espreitou por cima do ombro delas. No meio delas, um homem estava agachado, pondo a sua mão numa espécie de reentrância que existia no meio do pavimento. - Reparem bem nestes símbolos!!!- dizia ele, apontando para uma série de sinais que existiam junto da reentrância.- Sempre que eu mexo a mão.... Ao dizer isto, os símbolos para os quais ele apontava iluminaram-se numa rápida sucessão, da direita para a esquerda. As pessoas começaram a falar animadamente, tendo cada uma a sua teoria. Roger queria saber o que pensava o Professor sobre o assunto e virou-se na direcção dele. O Professor e o homem da Corporação estavam a discutir furiosamente e algumas das palavras chegaram até ele: - ...espero que tenha consciência do que está a fazer, professor..... - Eu já disse que me responsabilizo por ele... - Acho muito estranho que ele tenha aparecido logo hoje.... - Esta visita já estava marcada há várias semanas.... Veckin sentiu-se um pouco incomodado com a situação e com o facto de estar a ouvir a conversa. Virando-se para a frente, continuou a ver o que as outras pessoas tinham descoberto. O mesmo homem continuava com a mão metida na reentrância, mostrando a maneira de fazer os símbolos iluminarem-se. Passado cerca de um minuto, o Professor Esnaider e o homem da Corporação juntaram-se ao grupo. O xenoarqueólogo colocou-se ao lado de Veckin, observando a actividade, enquanto que o outro homem se afastou um bocado, mantendo no entanto os dois sobre observação. - Espero que não esteja a causar nenhum problema, professor.- murmurou discretamente Roger. - Não, meu amigo....- disse o interpelado, encolhendo os ombros.- Confesso que às vezes não compreendo a Corporação.....Estão sempre cheios de medo que alguém roube alguma coisa das suas malditas escavações... - Eu prometo que não meto ao bolso nenhuma arma extraterrestre.....- disse Roger, arrancando uma sonora gargalhada do Professor. Sobressaltado com tal som, um dos homens que estava no grupo acabou por se desequilibrar. Antes que alguém o conseguisse agarrar, ele caiu para o chão, amparando a sua queda com as duas mãos. Na altura em que ele se apoiou, os símbolos do pavimento estavam iluminados e as suas mãos entraram em contacto com eles. Com um ruído metálico, os símbolos que estavam a ser pressionados afundaram-se no pavimento. Toda aquela zona começou a tremer e alguns metros mais à frente, uma secção do chão metálico começou a brilhar com uma luz dourada. Com um novo rugido metálico, essa zona do pavimento começou a afundar-se no solo, parando depois com um novo ruído metálico, passado menos de um minuto. Toda a gente recuou apressadamente. Apesar dos símbolos já não estarem a iluminados e pressionados, a verdade é que nada voltou ao normal. A primeira pessoa a avançar na direcção da abertura foi justamente o Professor Esnaider. Acotovelando algumas pessoas ele dirigiu-se para lá e cuidadosamente olhou para dentro da abertura. Retirando uma lanterna do cinto de instrumento que trazia à cinta, ele ligou-a e apontou-a para aquela zona do pavimento. - Parabéns, meus senhores. Acho que acabamos de encontrar uma entrada para o artefacto....- acabou ele por dizer, sorrindo na direcção do grupo de pessoas que assistia a tudo.- Ao fim de mais de dez anos, vamos finalmente descobrir o que está aqui.... Embora não soubesse bem explicar porquê, Roger sentiu um calafrio perante as palavras do Professor. A juntar a essa sensação, ele sentiu também uma pequena vibração no seu pulso. Lançando uma olhadela rápida nessa direcção, viu que o seu comunicador pessoal estava a receber uma mensagem, ordenando-lhe que voltasse imediatamente para o quartel. Aproximando-se do Professor, que continuava a espreitar para dentro da abertura, ele disse que tinha que se ir embora. O homem disse que compreendia perfeitamente a situação e desejou-lhe boa viagem, continuando depois a sua observação e berrando para que alguém arranjasse uma lanterna. Veckin começou a caminhada para a superfície, prometendo a si mesmo que contactaria o Professor assim que pudesse. Para já o que tinha a fazer era chegar o mais depressa possível ao quartel. - CAPÍTULO 5 - ALGURES NA CINTURA DE ASTERÓIDES O som de música clássica enchia o compartimento do Comandante Hans Zimmer, que se encontrava sentado à sua secretária revendo uma série de relatórios. A secção de Engenharia tinha apresentado uma quebra de eficiência durante os últimos exercícios, o que não era nada bom. Se as pessoas falhavam durante os exercícios em tempo de paz, o que aconteceria numa situação de guerra? Após escrever uma pequena nota de reprimenda para o oficial que tinha a seu cargo essa secção, o Comandante virou a sua atenção para outros assuntos. A sua patrulha tinha chegado aquele sector há dois dias. Desde essa data já tinham investigado mais de cinco passagens para o outro lado da Cintura, não encontrando nenhum vestígio da presença Cylon. Estavam agora a tomar posições para investigar a sexta e última passagem. Depois disso, iriam fazer o caminho inverso para finalmente regressarem à Base Naval de Lavos- 305. "Eva, a sonda já está pronta?", perguntou ele, enquanto se ligava às câmaras exteriores do cruzador. "Segundo o Capitão O'Brien, será lançada dentro de um minuto, Capitão...", respondeu a voz dentro da sua cabeça. Movendo uma das câmaras, Zimmer centrou a imagem na T.D.F. Dublin, que se estava a alinhar com a passagem para o outro lado da Cintura. Aumentando o alcance da imagem e melhorando-a, o Comandante conseguiu distinguir a primeira fileira de minas nucleares inteligentes que tinham sido espalhadas ao longo da passagem. Esta tinha sido a maneira escolhida pela Marinha Terrestre para fecharem o acesso aos Cylons. Qualquer nave não identificada e que tivesse uma massa equivalente a uma Nave-Base seria imediatamente destruída. "Qual é o estado das minas?" "Os computadores delas indicam que todas estão a funcionar a 100%, Capitão." "Muito bem, Eva. Quero ser avisado assim que a sonda chegar ao outro lado. "Sim, Capitão." Depois de dar a ordem, o Comandante Zimmer voltou de novo a sua atenção para os relatórios que tinha no seu computador pessoal. PLUTÃO, ALIANÇA TERRESTRE BASE DE AMUDSEN - Que se passa, Doutor Wilker?- perguntou o Comandante Adama, na altura em que eles saíam de uma das salas de reunião da base subterrânea. Já há alguns dias que ele se tinha apercebido de que algo preocupava o cientista. - Estes hábitos Terrestres dão cabo de mim....- disse o homem, aproximando-se de Adama e falando baixo.- Estamos aqui há mais de uma semana e ainda não conseguimos ver a tal "Nave"..... - Mas em compensação já tivemos inúmeras conferências sobre como tudo isto foi construído.......- disse Adama, compreendendo exactamente o que o Doutor sentia. Ele próprio sentia uma certa impaciência com toda aquela espera. Antes que qualquer um dos dois conseguisse dizer mais alguma coisa, a Coronel Natasha Kramer saiu de uma das salas de reuniões existentes naquele corredor. Como de costume vinha vestida com a farda do Exército da União, tendo no entanto uma série de medalhas com as quais não costumava andar. - Boa tarde, meus senhores.- disse ela, não parecendo querer parar. - Boa tarde, Coronel Kramer.- responderam os dois homens. A Coronel notou o olhar do Comandante Adama e parou, dizendo: - Presumo que esteja intrigado com as condecorações.... - Sim...- assentiu ele.- Nunca tinha visto militares da União com medalhas..... Lançando uma risada fria, Natasha disse: - Ao contrário da Aliança, a União não tem o hábito de as distribuir por tudo e por nada.....Todas as que eu trago tem um significado profundo para mim e para todo o povo da União. Apontando para a primeira das três medalhas que tinha disse: - Esta representa a Ordem da Estrela Branca e foi-me atribuída durante a chamada Batalha do Monte Olimpo....A que está ao lado é a Águia de Ferro de Primeira Classe e a última é a Ordem da União, a mais importante de todas.... Por momentos a Coronel ficou embrenhada em recordações. Adama ainda pensou em perguntar como é que ela as havia obtido, mas a verdade é que conseguiu controlar a sua curiosidade. De certeza que uma pesquisa discreta podia encontrar facilmente a resposta para essa questão. O mais correcto seria desviar a conversa para outro assunto: - Agora lembrei-me de uma coisa....- começou ele a dizer, fazendo com que Natasha olhasse para si.- O que é aconteceu aquela jovem que me abordou durante a festa? - A Doutora Karen teve um pequeno esgotamento e está a recuperar nos seus aposentos.- respondeu de imediato a Coronel.- Ela tinha bebido muito naquele dia....e isso só serviu para agravar o seu estado.... - Já agora...- interveio o Doutor Wilker, que até então se tinha limitado a assistir à conversa.- Qual é a especialidade dela? - Ela é Historiadora, com uma especialização naquilo a que chamamos Civilizações Pré-Clássicas.... - Bem me parecia que tinha visto o nome dela num dos estudos que li...- disse Wilker.- Ela estabeleceu uma ligação entre os símbolos da "Nave" e a escrita primitiva de certas civilizações Terrestres..... - Sim, ela está convencida que os símbolos são uma forma avançada dos hieróglifos encontrados na antiga Civilização Egípcia......- respondeu Natasha.- E ainda para mais a vossa civilização parece ter muitos pontos de contacto com os antigos Egípcios.... - Os Terrestres e os Coloniais parecem ter raízes comuns, mas a verdade é que ainda não foram encontradas provas concretas dessa ligação.- comentou Adama.- Eu próprio já vi imagens de alguns desses hieróglifos Egípcios e eles não têm nada a haver com os existentes em Kobol.... - Mas os da "Nave" podem ser iguais...- disse Wilker, vendo uma oportunidade.- É por isso que é importante que nós a vejamos..... - Nisso têm razão....- respondeu Kramer, pensando por momentos.- De facto é um bocado estúpido convidar-vos para virem até aqui e depois não vos mostrar o principal motivo de interesse....Vou falar com o Director Tayler e ver o que se pode fazer.... Com estas palavras, a Coronel cumprimentou mais uma vez os dois Coloniais e foi-se embora. Assim que ela dobrou a esquina ao fundo do corredor, Wilker dirigiu-se de novo a Adama: - Comandante, parece que finalmente vou deixar de ter motivos para me queixar... - Sim...também estou ansioso por ver o artefacto....- confessou Adama, antes de continuar com um sorriso: - Mas acho que agora o melhor que temos a fazer é comer qualquer coisa porque a seguir vamos ter mais uma série de reuniões.... Os dois Coloniais dirigiram-se para o refeitório existente no piso inferior onde comeram uma refeição leve. Por mais que tentassem. a conversa voltava sempre ao mesmo assunto. O que é que iriam encontrar na caverna que albergava a "Nave"? COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE ARREDORES DA CIDADE DE KARN Como era costume, o clube " A PIRÂMIDE" estava a abarrotar. Na sala de jantar, o único sítio onde ainda havia alguns lugares livre era no bar. Era exactamente aí onde Sheba estava sentada, esperando que Cassiopeia e Starbuck descessem dos seus aposentos. Embora a amizade com eles os dois fosse recente, a verdade é que assim que tomara a decisão de se afastar um pouco de Apollo e de todo o ambiente da Galactica, decidira ir ter com eles. Talvez tivesse tomado essa decisão porque sabia que tanto Cassiopeia como Starbuck também se tinham "desligado" dos círculos Coloniais, o que fazia com que ela pudesse estar em paz ali. Era exactamente de paz que ela necessitava, paz sobretudo para pensar. Ela ainda estava chocada pelo facto de Apollo não se conseguir afastar do passado, continuando agarrado ao fantasma de Serina. Sentia que estava na altura de lançar um ultimato a Apollo, exigindo-lhe que selassem a sua União. É claro que essa decisão era ditada pelo seu coração, pois o seu cérebro dizia-lhe que se fizesse isso, provavelmente iria perder de vez Apollo. O Comandante odiava ser pressionado e o que ela se propunha a fazer era exactamente isso.... "Quem é que imaginaria isto?", pensou ela, bebericando um pouco do seu copo de Ambrósa. " A filha do lendário Comandante Cain a ter medo de tomar uma simples decisão...." Pousando o copo, virou-se para a porta que dava acesso ao elevador de serviço. Cassiopeia tinha obrigado o marido a ajudá-la a dar banho a Palias e portanto os dois estavam atrasados para jantar. Na altura em que ela acabara de pensar isso, a porta do elevador abriu-se e Starbuck saiu de lá. O ex-Capitão estava com um ar abatido, apesar de tentar disfarçar o facto com o seu normal bom-humor. Cassiopeia tinha-lhe confidenciado que o marido tinha voltado a ter pesadelos e era por isso que estava com aquele ar. - Onde está a Cassiopeia?- perguntou ela a Starbuck, quando este se aproximou do balcão do bar. Pegando no copo que o empregado lhe tinha oferecido, ele esboçou um sorriso e disse: - Infelizmente a Palias decidiu que agora era altura de dormir.....A Cassiopeia está só à espera que a ama chegue......É só mais um centon e ela desce Depois de dizer isto, ele deu o braço a Sheba e os dois dirigiram-se para a mesa reservada para a Gerência, situada num dos cantos da sala. Mal se sentaram, e ainda antes de trocarem qualquer tipo de palavra, surgiu uma mulher junto da mesa. Sheba quase que saltou no seu lugar. Ela podia jurar que aquela visitante não estava ali momentos antes. Já Starbuck, apesar de estar casado e amar Cassiopeia, não conseguiu evitar portar-se como o velho Starbuck. Os seus olhos percorreram o vestido branco da mulher, tentando discernir as formas que este ocultava. Ela não pareceu importar-se com isso, lançando até um pequeno sorriso ao ex- Guerreiro. Afastando um pouco o cabelo louro da face, disse: - Capitão Starbuck e Capitã Sheba, presumo...... - Ex-capitão......- respondeu ele, antecipando-se a Sheba.- Em que podemos ajudá-la..... - Para começarem podem-me tratar por Lilith....- disse a mulher, puxando uma cadeira para se sentar à mesa.- Sempre tive curiosidade em vos conhecer..... - Mas o que a traz aqui.....- perguntou Sheba, sentindo uma súbita e inexplicável hostilidade para com Lilith.... - Curta e directa......- disse a mulher, antes de fitar directamente Sheba nos olhos e continuar:- Exactamente como o seu pai...... Sheba sentiu um calafrio a percorrer o seu corpo e a seu lado, Starbuck também ficou subitamente tenso. Foi exactamente ele que quebrou o silêncio que se tinha instalado: - Posso saber como é que conhece o Comandante Cain? Você é da Frota? - Não......- respondeu ela, mantendo um sorriso enigmático.- Temos alguns conhecidos comuns....E é exactamente por isso que vim aqui ter convosco...... - Iblis....- murmurou Sheba entredentes...- Foi ele que a mandou, não foi? Lilith ignorou a Capitã e começou a contar a sua história: - Até há pouco tempo, eu fui a amante de um pequeno chefe criminoso...O seu principal negócio era o contrabando, não só de bens mas também de pessoas....Num dos últimos voos, uma das suas naves embarcou dois passageiros muito especiais..... - Ainda não vi o que é que isso tem a haver connosco......- interrompeu Starbuck.- E para ser sincero, não estou muito interessado em saber..... - Quando lhes foi pedido um pagamento....- continuou Lilith, metendo a mão no interior do seu vestido e tirando algo que pôs em cima da mesa.-....foi com isto que pagaram.... Os olhos de Sheba e Starbuck arregalaram-se perante os objectos. Em cima da mesa estavam mais ou menos cinco mil Cúbitos Coloniais. Starbuck pegou de imediato num deles, pesando-o na sua mão e examinando-o com um olhar atento, relembrando os seus dias de jogador. Quantias daquelas não eram fáceis de encontrar.... - Isto não quer dizer nada....- disse Sheba, empurrando os Cúbitos na direcção de Lilith.- Há inúmeros Coloniais que preferiram sair deste planeta e além do mais....... - ....se Iblis estiver envolvido nisto, os Cúbitos até podem não passar de uma ilusão...- completou Lilith, mantendo o seu sorriso.- Era isto que ia dizer, não era? A Capitã ficou sem palavras pois a mulher tinha adivinhado exactamente o que ela iria dizer. Vendo a maneira como ela estava atrapalhada, Starbuck começou a levantar-se, dizendo: - Bem, acho que está na altura de se ir embora....... - Sente-se Capitão Starbuck...- ordenou a mulher, fitando-o com um olhar frio.- Se não o fizer, posso-lhe mostrar que a realidade pode ser bem mais cruel do que os seus habituais pesadelos........ Perante estas palavras, Starbuck fez o que lhe era ordenado, voltando a sentar-se na cadeira e agarrando no seu copo, engolindo a Ambrósa que restava num só trago. - Os Coloniais que a nave do meu amante transportou não eram da Frota....A sua origem era outra... - Como assim?- perguntou Sheba, conseguindo finalmente ultrapassar o medo que se tinha apoderado dela. - Não sei, é isso que gostava de descobrir....com a vossa ajuda, é claro.- respondeu Lilith, exibindo de novo o seu sorriso, embora sem nenhum vestígio de humor. - Sei que foi por causa deles que o meu amante foi morto.....Acho que tenho o dever de me vingar das pessoas que o mataram...... - Mas como é que nós podemos ajudar?- perguntou simplesmente Starbuck. - Acompanhando-me até ao sítio onde a nave os deixou. Eu sei onde eles estão.....- depois de dizer isto, Lilith levantou-se, arranjou o seu vestido e arrumou a cadeira debaixo da mesa. De seguida, exibindo o seu já característico sorriso ,disse: - Estou à vossa espera lá fora. Não me obriguem a vir-vos aqui buscar, está bem? Sem mais nenhuma palavra a mulher desapareceu, de uma forma tão abrupta que até parecia que nem sequer tinha estado ali. Só passados alguns momentos é que Sheba teve coragem para falar: - O que é que vamos fazer, Starbuck? - Temos que ir com ela...- respondeu ele, levantando- se.- Não temos outra escolha..... Cassiopeia estava a despedir-se da ama, quando o barulho das portas do elevador anunciaram a chegada de alguém. Saindo do quarto, dirigiu-se para o átrio do apartamento, onde viu o seu marido e Sheba saírem do elevador. Era visível nas suas caras que algo estava errado.... - Que se passa, Starbuck?- perguntou ela, aproximando-se do marido. - Surgiram uns problemas.....- disse ele, abraçando-a e olhando-a nos olhos.- Vou ter que me ausentar por uns sentons.... - Como??- Cassiopeia estava incrédula com o que tinha ouvido. Olhando para Sheba, viu que esta estava ainda mais assustada que Starbuck.- Que é que se passa Sheba? - Gostava de te saber dizer....- respondeu a Capitã, procurando com o olhar o apoio de Starbuck.- ..Só sei que é algo que vamos ter que fazer.... - Foram os Cylons que voltaram? Foi isso? - Antes fosse...- desabafou o seu marido, voltando a abraçá-la.- Mas não te preocupes, vai tudo correr bem.... Antes que Cassiopeia pudesse dizer mais alguma coisa, Starbuck dirigiu-se para o quarto deles, passando depois para um quarto que estava vazio. Sheba tentou reconfortar o melhor que podia Cassiopeia, mas a verdade é que estava aterrada de mais para o fazer convenientemente. Passados alguns centons, Starbuck regressou e ambas as mulheres ficaram a olhar para ele pois já não estavam habituadas a vê-lo com a farda de Guerreiro. - Achei que isto era mais apropriado...- murmurou ele ao ver os olhares das mulheres. Esboçando um tímido sorriso, acrescentou: - Embora pareça ter encolhido...... Pousando a saca que trazia na mão em cima do sofá da sala, abriu-a e vasculhou no seu interior até encontrar uma caixa metálica. Abrindo-a, tirou de lá a sua arma pessoal e as respectivas cargas. - Tu tinhas isso cá em casa?- perguntou Cassiopeia, preocupada com o facto da filha deles poder encontrar tal objecto. - Não te preocupes, Cassie.- disse o seu marido enquanto ajustava o seu coldre e guardava a arma.- Ela estava descarregada e as cargas estão sempre noutro sítio.... Voltando a fechar o saco, Starbuck virou-se para Sheba e perguntou-lhe: - Tens a tua arma? - Sim...- respondeu ela, dirigindo-se de imediato para os aposentos onde estava alojada, retirando a pistola da sua mala e aproveitando também a ocasião para vestir o seu uniforme de Guerreira Colonial. Assim que se juntou ao casal, viu que Cassiopeia estava com um ar mais recomposto e que Starbuck lhe devia ter dito mais qualquer coisa sobre a situação em que eles se encontravam. - Estou pronta!- anunciou Sheba, para chamar a atenção do ex-Capitão. Este assentiu positivamente com a cabeça e dirigiu-se para um pequeno armário existente na sala. Abrindo as portas dele, retirou algumas coisas das prateleiras e, sob o olhar espantado da mulher, puxou-as para fora do armário, revelando um espaço secreto embutido na própria parede. - Desculpa lá, Cassie....- disse ele, enquanto vasculhava o esconderijo.- Sei que provavelmente me vais odiar por causa disto mas nunca a consegui deitar fora.... Assim que tirou um enorme embrulho de dentro do esconderijo, ele voltou a guardar as coisas no sítio e fechou o armário. Endireitando-se, começou a desfazer o embrulho, revelando algo que deixou Sheba de boca aberta. - Uma espingarda laser Cylon?- balbuciou ela.- Como é que conseguiste arranjar isso? - Ganhei-a a jogar Pirâmide....antes do Holocausto...- enquanto dizia isto, Starbuck abriu o carregador da espingarda e inseriu duas cargas que entretanto tinha tirado de um dos bolsos do seu uniforme. Fechando o carregador, virou a arma de lado, verificando a luz que indicava que esta estava carregada e travando-a. - Só falta teres por aí um Viper...- disse Cassiopeia, sorrindo um pouco. Embora estivesse receosa pelos seu marido e por Sheba, tinha que ser forte. Sempre soubera que ao apaixonar-se por um Guerreiro, havia uma série de perigos. O facto de Starbuck se ter aposentado do serviço militar tinha feito com que ela se esquecesse disso, mas a verdade é que um Guerreiro nunca deixava de o ser..... Dando um beijo sentido à mulher, Starbuck afastou-se dela quase que à força, virando-se depois para Sheba e perguntando simplesmente: - Vamos? A Capitã assentiu com a cabeça e despediu-se de Cassiopeia, juntando-se a Starbuck que já a esperava no átrio do apartamento. Com um último aceno de despedida, os dois entraram para o elevador. Como não era muito conveniente andar a passear com uma espingarda em frente dos clientes, o ex-Guerreiro marcou o andar da garagem. Assim que chegaram aí, subiram um lanço de escadas e rapidamente foram ter a uma pequena porta que dava acesso à superfície, a uma das faces laterais do clube. - Que os Senhores de Kobol nos ajudem....- disse Starbuck, abrindo a porta para que os dois saíssem. O Detective Jeremy Clay foi subitamente acordado pelo barulho insistente feito pelo sensor que tinha preso na janela direita do seu hovercarro. - Já acordei...já acordei..- balbuciou ele, acabando por se endireitar no assento do veículo. Entre o seu assento e o do passageiro, encontrava-se um monitor que normalmente era utilizado para se aceder ao Comando-Central da Polícia Planetária. Para aquela missão, ele tinha ligado o monitor ao sensor que lhe tinha sido fornecido pelos seus superiores, estando-o a usar para seguir os dados que lhe eram transmitidos por este. O sensor tinha acabado de detectar a presença do alvo no exterior do clube. Utilizando o modo de intensificação nocturno, Clay focou a zona onde o sensor tinha detectado as pessoas e pôs a correr o sistema de identificação, que também lhe tinha sido entregue pelos seus superiores, reconfirmando a informação. A Capitã Sheba estava fora do clube "A Pirâmide" ! - Finalmente....- desabafou o polícia. Há mais de uma semana que a extraterrestre não saía do edifício e ele tinha passado a maior parte desses dias enfiado no hovercarro, só saindo da parte da manhã, quando um colega da Esquadra Central de Karn o vinha substituir. Ninguém do clube tinha reparado naquela vigilância, pois era normal estar ali um veículo da Polícia Planetária, em prontidão para o caso de haver algum tipo de problema com os clientes. É claro que ultimamente todos os polícias que tinham estado ali em serviço eram membros da mesma organização. Os Filhos da Terra estavam organizados em células de cinco membros, sendo um deles o líder. Naquele caso, Clay era o chefe da célula, constituída por membros da Polícia daquela cidade. Infelizmente as suas ordens iniciais tinham sido alteradas. A princípio, o seu contacto tinha-lhe dito que o objectivo da célula era abater a extraterrestre, simulando um assalto, mas a situação tinha mudado a partir da altura em que se tinham apercebido de que haviam outros interessados nas actividades do clube. Uma investigação rápida tinha mostrado que os outros vigilantes eram membros da Secção Regional do Comando Planetário e por isso era impossível seguir o plano original. Mesmo assim tinham recebido ordens para continuar a seguir o alvo. Sheba não estava sozinha naquela noite, estando acompanhada por outra pessoa cujo o perfil e dados também estavam inseridos no sistema de identificação. É claro que Clay nem sequer precisava do sistema para identificar o famoso dono do clube, o extraterrestre chamado Starbuck. - Que pena que não os posso matar....- murmurou ele, olhando momentaneamente para a espingarda de dardos que tinha na parte traseira do carro. Seria extremamente fácil abater os dois alvos mesmo aquela distância, pois ele fora atirador especial no Exército da Aliança. A única coisa que o impedia de fazer isso era a noção de que não iria viver muito tempo se desrespeitasse as ordens dos seus superiores. Soltando um suspiro de resignação, voltou a sua atenção para os dois extraterrestres. Na exacta altura em que o fez, o sensor indicou uma notória queda de temperatura junto deles e, num abrir e fechar de olhos, viu surgir aí uma forma feminina. - Donde é que ela veio?- perguntou Clay em voz alta. Dividindo o monitor em dois, fez surgir no lado direito a gravação dos segundos anteriores ao aparecimento da mulher. Mesmo assim não conseguiu vislumbrar nada. Ela parecia ter caído do céu.... Afastando o facto do seu pensamento, o polícia decidiu seguir rapidamente as suas ordens e tirou uma série de imagens dos alvos e da mulher desconhecida, enquanto estes se dirigiam para um veículo estacionado no parque do clube. Assim que entraram no hovercarro e tomaram a direcção da estrada que levava até ao espaçoporto, ele decidiu que o seu trabalho tinha terminado. Embora não tivesse sido informado, de certeza que a organização teria alguém a vigiar esse local e portanto estava na altura de se ir embora. Recolhendo o sensor da porta e guardando-o num dos bolsos do seu uniforme, Clay limpou todos os vestígios da sua programação no monitor e pôs o seu hovercarro em movimento. Ao dar meia-volta com o veículo, viu o hovercarro dos membros da Secção Regional a manobrar e a tomar também a direcção do espaçoporto. - Adeus...- disse o polícia num tom jocoso, despedindo- se tanto dos outros vigilantes como dos seus alvos. Tinha o pressentimento de que eles se iriam encontrar outra vez...e dessa próxima vez, talvez as circunstâncias fossem diferentes.... ALGURES NA CINTURA DE ASTERÓIDES Aumentando a velocidade, a sonda lançou um sinal para o último conjunto de minas que defendiam a saída daquela passagem pela Cintura da Morte. Perante o sinal de que tudo estava em ordem, a I.A. da sonda ultrapassou a barreira e entrou no espaço do outro lado dos asteróides. Reduzindo a velocidade, ela accionou os seus sensores, pesquisando toda aquela zona do espaço em busca de anomalias. Enquanto a sonda iniciava a sua pesquisa, a bordo da T.D.F. Berlin, o Comandante Hans Zimmer assistia a tudo pois Eva tinha-o ligado directamente à outra I.A. . Ele tinha a sensação de estar a flutuar no espaço, sensação essa provocada por estar a ver as imagens da câmara que a sonda possuía. No lado inferior esquerdo da imagem surgia uma espécie de mini-mapa que indicava os sectores que a sonda estava a pesquisar. "Quanto tempo é que falta?", perguntou ela à I.A. "Faltam cento e dois segundos para terminar a pesquisa do último sector", respondeu a "mente" da sonda num tom de voz que, ao contrário das I.A. normais, era artificial e mecânica. Perante a resposta, Zimmer desligou-se da sonda, voltando a sua atenção para a sua própria I.A. No exacto momento em que fez isso, Eva alertou-o: "A sonda acaba de detectar algo...." Zimmer voltou a ordenar mentalmente a ligação e, assim que o fez, começou a receber os dados que tinham despertado a atenção da sonda. Uma série de massas metálicas e emissões de energia tinham sido detectadas na última zona do sector. "Há 90% de hipóteses dos sinais detectados serem de origem hostil", informou-o a I.A. assim que o sentiu. "Quanto tempo para a intercepção?" "Se aumentar a velocidade, cerca de 5 minutos." "O aumento de velocidade está autorizado" Com estas palavras, o Comandante Hans Zimmer voltou a cortar a ligação à sonda. O ambiente na Ponte tinha ficado subitamente pesado, pois Eva tinha informado a tripulação aí presente da descoberta. Todos eles sabiam o que tinha acontecido durante o confronto entre as forças Terrestres e os Cylons e esperavam sinceramente que os contactos detectados pela sonda fossem apenas alguma anomalia espacial. O próprio Comandante também esperava isso, mas a verdade é que sabia que a Marinha lhe pagava não para evitar os confrontos, mas sim para os vencer. E para vencer era necessário estar preparado. Com este pensamento em mente, ordenou a toda a patrulha para entrar em estado de alerta, ligando-se depois à sua I.A. "Sim, Capitão?", perguntou esta assim que sentiu o contacto. "Prepara duas sondas de comunicação. Uma para a Base Naval de Lavos-305 e a outra para Gibraltar.." "Qual é a mensagem a enviar?" "Contactos desconhecidos do outro lado da cintura. Altas probabilidades de serem naves inimigas. Peço reforços imediatos e a implementação dos Protocolos de Emergência em todas as colónias desta região." "O lançamento das sondas será efectuado dentro de 1 minuto", declarou Eva, continuando após uma pequena pausa: "Ambas as sondas estão sinalizadas como contendo uma comunicação da máxima urgência." Assim que as sondas foram lançadas, Zimmer ligou-se à sonda de exploração. Esta estava quase a chegar à zona onde tinha detectado os contactos anómalos e à medida que se aproximava, os seus sensores iam captando mais informações. Ao todo as anomalias eram 13, estando 12 delas situadas em torno da restante. "Quais são agora as probabilidades dos contactos serem hostis?", perguntou ele, temendo, no seu íntimo, a resposta. "As probabilidades são agora de 98%", respondeu a sonda, "Os contactos correspondem ao perfil de Naves-Base Cylons. "Quanto tempo é que falta para uma confirmação visual?" "Um minuto" "Já foste detectada?" "Segundo os meus cálculos, entrei no perímetro dos seus sensores há 4 minutos", disse a I.A., não manifestando nenhum tipo de emoção pelo facto de estar em perigo. Aquele minuto foi um dos mais longos da vida do Comandante Hans Zimmer. Assim que a sonda atingiu o limite máximo da sua câmara, activou-a e rapidamente surgiu a imagem de uma série de imensas naves. O perfil era conhecido por todos os membros da Marinha da Aliança: dois pratos metálicos unidos por uma grossa coluna central. Tal como a sonda tinha ditos, as Naves-Base eram treze, estando doze delas a formar uma espécie de círculo em relação há décima- terceira. Zimmer teve a nítida sensação de que essa última era a mais importante.... "Estou a detectar a activação de sistemas de armas nas Naves-Base...", declarou subitamente a sonda. "Regressa imediatamente!", ordenou de imediato o Comandante, mas nos nanosegundos que a sua mensagem demorou a chegar ao destino, a sonda foi atingida por uma série de disparos simultâneos, explodindo de imediato. Zimmer sentiu uma intensa dor que durou alguns segundos, sinal de que a sua ligação com a sonda tinha sido abruptamente cortada, mas as salvaguardas do sistema protegeram-no de mais choques físicos. Mesmo assim, era como se uma parte dele tivesse sido cortada e ele tinha a certeza de que durante alguns dias iria andar com uma dor de cabeça de proporções monumentais. "A primeira linha de minas acaba de detectar os alvos!", anunciou Eva ainda antes dele se conseguir recompor, "Uma Nave-Base acaba de entrar na passagem...As minas estão a executar o seu plano de ataque! Assim que detectaram um alvo que correspondia aos parâmetros de ataque, as primeiras três minas avançaram na direcção dele. Elas eram feitas de um material invisível aos radar e não tinham nenhum modo de propulsão visível, contando apenas com projectores de campo magnético que as "puxava" na direcção do alvo. Assim que esse campo entrou em contacto com o exterior da Nave-Base, as minhas começaram a ser atraídas e iniciaram a sua viagem suicida. "Pelos vistos os técnicos tinham razão", comentou Eva para Zimmer, enquanto acompanhavam os acontecimentos na passagem através das câmaras da nave, "Os sensores deles são incapazes de detectar as minas e as ondas gravitacionais dos seus motores." "Vamos ver....." O nome das minas era um bocado enganador. Embora o seu principal explosivo fosse realmente de origem nuclear, a verdade é que elas não eram criadas para causar explosões maciças e descontroladas. De facto, as minas nucleares tinham sido criadas para serem utilizadas em situações em que teriam que ser dispersas numa zona reduzida, ou seja, os seus computadores sabiam que havia outras minas nas imediações e controlavam a potência das explosões nucleares de forma a que estas últimas não destruíssem o resto do campo de minas. Assim que os projectores gravitacionais das três minas as puxaram de encontro à superfície da Nave-Base, os seus computadores escolheram a potência de 1 megatonelada cada e rapidamente coordenaram uma contagem decrescente. Em pouco menos de 10 segundos, as três minas detonaram simultaneamente, criando um autêntico sol artificial dentro da passagem. - O alvo foi atingido com sucesso.- anunciou o oficial encarregue dos sensores de longo alcance.- A Nave-Base está morta no espaço.... Eva focou de imediato a câmara na zona do espaço onde a detonação se tinha dado, mudando de modo de visão até encontrar um que conseguisse penetrar a nuvem de destroços que rodeava o alvo. A imagem que encheu a mente do Comandante, deixou-o um pouco apreensivo. Apesar da parte superior da nave Cylon ter desaparecido, a parte inferior tinha ficado mais ou menos intacta. "Mesmo com uma potência tão reduzida, a explosão devia ter sido capaz de destruir completamente a Nave-Base", subvocalizou ele, "Faz um apontamento disto no relatório da missão, Eva. Tenho a certeza que os técnicos em Gibraltar estarão interessados...." - Qual o estado do alvo? - perguntou ele em voz alta. Em resposta, um dos oficiais da Ponte fez surgir um esquema da Nave-Base no tanque holográfico e começou a enunciar os danos no que restava da nave Cylon: - A parte inferior está totalmente sem energia e conseguimos detectar uma série de fogos internos. Não há qualquer sinal electromagnético compatível com a actividade de Centuriões.... - Posso então presumir que os tripulantes morreram todos?- perguntou o Comandante. - Se não morreram estão desactivados.- afirmou com confiança o oficial. Hans pensou seriamente em repreender o subordinado pela sua arrogância. Numa guerra, numa batalha, a confiança tinha sempre que ser mínima. O vencido podia ter sempre um truque na manga, truque esse que podia acabar com a alegria do vencedor. O próprio Zimmer tinha visto isso acontecer várias vezes ao longo da sua carreira militar e tinha a certeza de que ainda iria ver muitas mais. A repreensão só não surgiu porque neste caso havia alguns pontos atenuantes. Os chamados Coloniais tinham partilhado tudo o que sabiam em relação aos Cylons e também alguma da sua experiência decorrente de mil anos a combatê-los. Uma das coisas que os Terrestres tinham aprendido com os Coloniais é que pulsos electromagnéticos conseguiam incapacitar os Cylons. Decidindo deixar passar aquela falha no oficial, mas fazendo uma referência mental para não se esquecer, ele voltou a sua atenção para a câmara que Eva continuava a apontar para a passagem. "Há sinal de mais Naves-Base?" "Acaba de aparecer uma na passagem", respondeu Eva passados alguns segundos, parando por momentos antes de avisar num tom urgente: "Comandante, estou a detectar um aumento de velocidade! A Nave-Base está a preparar-se para entrar em Velocidade-Luz!" A câmara no casco da Berlin focou a gigantesca nave a ultrapassar os destroços da primeira Nave-Base e, num momento de pseudo-movimento, começar a esticar-se até desaparecer, num sinal claro de que tinha atingido a velocidade-luz. A explosão tinha alertado a segunda Nave- Base para o facto de que a passagem estava armadilhada, provavelmente com minas. A táctica dos Cylons para ultrapassar os campos desse estilo era exactamente atingir a velocidade-luz, de modo a fazê-lo rebentar. Isto funcionava porque as minas que eles tinham enfrentado até aquela altura, nunca tinham sido capazes de danificar uma Nave- Base. É claro que eles nunca tinham enfrentado um campo de minas daquela magnitude. Numa explosão muito mais poderosa que a anterior, os vários quilómetros da passagem ficaram totalmente iluminados, mostrando o que é que acontecia quando um objecto a deslocar-se àquela velocidade embatia num objecto. "Qual a situação do campo de minas?", perguntou urgentemente Zimmer, pois sabia que aqueles objecto eram a única coisa que impedia que os Cylons passassem para aquele lado da cintura. "A explosão destruiu os grupos 2 e 3, Comandante. Os outros doze campos continuam activos, embora haja duas minas do grupo 4 que estão a comunicar problemas devido ao pulso electromagnético da explosão. "Qual a situação do alvo?" "O alvo deixou de existir, Comandante. A passagem está agora cheia de destroços..." Eva interrompeu subitamente a sua comunicação com Zimmer, dando um sinal de que estava a receber um sinal de emergência. Passados alguns segundos, o Comandante viu surgir na sua mente a figura do Capitão O'Brien. O Comandante da T.D.F. Dublin não tinha ordenado à sua I.A. que criasse nenhum tipo de imagem artificial, tendo apenas usado a imagem transmitida por uma das câmaras internas da nave. Era fácil ver qual tinha sido o objectivo dessa sua ordem, pois pelo que dava para ver da sua Ponte, esta apresentava danos graves. Por detrás do posto de comando do Capitão O'Brien via-se uma série de técnicos da Secção de Controlo de Danos a tentar apagar um incêndio que lavrava numa série de painéis e instrumentos. "Comandante Zimmer, a minha nave sofreu danos graves!", anunciou de imediato O'Brien, vendo-se na imagem que ele estava constantemente a olhar para trás. "O que é que aconteceu?" "O pulso electromagnético fez rebentar a maior parte dos nossos instrumentos! A blindagem não foi suficiente..." "Tiveram baixas?", interrompeu-o Hans. "Temos dois mortos e três feridos graves...Foram todos atingidos pelas explosões dos instrumentos.", respondeu O'Brien, levando as mãos à cabeça. "Nunca pensei que a blindagem não conseguisse aguentar o pulso......" Zimmer ponderou a situação por alguns segundos, mas a verdade é que só havia uma posição a tomar. "Comandante, passe o seu comando para o Centro de Informação de Combate e tome posições no fundo da patrulha. Se a condição dos feridos se agravar, transfira-os imediatamente para aqui. Entendido?" "Sim, senhor! T.D.F. Dublin a desligar", respondeu o interpelado, escondendo o seu desagrado. O C.I.C. servia para a função que o seu nome indicava, mas não só, sendo também uma segunda Ponte de Comando e tendo por isso todos os instrumentos e sensores que existiam na Ponte original. Como era costume em situações de alerta e combate, o Centro estava totalmente tripulado e havia uma série de oficiais nos diferentes postos da Ponte de Comando Secundário. A partir do momento em que o Comandante se deslocasse para aí, ela tornar-se-ia a Ponte principal. É claro que nunca teria as mesmas condições da original, especialmente no que dizia respeito ao espaço. Só os cruzadores e as naves-capitais é que tinham um C.I.C. e a respectiva Ponte Secundária equivalentes à Ponte principal. Com este problema resolvido, o Comandante Hans Zimmer voltou a sua atenção para a passagem, esperando pela próxima jogada dos novos inimigos da Humanidade. Enquanto fazia isso, preparou uma nova mensagem para ser enviada para Gibraltar, com a informação de que os Cylons tinham tentado passar para o espaço Terrestre. ESTRELA-DE-BATALHA GALACTICA EM ÓRBITA DA COLÓNIA DE EDEN, ALIANÇA TERRESTRE. - Comandante, o último vaivém de abastecimentos acaba de regressar à superfície.- anunciou a oficial da Ponte no pequeno ecrã na secretária de Apollo.- O Coronel Tigh informa que o aprovisionamento está completo. - Obrigado, Cadete Baras.- respondeu o Comandante, lembrando-se do nome da tripulante, o que trouxe um pequeno sorriso à cara da jovem, uma recém-chegada à Estrela- de-Batalha.- Diga, se faz favor, ao Coronel Tigh que daqui a dois centares voltarei para aí. - Com certeza, Comandante!- Com estas palavras, Baras terminou a ligação e Apollo voltou a sua atenção para os cubos de informação que tinha na secretária. Para além de estar totalmente reabastecida, a Galactica tinha também agora um complemento inteiro de tripulantes. Boomer tinha destacado para a Estrela-de-Batalha os melhores alunos da Academia. Todos eles vinham com a recomendação de Croft, o Director da Academia, e até agora Apollo não tinha a mínima razão de queixa de nenhum deles. O Coronel Tigh, num acto que não era muito usual, tinha até comentado o bom desempenho dos Cadetes. - Se eles conseguem impressionar o Coronel, devem ser mesmo competentes!- comentou ele para si mesmo, sorrindo. Voltando a atenção para os cubos, continuou a rever as fichas pessoais daqueles futuros Guerreiros, tentando decorar os nomes e associá-los a caras. A tarefa não era fácil, mas ele sentia a obrigação de a fazer, pois o seu pai sempre se orgulhara do facto de saber o nome da maior parte dos tripulantes da Galactica. Ele próprio admitia que isso era óptimo para a moral da tripulação. A sua leitura foi interrompida por uma série de suaves sons mecânicos vindos dos seus aposentos. Levantando os olhos dos cubos, olhou na direcção do som. Tal como esperava, Muffit, o daggit mecânico que tinha pertencido ao seu falecido filho, estava à porta do seu quarto, fitando-o com os seus olhos artificiais e abanando a cauda. Apollo não tinha tido coragem de se livrar do daggit após a morte do seu filho, pois ele era uma das coisas que lhe traziam lembranças de Boxey. Muitas vezes, quando Sheba não estava com ele nos aposentos, Apollo costumava abraçar-se simplesmente ao daggit, imitando inconscientemente aquilo que vira o seu filho fazer inúmeras vezes. - Que foi Muffit? Que se passa?- perguntou ele ao animal mecânico, vendo que este estava constantemente a voltar a sua cabeça para trás, na direcção do quarto.- Chega aqui. Ao contrário do que costumava acontecer, o daggit não obedeceu, voltando até para o sítio de onde tinha vindo. Assim que voltou para o quarto, Muffit começou a emitir a sua imitação de ladrar. Estranhando o comportamento do animal, Apollo levantou-se da sua secretária e dirigiu-se para o aposento onde o daggit continuava a ladrar. Ele começava a suspeitar que o animal tinha sofrido algum tipo de avaria. - Que se passa, Muf.....- começou o Comandante a perguntar, na altura em que passava para o outro aposento, parando porque algo de errado se estava a passar. A temperatura do quarto estava baixíssima, apesar dos indicadores na entrada indicarem que a temperatura seleccionada era a de Caprica. Ligando a luz, ele viu que o daggit estava parado no meio da sala, continuando a ladrar na direcção do canto mais afastado do quarto. Um arrepio, que não era só provocado pela baixa temperatura, atravessou Apollo. Muffit estava a ladrar exactamente para o local onde ele tinha guardado os pertences de Boxey. Dando mais alguns passos para o interior do quarto, Apollo viu que a sua respiração se notava perfeitamente no ar, um sinal claro de que a temperatura estava baixa. Ajoelhando-se cautelosamente, agarrou o pescoço do daggit mecânico e começou a tentar convencê-lo para se irem embora dali, estando mesmo disposto a desligá-lo. Tão subitamente como tinha começado, Muffit calou-se e agora o único barulho que se ouvia no quarto era o respirar de Apollo e os servomecanismos que mantinham o daggit mecânico em pé. - Vamos embora!- ordenou o Comandante, começando a puxar levemente o daggit pelo pescoço. Foi nessa altura que se começou a ouvir outro som no quarto. A princípio ele não conseguiu identificar o que era, mas ao fazê-lo sentiu novamente um enorme arrepio a percorrer-lhe o corpo. O que ele estava a ouvir era uma voz a choramingar...e a voz vinha exactamente da zona do quarto para onde Muffit estava a ladrar. Ganhando coragem, Apollo dirigiu-se para aí, procurando determinar a origem do som. Esticando-se ao máximo, conseguiu perceber que a voz parecia ter origem num ponto da parede, a cerca de dois metrons do solo, por cima de um conjunto de caixas vazias.. Este facto deixou-o ainda mais atónito, pois ele conhecia as plantas da Galactica como a sua própria mão e do outro lado daquela parede não havia nada a não ser o espaço, visto que era umas das paredes externas da Estrela-de-Batalha. Além do mais não havia nenhum equipamento nem nenhum espaço livre entre a parede que ele tinha à sua frente e a blindagem exterior. - Como é que isto é possível..- murmurou ele, passando a mão pela parede, numa vã tentativa de encontrar alguma espécie de abertura onde alguém pudesse ter escondido um gravador ou algo do género. Na altura em que ia recomeçar a revistar as caixas que estavam junto do local, teve a estranha sensação de que estava a ser observado, quase que sentindo uns olhos fixos na parte de trás do seu pescoço. Tendo o máximo de cuidado, quase tanto como o que tinha quando estava a tentar escapar de um Raider, Apollo começou- se a virar. A primeira coisa que viu foi que o daggit se tinha deitado no chão, só tendo a sua cauda a abanar lentamente, e que estava a fitar algo atrás das suas costas. Quando finalmente se virou totalmente para trás, ficou totalmente paralisado de medo com a visão que tinha á sua frente. O barulho do seu coração a bater a toda a velocidade tornou-se no único som que conseguia ouvir, ao mesmo tempo que a uma espécie de formigueiro lhe paralisava os movimentos. No centro da sala, a alguns metrons de Muffit, encontrava-se uma aparição totalmente branca, parecendo uma nuvem que se estendia até ao chão. O vulto lentamente começou a tomar forma humana e quando finalmente o fez, Apollo teve que abafar um berro. À sua frente estava agora Boxey, envergando até as mesmas roupas que tinha vestido no dia do acidente onde morrera. A aparição estendeu os braços na direcção de Apollo e se não fosse pelo facto de ele estar completamente paralisado, o Comandante teria caído para trás. Por mais aterradora que a aquela visão fosse, a verdade é que ele não conseguia afastar os olhos dela. O Boxey fantasmagórico estava a falar, parecendo estar sempre a repetir a mesma frase, mas a verdade é que não se ouvia nenhuma voz. A parte lógica da mente de Apollo dizia-lhe que aquilo que estava a ver não passava de uma espécie de gravação, que alguém lhe estava a pregar uma partida de um enorme mau gosto. Mas havia algo dentro de si que dizia que o que estava ali perante de si era realmente a alma do seu falecido filho. Conseguindo controlar os seus nervos, Apollo tentou compreender o que é que ele lhe estava a dizer, tentando ler os lábios da aparição, mas a verdade é que quanto mais ele se concentrava, mais a imagem fantasmagórica parecia perder definição. Aos poucos conseguiu perceber que Boxey parecia estar a chamar por ele, mas o resto da mensagem era impossível de perceber. De repente, todo o compartimento ficou mergulhado numa luz vermelha, o sinal de que a Galactica estava em alerta. Passados alguns microns, a voz do Coronel Tigh fez-se ouvir por todos os altifalantes espalhados pela Estrela-de- Batalha, anunciando que estavam a entrar em Alerta Vermelho e que aquilo não se tratava de um exercício. A temperatura da sala voltou ao normal e a figura de Boxey desapareceu no ar, tão misteriosamente como tinha aparecido. No entanto, nesses últimos momentos, Apollo conseguiu perceber uma das palavras que ela dizia: -Iblis. Assim que recuperou as suas faculdade motoras, o Comandante cambaleou de volta para o seu escritório, estabelecendo uma ligação com a Ponte. A sua cara não devia ser nada boa, porque o Coronel Tigh assim que o viu, perguntou: - Que se passa, Apollo? - Nada...nada...- respondeu ele, sabendo que não estava a ser nada convincente e tentando disfarçar o seu nervosismo.- Que se passa? Porque é que estamos em Alerta Vermelho? A expressão de Tigh era bastante esclarecedora, sendo evidente que ele sabia que havia algo errado com Apollo. Mesmo assim, o seu sentido de dever manteve-se e ele pôs o Comandante de toda a situação: - Acabamos de receber uma mensagem da Marinha Terrestre a informar que há cerca de duas horas atrás, ou seja três dos nossos centares, uma das suas patrulhas detectou uma força Cylon a tentar atravessar a Cintura... - Não há mais informações? - Para já ainda não. - Muito bem..- disse Apollo, massajando a sua testa num tique nervoso.- Quando é que podemos partir? - Os Guerreiros que estavam de licença já foram chamados.- anunciou Tigh, consultando o seu computador pessoal.- Os vaivéns devem chegar todos daqui a vinte centons. Infelizmente há um Guerreiro em falta.... - Quem? - Sheba. Aparentemente ela partiu num vaivém para fora de Eden à cerca de quarenta centons... Apollo sabia que isso era uma grave quebra do Regulamento de Serviço dos Guerreiros, que, mesmo em licença, deviam estar sempre prontos a voltarem a respectiva Estrela-de-Batalha quando convocados. É claro que naquela altura ele não estava propriamente com a disposição nem com a vontade de se preocupar com esse facto e foi exactamente isso o que ele anunciou a Tigh: - Desta vez, vou deixar passar essa falta. A Tenente Deitra que assuma o comando da Esquadrilha Vermelha. Assim que voltarmos eu falo com Sheba. - Entendido, Comandante. - Eu vou já para a Ponte. Só demoro mais um centon. Assim que Tigh confirmou que tinha recebido a mensagem, Apollo desligou a ligação e sentou-se na sua cadeira. Ele precisava daquele centon para pôr os seus pensamentos em ordem, mas uma coisa era certa: Ele não podia contar a ninguém o que tinha visto. Se contasse, de certeza que seria encarado como um louco e retirar-lhe-iam o comando da Galactica e isso não era aconselhável, especialmente naquela altura, em que os Cylons tinham regressado. Para já, aquele seria um segredo só dele. Tomando esta decisão, Apollo levantou-se, endireitou o seu uniforme e dirigiu-se para a Ponte de Comando. Involuntariamente lançou um olhar na direcção da entrada do seu quarto, onde Muffit continuava deitado, e o seu corpo foi percorrido por um calafrio, que só terminou quando a porta se fechou por completo nas suas costas. - CAPÍTULO 6 - COLÓNIA DE LAVOS-306, ALIANÇA TERRESTRE Kristiane Lockhart tentou fazer o mínimo de barulho ao entrar em casa. Um comando sussurrado tinha avisado a I.A. da casa para não ligar as luzes. Avançando às escuras por uma sala que conhecia perfeitamente, Kristiane dirigiu-se para o seu quarto. Tendo cuidado para não bater com a sua espingarda e mochila em nada, abriu a porta e pousou o equipamento num canto. Dirigindo-se para a casa-de-banho, ordenou à I.A. que lhe preparasse um banho de imersão bem quente. Enquanto a banheira se enchia de água, Kristiane despiu-se, pondo a sua farda da Guarda Planetária a lavar, pois esta estava cheia de lama. As manobras daquela semana tinham consistido sobretudo em escavar trincheiras. Numa altura em que a maior parte das guerras eram travadas carregando em botões, os membros da Guarda estavam a ser ensinados a escavar trincheiras para se defenderem.... Ponderando aquela situação irónica, ela vestiu um roupão, saiu do quarto e dirigiu-se para o quarto de Anne para dar uma espreitadela. - Podes entrar, eu ainda não estou a dormir.....- ouviu ela, assim que se aproximou da porta. Entreabrindo-a, meteu a cabeça e viu que a filha estava deitada na cama a ler um livro. - A que horas é que deitaste? - Estive à tua espera para jantar.....- respondeu Anne, pousando o livro sobre os lençóis. “ Já sabia que ela me ia atirar isto à cara....”, pensou Krisitiane, lançando um pequeno suspiro. As conversas delas acabavam sempre em discussão e ela não estava com disposição para isso.... - Ao menos podias ter avisado que as manobras iam ser prolongadas.....- insistiu Anne, com um certo tom de irritação.- É muito triste saber as coisas através da televisão..... - Sabes perfeitamente que eu não posso comunicar com o exterior........- respondeu ela, tentando não agravar a situação. - Até parece que estás no Exército ou na Marinha! Vocês são só civis a brincar aos soldados! Kristiane mais uma vez não respondeu. Anne tinha dito algo que era verdade. Por mais que se esforçassem e por mais berros que os instrutores dessem, todos os soldados da Guarda Planetária sabiam que nunca conseguiriam alcançar os níveis de perfeição das tropas profissionais da Aliança. Os treinos aos fins-de-semana não conseguiam reproduzir os mesmos resultados de anos de treino a sério. - Anne, eu estou muito cansada e sem disposição para estar a discutir....- acabou Kristiane por dizer.- Tens razão, eu devia ter dito alguma coisa mas a verdade é que eu não podia. Dorme bem, amanhã falamos. Sem esperar pela resposta da filha, fechou a porta e dirigiu-se para o seu quarto, onde a banheira já estava cheia de água quente. Tirando o roupão, entrou para o banho e deitou-se, tentando relaxar. Pela segunda vez naquele mês, ela tinha recebido uma comunicação da Terra. Havia várias Universidades Terrestres que estavam interessadas em ter os seus serviços de bióloga, oferecendo-lhe todas as condições para que ela continuasse as suas investigações lá. Talvez uma mudança de ambiente, e de planeta, fosse benéfica para ambas.... ALGURES NA ZONA DA CINTURA DE ASTERÓIDES A tripulação das várias naves da patrulha começavam a exibir sinais de cansaço, o que seria de esperar após quase 48 horas em regime de alerta total. Depois da segunda tentativa de ultrapassar a cintura, o único sinal dos Cylons tinha sido o facto de que todas as sondas que os Terrestres tinham mandado para o outro lado terem sido destruídas. “Não há sinais do inimigo?”, perguntou o Comandante Hans Zimmer à I.A. “Não, Comandante. A passagem continua bloqueada por destroços e ainda não houve qualquer tentativa para a limpar” “Penso que está na altura de nos retirarmos!”, disse Zimmer. ”Quanto tempo é que demorará a chegarem os reforços?” “Segundo a mensagem que recebemos, os reforços devem chegar dentro de aproximadamente 10 minutos” O Comandante sentiu uma enorme vontade de insultar alguém por causa da situação. O Grupo de Resposta Rápida da Marinha tinha demorado quase dois dias a chegar e isso na sua opinião era inadmissível. Ainda bem que eles se tinham deparado com o inimigo numa zona já preparada para isso. Se não fossem aquelas benditas minas.... “Informa o resto da patrulha que assim que o Grupo chegar, iremos voltar para a Base Naval de Lavos-305 para nos reabastecermos.” “Sim, senhor!” Recostando-se na sua cadeira, Hans Zimmer fechou momentaneamente os olhos, reflectindo sobre os acontecimentos daqueles últimos dias. No seu íntimo tinha a certeza de que os Cylons ainda estavam algures do outro lado, à espera de uma oportunidade para atravessarem a Cintura. Essa “certeza” só aumentava a sua resolução em reabastecer a patrulha o mais depressa possível e voltar para aquela zona. Quando os Cylons tornassem a atacar, ele queria estar pronto para os combater... SECTOR 15893 DO IMPÉRIO CYLON Ao contrário do seu antigo Comandante e da maior parte dos outros Comandantes das Naves-Base, o Comandante desta não tinha instalado nenhum estilo de pedestal na Ponte, pois não sentia nenhum complexo de inferioridade em relação aos seus Superiores nem nenhuma vontade de mostrar a sua superioridade em relação aos seus subordinados. Além do mais ele já tinha visto, inúmeras vezes, os Comandantes a caírem desses pedestais quando as Naves-Base faziam manobras bruscas ou eram atingidas. “E de certeza que os nossos corpos não foram projectados para aguentar quedas...”, pensou o Cylon da Série IL para si mesmo. Ele tinha-se habituado a ter aqueles monólogos internos a partir do momento em que tinha estado sob as ordens do Colonial conhecido como Baltar. Esse seu hábito tinha-se revelado óptimo para escapar às ocasiões em que Baltar começava a discursar pomposamente, normalmente para jurar vingança contra Adama e a Frota. E falar para si mesmo era também uma boa maneira de imitar aquilo a que os Humanos chamavam “pensar”. “O que é que terá acontecido a Baltar?”, inquiriu Lúcifer, numa pergunta meramente retórica, pois a verdade é que não tinha muita curiosidade em saber a resposta. As forças que continuavam a perseguição da Frota Colonial estavam agora sob o seu Comando. O Líder Imperial tinha-lhe confiado aquela missão e plenos poderes para acabar com o que restava da resistência das Colónias. É claro que a missão não era muito fácil, pois tinham passado uma série de yahrens desde da última vez em que o Império tinha enfrentado a Galactica. Lúcifer tinha seguido com as suas forças para o sector onde tinha havido esse último confronto, mas não tinha encontrado nenhuma rasto concreto da Frota a não ser os destroços de uma Nave-Base destruída. O sector em questão era uma das regiões mais afastadas do centro do Império, não merecendo muita atenção por parte do planeta Cylon. Era um sector para onde se mandavam Naves-Base em fim de serviço e Centuriões que se tinham mostrado problemáticos. Era também uma zona cheia de fenómenos curiosos, fenómenos esses que tinham despertado a curiosidade de Lúcifer. Para começar, era nesse sector onde se situava a maior cinturas de asteróides conhecida. Cientistas Cylons tinham chegado à conclusão de que ela era constituída por vestígios de “planetas falhados”, matéria planetária vinda do centro da Galáxia, e do princípio dos tempos, que não tinha sido atraída por nenhum campo gravitacional, não formando nenhum corpo planetário estável. Aquela enorme cintura estava sempre em constante expansão, continuando a sua viagem para longe do centro da Galáxia. Apesar de ser extremamente rica em matérias primas, nomeadamente Tylium, a cintura nunca tinha sido explorada pois o Quadrante Beta e o Quadrante Delta, os principais centros do Império, também eram ricos e essas zonas eram mais fáceis de explorar e estavam mais perto de Cylon. Outro fenómeno que tinha atraído a atenção de Lúcifer, tinha sido as denominadas “transmissões fantasmas”. A própria utilização do termo “fantasmas”, demonstrava que os Cientistas Cylons não tinham conseguido arranjar nenhum explicação lógica para tal fenómeno, tendo por isso que recorrer a termos vindos do tempo em que eles ainda eram seres orgânicos. Por mais que uma vez, Naves-Base que se encontravam em patrulha naquele sector tinham captado estranhas transmissões, num comprimento de onda que já não era utilizado à centenas de yahrens. Essas transmissões eram compostas essencialmente por imagens onde se viam uma espécie de ser mecânico a descer lentamente de uma nave, num planeta cinzento e cheio de crateras. A origem das transmissões nunca tinha sido determinada, parecendo ser móvel, o que apontava para que a fonte emissora fosse alguma espécie de nave ou sonda. Todos os esforços para a encontrar tinham sido infrutíferos e essa busca tinha passado a ter um carácter secundário a partir do momento em que o Líder Imperial tinha lançado o seu Édito de Extermínio contra os Coloniais, devotando todas as forças do Império Cylon à destruição da Humanidade. Apesar desta mudança de prioridades, uma das Naves- Base que patrulhava esse sector e que não tinha recebido as novas ordens devido a problemas de comunicação, tinha continuado a procurar a fonte das transmissões. Na última comunicação recebida em Cylon, o Primeiro-Centurião que comandava essa Nave-Base anunciava que tinha acabado de capturar uma sonda de origem desconhecida e que ela estava a transmitir a tal mensagem. Infelizmente, ainda antes de se começar a analisar a sonda, a nave tinha entrado em contacto com a Frota da Galactica e sido destruída. A investigação dos destroços dessa Nave-Base apenas tinha revelado que ela tinha sido destruída por uma explosão interna maciça, não sendo por isso possível encontrar qualquer vestígio da misteriosa sonda. Uma série de destroços e peças velhas confirmavam que a Frota Colonial realmente tinha passado por aquele sector, mas não era possível seguir o seu rasto. Perante esta situação, Lúcifer tinha ordenado que as suas Naves-Base regressassem ao Posto Imperial mais próximo, de modo a sofrerem modificações. A vasta extensão do Império Cylon fazia com que muitas vezes novas tecnologias que já estavam a ser utilizadas nas zonas centrais ainda não tivessem chegado às forças que patrulhavam as zonas mais afastadas. Era por isso que os Posto Imperiais estavam ligados directamente a Cylon, recebendo sempre as actualizações mais recentes de modo a puderem modificar as Naves-Base de acordo com essas especificações. A Nave-Base de Lúcifer tinha acabado de ser equipada com um novo equipamento de comunicação hiperluz na altura em que o Posto Imperial havia recebido uma mensagem enviada por uma das naves que patrulhava a zona mais distante da cintura. Os registos do Posto indicavam que a dita nave tinha sido dada como desaparecida à cerca de um yahren atrás, um facto que não tinha sido encarado como muito estranho porque ela tinha vários problemas mecânicos. Lúcifer tinha acedido à transmissão subluz assim que os computadores do Posto Imperial a tinham começado a receber. A transmissão tinha demorado exactamente um yahren a chegar e era composta por toda a telemetria e informação dos computadores centrais da Nave-Base em questão. Esta última tinha entrado em contacto com a Frota da Galactica e atacado. Analisando o local da cintura onde este encontro se tinha dado e partindo do princípio que a Nave-Base havia sido destruída pela Galactica, Lúcifer traçou imediatamente uma possível rota para a Frota Colonial. A cintura tinha inúmeras passagens para o outro lado e a Galactica parecia estar a dirigir-se para uma delas na altura em que esta última Nave-Base a tinha interceptado. Lúcifer tinha que admitir que a batalha tinha sido muito bem dirigida pelo Primeiro-Centurião e que tudo indicava que as forças Cylons iriam destruir a Frota. É claro que tudo tinha mudado a partir da altura em que a Galactica tinha passado a Cintura e os “novos” Humanos se tinham juntado à batalha. Lúcifer chamava-lhes “novos” porque as suas naves, tácticas e armas não eram conhecidas pelo Primeiro-Centurião. Um dos factores que separava os Cylons dos Humanos era exactamente esta falta de unidade que os segundos apresentavam. Os Cylons, desde do tempo em que eram simples seres orgânicos, sempre tinham planeado a sua expansão no espaço cuidadosamente, nunca quebrando as linhas de comunicação com o planeta-mãe. Já os Coloniais tinham o hábito irritante de se espalharem por toda a parte, quase como um vírus, sem qualquer tipo de controlo ou planificação, o que fazia com que houvesse inúmeros locais com Humanos, espalhados um pouco por todo o espaço para além das Doze Colónias. E além do mais, à medida que iam perdendo o contacto com os seus mundos natais, esse Humanos iam desenvolvendo as suas próprias civilizações e respectivas tecnologias. “Curioso”, foi a única coisa que passou pelo cérebro electrónico de Lúcifer ao analisar o decorrer da batalha. Os recém-chegados, apesar de terem equipamento antiquado, tinham-se revelado surpreendentes, especialmente ao utilizarem armas de fusão e com propulsão química, armas essas que os Coloniais e os Cylons já não utilizavam à várias centenas de yahrens. A parte final da transmissão da Nave-Base indicava que esta tinha sido gravemente danificada por uma das armas de fissão e pouco depois tinha sido atingida por um tiro que a tinha partido a meio. Vendo que a situação estava perdida, o Primeiro- Centurião tinha ordenado a autodestruição dos computadores centrais da Nave-Base e a destruição dos Raiders que restavam em ataques suicidas contra as naves da Frota. Sem perder mais tempo, Lúcifer tinha seguido com as suas forças para a região onde se tinha dado o encontro. Não querendo arriscar muito, ele tinha procurado outra zona de passagem, mas a verdade é que tinha dado de caras com os tais “novos” Humanos e com as suas armas de fusão... A passagem estava minada e Lúcifer tinha perdido duas Naves-Base antes de se aperceber desse facto e tomar medidas. Visto que os seus sensores não conseguiam detectar os engenhos explosivos, a melhor maneira de os evitar era seguir por um caminho onde eles não estivessem. Apesar do Império nunca ter dado muita atenção a este sector, a verdade é que não tinha deixado de o cartografar. Havia uma série de passagens sem saída mas que podiam ser abertas com uma série de tiros de Mega-Pulsar bem colocados, visto que as rochas que as fechavam não eram muito espessas. Era exactamente por um desses locais que as Naves-Base de Lúcifer estavam agora a passar. - A Nave-Base 104 acaba de desobstruir a passagem.- anunciou a Lúcifer o Centurião responsável pelas Comunicações. - Há algum contacto do outro lado? O Centurião transmitiu a pergunta à outra Nave-Base e rapidamente recebeu a resposta, transmitindo-a ao seu Comandante: - A Nave-Base 104 não tem qualquer contacto nos seus sensores. Perante esta informação, o Cylon da Serie IL não hesitou e ordenou de imediato que todas as Naves-Base passassem para o outro lado e que tomassem o rumo do sistema estelar mais próximo. Acelerando para a Velocidade- Luz, as Naves-Base rumaram para o interior do espaço da Aliança Terrestre. COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE QUARTEL CENTRAL DO EXÉRCITO TERRESTRE, CIDADE DE ASHER Fazendo um enorme esforço para não se espreguiçar, o Tenente Roger Veckin manteve-se direito na sua cadeira. O auditório do Quartel estava totalmente cheio de membros do Exército Terrestre, que tentavam parecer minimamente interessados na palestra que um Coronel estava a dar. O oficial tinha vindo directamente da Terra e tinha como missão “actualizar” os dados sobre os extraterrestres que tinham atacado as forças da Marinha à cerca de um ano atrás. Assim que a nave que trazia o Coronel tinha saltado para o sistema, o Exército tinha começado a chamar toda a gente de volta ao Quartel, mas mesmo assim, e apesar do oficial ter demorado cerca de duas horas a aterrar na superfície, havia gente que só tinha chegado bem depois da palestra ter começado. Roger tinha chegado do campo arqueológico na altura certa, momentos antes do Coronel entrar no auditório. - Alguém tem algumas questão?- perguntou este último, o que fez com que o Tenente prestasse de novo atenção, pois era um sinal claro de que aquele suplício estava a acabar. Olhando para os lados, procurou ver se haveria alguém com disposição suficiente para fazer com que aquilo continuasse, mas a verdade é que toda a gente estava quieta, esperando pelo fim. - Bem, meus senhores..- começou o Coronel a dizer, sendo interrompido pelo estrondo de uma porta a abrir-se. Todo o auditório se virou nessa direcção e o soldado que tinha aberto a porta com força parou momentaneamente. Ignorando os olhares, ele dirigiu-se rapidamente para o pódio do auditório e depois de fazer continência aos oficiais aí presente, entregou uma mensagem ao Comandante do Quartel. Este leu rapidamente a mensagem e, com um ar alarmado, passou-a ao Coronel. Este leu-a e ficou visivelmente nervoso, balbuciando qualquer coisa ao Comandante. Passando-lhe de novo a folha para as mãos, fez-lhe continência e abandonou apressadamente o pódio, sendo seguido pelos seus ajudantes. - Estou com um mau pressentimento acerca disto...- murmurou o oficial ao lado de Veckin, o Tenente Cruz. - Também eu...- assentiu Roger. Um pouco por todo o auditório as pessoas começaram a comentar o que tinha acontecido. O burburinho morreu rapidamente assim que a voz do Major Yu, o Comandante do Quartel, se fez ouvir: - Prestem atenção!!- ordenou ele, lendo de seguida o comunicado que tinha nas mãos: - Há 48 horas atrás, uma patrulha da Marinha detectou e enfrentou uma força Cylon na nossa zona da Cintura... O Major teve que interromper por momentos o que estava a dizer pois toda a gente começou a falar entre si. O primeiro contacto com os Cylons e com os Coloniais tinha sido feito na zona de Lavos-329, uma colónia que ficava no outro extremo da cintura. Ninguém estava à espera que os Cylons aparecessem tão perto! É claro que aos poucos a disciplina militar voltou-se a impor e as conversas terminaram. Não parecendo ter sido interrompido, o Major Yu continuou: - ..tendo destruído duas naves inimigas. A Base Naval de Lavos-305 só agora é que nos conseguiu avisar deste facto porque as suas sondas de comunicação avariaram. Visto que as forças inimigas recuaram, não há qualquer noção de quais são as suas intenções, sendo até possível que elas tentem passar a cintura novamente. Dobrando o papel e guardando-o num dos bolsos do seu uniforme, o Major fitou de novo o auditório. - A mensagem termina com o aviso de que devemos estar preparados para qualquer eventualidade. Visto que ainda não recebemos ordens da Terra, vou tomar a iniciativa de colocar todas as nossas forças em Estado de Alerta Um. As Forças de Defesa Orbital e as Forças de Defesa Planetária da Marinha também estão neste estado de prontidão e nos já estamos a coordenar a situação com elas. Dando a reunião como terminada, e fazendo continência à assistência, o Major Yu saiu do pódio, dirigindo-se para a saída lateral que dava acesso ao Centro de Comando do quartel. O resto do auditório esvaziou-se rapidamente há medida que os soldados e oficiais iam retomando os seus postos. Roger dirigiu- -se para a Camarata dos Oficiais onde envergou a sua armadura de combate, juntando-se depois ao pelotão que comandava. Um pouco por toda a cidade de Asher, as sirenes de emergência começaram a fazer-se ouvir. PLUTÃO, ALIANÇA TERRESTRE BASE DE AMUDSEN O Comandante Adama não conseguiu conter uma exclamação de espanto perante a visão que tinha à sua frente. No centro da gigantesca caverna cavada no solo de Plutão, iluminada por centenas de holofotes, erguia-se uma pirâmide dourada. - Impressionante!- disse a seu lado o Doutor Wilker, fitando também o estranho objecto. - Alguém lhe deu o nome de “A Nave”.- acrescentou o Director John Tyler, apontando para o centro da caverna e continuando depois a dizer:- É claro que não temos sequer a ideia se aquilo é uma nave ou não... - É exactamente para esclarecer essa questão que nos cá estamos, Director.- assegurou o Doutor Wilker, olhando depois para o outro Colonial.- Para começar, podemos dizer que há várias semelhanças com artefactos de origem Koboliana. Não é, Comandante? - Sim, sim.- assentiu Adama, um pouco perdido nos seus pensamentos. Todas as Doze Colónias conheciam aquele tipo de construção. Essa tradição tinha vindo de Kobol e as pirâmides predominavam tanto na arquitectura desse planeta como nas Colónias. A maior parte das habitações de Caprica, por exemplo, tinham essa forma. É claro que na Terra também havia construções em forma de pirâmide, embora nenhuma delas tivesse a perfeição daquelas feitas pelos Coloniais e pelos seus antepassados Kobolianos. Aquele artefacto era o primeiro que se aproximava dessa qualidade de construção... O três homens dirigiram-se um estrado onde estavam montados uma série de instrumentos e computadores que eram manuseados por algumas dezenas de técnicos e cientistas. Só na altura em que subiu ao estrado é que Adama se apercebeu do campo de forças que rodeava o artefacto. O ar em volta da pirâmide tinha uma espécie de tom azul muito suave, efeito esse que parecia atenuar nas zonas iluminadas pelos holofotes. - Presumo que aquele efeito luminoso seja do campo de força?- perguntou ele a Tyler. - Exactamente, Comandante. Todos os nosso esforços para o ultrapassar foram infrutíferos. A Aliança chegou a utilizar armas nucleares para tentar quebrar os campos que protegem as ruínas na Lua....Sem nenhum efeito, é claro... Voltando de novo a atenção para a pirâmide, Adama apercebeu-se da existência de uma série de corpos espalhados pelo interior do campo de forças. O Doutor Wilker tinha notado a mesma coisa e antecipou-se, apontando para os despojos macabros: - Director, de quem são aqueles corpos? - Quando o campo se activou em 6 de Agosto de 2105, a “Nave” estava a ser examinada por uma série de cientistas da Aliança. Aqueles são os corpos deles....acabaram por morrer todos por asfixia, perante os olhares desesperados de toda a gente. Nem sequer o ar é capaz de atravessar o campo de forças.... Adama ouviu a explicação e voltou a sua atenção para a pirâmide. A face que estava virada para o estrado exibia uma série de sinais que ele rapidamente reconheceu como sendo Kobolianos. - Acho que esta é a prova definitiva da ligação entre a 13ª Tribo de Kobol e a Terra!- anunciou ele, apontando com as suas mãos na direcção do artefacto. Normalmente não seria tão precipitado, mas a verdade é que lhe bastara ver o símbolo que encerrava a mensagem para chegar a essa conclusão. Algumas das pessoas que estavam na zona ouviram o comentário e rapidamente transmitiram-no, pois aos poucos uma pequena multidão começou a congregar-se junto do trio. Furando pelo meio dos outros cientista e técnicos, a Doutora Karen apareceu junto de Adama. Cumprimentando-o em Koboliano, perguntou de imediato: - Consegue decifrar o que lá está escrito? - A tradução desta escrita pictórica não é muito fácil...- começou Adama a dizer, sendo imediatamente apoiado pelo Doutor Wilker: - Os registos escritos que chegaram até nós dos tempos de Kobol não foram muitos... - Mas consegue ou não traduzir o que está lá?- insistiu Karen. - Doutora, um pouco mais de respeito pelos nossos convidados!- advertiu o Director, o que fez com que a jovem corasse de imediato e balbuciasse um pedido de desculpas. - Não faz mal, eu também já fui jovem..- assegurou Adama, sorrindo perante a impulsividade da rapariga. Fitando a face da pirâmide e rebuscando os seus conhecimentos de Koboliano Antigo, o Comandante começou a traduzir as palavras escritas pelos seus antepassados distantes: - Que o Tempo guarde para Sempre o Corpo do Caminhante das Estrelas...- nesta parte Adama parou por momentos, procurando outra tradução para aqueles símbolos, acabando por se decidir por outro termo.- ...ou melhor...o Corpo do Navegador das Estrelas Iraknis... - Iraknis?- interrompeu o Doutor Wilker, visivelmente espantado.- Esse nome apareceu nas ruínas de Kobol... - Exactamente, Doutor.- disse Adama.- Iraknis foi o Navegador que descobriu a Terra antes do Grande Êxodo de Kobol. O resto da mensagem diz: ...Iraknis, Aquele que nos Deu o Planeta Terra. - Que o Tempo Guarde para Sempre o Corpo do Navegador Iraknis, Aquele que nos Deu o Planeta Terra...- repetiu em voz alta a Doutora Karen, perguntando depois a Adama: - Não há mais nada? - A mensagem acaba com o sinal da 13ª Tribo de Kobol. - Não há qualquer referência ao funcionamento do campo de forças?- perguntou um dos cientistas em Koboliano, reflectindo a dúvida que assaltava a mente de todos. - Não..- respondeu simplesmente Adama. - Atenção que isto não quer dizer nada!- afirmou o Director, tentando apagar os ares de desânimo que tinham surgido com a revelação do Colonial.- Há mais 3 faces..... - Que têm exactamente os mesmos símbolos...- interrompeu-o Karen, que parecia a mais desanimada.- Eu conheço-os perfeitamente...Ando a tentar traduzi-los à mais de 5 anos... - A tradução foi só um começo.- disse o Doutor Wilker em Inglês Padrão.- Temos que continuar a trabalhar! A sua declaração foi recebida com muitos sinais afirmativos, mas a verdade é que quase todos os Terrestres esperavam que os dois ilustres visitantes trouxessem com eles a solução para aquele enigma que os atormentava. Ao ver que assim não era, um desânimo muito grande tinha caído sobre eles. Mesmo assim, aos poucos, as pessoas foram retomando os seus postos, continuando a procurar uma resposta agora com a ajuda de Adama e Wilker. ALGURES NO ESPAÇO, ENTRE AS COLÓNIAS DE LAVOS-304 E LAVOS-306 Amaldiçoando mais uma vez a sua sorte, o Comandante John Silver verificou os sensores de navegação da sua nave e fez uns rápidos cálculos mentais, embora soubesse qual era a resposta. O seu voo iria chegar a Lavos-306 com um dia de atraso. A sua única consolação era que não estava a transportar nenhum tipo de carga perecível. O voo era comercial e os seus passageiros ainda não tinham parado de se queixar, não parecendo querer perceber que a culpa daqueles atrasos não era do piloto da nave. Parecendo adivinhar a sua má-disposição, o ecrã de comunicação interna ligou-se, mostrando a cara simpática de Jun Li, a hospedeira principal daquele voo: - John, os passageiros estão outra vez a protestar por causa do atraso.- anunciou ela, afastando-se um pouco de forma a que ele pudesse ver um grupo de autodenominados “representantes” dos passageiros.- Estes senhores acabaram de me informar que vão apresentar queixa nos nossos escritórios. - Pode ter a certeza que vamos!- berrou um deles para o ecrã, por cima do ombro da hospedeira.- Isto é uma vergonha, a minha empres.... Jonh desligou a comunicação a meio, ignorando os protestos do passageiro. O homem era um dos que mais problemas tinha causado, talvez pelo facto de ter sido transferido à pouco tempo da Terra e ainda estar habituado a que as viagens entre planetas durassem apenas algumas horas e não dias. É claro que ele se esquecia que ali, na “Fronteira” do espaço Terrestre, só as colónias prósperas é que tinham condições financeira para comprar e suportar naves comerciais equipadas com motores de salto. Todas as outras colónias tinham naves com motores convencionais, o que tornava as viagens mais longas. - Não devias ter feito aquilo...- admoestou-o o seu co- piloto, o Comandante Boris Petrenko num tom jocoso.- Vai ser a Jun que vai apanhar com a fúria dos passageiros... - Ela já é crescida e sabe desenvencilhar-se bem, Boris Petrenko.- respondeu Silver, voltando a sua atenção para os instrumento, mas lançando depois um sorriso para o seu colega.- E antes ela que eu! Boris lançou uma gargalhada estrondosa. Embora fossem dois profissionais com inúmeras horas de voo, ambos estavam fartos de ouvir as queixas dos passageiros naquela viagem. Esse últimos não pareciam querer compreender que a culpa de todo aquele atraso não era dos dois pilotos mas sim da Marinha Terrestre. O voo LL-24 estava a meio de uma das suas viagens entre as colónias de Lavos-304 e Lavos-306 quando tinha sido deparado com uma corveta da Marinha, vinda directamente da Base em Lavos-305. A corveta tinha-os informado de que toda aquela região estava em alerta e ordenado para que a seguissem até à Base Naval, local onde deveriam aguardar até que a situação se resolvesse. Assim que John tinha avisado os seus passageiros dessas ordens, os protestos tinham começado. Logo por azar, o voo estava repleto de homens de negócios e todos eles pareciam ter marcado “reuniões inadiáveis”, começando por isso a protestar de imediato. O resto dos passageiros, maioritariamente pessoas que iam visitar ou vinham de visitar familiares em qualquer uma das colónias, tinham rapidamente sucumbido ao ambiente de contestação e também tinham juntado as suas vozes aos protestos. Alguns deles tinham-se calado ao ver a situação na Base Naval. Embora a nave comercial estivesse afastada das zonas principais, a verdade é que as naves da Marinha eram tantas e de tal tamanho que não era difícil que as câmaras capturassem as imagens de algumas delas. John tinha aproveitado a ocasião para transmitir essas imagens para as cabines dos passageiros, de forma a mostrar que realmente alguma coisa se estava a passar. A explosão na Base Naval tinha-se dado exactamente na altura em que essas imagens estavam nos ecrãs. Uma nave de abastecimento que estava a fazer a aproximação a um dos hangares exteriores, tinha acabado por chocar com a gigantesca estação, explodindo e destruindo parte do equipamento de comunicação da Base. O pânico tinha-se instalado e a Marinha tinha posto toda a zona em Alerta Vermelho, parecendo recear um ataque. Ao fim de um dia e meio, a maior parte das naves da Marinha tinham partido e o Comandante da Base Naval tinha ordenado a todas as naves civis que ficassem naquela zona por mais um dia, até que “a situação se resolvesse”. Uma nave de abastecimento tinha feito a ronda pelas naves civis distribuindo víveres, mas os seus tripulantes tinham-se recusado a responder a qualquer questão sobre a natureza do problema. Tinham, no entanto, com um sorriso sarcástico, aceite entregar aos seus superiores uma nota de protesto, feita pelos “representantes” dos passageiros da nave de John, relativa aos atrasos provocados pela Marinha. John sabia perfeitamente que essa mensagem iria acabar “perdida”, mas sentiu um pequeno prazer sádico em não avisar os seus autores desse facto. Para além disso, a única coisa que tinha valido a pena em toda aquela espera tinha sido ver a famosa nave Colonial, a Galactica. A Estrela-de-Batalha surgira pouco depois das naves da Marinha terem partido e a visão daquela gigantesca nave tinha calado toda a gente. A Galactica tinha apenas um quilómetro a menos em relação aos três da Base Naval de Lavos e John sabia que de momento não havia nenhuma nave Terrestre equivalente, quer em tamanho quer em capacidade ofensiva e defensiva. É claro que se a nave Colonial estava ali, isso só podia ser um sinal de que a Marinha tinha encontrado os seus inimigos. Toda a gente conhecia a história das Doze Colónias e dos responsáveis pela sua destruição, os Cylons. A Terra nunca tinha tido um inimigo que inspirasse tanto medo e tanto ódio como esses ciborgues do espaço. Todas as guerras em que os Terrestres se haviam envolvido desde que se tinham lançado na colonização do espaço tinham sido travadas contra outros Terrestres. A ideia de uma raça extraterrestre completamente obcecada em destruir todos os Humanos não era fácil de encarar. O surgimento de uma segunda força de naves terrestres, tendo uma delas sinais claros de danos, tinha preocupado muitas pessoas, incluindo John, mas o facto de logo de seguida as naves civis terem recebido ordem para partir parecia indicar que a situação já estava resolvida. - John, estou a captar algo de muito estranho nos nossos sensores...- declarou Boris, interrompendo o silêncio da cabine.- Múltiplos contactos a 100 quilómetros de distância! O Capitão do Voo LL-24 programou o ecrã multifunções que tinha à sua frente para repetir os dados do posto do co- piloto. No limite dos sensores apareciam um grupo de contactos, talvez cerca de cinco. - Para os podermos detectar a esta distância devem ser enormes...- murmurou John. - Da! – assentiu Boris na sua língua natal, o que era um mau sinal porque ele só revertia para ela quando estava nervoso.- Acho que devemos mandar os passageiros regressarem aos seus lugares! Silver acenou que sim com a cabeça enquanto programava o computador da nave para “interrogar” os contactos. Qualquer nave Humana, quer fosse militar ou civil, possuía um dispositivo que indicava a sua origem e filiação. No caso das naves militares, esse dispositivo servia para distinguir amigos e inimigos durante os combates e no caso das civis, ele servia para as diferentes autoridades conseguirem regular e controlar o trânsito delas. - Os contacto não possuem qualquer tipo de IFF, nem civil nem militar.- anunciou ele ao co-piloto, voltando a sua atenção de novo para os sensores e vendo surgir mais contactos juntos dos anteriores. - Não estou a gostar disto, tovarich.. John ia a começar a responder quando uma série de alarmes de emergência da cabine se acenderam e uma voz feminina começou a fazer-se ouvir: - Alerta de Colisão! Alerta de Colisão! O Capitão só teve tempo de levantar os olhos dos sensores e olhar pelas janelas da sua cabine. O espaço directamente em frente estava agora ocupado por uma série de gigantescas naves, estando uma delas tão perto que ele só lhe conseguia ver a parte superior tal era a distância. Registando a cena na memória, reduziu a potência do motor principal e transferiu-a para os motores laterais do lado direito e aos poucos conseguiu com que a nave começasse a descrever um arco em relação à outra nave. A nave inteira começou a tremer, sendo afectada pelo campo gravitacional daquela imensa massa e todos os passageiros que ainda não tinham conseguido regressar aos seus lugares e que ainda se mantinham de pé mesmo após a mudança de direcção, foram projectados pelo ar. - Vamos conseguir!!!- berrou Boris Petrenko, vendo que se estavam a afastar da outra, mas os seus gritos de euforia foram subitamente interrompidos por um tremor imenso que fez sacudir toda a nave. Novos alarmes de emergência acenderam- se no painel de controle existente no espaço entre os dois pilotos, anunciando fogo nos motores principais. - Os motores 1,2,3 e 4 estão em chamas.- anunciou o co-piloto, carregando depois numa série de controles e de botões.- A activar os extintores! Os alarmes de incêndio calaram-se mas John sabia já que os motores estavam mortos, pois um esquema interno da nave, criado pelo computador, indicava que essa zona estava seriamente danificada. Sem aquela parte da propulsão, a nave só podia agora andar para os lados e para cima e para baixo, utilizando os motores secundário e laterais. Sabendo que já não podia fazer mais nada para salvar a nave, John desligou-os a todos, deixando que a inércia guiasse a nave. - Acho que eles dispararam contra os nossos motores...- declarou o Capitão.- Eles querem apanhar-nos vivos... Quase que a comprovar as suas palavras, a nave foi novamente sacudida e, aos poucos, começou a parar. Quando finalmente se estabilizou no espaço, ficando totalmente “caída” sobre o seu lado esquerdo, o lado para o qual estavam a virar, começaram a ser puxados para a frente. Uma das naves que a tinham interceptado estava agora colocada directamente em frente deles e tinha aberto um dos hangares situados no disco inferior. Ambos os pilotos sabiam que estavam a ser puxados com alguma espécie de raio de tracção para o interior daquela cavernosa construção. Sabiam também que o que tinham pela frente eram Naves-Base do Império Cylon. As imagens que a Marinha tinham lançado após a notícia do contacto com os Coloniais e com os Cylons mostravam claramente uma dessas naves. - Temos que avisar alguém de que eles já andam dentro do nosso espaço...- advertiu Boris, parecendo agora menos nervoso que ao princípio. John assentiu e preparou uma mensagem nesse sentido, gravando-a e juntando-a à mensagem padrão existente na sonda de emergência da sua nave. Assim que fez isso, e antes de estar demasiado próximo da Nave-Base, lançou a sonda, que rapidamente saltou na direcção da Base Naval de Lavos-305. Depois disso feito e de comum acordo, o Capitão ligou o comunicador interno e avisou todos os passageiros do que se estava a passar. Lúcifer viu o último dos Humanos a sair da nave que repousava agora no centro do Hangar Dois da sua Nave-Base. O facto de eles se terem entregue sem nenhum tipo de resistência já parecia indicar algumas diferenças de comportamento entre eles e os outros Humanos das Colónias. No caso destes últimos, os Cylons tinham descoberto rapidamente que mesmo as suas naves civis estavam armadas e os passageiros no seu interior também. Nas fases finais da Guerra Milenar, tinham até havido casos em que naves civis se tinham autodestruído no momento da captura, danificando as naves Cylons. Estes Humanos tinham-se rendido e a única coisa que tinham feito tinha sido lançar uma espécie de sonda que, infelizmente, não tinha sido interceptada antes de utilizar o seu meio de propulsão e desaparecer. Como medida de precaução, Lúcifer tinha ordenado que as Naves-Base se retirassem para o espaço profundo, afastando-se assim daquela zona e do sistema que iriam investigar. Aquele desvio para interceptar a nave Humana tinha sido provocado por um mero acaso. O Cylon da Série IL estava a testar os novos sensores das suas Naves-Base e tinha detectado aquele alvo, vindo do sistema para o qual rumavam. Tinha sido fácil para os Cylons acompanhar a nave ao longe, até se certificarem de que o alvo não era militar nem tinha nenhum tipo de escolta, e depois capturá-lo. Voltando novamente a sua atenção para os prisioneiros, Lúcifer ordenou ao Centurião que estava ao seu lado: - Separem-nos por sexos e depois levem-nos para interrogação. Quero informações sobre todos os seus hábitos, de modo a poder compara-los com os Coloniais. Antes disso, escolham e entreguem os dois exemplares mais robustos de cada sexo aos nossos cientistas. Quero um relatório físico total. Entendido? - Pelo seu Comando!- respondeu o ciborgue prateado, dirigindo-se para o acesso ao Hangar. Lúcifer viu que uma série de Centuriões estavam já a começar a desmontar a nave Humana, de modo a analisar toda a tecnologia desta. O que ele tinha acabado de mandar o Centurião fazer era o equivalente ao que aqueles outros estavam a fazer, ou pelo menos era isso que ele dizia a si mesmo, de modo a “apaziguar” o sistema que tinha instalado secretamente no seu ombro esquerdo e que funcionava como uma “consciência”. A sua “consciência” indicava claramente que ele tinha condenado todos aqueles Humanos à morte. 90% dos interrogatórios acabavam com a morte dos prisioneiros, pois a sondagem mental que lhes era feita acabava por os destroçar mentalmente e fisicamente, especialmente num caso destes em que a sonda estava a analisar padrões de pensamento alienígenas. Em relação aos Humanos que seriam enviados para os cientistas, a verdade é que os testes a que seriam submetidos não eram mais do que vivissecções metodicamente conduzidas. Era exactamente por isso que os sujeitos das experiências tinham que ser sempre dois, um para funcionar como controle do outro. Se a vivissecção de um falhasse, os mesmos erros já não seriam cometidos no outro. “Comportamentos daqueles não eram correctos entre raças sentientes”, anunciava a “consciência” de Lúcifer, mas este contrapunha o seu sentido de dever a essa acusação. O seu dever era trazer o triunfo ao Império e fazer cumprir o Édito de Extermínio da Raça Humana. Para o fazer tinha que conhecer os seus novos inimigos e se isso envolvia aquele comportamento, ele não podia fazer nada. O Império e o Líder Imperial estavam acima de tudo! Dirigindo-se para a Ponte de Comando, Lúcifer interrogou-se como é que os Humanos conseguiam viver com aquelas “consciências” a atormenta-los constantemente. Ele tinha criado e instalado a sua, que não era mais do que uma sub-rotina que analisava e criticava as suas acções, numa tentativa de entender melhor a maneira como os Humanos funcionavam. Esta ideia tinha-lhe surgido após as suas conversas com Starbuck, durante o período em que o Guerreiro Colonial tinha estado preso. Este último tinha, entre as suas inúmeras lições de “Como jogar Pirâmide e vencer”, tentado explicar a Lúcifer como é que a consciência guiava a vida dos Humanos. Como é que esta lhes dava uma noção do que era errado e do que era certo; do que era o Bem e o que era o Mal. Tinha sido a consciência Humana que os tinha obrigado a responder ao pedido de ajuda dos seus aliados Hasaris e que assim os tinha mergulhado na Guerra Milenar e levado à destruição dos seus planetas. Era também essa consciência que os levava a não desistir e a lutar até ao fim contra os Cylons, que eles viam como o Mal. Por todas estas razões, Lúcifer tinha decidido fazer esta experiência. A consciência Humana era uma espada de dois gumes, pois ela também tinha feito com que os políticos Coloniais aceitassem cegamente a oferta de paz que os Cylons lhes tinham feito, pensando estar a fazer aquilo que era correcto e o melhor para todos. Se ele compreendesse essa “consciência” talvez a pudesse utilizar como uma arma contra os seus “criadores”. - CAPÍTULO 7 - BASE NAVAL DE LAVOS-305, ALIANÇA TERRESTRE Consultando o relógio, o Comandante Hans Zimmer tentou calcular quanto tempo é que teria ainda que esperar antes de poder partir. O Comodoro Anton Vasquez, o principal responsável pela Base Naval insistia em manter ali as forças comandadas por Zimmer até receber reforços. Vasquez era também o principal responsável pelo facto do Grupo de Resposta Rápida ter demorado dois dias a alcançar a Cintura. O alerta lançado pela patrulha de Zimmer tinha sido recebido rapidamente, mas durante a preparação para a partida do Grupo, uma das naves de abastecimento tinha colidido contra a zona da Base que albergava as sondas de comunicação e o Comodoro tinha entrado em pânico, visto que não poderia comunicar com ninguém em caso de ataque. O medo de que a Base fosse atacada era tanto, que Vasquez havia adiado a partida do Grupo até que chegassem mais naves da Marinha ou então até que conseguisse recuperar as sondas de comunicação. Por coincidência, as duas coisas tinham acontecido na mesma altura. A Estrela-de-Batalha Colonial havia chegado e a Base tinha recomeçado a lançar as sondas de comunicação, contactando a patrulha de Zimmer e avisando as forças militares nos planetas vizinhos. Apesar de tudo isto, Vasquez tinha insistido para que a Galactica ficasse ali enquanto a patrulha de Zimmer não voltasse. E quando esta havia voltado, ele tinha insistido para que eles ficassem ali até chegar um Grupo de Batalha vindo de outra Base Naval. É claro que perante esta atitude do seu superior, Hans Zimmer não podia fazer nada. O Comandante da Galactica também tinha expressado o seu descontentamento com toda aquela situação, mas a verdade é que a operação estava sob o comando efectivo de Vasquez. “Capitão, uma sonda de emergência acaba de saltar para o sistema.”, informou-o a I.A., interrompendo os seus pensamentos. “Civil ou militar?” “Civil....”, respondeu ela, pausando por alguns momentos e anunciando de seguida: “A sonda está a começar a transmitir a mensagem.” O Comandante transferiu a transmissão para os altifalantes da Ponte, de modo a que todos os tripulantes desta ouvissem a mensagem, o que era o meio mais eficiente de os informar da situação. Na parte inicial da mensagem uma voz mecânica anunciava qual o nome da nave, o número de série do voo, o seu destino e as suas últimas coordenadas. A última parte da mensagem era do Comandante John Silver, o Capitão do Voo LL-24: “- A todas as pessoas que estiverem a ouvir esta mensagem...nós estamos a ser atacados por Cylons. Temos pela frente Naves-Base... Julgo que sejam oito...Que Deus nos proteja....” Após isto, a mensagem voltava ao princípio e começava a repetir-se. “Liga-me à Galactica, se faz favor.., ordenou Zimmer, não precisando, nem querendo, ouvir a mensagem novamente. Um dos seus maiores pesadelos tinha acontecido. O inimigo estava em espaço Terrestre e a ameaçar todos aqueles que ele tinha jurado proteger como oficial da Armada. Assim que a I.A. conseguiu comunicar com a Estrela-de-Batalha, Hans viu-se novamente frente a frente com o Comandante da Galactica. Pelo pouco que se via da Ponte da nave Colonial, eles também tinham ouvido a mensagem, pois era notório as luzes vermelhas de emergência que denotavam um grau de alerta elevado. - Saudações, Comandante Apollo.- disse ele na direcção do monitor onde aparecia a imagem deste. Felizmente alguém da Armada tinha tido a inteligência de equipar a Estrela-de- Batalha com equipamentos padrão de comunicação Terrestres, de modo a que estes e os Coloniais pudessem falar.- Ouviu a mensagem de socorro? - Sim, Comandante Zimmer. Acabamos de a traduzir...- respondeu o Colonial em Inglês Padrão, falando depois com alguém fora do alcance da câmara em Koboliano. Antes que o Terrestre pedisse à sua I.A. para traduzir o que ele estava a dizer, Apollo virou-se de novo para a câmara e disse: - O Comodoro acaba de nos ordenar para tomarmos, nas palavras dele, “posições defensivas em redor da Base Naval”. “Desculpe interromper, Comandante”, acrescentou Eva, “Acabamos de receber as mesmas ordens que a Galactica.” - Aquele homem é um cobarde!- desabafou Hans em voz baixa, nem sequer se apercebendo de que, pela primeira vez na sua carreira militar, estava a insultar um oficial superior. E isso não era a única coisa que tencionava fazer: “Eva, não confirmes a recepção dessas ordens!” “Sim, Capitão. Mas devo informa-lo de que isso vai contra os regulamentos militares.” “Eu sei disso e responsabilizo-me!” Depois desta conversa, voltou a atenção para o ecrã de comunicações, onde o Comandante da Galactica esperava pacientemente. Se este tinha ouvido o seu desabafo sobre Vasquez, não disse nada. Zimmer ponderou no que devia fazer. Era óbvio que o Comodoro Vasquez só estava interessado em proteger a sua pele, esquecendo-se obviamente de todos os civis que tinha sob a sua protecção. Os Cylons de certeza que iriam atacar outra vez e se as forças da Armada ficassem ali paradas, quem é que iria proteger as colónias da zona? - Segundo o que eu me lembro dos vossos relatórios, os Cylons já devem ter abandonado a zona do ataque...- começou Zimmer a dizer, enquanto começava a formular um plano na sua mente. - Exactamente.- confirmou Apollo.- Isso foi uma das lições que eles aprenderam durante a Guerra Milenar. Assim que atacavam uma nave no espaço, retiravam-se do local, de forma a não sofrerem um contra-ataque. - Sendo assim, é escusado ir até às coordenadas onde o voo foi atacado...- concluiu o Comandante Terrestre.- Agora que eles descobriram que há Humanos nas imediações eles irão atacar outro local, não é? - Sim....Os Cylons não acreditam em pausas no combate. As forças deles irão continuar com os seus ataques até serem destruídas... Estas palavras confirmaram os receios de Zimmer, mas serviram também para dar mais força à decisão que iria tomar. Para além daquela Base Naval, só havia outros dois alvos nas imediações: as colónias de Lavos-306 e Lavos-304. Foi exactamente isso o que ele disse a Apollo. Destes três alvos, um deles seria atacado pelas forças Cylons. Os Primeiros-Centuriões que normalmente comandavam as Nave-Base não se iriam desviar dos planos. Os Cylons atacariam com toda a força um dos alvos, de forma a destruí-lo de imediato. Mas qual deles é que seria escolhido? - Para ser sincero, não sei se podemos fazer uma escolha..- disse Apollo, optando por ser prudente.- Estão em perigo vidas.... - Mas preferem atacar alvos militares ou civis?- insistiu Hans. O Comandante da Galactica parou para pensar. Os Cylons não costumavam fazer nenhum tipo de distinção entre alvos civis e alvos militares. Tudo o que fosse Humanos deveria ser destruído. É claro que nesta situação, em que os Cylons estavam num território desconhecido e a enfrentar forças novas, talvez eles fossem mais cautelosos... - Eu acho que eles vão atacar um dos planetas...- acabou Apollo por dizer.- Eles estão a enfrentar um inimigo novo e o mais lógico é que eles tentem atacar um alvo civil e fácil, nem que seja para analisar a reacção das forças inimigas. “Que achas, Eva?”, perguntou Zimmer assim que o Colonial acabou de falar. Ele próprio também tinha esse pressentimento. “Eu concordo com a análise do Comandante Apollo. As informações que a Marinha Terrestre possui acerca dos Cylons apontam para essa conclusão.” - Então, agora só falta saber como é que vamos defender dois planetas com as forças que temos ao nosso dispor ...E sem o apoio do Comodoro Vasquez... - Eu tenho um plano, Comandante.- disse Apollo, aproximando-se mais do ecrã.- Os motores de salto que a vossa Marinha instalou na Galactica são bastante poderosos. Quase de certeza que podemos alcançar a cintura de asteróides em menos de seis horas. Depois é só questão de contactarmos o oficial responsável pelo Grupo de Resposta Rápida e rumarmos a um dos planetas...O outro tem que ser defendido pelas vossa patrulha.... “Eva, quem é que está a comandar o Grupo?”, inquiriu Hans, visto que não se conseguia lembrar da pessoa em questão. “O Grupo está sob o comando do Capitão Agasha Gennai.”, respondeu a I.A., acrescentando logo de seguida, “A Base Naval acaba de mandar novamente a ordem e pede confirmação da recepção” “Não respondas. Finge que estamos com problemas de comunicação...”, ordenou ele, virando a sua atenção de novo para Apollo: - Não conheço o oficial em questão, mas vou escrever uma mensagem a explicar a situação. Tenho a certeza de que ele irá compreender. - Muito bem, assim que a tiver pronta nós saltamos. Só lhe peço que fale também com as naves que nos estão a escoltar. Tenho a certeza de que elas não irão gostar de nos ver partir sem explicações.- disse o Colonial, acrescentando depois, em jeito de despedida: - E que os Senhores de Kobol nos protejam a todos. Depois de Apollo terminar a comunicação, Hans redigiu o texto no seu computador pessoal, encriptou-o com as últimas cifras da Marinha e enviou a mensagem para a Estrela-de- Batalha. De seguida, iniciou uma comunicação com as duas fragatas que acompanhavam constantemente a Galactica. Os Capitães destas duas não precisaram de ser muito convencidos por Hans, pois eles também discordavam da atitude cobarde de Vasquez.. A Marinha Terrestre tinha uma obrigação a cumprir para com todos os cidadãos da Aliança. Assim, quando a Estrela-de-Batalha se começou a afastar da Base Naval, preparando-se para saltar, nenhuma das naves de escolta a tentou impedir. O Comodoro Vasquez apareceu em todos os canais, ordenando às suas forças que impedissem a partida da nave, mas a verdade é que ninguém o fez. As naves em torno da Base Naval estavam em contacto entre si, usando as comunicações laser de curta distância, o que fazia com que as transmissões não fossem captadas por ninguém a não ser pelas naves directamente ligadas pelo laser. Em pouco menos de uma hora, e apesar das constantes ameaças de Vasquez, todas as naves da Marinha que estavam junto da Base Naval tinham sido contactadas por Hans e os seus Capitães apoiavam-no. Uma parte do regulamento militar podia ser aplicada naquela situação e era exactamente isso que Zimmer ia fazer. - Muito bem Eva, podes ligar-me à Base! – ordenou ele assim que terminou de explicar a situação à sua tripulação. Ele tinha tido o cuidado de fazer isso pois não queria que eles pensassem que ele se estava a amotinar. O que ele estava a fazer era perfeitamente legal. Assim que a comunicação foi estabelecida, surgiu no ecrã a face vermelha do Comodoro Vasquez. O homem estava a suar profusamente, tendo até desapertado o colarinho do seu uniforme azul escuro. Apesar de ver o tom duro do olhar de Hans, Vasquez não conseguiu deixar de protestar: - Que se passa?? Vocês estão todos malucos, Comandante? Os Cylons podem estar a aproximar-se e a Base Naval está totalmente desprotegida!!- berrou ele, o que fez com que alguns dos oficiais que estavam no Centro de Comando da Base olhassem na sua direcção. O Comandante da Berlin já estava à espera daquele tipo de reacção e assim esperou calmamente que o Comodoro se calasse. Assim que este o fez, ele começou a recitar o texto que tinha escrito juntamente com os outros Capitães: - Comodoro Vasquez, segundo a Alínea Um do Décimo Primeiro Artigo do Regulamento Militar da Armada da Aliança, o senhor está destituído de todos os seus poderes... - Você não tem o direito de fazer isto!!- berrou o visado, tendo consultado no seu nanocomputador o Regulamento Militar.- Isto não é nenhuma situação de combate!! -...e deverá ser detido até poder ser apresentado a um Tribunal Militar.- concluiu Hans, ignorando a interrupção. Recostando-se no seu assento, fitou o ecrã de comunicação e a câmara deste, de forma a que Vasquez visse bem a sua face e ouvisse bem o que ele iria dizer a seguir: - Comodoro. Em toda a minha carreira militar sempre me regi pelo Regulamento Militar. Nunca me desviei dele em nenhuma ocasião. O que estou a fazer agora é um exemplo disso. As suas ordens são um claro exemplo de cobardia perante o inimigo e por isso, como membros da Marinha, não as podemos aceitar. - Mas eu nunca me recusei a combater!! Eu só estava a tomar posições defensivas...Nem sequer sabemos se os Cylons nos vão atacar!!- interrompeu-o novamente Vasquez. Atrás dele, na Ponte de Comando, era visível que toda esta discussão estava a ser seguida com atenção. - E se fosse pelo Comodoro, nós nem sequer iríamos combater.- acusou Hans, apontando um dedo para o ecrã.- Se fosse pelo senhor, ficaríamos todos aqui a defender a Base. Temos que ir atrás dos Cylons, temos que defender as nossas colónias! Não podemos ficar aqui parados!! Isso é cobardia! É abandonar os nossos cidadãos!! - Eu não sou um cobarde!! - Esta discussão só nos está a fazer perder tempo! – disse ele, fazendo sinal para que o seu oficial superior se calasse. – O senhor está sob prisão. - Não admito que um simples Comandante.......... Ignorando as ameaças de Vasquez, Hans continuou, dirigindo-se aos outros ocupantes do Posto de Comando: - Agradecia que um dos oficiais aí presentes prendesse o Comodoro. Se tal não for possível, aviso desde já que estamos dispostos a mandar alguns dos nossos Fuzileiros tomar conta da Ponte. Vasquez olhou para trás, nervosamente, vendo qual era a reacção dos seus subordinados. Um dos oficiais levantou-se do seu posto e começou a dirigir-se para junto dele, mas antes que chegasse lá, o Comodoro ordenou, apontando para a oficial em questão: - Guardas, prendam-na!! No ecrã, vindos da zona de acesso da Ponte, apareceram dois Fuzileiros com as armas prontas. Os dois soldados hesitaram olhando para Vasquez e para a oficial. - Eu dei-vos uma ordem!!- berrou o primeiro, mas mesmo assim os Fuzileiros não obedeceram. A mulher para a qual apontavam as armas, clareou a garganta e disse: - Guardas, prendam o Comodoro! - Como?- disse ele, incrédulo.- Você vai pagar por isso!! Com estas palavras, o homem virou-se completamente de costas para a câmara e levou a mão esquerda ao coldre que tinha à cinta. Assim que o abriu, um dos soldados avançou e virou a sua AR-34 na direcção do Comodoro, alertando: - Não o faça! Afaste a mão da arma! O outro Fuzileiro tomou a mesma decisão e também a sua espingarda automática a Vasquez. Só nessa altura é que esse último se pareceu aperceber de que tudo estava perdido. Lentamente afastou a mão do coldre e recostou-se na cadeira, deixando cair os ombros numa autêntica expressão de desalento. O primeiro Fuzileiro aproximou-se dele e retirou-lhe a pistola de dardos do coldre, enquanto que o outro soldado o cobria. - Venha comigo, senhor.- ordenou o Fuzileiro, guardando a arma no seu cinto. Sem sequer olhar para trás, o Comodoro levantou-se e acompanhou o soldado. Assim que a sua cadeira ficou livre, a oficial aproximou-se do ecrã e fez continência a Zimmer, dizendo depois: - Estamos do seu lado, Comandante. As acções do Comodoro não foram as indicadas. - Obrigado...- disse Hans, lendo o nome da placa.- .... Tenente-Comandante Reilly. Quem é o oficial mais graduado aí na Base? - É o Capitão Ed Dupre, Comandante.... Hans praguejou em voz baixa perante esta notícia. Ele não estava à espera que existisse alguém com uma patente maior que a sua na Base. É que assim o comando da Base passava para esse oficial e não para o oficial que tinha feito a destituição. Se o homem se revelasse tão cobarde como o Comodoro, teria que haver outra destituição...E enquanto isso, a ameaça dos Cylons mantinha-se. A Tenente-Comandante Reilly apercebeu-se do problema do Comandante e rapidamente acrescentou: - Mas ele actualmente pertence ao Comando de Defesa das Fronteiras. Isso simplificava a situação, pois os militares da Marinha que serviam nesta última organização, que era parte integrante das Forças de Defesa da Aliança, eram considerados como estando na Reserva. Normalmente os militares que eram destacados para esse Comando ou estavam perto da reforma ou então tinham feito algo de errado. - Então esse problema está resolvido. Eu assumo o Comando da Base a partir deste momento e até que surja um oficial de patente superior. Está claro? - Sim, senhor. – respondeu Nora Reilly, fazendo uma nova continência.- Quais são as suas ordens? - Daqui a alguns momentos nós vamos partir em direcção a Lavos-304. A Galactica foi ter com o Grupo de Resposta Rápida e depois vão seguir para Lavos-306. Segundo o que sei, daqui a duas horas devem chegar reforços, não é? - Exactamente.- confirmou a oficial, consultando o seu nanocomputador.- Segundo a última mensagem da Base Naval em K-9, a Sétima Frota vem a caminho. Assentindo com a cabeça, o Comandante da Berlin continuou: - Assim que ele chegar, quero que informem o oficial superior da Frota do que aconteceu aqui. Aliás, a minha I.A. acaba de transferir uma mensagem pessoal da minha parte para os computadores da Base. Essa mensagem esclarece toda esta situação... Mesmo assim, informe a Frota de que estamos a defender os planetas e que precisamos de ajuda. Tem alguma questão? - Sim, senhor. Gostava de saber se posso mandar o pessoal não essencial para a superfície de Lavos-305. Em caso de ataque eles estarão mais seguros lá. - Sim, faça isso, e não se esqueça de enviar também o Comodoro Vasquez, Tenente-Comandante. Não me lembrei desse pormenor. Mais alguma coisa? - Não, Comandante....- respondeu Nora, hesitando antes de acrescentar: - Boa sorte! - Obrigado.- Com estas palavras, Zimmer terminou a comunicação, enquanto que ordenava a Eva que informasse as outras naves de que iriam partir de imediato. Passados cerca de cinco minutos, a última nave da Marinha Terrestre saltou em direcção de Lavos-304. Agora era só uma questão de tempo. A Galactica deveria estabelecer contacto com o Grupo dentro de quatro horas e meia, demorando depois cerca de sete horas para chegar até Lavos-306. As naves sob o comando de Zimmer atingiriam Lavos-304 em cinco horas. ALGURES NO ESPAÇO, ENTRE AS COLÓNIAS DE LAVOS-304 E LAVOS-306 Lúcifer rodou sobre si, assim que ouviu a porta da Ponte de Comando a abrir-se. O Centurião que entrou era um daqueles que estava encarregado da análise da nave capturada. - O teu relatório, Centurião?- inquiriu o Cylon I.L., com um pouco de impaciência. - Os dados navigacionais do computador da nave já foram descodificados e integrados nos nossos mapas estelares. A linguagem do computador é equivalente a uma linguagem antiga do nosso Império....... - Eu posso ler esses dados técnicos depois.- disse Lúcifer, interrompendo o Centurião.- O que eu quero saber é o que descobriram em relação a estes Humanos. - Os Humanos têm três planetas habitados nesta zona. Um está assinalado nas bases de dados navigacionais como sendo militar. Os outros dois são civis. O Cylon I.L. analisou a situação. Estes “novos” Humanos nem sequer se tinham dado ao trabalho de apagar os dados dos seus computadores. Felizmente, a língua que eles falavam também era fácil de descodificar, tendo uma série de pontos de contacto com o Koboliano falado pelos Coloniais antes da Guerra Milenar, o que tinha feito com que eles pudessem descodificar as informações presentes nos computadores. - Podes continuar com a análise da nave.- ordenou ele ao Centurião. - Pelo seu comando! Acedendo ao computador central da Nave-Base, Lúcifer analisou os novos dados ao seu dispor. Havia três alvos à disposição e ele tinha que escolher. Era óbvio que a base militar não ser atacada, pois ele ainda não estava disposto a enfrentar as naves inimigas. Só quando tivesse mais informações é que poderia fazer isso. Sendo assim, a sua escolha estava agora reduzida a dois planetas. Qual deles é que seria atacado? Consultando as tácticas armazenadas no computador central, chegou rapidamente a uma conclusão. Sem mais demoras, deu as ordens necessárias para que os seus planos fossem executados e as Naves-Base puseram-se em movimento. PLANETA DE EVERGREEN, LIGA DAS NAÇÕES NÃO-ALINHADAS O nome do planeta não correspondia à sua actual situação. Nos seus primeiros tempos, na altura em que era ainda uma colónia da Aliança Terrestre, o planeta orgulhava-se de ser a mais arborizada de toda as possessões Terrestres. Esta distinção tinha-se desvanecido com o passar dos tempos e com a mudança de governo. A Liga, uma organização política que, após as Guerras Coloniais, chamava a si todas as colónias que não se queriam unir à recém-criada União das Nações Marcianas mas que também não queriam continuar a ser subjugadas pela Aliança, investia fortemente na industrialização de todos os seus membros, de forma a que se tornassem rapidamente numa potência económica, capaz de se igualar a qualquer uma das outras potências. Evergreen tinha sofrido com essa industrialização, sendo o seu imenso potencial florestal explorado sem limitações. Por incrível que parecesse, numa altura em que a maior parte dos móveis eram feitos em plastisteel, a madeira e todos os seus derivados continuavam a ter uma enorme procura. O abate de árvores dava-se a uma escala planetária, o que estava a provocar a desertificação de enormes áreas. As cidades que existiam pareciam ser copiadas umas das outras, tendo normalmente uma zona residencial central que vinha do primeiros tempo de colonização, rodeada por inúmeras zonas industriais, zonas residenciais para os operários e espaçoportos. Estes últimos funcionavam 24 horas por dia, sendo constantes os lançamentos e as aterragens de naves de transporte de mercadorias. Tinha sido exactamente por causa desse movimento constante de naves que o falecido Hugo Martinez tinha escolhido o planeta para centro de operações. A sua companhia, com a ajuda de alguns subornos, tinha ganho o concurso para ser o serviço de transporte de Evergreen, fazendo a ligação entre as estações orbitais e a superfície e com os planetas vizinhos. Martinez tinha visto a crescente população operária como um enorme mercado e isso revelara-se verdade. Num planeta em que as diversões eram poucas e o trabalho duro, as drogas de toda a espécie eram bem vindas e era exactamente isso que as suas naves traziam para o planeta, juntamente com os passageiros. Transportavam também muitas pessoas que tinham problemas com as autoridades e que precisavam de um local seguro para se esconderem. Era extremamente fácil para essas pessoas perderem-se no meio da vasta população do planeta. Agora, após uma viagem que tinha durado apenas dois dias, visto que tinham mudado de nave a meio do caminho em vez de esperarem que a nave original recarregasse os seus motores de salto, Starbuck e Sheba seguiam a misteriosa Lilith, pelas ruas do Sector Residencial 17 da capital do planeta. - Que sítio tão simpático...- murmurou sarcasticamente o ex-Guerreiro a Sheba.- Os locais parecem adorar visitas... As ruas eram estreitas e mal iluminadas, sendo ladeadas por prédios pré-fabricados de quatro andares, de cor cinzenta. Junto das portas desses prédios, sentados nas escadas, podiam-se ver pequenos grupos de homens e mulheres de aspecto pouco agradável, que conversavam entre si, enquanto fumavam ou bebiam. De algumas janelas abertas vinha o som de música, do choro de crianças e de outras actividades físicas. As pessoas limitavam-se a olhar para os três viajantes sem nada dizerem. Tinham havido algumas tentativas falhadas de se meterem com as duas mulheres do grupo, mas sem sucesso. Quando um grupo de quatro homens, visivelmente embriagados, tinha tentado aproximar-se da Capitã, ela havia virado a espingarda Cylon vagamente na direcção deles e eles haviam percebido rapidamente a mensagem. Já os que se tinham tentado meter com Lilith, tinham tido uma sorte diferente. Ela limitara-se a olhar para os dois homens por meros instantes e eles pura e simplesmente tinham caído para o lado, possivelmente mortos. A partir desse episódio, as tentativas de assédio tinham acabado e um silêncio instalava-se nas ruas onde eles entravam, à medida que se embrenhavam cada vez mais no labiríntico Sector Residencial. - Estamos quase a chegar lá.- anunciou a misteriosa mulher assim que entraram noutra rua. - Alguma coisa não está bem...- disse Sheba para o outro Colonial, perscutando os prédios. Ao contrário das outras zonas, não havia ninguém na rua, embora ainda se continuasse a ouvir os vários sons vindos das janelas abertas. - Sim..- concordou Starbuck, apercebendo-se de um movimento no seu lado esquerdo e olhando a tempo de ver alguém a voltar a meter a cabeça dentro da janela, fechando-a de seguida. – Estão todos assustados.... Era notório que os habitantes estavam a seguir os três estranhos, por detrás dos cortinados e das janelas, com receio de algo. - Chegamos!- disse Lilith assim que pararam em frente de um dos prédio no centro da rua. Ao contrário dos outros, este encontrava-se completamente às escuras e silencioso. A porta de entrada parecia uma enorme caverna escura e não se podia ver quase nada para o corredor que surgia atrás dela. - Não está à espera que entremos primeiro, pois não?- perguntou Starbuck a Lilith, vendo que esta hesitava em entrar. - Como cavalheiro que sou, costumo deixar entrar as senhoras primeiro, mas neste ca... - Silêncio!!- ordenou a mulher, erguendo a mão na direcção do Colonial para o calar e olhando atentamente para o prédio.- Há aqui algo de errado! - Eu já disse isso quando entramos na rua.- disse Sheba, empunhando a espingarda e apontando-a para a porta de entrada. Lilith levantou a mão direita, com a palma para cima e, aos poucos, uma pequena esfera de luz começou a surgir, aumentando cada vez mais de tamanho e de intensidade. Murmurando algo, ela soprou para a esfera de luz e esta levantou voo da sua mão, entrando para o prédio. Os três espreitaram com curiosidade para o interior do hall de entrada, que estava agora completamente iluminado, e a primeira coisa que conseguiram vislumbrar foi um corpo caído no meio do corredor, mergulhado numa poça de sangue e ainda agarrando uma arma. As paredes à volta estavam cobertas com sangue e marcadas com projécteis. Ao fundo do corredor, junto de uma porta semiaberta, estava outro corpo que apresentava também claras marcas de violência. Starbuck desviou o olhar e fitou o prédio em si, suprimindo um arrepio. Um súbito pressentimento dizia-lhe que todos os habitantes do prédio estavam mortos. Era também por causa disso que ninguém naquela rua estava fora de casa. As pessoas que tinham cometido aquele massacre deviam ter amedrontado toda a gente e imposto aquele silêncio opressivo. Foi nessa altura que lhe surgiu outro pensamento. E se os assassinos ainda estivessem à espera deles? - Esperem! Isto pode ser uma armadilha!- alertou ele, vendo que Lilith e Sheba estavam já a subir as escadas de entrada. Sacando a sua pistola, avançou pelo meio das duas, entrando para o prédio. A luz que Lilith tinha criado continuava a flutuar no meio do corredor, iluminando os dois corpos. À direita do hall existiam umas escadas que davam acesso aos outros andares e no fundo delas viam-se as pernas de outro corpo. - É escusado estas precauções...- disse Lilith, concentrando-se por momentos e depois continuando: - Não está ninguém vivo. As pessoas que fizeram isto já se foram embora, mas deixaram o prédio armadilhado com explosivos. Essa notícia alarmou os dois Coloniais, que pareceram ficar à espera que a explosão se desse de imediato. Perante a expressão de espanto deles, a misteriosa mulher murmurou algo numa língua estranha e a esfera de luz subiu no ar e encostou- se a uma das lâmpadas do tecto. De imediato todo o prédio ficou iluminado com uma pálida luz azul e a esfera regressou à sua posição original, desvanecendo-se lentamente. - Vamos!- ordenou Lilith, passando novamente para a frente do grupo, dirigindo-se para as escadas e começando a subir, passando por cima do corpo que aí estava estendido. Starbuck seguiu-a, evitando a poça de sangue que rodeava o corpo. No patamar do segundo andar estava outro corpo, rodeado ainda por uma série de sacos com produtos alimentares. Os assassinos tinham apanhado a mulher a chegar das compras e tinham-na abatido sem hesitações. Uma das portas desse patamar estava aberta e a cena que aí se via era de tal maneira cruel que os dois Guerreiros, apesar de estarem habituados a verem mortos, não conseguiram deixar de afastar o olhar. O corpo de uma mulher encontrava-se caído por cima dos corpos de duas crianças e era visível que elas as duas também estavam mortas. Engolindo em seco, continuaram a subir, seguindo Lilith, que não tinha parado para ver a cena. Era óbvio que as pessoas que eles procuravam estavam no último andar do prédio. O patamar do quarto andar estava fechado com uma pesada porta de metal. Lilith não hesitou e empurrou-a para trás, fazendo sinal aos dois Coloniais para que a seguissem. Eles fizeram isso e a primeira coisa que repararam foi nos dois cilindros metálicos que tinham sido cuidadosamente colocados no meio do patamar, por entre os corpos de cerca de cinco indivíduos. O topo desses cilindros estava adornado por dois mostradores digitais que tinham deixado de funcionar. - Isto eram as bombas?- perguntou Sheba, pondo a mão num dos cilindros e retirando-a rapidamente pois este estava gelado. - Sim...- respondeu Lilith, enquanto olhava para os corpos que estavam espalhados pela zona.- Mas não se preocupem que eu fiz com que elas se desactivassem. - O que era isto? Para que é que servia este andar?- perguntou Starbuck, pois era óbvio que os seus habitantes não eram simples operários. O número e qualidade das armas que se podiam ver nas mãos dos cadáveres pareciam apontar para algum género de actividade criminosa. - Isto era um dos posto de...distribuição...do meu falecido amante.- esclareceu Lilith.- Para além de distribuir as drogas para todas as outras cidades, era também o principal centro de acolhimento para todos os passageiros dos voos dele. Eles ficavam aqui até arranjarem novos documentos. - Quantos homens é que defendiam este local?- inquiriu Sheba, vendo que numa das paredes estava um armário cheio das mais variadas armas automáticas. - Neste prédio havia cerca de 15 homens. Os três que vocês viram na entrada, estes cinco que estão aqui mortos e os outros sete que estão no apartamento para onde vamos. Além do mais, no prédio ao lado devia estar uma equipa de apoio de dez elementos, com armas pesadas, mas quem efectuou este ataque também os matou a todos.... - Bem, vamos lá ver o tal apartamento...- sugeriu Starbuck, disfarçando o seu nervosismo com uma graçola: - Não gosto de passar muito tempo com os mortos. Acho que isso prejudica a minha boa sorte. Perante este comentário, Lilith soltou uma risada que provocou arrepios ao ex-Capitão e fitou-o, dizendo: - Meu caro, se soubesse como está errado! Os mortos podem ensinar-lhe muitas coisas. E a Morte tem muitas faces... Por momentos, Starbuck podia jurar que a pele da face dela se estava a derreter e a transformar, deixando ver uma caveira que continuava a ostentar uns incongruente olhos azuis. O súbito suster de respiração de Sheba a seu lado, provou que aquela visão não era uma simples alucinação. Tão rapidamente como tinha surgido, essa face de Lilith desapareceu, voltando a aparecer o seu semblante normal. Lançando uma sonora gargalhada perante o olhar aterrorizado dos Coloniais, ela avançou na direcção da porta de um dos apartamentos. Sheba e Starbuck lançaram um olhar pleno de medo entre eles, mas acabaram por a seguir, entrando também no apartamento. Os ocupantes deste último tinham derrubado as paredes que o separavam do apartamento ao lado, alargando o espaço. Espalhados pelos sofás aí existentes estavam mais sete corpos, todos ainda agarrados às suas armas. Todas as paredes estavam marcadas por pequenos buracos, num sinal claro de que os atacantes tinham utilizado armas de flechettes. No canto mais afastado da sala, numa mesa, encontravam-se mais dois corpos, ambos caídos sobre os restos de uma refeição. Lilith pegou na cabeça de um deles pelos cabelos e levantou-a do prato onde tinha caído. O disparo que o tinha morto tinha-o atingido em cheio na cara, desfazendo todo o seu rosto e crânio. Com um encolher de ombros, ela deixou-o cair de novo sobre o prato e dirigiu-se para o outro corpo. - Eram esses os homens com que vínhamos falar?- perguntou Sheba, quebrando o silêncio que se tinha instalado desde que tinham tido a visão. - É com eles com quem vamos falar...- respondeu, em voz baixa, Lilith, enquanto endireitava o segundo corpo, que tinha caído para trás, de encontro à cadeira, atingido com um disparo no peito. Dizendo isto, ela começou a recitar algo na mesma língua desconhecida que já tinha utilizado antes. Ao colocar a sua mão esquerda sobre o rosto do morto, ela fez surgir uma pequena luz vermelha que cintilava fracamente e que parecia emanar dos olhos abertos do cadáver. - O Sopro da Vida já se extinguiu nele.- disse ela, a título de explicação.- Está morto à pelo menos um dia... Depois disto, substituiu a mão pela outra e retomou as recitações. Passados alguns instantes, a pequena esfera de luz azul que eles já tinham visto surgiu de novo, sobre a cabeça do morto. À medida que ela continuava as suas recitações, o tamanho da esfera foi aumentando, assim como a intensidade da luz azulada que dela emanava. Mas desta vez, havia algo diferente na qualidade da luz e à medida que esta se começou a aproximar dos Coloniais, eles começaram a notar uma diminuição da temperatura da sala. Mas isso não era a única coisa diferente. O centro da esfera parecia estar cheio de uma névoa brilhante e no meio desta pareciam surgir inúmeras caveiras que apareciam e desapareciam em rápida sucessão. Sheba e Starbuck não se atreveram a olhar muito mais para aquela cena, desviando os olhos para Lilith, que continuava a murmurar na língua desconhecida. - Quando a Vida falha, a Morte triunfa. Esta é a verdade do Beijo da Morte.- disse ela, de repente, mudando para Koboliano, enquanto retirava a mão da face do cadáver. No interior da esfera, um caveira destacou-se da névoa e começou a crescer. A esfera também se começou a expandir e a cobrir todo o corpo, até que pura e simplesmente se desvaneceu. Foi nessa altura que o cadáver começou a tremer todo e dos seus lábios se começou a escapar um grito. Ao longo de toda a sua vida, os dois Guerreiros já tinham ouvido inúmeros gritos, desde aqueles lançados pelos feridos em combate que estavam a sofrer até aqueles lançados por pessoas que tinham visto os seus entes queridos morrer e aqueles lançados por outros Guerreiros momentos antes de morrer, abatidos pelo fogo Cylon. Mas nenhum desses gritos se comparava com o que estavam a ouvir agora. Este grito era inumano, parecendo estar a ser emitido por um animal. Pior do que isso, só a voz que se começou a ouvir, vinda da boca do morto: - Eu já estava em paz! Eu já estava em paz!- berrava ela, em Koboliano, o que contribuiu para aterrorizar ainda mais os Coloniais. Estava visto que a voz pertencia ao homem que estava ali, em frente deles, com o peito completamente desfeito por vários disparos.- Porque é que não posso descansar em paz!!! - Assim que responderes as nossas perguntas podes voltar para a lá.- afirmou Lilith em Koboliano.- Só tens que responder e poderás voltar para o teu descanso eterno! O morto continuou a lamentar-se durante mais alguns momentos, até que finalmente se pareceu acalmar e disse: - Falem! Eu quero ir-me embora depressa! Lilith fez um sinal para que os Guerreiros fizessem as suas perguntas. Sheba clareou a garganta, tentando esconder o seu nervosismo, e finalmente lá acabou por avançar, aproximando-se um pouco da mesa. - Qual é....- começou ela, mudando rapidamente de ideias:- Qual era o teu nome? - Maraxus. - De que Colónia eras?- perguntou Starbuck, pondo-se ao lado da Capitã. - Scorpia. - Como é que chegaste até aqui? - Na Pegasus. Perante esta revelação, Sheba não conseguiu conter um pequeno grito de surpresa. A Estrela-de-Batalha Pegasus, comandada pelo seu pai, Cain, tinha desaparecido na Batalha de Gamoray, enfrentando duas Naves-Base Cylon de forma a que a Frota escapasse. - A Pegasus não foi destruída em Gamoray?- disse Starbuck que, juntamente com Apollo, tinha atacado essas duas Naves-Base, numa tentativa de lhes destruir algumas das baterias de mísseis para que a outra Estrela-de-Batalha as pudesse atacar.- O que aconteceu? - O Comandante Cain ordenou a utilização da velocidade-luz. No momento em que as Naves-Base foram atingidas e destruídas pelos nossos mísseis nós aceleramos. O Comandante informou toda a tripulação de que nos iríamos reunir com a Frota, que ele sabia qual o rumo que ela iria tomar... Nesta altura o cadáver começou novamente a lamuriar-se sobre a sua sorte, mas Lilith sossegou-o novamente, frisando que quando ele acabasse de contar a sua história poderia voltar a descansar. Acalmando-se, Maraxus continuou o seu relato, na mesma voz cavernosa que saía algures da sua garganta. - Assim que começamos a acelerar tudo começou a correr mal. As Naves-Base ainda nos tinham conseguido atingir gravemente. Na minha secção, nos Motores, metade da tripulação estava morta e foi por causa disso que ninguém se apercebeu das flutuações nos motores. Nunca conseguimos perceber o que aconteceu. O espaço à nossa volta mudou completamente, as estrelas desapareceram e tudo ficou vermelho. Andamos perdidos durante mais de dois sectares, sem poder desligar os motores e sem nenhum tipo de navegação. Ninguém pode imaginar o que nós vimos! Passamos por inúmeros planetas mortos, naves imensas de origem desconhecida paradas no espaço e a certa altura chegamos mesmo a captar pedidos de socorro de duas Estrelas-de-Batalha... - De quais?- interrompeu Sheba, que estava totalmente absorta pelo relato. - Da Argo e da Hermes. Essas duas naves tinham sido das primeiras a ser equipadas com os motores hiper-luz e haviam desaparecido na altura em que os experimentavam pela primeira vez. Esse desaparecimento tinha dado origem a uma série de lendas e contos, e todos os Guerreiros conheciam pelo menos uma história em que se falava dessas Estrelas-de-Batalha fantasma. Eram inúmeros os casos de viajantes espaciais que as juravam ter visto aparecer e desaparecer misteriosamente. - Andamos a vaguear durante dois sectares...- continuou Maraxus a contar.- Até que de repente, sem mais nem menos, voltamos ao espaço normal. Mas a transição foi devastadora e a maior parte dos nossos sistemas deixaram pura e simplesmente de funcionar. A última coisa de que nos conseguimos aperceber, foi que estávamos numa região totalmente desconhecida. Nenhum dos nossos mapas estelares abarcava aquela área. Ainda nos estávamos a recompor disto tudo quando começamos a ser atacados. Como tínhamos evacuado todos os nossos Vipers para a Galactica e como estávamos sem defesas, os nossos atacantes rapidamente conseguiram abordar-nos. A maior parte dos tripulantes pegou em armas de modo a repelir os invasores, mas eles eram mais que nós. Eu e alguns colegas meus conseguimos escapar de um desses ataques à Secção dos Motores e alcançamos uma das antigas cápsulas de salvamento. Ainda discutimos se havíamos de ficar ali a combater ou não, mas a verdade é que preferimos fugir. A cápsula conseguiu passar despercebida pelo meio das naves inimigas e tomou o rumo do planeta habitável mais próximo. Demoramos cerca de um secton a alcança-lo e depois tivemos que viver lá durante cerca de um yahren, até que apareceu alguém que nos tirou de lá... Lilith murmurou algo e Maraxus calou-se, mas antes que ela pudesse acrescentar mais qualquer coisa, Sheba perguntou na direcção do ex-tripulante: - O que é que aconteceu ao Comandante Cain? - A última vez que ouvimos falar dele, estava a lutar na Ponte contra os invasores..... - Basta!- disse Lilith, fazendo um gesto com a mão direita. A esfera de luz azulada formou-se de novo sobre o cadáver, desaparecendo de seguida, enquanto que a temperatura da sala começava a voltar ao normal. - Porque é que não o deixou acabar a história?- disse Starbuck a Lilith.- Já que nos trouxe até aqui, o mínimo que podia fazer era deixá-lo ir até ao fim. A mulher ignorou-o, preferindo voltar a sua atenção para a Capitã. Com um sorriso gélido disse: - Minha cara, porquê esta insistência em saber o que aconteceu ao seu pai? Iblis já lhe disse que você o vai voltar a ver.... Sheba voltou-lhe a cara, contendo-se para não usar a espingarda que empunhava. Estava com um desejo louco de pegar na arma e disparar sobre Lilith, de a matar vezes sem conta. Durante toda a sua vida, orgulhara-se de nunca ter sido manipulada por ninguém, mas tudo isso mudara quando se tornara um joguete nas mãos do maléfico Conde Iblis. E agora ali estava ela, a ser novamente usada por forças desconhecidas. Starbuck apercebeu-se do ódio de Sheba e antes que ela pudesse fazer algo, começou a falar com a outra mulher, pois estava com medo que ela se apercebesse das intenções da Capitã. E não era nada inteligente hostilizar alguém com os poderes de Lilith: - Mas como é que ele chegou até aqui? - Essa é a parte que eu sei...- continuou a mulher, sem se mostrar minimamente preocupada com a fúria de Sheba e apontando para o cadáver.- Maraxus e o outro tripulante foram os únicos a sobreviver àquela estadia forçada. Na altura em que uma das naves do meu amante parou naquele planeta, por causa de uma avaria, e os descobriu, pouco faltava para eles morrerem de fome. Nenhum dos nossos tripulantes percebia a língua deles, mas ao verem a cápsula de salvamento, aperceberam-se de que estavam perante extraterrestres. Assim que a nave ficou reparada, abandonaram o planeta, levando esses dois novos passageiros num dos compartimentos secretos. - Quando você veio ter connosco ao meu clube, disse-nos que eles tinham pago com Cúbitos... - Sim...durante a viagem, o Capitão do voo tornou-se um pouco ganancioso e decidiu extorquir dinheiro a Maraxus e ao colega. Isso é normal nestes voos de contrabando...os passageiros normalmente não estão em condições de se queixar de que foram assaltados. Eles acabaram por lhe dar todos os Cúbitos que tinham.... Parando por momentos, como que intrigada por alguma coisa, Lilith prosseguiu a sua história. - É claro que quando o meu amante soube desta descoberta, pensou logo que iria lucrar algo com isso. Discretamente começou a contactar algumas organizações, na esperança de que alguma delas estivesse interessada em “comprar” aqueles extraterrestres, e organizou uma expedição para ir buscar a cápsula. É claro que a partir do momento em que a vossa Frota chegou, a procura deixou de existir. Actualmente se as pessoas querem ver extraterrestres, só precisam de ir até Eden... - E o que é que isto tem a haver com a morte do seu amante?- perguntou Sheba, agora que já se tinha conseguido acalmar. Fazendo um gesto para abarcar toda a sala continuou: - E quem é que matou toda esta gente. - No dia em que o mataram, ele tinha-me confessado que tinha arranjado um comprador. Tudo indicava também que esse comprador tinha sido o responsável pelo ataque à Pegasus.... - Presumo então que tenha sido esse tal “comprador” que matou o seu amante..- concluiu o ex-Capitão.- E que atacou este prédio...Estão a eliminar todas as pessoas envolvidas neste assunto.... - Exactamente. - Mas você tem alguma ideia de quem é que é esse tal comprador?- disse Sheba, que queria sair rapidamente daquele lugar.- Porque é que não utiliza os seus poderes e descobre? Lilith lançou-lhe novamente o seu olhar gelado, mas a Guerreira não esmoreceu, continuando a fitá-la. Sheba era uma mulher com um feitio forte, tal como o seu pai, que não desistia facilmente e era exactamente por causa disso que Iblis se sentia atraído por ela. Lilith sentiu um certo ciúme ao aperceber-se disso, pois durante muito tempo ela é que tinha sido a companheira de Iblis. “Mas isso agora não interessa...Para já, tenho que continuar com a charada..”, pensou ela para si mesmo, continuando depois em voz alta: - Ao contrário do que vocês mortais podem pensar, nós não somos omniscientes. Mas as palavras de Maraxus deram-me algumas pistas. O sector do espaço onde a Pegasus foi atacada é dentro do espaço Terrestre e é um lugar de muitos mistérios. Se querem mais respostas, perguntem aos Terrestre, o que é a Área 51...... Vendo que o nome não dizia nada aos dois Coloniais, Lilith sorriu e acrescentou: - Mas agora vamos embora daqui. Está na altura de vocês regressarem... Sem mais palavras, virou as costas e dirigiu-se para a porta de saída. Tudo tinha corrido segundo o plano de Iblis. Aos poucos as peças estavam a ficar no lugar e, dentro em breve, o jogo tornar-se-ia muito mais complexo. Starbuck e Sheba seguiram Lilith para a entrada do apartamento, sem trocarem mais do que um olhar entre eles. Ambos ponderavam ainda a pista que a mulher lhes tinha dado. Como é que iriam investigar aquilo? O Guerreiro, que ia em último, foi o primeiro a aperceber-se da mudança na sala. A temperatura havia voltado a baixar num espaço de microns e ele conseguia ver o bafo criado pela sua respiração. Lilith tinha parado junto da porta, ficando subitamente rígida e fazendo um esforço visível para se virar. Por sua vez, Sheba, que também se tinha apercebido da situação, estava a virar-se para Starbuck, para lhe perguntar algo quando uma voz se fez ouvir, vinda do cadáver de Maraxus: - Starbuck!- disse uma voz de criança.- Starbuck! Não tenhas medo dos sonhos. Segue o teu destino! Segue o teu destino! - Boxey?- perguntou Sheba, ultrapassando o Guerreiro, que estava completamente paralisado, reconhecendo a voz do falecido filho de Apollo.- Boxey, és tu? - Segue o teu destino, Starbuck!- insistiu novamente a voz de criança, não respondendo à Capitã. O interpelado abriu a boca para dizer algo, mas antes que o pudesse fazer, um luz azul encheu a sala e, num abrir e fechar de olhos, os três encontravam-se novamente na rua. Sheba caiu de joelhos no chão, afectada pela rápida transição, enquanto que Starbuck se procurou uma parede, tentando recuperar o equilíbrio. Assim que sentiu as costas encostadas a algo sólido, fitou Lilith e perguntou, subitamente furioso: - O que é aconteceu? Aquilo foi mais algum dos teus truques? - Asseguro-lhe que não, Capitão Starbuck....- disse a mulher, enquanto que pela sua cara passava uma expressão de medo ou espanto.- Eu só vos transportei de lá.... - Aquela era voz do Boxey!- disse Sheba, tentando levantar-se do chão e falhando.- Tenho a certeza que era voz dele...... Antes que algum deles pudesse dizer mais alguma coisa, Lilith pediu silêncio com um gesto da mão: - Eu tenho que partir. A minha missão aqui já acabou. Regressem ao espaçoporto e voltem a Eden. Voltaremo-nos a encontrar.- disse ela, sendo visível que algo a preocupava. A pós estas palavras, Lilith pura e simplesmente desapareceu, deixando os dois Coloniais sozinhos na rua. Starbuck cambaleou até junto da Capitã e, a custo, ajudou-a a levantar-se. - Era o Boxey, não era?- perguntou ela, assim que se apoiou ao ombro de Starbuck e os dois começaram a caminhar, afastando-se do prédio. - Sim...- murmurou o Guerreiro, não dizendo mais nada. As palavras que tinha ouvido no apartamento não lhe saíam da cabeça. Ao chegarem ao fundo da rua, os dois Coloniais foram atirados para o chão por uma violente explosão. Quando se puseram de pé e olharam para trás, viram que o prédio que tinham visitado e aqueles imediatamente a seguir eram agora pasto de chamas, estando parcialmente caídos na rua. Vendo que nada podiam fazer para ajudar, puseram-se novamente em movimento, em direcção ao espaçoporto. Antes de desaparecer, Lilith tinha accionado de novo a bomba, numa tentativa vã de destruir a entidade que tinha falado com a voz de criança. É que essa presença era um sinal de que o Inimigo já sabia o que Iblis andava a planear.... - CAPÍTULO 8 - EM ÓRBITA DA COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE O Controlador de Voo John Wigley pousou cuidadosamente a sua chávena de café, tendo o cuidado de não entornar nada sobre o seu monitor. Não seria a primeira vez que isso acontecia, com resultados desagradáveis para o delicado equipamento electrónico. Enquanto deixava a bebida arrefecer, Wigley concentrou a sua atenção no radar da Estação Orbital de Lavos-304, embora soubesse que não havia qualquer nave em aproximação ao planeta, pois se isso acontecesse o computador lançaria de imediato um aviso. As únicas naves que costumavam fazer escala no planeta eram o vaivém mensal da Marinha e os voos entre as colónias de Lavos. Ligando o sistema de comunicação interna, Wigley pegou na chávena e sorveu um pouco do café, mas voltou a poisá-la pois continuava ainda a escaldar. Fitando um dos monitores que mostrava a vista do exterior da Estacão Orbital, ele viu as figuras dos homens que estavam a substituir um dos painéis de energia solar. - Então, que tal é que está o tempo aí fora?- perguntou ele em tom de gozo. - Essa teve muita piada, John...- ouviu-se quase de imediato e uma das figuras na imagem virou-se lentamente na direcção da câmara, fazendo um gesto obsceno que não era nada fácil de se executar quando se estava a usar as pesadas luvas de um fato espacial. Tratava-se de Nuala Kennedy, a tripulante mais graduada a seguir a Wigley - Porque é que não vens cá ver?- acrescentou uma outra voz.- Tenho a certeza de que o passeio te fazia bem! - Especialmente se não trouxeres fato espacial.- disse mais alguém, juntando-se à brincadeira. - Não, acho que prefiro ficar por aqui...- respondeu John, experimentando novamente o café.- Além do mais, é preciso que alguém esteja atento aos Cylons... Esta última parte já não era uma piada, pois todo o planeta estava em estado de alerta desde que tinham recebido uma comunicação da Base Naval de Lavos-305. Os Protocolos de Emergência eram bem claros nestes casos: todos os postos deveriam estar ocupados com pelo menos um tripulante para a eventualidade dos computadores e I.A. falharem. - Por falar em Cylons..- disse Nuala.- Já verificaste se as armas da estação estão a funcionar? - É claro que sim.- respondeu Wigley, lançando um olhar para o respectivo painel de controlo, onde uma série de luzes verdes indicavam que todas as armas estavam funcionais e sob o comando da I.A. da Estação.- Mas hoje até nem precisamos delas...Vocês podem atacar os Cylons com os vosso maçaricos. - Sempre é melhor que os raios dos mísseis que temos.- resmungou Alessio Cavatore, enquanto manobrava com os jactos do seu fato espacial.- Já que a colónia ainda não tem direito a uma Estação Orbital Militar, o mínimo que entretanto podiam fazer era dar-nos armas decentes... - Cuidado com as queixas, Alessio. –advertiu Kennedy.- Nunca se sabe quando é que o S.D.E. está à escuta... A referência ao Serviço de Defesa do Estado, organização que zelava pela “vigilância e defesa dos interesses da Aliança” fez com que todos se calassem. Muitos dos colonos eram descendentes de famílias que tinham sido deportadas da Terra após a Unificação Mundial e subsequente aparecimento da Aliança Terrestre. Embora esse estilo de deportações tivesse abrandado imenso, a verdade é que o S.D.E. continuava a manter essa ameaça sobre toda a gente. Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, um alarme começou a tocar no interior do Centro de Controlo. John baixou o volume do sistema de comunicação e virou a sua atenção para o monitor principal. A I.A. tinha detectado uma passagem ilegal no perímetro exterior dos seus sensores. O Estação Orbital fazia o controlo de voo de todos aquele sistema através de um série de redes de sensores. A primeira rede marcava o limite do sistema que albergava Lavos-304 e tinha sido essa mesma que tinha sido “quebrada”. Devido às distâncias envolvidas, o aviso só tinha chegado dois minutos após a intrusão. - Acabamos de detectar um intruso!- avisou ele no sistema de comunicação interno.- Se fosse a vocês vinha para dentro!! Na altura em que dizia isso uma nova mensagem surgiu no monitor principal. A segunda rede de sensores, que se situava a meio caminho entre a colónia e a entrada no sistema, tinha sido ultrapassada por dois objectos que se dirigiam a grande velocidade para Lavos-304. Nenhum dos objectos tinha um sinalizador IFF e os seus perfis eram compatíveis com Naves-Base Cylon. A mensagem tinha demorado cerca de um minuto a atingir a Estação, o que demonstrava claramente a velocidade a que as naves se deslocavam. Como que a provar esse facto, um dos membros do grupo de trabalho parou de andar em direcção à escotilha principal e começou a apontar para algo que a câmara não conseguia captar. - Meu Deus!! Eles estão a chegar!!- berrou o técnico, virando costas e recomeçando a fugir, o que não era fácil devido às botas magnéticas dos fatos espaciais. Apesar de este percalço, conseguiu chegar junto dos companheiros na altura em que a escotilha se começava a abrir. Enquanto isto acontecia, John Wigley manobrava a câmara exterior de forma a conseguir obter uma imagem daquilo que o outro homem tinha visto. “- ESCOTILHA EXTERIOR ABERTA.”- anunciou a voz mecânica do computador central da Estação, ao mesmo tempo que a I.A. fazia surgir um novo aviso no monitor de Wigley. Os sensores exteriores estavam a captar a aproximação de dois campos gravitacionais. Como que a provar isso, um ligeiro tremor começou a atravessar toda a estação enquanto John continuava a manobrar a câmara. “- ESCOTILHA EXTERIOR FECHADA. A INICIAR PRESSURIZAÇÃO DO COMPARTIMENTO DE ENTRADA.”- avisou o computador, mas John nem sequer o ouviu pois não conseguia desviar a sua atenção da imagem que finalmente tinha captado. A alguns quilómetros da Estação, podiam-se ver as imagens transparentes de duas enormes naves. Assim que as imagens se foram tornando mais sólidas, toda a estação começou a tremer de uma forma ainda mais violenta devido à atracção gravitacional daqueles dois corpos imensos. - John!!! John!! Que se está a passar?- perguntou, de repente, Nuala, através do sistema de comunicação interna.- Sempre são os Cylons? - Sim...- murmurou ele, passados alguns segundos.- São eles... - Já avisaste o planeta?? Esta última pergunta teve o condão de despertar John do seu estertor. Com toda aquela situação tinha-se esquecido de fazer exactamente isso! Sem mais demoras começou a tratar de estabelecer uma ligação com um dos satélites de comunicação. “- PRESSÃO NO COMPARTIMENTO DE ENTRADA ESTABILIZADA. ESCOTILHA INTERIOR A ABRIR.” Este último aviso foi imediatamente acompanhado pelo som de pessoas a correr na direcção da Sala de Controlo de Voo. Um pouco por toda a Estação, sistemas começaram a falhar à medida que as naves se iam aproximando. - Daqui Estação Orbital LV-304! Daqui Estação Orbital LV-304! Alguém me está a ouvir?- berrou John para o ecrã do sistema de comunicação, enquanto se segurava à sua cadeira com as duas mãos. Ele sabia que no planeta era de noite e que o Centro de Controlo AeroEspacial devia estar com o mínimo de efectivos, apesar dos Protocolos de Emergência estarem em vigor. Virando-se para trás, ele viu Nuala e o resto dos tripulantes entrarem e dirigirem-se para os seus postos. Alessio Cavatore era o responsável pelos sistemas de defesa da Estação e mal se sentou no seu lugar, deu autorização à I.A. da Estação para disparar as baterias de mísseis. - Aqui vai nada!!- anunciou ele , manobrando as câmaras exteriores para acompanharem o voo dos mísseis. Cavatore sabia perfeitamente que os projécteis não iriam fazer nada ao alvo. As armas da Estação estavam pensadas para atacar pequenas naves, de piratas ou de inimigos da Aliança, e nunca para atacar naves capitais, não estando por isso sequer apetrechadas com ogivas nucleares. - Impacto!- disse um dos outros tripulantes e todos os olhares se fixaram na imagens das câmaras exteriores. A I.A. tinha designado 5 mísseis para cada Nave-Base, mísseis esses que atingiram em cheio os seus alvos, explodindo simultaneamente e de uma maneira coordenada de forma a conseguirem o máximo de danos. - Acho que os chateamos....- murmurou Alessio vendo que as Naves-Base nem sequer se tinham dado ao trabalho de tentar interceptar os mísseis, num sinal claro de que não estavam preocupados com eles.- Só causamos danos mínimos na blindagem exterior e mai.... Antes que ele pudesse terminar a sua frase, três coisas aconteceram em simultâneo. As câmaras mostraram os primeiros Raiders Cylons a serem lançados; a voz triunfante de John anunciou que tinha conseguido contactar alguém no Centro de Controlo AeroEspacial e, finalmente, a Nave-Base que estava mais próxima abriu fogo com as baterias laser que estavam viradas para a Estação. É claro que este último acontecimento foi o mais importante para todos os tripulantes da Estação pois foi o acontecimento que pôs fim à vida deles. John Wigley fitou a cara sonolenta que lhe surgiu no ecrã de comunicações mas antes que pudesse lançar um aviso sentiu-se arrancado do seu assento e projectado contra a parede enquanto toda a Sala de Controlo era iluminada por uma luz brilhante e se enchia de chamas. Com um rugido de metal a partir-se, a Estação Orbital de Lavos-304 desfez-se em enormes pedaços que rapidamente começaram a “cair” na direcção do planeta, ardendo à medida que penetravam na atmosfera, e arrastando os corpos de 18 tripulantes. Camuflada por trás desses destroços ardentes seguia a primeira vaga de ataque Cylon. EM ÓRBITA DA COLÓNIA DE LAVOS-306, ALIANÇA TERRESTRE Contrariamente ao que havia acontecido em Lavos-304, esta colónia era defendida por Estações Orbitais Militares. As redes de satélite de vigilância tinham detectado de imediato a chegada das Naves-Base, pondo as Estações em Alerta Vermelho. Assim que pararam, as enormes portas dos seus hangares abriram-se e as primeiras vagas de caças Cylon saíram, encaminhado-se para atacar as frágeis construções orbitais terrestres. Apesar destas últimas estarem mais bem armadas do que aquela que defendia Lavos-304, a verdade é que o número dos atacantes acabava com essa vantagem. Mesmo assim, as suas tripulações ainda tiveram tempo de lançar um aviso para a colónia. O barulho das sirenes de emergência fez com que o Tenente-Coronel Oscar Gonçalves saltasse da cama de campanha onde estava a tentar descansar. Sem hesitar calçou as botas do uniforme abençoando a ideia de se ter deitado sem tirar este último. Na cama ao lado, o Tenente Thomas Barkin estava a vestir o uniforme a toda a velocidade, maldizendo tudo e todos, especialmente os superiores que se tinham lembrado de fazer um exercício àquela hora. - Até já!- berrou o Tenente-Coronel, pegando no seu capacete e correndo para a saída do bunker.- Vemo-nos no ar! O bunker onde os pilotos que estavam de prevenção dormiam era a poucos metros dos abrigos que albergavam os aviões e ele rapidamente chegou ao seu próprio aparelho. Uma série de mecânicos estava em volta do caça, verificando as armas e fechando todos os painéis de acesso. Olhando para trás, na direcção da cidade mais próxima, ele viu que esta estava às escuras, um procedimento típico em caso de ataque aéreo. Foi só nessa altura que ele começou a pensar que aquilo era um bocado exagerado para um simples exercício. Como que a mostrar que estava certo, uma série de explosões iluminaram a cidade ao mesmo tempo que os sistemas de defesa antiaérea que defendiam a base se activaram e começaram a lançar mísseis na direcção do céu nocturno. Todas as luzes desligaram-se e o hangar onde o caça do Tenente-Coronel estava ficou apenas iluminado com as luzes vermelhas de emergência. Assim que recebeu o sinal de que não havia mecânicos junto dos motores, ele retirou a luva do uniforme e premiu a placa de activação que existia junto das escadas de acesso ao cockpit. Assim que o computador confirmou as suas impressões digitais começou a activar os sistemas do caça. Na altura em que ele entrou no cockpit do aparelho, os motores do Hurricane 71-B "Ass-Stomper", classe Manta, já estavam aquecidos e todos os sistemas a funcionar. O radar do caça estava a receber as informações dos radares da base e dos satélites que orbitavam o planeta. - Isto é a sério?- perguntou ele, quebrando todo o protocolo militar e não fazendo a habitual verificação do sistema de comunicações. - Sim, Vermelho Quatro.- disse alguém da Torre de Controlo.- Mantenha o silêncio rádio. Assim que estiver no ar irá receber novas ordens. - Entendido.- respondeu Oscar Gonçalves, fitando novamente o ecrã e a enorme massa de alvos inimigos que enchiam o ar. Os sistemas de defesa antiaérea instalados nos quatro cantos da base disparavam constantemente e os motores dos mísseis iluminavam toda aquela zona por momentos. O último mecânico a sair do abrigo fez sinal de que tudo estava bem e partiu, fazendo uma rápida continência. Aumentando um pouco a potência dos motores, o Tenente-Coronel fez o caça avançar para fora do abrigo, virando-o para a pista, enquanto a carlinga se fechava. Do abrigo à sua esquerda surgiu o caça do Tenente Barkin que rapidamente tomou o lugar ao seu lado. Aplicando os travões ambos levaram os seus motores à máxima potência e esperaram. À frente dos dois caças estavam já os outros caças e atrás deles estavam a surgir outros quatro. - Oito não são suficientes...- murmurou o Tenente- Coronel, enquanto levantava os olhos do radar e viu que o Vermelho Um e o Vermelho Dois já estavam a acelerar pela pista fora, preparando-se para levantar voo. Virando novamente o seu olhar para o radar, ele viu que cerca de 50 contactos inimigos estavam a virar na direcção da base. Assim que os dois primeiros caças deixaram a pista, o computador da Torre de Controlo deu autorização para que dois outros levantassem. Assim que o Tenente-Coronel desactivou os travões, o caça deu salto para a frente e começou a acelerar pela pista fora, sendo seguido alguns segundos depois pelo outro. O Hurricane era o principal caça utilizado pelas Forças Armadas da Aliança, sendo um aparelho misto, capaz de voar no ar e no espaço. É claro que isso tinha certas desvantagens, nomeadamente o facto de ser muito mais pesado que um caça normal pois tinha armazenado dois tipos de combustível. E o facto de ser mais pesado equivalia a ter que precisar de mais pista para levantar.... Lançando os olhos para o radar, ele viu que os inimigos estavam a aproximar-se rapidamente do Vermelho Um e Dois e que estes estavam a disparar mísseis. Assim que viu que estava a chegar ao fim da pista, puxou para si o comando e o caça levantou, começando a ganhar altitude rapidamente. Um novo olhar para o radar mostrou-lhe que o Tenente Barkin também já estava no ar e que os 12 mísseis disparados pelos dois primeiros caças da Esquadrilha tinham encontrado os seus alvos. Sem esperar por ordens da Torre, atirou o caça numa curva apertada para cima e para a esquerda, sendo imediatamente seguido pelo Vermelho Três. Duas explosões no ar a alguns quilómetros de distância indicaram-lhe que os primeiros caças a levantar tinham sido também os primeiros a ser destruídos. Agora seria a vez dele e de Barkin... - Tem alguma ideia de como é que vamos fazer isto?- perguntou de repente este último, quebrando o silêncio rádio e parecendo adivinhar o que passava pela cabeça do Tenente- Coronel. - Disparamos os mísseis assim que estivermos ao alcance e depois tentamos passar por eles. Se tudo correr bem ainda podemos utilizar o canhão nessa passagem. - E depois disso? Que fazemos? De certeza que não vamos ter uma pista para onde voltar.... - Se sobrevivermos...- acrescentou o Tenente-Coronel, não conseguindo abafar uma gargalhada nervosa. – Temos que aterrar em alguma estrada e depois fugimos para a floresta. Não podemos fazer mais nada.... Barkin não fez mais nenhum comentário os dois caças dirigiram-se na direcção dos inimigos. A quatro quilómetros dos alvos, os dois pilotos, utilizando os dados transmitidos pelos radares da Torre, escolheram os seus alvos e dispararam todos os seus mísseis. Tal como tinha acontecido no outro caso todos eles encontraram os seus alvos e 12 inimigos desapareceram em múltiplas explosões. - Eles estão a acelerar. Os outros caças não vão ter tempo para usar os mísseis!- avisou Barkin. O Tenente-Coronel não deu sinais de ter ouvido, limitando-se a manter o seu caça em rota de colisão com os intrusos. A distância entre as duas formações encurtou em questão de segundos e assim que isso aconteceu, Gonçalves activou o canhão existente no focinho do Hurricane e de imediato surgiu no cockpit à sua frente um pequeno símbolo em forma de caixa a indicar para onde é que ele tinha que apontar de forma a atingir um dos alvos. Assim que a mira estabilizou nessa zona, premiu o gatilho durante cerca de dois segundos e todo o aparelho estremeceu quando o canhão Gatling disparou cerca de 500 projécteis, enchendo a zona do alvo com um mortífera chuva de balas de urânio empobrecido. Cerca de 100 tiros atingiram em cheio a zona do cockpit do Raider, destruindo os comandos de voo e danificando gravemente os dois pilotos Cylons. O terceiro tripulante ainda teve tempo para accionar os comandos secundários e baixar o Raider, fazendo com que apenas a última parte da rajada atingisse o seu aparelho. Infelizmente para ele, 231 tiros acertaram, penetrando na parte traseira do Raider e destruindo vários tubos de combustível que abasteciam os motores. O 232º tiro e último atingiu novamente essa zona e incendiou o Tylium que escapava dos motores. O Raider explodiu a poucos metros do caça humano e o Tenente-Coronel nem sequer teve tempo de evitar a enorme bola de fogo, tendo que passar pelo meio e sendo salpicado por inúmeros destroços. Assim que passou pelo meio da explosão, Gonçalves olhou para trás. A primeira coisa que notou foi numa série de luzes azuis a iluminar essa zona. Lembrando-se dos holovídeos que tinha visto dos Raiders em acção, identificou-os rapidamente como disparos destes últimos. Um olhar para o radar confirmou a sua suspeita. Os quatro últimos Hurricanes tinham sido destruídos antes de poderem disparar os seus mísseis. O Hurricane de Barkin estava ainda no ar, mas a voar a baixa altitude. Gonçalves fez baixar o seu caça até à mesma altura do seu companheiro e reduziu a velocidade, até estar lado a lado com ele. Uma rápida inspecção visual mostrou que o aparelho não tinha passado pela outra formação incólume, tendo ficado sem parte da asa direita. - Consegues voar?- perguntou o Tenente-Coronel, reparando que o outro caça vibrava ligeiramente e que estava a perder altitude. - Sim, mas não por muito...- resmungou Barkin, perguntando de seguida: - Quantos é que abateu? - Um...- respondeu Gonçalves, olhando para o radar e vendo a imagem deste desaparecer. – Acabamos de perder a ligação com a Torre. Passado alguns segundos a imagem do radar voltou, estando agora a receber informação dos satélites militares que orbitavam a colónia. O espaço aéreo sobre aquela zona estava saturado de inimigos. Reduzindo o tamanho do mapa, ele pediu uma vista aérea sobre a zona que lhe interessava e o seu pedido foi prontamente atendido, aparecendo uma secção de uma das principais auto-estradas da colónia. - Vamos aterrar aqui...- informou Gonçalves, dando de seguida as coordenadas do local. Nos planos de emergência criados para ocasiões como aquelas, tinham-se escolhido uma série de locais de encontro onde os sobreviventes se iriam reunir. Aquele era apenas um deles: um pedaço de auto-estrada suficientemente comprido para que os dois caças aterrassem e que acabava numa zona florestal que os ocultaria. - Roger.- respondeu simplesmente o outro piloto e os dois caças rumaram para essa localização. O horizonte estava macabramente iluminado de vermelho, um efeito provocado pelas chamas que grassavam na cidade mais próxima e que se reflectiam nas nuvens. Era claro que a Aliança estava a perder aquela batalha. PLUTÃO, ALIANÇA TERRESTRE BASE DE AMUDSEN - Começo a ter as minhas dúvidas em relação a isto...- murmurou Adama para o Doutor Wilker, tendo no entanto o cuidado de ver se nenhum dos Terrestres estava junto deles. - Tem de haver maneira de abrir “aquilo”!- concordou o cientista, olhando na direcção do artefacto da 13ª Tribo, há volta do qual já tinham perdido 3 sentons seguidos.- Tenho a impressão de que nos está a faltar qualquer coisa. - Sinto que a resposta não esta na “Nave” em si...- respondeu o Comandante, virando a sua atenção para o computador pessoal que tinha nas suas mãos. O aparelho tinha sido uma prenda dos seus filhos aquando da sua recuperação. Eles tinham recolhido toda a informação que existia nas diferentes bibliotecas da Frota sobre Kobol e tinham-na reunido naquele pequeno aparelho. Além disso, tinham digitalizado toda a informação do Livro dos Senhores de Kobol, bem como todas as imagens captadas durante a curta estadia da Frota naquele planeta. A sua atenção voltava-se sempre para uma ilustração do Livro. Nela via-se uma área coberta de estruturas semelhantes aquela que tinham ali à frente. A legenda que acompanhava a imagem dizia que se tratava dos Vale dos Mortos, o local de descanso eterno de todos os membros mais importantes das Tribos de Kobol. Num dos cantos da imagem podia ver-se um grupo de pessoas a aproximarem-se de uma das pirâmides e esta estava a abrir-se a partir do seu topo. Adama tinha analisado aquela ilustração inúmeras vezes, procurando uma resposta. O Doutor Wilker também havia feito a mesma coisa, mas a verdade é que ambos não estavam mais próximos de encontrar uma solução para o mistério da “Nave”. A única conclusão a que tinham chegado é que a ilustração representava o enterro de alguém, pois entre as duas colunas de pessoas flutuava um sarcófago. - Que estão a ver?- perguntou de repente alguém, fazendo com que ambos saltassem. Sem que nenhum dos Coloniais se apercebesse, a Doutora Karen havia-se aproximado deles e espreitava agora para o monitor do computador de Adama. - Era escusado ter-nos assustado desta maneira...- avisou o Comandante, num tom reprovador, apontando depois para um altifalante no tecto.- Já basta o facto de termos estas sirenes de emergência a tocarem constantemente - Já que fala nisso, Comandante, não seria melhor sabermos quando é que este exercício acaba?- perguntou Wilker. No princípio do senton anterior, a Base tinha sido toda selada ao exterior e posta em alerta. O General Bradford havia assegurado os seus convidados de que tudo aquilo não passava de um simples exercício que terminaria rapidamente, mas a verdade é que tal não havia acontecido. Karen pareceu querer dizer qualquer coisa, mas acabou por não o fazer e voltou de novo a sua atenção para o computador portátil que Adama tinha na sua mão. Este último olhou para o Doutor, que estava ainda à espera de uma resposta, e viu que este não havia reparado na hesitação da jovem Terrestre. “-Algo de estranho se está a passar aqui..”- pensou o Comandante perante a atitude de Karen. Ultimamente tinha sentido isso em relação a uma série de pessoas e tinha a certeza de que Wilker também partilhava dessa sensação. Virando-se para este último, acabou por concordar: - Assim que puder, vou falar com o General Bradford e perguntar quando é que isto acaba...Para já vou satisfazer a curiosidade desta jovem... Com estas palavras, Adama passou-lhe o computador, explicando o contexto da ilustração que aparecia no ecrã. Karen estudou atentamente o ecrã até que subitamente murmurou algo e se dirigiu para uma das estações de trabalho. O computador que aí existia tinha sido especialmente preparado para ser compatível com os sistemas Coloniais e ela rapidamente fez uma cópia da imagem do computador de Adama para lá. Assim que a ilustração foi transferida, ela abriu um programa de tratamento de imagem e começou a trabalhar com ele. - Como é que eu consegui ser tão estúpida...- murmurou ela, um pouco mais alto, virando-se depois para os dois Coloniais, que continuavam a seguir atentamente o que ela fazia.- A solução esteve sempre aqui... Eu nunca pensei que fosse algo tão simples... Olhem para aqui, se fazem favor... Seleccionado uma parte da ilustração, Karen aumentou a magnificação até que uma só imagem encheu o ecrã. - Estamos a ver as mãos da primeira pessoa que acompanha o sarcófago. Os dois Coloniais estudaram atentamente a imagem que lhe era apresentada. A pessoa em questão tinha os braços estendidos em frente e agarrava com as suas duas mãos uma cruz encimada por uma espécie de círculo. Ambos reconheciam o artefacto como sendo um Ankh, um símbolo religioso que era utilizado em Kobol como o sinal dos Senhores e que na Terra tinha sido utilizado como um símbolo religioso do Antigo Egipto, outra prova de que os Terrestres eram os descendentes da 13ª Tribo. - Na religião Egípcia, o Ankh representa a vida depois da Morte.- disse Karen aos Coloniais.- Nas representações artísticas de cerimónias fúnebres, os Deuses e Deusas apareciam muitas vezes a segura-lo pela parte superior, como se de uma chave se tratasse... Seria a chave que abriria as portas para a imortalidade. - Os paralelo com as nossas próprias tradições são evidentes.- assentiu Adama, apontando depois para a “Nave”.- Agora só é preciso encontrar o Ankn que nos permita abrir aquela porta... - Pelo o que a Doutora disse antes de nos mostrar a imagem, desconfio de que a solução já está aqui.- disse Wilker, virando-se para a Terrestre e perguntando: - Não é assim? - Sim...- confirmou ela, ficando um pouco vermelha de embaraço.- Na altura em que se começaram a efectuar os estudos da Nave, as equipas de cientistas descobriram uma pequena arca escavada no solo. No seu interior encontravam-se um Ankn, mas ninguém lhe prestou atenção pois o grande objectivo era entrar no artefacto... Depois de 6 de Agosto de 2105 e da activação do campo de forças, todos os esforços viraram-se para a tentativa de ultrapassar essa barreira. Nunca mais ninguém se lembrou dessa descoberta. - De que estamos então à espera?- perguntou Adama, sorrindo.- Vamos lá ver esse Ankh! Com estas palavras, os dois Coloniais e Doutora Karen dirigiram-se para o cofre onde se encontrava guardado aquela que podia ser a solução para a abertura da “Nave”. A notícia da descoberta espalhou-se rapidamente e uma pequena multidão seguiu-os até lá. - Aqui está!- anunciou Karen, pegando cuidadosamente no Ankn e passando-o para as mãos de Adama. Este pegou nele com a mão direita, passando-o depois para a mão esquerda como que a tomar-lhe o peso. A relíquia era feita de uma metal dourado que pouco pesava e que parecia quente ao toque. Abrindo caminho pelo meio dos espectadores, o Comandante dirigiu-se para as escadas que davam acesso à caverna onde a Nave estava. Olhando para trás, Adama verificou que continuava a ser seguido por uma série de Terrestres e que, de uma forma inconsciente, se estava a formar uma espécie de procissão. - E agora, que fazemos?- perguntou Wilker, que se tinha colocado ao lado do outro Colonial, assim que chegaram junto da linha que alguém tinha desenhado no chão pedregoso da caverna e que marcava o início do campo de forças. - Agora...- começou Adama a dizer.- Entramos! Sem hesitar o Comandante deu um passo em frente e mergulhou no campo de forças. ALGURES NO ESPAÇO ENTRE LAVOS-305 E A CINTURA DE ASTEROÌDES. Apesar de se considerar uma pessoa paciente, o Apollo olhou novamente para o relógio que tinha no pulso. Os saltos hiperespaciais estavam a demorar cada vez mais e isso preocupava-o, mesmo que tal não estivesse a acontecer por causa da Galactica. A tecnologia podia ter sido criada pelos Terrestres, mas a verdade é que os Coloniais conseguiam recuperar mais rapidamente dos efeitos dos saltos. Tecnologicamente, tinha sido fácil desviar energia dos eficientes motores da Estrela-de-Batalha para alimentar os motores hiperespaciais. Fisiologicamente, os Coloniais também pareciam aguentar melhor os efeitos desses saltos. Até agora, e após quatro saltos sucessivos, só cerca de dez tripulantes é que se tinham sentido mal. Nas duas fragatas terrestres, cerca de metade das tripulações de ambas já tinha recebido tratamento e era exactamente por causa disso que os atrasos se estavam a suceder. - Os Terrestres já disseram mais alguma coisa?- perguntou Apollo a Tigh, que, como era seu costume, o acompanhava no Posto de Comando na Ponte. - Não, Comandante.- respondeu o Coronel.- A sua situação é a mesma. Ambas as fragatas apresentam problemas nos motores hiperespaciais e os seus técnicos estão a tentar resolvê-los. E esses técnicos não são os principais, porque esses estão a receber tratamento... - Se ao menos pudéssemos continuar viagem sem elas....- desabafou Apollo, embora soubesse que tal era impossível. As duas fragatas Terrestres serviam como uma espécie de prova de que a mensagem que a Galactica trazia da parte do Comandante Hans Zimmer era verdadeira. Ambos os Capitães confirmariam que o Grupo de Resposta Rápida deveria abandonar a Cintura de Asteróides e dirigir-se com eles para Lavos-306, um dos planetas que possivelmente seria atacado pelos Cylons. - Temos que ser realistas, Apollo...- retorquiu Tigh, pousando o seu computador pessoal em cima de uma das consolas de comando e esfregando os olhos, num gesto claro de cansaço.- Todos os planos são bons até ao momento que começam a ser executados. Nós nunca poderíamos adivinhar que os Terrestres iriam ter tantos problemas com as naves... Neste momento já não é possível chegar até ao Grupo no horário que tínhamos previsto. E também não iremos chegar a Lavos-306 a horas... - Eu sei disso...Eu próprio já fiz as contas. Com os atrasos que estamos a sofrer, iremos demorar mais ou menos dez centares a atingir a colónia...E isto se nenhuma das naves do Grupo se avariar... - Sei perfeitamente que estás preocupados com os habitantes de Lavos... Se os Cylons realmente atacarem o planeta... - Tenho a certeza de que já não é uma questão de se..., Tigh.- interrompeu Apollo, batendo com o punho fechado no braço da cadeira onde se sentava.- Tenho a certeza de que os Cylons já atacaram o planeta. Eles são como os snarks que infestavam certos mares em Caprica... Assim que sentem uma presa indefesa atacam sem piedade... - Se eles já o fizeram, temos que nos certificar que nunca mais o fazem. E também temos que mostrar aos Terrestres que estão a encarar o perigo dos Cylons de uma maneira muito despreocupada... - Há políticos Terrestres que defendem que nós devíamos ter continuado a nossa viagem. Com este ataque dos Cylons, de certeza que vão dizer mais uma vez que a culpa é nossa...que fomos nós que os atraímos até cá... - Eles são loucos...- afirmou Tigh, mostrando o seu conhecido desagrado por todos os tipos de políticos, fossem eles Terrestres ou Coloniais.- Se os Cylons tivessem contactado com os Terrestres antes de nós...Assim ao menos ainda tivemos tempo para os avisar e preparar...embora continue a dizer que eles ainda estão muito despreocupados... - Tigh, os Terrestres vão ter que aprender a não subestimar a ameaça dos Cylons, tal como os nossos antepassados aprenderam no princípio da Guerra Milenar...E nós vamos estar ao lado deles nesse combate!- concluiu Apollo, lançando um novo olhar para o seu relógio.- Mas agora, vamos contactar novamente as fragatas e ver se eles já repararam os motores... EM ÓRBITA DA COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE “Uma das coisa que devíamos instalar nas nossas naves era um monitor gigante...”, pensou Lúcifer enquanto ouvia o relatório de um dos Centuriões,”Era mais eficiente se os Comandantes das Nave-Base pudessem ver directamente as imagens transmitidas pelos Raiders e pelos Centuriões.” - Obrigado, Centurião.- disse o Cylon I.L., assim que o seu subordinado terminou de falar.- Lancem os vaivéns da segunda vaga e comecem a recolher prisioneiros; todos os equipamentos informáticos que encontrarem, assim como livros e mapas. - Os edifícios assinalados para tal efeito já estão a ser revistados e as principais concentrações de Humanos já estão cercadas. - E já conseguiram estabelecer contacto com as nossas forças na outra colónia? - Não. O equipamento de comunicação hiperluz está a ser calibrado. - Muito bem, Centurião. Regressa ao teu posto. - Pelo seu Comando. Esta era a única parte do plano de ataque que preocupava Lúcifer. As Naves-Bases que estavam sob o seu comando tinham partido do Posto Imperial sem terem recebido os melhoramentos ao nível do software de comunicações, o que as estava a impedir de receber as comunicações hiperluz apesar de já terem esse equipamento instalado. A única solução para tal era calibrar o equipamento hiperluz de forma a que este pudesse ser captado em equipamento subluz, o que era um trabalho moroso. “De qualquer maneira, os outros Comandantes têm as suas ordens...”, disse Lúcifer para si mesmo, tentando ignorar os dados estatísticos, obtidos em batalhas anteriores, que provavam que era normal os Primeiros-Centuriões esquecerem- se das ordens que lhes eram dadas. Os novos aparelhos de comunicação hiperluz serviriam para acabar com esses problemas pois as acções dos Primeiros-Centuriões passariam a ser controladas pelos seus superiores, nomeadamente pelos Cylons I.A.. Quanto a estes últimos, o Líder Imperial estava a dar- lhes cada vez mais poderes, nomeadamente dando-lhes o comando das forças Cylon que continuavam a expansão do Império. Lúcifer tinha falado com outros membros da sua série e todos eles sentiam que essa mudança era bem vinda, embora alguns deles achassem que isso também era uma maneira de os afastar das lutas pelo poder que estavam a ocorrer no planeta Cylon. E eram exactamente esses últimos que queriam assumir o lugar de Líder Imperial, acabando desta maneira com o último bastião de poder dos Cylons orgânicos. Lúcifer já tinha sido contactado por esta facção, mas não se tinha mostrado interessado em dar-lhes o seu apoio. Ele achava que a altura ainda não era propícia. O Império tinha que acabar com todos os seus inimigos externos antes de se poder pensar em mudanças. Os Coloniais ainda não estavam completamente exterminados, os Outros continuavam com os seus ataques nas fronteiras e estes novos Humanos também deveriam ser problemáticos... - Aliás, todos os Humanos são problemáticos.- concluiu Lúcifer em voz alta, fazendo com que alguns Centuriões se virassem na sua direcção antes de continuarem com as suas funções. – A nossa História é o reflexo disso mesmo... Avançando para junto dos seus subordinados, Lúcifer voltou de novo a sua atenção para as comunicações com a segunda vaga de ataque, que estava agora a aterrar na principal cidade terrestre daquele planeta. - CAPÍTULO 9 - COLÓNIA DE LAVOS-304, ALIANÇA TERRESTRE QUARTEL CENTRAL DO EXÉRCITO TERRESTRE, CIDADE DE ASHER A explosão arrancou o Tenente Roger Veckin da cama e atirou-o para o chão. Antes que se pudesse recompor, a Camarata dos Oficiais foi novamente sacudido por outra explosão e um bocado do tecto do quarto caiu ruidosamente por cima da secretária de Roger, desfazendo-a. Apesar de estar ainda meio atordoado por ter sido acordado daquela maneira, ele levantou-se rapidamente e abriu o armário onde estava guardada a sua armadura, começando de imediato a envergá-la. Só enquanto fazia isso é que reparou que as sirenes de alarme do QG estavam a tocar a toda a força. Quando lhe faltava apenas colocar o capacete para fechar a armadura, dirigiu-se para a janela do seu apartamento, esmagando com as pesadas botas metálicas os vidros que a primeira explosão tinha partido. O seu quarto ficava ao nível do terceiro andar e era separado do edifício em frente por uma larga avenida. No momento em que espreitou pela janela, algo o fez olhar para a esquerda, na direcção da entrada principal. Como que se de um enorme pássaro metálico se tratasse, uma nave que ele rapidamente identificou como sendo um Raider voava ao longo da avenida, quase ao nível do primeiro andar dos prédios, com as suas armas a disparar, espalhando o caos e a morte. Roger seguiu-o com o olhar, vendo-o passar por baixo da sua janela e atingindo um grupo de soldados que emergia dos seus aquartelamentos, subindo depois para a esquerda, preparando-se para dar outra volta por cima do QG. - Não vou ficar aqui à espera... - afirmou o Tenente para si mesmo, colocando o capacete na cabeça e fechando-o, activando desta maneira a armadura. Abrindo os seus sistemas de comunicação, entrou na rede da Companhia A e tentou contactar o Capitão Thomas, o seu superior imediato. Tal como ele, também os comandantes dos outros três pelotões da Companhia A tentavam contactar o Capitão, mas a verdade é que este ainda não estava na rede. - Alguém sabe onde é que ele se meteu? - perguntava o Tenente Paulo, o responsável pelo 2º Pelotão, sendo nítido que estava a correr algures. - A camarata onde ele está alojado está em chamas! - respondeu o Tenente Chang, do 3º Pelotão.- Eu estou a sair das Oficinas e tenho o edifício à minha frente. - Eu vou ver onde é que está o Joe! – lembrou-se Roger, abrindo a porta do seu quarto e dirigindo-se para o corredor. O alojamentos do comandante do 4º Pelotão situavam-se no mesmo andar que o seu, num dos cantos do edifício. Ainda antes de chegar lá, viu que era escusado procurar o outro oficial. O tecto tinha abatido, cortando por completo o corredor e toda a área que ficava por trás dele. Um dos canos que serviam o sistema de combate a incêndios tinha rebentado e uma enorme bátega de água caía do tecto, alagando o chão. Passando pelo meio desse “chuveiro”, dirigiu-se para a porta que dava acesso às escadas e começou a descer. Ao chegar ao patamar do segundo andar, encontrou alguns oficiais da Companhia C que tentavam desobstruir a passagem para esse andar. A porta anti-fogo tinha sido arrancada por uma chuva de destroços. Por baixo do monte de entulho que enchia essa zona, podia ver-se a parte superior de um corpo ensanguentado. Sem dizer uma palavra, Roger ajudou os outros a retirar alguns dos pedaços das vigas que sepultavam o corpo. O único barulho que se ouvia no patamar era o dos servomotores das armaduras enquanto estas ampliavam a força dos seus utilizadores permitindo-lhes levantar com relativa facilidade grande pesos. Uma série de novas explosões abalou o edifício, lembrando aos presente que os ataques continuavam. Como que a pontuar isso, a voz do Major Yu fez-se ouvir, sobrepondo-se a todas as comunicações da Companhia. - Atenção! Todos os oficiais devem apresentar-se imediatamente no bunker de Comando! – A mensagem repetiu- se uma ou duas vezes, voltando depois a ouvir-se as comunicações entre os diversos membros da Companhia A. - Já não estamos a fazer nada aqui…- desabafou um dos homens, através dos altifalantes externos da armadura.- O que é preciso aqui é uma equipa de salvamento... - Vamos embora...- assentiu outro, virando as costas ao entulho e preparando-se para descer as escadas, sendo relutantemente seguido pelos outros. - Algum de vocês sabe como é que isto pôde acontecer? Como é que eles nos atacaram de surpresa? - perguntou Roger, enquanto desciam. - Pelo que ouvi, eles destruíram a Estação Orbital antes que esta pudesse dar o alarme e depois penetraram na atmosfera ocultados pelos destroços dela... - esclareceu um deles.- O Centro de Controlo AeroEspacial ainda captou o princípio de uma mensagem... O oficial não chegou a acabar a sua explicação pois uma nova explosão abanou o edifício, mergulhando-o na escuridão. Activando os sistemas de visão nocturna, dirigiram-se para o exterior pela porta de emergência que dava para as traseiras. Os edifícios que estavam para aí virados estavam a arder e do seu interior ouviam-se os gritos de pessoas presas nos destroços ardentes. As sirenes de alarme soavam por todos o quartel, mas o som que se sobrepunha a tudo isto era o grito dos motores dos Raiders que continuavam a sobrevoar o quartel, assemelhando-se a enormes aves de rapina em busca de nova presa. - Ainda estou para ver como é que vamos chegar ao bunker...- disse um dos oficiais que acompanhava Roger, mantendo-se encostado à parede.- Temos que atravessar a avenida principal toda... Enquanto os outros discutiam a situação, Veckin entrou em contacto com os Sargentos que comandavam as quatro secções do seu pelotão, mas apenas conseguiu falar com os responsáveis da 1ª e da 3ª. As notícias que eles lhe deram eram quase impossíveis de acreditar... A caserna onde estavam alojados tinha sido uma das primeiras a ser atingida pelos Cylons e a maior parte dos seus ocupantes tinha morrido debaixo dos escombros. A 1ª Secção tinha sido a menos afectada, tendo saído de lá com apenas dois feridos; a 3ª tinha sofrido quatro baixas. Da 2ª Secção não havia sobrevivente, pois as vigas centrais que suportavam o telhado haviam caído directamente sobre a zona onde os seus membros estavam a dormir. As mesmas vigas tinham ainda morto oito soldados da 4ª Secção. Os únicos sobreviventes eram um condutor e o soldado encarregue das comunicações. - Deixem-se ficar onde estão! - ordenou ele assim que acabou de ouvir os relatórios. Os sobreviventes das suas secções estavam abrigados numa das Oficinas subterrâneas, juntamente com os homens do 3º Pelotão. Os Cylons estavam a ignorar esse alvo, limitando-se a atacar os edifícios mais vulneráveis. - Fui chamado ao Comando...Assim que acabar vou ter convosco. Entendido? Perante as respostas afirmativas, Roger virou-se para os outros oficiais que estavam consigo. Eles tinham decidido que a única maneira que tinham para passar para o outro lado era atravessar a avenida principal a correr e abrigarem-se numa das ruas que corriam entre os edifícios em frente. Depois disso era só uma questão de se manterem encostados às paredes e nas sombras até chegarem ao bunker. As armaduras que usavam ampliavam também a velocidade a que corriam, o que lhes permitia atravessar a avenida em poucos segundos, mas mesmo assim esse foram os segundos mais longos da vida de Roger Veckin. O único som que este ouviu durante a curta travessia foi o do seu coração a bater fortemente. Da sua cabeça não saía a imagem dos Raiders a darem meia-volta e a dispararem sobre as figuras que corriam, mas a verdade é que isso não aconteceu. Os Cylons estavam a bombardear outra parte do quartel e nem sequer se tinham apercebido de nada. Depois daquela primeira experiência, a corrida para o bunker já foi muito menos penosa. A única coisa que assustou os oficiais foi o tempo que tiveram que esperar até que as pesadas portas principais do bunker se abrissem. Assim que estas se fecharam atrás de si, os quatro homens suspiraram de alívio e levantaram as viseiras das suas armaduras, desligando a maior parte dos sistemas destas. Descendo pelo corredor, que estava apenas iluminado com uma série de luzes vermelhas de emergência, aproximaram-se do par de soldados que guardava as portas que davam acesso ao Centro de Comando propriamente dito. Apesar das armaduras não deixarem ver as suas caras, era notório pela sua postura que estavam nervosos. Pelo meio da barricada, improvisada com uma série de secretárias e cadeiras, onde eles se abrigavam, espreitava o cano de uma A-4T Sturmgewehr, a primeira arma pesada de plasma feitas pela Jaschonek, uma das principais fornecedoras de equipamento militar da Aliança Terrestre. Todos os soldados dos vários ramos das Forças Armadas da Aliança Terrestre possuíam implantes subcutâneos que funcionavam como IFF, para além de possuírem uma ficha médica e pessoal do seu utilizador. Os sensores das armaduras dos soldados leram os IFF dos oficiais e identificaram-nos como aliados. Depois de transmitirem essa informação para o Centro de Comando, a segunda porta abriu-se e os oficiais entraram, passando por uma segunda barricada colocada no meio do corredor e ocupada por quatro soldados. - Será que vai haver uma invasão por terra? - murmurou um dos oficiais, ao passarem pelo segundo obstáculo.- Não estou a perceber o porquê de toda esta segurança.... Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa surgiu um Capitão que de imediato lhes ordenou que o seguissem até uma das salas de reunião do Centro. A maior parte dos postos pelos quais eles passaram estavam ocupadas por soldados que se mantinham em contacto constante com o resto do planeta. Pelas expressões deles e pelas comunicações que se ouviam nos altifalantes do Centro, a verdade é que a situação só podia ser má. Como que a provar isso, um soldado chegou junto do Capitão que os escoltava e fazendo continência, entregou-lhe uma folha de papel, voltando de seguida para o seu posto. O Capitão deu uma olhadela à folha e apressou o seu passo, entrando de rompante na sala de reuniões. O Major Yu estava sentado em cima de uma secretária, envergando apenas a parte inferior da sua armadura de combate. O lado esquerdo do seu tronco estava coberto de sangue assim como a ligadura que lhe ocultava a face direita. Um enfermeiro estava ocupado a suturar- lhe uma ferida no ombro esquerdo mas mesmo assim o Major Yu fez continência a Roger e aos outros sobreviventes e deu- lhes a indicação para que se sentassem. - Esteja quieto, Major...- advertiu o enfermeiro com um ar severo.- Assim nunca mais acabo isto... - Há assuntos mais importantes a tratar do que a minha saúde....- retorquiu o Comandante, fazendo depois um sinal para que o Capitão lhe entregasse o relatório. Enquanto Yu lia o relatório, Roger pensava para si mesmo que todas as histórias que se contavam sobre o Major eram realmente verdade. Ele pertencia a uma das poucas famílias Lealistas que tinham abandonado a Cintura na altura em que esta se tinha declarado independente da Aliança. Mal tinha chegado à Terra, havia-se alistado no Exército da Aliança e a partir daí tinha criado uma fama de alguém extremamente duro mas também muito meticuloso. Tinha sido exactamente essa sua característica que lhe tinha trazido problemas. Na última operação que tinha comandado, tinha-se recusado a ordenar um ataque a uma posição rebelde pois não havia informação suficiente sobre as forças inimigas. O General que comandava toda a operação tinha-o afastado de imediato, substituindo-o por um Major que acatou as ordens e que morreu com outros 400 soldados na altura em que os rebeldes utilizaram uma peça oculta de artilharia para dispararem um projéctil nuclear contra o ataque da Aliança. Apesar do Tribunal Militar ter dado razão ao Major Yu e questionado a validade da ordem do General, a verdade é a sua carreira ficou manchada para sempre e o General em questão nunca se esqueceu do assunto, fazendo com que Yu fosse destacado para bem longe da Terra. Tinha sido por causa disso que o Major tinha acabado por se tornar o Segundo Comandante das forças da Aliança em Lavos-304, um planeta que estava no limite da zona de espaço abarcada pela exploração Humana. É claro que ele tinha tido uma sorte imensa porque o verdadeiro Comandante, um Coronel chamado Graham Davey, tinha adoecido subitamente e os médicos do planeta haviam aconselhado que o melhor que havia a fazer era enviá-lo de volta para a Terra. Por esta razão, o Major Yu tinha assumido o comando efectivo das forças militares aí presentes e tinha passado os últimos meses a prepara-las para a guerra que toda a gente pareceria aceitar que estava a aproximar-se. - Esta informação está confirmada? - perguntou o Major, entregando de volta o papel ao Capitão e interrompendo assim as divagações de Roger. - Está sim... Estivemos em contacto directo com as nossas forças na cidade de Asher.... Fazendo sinal para que o enfermeiro se afastasse, o Major pôs-se de pé e accionou o ecrã embutido na parede atrás de si. O mapa aí projectado era semelhante aquele que existia no Centro de Comando e apresentava toda a zona que ia desde da cidade de Asher até ao espaçoporto. Uma série de símbolos vermelhos representavam as forças inimigas e os símbolos azuis as forças Terrestres. Estas últimas apareciam na zona do Quartel e pouco mais. Fora dessa zona, a única concentração que aparecia era na zona da cidade. - Como podem ver, estamos em maus lençóis...- anunciou Yu sem mais nenhum preâmbulo.- Segundos as informações que acabei de receber, a Companhia B foi praticamente dizimada na cidade. Os elementos que restam estão a retirar em direcção à selva que rodeia a cidade. A acompanha-los estão alguns membros da Polícia Planetária... Parando alguns segundos, para que todos os oficiais se apercebessem da gravidade da situação, o Major continuou a falar: - Outra má notícia é que as nossas armas ligeiras são ineficazes contra os Cylons. As armaduras deles são capazes de aguentar um carregador inteiro da AR-34. Os únicos pontos fracos são a zona da cabeça e a parte central do torso... - E as armas de plasma? – interrompeu o Tenente Paulo, que tinha chegado pouco antes de Roger. - Eu ia mesmo agora falar nisso.- disse Yu, embora fosse nítido que não estava a repreender o seu subordinado pela interrupção.- As A-4 são as únicas que conseguem abater os Cylons, mas não as temos em número suficiente. Neste momento, apenas temos uma por pelotão. Antes que pudesse terminar a fase, o Capitão que tinha conduzido Roger e os outros oficiais, irrompeu pela porta, fazendo com que todos olhassem para ele. - Major! Tem que ver isto !! Sem dar tempo para que alguém dissesse algo, ele avançou e começou a manipular o computador da secretária do seu superior enquanto explicava o que tinha acontecido: - Um dos nossos técnicos lembrou-se do sistema de televigilância da Polícia Planetária e assumiu o comando das câmaras deles. Estamos a receber imagens directamente da cidade de Asher! O sistema de que o Capitão falava era uma espécie de equipamento padrão de todas as colónias da Aliança. As câmaras eram utilizadas para quase tudo, desde do controle do tráfego até à prevenção do crime. É claro que quase toda a gente suspeitava que esse sistema tinha também um fim sinistro, sendo utilizado pelo Serviço de Defesa do Estado na sua eterna busca de ameaças aos interesses da Aliança. Mas neste momento, a única coisa que interessava é que iam ter acesso a imagens em directo do que estava a acontecer. - Aqui está! - anunciou ele, acabando de programar o computador para aceitar comandos verbais.- Sector Um! A imagem que surgiu no ecrã da parede não era muito nítida, pois algo estava a arder perto da câmara, lançando espessas cortinas de fumo negro. Só quando uma súbita rajada de vento afastou esse fumo é que os espectadores se aperceberam que estavam a ver a principal avenida da cidade. O Capitão ordenou que a câmara começasse a girar de modo a que pudessem ter um panorama geral da zona e foi nessa altura que a verdadeira extensão dos estragos se tornou nítida. Todos os edifícios que apareciam nas imagens estavam danificados e havia mesmo alguns que estavam completamente destruídos e que se tinham desmoronado sobre os passeios. Espalhados um pouco por toda a parte, viam-se corpos e veículos a arder, incluindo um carro da Polícia Planetária. - Pára! - ordenou o Capitão, na altura em que a câmara passava pela entrada da Biblioteca de Asher, o maior edifício que existia na avenida.- Amplia 100%! A imagem desfocou-se um pouco enquanto que o computador transmitia os comandos e a câmara os acatava, acabando por transmitir uma imagem da entrada e da escadaria da Biblioteca. Uma fila de Cylons estendia-se desde da entrada da mesma até ao meio da rua, passando algo entre eles. - Projecta uma grelha!- disse o oficial, esperando que o computador dividisse a imagem numa série de pequenos quadrados numerados.- Amplia a zona 20! - Estão a tirar livros? - perguntou Yu em voz alta ao ver a imagem ampliada das mãos de alguns Centuriões.- Muda para as outras câmaras, Jack. Quero ver o que eles estão a fazer no resto da cidade... Todas outras câmaras mostravam as mesmas imagens de destruição e de pilhagem. Em quase todos os sectores onde estavam, os Cylons mostravam-se empenhados em recolher os mais variados objectos. - Acho que eles estão a recolher informação sobre nós...- disse Roger em voz alta, chamando a atenção de toda a gente na sala.- Eles andam atrás de livros, computadores...até já vimos alguns a retirar as placas identificativas das ruas... - Eu acho a análise do Tenente correcta! - concordou o Capitão, enquanto manobrava as câmaras para uma nova zona.- O que estamos a ver não passa de um ataque exploratório. Os Cylons podem conhecer os Coloniais, mas a nossa civilização é-lhes desconhecida. - Tenho que concordar com ambos...- admitiu Yu, apontando para o ecrã.- Só assim é que posso explicar o que estamos a ver neste momento. Todos os olhos se fixaram nas imagens de um grupo de cerca de quarenta pessoas que estavam a ser encaminhadas para o porão de um vaivém Cylon. O veículo tinha aterrado no meio de um parque de estacionamento, esmagando uma série de hovercarros e agora esperava pacientemente pela sua carga. Apesar de não haver som, era notório que os Centuriões que acompanhavam os prisioneiros não estavam a dar ordens em Inglês-Padrão, limitando-se em vez disso a espetar as baionetas das suas armas nos Humanos recalcitrantes ou empurrando-os com as coronhas das mesmas na direcção da rampa de embarque. Muitas pessoas estavam nitidamente feridas, mas mesmo assim os Centuriões continuavam a forçá-las a andar. - Pobres diabos. - disse alguém em voz alta, do fundo da sala. - Temos que fazer algo! – acrescentou indignadamente outra voz mas antes que a discussão se pudesse instalar na sala, o Major Yu ordenou que se desligasse o ecrã e virou-se para todos os oficiais presente: - Não podemos fazer nada por eles, meus senhores. O inimigo é-nos claramente superior em combate terrestre e tem o domínio dos céus. Qualquer contra-ataque da nossa parte é inútil e transformar-se-ia rapidamente num banho de sangue... - Mas tem que haver algos que possamos fazer! - interrompeu o Tenente Paulo, pondo-se de pé.- Não podemos ficar aqui parados! Uma série de outras vozes levantaram-se para o apoiar, mas com um simples gesto de mão, Yu mandou-os calar a todos e assim que o silêncio se instalou, continuou a falar, deitando um olhar duro com os seus olhos azuis ao subordinado: - De facto, há algo que podemos fazer, Tenente Paulo...Podemos sobreviver e lutar noutro dia. Lançando o mesmo olhar para todos aqueles que estavam na sala, prosseguiu: - Meus senhores, podem ter a certeza de que este foi apenas o primeiro episódio de uma guerra que eu prevejo que seja longa e sangrenta. Os Coloniais lutaram durante um Milénio antes de serem derrotados. Agora é a nossa vez de lutar contra os Cylons... Vendo que todos estavam a prestar atenção ao que ele estava a dizer, o Major começou então a enunciar quais os passos que se iam tomar de seguida. COLÓNIA DE LAVOS-306, ALIANÇA TERRESTRE “- Líder Azul, daqui fala Vermelho Três. Está à escuta?” Kristiane Lockhart ouviu a voz repetir a mesma mensagens duas vezes, mas só acordou realmente quando o Vermelho Três lançou um assobio estridente. - Daqui Líder Azul, estou à escuta! Estou à escuta...já acordei...- respondeu Kristiane, pegando no rádio que estava no chão lamacento, ao seu lado e colocando na cabeça o capacete que lhe tinha servido de almofada enquanto descansava. “Desculpe lá por insistir, Líder Azul...- disse o se interlocutor, com um tom de voz sincero, o que provocou um sorriso em Kristiane. Se as circunstâncias fossem diferentes, ela gostaria de o conhecer pessoalmente, mas neste caso tinha apenas que se contentar com a voz dele. Sabia que ele era um piloto que tinha ficado sem o seu aparelho e que por isso se tinha oferecido para lutar com as forças terrestres. A Guarda Planetária tinha-lhe dado um rádio e uns binóculos, mandando-o depois para o topo de um edifício, com ordens para avisar sempre que os Cylons se aproximassem do último bastião de resistência em Port Arthur. - Presumo que não me tenha acordado só para me dar os bons dias, Vermelho Três. - gracejou ela, enquanto dava um pequeno pontapé no pé do soldado ao lado dela, acordando-o também e fazendo sinal para que este acordasse os outros ocupantes da trincheira.- Que se passa? “- Tenho movimento Cylon em todas as ruas à minha volta, Líder Azul.”- indicou o piloto, pausando por momentos. ”- Parece que é desta que eles vão fazer o grande ataque...” - Entendido, Vermelho Três...- Sem largar o rádio, ela ergueu-se até ao rebordo da trincheira e pegou nos binóculos que tinha ao pescoço com a mão direita, levando-os aos olhos. A trincheira onde o seu pelotão improvisado estava, tinha sido escavada no cimo de uma das colinas que dominava a estrada de acesso ao estádio de Port Arthur. A bióloga não tinha a certeza, mas podia jurar que tinha sido dali mesmo de onde tinha assistido com Anne ao discurso do Governador Planetário. E isso tinha acontecido apenas há três semanas atrás... “Tive duas semanas de treino militar, cinco horas de combate real e já posso ser considerada uma veterana! Se alguém me dissesse que isso era possível eu dizia-lhe que estava era maluco.”, pensou Kristiane, deixando a focagem automática dos binóculos funcionar. O único acesso que conduzia aquela estrada era um túnel que passava por debaixo de uma auto-estrada. Por sua vez, o acesso ao túnel fazia-se através de uma série de ruas que atravessavam zonas residenciais e de escritórios. O prédio onde o piloto estava era algures nessa última zona e os Cylons estavam a atravessá-la para chegarem ao túnel. - Vermelho Três, já conseguiu contactar mais alguém?- perguntou ela, fazendo um esforço para ignorar os hovercarros destruídos que adornavam a auto-estrada e os corpos carbonizados dos seus ocupantes. Muitas pessoas tinham sido apanhadas enquanto tentavam abandonar a cidade ou tentavam chegar ao abrigo que existia nos subterrâneos do estádio. Era nesse abrigo onde se encontravam cerca de seiscentas pessoas ( a maior parte delas ferida ou sem idade para combater, por serem muito novas ou muito velhas ), mais o que restava do Governo Planetário. Era aí também onde se encontrava Anne Lockhart, o que fazia com que a sua mãe tivesse um interesse pessoal em assegurar que nenhum Cylon passasse por aquela linha de defesa. “-Negativo, Líder Azul.”- respondeu o piloto.”- Para além de vocês, só tenho contacto com o Líder Verde e com o Vermelho Dois. De resto, mais ninguém está a utilizar a Rede de Defesa...” - Entendido.- disse simplesmente Kristiane. O Líder Verde era um Cabo que comandava o que restava de um outro pelotão da Guarda Planetária. As suas forças guarneciam uma outra trincheira, colocada de modo a proteger a entrada do estádio propriamente dita. Essa era também a posição para onde o pelotão dela devia recuar se os Cylons conseguissem atingir a trincheira onde estavam. “- Vou ver se consigo arranjar apoio aéreo, mas não prometo nada, ok?”, acrescentou o Vermelho Três: “- Gostava de vos ajudar mais, mas...” - Obrigado...- murmurou Kristiane, distraída pelo movimento que estava a ver nas ruas do outro lado da auto- estrada. O sol nascente reflectia-se cruelmente nas armaduras das dezenas de Centuriões que avançavam em fileiras cerradas na direcção da entrada do túnel. Baixando os binóculos, virou-se para os soldados que a acompanhavam perscrutando as suas caras. O medo era visível em todas elas, mas também era notório que nenhum deles iria fugir por causa disso. Já não havia nada a perder, pois os Cylons já tinham destruído tudo. - O ataque deve estar a começar...- disse ela, à laia de discurso. Sabia perfeitamente que não ia motivar ninguém com as suas palavras, mas achava que precisava de dizer algo.- Lembrem-se que nós somos a última linha de defesa daquela gente toda que está no Estádio. O outro pelotão está em pior estado que o nosso, por isso.... Não gastem munições, só rajadas curtas e no alvo, ok? Todos os soldados assentiram, retomando depois silenciosamente as suas posições no rebordo da trincheira. Os Cylons estavam a sair do túnel, espalhando-se numa linha de combate, tal como os exércitos da Antiguidade Terrestre faziam. Numa guerra moderna, tal manobra não tinha grande sentido, especialmente porque os tornava em alvos fáceis, mas a verdade é que o efeito era bastante intimidador. - Aquele aviso para gastarmos o mínimo de munições era especialmente para ti, Virgílio...- advertiu em voz baixa, Kristiane. O soldado ao lado dela lançou uma pequena gargalhada, não dizendo mais nada, pois ambos sabiam que só havia mais um carregador de plasma para a A-4T. A arma pesada ainda não tinha sido adoptada pela Guarda Planetária, mas Virgílio Ibanez, tinha retirado uma dos destroços de um transporte de tropas do Exército que tinha sido atingido por Raiders, andando com ela desde então, em vez da arma que lhe tinha sido atribuída pela Guarda, a H&K/Militech PF44, uma espingarda de assalto cujo design tinha quase 200 anos, mas que continuava a ser construída e distribuída a unidades de segunda linha. Quando Ibanez se havia apresentado no Estádio, com a massiva arma ao ombro, houvera algumas manifestações de inveja, entre os outros sobreviventes da Guarda, pois os flechettes da PF44 tinham-se revelado extremamente ineficazes contra os Cylons. A própria Kristiane tinha comprovado isso durante a emboscada que tinha morto a maior parte do seu pelotão. Apenas ela e dois outros soldados haviam escapado com vida do combate que durara cerca de 10 minutos. Sem nenhum tipo de armadura que parasse os tiros dos Cylons, os dez elementos da 2ª secção, 1º Pelotão do 1º Batalhão do Regimento de New Hope, tinham sido os primeiros a morrer, pois eram eles a vanguarda da coluna que se dirigia para apoiar o que restava do 4º Regimento, 36ª Divisão do Exército da Aliança. A estratégia dos Cylons tinha sido simples: depois de terem o controlo total dos céus da colónia, haviam bombardeado os principais centros habitacionais e as principais instalações militares, que no caso de New Hope eram os quartéis onde as tropas vindas da Terra se estavam a instalar e os arsenais onde a Guarda Planetária armazenava o seu equipamento. A seguir a isto, tinha-se dado um ataque terrestre. Os Cylons haviam aterrado e avançado na direcção das cidades, procurando os locais onde havia mais sobreviventes, capturando alguns e abatendo o outros. Quando o Exército contra-atacara, os Raiders haviam voltado, coordenando os seus bombardeamentos com os ataques por terra dos Centuriões, acabando por cercar os soldados Terrestres no que restava da zona industrial de Haven. Tudo isso tinha acontecido nas primeiras horas da invasão. Quando o Regimento de New Haven da Guarda Planetária se tinha finalmente organizado, tinha sido ordenado a todas as unidades que atacassem de imediato uma enorme formação de Centuriões que se estava a preparar para dizimar os sobreviventes do 4º Regimento. Enquanto avançara pelas ruas de Haven, Krisitiane Lockart não se conseguira concentrar em nada. A convocatória do Comando Central da Guarda, transmitida em todos os canais, tinha feito com que a sempre vigilante I.A. da sua casa a acordasse de imediato. Ela só tivera tempo de pegar no seu equipamento, acordar Anne e mandá-la para a casa dos vizinhos antes de se apresentar no que restava do Arsenal da sua área. O subúrbio onde viviam ainda não tinha sido muito atingido e por isso todos os membros do pelotão ao qual pertencia tinham aparecido, começando de imediato a organizar-se por secções. Apesar do edifício em si estar destruído, os bunkers subterrâneos onde as munições e as armas pesadas estavam armazenadas não tinham sido atingidos, o que lhes tinha dado algum alento. “Como nós estávamos enganado...”, pensou ela, enquanto encostava ainda mais a arma ao ombro e se concentrava na mira, tentando afastar do pensamento o que se tinha passado durante aquele massacre, mas não conseguindo evitar um calafrio. Sem que esperasse, sentiu uma mão pesada apertar-lhe levemente o ombro esquerdo, como que a confortar. - Não penses nisso agora. Precisamos de ti! - murmurou Ibanez, sem virar sequer a cabeça , enquanto mantinha a sua arma apoiada no rebordo da trincheira. Antes que ela pudesse responder, ele retirou a mão e agarrou a A-4T e lançou uma longa rajada, enquanto berrava: - Abram fogo!! A ordem repetiu-se por toda a trincheira e rapidamente o ar ficou cheio com o zumbido das PF44, fazendo jús a sua alcunha de “Abelha”. Kristiane olhou pela mira e ficou espantada pois os Cylons estavam muito mais perto do que ela esperava. No meio da linha que avançava sobre a trincheira, podiam-se ver alguns Centuriões caídos cujas armaduras ainda fumegavam, vítimas dos disparos de Virgílio. Mas esses 4 Cylons eram as únicas baixas que eles haviam sofrido até aquele momento. Todos os outros Centuriões atingidos pelas armas de flechettes continuavam a avançar metodicamente, sem abrir fogo. Por experiência própria, ela sabia que essa situação não iria durar muito mais tempo. Os Cylons apenas disparavam quando tinham a certeza de que iam atingir os seus alvos. - Concentrem o vosso fogo!! Atinjam aqueles que já estão danificados! - ordenou ela por cima do barulho das armas.- Passem a palavra!! Para exemplificar o que pretendia, deu uma palmada no capacete do soldado que estava no seu lado direito para lhe chamar a atenção e de seguida apontou para um Cylon que estava directamente à frente da posição deles e que já apresentava uma série de amolgadelas na sua armadura peitoral. Com uma calma deliberada, fez pontaria a essa zona e disparou uma primeira rajada curta. Apesar de maior parte dos tiros não terem penetrado, a verdade é que o Centurião havia cambaleado. O soldado rapidamente percebeu o que lhe tinha sido indicado e juntou o seu fogo ao de Krisitiane. “Talvez ainda haja alguma esperança!”, pensou ela quando o Cylon finalmente caiu e não se levantou mais. Embora soubesse que se estava a tentar enganar a si mesma, não podia tomar outra atitude. Desistir agora, seria o fim de tudo e os seus pensamentos dirigiram-se momentaneamente para todos os civis que se abrigavam no bunker. Um pouco por toda a trincheira os soldados tinham seguido o seu exemplo e, aos pares, concentravam os seus tiros em partes específicas dos mesmos alvos. O único que não se dava a esse trabalho era Virgílio, cuja arma conseguia perfurar um Cylon de um lado ao outro. Pelo menos enquanto a sua A- 4T tivesse munições... Parecendo novamente adivinhar os seus pensamentos, ele virou-se para Krisitiane e anunciou: - Já só tenho carga para mais dez tiros... Antes que ela pudesse responder, os Cylons abriram fogo e os primeiros gritos de dor começaram a fazer-se ouvir. Nessa altura, Kristiane Lockhart, deixou de se tentar enganar a si própria e admitiu que tudo estava perdido. Os alienígenas iam ganhar aquela batalha e só um milagre é que os poderia salvar. - CAPÍTULO 10 - PLUTÃO, ALIANÇA TERRESTRE BASE DE AMUDSEN A primeira coisa em que Adama reparou foi no silêncio. Dentro do campo de forças não se ouvia um único ruído. Na caverna onde a “Nave” se encontrava estava sempre omnipresente o barulho de maquinaria, especialmente o ranger metálico e o grunhir mecânico do enorme sistema de ventilação que enchia de ar toda aquela caverna no interior de Plutão, assim como a restante Base. No entanto agora não se ouvia nada! Adama só conseguia ouvir os pequenos barulhos feitos pela sua roupa e pela sua respiração. Ao pensar exactamente neste último ponto, apercebeu-se de outra coisa... O ar que estava a respirar era extremamente pesado e “tingido” com um cheiro que ele, como Guerreiro, conhecia perfeitamente. Era um cheiro que nunca se esquecia, era o cheiro da morte... Espalhados nas mais variadas posições, ao longo do perímetro do campo de forças, encontravam-se cerca de 20 corpos. A única coisa em comum é que todos se encontravam encostados ao campo, parecendo estar a descansar encostados a uma parede invisível. Adama sabia que aqueles restos mumificados pertenciam aos cientistas da Aliança que tinham ficado ali encerrados quando o campo de forças se tinha activado em 2105. Passados cerca de 176 anos (quase a mesma coisa em yahrens), os corpos encontravam-se mumificados sendo possível ainda ver na maioria dos seus rostos as expressões de sofrimento com que tinham acabado os seus dias. Segundo o que os Terrestres lhe tinham dito, os cientistas tinham demorado cerca de um mês a morrer, perante os olhares do restante pessoal da Base. Tinham sufocado lentamente, tentando até ao último minuto e até ao último resquício de força, forçar a passagem para o outro lado. Os seus companheiros também não tinham estado quietos e tinha- se tentado de tudo, numa primeira fase para quebrar o campo e numa última fase para se injectar ar lá dentro. Tudo tinha falhado e a única coisa que tinham descoberto com tudo isto é que nada passava pelo campo e que este se prolongava por vários metros por baixo de terra. No entanto, e no seguimento do raciocínio anterior, Adama tinha-se apercebido de uma coisa. Estava a respirar normalmente e conseguia sentir o cheiro dos corpos, o que queria dizer já havia ar dentro da redoma invisível. Lançando um olhar para trás, viu que o Doutor Wilker e a Doutora Karen batiam futilmente com os punhos no campo, fazendo-lhe sinal para voltar. Por momentos pensou em fazer isso, mas a sua curiosidade tinha que ser saciada. Desde sua visita ao Planeta dos Deuses que não se encontrava tão perto de artefactos Kobolianos. Fazendo um sinal de que tudo estava bem, avançou para junto da Nave, ansiando tocar na sua superfície. À medida que se aproximava, sentiu uma corrente de ar cada vez mais forte vinda do artefacto. Através de algum processo desconhecido, a “Nave” estava a encher o campo de forças com ar puro. “Espantoso”, pensou Adama, continuando a sua caminhada e não tirando os olhos da Pirâmide dourada que flutuava acima do solo, a alguma distância de si. Quanto mais se aproximava mais era evidente o facto de que havia algo a funcionar dentro do artefacto, pois o Comandante começou a sentir nos seus ossos uma estranha vibração. Parando por momentos, deixou-se invadir por essa sensação pois sentia que havia algo que lhe estava a escapar. Dando mais um passo em frente, sentiu a vibração a aumentar, começando agora a ser desconfortável. O Ankn que empunhava parecia ressoar com aquela vibração e, aos poucos, Adama sentiu o braço onde o segurava a ser forçado para cima. Sem que o pudesse evitar, e por mais que se esforçasse, o Ankn parecia ter vontade própria e o Comandante acabou por se ver obrigado a agarrá-lo com as duas mãos, esticando ambos os braços para à frente. Com um estrondo metálico, o símbolo voou das suas mãos e foi embater contra a face da Pirâmide que estava mais próxima, ficando aí preso. De seguida, e quase que imperceptivelmente, o Ankn começou a perder definição, começando a ser absorvido pela Pirâmide até desaparecer por completo. Nessa altura, a vibração parou e uma série de pequenos estalidos começaram a fazer-se ouvir vindos da direcção desta. Como que uma flor a desabrochar, a Pirâmide abriu-se a partir do topo. As suas quatro faces começaram a descer em direcção ao solo, enquanto que a sua base se elevava. Adama recuou alguns passos e olhou para trás, na direcção do grupo que o observava do outro lado do campo de forças. Todas as pessoas fitavam a cena com um ar de espanto e o Comandante rezou para que alguém tivesse tido a presença de espírito de pôr os equipamentos de gravação a funcionar. Aquele evento tinha que ser gravado para a posterioridade! Um pequeno estrondo anunciou que as faces da parede tinham chegado ao chão. Virando-se de novo para a Pirâmide, Adama viu que estas últimas formavam agora quatro rampas para o centro do artefacto e para o sarcófago que agora era visível. Antes de subir a rampa que tinha à sua frente, o Comandante dobrou-se e colocou a mão no metal dourado que tinha sob os seus pés. O metal era quente ao toque e parecia pulsar com uma vida própria. Esta observação, juntamente com as estranhas propriedades que o Ankh e a própria Pirâmide tinham mostrado, fizeram com que ele chegasse a uma conclusão que anunciou a si mesmo em voz baixa: - Oricalco...Os artefactos são feitos de Oricalco! Esse metal era mencionado no Livro dos Senhores de Kobol e era por causa disso conhecido como o “Metal dos Deuses”. Os poucos artefactos que restavam após o Êxodo de Kobol, tinham sido criteriosamente analisados pelos melhores cientistas das Doze Colónias, mas nunca se tinha conseguido descobrir maneira de o reproduzir ou sequer imitar. Só se tinha descoberto que o oricalco era uma variação do ouro, pois com o passar dos yahrens, as amostras haviam perdido todas as suas capacidades, voltando apenas a isso. Subindo lentamente a rampa, aproximou-se do artefacto que repousava, verticalmente, exactamente no meio da Pirâmide e que estava agora visível. O sarcófago parecia pulsar com uma luz interior que iluminava tudo à sua volta, mas à medida que Adama se aproximava, esta foi diminuindo de intensidade, acabando por se extinguir completamente. A tampa do sarcófago era transparente, deixando ver o seu ocupante – um homem com cerca de 120 yahrens, com longos cabelos brancos e uma barba a condizer. As suas mãos repousavam cruzadas sobre o peito, empunhando cada uma delas instrumentos que o Comandante não conseguia identificar, mas que de certeza estariam relacionados com o seu ofício de Navegador. O homem envergava uma espécie de curta túnica azul e umas calças do mesmo material, seguras à cintura com um cinto prateado bastante fino. As botas de cano alto que utilizava eram pretas e em tudo parecidas com aquelas que os actuais Guerreiros usavam. O lado esquerdo do colarinho da túnica ostentava uma pequena insígnia dourada com a forma de uma estrela. Num esforço para a ver melhor, Adama aproximou- se do sarcófago, colocando a mão no rebordo esquerdo da tampa. Ao tocar nessa zona, o material, que até então tinha sido transparente, começou a ficar opaco e três símbolos dourados surgiram na zona central da tampa, mais ao menos ao nível das mãos cruzadas do homem. Dando um passo para trás, o Comandante fitou estas novas aparições. Os símbolos eram Kobolianos, disso não havia dúvidas. Ele havia passado tempo sem conta a estudá-los e sabia o seu significado. O primeiro representava uma muralha ou o conceito de defesa, o segundo representava a abertura de algo e o último o fecho. Além destes símbolos, Adama reparou que um pequeno símbolo tinha ficado iluminado na zona do rebordo onde tinha tocado. Sem hesitar, carregou novamente nele e, tal como esperava, a tampa do sarcófago voltou ao normal quando este se apagou. Aproximando-se, viu que havia mais dois símbolos por debaixo daquele que tinha acabado de apagar. E que na parte superior do rebordo, perto da cabeça do homem, havia um símbolo enorme – um Ankn. Esticando-se um pouco, carregou nesse último. Tal como da primeira vez, assim que o símbolo se iluminou, a tampa tornou-se opaca, mas desta vez, surgiram uma série de frases em Koboliano Antigo: “- Que o Tempo guarde para Sempre o Corpo do Navegador das Estrelas Iraknis, Aquele que nos Deu o Planeta Terra” – leu Adama em voz alta, apercebendo-se de que eram as palavras que a Pirâmide ostentava nas suas faces. A frase repetiu-se mais algumas vezes, acabando por desaparecer e ser substituída por uma série de novos símbolos: “-Iraknis, Filho de Uknis e de Ira, Pai de Osis. Foste o Chefe da nossa Tribo, Pai de Todos Nós. Deste-nos uma Nova Vida mas Também a Morte. Que o Tempo não Esqueça.”- ao ler estas palavras, o Comandante sentiu um arrepio a percorrer o seu corpo. Aquela última parte parecia uma maldição. Pressionando o símbolo do Ankn de forma a desligar aquela mensagem, Adama perscrutou os outros. Decidindo-se por aquele que representava o conhecimento, ele esperou pacientemente que a tampa ficasse opaca. Desta vez, o que lhe surgiu na frente não foram pictogramas mas sim imagens de planetas e coordenadas astronómicas. O Comandante susteve a respiração quando percebeu o que tinha à sua frente. Os seus olhos traçaram a rota que a 13ª Tribo tinha tomado desde Kobol até à Terra. Na zona que representava o Sistema Solar, havia alguns planetas, para além da Terra, que ostentavam o pictograma de Casa ou refúgio. Comparando os planetas com os actuais mapas astronómicos Terrestres que tinha estudado, Adama identificou Plutão, a Lua e Marte como os locais onde os Kobolianos da 13ª Tribo se tinham também estabelecido...mas havia incongruências. Não só havia mais 2 planetas no mapa Koboliano, como também havia símbolos que representavam Naves em órbita de Marte e da Terra. - Tenho que falar nisto à Doutora Karen, disse ele em voz baixa, parando depois para ponderar uma ideia que lhe tinha surgido. Quanto mais pensava, mais se convencia que estava certo. Desligando o mapa astronómico, pressionou o símbolo inicial e na tampa do sarcófago surgiram os 3 primeiros símbolos que tinha visto. O símbolo de muralha estava mais iluminado que os outros, o que apenas confirmou a sua suspeita. Com um simples toque, abriu de novo ao mundo a “Nave”, acabando com um isolamento de 176 yahrens. A CAMINHO DE LAVOS-306 A Estrela-de-Batalha Galactica estava agora acompanhada por todo o Grupo de Resposta Rápida da Marinha da Aliança, constituído por duas fragatas de mísseis guiados – a Yokusuka e a Norfolk, três cruzadores AEGIS – o Mayport, o London e o Kyto, albergando este último o posto de comando do Capitão Agasha Gennai. A completar esta força, havia ainda o Porta-Naves Ligeiro Riga. Para trás tinha ficado apenas a nave de reabastecimento Setúbal, que se encontrava agora a caminho da Base Naval de Lavos-305. Pelos padrões Terrestres, esta força era considerada bastante poderosa, mas Apollo não conseguia chegar a essa conclusão. Sabia que estava a ser injusto pois estava a vê-la usando padrões Coloniais e o resultado não era agradável, para dizer o mínimo. Fazendo girar a sua cadeira, não se surpreendeu ao encontrar o Coronel Tigh a fitá-lo. - As naves deles não parecem muito impressionantes, pois não? - perguntou este último, parecendo adivinhar o que passava pela cabeça do seu Comandante. - O meu pai sempre me avisou que não se deve julgar nada pela sua aparência, mas neste caso, acho que não o consigo evitar. - desabou o outro homem, apontando para o ecrã de um dos computadores do seu Posto de Comando e para as representações esquemáticas que aí apareciam. - Os cruzadores deles têm o tamanho de uma das nossas baías de lançamento... – apontou ele. – E se juntarmos quatro delas e as pusermos duas lado a lado e em cima uma das outras, temos o tamanho do Porta-Naves deles... E nem sequer vou falar da blindagem das naves ou... - Ou do facto de que o Porta-Naves deles só tem 20 caças e que esses são tão lentos que os nossos Vipers conseguem ultrapassá-los sem sequer utilizar os turbos... – interrompeu Tigh, pondo um ar um pouco exasperado. – Acredita que já ouvi todos esses comentários e muitos outros. Toda a gente diz isso, mas estão todos a esquecer-se de uma coisa simples... - Qual? - perguntou Apollo, não percebendo onde é que o Coronel queria chegar. - É que apesar de todas as suas...fraquezas...digamos assim... os Terrestres estão dispostos a ajudar-nos. - É claro que o fazem. A vida deles também está em perigo! Os Cylons não fazem distinção entre tipos de Humanos, para eles todos devem ser exterminados... - Mas mesmo assim, eles podiam ter-nos mandado embora. - continuou Tigh, pousando o seu sempre presente computador pessoal. – Sabes perfeitamente que após a Batalha da Cintura, a Frota era incapaz de resistir a um ataque dos Terrestres. Se eles quisessem, podiam ter-nos destruído ou podiam-nos ter expulso do território deles. - Mas não o fizeram...pelo contrário, acolheram-nos... - E agora estão a ajudar-nos! - concluiu Tigh. - E não devemos pensar em mais nada para além disso. Eles têm os seus problemas e os seus defeitos, mas nós também os temos... - Sim... – disse Apollo, pensativamente. Esta última frase era mais que verdadeira. Agora que a Frota tinha encontrado um refúgio, os problemas entre os Coloniais tinham ressurgido de uma maneira brutal. Os antigos ódios e as rivalidades étnicas, coisas que Apollo havia julgado esquecidas, tinham-se espalhado por Éden como um incêndio em escala planetária. Agora que a ameaça dos Cylons não parecia tão imediata, as pessoas tinham voltado aos seus velhos hábitos. - Por falar em defeitos, Coronel Tigh... – disse ele, lembrando-se de algo que Boomer lhe havia mostrado recentemente. – Parece que os seus amigos dos “Filhos do Espaço” estão a espalhar-se por todas as cidades de Éden.... O Coronel fitou Apollo e na sua cara estampou-se momentaneamente um ar de fúria, algo que o Comandante nunca havia visto. Baixando-se na direcção dele, Tigh disse em voz baixa. - O Comandante pode não acreditar, mas acho que essa... seita... ainda nos vai trazer muitos problemas. - Sire Digor, diz que eles são perfeitamente inofensivos... – respondeu Apollo num tom defensivo. – E não tenho razão para duvidar dele. - Tal como disse que os elementos que defendiam que a Frota devia continuar a viagem foram todos afastados, certo? - Exactamente. - confirmou Apollo, tentando relembrar- se do que Athena havia dito a si e a Boomer sobre esse assunto. - Presumo que o Boomer tenha mais informações sobre esse assunto, mas pelos vistos esses elementos foram realmente afastados. - Não Apollo! Aí é que toda a gente está enganada. – com estas palavras, Tigh debruçou-se ainda mais sobre os monitores do Posto de Comando, virando-se de costas para a Ponte. - Na última vez que estivemos em Éden, fui à Academia falar com o Coronel Croft para escolhermos os melhores Cadetes para prestarem serviço na Galactica e durante essa conversa, imaginas o que descobri? Perante o abanar negativo, o Coronel continuou: - Descobri que na Academia, mais de 40% do Cadetes são Filhos das Estrelas. Isso por si só não é um grande problema. Mas sabes o que é pior? O pior é que mais de metade dos professores também o são! - O quê? Não fazia a mínima ideia disso... – confessou Apollo - E a maior parte desses professores são aqueles membros que foram expulsos dos Filhos por serem os mais radicais. - Como é que eles foram aí parar... – começou o Comandante a perguntar, mas chegando rapidamente a uma conclusão. – Foram nomeados pelo Concílio? - Exactamente. Como sabes, cada um dos seus 12 Membros pode nomear cinco professores. É a maneira que se arranjou de cada uma das Colónias ter os seus costumes representados na Academia. - respondeu Tigh, encolhendo os ombros, como que a mostrar que não ligava grande importância a tal arranjo. - O problema é que a maioria dos membros do Concílio só se importa em ter mais poder e se para o terem tiverem de vender as suas nomeações a Sire Digor... - Que por acaso anda com a Presidente do Concílio e é o mentor dos Filhos do Espaço... – completou Apollo. - Exactamente...O Coronel Croft tem andando a vigia-los constantemente, mas a verdade é que não pode fazer muito. As credenciais de segurança passadas pelo Concílio sobrepõem-se a tudo aquilo que ele possa descobrir sobre eles. - Quando voltarmos a Éden, temos que ter uma reunião com o Boomer e o Croft. Acho que realmente temos que avaliar melhor toda esta situação. - afirmou o Comandante, fitando o Coronel. - E acho que está na altura de ter uma conversa muito séria com a minha irmã. Tigh pareceu desanuviar e o seu semblante tornou-se um pouco menos carregado. Por momentos pensou em contar a Apollo porque é que tinha tanto ódio às seitas em geral e especialmente aquela, mas decidiu não o fazer. As lembranças do que acontecera ainda o atormentavam e ele tinha esperança que com o passar dos yahrens elas se tornassem menos dolorosas. A única coisa que lhe dava algum ânimo no meio daquelas lembranças era o facto de que a maior parte dos culpados tinham pago pelos seus crimes. - Estou ansioso por essa reunião. - acabou ele por dizer, pegando novamente no seu computador pessoal e consultando- o antes de continuar. - Mas para já temos apenas que nos concentrar no que vamos encontrar em Lavos-306. Com estas palavras, entraram em contacto com a Kyto , de forma a discutirem as melhores tácticas para enfrentar uma força Cylon que lhes era largamente superior. A tarefa que tinham pela frente não era fácil... COLÓNIA DE ÉDEN, ALIANÇA TERRESTRE SEDE DO COMANDO PLANETÁRIO DE DEFESA - Vocês têm cinco microns para me explicarem o que vos aconteceu antes que vos mande para o Presídio!!! – vociferou o Major Boomer, fitando primeiro Sheba e depois apontando para Starbuck antes de acrescentar: - E nada de piadas! - Acredita que não vais ouvir uma única piada da minha boca... – garantiu-lhe Starbuck, parecendo afundar-se mais na cadeira onde estava. Esta afirmação, tão contrária à maneira de ser do seu amigo, juntamente com o ar cansado de ambos, fez com que Boomer se acalmasse. Respirando fundo, continuou: - Desculpem se estou exaltado, mas vocês desapareceram num dos momentos mais cruciais da nossa história recente. Os Cylons voltaram e na altura em que precisávamos dos nossos melhores Guerreiros, vocês saem do planeta sem dizerem nada a ninguém! Tudo bem que vocês saíram 40 centons antes do alerta, mas, especialmente no teu caso Sheba, o Regulamento de Serviço dos Guerreiros é bem explicito quanto diz que... - “...o Guerreiro nunca deve estar a mais de 20 centons de viagem da sua Estrela-de-Batalha”. – concluiu por ele Sheba. Endireitando-se na cadeira e debruçando-se para a frente, na direcção da secretária de Boomer, ela continuou a falar: - Acredita que sei tudo isso e que nunca me passou pela cabeça escapar aos meus deveres, mas se abandonamos o planeta foi porque foi mesmo preciso... - Isto tem alguma coisa a ver com aquela mulher que vos acompanhou até ao espaçoporto? - Sim...- respondeu Starbuck. - Tem tudo a haver com ela. Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, Sheba acrescentou: - Como sabes que nos encontramos com uma mulher? Boomer hesitou por momentos, mas perante o olhar cada vez mais gélido da Capitã, não teve outra solução senão confessar que os dois Guerreiros haviam sido seguidos por membros da Secção Regional do Comando Planetário. - Estavam-nos a seguir aos dois ou só a mim? - perguntou a mulher, adivinhando qual é que seria a resposta. - Só a ti Sheba. - acabou ele por confessar, apresando- se no entanto a acrescentar.- Mas não penses que foi o Apollo que me pediu para fazer isso! Ele só me disse que tinhas vindo aqui para Éden em licença...Eu é que decidi descobrir por onde andavas. A Capitã pareceu aceitar essa explicação ou pelo menos não se mostrou mais interessada em explorar o assunto. Aproveitando essa aberta, Boomer desviou a conversa: - Mas afinal o que é que vos aconteceu? Quem era aquela mulher? Sheba e Starbuck entreolharam-se, parecendo estar a escolher quem é que iria contar a história. Finalmente, perante o aceno afirmativo da Guerreira, Starbuck começou a contar tudo o que tinha acontecido, desde o encontro com Lilith até às revelações de Maraxus, um dos sobreviventes da Pegasus. - E se achas esta parte estranha, espera até ouvires esta...- avisou ele, antes de continuar a contar a Boomer a parte em que a voz de Boxey o tinha aconselhado a “seguir o seu destino”. Assim que terminou a narração daquilo porque tinham passado, Starbuck acendeu um dos seus fumarellos e recostou- se na cadeira, brincando nervosamente com a caixa de fósforos. O Major respirou fundo e fitou os seus dois amigos, reflectindo no que tinha acabado de ouvir. Os aspectos fantásticos da história não o assustavam, pois toda a Frota tinha estado sobre o “domínio” do Conde Iblis. Ele próprio havia estado sobre o controle directo do Conde durante um jogo de Triad em que a sua equipa havia derrotado a equipa de Apollo e Starbuck. Além dos mais, as pessoas que estavam a contar a história eram de confiança e era óbvio que não estavam a inventar nada. - A única conclusão óbvia a que posso chegar é que este aparecimento das forças de Iblis não é fortuito! - acabou Boomer por dizer, cruzando as mãos sobre a secretária e fitando o Sheba e Starbuck. - Era coincidência a mais ele aparecer exactamente na altura em que os Cylons atacaram... - Eu nem quero pensar em qual é que vai ser a reacção do Apollo quando souber que o seu inimigo voltou...- suspirou Starbuck, endireitando-se na cadeira e pegando no cinzeiro que até aquela data tinha servido simplesmente de adorno à mesa do seu amigo. Vendo que Boomer o fitava, acrescento rapidamente: - É para não deitar cinza na tua linda carpete! - Isso foi uma piada? - perguntou rapidamente o Major, não podendo deixar de sorrir. Apesar da gravidade da situação e das novidades, era óbvio que Starbuck estava agora um pouco mais relaxado. – Pensei que não ia ouvir nenhuma piada da tua boca... Starbuck respondeu com um simples encolher de ombros, como que deixando ao critério do seu amigo se o que tinha dito era uma piada ou não. A verdade é que agora que ele e Sheba haviam contado o que se havia passado com Lilith, sentia-se mais relaxado. Não mais seguro, mas apenas mais relaxado. Seguro não podia estar, pois ainda se lembrava do momento em que a face de Lilith se havia “modificado”, deixando ver uma caveira de olhos azuis. - Se o Apollo vai ficar preocupado, imaginem como é que eu estou! - retorquiu de repente Sheba, tremendo de raiva.- Para além de saber que o Conde voltou para me atormentar a vida, ainda fico a saber que o meu pai pode estar vivo!! E que a Pegasus, a nave onde vivi a maior parte da minha vida, escapou aos Cylons em Gamorray!! A raiva lentamente deu lugar ao desespero e, numa das raras ocasiões em que consentia tal acto, a Capitã começou a chorar, enterrando o seu rosto entre as mãos. Sentiu que o estava a fazer como nunca tinha feito antes, embora uma parte cínica do seu íntimo lhe dissesse que já só o havia feito em 3 ocasiões: quando a sua mãe morrera, aquando do desaparecimento do seu pai em Gamorray e na altura em que se tinha apercebido que Apollo ainda se encontrava agarrado ao fantasma de Serina. Starbuck e Boomer entreolharam-se, mas nenhum conseguiu arranjar coragem para reconfortar a Capitã. Havia certas coisas que nem um Guerreiro sabia enfrentar e uma delas era uma mulher a chorar. No entanto, aos poucos, Sheba foi parando de chorar, parecendo ganhar ânimo e acabando por levantar a cabeça de novo, enfrentado os olhares dos seus amigos. Tinha um pedido de desculpas para lhes dar por aquela “quebra”, mas o que viu nos olhares deles mostrou-lhe que tal não era necessário. Eles também sabiam que havia ocasiões em que chorar bom...Era uma maneira como outra qualquer de expressar sentimentos e eram exactamente esses sentimentos que separavam a raça Humana dos Cylons e de seres como Iblis. - Em relação à Pegasus...- começou Boomer a dizer, consultando as notas que tinha tomado durante o relato de Sheba e Starbuck. - Vou ver se me informo junto da Aliança sobre essa tal Área 52... Para já é a única coisa que me passa pela cabeça fazer. Talvez eles tenham algumas respostas. - Sim, faz isso...- disse a capitã, com os olhos como que iluminados pelo fogo de uma raiva que a estava a encher de novo.- Fiquei com a ideia de que os Terrestres estão envolvidos nisto tudo de uma maneira que nós nem sequer imaginamos...Não achas, Starbuck? - Pois...- afirmou o interpelado, mexendo-se na cadeira, como que esta subitamente se tivesse tornado desconfortável. Apagando a beata do seu fumarello no cinzeiro, acendeu de seguida outro e continuou: - Antes do mais, não nos podemos esquecer que Iblis é também o Senhor das Mentiras... - Mas tens que admitir que durante a sua estadia com a Frota, houve coisas que ele prometeu e que se realizaram, nomeadamente a captura de Baltar! – insistiu Sheba. - Não te esperava ver a fazer de advogada do Diabo.- interrompeu o Major e esta sua simples frase de duplo sentido, fez com que eles soltassem algumas gargalhadas nervosas, aliviando um pouco a tensão que se fazia sentir na sala. - Admito que ele disse algumas verdades...-acabou Starbuck por concordar.- Mas também não nos podemos esquecer que as suas verdades eram sempre escudadas por meias-verdades e puras mentiras.... Pousando o fumarello no cinzeiro e pousando este em cima da secretária de Boomer, continuou o seu raciocínio: - Mas neste caso acho que estamos perante um verdade ou no mínimo uma semi-verdade... Há uma série de coisas nos Terrestres, especialmente na Aliança, que não batem certo... Levantando as mãos, o Major interrompeu-o e disse: - Tem calma Starbuck, pensa bem no que vais dizer... Não te esqueças que eles são neste momento os nossos principais aliados contra os Cylons... Para espanto de Sheba e do ex-Guerreiro, enquanto dizia isto Boomer explicou-lhes em linguagem gestual que a sala estava sob escuta e pediu-lhes que aguardassem alguns microns. Ambos assinalaram que tinham percebido o aviso e desviaram as conversas para outros assuntos enquanto o Major retirava algo parecido com um isqueiro de uma das gavetas da sua secretária e o colocava sobre o tampo. A única coisa visível na face metálica do objecto era um botão que ele pressionou levemente. Com um pequeno silvo, o aparelho começou a abrir- se até ficar numa espécie de cruz metálica, começando depois a girar e a elevar-se, ficando estacionário a cerca de 2 metrons acima da secretaria. - Muito bem...Temos agora cinco centons para falar...- avisou Boomer, activando o seu cronómetro e fitando os seus amigos. - Essa tua...ventoinha...presumo que seja um dispositivo anti-escuta...- concluiu Starbuck, pegando novamente no cinzeiro e no respectivo fumarello que aí estava visto que a deslocação de ar provocado pelo dispositivo já tinha posto a ponta deste a brilhar com intensidade e era um desperdício deixar um fumarello acabar a sua vida de uma forma tão indigna. - Foi um pequeno presente que recebi assim que assumi a função de Comandante Planetário.- afirmou o Major com um sorriso.- É feito na Celestra e basicamente detecta e cancela todos os dispositivos de escuta num pequeno raio. É pena que só dê para pouco tempo. Sheba desviou o olhar do aparelho que pairava sobre as suas cabeças e perguntou: - Mas então, sabes que tens escutas no teu escritório... - Exactamente - E sabes quem é que as instalou? - Não faço a mínima ideia....- confessou Boomer, encolhendo os ombros.- Os suspeitos são imensos: A Aliança, a Corporação, empresas interessadas na nossa tecnologia, etc... É por isso que não posso deixar de tomar precauções... - De certeza que é possível analisar um desses dispositivos de escuta e descobrir a sua origem... – disse Starbuck, parecendo depois lembrar-se de algo.- Acho que até chegamos a ter algumas aulas sobre isso lá na Academia...mas não tenho a certeza...não me lembro muito dos meus anos como Cadete... “Imagino porquê...”, pensou Sheba que, sendo alguns yahrens mais nova que o ex-Guerreiro, tinha frequentado a Academia posteriormente e ouvido todas as histórias que se contavam sobre ele e as suas loucuras. - Starbuck... – começou Boomer a dizer, lançando um suspiro de resignação.- ...Acredita que já tentamos, mas a verdade é que não os conseguimos analisar devidamente... Os Terrestres utilizam nanotecnologia muito mais avançada que a nossa para construir os seus aparelhos. Conseguimos detectá- los e neutralizá-los e mais nada. Encolhendo os ombros, prosseguiu: - É por isso que tenho que fazer isto sempre que quero falar sobre algum assunto mais delicado...Eles ficam a saber que falei sobre algo, mas não podem saber sobre o quê... - O que eu ia dizer não era assim tão delicado...- resmungou Starbuck.- Acho que todas as pessoas com um mínimo de cabeça se apercebem que há coisas nesta história toda que estão mal contadas! E uma dessas coisas é mesmo óbvia... - Deixa-me adivinhar! Estás a falar do facto de que a maior parte dos militares da Aliança fala Koboliano como nós?- lançou a Capitã. Havia muitas pessoas na Frota que também tinham dúvidas sobre como é que isso era possível. - Exactamente...- respondeu o ex-Guerreiro. - Se fumasses acabavas de ganhar um fumarello. Sorrindo e, pela primeira vez desde que aquela conversa começara, parecendo totalmente descontraído, continuou: - Essa é apenas uma das questões... Sempre que perguntamos alguma coisa sobre isso, eles dizem-nos que os seus nanocomputadores já estão programados com a nossa linguagem e que eles só precisam de os consultar para falar Koboliano... - A mim já me explicaram que o programa linguístico foi desenvolvido por uma I.A. do Comando Militar da Aliança Terrestre.- interveio Boomer, procurando um ficheiro no computador.- Tenho algures para aqui a morada do local onde esse programa foi desenvolvido.. - Aposto que sim...- disse Starbuck, pousando o cinzeiro na mesa.- ...mas há um pequeno pormenor que deita abaixo toda essa história da I.A. e coisas que tal. - Qual?- perguntou Sheba, tentando adivinhar qual seria. - Lembram-se quando aquele Almirante Terrestres aterrou na Galactica? - Sim...- responderam ambos os Guerreiros, esforçando- se para se lembrarem bem do momento. No caso da Capitã esta só tinha visto as gravações feitas pela IFB pois na altura ela estava inconsciente, no Centro Médico. Mas tinha visto as gravações inúmeras vezes, pois a IFB, que nunca tinha sido conhecida pela sua boa programação, tinha repetido essa transmissão vezes sem fim. - O Almirante Terrestre falou em Koboliano...- revelou Starbuck, sorrindo.- Não se lembram? As pessoas que estavam ao meu lado até disseram que ele tinha um sotaque horrível...Mas a principal questão é como é que ele sabia Koboliano se aquela era a primeira vez que nos encontravam? -“Sejam bem-vindos aos domínios da Terra. Os vossos irmãos saúdam-vos!” – disse Boomer, relembrando-se agora claramente das palavras do Almirante Kane Dawnson, palavras essas que tinham marcado o fim da viagem da Frota. O que o ex-Guerreiro tinha dito era perfeitamente lógico... - Acho que ficamos todos tão contentes com a descoberta e com facto de termos escapado aos Cylons que ninguém pensou nisso!- concluiu Sheba, virando-se para Starbuck.- E o programa linguístico ainda não podia existir, pois tal como tu disseste, era a primeira vez que nos estávamos a encontrar com os Terrestres... - O programa podia existir...- advertiu Boomer, pensando furiosamente.- Talvez numa versão mais primitiva, o que podia explicar aquele sotaque horrível... - Pois...- acrescentou Sheba. - Os Terrestres agora falam com uma pronúncia e um sotaque que os faz parecer originários das Colónias... - Mas para o programa existir, eles tinham que ter tido acesso a alguém que falasse Koboliano...- continuou o Major, não notando sequer a interrupção. Esta sua capacidade de se abstrair de tudo e continuar com os seus raciocínios tinha sido um dos factores que tinha contribuído para que fosse escolhido para o cargo de Comandante Planetário, cargo esse que normalmente era ocupado por político. Aquela era como uma segunda vocação para ele, logo a seguir a ser um Guerreiro. Boomer ainda tinha estado na Academia como instrutor mas a sua capacidade para controlar e “enfrentar” salas cheias de Cadetes adolescente e irrequietos tinha-se revelado inferior às suas capacidades para resolver complexos problemas teóricos.- E como sabemos, a nossa língua não é fácil de falar, por isso ou tiveram que ter acesso a um grupo grande de pessoas durante pouco tempo ou a algumas pessoas durante muito tempo... - O que nos leva de volta ao facto de que eles já tinham que ter contacto com alguém que falasse Koboliano. - concluiu Starbuck quase que triunfalmente, acendendo outro fumarello e gesticulando com ele - ...se juntarmos a isso o que Lilith nós contou, não esquecendo no entanto o facto de que Iblis ser quem é, só podemos ficar com a ideia de que a Aliança tem muito que nos explicar! - Definitivamente, vou ter que falar com alguém da Aliança...- afirmou o Major, na mesma altura em que o dispositivo anti-escuta começou a emitir um sinal de aviso e a descer vagarosamente na direcção do tampo da secretária. Perante isto ele disse:- Bem, parece que vamos ter que mudar de assunto... - Agora que já te explicamos o que aconteceu, podes dizer-nos o que se passa com os Cylons? Qual é o ponto da situação?- perguntou a Capitã assim que o aparelho pousou. - E o que é podemos fazer para ajudar...- acrescentou Starbuck, fazendo com que os seus amigos olhassem para ele, visto que ele já tinha saído do Serviço. Perante esses olhares, ele levantou as mãos na direcção deles e gesticulando furiosamente continuou: - Esperem, esperem... Isto não quer dizer que eu quero voltar ao activo... Só que se calhar vocês podem precisar dos meus...talentos... digamos assim e nesse caso não me importo de ajudar! - Pois...- disse simplesmente Boomer sorrindo, tal como Sheba. Consultando depois o computador, viu algo que o fez franzir o sobrolho: - Por acaso, os teus “talentos” vão ser precisos, Starbuck... Com estas palavras, activou o sistema de projecção existente na secretária e o ar por si desta ficou subitamente cheio de estrelas. Uma pequena legenda no canto da imagem dizia que o local de origem da transmissão era o Estaleiro Espacial 1, um dos 13 existentes em órbita de Calisto, a lua de Éden. A câmara de onde ela estava a ter origem estava colocada sobre uma das estruturas superiores de suporte do estaleiro e mostrava por isso a parte da frente da Estrela-de- Batalha que aí estava a ser construída. E em frente desta, com o espaço como fundo, encontrava-se agora uma Nave-Base, a girar sobre si mesma, num movimento que lhe era característico. - Estou a ver que desta vez, eles cumpriram a promessa...- murmurou Boomer para si mesmo, não reparando no olhar de pânico trocado entre Starbuck e Sheba ao verem uma nave Cylon tão perto de Éden. Empurrando a cadeira para trás e pondo-se em pé, ele levantou-se e dirigindo-se para a porta do escritório, anunciou: - Vamos! Calisto está à nossa espera! - Boomer!!- disse Starbuck, enquanto se levantava da cadeira e apontava para a imagem não percebendo a descontracção do Major .- Aquilo ali é uma Nave-Base! Está uma Nave-Base em órbita de Éden! Onde é que estão os nossos Esquadrões de Def... - Starbuck... - murmurou a Capitã, puxando-lhe uma manga para lhe chamar a atenção e apontando também ela para a imagem. Vendo que não conseguia desta maneira, beliscou-o, o que fez com que ele finalmente olhasse para ela: - Starbuck...Aquilo é nosso! A Nave-Base é nossa! A câmara mostrava agora uma das faces da nave Cylon onde se podia ver uma enorme placa com o nome de Taurus, um dos heróis mitológicos de Caprica. Atrás dela a câmara começava também a captar uma autêntica procissão de naves Terrestres de todos os tamanhos. A 2ª Frota da Aliança tinha sido destacada para acompanhar a entrega da Nave-Base aos Coloniais e com o subsequente ataque surpresa dos Cylons, tinha recebido novas ordens, tendo agora como objectivo ajudar qualquer esforço feito pelas autoridades de Éden no sentido de deter o avanço dos alienígenas. - Vamos lá Starbuck! - incitou Boomer, fazendo sinal para que o seu amigo se despachasse. – Fecha a boca e anda dai…quero ver se eles conseguiram fazer as modificações que eu pedi! - Que modificações? - perguntou Sheba, enquanto que Starbuck saía do seu estado letárgico e se dirigia para a porta, seguindo a Capitã, mas sem deixar de apagar o seu fumarello no cinzeiro da mesa e acendendo um novo. - Acreditem que esta Nave-Base vai trazer centenas de surpresas aos Cylons! - respondeu o Major, enquanto se dirigia para a saída do seu escritório, perante o olhar atónito da sua secretária e dos Fuzileiros que estavam de guarda. - CAPÍTULO 11 - ALGURES NO SISTEMA PLANETÁRIO DE LAVOS-304 Ignorando tudo à sua volta, o Comandante Hans Zimmer voltou a rever os planos na sua mente. Mais uma vez as vantagens de ter uma I.A. ao seu serviço fizeram-se sentir, especialmente na facilidade com que conseguia simular todas as movimentações que as naves sob o seu comando iriam ter que fazer. Era uma boa maneira de se aperceber dos problemas que poderiam surgir. Se tudo corresse bem, os Cylons em órbita de Lavos-304 iriam ser apanhados de surpresa… “É só uma pena que também não consigas simular a resposta dos Cylons…”, subvocalizou ele para Eva. “Com o acumular de dados resultantes dos combates com eles, de certeza de que dentro em breve a Marinha irá criar uma programa de simulação!”, afirmou a I.A., cheia de confiança. “Não sei se isso será bom…”, ponderou Zimmer. “Os programas de simulação da Marinha costumam ser bastante bem desenvolvidos e cumprem todos os parâmetros” “Eu não estava a falar dos programas…”, disse o Comandante, interrompendo o discurso de louvor que Eva parecia ir fazer. - “O que acho é que esses dados vão ser acumulados à custa de imensas vidas…” A I.A. pareceu ponderar essa declaração por momentos, antes que finalmente dizer: “Quanto a isso nada podemos fazer! Os Cylons invadiram o nosso território, a Marinha e a Humanidade têm o dever de os combater! Todo o sangue derramado por nós será por uma boa causa…” Estas palavras apanharam Zimmer de surpresa. Não tanto pelo facto de que a I.A. estar a defender valores como o dever, mas sim por esta se considerar Humana. Em toda a sua experiência com Eva, nunca a tinha ouvido usar esse termo. “Eva…tu consideras-te Humana?”, acabou ele por perguntar, um pouco a medo. A implementação das I.A. na Marinha ainda era recente e não havia por isso um modo padrão de interagir com elas. Tanto quanto sabia, Eva podia levar a mal a questão… O riso cristalino que lhe encheu a mente pô-lo um pouco mais à vontade, mas mesmo assim como que pressentiu alguma tensão na voz da I.A. “É claro que me considero Humana…Afinal de contas, as minhas redes neurais têm como base tecido vivo de origem Humana. Acho que, nem que seja só por isso, me posso considerar Humana!” O Comandante decidiu que o melhor seria não insistir naquele rumo e pediu para que Eva contactasse os Comandantes das outras naves, de forma a acertarem os últimos pormenores. Mas mesmo no decorrer da reunião virtual com os seus contrapartes aquela estranha conversa não lhe saia da cabeça. Talvez o melhor fosse avisar o Alto-Comando da Marinha sobre aquelas ideias que Eva parecia ter… E se todas as I.A. se considerassem Humanas? Não ligando ao arrepio que este último pensamento lhe trouxe, Zimmer deu a ordem para que o seu plano fosse posto em prática. Dentro de alguns minutos iria descobrir se o risco que estavam a correr valeria a pena ou não… EM ÓRBITA DE LAVOS-304 O Primeiro-Centurião fez girar o seu trono assim que detectou um Centurião a dirigir-se na sua direcção e enquanto que o seu Segundo cérebro lhe relembrava que apenas tinham passado 5 sectons desde que ele próprio fizera aquele género de serviço. - O teu relatório, Centurião! - ordenou ele. - Os nossos sensores detectaram naves Humanas nos limites deste sistema estelar. Pelas características detectadas, há 90% de certeza de que as naves não são Coloniais. O Segundo cérebro do Primeiro-Centurião ligou-se de imediato ao banco de dados central da Nave-Base e analisou os dados que o Centurião tinha acabado de anunciar, aumentando para 99% a certeza em relação à identidade das naves em questão. Embora não sentisse a necessidade de fazer nada para mudar a situação, o oficial Cylon percebia que este sistema de castas cerebrais impedia em muito o bom funcionamento militar da Aliança Cylon. Um Cylon detentor de um Terceiro Cérebro ou um Cylon I-L estavam em permanente contacto com as maciças bases de dados existentes nas Naves-Base e em alguns casos, com a própria Base Central em Cylon, o que lhes permitia reagir muito rapidamente a todas as situações. Podiam ter acesso a cerca de cinquenta fontes de informação diferentes e processar toda essa informação em tempo real. Uma informação como a que tinha acabado de receber seria transmitida directamente para o Terceiro Cérebro e analisada em microns, mas como ele era apenas um Primeiro-Centurião, tinha que vir um Centurião, da Ponte, transmiti-la. E em muitos casos, eram esses microns que decidiam uma vitória ou uma derrota. Mas não lhe competia a ele, como Primeiro-Centurião, pôr em questão as directivas que faziam parte da Programação- Base de todos os Cylons. Tinha sido essa Programação que lhes tinha permitido subjugar os seus criadores e transformar uma raça decadente e frágil no pináculo máximo da civilização. Cada Cylon sabia desde do nascimento o seu lugar na sociedade e todas as mudanças dentro desta eram cuidadosamente planeadas. Ele tinha sido contemplado com um Segundo Cérebro porque algures na Base Central o seu número de série havia surgido na lista dos escolhidos para receber esse melhoramento. E no entanto, ao recebe-lo havia sentido algo que nunca tinha sentido até então… uma espécie de “orgulho” por ter sido escolhido. Provavelmente essa “emoção” vinha incluída na programação do cérebro cibernético que complementava agora o seu outro cérebro natural. E nesse exacto micron, o Primeiro- Centurião estava a sentir novamente esse “orgulho”. Quando o seu Segundo Cérebro se havia ligado à base de dados, havia notado que o I-L que normalmente se sentava no trono onde ele estava agora já tinha acedido aos dados recolhidos pelos sensores e não havia feito nada. Sendo assim, o mérito de responder à ameaça seria todo do Primeiro Centurião…e isso deixava-o “orgulhoso”… - Centurião! Manda recolher todos os caças que ainda estão na superfície menos os da nossa Nave-Base. Todas as outras Naves-Base devem recolher a totalidade dos caças e vaivéns. Todos os Centuriões que estão em terra devem no entanto continuar com as suas missões. Serão recolhidas noutra altura! – ordenou ele, não se apercebendo que estava apenas a seguir as directrizes que Lúcifer tinha deixado para a altura em que estabelecesse contacto com naves Humanas. Mas fazia-o de uma maneira “orgulhosa”, julgando que as ordens tinham partido dele… - Pelo seu Comando! - respondeu o Centurião, a quem não interessava nada quem é que tinha ordenado o quê. O seu superior tinha-lhe dado uma ordem. Seria cumprida, pois tal era a vontade do Líder Imperial e da sua Programação. Em pouco menos de um centon os Raiders começaram a regressar às suas respectivas Nave-Base, deixando para trás o planeta de Lavos-304 e o que restava dos seus habitantes e defensores. Lúcifer permitiu-se deixar escapar um pequeno suspiro de alívio quando se apercebeu que as Naves-Base se estavam a movimentar e a seguir o seu plano. Durante alguns microns tinha pensado que o Primeiro-Centurião que tinha deixado na Ponte não ia seguir a programação que lhe tinha sido deixada. Não seria a primeira vez que tal coisa acontecia. Era o que dava quando se confiava em organismos que não eram totalmente cibernéticos… Normalmente o Cylon I-L não teria deixado a Ponte nas mãos de um subordinado mas desta vez a sua curiosidade tinha levado a melhor. Tinha que ver ao vivo estes novos Humanos que tinham capturado! Pelos vistos as histórias que Baltar contava sobre Adama e a sua obsessão pela 13ª Tribo sempre tinham alguma veracidade. As celas da Nave-Base estavam cheias de Humanos que não eram provenientes das Colónias! Deslizando rapidamente para o sector onde estava instalada a Sonda Mental, Lúcifer desligou os seus sensores áudio. Desta vez a táctica que tantas vezes utilizara para se abstrair dos longos monólogos de Baltar servia apenas para não ouvir os gritos de dor lançados pelas gargantas dos Humanos que estavam a ser sondados. As duas primeiras vivissecções e autópsias tinham mostrado que os cérebros eram idênticos em ambas as espécies Humanas e por isso a Sonda era aplicável nas mesmas zonas. A Sonda tinha levado algum tempo a ser calibrada para aqueles padrões mentais, mas “voluntários” não faltavam. E depois disso, tinha-se feito a análise de todo o material recolhido na superfície do planeta. A quantidade de material didáctico que tinha sido trazido para a Nave-Base tinha sido analisado e rapidamente se tinha conseguido estabelecer qual a língua mais comum utilizada por estes Humanos. Depois desse importante passo era só questão de deixar a Sonda quebrar as defesas mentais e fazer as perguntas na altura certa. Ignorando a sua “consciência”, que o queria fazer olhar para a pilha de corpos que se encontrava no canto mais afastado da sala, Lúcifer dirigiu-se para o Humano que estava suspenso no ar, directamente por baixo dos raios vermelhos da Sonda Mental. As descargas eléctricas que partiam desta percorriam o corpo do Humano de cima a baixo e faziam com que ele se contorcesse violentamente, lutando contra os campos de força invisíveis que o mantinham no lugar. Pequenas coronas de energia dançavam em volta da sua cabeça e dos seus olhos, que estavam totalmente revirados para cima, mostrando apenas a sua parte branca. - Basta, Centurião! – ordenou Lúcifer, ligando os seus receptores áudio mas correndo um programa para abafar os gritos dos outros prisioneiros. O Humano que tinha perante si nem sequer tinha forças suficiente para levantar a cabeça, deixando-o tombar sobre o peito. A sua farda outrora branca estava agora manchada de vermelho, do sangue que lhe corria livremente do nariz e da sua boca. Mesmo sem ter conhecimentos médicos, era óbvio para o Cylon I-L que este prisioneiro não iria durar muito… - Pelo seu Comando! – respondeu automaticamente o soldado Cylon, desligando a máquina e aguardando nova ordem, enquanto que o seu superior se aproximava do Humano. A “consciência” de Lúcifer dizia-lhe que ainda bem que ele não possuía sistemas olfactivos pois senão seria certamente avassalado pelo cheiro a medo, o cheiro a pura e simples miséria que saia da vítima da tortura, misturando-se com outros cheiros naturais mas também eles pouco agradáveis. - Comandante… – começou o Cylon I-L a dizer em Inglês Padrão, utilizando os programas de tradução que estavam a ser desenvolvidos num dos laboratórios da Nave- Base. Provavelmente ainda estariam cheios de erros, mas também o que ele queria perguntar não era nada complexo. Vendo que não obtinha reacção do homem, Lúcifer repetiu: - Comandante! Esta segunda tentativa pareceu surtir resultados, visto que o Humano voltou a cabeça na sua direcção e fitou-o com dois olhos raiados de sangue. Pendurada no que restava da sua camisa estava uma placa que o identificava como “Comandante John Silver”. Ele tinha visto toda a tripulação e passageiros do voo LL-24 serem torturados, esperando sempre pela sua vez com um misto de terror e expectativa. Aterrorizado porque sabia que poucos tinham voltado dos interrogatórios que os Cylons faziam, mas expectante pois no seu íntimo esperava que a morte viesse cedo e o libertasse de todo aquele sofrimento… - Comandante, preciso que confirme as coordenadas da Base da Marinha em Lavos-305. - disse o Cylon I-L, recitando depois as coordenadas e esperando por uma resposta. John ainda pensou em mentir, mas sabia que neste momento tal era impossível. A máquina a que tinha estado exposto tinha feito algo ao seu cérebro. Por mais que tentasse, não conseguia mentir. O simples esforço de pensar sequer em mentir fazia-o contorcer-se de dor contras os campos que o mantinham preso. - Sim… – acabou ele por dizer, espantando-se com o facto de ainda conseguir falar, apesar de sentir a garganta como que em carne viva devido às horas que tinha passado a gritar em pura agonia. – São essas as coordenadas. Satisfeito com a resposta, Lúcifer deu meia volta sem mais demoras e dirigiu-se para a saída. O Humano só tinha servido para confirmar a 100% que a Base era naquele sítio. Todos os outros indícios recolhidos: mapas, programas de navegação estelar, etc.… indicavam que a Marinha realmente tinha uma Base em órbita de Lavos-305 mas o Cylon I-L não queria arriscar. - Espere! - suplicou de repente o Humano, nas suas costas. Antes que conseguisse sequer sair pela porta fora e ignorar o que tinha ouvido, a sua “consciência” travou-o, bloqueando mecanicamente os rolamentos nas plantas dos seus pés. Ponderando a sanidade da sua programação, programação essa que lhe tinha dado a ideia de criar aquele subprograma para servir de “consciência” e assim perceber melhor os Humanos, Lúcifer disse em voz alta: - Estou a ouvir, Humano. - Que é que nos vai acontecer?! - perguntou John, mas emendando rapidamente. – Com “nós” quero dizer, todos os que somos prisioneiros aqui nesta nave! O Cylon analisou a questão por microns. Embora a sua consciência lhe indicasse que o que iria dizer a seguir era moralmente errado, a verdade é que o Líder Imperial era a força suprema do Império e todas as suas ordens deviam ser cumpridas. Mesmo que envolvessem o Genocídio de toda uma raça… - Vocês vão morrer. É o destino da vossa raça! – acabou ele por anunciar, notando que a sua “consciência” lhe tida modulado a voz para dar a ideia de que lhe custava dizer aquilo O Édito de Extermínio da Raça Humana será levado até ao fim! Antes que o Humano dissesse algo, Lúcifer deslizou para fora da sala da Sonda Mental e ao longo do corredor. Por momentos podia jurar que tinha ouvido o Humano dizer “Obrigado”, mas o mais certo era ter imaginado tal coisa, pois os seus sensores auditivos estavam de novo em modo normal e a captar todo o som ambiente. No meio dos berros, era pouco provável que tivesse realmente ouvido algo… A chegada era sempre o pior momento dos saltos hiperespaciais. Quando o salto começava, os segundos pareciam tornar-se em horas e todo o tempo ficava lento, até ao ponto em que tudo parecia preso em âmbar. Mas quando se chegava ao destino, o tempo parecia vingar-se e em segundos tudo acelerava, causando a impressão que se acabava de ver um filme a alta velocidade. Era por isso que poucas pessoas conseguiam manter os seus estômagos no sítio durante os saltos. Só o pessoal da Marinha com muita experiência de saltos ou com uma grande força de vontade é normalmente conseguia resistir aos enjoos provocados por essa viagem… “Felizmente que sou daqueles com força de vontade…” – pensou o Comandante Hans Zimmer para si mesmo, antes de subvocalizar para Eva: “Qual o estado do resto das naves?” “Todas as naves fizeram o salto dentro dos parâmetros! O desvio foi de apenas 0.1 em relação ao esperado!” “Quanto tempo falta até aos nossos sistemas voltarem ao normal?” “Dentro de 10 segundos, todos os sistemas devem estar no verde. O mesmo tempo é estimado para o resto das naves, com um desvio de 4 ou 5 segundos”, assegurou-lhe Eva. É claro que esses 10 segundos seriam dos mais dolorosos da sua vida. Se tudo corresse conforme o planeado, as naves Terrestres teriam saltado para o mais perto possível da órbita de Lavos-304. Normalmente não se fazia saltos para locais tão perto de poços gravitacionais mas, desta vez, todos tinham concordado que valia a pena arriscar. - Onde é que está o inimigo, Sr. McCallum? - perguntou ele assim que Eva o avisou de que todos os sistemas já estavam a funcionar. Antes de saltar tinha passado o seu comando para o C.I.C. e estava a utilizar a oportunidade para avaliar a reacção dos seus subordinados. Os oficiais que prestavam serviço no Centro de Informação de Combate tinham que ser tão ou mesmo mais eficientes do que os oficiais da Ponte Principal. O facto de só serem chamados a actuar quando a Ponte Secundária era activada não queria dizer nada. Além do mais, assim que Zimmer tinha passado para lá, o Centro de Informação de Combate tinha deixado de ser a Ponte Secundária e passado a ser a Principal do cruzador T.D.F. Berlin. E todos os homens e mulheres sob o seu comando, sabiam que ele era rigoroso em tudo o que fazia, por vezes até demais… - Capitão, estou a detectar quatro Naves-Base a afastarem-se… – começou o Primeiro-Tenente Pat McCallum a dizer, “disparando” de seguida as coordenadas que os Cylons estavam a seguir. Eva projectou na mente de Zimmer um mapa uns segundos antes do Tenente fazer o mesmo, mas para um dos monitores dispostos em frente da cadeira do Comandante e que substituíam o tanque holográfico existente na Ponte Principal. Analisando os dados que lhe acabavam de fornecer, Zimmer viu que o plano parecia estar a funcionar. Pelo menos essa parte...agora só faltava o resto. - Tenente Saunders, qual o estado dos motores de salto? – inquiriu o Comandante, fazendo um esforço para não reparar no nervosismo que o era bem aparente no mais novo oficial da T.D.F. Berlim. Recém-saído da Academia da Marinha, o Tenente tinha-se apresentado ao serviço no cruzador dias antes deste partir para a sua patrulha na Cintura, substituindo o Primeiro-Tenente responsável pela secção de Engenharia, visto que esse oficial tinha sido morto numa luta de rua durante a última estadia do cruzador em Lavos-305. Zimmer sentir-se-ia melhor com um oficial mais velho no cargo, mas a verdade é que o Almirantado havia mandado Saunders com as mais altas recomendações. Ele não sabia se isso seria bom ou não. Normalmente, essas “alta recomendações” eram um sinónimo de que o visado era simplesmente o familiar de alguém importante a quem o Almirantado estava a fazer um favor. Até agora o Tenente tinha passado no escrutínio de Hans, embora fosse notório que o jovem oficial estava sempre extremamente nervoso. Mas isso não o impedia de cumprir o seu dever e isso era o que interessava ao Comandante. O dever estava acima de tudo… Essa era a grande conclusão a que Hans tinha chegado e era esse o fio condutor da sua vida. Só a própria morte é que o podia impedir de cumprir o seu dever. Acreditava nisso com todas as forças do seu ser. Mas no seu âmago, sabia que toda esta rigidez era apenas um reflexo dos seus erros no passado. Ou melhor dizendo, de um só erro… mas um erro que o tinha marcado para sempre e que tinha destruído uma vida para todo o sempre… - Capitão? - perguntou a medo o Tenente Saunders, ao ver que o seu superior não tinha esboçado nenhuma reacção às estimativas que tinha acabado de dar. - Desculpe Tenente…estava a rever outros dados. - acabou Hans por dizer, voltando a encerrar aquelas amargas recordações no sítio mais “fundo” da sua mente e rezando para que os pesadelos não o atormentassem da próxima vez que dormisse. Pigarreando, pediu. - Se não se importa de repetir? - Sim senhor! - começou Mike Saunder a dizer, aproveitando para verificar os instrumentos que tinha à sua frente e actualizar a estimativa. - Os geradores estão a funcionar a toda a velocidade. Dentro de cinco minutos devemos ter carga suficiente para saltar novamente! - Ainda bem. – assentiu o Comandante, dirigindo-se depois novamente para o responsável pela Navegação e Sensores, o Primeiro-Tenente McCallum: - Os Cylons mantêm- se no mesmo rumo? - Não, Capitão. Pararam. Devem ter-se apercebido de que já não estamos na zona para onde iam. - E saberão onde estamos agora? - Pelas minhas estimativas, não! - disse McCallum, observando os seus instrumentos, não fosse o diabo tecê-las. - O poço gravitacional do planeta deve interferir nos sensores deles. “Tal como o Almirantado previa! Os programas de simulação estão correctos”, lembrou-lhe Eva. Acenando com a cabeça mentalmente, o Comandante virou-se então para a responsável pelo Armamento, a Segunda- Tenente Rachel Bart. Esta fitava-o exibindo um pequeno sorriso. Confiança era algo que não faltava a Rachel. Sempre tinha sido esse o seu maior defeito, embora ela o visse como uma virtude. Nunca tinha cometido nenhum erro na sua carreira e não seria agora que iria começar. - Sra. Bart, o plano de tiro já está pronto? – perguntou o Comandante, ignorando o sorriso da mulher. - Sim, Capitão! As coordenadas estão inseridas e os tubos carregados. Aguardamos a ordem de disparo! - Ao meu sinal – disse ele, enquanto pedia a Eva para verificar os cálculos da Segunda-Tenente. Apesar dos torpedos que iriam ser lançados estarem armados com ogivas nucleares, não era necessário passar pelo processo de autorização, visto que os Protocolos de Emergência permitiam tal quebra dos procedimentos. Assim que recebeu a confirmação da I.A., deu luz verde ao lançamento: - Fogo! - Tubos 1 e 2 disparados! – anunciou Rachel, entrando num modo quase mecânico, mas sempre sem deixar de sorrir. Carregando nos botões seguinte, anunciou: - Tubos 3 e 4 disparados. Todos os tubos disparados! Torpedos a caminho e a funcionarem a 100%! - Navegação? - entoou Zimmer simplesmente. - Capitão, os Cylons continuam no mesmo sítio. Os sensores deles continuam a não nos detectar! - E os nossos torpedos? - Não há qualquer indicação que tenham sido detectados! O Comandante sabia que os torpedos, ao contrário dos mísseis trocavam a velocidade pela autonomia. Devido ao tamanho, os torpedos tinham uma enorme capacidade em termos de combustível, o que lhes permitia perseguir o seu alvo durante imenso tempo. Era por isso que eram usados sobretudo para atacar naves capitais. Era um desperdício dispara-los contra caças por exemplo, visto que os mesmos podiam manobrar muito mais rapidamente. Mas uma nave-capital já não conseguia desviar-se tão depressa… E era exactamente com essa falta de capacidade de manobra com que estavam a contar. “Eva, informa a Dublin que pode saltar!”, ordenou Hans assim que a Segunda-Tenente informou que os torpedos tinham parado nas coordenadas certas e estavam em modo de busca, acrescentando depois, quase como se uma formalidade se tratasse: “E transmite os meus desejos de boa sorte ao Capitão O’Brien!” “Sim, Capitão”, respondeu a I.A. enquanto projectava na mente dele um esquema com os passos a seguir no plano. Este até era muito simples: visto um ataque directo contra as Naves- Base era um suicídio, só havia um rumo a tomar – Atacar as naves Cylon de uma forma indirecta… Escudando-se sempre nos campos gravitacionais de Lavos-304 e das pequenas luas deste, as naves da Marinha (que possuíssem essa capacidade) disparariam os seus torpedos para uma certa área do espaço, deixando-os depois em busca passiva, com os seus sensores à espera de um contacto com certas características. Depois era só fazer com que os Cylons aproximassem as suas Naves-Base do centro da armadilha e as ogivas nucleares dos torpedos fariam o resto do serviço. Mal se tinham apercebido da proximidade das naves Humanas, os Cylons haviam-se descolado para o ponto onde elas haviam entrado no sistema, tal como as simulações haviam previsto. Os alienígenas tinham por hábito lançarem-se de “cabeça” ao encontro ao inimigo e por isso eram incapazes de resistir a ir investigar aquele contacto. E enquanto o faziam, as naves da Marinha tinham saltado para junto do planeta e agora estavam a espalhar as suas “prendas”. É claro que todo o plano dependia do pressuposto que os Cylons não iriam voltar para trás, para Lavos-304 antes que a armadilha estivesse preparada… “Capitão, todas as naves estão de volta.”, anunciou Eva, ao fim de uma tensa meia-hora,” Todos os torpedos estão em posição!” Hans informou o resto da tripulação do Centro de Informação de Combate mas, ao contrário do que tinha acontecido durante o primeiro confronto na Cintura dos Asteróides, desta vez não houve nenhuma explosão de regozijo por parte de ninguém. Todos sabiam que o pior ainda estava para vir. - Navegação! Qual a situação do inimigo? - Capitão! As Naves-Base separaram-se e estão a patrulhar a área onde entramos no sistema. Nenhuma delas nos detectou ou aos nossos torpedos!” – anunciou McCallum, escondendo o tremer das suas mãos agarrando as bordas da sua consola. Nunca fora uma pessoa religiosa, mas depois desta experiência tinha jurado que passaria a visitar um dos santuários da Igreja Unificada da Humanidade. Só o Ser Divino é que os podia estar a proteger! Tantos lançamentos de torpedos, tantos saltos hiperespaciais e os Cylons ainda não os haviam descoberto… Tinha que haver uma mão Divina por ali. - Armamento! Qual é a situação dos nossos torpedos? - perguntou Zimmer, subvocalizando logo de seguida para que Eva colocasse a mesma questão às restantes naves. Faltavam apenas mais um passo para que o plano se concretizasse! - Todos os torpedos encontram-se em posição e em modo passivo! – repetiu pela quinta vez em meia-hora a Segunda-Tenente Bart. Nesta altura o seu sorriso já era um bocado forçado e a tensão que o seu colega sentia também era partilhada por ela. “As outras naves anunciam a mesma coisa!”, informou-o a I.A., fechando as comunicações laser com o resto da força: “Podemos saltar assim que quisermos!” “Obrigado Eva”, agradeceu o Comandante, antes de anunciar em voz alta: - Está na hora de acabarmos com isto. Preparem-se para o salto hiperespacial! Virando-se especificamente para o Tenente Saunders, continuou: - Tenente, a nossa sobrevivência vai depender de si! Assim que saltarmos quero os motores a recarregarem para um novo salto! Desvie toda a energia para os geradores se tal for o caso! - Sim Capitão! – respondeu o jovem oficial, engolindo em seco e ensaiando mentalmente o que teria que fazer. Parecia sentir já debaixo dos seus dedos as teclas que teria que usar para redirigir todos os sistemas eléctricos da nave para os motores. As únicas partes a não serem afectadas seriam só o Centro de Informação de Combate, que possuía os seus próprios geradores, e o núcleo da I.A., que recebia a energia directamente dos reactores, através de canais próprios e independentes do resto da nave. Tudo o resto ficaria sem energia enquanto a recarga de emergência ocorresse. Mas isso era um pequeno preço a pagar para que a armadilha funcionasse na perfeição. Visto que o plano tinha sido na maior parte desenhado por Zimmer, ele achara por bem que a Berlim servisse de isco. Saunders não conseguiu evitar o arrepio que o percorreu da cabeça aos pés quando ouviu a contagem decrescente para o salto. Estava tão imerso nos seus pensamentos que nem sequer se tinha apercebido do primeiro aviso. Mas mesmo que isso tivesse acontecido, o aviso não serviria para mais nada a não ser aumentar o seu nervosismo. Era interessante perceber como o corpo Humano reagia quando o perigo se aproximava. Limpando o suor que lhe escorria pela testa e face, o Tenente voltou a pousar as mãos sobre a sua estação de trabalho e só teve tempo de engolir em seco quando o evento de horizonte engoliu a Berlim e a enviou bem para o meio do sistema planetário de Lavos-304. Lúcifer apercebeu-se de que tinham companhia assim que a nave Humana apareceu nos sensores da Nave-Base. Este súbito aparecimento resolveu o “mistério” que o tinha atormentado e ocupado os seus centros de processamento por largos centons: “Onde é que estariam os Humanos que tinham sido detectados!” É claro que esta nave solitária levantava outras questões. Os sensores tinham detectado muitas mais naves no contacto inicial… 5 ou 6 pelo menos. Aqui, diante dos “olhos” electrónicos da Nave-Base e do Cylon I-L, só estava uma nave, o que colocava a questão de onde é que estariam as outras? Além disso, uma análise rápida mostrava que a nave Humana estava totalmente sem energia, sendo por isso uma presa fácil para qualquer ataque… “Os Humanos, mesmo estes, são tudo menos estúpidos!”, avisou-o a sua “consciência”. Lúcifer agradeceu sarcasticamente ao seu programa por lhe estar a dar essa informação. Como se ele não conhecesse os Humanos… afinal não tinha sido ele a ter que suportar Baltar e todos os seus defeitos e clichés durante vários yahrens? Em algumas alturas, tinha chegado a ponderar se o Líder Imperial não lhe teria dado aquela missão de acompanhar Baltar como maneira de o manter afastado de Cylon e de todas as intrigas que existiam na capital do Império. Mesmo o mais incompetente dos Cylons I-L (o nome Espectro veio-lhe logo à memória, numa nova cortesia da sua “consciência”, que também lhe fez o “favor” de demonstrar que esse Cylon não era incompetente mas sim simplesmente malicioso) sabia que a verdadeira luta pelo poder dentro do Império estava a começar. O Líder Imperial sabia que tinha que manter os Cylons I- L ocupados nas periferias do Império e por isso tinha-lhes dado o comando da maior parte das forças militares que o estavam a expandir. Se calhar era por causa disso mesmo que Lúcifer, embora não estando aliado a nenhum das facções que lutava pelo poder, tinha sido enviado em busca dos últimos vestígios dos Coloniais… É claro que a descoberta destes outros Humanos ia complicar um bocado as coisas. Para já ainda não o tinha feito, mas dentro em breve, o Cylon I-L ver-se-ia obrigado a pedir reforços para combater esta nova “infecção”. E se os seus cálculos estivessem correctos, seria preciso um número considerável de Naves-Base e de outras naves de suporte para lancetar essa ferida. Pelo que sabia das disposições do resto das forças no Império, se lhe dessem todas as naves que pretendia pedir, ficaria com a frota mais poderosa de todas… Seria mesmo mais poderosa do que aquelas controladas pelos outros Cylons I-L que queriam usurpar o trono do Líder Imperial… - Interessante. - disse ele em voz alta perante este pensamento, atraindo a atenção de alguns dos Centuriões da Ponte. Felizmente a sua “consciência” manteve-se calada e nada disse. Se calhar também ela pensava que a chegada daquelas forças poderia mudar todo o balanço de poder no Império… “- Basta de pensamentos destes!” – ordenou Lúcifer a si mesmo, embora os arquivasse na sua memória protegida para futura referência. Assim que destruísse estes Humanos e a base da Marinha deles em Lavos-305, iria fazer uma exposição da situação ao Líder Imperial e pedir os tais reforços. Se calhar até nem os iria receber na quantidade pretendida, por isso o melhor era não especular. E para já, havia outros assuntos a tratar! Virando o trono para o Primeiro-Centurião, que tinha regressado ao seu lugar de supervisão da Ponte, disse: - Centurião! Quero aquela nave Humana capturada o mais intacta possível! Precisamos de analisar uma nave militar. - Pelo Seu Comando! Mas algo fez com que Lúcifer acrescentasse: - Espera Centurião! O Cylon dourado parou e deu meia-volta, virando-se novamente na direcção do trono onde o I-L pensava furiosamente, como se podia ver pela velocidade com que os circuitos no seu cérebro cónico piscavam. Os sensores da Nave- Base estavam a captar flutuações ligeiras de energia na nave Humana. A falta de energia não era total e isso podia ser indício de alguma armadilha. Tal como a sua “consciência” lhe tinha dito antes, os Humanos eram tudo menos estúpidos. Aquela nave não estava ali sozinha por nada… Amaldiçoando o facto de quase ter cometido um erro, Lúcifer acabou por chegar à conclusão que só havia algo a fazer: - Centurião! Mandem duas Naves-Base investigar. A outra Nave deve partir de imediato connosco para Lavos-305. Assim que capturarem a nave Humana, devem juntar-se a nós! - Pelo Seu Comando! Apesar destas palavras o Primeiro-Centurião não se virou de imediato para cumprir as ordens do Cylon I-L. Aliás este último reparou que a luz vermelha do visor do capacete do outro Cylon estava a movimentar-se fora do seu ritmo normal, estando muito mais acelerada, num sinal de que os dois cérebros do seu subordinado estavam a processar muita informação. Soltando um suspiro de resignação, Lúcifer repetiu as ordens mas para seu espanto, o outro Cylon não respondeu. Amaldiçoando os problemas dos implantes cibernéticos (os ditos “cérebros”), o Cylon I-L mandou o seu trono descer e preparou- se para ir ele próprio dar as ordens à Ponte. Mas mal as suas pernas tocaram o chão, a velocidade da luz vermelha do Primeiro-Centurião estabilizou e este virou-se para Lúcifer fitando-o. - Que se passa Centurião? - perguntou este último, satisfeito por saber que, fosse qual fosse o problema do seu subordinado, a programação deste ainda estava intacta, o que fazia com que não pudesse iniciar uma conversa com um superior sem que este lhe desse sinal para falar. - Acho que só devíamos enviar uma Nave-Base. A Base de Lavos-305 pode ser mais difícil de atacar se só tivermos duas Naves-Base. Lúcifer ainda pensou em lançar uma risada em voz alta, mas sabia que o Primeiro-Centurião não saberia apreciar essa atitude tão Humana. Quem se julgava ele para estar a duvidar de ordens de um superior? E além do mais, o Cylon dourado nem sequer se lembrava de que as Naves-Base que estavam a atacar a outra colónia, Lavos-306, também tinham ordens para se dirigirem para a Base da Marinha ao fim de determinado tempo. De certeza que essa informação não tinha ficado armazenada na memória do Primeiro-Centurião… - Centurião… – começou Lúcifer a dizer, optando por um tom de voz paciente. – A tua proposta é lógica com os dados que tens de momento. Mas vendo os dados que não tens, é ilógica. Ou seja… as minhas ordens são para cumprir! Entendido? - Pelo seu Comando! – acabou por dizer o outro Cylon, desta vez não hesitando. Se tinha ficado de alguma maneira “ofendido” pelas palavras de Lúcifer, não tinha maneira de expressar esse desagrado. O simples facto de ter feito aquela sugestão já tinha causado inúmeros erros nos seus cérebros… E, sem que soubesse, o Cylon I-L já o tinha marcado para reprogramação, pois era óbvio que algo estava a falhar na programação daquela Primeiro-Centurião. Ao fim de alguns microns, as Naves-Base separaram-se e tomaram os rumos que Lúcifer tinha escolhido. No final da rota das duas Naves-Base, a T.D.F. Berlim carregava os seus motores de salto enquanto que num raio de vários quilómetros em todas as direcções, 17 torpedos regressavam lentamente à vida, como que tubarões que sentiam o sangue de uma presa na água… NA SUPERFÍCIE DA COLÓNIA DE LAVOS-304 Roger Veckin só se apercebeu de que algo estava errado quando viu a sua sombra projectar-se à sua frente, como que se o Sol daquele planeta se tivesse subitamente erguido atrás das suas costa enquanto ele não estava a olhar. Olhando à sua volta, viu que todos os outros, quer soldados quer oficiais, tinham parado de fazer o que estavam a fazer e olhavam agora para o céu. Pousando também ele a caixa de munições que tinha nas mãos no chão, voltou-se para trás, dando de imediato graças ao Ser Supremo por os filtros da viseira da sua armadura estarem a funcionar pois a claridade, mesmo com eles, era quase insuportável. - Que é isto? - ouviu ele alguém perguntar no canal geral do Batalhão. - Se não soubesse, diria que são explosões nucleares no espaço! – respondeu outra pessoa, cuja voz fazia lembrar a do Tenente Paulo. A única coisa que impedia que Veckin tivesse a certeza da identidade era a distorção provocada pela codificação e descodificação que as mensagens, mesmo aquelas em tempo real, sofriam. Não foi preciso dizer mais nada para que uma série de gritos de alegria se começassem a fazer ouvir ao longo do terreno que albergava os bunkers de munições. Toda a gente tinha chegado à conclusão de que aquelas explosões nucleares só podiam ser de origem Terrestre. Algures no espaço em torno de Lavos-304, havia forças Terrestres em combate com os Cylons e isso só podia ser uma boa notícia. Por momentos todos se esqueceram dos amigos e camaradas que tinham perdido; das feridas; das atrocidades que tinham visto serem cometidas sobre os habitantes de Asher… Era altura de celebrar aquele pequeno triunfo! - Meus Senhores!!! – ouviu-se de repente no canal geral, trazendo toda a gente de volta à realidade. - Lembro-vos que as munições não se transportam sozinhas para os camiões! As palavras do Major Yu surtiram o efeito desejado e rapidamente tudo voltou ao normal. Os sargentos começaram a insultar os soldados, ordenando-lhes que se movessem mais depressa, os oficiais por sua vez insultavam os sargentos por estes terem deixado os soldados comemorar, esquecendo-se que todos o tinham feito, enquanto lançavam olhares de preocupação na direcção do Major, esperando que este os repreendesse a eles por terem falhado nos seus deveres. Mas Yu tinha outras coisas em que pensar. A sua principal preocupação era abandonar as imediações do espaçoporto o mais depressa possível. Aquele era um sítio óbvio para os Cylons atacarem outra vez… mas ele tinha arriscado trazer as suas forças até ali pois os alienígenas tinham apenas destruído as pistas do espaçoporto, deixando intactos os bunkers carregados de munições e outros materiais que existiam nas imediações. O mais provável era que os Cylons nem sequer soubessem que aquilo eram bunkers e os tivessem deixado em paz e ido procurar outros alvos. E todas aquelas munições iam fazer muita falta nos dias que se avizinhavam, disso o Major tinha a certeza. Antes de perderem o contacto com as câmaras de segurança em Asher, todos os oficiais tinham visto que uma força de Cylons se estava a deslocar para fora da cidade. E toda a gente sabia que para além de Asher, o único grande aglomerado de Humanos era no Quartel-General. Por muito que lhe tivesse custado, Yu teve que ordenar ao 1º Batalhão que abandonasse as instalações e se dispersasse pelas selvas do planeta. Tinha-lhe custado tomar tal decisão porque sabia que essa evacuação iria aumentar ainda mais o número de vítimas entre os seus homens, visto que os Raiders continuavam a patrulhar os céus sobre o Quartel, enchendo de raios laser tudo aquilo que se mexesse. Mas tinha que se correr esse risco… Yu não podia deixar os seus soldados ficarem ali, à espera que a força Cylon que vinha por terra os cercasse e atacasse. Mais valia fugir para a selva e a partir daí travar uma guerra de guerrilha. Algumas vozes ainda se tinham levantado contra este plano, dizendo que era uma simples cobardia fugir para o interior do planeta, abandonando os civis à sua sorte. O Major fizera ver que os civis que tinham conseguido escapar aos Cylons também havia fugido para a selva, preferindo enfrentar as dificuldades desta do que os invasores. O Exército não podia fazer nada para os ajudar. A única opção a tomar era mesmo dirigirem-se também eles para a selva e esperarem por reforços, aproveitando no entanto esse tempo para tornar a vida dos Cylons no planeta mais difícil. Era exactamente para essas acções de guerrilha que eles precisavam das munições armazenadas junto do espaçoporto. Cada uma das Companhias tinha uma área de operações definida e um local de aquartelamento seguro, a partir do qual deveriam lançar ataques às forças Cylons. Os objectivos a atacar eram poucos: os invasores tinham montado uma espécie de “acampamento” bem no centro da cidade de Asher e alguns postos de vigia na auto-estrada. Na cidade tinham-se limitado a aterrar uns vaivéns num dos principais jardins e era a partir dai que lançavam as suas operações. O reabastecimento dos Raiders era feito num vaivém maior que os outros, que em princípio seria alguma espécie de nave cisterna. Havia sempre pelo menos dez Cylons a vigiar esse local específico, enquanto que pelo resto do “acampamento” havia pelo menos mais vinte e cinto ciborgues em patrulha. Os postos de vigia na auto-estrada não passavam de um Raider aterrado bem no meio das faixas de rodagem e com cinco Cylons a complementarem a tripulação normal do caça… Esses seriam os primeiros alvos a serem atacados visto que três dos veículos que tinham escapado das oficinas subterrâneas tinham sido Hovertanques Pesados Deimos cujos sistemas de defesa aérea conseguiam tratar dos Raiders com alguma eficiência. Yu estava a guardá-los até ao momento certo para lança-los contra os postos Cylon na auto-estrada. A velocidade dos veículos, juntamente com a sua capacidade anti- aérea, faria com que os ataques fossem um sucesso. Eles poderiam destruir os postos de vigia e fugir de novo para a selva antes que os Cylons conseguissem lançar mais Raiders a partir de Asher. É claro que para que isso acontecesse, tinham que descobrir o paradeiro certo das falanges de Centuriões que se estavam a deslocar por terra. O Major presumia que eles iriam investigar o que restava do Quartel e talvez também o espaçoporto, em busca das forças Humanas que sabiam existir no planeta. Era por isso que era importante dispersar o Batalhão o mais rapidamente possível…era por isso que tinha lembrado aos seus soldados que havia coisas importantes a fazer. Quanto mais depressa tivessem as munições nos transportes mais depressa podiam sair dali… Sem que nada o fizesse esperar, um alarme fez-se ouvir nas frequências do Batalhão, deitando por terra todas as esperanças de que conseguissem fazer o transbordo do material em segurança: - ATENÇÃO! ATENÇÃO! INTRUSOS DETECTADOS! PERÍMETRO AÉREO DE SEGURANÇA DA BASE DAS FORÇAS ARMADAS TERRESTRES VIOLADO! PERÍMETRO AÉREO DE SEGURANÇA DA BASE DAS FORÇAS ARMADAS TERRESTRES VIOLADO! O aviso das Armas Automáticas de Defesa de Perímetro mostrou que algures debaixo do espaçoporto, a I.A. da zona ainda estava a funcionar e tinha capacidade sensorial suficiente para detectar os Raiders que se aproximavam. Em segundos as armas ergueram-se nos seus pedestais na direcção do céu, procurando os alvos que se aproximavam. - Vamos! Todos os camiões que já estão carregados arranquem! Todos vocês têm as vossas ordens! – berrou o Major Yu para o seu rádio, cortando todas as conversas que se faziam ouvir na rede. Empoleirando-se no beiral da porta do condutor do hovercamião mais próximo, fez sinal com as mãos para que todos se apressassem. Entretanto, as Armas Automáticas de Defesa começaram a disparar, enchendo o ar com um zumbido metálico e com autênticos jactos de cápsulas usadas que caíam no solo como que em câmara lenta. As rajadas das cinco armas cruzaram-se no exacto local onde um Raider surgiu, mesmo por cima das copas das árvores que ladeavam um dos lados dos bunkers, e como que mergulharam o caça numa chuva de faíscas e explosões, penetrando-o com centenas de balas perfurantes de urânio empobrecido. Num autêntico hino à competência dos seus construtores e aos metais de que era feito, o Raider ainda aguentou cerca de meio minuto desse dilúvio de metal antes de se desviar para o lado esquerdo, deitando fogo de várias secções, e acabando por se despenhar junto dos destroços do espaçoporto numa enorme explosão. Mas esse meio minuto fora o suficiente para o caça Cylon cuspir morte dos seus canhões, atingindo em cheio um dos camiões que já estava carregado de munições e projectando-o no ar, assim como os seus ocupantes e soldados que estavam nas redondezas. Os restantes soldados nem se deram ao trabalho de procurar por sobrevivente e preferiram seguir as últimas ordens do Major, arrancando com os transportes pelos trilhos que tinham aberto no meio da selva em busca de um local seguro. Indiferentes a todo este drama, as Armas Automáticas giravam nos seus pedestais, perscrutando o céu para tentarem arrancar daí os outros Raiders que se aproximavam. A guerra por Lavos-304 continuava, apesar da vitória Humana no espaço por cima do planeta… - Continua - (apenas lixo abaixo)